segunda-feira, 14 de outubro de 2002

Poesias - da série, até tu brutus...

A criação de um mundo (24/05/02)

Pode-se imaginar
Outras realidades

Pode-se conceber
Outras percepções

Pode-se inventar
O já criado em algo novo

Pode-se transformar
A nossa realidade cotidiana para termos a diversão

Pode-se desconstruir
Toda nossa fé nas certezas pré-fabricadas

Pode-se viver
No apartamento tátil, e morar numa casa, com vista e varandão

Pode-se jogar
Um jogo onde não há duelos ou emoções desperdiçadas

Pode-se se alimentar
Somente de água e ar fresco

Pode-se fotografar
Os troncos das árvores molhados pela chuva

Pode-se caminhar
Na noite com frio e fumaça na voz

Pode-se acreditar
Na mudança extrema e constante

Pode-se ter fé
Na diferença como forma de vida e sobrevivência

Pode-se valorizar
Na criação, no gênesis, no nada e no tudo, num instante e no seguinte [também



O telefone mudo (28/05/02)

O telefone
Não tocou
Novamente

E eu que
Não esperava
Uma declaração de amor,
Uma namorada escondida,
Ou uma fada madrinha

Uma voz que
Seria reta e
Desconfortável

Com sons que poderiam
Ser muitos
Mas o pesar
Seria o mesmo

O tom infeliz
Várias oitavas
Abaixo do normal

A letra
Não importaria
E nem entenderia
Só a marcha fúnebre
Me chamaria


Durante o recital
A atmosfera de luto
Os olhos inchados
E a voz embargada

É questão de minutos ou dias
Para o telefone tocar.








Ela (14/06/02)

Se me olhassem
Com olhares
Além da compaixão

Se quisessem me
Segurar no colo
Por mais tempo

Se ousassem enfrentar
As suas bases afundadas
No solo

Se levantassem as mãos
E acariciassem

Se deixassem chegar perto
Ou permitissem entrar nas suas
Vidas, mais uma vez
Ou apenas olhar dentro de você

Se me autorizassem
A conhece-la

Se mexessem
Nas minhas vísceras
Ou brincassem de colar
Pedaços da porcelana

Se me convidassem
Ou apontassem a rua entre
Os dois morros
E o cume de ambos

Se houvesse
Alguma possibilidade,

Me avisariam?







A outra (18/09/02)

Quem agrada a outra?

Se penso e discuto
Quer mais instinto
Se falo a verdade
Quer que diga: eu minto

Se sou delicado
Quer que seja ignorante
Se apenas afirmo
Quer que eu cante

Qualquer atitude
É a errada
Quando reclamo,
Diz que é mal amada

Se a toco
Pede distância
Fala que dá
Vômito ou ânsia

Mas como sei
Que ela me quer?
Nem conheço assim
Essa mulher.

Fala que
Apenas quer curtir
Tenho medo
De que queira partir

Susto ou saudade
Da solidão?
A dúvida bate a porta
E foge a razão








Remexo o passado (27/09/02)

Descubro
Escondo
Conheço
Gosto
Molho meus lábios
Me assusto
Justo
Digo a verdade
Explode
Morde
Arranca um pedaço
Fecha a cara
Me liga
Eu ligo
Peço colo
Eu quero
Brigo
Vale a pena
Pergunto
Respondo
Duvido
Bate à porta
Surpresa
Não planeja
E aporta
Balança
Desafia
Modifica
Fica
Um abraço
Um braço
Um laço
Um maço
Fumaça
Sobe
Morre nos dedos
Ledo
Ledo engano
Gana
Anna.




A minha loucura

A minha loucura
É a forma de sobrevivência
O que os outros acham?
Basta de conveniência

Querem minha
Expulsão do asilo
Dos normais
Tudo bem.
Tratam-nos apenas
Como racionais

Decidem minha
Exposição ao
Ridículo
Há muito
Tempo engoli
Meu orgulho

Hoje, tenho noção
Da minha estatura
E do impacto no chão
De pedra dura

Não, não
Sou mais que mediano
O mundo é que
Mergulhou no pântano

Sei minha posição
Na estrada:
Insignificância e
Longa jornada

Porém,
Como sobrevivo?
Sem comida
Casaco, teto ou livro?

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