segunda-feira, 24 de fevereiro de 2003

Meninas

Meus amigos subiram e eu fiquei sentado à mesa com as meninas. Todas de biquínis rodeavam a piscina com cervejas nas mãos. Na minha mesa, sempre estavam três ou quatro.

Sente aqui do meu lado – disse uma de rosto redondo e cabelos louros pintados.

É que eu gosto de ficar em pé.

Mel, ele está com vergonha da gente – uma morena baixinha risonha para a loura.

Deve ser.

Não. Não é isso.

Que horas são? – uma morena com cara de cavalo perguntou para a mesa.

Quase quatro – a morena risonha respondeu.

Está quase fechando – disse uma ao meu lado que só comia gelo.

Vou sentar aqui.

Agora ele sentou – a loura – você vai ter que esperar seus amigos?

É né. Eu estou de carona com um deles.

Você está com aqueles três que subiram? – a cara de cavalo.

Tô.

Quer beber alguma coisa? – a risonha.

Não obrigado.

Mel, Débora, Cris, dá uma entradinha aqui – era o barman de uma mini discoteca logo atrás da minha cabeça.

Não quero ir não – respondeu a loura – diz que eu tô fechada para balanço – e riu. A cara de cavalo, a risonha e a que comia gelo levantaram. A primeira a e última foram para dentro da boate improvisada, onde só tocava pagode da pior qualidade.

Você pode recusar? – me intriguei e perguntei para a loura, a única que ficou na mesa.
Posso.

Eu pensava que você era quase obrigada a ir com qualquer um.

Não, que isso. – a risonha voltou com um cigarro na mão – me dá um trago?

Toma esse aqui – e entregou um para a loura – imagina quando tem um daqueles caras que você sabe que fede.

Porque quando são garotos assim, como você, bonitinho, limpinho...

Eu não sou limpinho – as duas riram.

Chega aqui cada cara.

Então quer dizer que vocês escolhem com quem sobem ou não?

Na verdade, nós não queremos fazer com ninguém – a risonha concorda balançando a cabeça e rindo. Deu uma pausa – mas a gente escolhe. – e se vira para a risonha no momento que a cara de cavalo e a que comia gelo voltam para a mesa – Que horas são?

Cinco para as quatro.

Perguntei para ele – a que comia gelo ao meu lado conversava com a cara de cavalo – quer o programa? Vamos subir então. E tu sabe, a mão não parava quieta.

Um octópode.

Ãh?

Um polvo – expliquei.

Isso. O cara falava e metia a mão. Não era no peito só não, era mão naquilo.

E aquilo na mão – comentei, mas percebi que tinha sido completamente dispensável a minha vontade de parecer a vontade ali.

Será que o Márcio já fechou o portão? – a loira pergunta.

Eu vou ser expulso daqui?

Não. Acho que não.

Não, você pode ficar aqui esperando seus amigos. Basta dizer isso para eles – a risonha me explicou.

A cara de cavalo se levanta e vai na janela do bar. Pede um cigarro. A que come gelo passa por ela para ir ao banheiro e puxa as duas alcinhas que seguram a parte de baixo do biquíni. A peça cai, as duas riem e se xingam carinhosamente.

Tem uma churrasqueira ali atrás, dá para fazer um churrasco aqui?

Dá – a loura.

Que que eu tenho que fazer?

Traz só a carne e o carvão.

Vem semana que vem – diz a risonha.

É, por que você não vem semana que vem com seus amigos? – a loura.

Eles são muito engraçados – a risonha.

Vocês não viram nada. Eu conheço esses caras há um tempo. Eles nem são os mais engraçados do nosso grupo de amigos. Se eu trouxesse todo mundo aqui vocês iam morrer de tanto rir.

As pessoas começam a sair. Algumas meninas sobem sozinhas para irem dormir. O som é desligado. Uns sujeitos passam por mim só de roupão. É uma cena curiosa, eu sentado de bermuda e camiseta, meninas de biquíni em minha volta e vários homens de hobby.

Temos que subir – diz a loura.

Tadinho, ele vai ficar sozinho – a risonha.

Não, não há problema. Fiquem tranqüilas – elas se levantam vem na minha direção me dão beijos carinhosos no rosto – eu não sei ainda o nome de vocês.

Mel – diz a loura.

Débora – diz a risonha – e o seu?

Todas elas riram e subiram acenando para mim. Fiquei sentado na cadeira de plástico enquanto alguns garotos, de no máximo 25 anos, arrumavam a área da piscina e da pequena boate atrás de mim. Enfileiravam uma cadeira em cima da outra para economizar espaço. E eu sentado, no meio daquele silêncio, como uma peça fora do contexto, sozinho num lugar onde não deveria estar, pensava em todas a conversa que tinha tido com as meninas. Meninas simpáticas, pensava. Mas é claro, elas têm que ser simpáticas, elas vivem disso. Se não forem simpáticas não conseguem nada. Havia me surpreendido o fato delas não serem grosseiras no sentido de quererem apenas ganhar dinheiro. Senti que eram meninas mesmo. Por mais que diziam não gostar o trabalho que levavam, tentavam se divertir com o que têm. Na medida do possível, havia algumas amizades com laços fortes entre elas. Deu para perceber que a loura era próxima da risonha, por exemplo. As duas subiram juntas, conversando.

Me deu vontade de voltar outra vez, com um grupo, fazer uma festa, um churrasco, com alguns amigos e elas. Mas era exatamente isso que elas queriam. Ao serem simpáticas queriam apenas que eu voltasse, com mais gente, e consumisse. Consumisse? Que palavra estranha quando o produto é a carne humana. Ou elas estavam sendo verdadeiras, quando foram simpáticas? Meninas que ganham a vida assim, será que elas podem apenas serem verdadeiras, ou será que elas vivem atuando toda a noite? Elas disseram que escolhem, mas, se elas pudessem escolher caras limpinhos, como elas disseram, seria melhor, claro. Será por isso que elas foram simpáticas comigo?

Meninas que ainda não tinha visto desciam. Uma loura falsa enorme, bem maior do que eu, de pernas grossas. Uma baixinha de cintura fina. Os garotos que arrumaram o pátio sentavam-se do outro lado da piscina. As meninas foram em direção a eles. Mantinham algum tipo de amizade. Conversavam. A loura enorme parecia sem sono. A outra tinha acabado de terminar um programa, o sujeito tinha ido embora.

Bota a camisinha – escutei da minha cadeira o grito. Comecei a procurar para saber a origem, com medo que o escândalo fosse do quarto dos meus amigos – Coloca a camisinha, seu escroto – todas as pessoas ao redor da piscina olhavam para o quarto dos meus amigos – Tira a mão de mim – os gritos eram mais altos – Seu filho da puta, tira a mão de mim, eu vou sair, me larga – um dos garotos fez menção de subir para ver o que acontecia – seu filho da puta, você tirou a camisinha, você tirou a camisinha – a porta do quarto dos meus amigos abriu e saiu uma baixinha chorando. Outras meninas estavam no corredor e esperavam-na. Ela gritava e chorava – o filho da puta tirou a camisinha, o filho da puta tirou a camisinha – ela repetia aos berros, abraçou a loura enorme e desceu as escadas. O quarto dos meus amigos ficou silencioso.

Após uns cinco minutos, a menina quieta, a porta do quarto abre-se mais uma vez e um dos camaradas sai. Desce as escadas correndo, passa pelas meninas sentadas em silêncio e se encaminha para a recepção. Não fala comigo, não fala com ninguém, vai direto pagar a conta e depois embora. A pequena que tinha saído do quarto reclama mais uma vez que o filho da puta tinha tirado a camisinha. Eu pensei, quando os ânimos se acalmaram, no motivo da menina estar tão nervosa. Sim, o óbvio, transar sem camisinha é perigosíssimo, e isso é indiscutível. Mas, fiquei pensando se ela não estava, também, tentando proteger o patrimônio dela. Caso alguma coisa acontecesse com ela, com o corpo dela, com a saúde dela, ela perderia dinheiro. Com certeza não há algum tipo de seguro que a proteja de acidentes. Se ela não trabalhar, não ganha dinheiro, logo não se sustenta.

Estava perdido nisso quando um neguinho de bigodinho de no máximo 25 anos vem falar comigo para sair porque – nós vamos apagar as luzes, ‘tamo fechando – ele disse.

Tenho que esperar meus amigos – e apontei para o quarto.

O senhor pode esperar na recepção, então.

Sem problema.

A recepcionista era uma garota morena, corpo certinho, melhor que muita menina que trabalhava dentro. E ficou o tempo todo de cara amarrada. Talvez por ser a recepcionista de um lugar como esse seja aconselhável mesmo não ser muito simpática, principalmente se for nova e bonitinha.

Estava na porta de vidro quando escutei;

Mãe – era a recepcionista atrás de mim. Falava na direção de fora para uma senhora que imediatamente olhou para dentro, para ela – tem que ir pegar o consolo no quarto 22.

Imagine como foi e como é a vida da recepcionista. Vive desde sempre dentro de uma instituição nada tradicional, com uma família completamente diferente das dos amigos do colégio. Tem um trabalho justo, honesto, mas que nunca sonhou, com certeza. Lida com assuntos que, talvez, não gostaria de ter mexido nunca.

Fora a recepcionista, o restante dos funcionários do estabelecimento eram simpaticíssimos. À exceção da recepcionista e de sua mãe, eram homens, o que explique, talvez, a comodidade de todos em trabalhar com situações inusitadas. Viviam como numa espécie de empresa, onde todos se juntam para conversar após o expediente. No caso das meninas, após o programa. O curioso que a analogia é ainda funcional quando se pensa que as meninas são como as funcionárias mais importantes dentro dessa organização. Seria o departamento que traz os dividendos para dentro da companhia. O restante funcionaria como administração. Apenas existem para o melhor funcionamento da engrenagem. As meninas são o recheio, as estrelas do show, os outros são os bastidores, os técnicos, necessários, entretanto sempre invisíveis.

Interrompido mais uma vez das minhas divagações, quando a mãe da recepcionista veio falar comigo, como se eu estivesse enfadado.

Não se preocupe, o período acabou, seus amigos já estão descendo.

Não há problema – mal sabia a mãe que eu estava realmente me divertindo com aquela experiência, se é que posso chamar assim.

E logo os dois saíram do quarto com as meninas junto deles. Todos ao redor da piscina acompanhavam o descer das escadas. Não por curiosidade, apenas como uma forma de passar o tempo. Passaram por mim se desculpando, por ter me feito esperar, e eu dizendo que não havia nenhuma problema, que tinha sido divertido estar ali também. Fomos embora, os dois, alguma coisa encucados com a saída mais cedo do terceiro, e eu encantado com o nascer do sol e a coloração do céu em camadas.

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