domingo, 4 de novembro de 2007

Psiu

Senti uma forte identificação no caso do ministro do STF que abriu um processo contra um jornalista da própria assessoria da corte que precisava falar com a vossa excelência. Claro que me identifiquei com o jornalista - não por ter a mesma profissão, óbvio. Mas por uma-dessas-coincidências-da-vida.

Em Berlim, levamos uns amigos para jantarmos perto do albergue onde estávamos instalados. Escolhemos a cozinha mais exótica - de Cingapura - e nos sentamos, na mesa mais distante do salão, na calçada, e pouco conforto. Com a demora no atendimento, resolvi, de maneira a agilizar o processo, chamar o garçom. Mas: como se chama alguém em alemão? Ou melhor, em malaio - língua falada em Cingapura? (Obrigado wikipedia por mais essa). Recorri ao tradicional assovio.

O garçom se aproximou e nos perguntou de onde éramos. Ao responder, ele não se deu por satisfeito e disse que brasileiros eram "not respect" e que ele não era cachorro. Decidimos, por nossa saúde, já que nunca tínhamos comido nada cingapuriano e poderia vir com algo inclassificável e fora do cardápio, irmos embora.

Conversando com um camarada meu, ex-dono de bar, ele disse que os garçons brasileiros também detestam ser tratados por um "psiu". Mas não consigo entender. Generalizar o chamamento como algo ruim não necessariamente faz sentido. Ou, em outras palavras: é possível que ao assoviar, não se esteja sendo desrespeitoso, apenas tentando travar uma comunicação.

É claro que qualquer pessoa deve escolher a maneira como é chamada. Mas a síndrome do assovio mais me parece insegurança e uma necessidade de auto-afirmação, principalmente quando o reclamante é um juiz do STF, recém-empossado.


***

Outra das-coincidências-da-vida aconteceu com o texto do Veríssimo, semana passada, sobre uma viagem à Europa. Copio o trecho inicial:

"Quem anda como eu andei há dias pelas ruas de uma cidade como Florença, cuidando para não ser carregado por uma das manadas de turistas que seguem afobadamente uma bandeirinha com terror de se perder do guia (e não era nem a alta temporada!), não pode deixar de ter um pensamento: — E quando chegarem os chineses? E os chineses virão."

Pensamos, para resolver problemas de concentração de pessoas em frente a determinados pontos turísticos, que deveríamos instituir o dia do turista japonês.

Um comentário:

Ju Braga disse...

Estive em Versalhes em julho e foi um inferno. Milhões de chineses com guias que falavam gritando, as salas lotadas...uma bosta. Há um excelente motivo para não se viajar em alta temporada! bj