terça-feira, 7 de dezembro de 2010

Esperança, vigor e paz

Além de não ser bom em chute [vide aqui e aqui], torço para o futebol muito raramente. Sou um tricolor de final de campeonato, como ouvi dizer. Desde a queda tripla do Fluminense às divisões subterrâneas, desisti de perder o pouco tempo que tenho acompanhando o velho esporte bretão. Mas é inegável como a parte da paixão, do irracional, que envolve o esporte ainda me fascina. Lembra da mitologia que eu estava um dia sugerindo como necessária? O futebol tem de sobra.

Por isso, ontem, fiquei muito empolgado escrevendo um texto sobre a história do clube das Laranjeiras, que se confunde com a história do próprio futebol. Não fiz um estardalhaço, mas fiquei feliz com a vitória. Acredito que o time conseguiu agir de acordo com as máximas pregadas por seu hino: deu esperança, jogou com vigor, mas sem se esquecer da paz, jamais.

Aliás, vendo o hino do time, me peguei pensando como foi que eu me tornei Fluminense. Tudo bem que eu era um conservadorzinho, quando pequeno, mas frases como "quem espera sempre alcança", além de brega, é contra tudo o que eu imagino hoje em dia. Não acredito na inação, nem no destino [também não acredito no livre-arbítrio, mas isso é outra história].

Em um segundo momento do hino, canta Lamartine Babo, "Vence o Fluminense / Com sangue do encarnado." Sangue do encarnado? Já não chega cantarem "A benção João de Deus", para um Papa [a saber, João Paulo II]? Eu sei que é a cor se chama "encarnado" [descobri ontem, para dizer a verdade], mas não consigo me livrar do pensamento católico. Novamente, estou longe disso.

A única cor que se salva, portanto, é o branco, associado à paz e à harmonia. É possível conviver com isso.

Além disso, o time tem uma tradição elitista conservadora, o que me deixa com os dois pés atrás.

Estava eu a pensar nisso, por que eu me tornei Fluminense, recorrendo ao meu pai, na sua provável única grande influência em minha vida, quando me deparei com o maior craque o time já produziu: Nelson Rodrigues. Não há ninguém maior na História do Fluminense que o dramaturgo. Pelo menos, na minha humilíssima opinião. Foi ele quem me deu a resposta para a minha pergunta. Uma resposta literária, como a pergunta merecia. “Ser tricolor não é uma questão de gosto ou opção, mas um acontecimento de fundo metafísico, um arranjo cósmico ao qual não se pode – e nem se deseja – fugir”.

Ele também me deu uma boa resposta em relação ao meu adormecimento: “Nas situações de rotina, um 'pó-de-arroz' pode ficar em casa abanando-se com a Revista do Rádio. Mas quando o Fluminense precisa de número, acontece o suave milagre: os tricolores vivos, doentes e mortos aparecem. Os vivos saem de suas casas, os doentes de suas camas e os mortos de suas tumba”.

E, por último, demonstrou que o Fluminense não é exatamente um time só da elite, pelo contrário. “O mais exato seria dizer que ele é o clube de todas as classes”. Abaixo, copio uma crônica dele, de 1959, publicada pela primeira vez no "Jornal dos Sports", do seu irmão flamenguista Mário Filho, intitulada "A incomparável torcida tricolor", que eu tirei daqui.

Amigos, reparem: - há algo de patético na torcida do Fluminense. Nós, com a nossa crassa e ignara simplicidade, temos a mania de falar em “aristocrático clube das Laranjeiras”. E eu vos digo : - “aristocrático” em termos. Será aristocrático porque, no seu quadro social, falta tudo, menos grã-finos. Mas há algo mais no Fluminense, algo mais do que a aristocracia que lhe atribuem. Mais exato seria dizer que ele é o clube de todas as classes.
Sim, amigos : - há de tudo em Álvaro Chaves. Vocês querem tubarão? Afirmo-vos que os há de todos os tipos. Desde o tubarão de borracha, o tubarão de piscina, que as crianças cavalgam, até o tubarão mesmo, de insaciável voracidade. Costumamos desprezar o cartola. Mas vamos e venhamos: - com o seu charuto afrontoso e ultrajante, a conspurcar de cinza todos os tapetes, ele tem o seu charme. Sim, no Fluminense, há cartolas em penca. Vocês querem o príncipe? É o que não falta no Fluminense. Esse grã-finismo autêntico é meio gostoso de se ver.Há também a família da classe média, a mocinha linda, o pai, a mãe, com os seus escrúpulos severos.
Nada, porém, é tão impressionante como o pé-rapado do Tricolor. Amigos, o Fluminense, com toda a sua aristocracia, têm na sua torcida, uma plebe que eu chamaria de épica. É uma multidão que o acompanha, com ululante fidelidade. Jogue o Fluminense com o escrete húngaro ou com o Casca-Grossa F.C. e lá estarão esses heróis de pé descalço. Como são formidáveis ao empunhar a tocha do entusiasmo tricolor! Mas eu falei em pé-rapado. Para mim, não existe o pé-rapado, o borra-botas. O que existe é o homem, o ser humano, a levar nas costas, como o peixe da Emulsão de Scott, uma alma imortal. Um homem é sempre igual a outro homem.
Mas como eu ia dizendo: - chamemos convencionalmente a plebe tricolor de plebe mesmo. É uma gente gloriosa, que não larga o clube, chova ou faça sol. Com a nossa bandeira erguida aos ventos da vitória, lá vão os pés-descalços atrás do time. Eu acredito que esses mesmos homens, em encarnações passadas, fizeram a Revolução Francesa e derrubaram bastilhas. Amigos, eis a verdade: - os campeonatos e as revoluções vivem de paixão. Sem sentimento, não se derruba uma bastilha, nem se levanta um campeonato.
Eu acho profundamente cretina a expressão “plebe ignara”. Ignara coisa nenhuma. Nós é que somos os ignaros, os crassos. Falta-nos isso que sobra no suposto pé-rapado, ou seja, a capacidade de vibrar, de se apaixonar, de viver e morrer por uma paixão. A parte mais humilde da nossa torcida é capaz, sim, de perecer pelo time. Nós temos o escrúpulo, o pudor de pular no meio da rua como um índio de Carnaval. A nossa alegria é meio envergonhada, meio arrependida. Mas a chamada plebe se embriaga com o próprio fogo. A vitória sobe-lhe à cabeça. O tricolor popular, na sua pura euforia, é capaz de trocar as pernas e cair, rente ao meio-fio, com a cara enfiada no ralo. Sim, amigos, falta-nos, a nós outros, a capacidade de tão violenta embriaguez clubística.
Na semana do jogo com o Bangu, eu penso nos pés-descalços da nossa torcida. Eu disse, aqui mesmo, outro dia, que o torcedor, qualquer que seja ele, deve ser tratado, cultivado, como uma orquídea rara. É a pura verdade. Cabe, porém, observar: - o torcedor é tanto mais vibrante quanto mais humilde socialmente. O pó-de-arroz plebeu dá tudo na sua torcida. Põe todo o seu ser, toda a sua alma, toda a sua paixão no berro do gol. Um jogo, para ele, não representa apenas um passatempo inconseqüente, mas uma decisiva experiência vital. A derrota passa a ter um sentido transcendente. E a vitória significa apenas isto: - a Ressurreição e a Vida.
Um campeonato constitui uma soma de fatos. Um deles, e dos mais importantes, é a torcida. Um time precisa sentir, atrás de si, o berro da torcida. A ausência dessa torcida representa a solidão. Nada mais triste do que um time sem ninguém. Acresce o seguinte: - ninguém faz justiça à torcida tricolor. Exalta-se a do Vasco, a do Flamengo. E querem esquecer a nossa. Mas eu vos digo: - tem razão o Benício Ferreira Filho: - a grande torcida é a do Fluminense. Nada se compara à sua flama e à sua fidelidade. Outras podem ser mais numerosas. Uma torcida, porém, não vale a pena pela sua expressão numérica. Ela vive e influi no destino das batalhas pela força do sentimento. E a torcida leva um imperecível estandarte de paixão.

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