terça-feira, 13 de dezembro de 2011

Ensinamentos


“Quando voltamos para a cidade, perdi logo contato com Klaus. Nunca mais o vi. Desapareceu como se eu nunca o tivesse conhecido. Às vezes, pensava que ele talvez não tenha existido mesmo, aí, começo a rir, sozinho, percebendo o que ele me ensinou.

“Voltei e quis viajar, quis sair de casa, quis mudar de vida. A minha casa já não me pertencia, já não podia ficar ali, estava completamente caustrofóbico, me sentia sufocado, sem ar. Decidi sair pelo Brasil, pelo interior, atrás de gente que pudesse me ensinar alguma coisa. Queria aprender, e não era a escola que me ensinaria o que eu queria aprender. A escola, esse formato, não era para mim, como não é para muita gente. Peguei um dinheiro que tinha economizado, juntei algumas roupas e fui. Saí de casa. Saí de casa para nunca mais voltar.

“Andei muito, conheci muitos lugares, aprendi com muita gente e também me tentaram enganar também, algumas vezes. Sempre haverá charlatães, como a minha mãe, que dizia que falava com os mortos, que incorporava espíritos. Uma mulher, uma vez, falou que para me ensinar eu deveria confiar nela. Ela me levou para a linha de trem e mandou eu ficar lá, em pé, até que ela me mandasse sair. Subi nos trilhos e fiquei parado. Ela disse para olhar para ela, para olhar só para frente. E eu fiquei lá. Horas. Sem nada a acontecer. O sol forte na minha cabeça, e eu com sede, mas não podia me mexer. Estava sem sentir os pés, de tanto tempo parado. E ela à minha frente. Depois de horas imóvel, escutei o trem se aproximando. E ela, impassível à minha frente. O trem vinha, apitava, e ela não fazia nada. O trem continuava, escutava os freios sendo acionados, e ela, sem mexer um músculo. No último instante, olhei com o meu canto de olho, usei a minha visão periférica, e pulei à frente, sentindo o trem passar raspando, logo atrás de mim. Quando caí, ela apenas disse, antes de ir embora: nunca confie em ninguém e siga apenas os seus instintos.

“Das coisas mais impressionantes que eu vi, eu lembro de uma mulher, no meio do sertão, acho que era Pernambuco ou Bahia, que matava com uma bacia d’água.

“Ela recebia a incumbência, colocava uma bacia de água na sua frente e ficava olhando para o líquido, quieta, entrando num transe, descendo mais e mais, até que a água não mais refletia o seu rosto, mas o rosto de quem quer que fosse o futuro morto, e ela prendia a respiração e a pessoa do outro lado começava a ter dificuldade de respirar até que caía no chão, azulada, sem ar, morta. A mulher também quase morria nesse processo, porque tinha que ficar tanto tempo quanto o outro sem respirar. Mas ela era velha, treinada, experiente, sabia se controlar.

“Fiquei com ela por quase quatro meses e só consegui, só fui autorizado a ver uma de suas mortes, e apenas na última semana. Ela era uma mulher que vivia só com uma sobrinha, que a ajudava nas tarefas caseiras, numa casa de palha, com chão de terra batida. Subia uma poeirada toda vez que alguém entrava. Era seco o lugar, mas tinha um açude perto, onde a sobrinha ia buscar água.

“Ela era velha, rosto enrugado, sempre com um pano prendendo o cabelo. Se dizia devota de Maria, mas também dizia que tinha essa maldição, que ela tinha que colocar em prática, se não a consumia, se não ela iria apodrecer por dentro e ia cair dura, seca, ela mesma. Nunca aceitava dinheiro pelas suas mortes e tinha que ser convencida pelo interlocutor de que o morto merecia morrer.

“Agora, ela dizia que não queria mais viver, e estava negando os pedidos de todo mundo que vinha até ela. Por isso, inclusive, disse ela, estava enrugada. Porque tinha perdido sua água. Ela só aceitou o pedido de uma mãe, sua vizinha, cuja filha tinha sido abusada por um primo. A velha se apiedou da mãe que chegou com ódio no coração, mas se sentia incapaz de matar o primo, que era mais forte e vivia numa casa grande, rica.

“A mãe morava também numa dessas casas de pau-a-pique e tinha vários filhos para criar. Só não tinha mais filho porque o marido tinha morrido, de um dia para o outro. O coração parou. A velha dizia que tinha sido um trabalho. Desde então, a mãe aceitava a ajuda do primo, rico, que morava na cidade. O primo sempre tinha se interessado pela filha mais velha, de 10 anos, mas ela imaginava que era coisa de família. Chamava a garota para passar o fim de semana com ele, na cidade, e até tinha levado a garota para a praia.

“Na volta de um desses passeios, a menina chorou dois dias e duas noites, sem parar. A mãe, depois de muito insistir, conseguiu que a menina desembuchasse o que lhe aperreava, mas a menina se sentiu culpada, como toda criança. O primo disse para a menina que se ela contasse algo para a mãe que ele nunca mais ia ajudar a família. A menina, porém, falou tudo para a mãe,  que foi em busca da velha. A velha me deixou assistir a essa morte.

“Ela foi para o quintal, com o sol a pino, tinha que ser ao meio-dia, com o horizonte amarelo de tanto calor. Trazia a bacia d’água, a colocou no chão, pegou um cadeira de madeira, sentou, e começou a olhar para a água. E respirou fundo, e inspirou e expirou, e o ar entrou e saiu, e ela segurou o ar nos pulmões por mais tempo, e ela soltou o ar, e o ar foi e veio, veio e foi, até a água começar a tremer, como se uma pedra tivesse caído no meio e as ondas tivessem saído do centro para as bordas, a água ficava cada vez mais nervosa, tremendo, balançando como em uma tempestade, até que a figura do primo apareceu: de bigode, cabelo gordurento com gel, para trás, barriga proeminente, sorriso largo de quem acha que é superior aos outros, camisa suada, moscas em volta dele, andando como se fosse um coronel, agindo como se fosse o dono do mundo. A velha começou a respirar mais fundo. Entrou o ar e não saiu mais. Ela só inspirava agora, parou de expirar. O corpo da velha cresceu, como se fosse uma bola, um balão, inflando. Ela parecia outra pessoa, o corpo enrugado agora se esticara. E o primo, do outro lado da bacia, começou a sentir a garganta apertar, segurou no colarinho da camisa de botão, e puxou para o lado, pigarreou, parou de andar, tentou inspirar e nada, se abaixou, se ajoelhou, abriu o último botão da camisa, arfou, mas nada acontecia, as pessoas se aproximaram dele, e ele foi ficando mais vermelho, mais vermelho, e a velha parou de respirar, trancou a garganta, apertou o pulmão, olhando  fixamente para a água, e o primo ficando mais vermelho, e agora roxo, se tremendo, se estrebuchando, tendo um ataque, era possível ver a vida saindo do corpo dele, era possível perceber como ele estava se perdendo, até que parou de se mexer. Era morto.

“A velha expirou todo o ar que tinha dentro de si, e uma ventania agitou todo o seu quintal, levantou poeira, como se fosse uma tempestade de areia, não foi possível ver nada a um palmo de distância. Eu me levantei para me proteger. Quando a poeira desceu, a velha está ainda sentada, respirando com dificuldade, com a sua sobrinha do seu lado, amparando, porque ela estava cansada. A velha foi levada para dentro da casa, para dormir um pouco.”

2 comentários:

Douglas disse...

Qual o nome dela, Alda? :)

Ronaldo Pelli disse...

Não a conheci, não. Mas aposto que era Dona Alda, sim. :-)