segunda-feira, 12 de março de 2012

O amor 'secreto' de Picasso

Assim como outros artistas contemporâneos, congelar a arte de Picasso em uma determinada fase é, no mínimo, complicado. Complicado mais no sentido de ser quase impossível obrar isso - tantas e tão variadas são suas produções -, que no sentido de ser um desperdício - o que, convenhamos, também o é.

"Nu au Plateau de Sculpteur", da fase mais
erótica de Picasso 
O comum é vê-lo sempre associado ao cubismo, mas isso é pouco. Que fase do cubismo? Que fase, sua, dentro, do que ficou convencionado chamar cubismo - e que ele, com Braque, foram os grandes motivadores? A primeira, quando ele usa uma palheta de cores ocre, com exagero na transformação das figuras, beirando a abstração? Uma outra - não sei em que posição fica - em que ele arredonda as figuras - geralmente femininas - para demonstrar uma sensualidade impraticável com as técnicas tradicionais de representação - desconstrói o ponto-fixo do olhar, e cria uma ilusão [e o que é a arte, senão ilusão?] de uma multidimensionalidade no mesmo plano? Ou, ainda, no pré-segunda guerra, quando sua Espanha natal vira o palco de uma guerra civil, e ele usa essa fragmentação para expressar a dor de um povo, que foi massacrado por um ditador, e que culmina na, provavelmente, sua obra-prima, "Guernica"? Isso, para ficar só nas fases cubistas mais conhecidas. Fora o período que ele flerta com um classicismo quase grego, ou suas incursões originais, as famosas fases rosa e azul, ou ainda quando ele faz colagens, esculturas, etc..

Admito que gosto mais do período em que Picasso usa o que se convencionou chamar cubismo para retratar a sensualidade e o erotismo das mulheres. Ele aproveita a sua auto-imposta liberdade figurativa para fazer contornos impossíveis, traçar linhas curvas insinuantes e fazer um jogo de esconde-esconde que excita qualquer apreciador de mistérios. Esse último aspecto acontece mais com os retratos que ele fez de sua quase eterna amante Marie-Thérèse Walter.

Os dois se encontraram quando Picasso já era um quarentão e Marie-Thérèse nem tinha completado a maioridade. Picasso era então casado com a dançarina russa Olga Khokhlova, de quem jamais se separou, mesmo quando Olga, oito anos depois do início da relação Picasso e Marie-Thérèse, descobriu tudo e saiu de casa. Picasso só se desinteressou de Marie-Thérèse quando conheceu Dora Maar - e houve a famosa briga entre as duas. Mas essa é outra história.

Durante esses oito anos que Picasso tinha Marie-Thérèse como amante e modelo, ele sempre arranjava uma maneira de, utilizando a sua técnica como desculpa, se colocar no quadro, mesmo que, para alguém menos atencioso, possa ser apenas um segundo ponto-de-vista do rosto da modelo. Reparem nesse quadro "Femme nue dans un fauteuil rouge".



Ele claramente coloca um segundo rosto, de cabeleira verde, sobre o rosto da loura Marie-Thérèse, que  a beija na boca. Há um segundo personagem sobre-posto, que abraça a modelo, mas que também é o corpo dela. Como se os corpos se misturassem, como se Picasso tivesse se pintado como uma sombra, um fantasma que poderia, sem se materializar, penetrar no corpo de quem ele quisesse. Um sonho, como se sabe, que ele acalentou durante muitos anos.

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Com o cubismo, e essa quebra da linearidade na narrativa dos quadros, Picasso consegue, mesmo que poeticamente - talvez a única maneira possível -, dar conta de um dos aspectos do absoluto. Ele conseguia mostrar várias faces de um objeto/modelo ao mesmo tempo, destruindo aquela máxima que, se eu não me engano, foi imortalizada pelos relativistas, os físicos, de que quando se olha o ponto, se perde a linha, e vice-versa. Com Picasso, ambos podem coexistir, simultaneamente. Na arte, o que parece impossível pode ser realizado, se você tem coragem - e isso, ele teve.

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Essa transformação, essa mutação na obra de Picasso, é uma das grandes inspirações para David Hockney, o último artista a aparecer na exposição do Tate Britain sobre a relação de Picasso com a Inglaterra:  as oportunidades em que passou aqui, os projetos em que trabalhou, as obras que sempre estiveram no país [talvez o ponto baixo de toda a exposição, pelo processo quase dicionárico de listar o caminho das obras, o que não importa em nada no momento de sua apreciação], as influências em outros artistas ingleses etc.. As obras de Hockney mostram essa preocupação de nunca se acomodar num formato, passando de desenhos simples - jamais simplórios - até uma pintura cubista feita com fotos polaroides. São incríveis.

2 comentários:

Anônimo disse...

forever and ever zero comments.

Ronaldo Pelli disse...

Now, two. :-)