domingo, 18 de março de 2012

O inglês típico

Ontem fomos numa região que não parecia Londres. Tinha muito britânico. Isso, britânico, aquele povo branco, desajeitado, de bochechas rosas, que gosta de chá e fala "lovely dear" para qualquer assunto, e que costumávamos associar com a ilha e que hoje, apesar de estatisticamente ainda ser maioria, parece desaparecer no meio de tantas cores diferentes que vemos nas ruas. Londres, hoje, parece a escala pantone.

Com'on / Fulham [os de branco]
Havíamos recebido um convite de nosso único casal inglês-londrino há dois meses para assistir a um jogo de verdadeiro futebol - não essa coleção de superestrelas que lotam times como o Manchester United ou o Chelsea - o time dos ricos aqui [aliás cometi uma gafe certa vez ao criticar o Chelsea para, sem saber, um torcedor do time, que, com toda fleuma inglesa -adoro a palavra fleuma, mas acho melhor com "g", "fleugma"-, simplesmente desconsiderou meus comentários preconceituosos sobre Chelsea, ricos, partido conservador, enfim, essas coisas afins].

Antes de continuar, tenho que afirmar que quando digo que o convite chegou "há dois meses" não estou exagerando. Tenho o sms para comprovar. Como todos os ingleses -ou como aqueles ingleses que associamos com organização e estar sempre on time- eles nos perguntaram se queríamos ir ver um jogo de futebol há muito, muito tempo. Ajuda à organização deles o fato de terem uma bebezinha pequena -Rosie-, de menos de dois anos. Então, eles devem mesmo ter algum tipo de planejamento. E o fato de Rob trabalhar com cinema -ele fez o sound design de "Harry Potter", por exemplo- e, assim como nos piores empregos de jornalismo, ficar três semanas sem um dia de folga, para cumprir prazos.

Tá vendo a baleia?
Além disso, tenho que acrescentar que quando disse que eles eram os únicos ingleses-ingleses que conhecíamos, eles riram e ironicamente responderam: não somos. Porque -usaram como argumento- a mãe de Rob é sueca e o pai de Lou, espanhol. De toda forma, quem nasce e é criado na Inglaterra é inglês -assim que a constituição os trata, assim que eles se sentem.

Portanto, fomos a Putney, no sudoeste londrino, ao lado de Fulham [por algum motivo que me é estranho, não se pronuncia o "h" como "r"], mesmo nome do time por quem fomos torcer contra a potência [not] galesa do Swansea.

Essa região é tão tradicional que é onde  começa o famoso desafio Oxford x Cambridge de remo [Vamos Óquisfor!], em que as duas mais tradicionais universidades do país [do mundo?] competem há mais de 150 anos para saber quem é a melhor na água [no ensino, todo mundo sabe, é Óquisfor, mesmo que Cambridge tenha mais Nobels, tenha sido melhor representada em rankings dos últimos tempos. Quem se importa com esses critérios mundanos quando se tem certezas absolutas?]. Esse ano, o desafio é no início de abril. Voltaremos.

Chegando lá, encontramos uma outra competição no Thames -ah, sim, é no Thames que isso acontece, no "mais limpo rio em uma cidade no mundo", "no rio onde uma baleia encalhou e morreu em 2006", como me disse Rob, que, porém, não colocaria sua Rosie na água, "jamais". Vários barquinhos [por volta de 400, para ser mais... preciso] de todo o mundo na água competindo no Head on the River, que foi vencida por um barco tcheco, se eu entendi bem.

Hei, era St. Patrick's day!
Depois, brunch com um café-da-manhã quase inglês [ovos mexidos, salsicha, cogumelos, bacon, torrada, faltou só o feijão], depois Guinness [com'on, era St. Patrick's Day!] e, depois, estádio. Aí, vimos o que é, realmente, fleugma inglesa.

Enquanto os galeses do Swansea se esgoelavam torcendo pelo time deles, os ingleses-ao-cubo do Fulham muito raramente soltavam um "Come on / Ful - ham / Come on / Ful - ham", mas era tão raro, mas tão raro, que eu me senti em casa -lembrai, sou do time tantas vezes campeão que, talvez por isso, por estar tão acostumado às vitórias, não comemora nem título de brasileiro. Aliás, outro detalhe que lembra o Fluminense é a logo [repare na primeira do tricolor] e a sigla FFC - somos, os dois times, Football Club [curiosidade inútil: outros significados para o acrônimo FFC]. Eram palmas isoladas para os ainda mais raros lances bons, e um grito de "wake up, Fulham", do senhor atrás de mim, quando a vaca já chafurdava no brejo. Resultado final: 3 a 0 para Swansea. Nunca fui mesmo sortudo acompanhando o meu time no estádio, não fui quando acompanhei o Buffalo Sabres, em um jogo de hockey, não seria agora que a história, essa senhora tradicional, mudaria.

Ao fim, nenhuma reclamação pública, como cabe a um gentleman. Rob, porém, acrescentou que essa pose acaba quando o gentleman entra em casa e reclama como se fosse um bebê que perdeu o seu brinquedo favorito.

WTF?
Estava no estádio me sentindo em um pedaço da Inglaterra -ou, ao menos, de Londres- que eu não conhecia, jamais tinha passado quando, oh wait!, o que é que aquela estátua do Michael Jackson está fazendo ali no canto? Sim, isso, dentro do estádio do inglesíssimo Fulham tem uma estátua de Jacko -uma estátua feia de doer, aliás. O que ela está fazendo ali, como assim, quem foi que...? Novamente, com a palavra, Rob:

O Fulham pertence ao egípcio Mohamed Al-Fayed, sim, ele mesmo, pai do Dodi, aquele que se envolveu com a então-ex-princesa Diana, e que morreu no fatídico acidente de carro, em Paris. Ele, o dono da bola, era amigo de Michael e quis prestar uma homenagem para o cantor, que, aliás, não foi lá muito bem recebida pelos torcedores do Fulham. A família Al-Fayed, entre outros empreendimentos, é também dona da mais-que-tradicional loja da Harrods -onde há uma homenagem brega a Dodi e Diana.

Ou seja, mesmo onde procuramos o inglês típico, percebemos que estamos, desde sempre, todos misturados. Ainda bem.

2 comentários:

Polyanna Almeida disse...

Procurando esportes ingleses típicos dos ricos achei seu post. Taí, gostei de ler.

Ronaldo Pelli disse...

Valeu, Polyanna! Se me permite a sugestão, há ainda um post especificamente sobre esportes na Inglaterra: http://contonocanto.blogspot.com.br/2011/10/esportes-ingleses.html

Beijos