quinta-feira, 4 de outubro de 2012

Cenas cariocas: andar de ônibus - parte 1

Andar de ônibus no Rio de Janeiro é uma experiência única - mesmo para os locais. É um misto de sensações que invadem seu pensamento e dispersam o foco daquilo que estava acontecendo para se concentrar apenas no ato de pegar o ônibus. É uma avalanche de sentimentos conflituosos que mostra como somos complexos - e bastante sortudos.

Segue um passo-a-passo que tem como objetivo ajudar a todos os turistas desavisados [que saibam ler em português], além de igualmente ser útil para os locais, já que, como disse acima, você raramente se acostuma com esse serviço de transporte coletivo, cuja concessão foi, aliás, recentemente confirmada por mais trocentos anos para as mesmíssimas empresas de ônibus que já lidam com esse serviço há séculos, desde as capitanias hereditárias.

1ª. questão/ onde pegar o ônibus?
Onde fica o ponto para a linha que vai lá para aquele lugar que você nunca foi na vida? Logo em seguida, você se lembra que não há muitas opções, ao contrário. No máximo, três trajetos para todos os ônibus que passam pelo seu bairro. Desconsidere essa questão e vá para o primeiro ponto que você vir. Na dúvida, pergunte ao próximo mais próximo.

2ª/  Qual ônibus pegar?
É necessário exercitar a comunicabilidade com estranhos, esse poder mutante que você tinha esquecido lá no fundo do DNA, para descobrir se o determinado ônibus passa no destino exótico, e se é a melhor opção, porque - ao menos na Zona Sul - sempre há mais de uma opção para o mesmo lugar. Um dos ônibus, você pode ter a grande oportunidade de conhecer, dá uma volta tão grande que você até hoje não entende como é possível - e imagina que pode ser um belo campo de estudo para a física quântica e as suas pesquisas de espaço/tempo.

3ª/ Como pegar o ônibus?
Agora, é preciso esforço físico e malabarismo para correr e tentar pegar o carro certo, já que ele nunca para no ponto exatamente. Isso quando não passa cortando na terceira faixa, no que só dá tempo de você gritar para tentar avisar ao digníssimo motorista que a mãe dele tem uma das profissões mais antigas do mundo.

Após fazer seu exercício diário para virar sprinter, você chega ao ônibus e percebe que o motorista está contrariado porque teve que parar para pegar passageiros. Com motivos, vejam só. Ele queria chegar rapidamente para salvar o pai que, coitado, está à forca.

Com o tempo, você vai perceber o ângulo correto para se posicionar no ponto de ônibus e conseguir, assim, enxergar o ônibus à distância e avisar ao motorista com antecedência, para que ele se prepare psicologicamente para esse fator tão exótico à sua atividade, que é parar no ponto. Mas isso, como todas as atividades de alta periculosidade, leva tempo.

4ª/ Como pagar o ônibus?
Novamente será necessário uma dose de malabarismo e, agora, equilíbrio aplicado. Você deverá conseguir sacar o dinheiro e entregar o dinheiro correspondente a passagem [que, aliás, subiu demais nesse último ano] ao trocador, enquanto o motorista corre para, como já sabemos, salvar o pai, coitado, aquele sujeito cujas tendências sexuais desvirtuantes da maioria da sociedade, foram passadas para o filho. Enquanto isso, os demais passageiros, com o RioCard à mão, começam a reclamar que você  atrasando a fila.

Em seguida, não se assuste, você vai se embolar para guardar as moedas, isso quando você já se acostumou com os valores, e elas vão cair ao chão. Aí alguma alma caridosa vai te ajudar a encontrá-las, que, claro, fugiram de você, como se reclamassem do cativeiro que lhes foi imposto.

Às vezes, nesse momento, você vai ser surpreendido com o anúncio oficial, feito pela trocadora, de que a cordinha não está funcionando, porque alguém a arrebentou, mas é só falar com ela onde você vai saltar/soltar [ver item 7º, da segunda parte desse manual], que ela avisa ao motorista. Ela ainda diz que vai tentar ficar de olho para o momento que você se levantar, e caso se esqueça de avisá-la - e então você percebe que estamos todos no mesmo barco, ou melhor, ônibus. Todos tentamos resolver os problemas diários que o simples fato de andar de ônibus acarreta, com a improvisação e a criatividade e a nossa capacidade de adaptação ao novo. Quando ainda é novo.

Mas a aventura ainda não acabou.

[Fim da parte 1]

4 comentários:

Jorge Fernando disse...

Sensacional, Ronaldo! Ótimo trabalho de reportagem! Me identifiquei muito na parte da escolha do lugar (e em todas as outras).

Você já leu, mas fica a sugestão (você não achou que eu deixaria de fazer meu jabá aqui, né?) para quem quiser se aprofundar no tema dos tipos de passageiros: http://www.blogdojorgefernando.com/2012/04/tipos-de-passageiros.html

Também falo das diferenças de "andar de ônibus" no Rio e em SP neste texto: http://www.blogdojorgefernando.com/2012/01/rio-x-sao-paulo-manual-de-adaptacao.html

Hehehehehe... Chega de propaganda gratuita.

Abraço!

Ronaldo Pelli disse...

Não imaginei que eu faria algo inédito, mesmo. :-)

Blog do Jorge disse...

Do meu ponto de vista, foi inédito, sim. Me senti "furado" até, hehehehe... Por isso, tentei pegar carona. Excelentes textos. Vou te arrumar um emprego logo, antes que você acabe com minhas possibilidades de temas. Aliás, tem post novo no: http://www.blogdojorgefernando.com/

Vai lá. Abraço!

Ronaldo Pelli disse...

um emprego bom, bonito e a minha cara. :-)