segunda-feira, 8 de outubro de 2012

O erro do eleitor do Freixo

Marcelo Freixo, em foto da Alerj
Era bem difícil que Marcelo Freixo ganhasse essa eleição para a prefeitura do Rio, por inúmeros motivos, mas há um em específico que me chamou mais a atenção. Antes de falar sobre ele, percebi que esse crescimento do Freixo trouxe um resultado extremamente positivo em um aspecto específico: divulgou a marca [isso, marca] Psol para além do seu nicho de mercado [sim, minhas metáforas serão publicitárias, já que a eleição é um produto como outro qualquer - infelizmente - com a única diferença de que o mercado consumidor é mais amplo].

Dessa forma, e com produtos [candidatos] mais conhecidos, o Psol conseguiu subir sua bancada de um vereador para quatro, sendo, por mais incrível que pareça, o segundo maior partido da Câmara, ao lado do PT, que apoiou o prefeito, e atrás apenas do PMDB, partido do prefeito, que fez 13 vereadores.

Portanto, apesar dos jorginhos-da-sos e das verônicas-costa, teremos Paulo Pinheiro, Eliomar Coelho [o único reeleito], Renato Cinco, e Jefferson Moura. É pouco, claro, mas considerando que com apenas o Eliomar já havia um barulho, com quatro deles, é possível mostrar que há gente séria trabalhando na Câmara.

O poder legislativo é, provavelmente, o mais importante de todos. Aquele que regula os demais, que fiscaliza, que propõe. É a representação direta do povo no poder - não é o executivo, que deveria, em tese, apenas ser um grande executor. Mas isso é papo para "outro pôr do sol".

O Psol sofre com alguns preconceitos. Alguns o chamam de radical, nível PSTU. Outros, de esquerda festiva, esvaziando o discurso de trabalho sério. Ainda há os pragmáticos que sugerem que, dentro do sistema político atual, ter uma postura ética, sem comprometimento, seria a certeza do isolamento. Outros ainda diziam que o Freixo é ótimo para o legislativo, mas que ele não se encaixava no executivo [os motivos disso nunca foram claros para mim].

Eu discordo de todos esses argumentos: eu vejo o Psol sendo a continuação daquele PT, sério, ético, e sem rabo preso, que queria mudar o país, com a participação de todos, sem excluir ninguém, mas igualmente sem se aliar com a histórica escória política que comanda o país há 500 anos, aquele PT que acabou no momento em que se aliou com os partidos mais retrógrados do país.

[Isso não quer dizer que eu seja um sonhador que mora em outro mundo, mas, em minha cabeça, eu sempre imaginei que esse PT antigo, justo, deveria ter se juntado com o PSDB de gente como Mário Covas e dado um banana para os partidos nanicos fisiológicos, as legendas de aluguel, os caciques hereditários, e toda essa horda que pensa no Brasil primeiro para eles, depois para os demais.]

Todavia, o eleitor de Freixo e a sua campanha cometeram um erro, a meu ver, que demonstra como ainda temos muito que amadurecer democraticamente. Eles ignoraram que em comparação com as gestões anteriores, principalmente, o Paes foi um bom prefeito. Não admitir isso é dar munição para quem poderia votar no Psol, mas ficou com receio. É parecer radical, um partido isolado, fora da realidade. Talvez, com essa tática, ele perdesse até alguns eleitores que querem um candidato extremista, que faça uma espécie de revolução socialista no poder. É possível. Mas, considerando que eleição se ganha com a maioria, e conhecendo - ou imaginando conhecer - o comportamento do brasileiro [e carioca] médio, eu suspeito que há mais gente querendo o diálogo que a ruptura.

Admitir que a gestão Paes foi boa - comparativamente com Cesar Maia, Conde e congêneres - não quer dizer que devemos elogiar a atual prefeitura. É admitir que ele fez o básico, em algumas áreas, e que o Rio não tinha um prefeito que fazia o básico há muito tempo. É tratá-lo com o máximo de dignidade, seriedade, para que as suas posições caiam sozinhas, como máscaras ao fim do carnaval. É demonstrar que, em outras áreas, como a questão do transporte público, por exemplo, houve uma oportunidade quase única para se corrigir décadas de desmando, mas se perdeu a oportunidade com a renovação quase automática da concessão às empresas de ônibus que se comportaram como um cartel, uma máfia.

É sugerir que o Rio merece mais que o básico, o Rio, como, aliás, todas as outras cidades brasileiras. Não se pode contentar com um prefeito que se diz um síndico ou um gerente, porque uma cidade não é um condomínio, nem uma empresa, e esse tipo de argumento ou demonstra uma completa falta de noção sobre as suas atribuições, ou uma opção duvidosa de tentar se comunicar com a imensa maioria da população que é bastante desconectadas das coisas públicas.

De toda forma, os 20% [que poderiam ter sido até 30%, o patamar histórico do Lula nas suas fracassadas candidaturas à presidência, que não mudariam muito o resultado final] representam que o Rio mantém ainda com uma postura de exceção, de oposição ao discurso oficial. E isso só pode ser bom.

5 comentários:

Blog do Jorge disse...

Antes de ser marcado como spam, espero que um dia você se recupere da frustração de achar que dez leitores comentaram os posts na última hora e ver que todos os avisos eram da mesma pessoa (eu). Tô com vontade de comentar os blogs dos outros agora, cansei de escrever o meu. Achei excelente o resultado do Freixo, meio que "por isso tudo" que você falou aí, mas principalmente por realmente criar e marcar uma oposição no Rio. Não acho o Paes péssimo. Acho que o pior dele é essas associação com o Cabral, e acho que é preciso explicar esses apoios pagos. (O transporte público no Rio é uma máfia e isso é uma questão de segurança pública seríssima, que não pode ser enfrentada por um prefeito sozinho, provavelmente nem pelas polícias estaduais. Acho até que o Paes pode ter tentado resolver, mas viu que o buraco era mais embaixo. Acho que o transporte hoje no Rio é o novo tráfico de drogas.) E o melhor dele é que, depois de quase 20 anos sem prefeito, o Rio tem um, com qualidades e defeitos. Acho que a candidatura do Freixo foi, simbolicamente, incrível, mas mesmo quem votou nele não pode ter certeza do administrador que ele é ou seria. É muito difícil fazer qualquer projeto no nosso sistema político andar sem apoios. Não acho que ele fosse ceder aos "apoios", mas poderia pagar com inoperância. Além das gestões do passado recente do Rio, a única outra comparação que me sinto confortável para fazer do Paes é com São Paulo, e juro que SP adoraria ter um prefeito como o Paes, se a outra opção fosse o atual Kassab, o pior prefeito da história dessa cidade (sim, pior do que Maluf e Pitta, que pelo menos teve a decência de cair).

Ronaldo Pelli disse...

Também acho que o transporte público seja - provavelmente - o pior dos nossos problemas. É que temos ainda alguns problemas tão estruturais que fica complicado o ranking. Além disso, ranking de problemas é, independente de outros argumentos, deprimente.

De toda forma, hoje em dia, eu tenho uma opinião bem radical sobre isso: eu acho que o transporte público TEM QUE SER público. Se ficar nas mãos privadas, o cidadão, que é passageiro, vai ser tratado como consumidor [o que é um erro danado] e vai acabar na privada.

Blog do Jorge disse...

Cara, eu até acho que o transporte tem que ser gerido pelo Estado, mas se for pelo Estado do Reino Unido. O poder público no Brasil é um péssimo gestor, isso já ficou comprovado. É triste (voltamos ao ranking), mas, com a nossa corrupção endêmica, que já prejudica tanto o que é de fato público, acho um erro dar mais coisas para o Estado administrar. Você não deve lembrar na época da CTC, que era do Estado. Era um lixo, um tio meu foi diretor lá, e era uma podridão. É incrível, mas estaríamos ainda em situação pior, acredite. O que a administração pública precisa é funcionar direito, sem influências e pressões dessas máfias. O caso é de polícia mesmo.

Ronaldo Pelli disse...

Papo do público x privado fica para outra hora [é uma boa pauta de post, vou guardar na manga]. O que não dá, claro, é vivermos com o transporte ruim do jeito que é. Entretanto, a luz no fim do túnel foi cortada, por falta de pagamento.

Blog do Jorge disse...

Sim, sim. É uma discussão longa e sem uma resposta simples. Abraço!