quarta-feira, 14 de novembro de 2012

Tática do Cabral

Todas as vezes que eu vejo o nosso excelentíssimo senhor governador, Sérgio Cabral, chamar os policiais de "débeis mentais", "assassinos" e "desastrados", entre outros epítetos carinhosos, tenho uma ânsia de concordar com ele: é isso mesmo! Um absurdo! Queimem a bruxa, queimem!

Geralmente nosso excelentíssimo governador se refere aos policiais com essas simpáticas alcunhas por conta de um crime absurdo cometido por eles. Morte de inocentes, geralmente crianças, por puro despreparo. Ou flagra de tráfico de drogas. Ou algo que gere uma imediata repercussão nas mídias. Ele vem a público e, como representante do próprio público, externa a voz e a fala que o público gostaria de ter. Claro, não passa de publicidade.

Depois de concordar com ele, já de pé, exaltado, dedo em riste, me pego no ato: mas, peraí, não é ele, Cabral, o chefe desses policiais? Não é ele, ao fim, o cara que manda e desmanda nas corporações policiais do estado? Não seria ele, ao longo de um cadeia de raciocínio, a se criticar por conta das atitudes completamente equivocadas desses policiais?

Ontem, foi a vez do digníssimo senhor ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, ter o seu dia de Cabral. Em uma palestra a empresários, ele afirmou que "se fosse para cumprir muitos anos na prisão, em alguns dos nossos presídios, eu preferiria morrer". Disse também que "temos um sistema prisional medieval, que não só desrespeita os direitos humanos como também não possibilita a reinserção."

Fiquei pensando: que bom que o ministro sabe das condições dos nossos presídios. Que bom que ele está reclamando. Que bom que... e novamente caí no: peraí, ele está reclamando para quem? Quem é o responsável pelas nossas prisões medievais? Quem é que pode mudar essa situação?

Lembro há muitos anos [link nesse caso é um luxo] de uma pergunta que deixou o então presidente Fernando Henrique Cardoso completamente fora de prumo: se ele viveria com um salário mínimo por mês. FH, revoltado, respondeu que o repórter estava sendo leviano, que não existia mais família que vivesse com essa renda, apenas, que há sempre mútua cooperação, etc. etc. etc. Mas não respondeu.

Desde então, eu gostaria que alguém fizesse como meta de vida perguntar aos políticos que porventura fosse entrevistar se eles se utilizam dos serviços públicos que eles dispõem para a sociedade. Se eles, quando doentes, vão para o hospital público. Se pegam o ônibus, trem ou metrô para ir trabalhar. Se já tentou chamar a guarda municipal pelo telefone central da prefeitura, sem se identificar.

Na pior das hipóteses, pode acontecer como o prefeito de Caxias, Zito, que vai responder cinicamente que, sim, se utiliza do serviço de limpeza urbana da cidade. O problema, nesse caso, será que você vai descobrir que só ele usa, enquanto o restante do município sofre com o lixo acumulado, e as suas consequências [mal cheiro, doenças, entupimento, enchentes, etc.].

Ao se colocar junto dos principais afetados, Cabral e qualquer outro político agem da maneira mais covarde que um político no cargo executivo pode agir. Retira-se do papel de responsável pelas ações para posar de completamente passivo, como se fosse igualmente uma vítima da situação. Na verdade é ele o principal causador da tragédia.

2 comentários:

Anônimo disse...

Não concordo. Acho que o governador planeja uma política a ser implementada pela polícia, mas ele não tem o controle da situação, é por isso que existem outros cargos a frente da polícia. Garantir que as ações aconteçam de acordo com a estratégia do governo é papel deles.

Ronaldo Pelli disse...

Opa, Anônimo,

Posso estar errado, mas o problema, a meu ver, está embutido na sua própria resposta: "ele não tem o controle da situação".

Mesmo que ele não consiga tratar do dia-a-dia da corporação, e nem acho que ele deveria, ele é o responsável, no meu entender, por tudo o que acontece debaixo da sua alçada.

Acho que seria muito mais digno, por exemplo, em vez de xingar os policiais - coisa que qualquer cidadão pode fazer muito melhor que ele - ele pedir desculpas às vítimas, às verdadeiras vítimas desses crimes.