sábado, 9 de março de 2013

Especialista e escritor de literatura



[Para quem, como eu, prefere ler a assistir a vídeos, tentei escrever a primeira participação do Juliano Garcia Pessanha no debate a seguir. Mesmo que eu não concorde com tudo, principalmente na questão da romantização da criação, acho várias questões dele imprescindíveis.]


Quem habita esse espaço literário já necessariamente se move no interior de um fracasso. a razão para isso é: quando o mundo e a experiência guardam alguma opacidade, o escritor tem amplas zonas para mover sua experiência e o seu dizer. Quando o processo de objetivação e explicação submete e domina cada vez mais regiões da experiência, mais o dizer vai migrando para o especialista, e mais diminui o espaço da província literária. 

Nos últimos cem anos, não só novas realidades saíram da clausura e da latência para entrar no mundo, os átomos, os quarks, o DNA, o sistema imunológico, como realidades que se encontravam fora do regime explicativo, foram objetivadas e colonizadas pelo saber explicitante. A sexualidade, com Freud, os sonhos, Jung e Freud, a relação mãe-bebê, Winnicott, o mundo do outro, da outra cultura, com Lévi-Strauss, o mundo do trabalho, Marx, o mundo da moralidade, do Nietzsche e Freud. Quando alguma coisa, qualquer coisa, sai do estado da latência, desse estado da não-explicação, e adentra no regime moderno de coisa explicada, muda completamente a nossa relação com essa coisa.

Um dos resultados desse processo é que o dizer de uma certa realidade fica colonizado pelo saber que a explicou e a conduziu à luz. Chancelado pela rubrica da verdade, da operatividade, pois a realidade uma vez explicada, é passível de controle e intervenção, pense, por exemplo, no ombro e no joelho, antes e depois da ressonância magnética, ou uma intervenção clínica para tirar uma criança do autismo, imagine a força que o dizer desse especialista vai ganhando. Todo dizer vai sendo arregimentado e calibrado pela linguagem que doravante abre o acesso mesmo àquele setor da experiência. 

Esse processo que pode ser chamado filosoficamente da "lebenwelt", do mundo da vida, [isso eu estudei em um autor que Antonio Cícero foi um dos primeiros a trazer para o Brasil em 1988, Peter Sloterdijk, estou citando um pouco do "Esferas 3", em que ele coloca a modernidade a partir da potência explicativa] leva o escritor a ficar cada vez mais acuado e sem ter o que dizer. O especialista vai tomando conta. A própria experiência do narrar e da leitura como atividades de reconhecimento e de reconfiguração da experiência cede lugar e é transferido em grande parte para outras disciplinas, as chamadas humanidades. Simultaneamente a isso, o que acontece, que eu vejo, os psicanalistas, os etnólogos e filósofos, começam a narrar melhor, e coisas mais interessantes que os escritores. 

Eu cito o exemplo caro para mim do Masud Khan, de "Quando a primavera chegar". Eu mesmo escrevi muito a partir de caso clínicos, ia na casa do meu pai, que era analista, e ia direto no ponto nevrálgico, só que muitos trabalhos eram mal escritos. Quando descobri Masud Khan, fiquei encantado com ele. E o exemplo do romance filosófico "Esferas", do Peter Sloterdijk, de 2,4 mil páginas luminosas, de uma história cujo protagonista é o espaço. Eu considero hoje em dia Peter Sloterdijk o maior escritor vivo, e ele nem é escritor. No caso do campo "psi", é muito claro que ele toma grande parte do terreno outrora da literatura. É nos consultórios que muitas histórias são hoje contadas e recontadas cotidianamente. E é também lá, junto a um especialista, um outro especialista, que a dor e a pergunta buscam um lugar mais acompanhado que o diário, a escrita e a leitura. 

Tive muitos alunos em casa e muitos me relataram que escreviam diário, mas foram fazer terapia e pararam de escrever. Isso foi um tema que o Ricardo Piglia levantou uma vez no Brasil, quando ele veio em 1991. 

O interessante é que nessas condições de perda de terreno para os especialistas, o escritor tentou imitá-los, e se converteu ele próprio num especialista e num profissional da literatura. Essa reação contrafóbica ao fracasso, uma reação maníaca, levou a um fracasso cada vez maior da literatura, na minha opinião. Ao invés de ruminar o fracasso, e deter-se na dificuldade cada vez maior de dizer algo, ou menos de num grito, indignar-se com a situação na qual nos encontramos, isto é, em que o homem não consegue acessar a si mesmo, a não ser pela mediação dos saberes, e o dizer dos especialistas. Dito filosoficamente, se me perdoarem, a situação na qual o processo de objetivação já englobou e engoliu o objetivante, que é o sujeito, e o objetivado - estou falando heideggerianamente. Ambos estão nivelados. O próprio sujeito foi engolido nesse processo.

Uma indignação à altura de quem sabe que perdeu o orvalho e sofre com isso. Uma espécie de dor de exílio. Uma espécie de não poder dizer a não ser pela mediatização desses saberes. 

Ao invés de ruminar o acontecimento e adensar o silêncio, e uma outra relação com a linguagem, o escritor atual tentou imitar o vigor do dizer dos especialistas, saiu por aí doido, atrás de ideias e de ter o que dizer, como Harrison Ford, atrás da arca perdida, procurando assunto. O escritor atual tornou-se o camaradinha criativo, atrás de ideias, de histórias, um caçador de gírias. Ele, na sua fuga contra o fracasso, parece ter se esquecido, de que quem tem milhares de ideias e de projetos é o publicitário. O escritor real tem muitas vezes apenas uma ferida, cujo nome ele desconhece. Mas que ele concede [?] silêncio, uma palavra gaga e balbuciante. A palavra da arte é coisa de recém-nascido ou de moribundo. De quem não está acostumado com o mundo, mas mais tocado pela sua emergência e sua desaparição, do que envolvido em sua estabilidade. Tanto aquele que acaba de nascer, quanto aquele que está para morrer, sabem que a linguagem acontece em nossa boca, quando, desabados dela, e desintoxicados dela, estamos tensos, no surto, susto do mundo. Sabem que "antes que a palavra invada fácil, um olho arde" [esse é um verso de uma amiga minha, Márcia].  "Antes que a palavra invada fácil, um olho arde, um corpo treme."

Já o escritor de meia-idade [uma questão topológica], estabilizado no mundo, vive na precedência da palavra e das referências culturais. Ele é um produto cultural e um malabarista, daí sua falta de vigor. Seus livros não nascem, mas são produzidos, já chegam com crítica e editora. A exemplo do colega [não identificado], que explica tintim por tintim o que fará ao papai [não identificado], o escritor profissional também ajusta o seu dizer ao âmbito da compreensão do seu financiador e do mercado, e nesta calibragem mútua, garante-se a tautologia, a duplicação mesmo, a agonia do totalmente já pensado, totalmente já sabido. 

É óbvio que há também escritores de meia-idade, diferentemente dos nascidos há pouco e dos moribundos, que não são mera dublagem do mesmo, cujo dizer está marcado por experiências reais, mas o acontecimento, hoje, hegemônico é que a literatura, e a palavra literária, que supostamente constituíam a última zona de imunidade, contra a invasão do dizer objetivante dos especialistas, tornou-se ela própria uma zona objetivada e colonizada por especialistas [inaudível].

Catadores de discursos e caçadores de vivência têm hoje à disposição de sua produção estética muito mais assunto. O cardápio estendeu-se muito, pois a própria zona do recém-nascido e do moribundo, esquadrinhada e esclarecida pela filosofia do século XX, tornou-se mais assunto para saques discursivos. 

Para concluir, cito uma poeta que é muito cara, na briga contra essa questão do roubo cíclico sem o afeto da experiência. Sobre o estetismo, é de Maria Tsvetaeva, descobri o livro dela ano passado e fiquei encantado. 

"O estetismo é insensibilidade
A essência substituída por indícios
O esteta se esquiva do matagal da vida, mas nutre-se dele numa gravura
O estetismo é um cálculo, pegar tudo sem dor
Transformar a dor em delícia
Todos têm o seu lugar ao sol, o traidor, o velador, até mesmo o assassino. Mas não o esteta.
Ele não conta, está excluído dos elementos da natureza. Ele é um nada
Meu jovem amigo, não seja um esteta.
Não ame as cores com os olhos. Os sons com os ouvidos. Os lábios com os lábios. Ame tudo com a alma. 
O esteta é um hedonista cerebral. Uma criatura desprezível.
Seus cinco sentidos são fios que não conduzem à alma, mas ao vazio.
Afinidade de gostos? Não se está longe da gastronomia."

Para concluir, outra frase dela: "Você naturalmente será um artista. Não há outros caminhos. Toda vida no espaço mais amplo e no tempo mais livre é estreita demais."

4 comentários:

Monica Fernandes disse...

Ah que pérola Ronaldo. Eu conheci o trabalho do Juliano somente antes de ontem e comecei a ver o vídeo. Hj cheguei na febre de ver com mais calma mas não consegui... Na real a vontade era mesmo a de ler o texto do video, então vc adivinhou e deu sem saber um grande presente p uma estranha. Valeu!

Ronaldo Pelli disse...

De nada, Monica. Disponha.

Luiz Paulo disse...

Agradeço muito à sua transcrição, ronaldo.

Ronaldo Pelli disse...

Não há de quê, Luiz Paulo.