terça-feira, 21 de maio de 2013

Deus, arte e verdade


Nietzsche: "Nós possuímos arte a fim de que não pereçamos da verdade". Nietzsche: "Ao redor do herói, tudo se torna tragédia; ao redor do semi-deus, uma peça sátira; e ao redor de Deus - o quê? - talvez o 'mundo'?" Como é bem claro nessas citações escolhidas por Heidegger para discutir o pensamento nietzschiano, o princípio metafísico de Nietzsche tem a ver com a arte - sob o ponto de vista dele - e verdade. Para o filósofo autor de “Gaia ciência”, há uma conexão clara entre a vontade de potência e a "arte". Sendo que arte, para ele, não se resume ao que é exposto nos museus de belas-artes, nem às salas de cinema, nem às melhoras literaturas - nada de conceitos tão fechados cujas fronteiras se tornam um problema para o próprio conceito, porque, ao serem estabelecidas já se tornam obsoletas, antigas, antiquadas, paradas no tempo. Para Nietzsche, arte é algo mais simples, é toda a possibilidade de criação.

Ou seja, se acompanharmos esse raciocínio, ao se colocar em prática a vontade de potência, todo indivíduo, ou como Heidegger gosta de denominá-lo, todo Dasein, se tornaria um artista. Explicando melhor: ao se colocar em prática, para fora de si, sua vontade, ao tornar essa potência [no caso, agora, de latente], em realidade, o indivíduo, o Dasein, necessariamente criaria algo. Mesmo que abstratamente, mesmo que apenas no campo dos conceitos. É uma criação.

Esse conceito de “arte”, visto dessa forma, então, se torna mais popular. Tira completamente a carga de diferenciação que existe entre aqueles que se consideram superiores por produzirem objetos valorizados pelos outros [ou por determinados grupos que se entronam no papel de juízes do que é bom, ruim e indiferente] e os demais indivíduos. Nietzsche, assim, mostra que todas as pessoas são “artistas” em potencial. São criadoras. Basta, claro, seguir a sua vontade, colocá-la para fora de si. O que, bem, não é exatamente algo exatamente fácil, já que ao produzir “algo”, esse algo provavelmente vai alargar os conceitos anteriores, os limites pré-estabelecidos, e assim desagradar aqueles que querem manter, conservar as relações, a sociedade, o ambiente, como elas são e sempre foram. Criar, ou nas palavras de Nietzsche, produzir arte é desestabilizar o que há.

Porque arte é "o grande estimulante da vida" para Nietzsche. Já Heidegger a conceitualiza de outra forma, bastante parecida: arte é a condição para a vontade se tornar capaz de ascender à potência e aumentar essa potência. Ou seja, é excita, exercita, empurra a potência, massageia, tonifica. É o "primeiro valor que abre todas as alturas de ascenção", diz ele para concluir: "Arte é o máximo valor" – como se mostrasse que a arte, essa criação, é a produção, o resultado prático da vontade de potência [para Nietzsche], do Ser [para Heidegger]. Mais à frente no texto, Heidegger dá novamente voz ao Nietzsche já do livro “Vontade de potência”: "Arte é mais válida que a verdade"1.

ps. A frase final é forte o bastante para terminar o capítulo, mas antes de continuar, seria curioso lembrar uma passagem de “Crimes e pecados”, filme de Woody Allen, que ele revisita o mito desenvolvido por Dostoiévski sobre a moralidade de um mundo sem deus. Após Judah Rosenthal, o personagem de Martin Landau, ter já matado sua amante, vivida por Anjelica Houston, ele se rói em culpa. Começa a revisitar o seu passado, de criação religiosa judaica, com todas as suas culpas envolvidas, e escuta o seu pai dizer uma frase, que encerra a discussão à mesa sobre moralidade: “eu prefiro deus à verdade”.

1Conforme Heidegger, 1977 / 86, em tradução livre.

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