terça-feira, 7 de maio de 2013

Filosofia ou auto-ajuda?

Qual é a diferença entre Lutero e o Kant?, perguntou Adnet. E ele mesmo respondia: um é iluminista [Kant] e o outro protestante [Lutero]. É uma explicação, digamos, genérica, mas ainda assim uma boa explicação. Hoje, aparentemente, temos uma outra questão tão ou mais complexa: qual é a diferença, atualmente, entre a filosofia e a auto-ajuda?



Essa pergunta pode parecer absurda para os partidário da filosofia, de maneira mais estrita. Como confundir, eles devem pensar, o máximo com o mínimo das inteligências? Como colocar no mesmo saco Sócrates, o homem mais sábio de todos os tempos, e Augusto Cury, autor de, entre outros, "Você é insubstituível" e "Dez leis para ser feliz"? Difícil, bem difícil. Mas não impossível.

Para começar, não cabe ao partidário da filosofia escolher como se dividem as coisas no mundo. Mesmo que ele seja seguidor de Aristóteles, que foi o primeiro a fazer isso, suas atuais sugestões são falhas. Portanto se outro mecanismo de poder, com muito mais força, como é caso do Mercado, junta numa mesma prateleira Nietzsche e "Não se desespere - Provocações filosóficas", não se pode fazer muita coisa, além de tentar analisar.

Não é o caso de se aceitar passivamente o Mercado, esse deus preferido da atualidade, que, contrariando as expectativas, jamais é invisível. Mas não se debater contra uma força muito maior que o indivíduo, que simplesmente ignora as posições pessoais. É uma forma de lutar, mas mais calmamente, criando argumentos que façam entender o processo.

Desde "Mais Platão menos Prozac", talvez o marco mais significativo desse processo, o mercado tenta captar, cooptar, dominar a filosofia. Dar um sentido, um significado, uma razão de ser. Uma resposta para a pergunta dos práticos que sempre inquirem "por que você está estudando isso?". A verdade é que, dentro de uma sociedade gerida por esse deus-Mercado, com os seus próprios mandamentos [1º - Vencerás, 2º - Crescerás, 3º - Lucrarás...], a filosofia não consegue se encaixar. Mas por que, então, sobrevive? Se mesmo Heidegger - o Heidegger! - disse que era o fim da filosofia? Bem, porque, entre outros motivos, esse deus-Mercado não dá conta da vida. A vida é muito maior que qualquer deus, único, pode pensar.

Porém, isso não é o bastante. Se fosse o caso, a filosofia estaria restrita, agora, a um nicho, a um segmento, a uma sociedade quase secreta, sem querer ser secreta. Pessoas que falam línguas estranhas, discutem assuntos bizarros, vivem em um mundo completamente longe da "realidade". É quase isso. Só não é porque o Mercado, e os seus fiéis, viram uma forma de explorar a filosofia.

E voltamos à pergunta inicial: qual é a diferença entre filosofia e auto-ajuda? Durante muito tempo na história da humanidade, eu diria que nenhuma. O que difere, hoje, a filosofia da auto-ajuda foi uma sugestão de Nietzsche, ou seja, ontem em termos históricos, de assassinar Deus [nesse caso, principalmente o cristão, mas, numa segunda interpretação, todos os demais juntos]. Em outras palavras: a auto-ajuda fornece um passo-a-passo do que fazer, do que vestir, comer, como se comportar. É um manual de sobrevivência para um deus específico, no caso, atualmente, o deus-Mercado. E a filosofia, desde muito tempo, a grossíssimo modo, discutiu os limites entre o que devemos fazer, como devemos agir, qual é o papel de cada um dentro de uma organização social.

Para borrar os limites entre um tipo de texto que estabelece esses limites e outro que discute esses limites não é preciso ser muito genial. Transformar Nietzsche em um outro objeto de consumo é fácil. É só dizer para os jovens que ele queria que todo mundo fosse o que quisesse ser, sem respeitar qualquer tipo de limite imposto de fora para dentro [pais, sociedade, enfim, deuses]. Além disso, é cool. Quem que não quer ter como auxílio na argumentação contra os pais um pensador alemão bigodudo do século XIX?

Mastigar essas fronteiras foi o que o deus-Mercado fez. Deu uma "utilidade" para a filosofia. Encaixou-a numa prateleira, rotulou-a para o consumo. Fez com que as pessoas a enxergassem como um guia, que sugerisse os lugares bons para se comer, beber, conhecer.

Se isso é ruim? Não necessariamente. Cada um deve ter a liberdade de escolher os seus próprios deuses, da maneira que quiser - desde que seja uma escolha, no máximo do possível, individual. Mas já não é filosofia. E, como sabemos, a filosofia - como outros campos do pensamento, como a arte, a história, etc. - não consegue ser morta. Ela sempre sobrevive, mesmo que de maneiras bem estranhas.

Um comentário:

Donata Campos disse...

Texto completamente equivocado.