terça-feira, 8 de outubro de 2013

Virei estatística

Ontem, pela primeira vez em 32 anos, adentrei uma delegacia de polícia para fazer um registro de ocorrência. Eu era a vítima de um furto - descobri que não tinha sido assaltado, mas furtado, já que não fui constrangido, na minha opinião, gravemente. Os dois ladrões levaram o meu celular razoavelmente velho e cerca de R$ 40.

Estava voltando da passeata no Centro. Peguei um metrô, já que os ônibus tinham sido desviados, e tive que caminhar o trecho de cerca de 200, 300 metros entre a estação e minha casa. Tenho duas rotas óbvias: a que eu tenho muito receio, passando pelo viaduto Carlota Joaquina, já na Avenida Pasteur, porque tentaram me assaltar ali, há uns seis anos, e também porque escutei inúmeras histórias de gente que foi abordada exatamente nessa área. É um trecho sem iluminação, que a partir das 18h não tem movimento, e que há duas boas rotas de fuga, com as escadarias, que levam para o túnel que vai ligar ao Rio Sul. Uma ótima região para emboscadas. E a outra rota, que, apesar de não ser totalmente segura, eu sempre opto, por achar que é possível enxergar melhor o entorno e sair correndo. Foi nessa que eu, meio desligado, fui interceptado ontem.

Era por volta das 20h. Os dois meninos deveriam ter 13 e 16 anos, se eu pudesse chutar. O primeiro, mais novo, mais baixo, mais delicado, usando uma camisa do Santo Inácio, se aproximou e disse que queria um real para comprar pão. Nesta hora eu percebi que seria assaltado, porque eu vi o outro menino chegar logo atrás e os olhares apreensivos, inseguros, sendo trocados entre eles. Mas, por algum motivo, eu fiquei calmo. Aquilo não chegou a me incomodar, muito. Eu abracei o mais novo e disse que sim, iria ver se tinha, quando o outro, mais raivoso, mas ainda assim bastante infantil, me disse para passar a minha carteira e o celular.

Enquanto eu repetia para eles ficarem calmos, o mais novo, tentando praticar a intimidação que deve ter aprendido em algum lugar, colocou a mão dentro da camisa, simulando uma arma. Mas não estavam armados. E eram mais baixos e mais fracos que eu.

A primeira reação que eu tive foi: tudo bem. Eu não preciso desse celular nem desse dinheiro. Eles vão fazer muito melhor uso. Entreguei a carteira, deixei o mais novo pegar o dinheiro e pedi meus documentos. O mais novo, com uma delicadeza que demonstra o quão jovem e inocente ele ainda é, me respondeu que os documentos tinham ficado ali, como se isso desculpasse o seu ato de algum modo. Era a lógica do assalto. Como se explicasse que ele não quer me atrapalhar, apenas precisa fazer o seu trabalho. Eu quase falei obrigado. Ou falei obrigado. Não sei.

O outro, talvez para mostrar algum tipo de agressividade, assim que eu entreguei o celular e eles me devolveram minha carteira com os meus documentos, gritou que eu deveria seguir adiante sem olhar para trás. Respondi que eu faria o que eu quisesse. Ele tentou me agredir com um chute desajeitado e foi a única vez que eu perdi qualquer tipo de calma. Voltei para ele e gritei para ele ir embora. Eu faria o que eu queria ali. O garoto, depois que eu fingi que iria correr atrás dele, atravessou as pistas de autovelocidade correndo, já com o fruto do seu furto em mãos. Não precisava mais de mim.

Na 10a DP, na Bambina, que parece um exemplo fora do tempo de um prédio público burocrático, que, na minha cabeça, não mais existiria, perguntei ao policial, após esperar quase meia hora, e ainda bem antes de ser atendido, se eu deveria fazer o registro. Ele me respondeu que eu decidia, não era obrigatório. Decidi, então, porque eu queria fazer parte das estatísticas. Não sei se vai funcionar, não sei se é válido, mas era a única coisa que eu poderia fazer.

Fiquei, porém, com dúvida sobre o que eu estava querendo fazer era o certo. Se o que eu tinha feito era o certo. Os meninos eram muito novos e claramente inexperientes. Eu poderia tê-los enfrentado, reagido e dito que não, não entregaria nada. Eles não estavam armados. Será que eu fui um trouxa que vai se transformar em um alvo fácil de todos os trombadinhas da cidade?

Na hora, eu só pensei que eu não precisava do telefone. Eu até queria trocar de telefone, antes de eles falarem comigo. E que o dinheiro na minha carteira não era tão importante. Eu já nem sabia quanto eu tinha ali. Realmente acreditei que para eles seria mais importante do que para mim. Isso é um pouco de síndrome de Estocolmo, ou culpa de uma classe média de esquerda? Não sei. Mas, após passar por isso, fiquei pensando como é difícil resolver esse problema da pivetagem. Eles são menores de idade. Se pegos, o que eu duvido, serão recolhidos para instituições que vão triturá-los. Além disso, vivem em bandos, dormindo pelas ruas de Botafogo. No Brasil, não é crime dormir na rua, pelo que eu sei. Mas menores podem ser recolhidos compulsoriamente. O que eles vão fazer com o dinheiro? Não tenho a menor ideia. Mas isso não me importa. Eles são donos dos próprios narizes - infelizmente.

Depois do susto, ainda com a adrenalina alta, tentei me convencer racionalmente que foi a melhor alternativa. Se os dois meninos de ontem rasgassem o casaco que eu vestia, o meu prejuízo seria muito maior. Na vez que outro pivete me abordou no viaduto Carlota Joaquina, ele estava armado com um estilete, que eu não consegui ver e a minha primeira reação foi segurar sua mão. Estava nitidamente alterado e conseguiu destroçar a minha camisa. Quando percebeu que eu estava reagindo - impulsivamente -, ele correu. Lembro que quando voltava, camisa rasgada para casa, um porteiro conhecido de um prédio em frente ao meu ainda sugeriu irmos atrás dele. Para fazer o quê? Bater no garoto?

Esse primeiro caso, apesar de não ter sido furtado, para mim foi muito mais traumático. Cheguei em casa totalmente nervoso, elétrico, querendo matar o garoto. Ontem, por mais incrível que pareça, senti ternura. O menino mais novo parecia um garoto totalmente perdido, que não sabia muito bem o que ele estava fazendo ali. E o mais velho só estava seguindo um script que aprendeu.

Após o primeiro evento, para expurgar esses sentimentos ruins, escrevi uma história, em que um assalto se repetia ad nauseam, em diferentes ambientes, até que ela não tinha mais sentido em si, era apenas um teatro em que os personagens repetem seus atos. Parece que a minha história ganhou vida.

2 comentários:

Laís Maurílio disse...

Fez o certo ao registrar. Quanto á sua reação, quem pode dizer? A cada dia, uma surpresa e uma reação diferente. Se fosse amanhã, pode ser que você desse uma banda em cada menino e fosse pra casa!

Ronaldo Pelli disse...

Poisé. Fiquei com medo de, ao reagir, até machucar muitos os meninos. Ou quebrar meus óculos. Ou rasgar o casaco.

Mas estou só justificando as minhas ações.

Beijos