domingo, 17 de novembro de 2013

'Anticristo', aforismo 39 - Nietzsche

Volto atrás, e vou contar a autêntica história do Cristianismo. Já a palavra «Cristianismo» é um equívoco – no fundo, existiu apenas um único cristão, e esse morreu na cruz. O «Evangelho» morreu na cruz. O que desde esse instante se chamou «Evangelho» era já o contrário do que Cristo vivera: uma «má nova», um dysangelium. É falso até ao contra-senso ver numa «fé», por exemplo a fé na salvação por Cristo, a insígnia do cristão: unicamente a prática cristã, uma vida como a viveu aquele que morreu na cruz, tem algo de cristão... Hoje, uma tal vida é ainda possível e até necessária para certos homens: o Cristianismo autêntico, originário, será possível em todas as épocas... Não uma fé, mas uma acção, um não fazer certas coisas, sobretudo um diferente ser... Estados de consciência, uma fé qualquer, um ter algo por verdadeiro, por exemplo – todo o psicólogo sabe isso –, são de todo indiferentes e de quinta classe perante o valor dos instintos: em teros mais estritos, todo o conceito de causalidade espiritual é falso. Reduzir o ser-cristão, a cristianidade a um ter por verdadeiro, a uma simples fenomenalidade de consciência significa negar a cristianidade. De facto, nunca houve cristão algum. O «cristão», o que desde há dois mil anos se chama cristão, é unicamente uma auto-incompreensão psicológica. Se indagarmos com maior rigor, dominavam nele, apesar de toda a «fé», apenas os instintos. E que instintos! A «fé» foi em todas as épocas, por exemplo em Lutero, apenas uma capa, um pretexto, um véu, por detrás do qual os instintos realizavam o seu jogo – uma sagaz cegueira perante a dominação de certos instintos... A «fé» – já lhe chamei a genuína sagacidade cristã. Falou-se sempre de «fé», mas agiu-se sempre apenas por instinto... No mundo imaginário do cristão, nada ocorre que toque sequer a realidade efectiva: pelo contrário, reconhecemos no ódio instintivo a toda a realidade o elemento impulsor, o elemento unicamente propulsor, na raiz do Cristianismo. Que se segue daí? Que também in psychologicis o erro é aqui radical, isto é, determina a essência, ou seja, é a substância. Retire-se daqui um só conceito, ponha-se no seu lugar uma só realidade – e todo o Cristianismo voltará ao nada! Visto de longe, permanece o mais estranho de todos os factos, uma religião não só condicionada por erros, mas inventiva e até genial unicamente em erros perniciosos, apenas em erros que envenenam a vida e o coração – um espectáculo para os deuses, para essas divindades que são ao mesmo tempo filósofas e com que deparei nos famosos diálogos de Naxos. No instante em que a náusea se afasta delas (e de nós!) – tornam-se gratas pelo espectáculo que o cristão lhes proporciona: o pequeno astro miserável, que se chama Terra, merece talvez, só por causa deste caso curioso, um olhar divino, uma simpatia divina... Mas não subestimemos o cristão: o cristão, falso até à inocência, está multo acima do macaco – uma conhecida teoria das origens torna-se, relativamente aos cristãos, uma simples cortesia... 
[Leio esse aforismo, após escrever 'Nietzschianismo'.]

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