sexta-feira, 18 de julho de 2014

Dispersão

[...] Nossa geração que não consegue manter-se focada em determinados assuntos por muito tempo? Ou seria melhor chamar de geração displicente? Não no sentido de ser negligente, mas no de ser relaxado, naquilo que os anglófilos chamam de “laid back”, e que os brasileiros e os fluminenses são muito conhecidos como produtores de. “Dispersa” é melhor, acredito. Vamos nos perdendo, trocando de assunto, clicando em link que gera outro link, e mais outro, e outro. Nos diluímos em nosso meio, nos misturando, perdendo as fronteiras. Fazemos tudo ao mesmo tempo-agora, ansiosos, nervosos, vidrados, super-homenamente, e nada exatamente completamente.

Um livro, esse objeto que requer bastante da concentração das pessoas, seria como uma espécie de obra de arte em si. É uma escultura, uma escultura interativa, em que as pessoas poderiam refletir sobre a questão da dispersão – mesmo que não lessem uma única linha. Bastava olhar para ele, tocá-lo, lembrar-se que é necessário passar horas com ele, dias até, se dedicar, entrar num mundo completamente diferente do seu, se retirar de onde você está, abdicar da visão única da vida. O livro é uma peça de resistência.  Uma maneira de se agarrar a tradição. Isso é ser conservador? 

Essa superficialidade – essa vontade consciente de se ater apenas às superfícies, que cada vez mais se aprofunda – cria uma outra forma de relação com o tempo, com a passagem de tempo. Antes, ser profundo era uma vantagem, era sinal de mais, de algo a mais. Ser profundo queria dizer mergulhar no passado, saber detalhes até, às vezes, insignificantes, do que se queria conhecer. Era um mergulho vertical, de encostar o nariz no fundo do mar. Agora, há uma horizontalidade. Não se é mais profundo, mas se enxerga além, ao longe, para o largo e avante, outros e mais assuntos, um pouco sobre tudo, tudo sobre o nada. Não dá para fazer uma hierarquia de saberes aqui. 

Estamos em boa companhia quando o assunto é déficit de atenção. Dizem que Einstein, Walt Disney, John Lennon também tinham. Leonardo da Vinci também. Começava um trabalho e logo era distraído para fazer outra coisa, e deixava inacabado o trabalho inicial. De seus quadros, quase todos não estão finalizados, em diferentes graus de acabamento. Há histórias de que ele teve que voltar quase uma década depois para acabar a segunda versão da “Virgem das rochas”, que iniciara e já tinha sido pago. Em outros casos, era comum que ele desenvolvesse um material para ser usado na pintura que se conservasse fresco por um tempo maior, para que ele pudesse produzir suas obras na velocidade que ele quisesse. Poderia dar uma pincelada hoje e ir para casa. Passar uma semana fora, voltar, e apenas observar o que já tinha sido feito, refletindo sobre o próximo passo a dar. Retornar no dia seguinte e passar quatro dias pintando, sem se alimentar de nada. Foi o caso da “Última ceia”, e, inclusive, o motivo da sua ruína: ter usado uma mistura de tinta a óleo com ovo que pereceu em poucos anos. 

Se por um lado Leonardo é visto como o grande nome do Renascimento, quase uma síntese desse movimento, um homem que trafegava por áreas de atuação das mais variadas possível, por outro, esquece-se que, até os 30 anos – já uma idade avançada, para a época, salvo em casos exemplares e exceções, como Michelangelo, que viveu mais de 90 anos – ele não tinha produzido nada realmente relevante no campo da pintura para ser considerado um gênio. Quando se oferece para o Sforza, o duque de Milão, se vende – no sentido de mostrar suas qualidades – como um engenheiro, como alguém que conseguia produzir equipamentos militares, armas que tornariam a cidade-estado mais poderosa. 

Sforza era um homem que não estava na lista da sucessão do trono, mas que dá um golpe no seu sobrinho, de 7 anos, filho do seu irmão mais velho, que acabara de falecer, e sobe ao poder. Era um homem educado nas artes militares, o que não era comum entre os príncipes distantes do verdadeiro comando. Eles geralmente estudavam apenas o clássico: artes, línguas, matemáticas. Por isso, talvez, ele aproveita o talento artístico de Leonardo para recriar, ou emular, a academia de Platão, com Da Vinci como chamariz principal e grande nome. Foi o primeiro a descobrir a força dessa “marca” – e a partir de então, o mundo o vem venerando. Uma marca dispersa.

2 comentários:

Marina disse...

"perdendo as fronteiraS", no primeiro parágrafo? ;)

Ronaldo Pelli disse...

ou isso. :-*