segunda-feira, 26 de junho de 2017

Comunas [cristãos] de Paris

A primeira vez que visitei a França, ou melhor, Paris, eu morava na Inglaterra, em 2012 [disclaimer: esse texto não é uma reclamação de Primeiro Mundo, nem uma tiração de onda, mas uma crônica de uma viajante, com cheiro de sociologia de botequim - não confundir com o carneiro montanhês francês].

A minha primeira impressão sobre a França, ou mais especificamente sobre Paris, se sustenta quase exatamente igual desde então. Se há alguma diferença, ela está apenas na profundidade do que eu senti nesse primeiro coup d'œil.

Percebi, em comparação, que os londrinos teriam a melhor-pior maneira de encarar o outro, o estrangeiro: ignorando-o; comportamento, na superfície, igual ao que ele pratica com qualquer outra sujeito, independentemente de sua origem. Já o parisiense faz questão de mostrar que há uma diferença entre ele e o outro.

Esse comportamento que ressalta a diferença não é - vendo agora - necessariamente pior que a inglesa. Nessa primeira visita, cheguei a apelidá-la de pior-pior maneira, mas hoje vejo que uma sociedade complexa como a parisiense cria diversos mecanismos para responder a esse primeiro impulso de segregação.

Autoestima: "Ainda um francês que se
faz inesquecível"

Já é um clichê dizer que Paris e Londres são nêmesis. Cidades-irmãs separadas por um estreito canal que muda de nome dependendo do lado que você o enxerga. Uma rivalidade parecida com a que acontece com Rio x São Paulo, Barcelona x Madri, Nova York x Los Angeles.

Essa disputa entre Londres e Paris, suspeito, nasce do fato de ambas terem sido capitais de países que, nós querendo ou não, justamente ou não, dominaram política, cultural, filosoficamente o mundo chamado Ocidental por séculos. Em suma, foram o berço do imperialismo clássico, de raiz, imperialismo moleque, daquele que escravizava sem meias palavras, sem qualquer tipo de desculpinha esfarrapada [sic] politicamente-correta [sic]. E, consequentemente, ainda hoje continuam exercendo uma influência inegável no xadrez mundial da atualidade. Pense no [combalido] Conselho de Segurança da ONU, por exemplo.

Ao mesmo tempo e da mesma forma, ambos Estados também perderam consideravelmente suas áreas de exploração-colonização, direta ou indiretamente. Houve a ascensão dos EUA, houve o processo de independência, houve a formação da UE. Todo esse processo de perda de poder aconteceu há no máximo 50 anos, o que mostra como ele é recente. A produção intelectual apelidada de pós-colonial [talvez após Edward Said e o seu "Orientalismo"] floresce principalmente nesses dois países, não por coincidência [mas não apenas, vide Portugal e EUA, só para citar outros dois casos bem diferentes].

A diferença do tratamento ao outro, entretanto, não pode ser explicada nesse passado em comum. Aí que mora a distância entre as chips e as frites. Minha suspeita tem a ver com com a mentalidade religiosa em ambos os países.

Talvez um grande exemplo [há vários] de como a religião não é exatamente o centro da vida inglesa seja o fato de dentro da catedral de Westminster haver duas enormes homenagens a dois santos da ciência: Charles Darwin e Isaac Newton. Isso sem contar ainda com o canto dos poetas, onde vários dos principais escritores ingleses estão enterrados [aqui em Paris, eles estão no Panthéon, cuja principal atração, na minha humilíssima opinião, é o pêndulo de Foucault]. Além disso, podemos pensar que a chefe da igreja anglicana é... a rainha. Se isso ainda não serviu para mostrar a diferença entre um país e outro no quesito, último argumento: Na Inglaterra, todos os museus são gratuitos, enquanto as igrejas cobram ingressos para sua visita. Bem, acho que não é necessário lembrar que na França é exatamente o oposto, né? Notre Dame, Sacre Cœur e companhia têm livre acesso, enquanto o visitante comum tem que gastar uma grana para ver a fila de turistas tirando foto com a Gioconda.

O cristianismo, principalmente o catolicismo, é central no pensamento francês. Mesmo que não seja óbvio, ele aparece subtefurgiamente. O inglês seguiu a cartilha weberiana antes mesmo de ela ser escrita.

Há, sugiro, por conta dessa diferença, uma culpa - que não dá para chamar de outra coisa que não "católica" - nos franceses. Como se eles soubessem, mesmo que inconscientemente, que dependem, sempre dependeram, do outro - do estrangeiro - para serem o que são: uma potência mundial. Não precisa ser versado nas artes psicanalíticas para sacar que qualquer dependência cria ódio tanto no dependente quanto no objeto de dependência.

Por outro lado, esse sentimento mais explosivo, mais emotivo, cria, como já mencionado, mecanismos de compensação. Pense no caso clássico de se pensar a diferença entre o racismo brasileiro, que tem vergonha de dizer o seu nome, em relação ao americano, em que ele é escancarado. De qualquer forma há uma maneira "melhor" de ser racista? [Essa pergunta, aliás, faz algum sentido?]

Um desses mecanismos é, claramente, a força da esquerda na França. Mesmo que do outro lado da poça se discuta seriamente o socialismo e suas origens (Marx e Engels - inglês em alemão - moraram lá) - a impressão é que do lado de cá, o pensamento mais libertário é bem mais forte e constante. Pense nas grandes revoluções ou revoltas: 1789, 1848, 1871, a resistência francesa na Segunda Guerra, 1968. Claro, houve revoltas e revoluções também do outro lado do canal, uma até em que o rei perdeu a coroa, e muito antes de se inventar a guilhotina. E, sim, a mais famosa das revoluções de cá não mudou, assim, muito as estruturas do estado das coisas. Mas é inegável a tentativa francesa de tentar, como dizem os anarquistas do Comitê invisible em seu livro "Maintenant", criar em terra o reino dos céus, prometido na bíblia. Mesmo com o Estado laico e tudo. Que estranho sentir saudade, mesmo que de maneira oblíqua, da santa igreja apostólica romana.

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