terça-feira, 23 de janeiro de 2007

Chico e eu

Conheci Francisco Buarque de Hollanda há, razoavelmente, pouco tempo. Estava já na faculdade (a primeira). Ou seja, não sou daqueles que cresceram com os pais escutando os discos dele. Contudo, quando o ouvi, liguei o nome à pessoa, como dizem. Foi numa dessas exposições da Imagem do Som, no Paço Imperial, nos idos de 1999. Cheguei lá, coloquei um fone e, durante a execução da música, me deliciei com as imagens produzidas. Impressionei-me sobremaneira.

Tudo isso para dizer que fui ao show dele, neste último domingo. Foi bom, mas não excelente. Ele tocou músicas que adoro ("Morena de Angola" [lembro que a "imagem", na exposição, era uma mulher morena com apenas uma das pernas], "Futuros amantes", entre várias), e outras do novo CD, "Carioca".

Minha teoria é que Chico está "abandonando" a poesia para adentrar na prosa. E isso se reflete até nos arranjos de suas músicas. As letras parecem não fluir. As métricas são esquecidas, o ritmo sumiu. Mesmo assim, a média de suas canções é altíssima, vide "Ode ao rato", a única canção mais moderna e a melhor do "Carioca". Eu que me decepcionei.

E foi um típico show do Chico. Mulheres gritando, platéia com o Caetano presente e até uma fã mais corajosa que subiu no palco e tascou um beijo no cantor.

Aliás, em falando no mano Caê, tenho outra teoria: o baiano seria um músico que se adaptou ao tempo percorrido, enquanto Chico virou um especialista em um tempo, isso, claro, sem desmerecer nem um nem outro. Mas essa teoria é papo para outro dia...

Co-incidências

"Foram apenas 36 anos de vida para deixar marcas musicais e pessoais tão poderosas que muitos sustentam com convicção que ela foi a maior cantora da música popular brasileira. "

Elis Regina, 25 anos após a sua morte, consegue que duas pessoas, de diferentes lugares, escrevam uma primeira frase exatamente igual, sem tirar, nem pôr.

quinta-feira, 4 de janeiro de 2007

Links legais

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sexta-feira, 8 de dezembro de 2006

monografia

Hoje, entreguei o meu terceiro trabalho de conclusão de curso. Subscrevo a conclusão.

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Paródia: essa é a chave para entender a obra de Woody Allen. Ou seja, Allen pega um objeto artístico que já existe e o retrabalha, de maneira que, assim, o transforme em um novo. É um multiprocessador cultural, que junta os cacos de qualquer arte, o desconstrói e o monta à sua maneira. Preenche a mesma estrutura com um novo substrato. Não à toa Veríssimo explica que ele produz cultura de segunda mão. Não no sentido de ser pior que a primeira mão, mas no sentido de aceitar que não há origem quando se aborda o assunto arte e dando uma nova visão para o mesmo assunto. Ele realça o trabalho primeiro dando o toque de humor característico, fazendo com que o fim se diferencie do início.

Allen age assim com a literatura, com o cinema de Fellini, com a própria vida e, principalmente, com Ingmar Bergman. Mescla sua tradição judia, de comediante de cabaré, com a absorção do cinema do sueco. Há exemplos diversos, mas um dos menos citados é “Desconstruindo Harry”, filme de Allen de 1997, com “Morangos Silvestres”, de Bergman (1957).

Naquele, o nova-iorquino vive Harry Block, um escritor com bloqueio criativo que usa a vida de pessoas próximas como material para as suas histórias. Claro que os companheiros não gostam dessa idéia e ele vai se isolando de todos. Uma clara referência, só que em termos cômicos, para o fato de críticos em todo mundo afirmarem que ele faz cinebiografias de si mesmo. Ou seja, uma paródia da própria vida. Também se pode citar, novamente, o Fellini de “8 ½”. Citações é o forte de Allen.

Junte à trama de “Desconstruindo...”, um convite para Block receber um prêmio na universidade que estudara e fora expulso. Só que é exatamente neste período que Block está isolado dos amigos. Para não fazer a viagem sozinho, ele arregimenta três companheiros: uma prostituta, um amigo cardíaco (que morre com um ataque do coração no caminho) e o filho, pego na porta do colégio, contra a vontade da mãe. Antes do destino final, ele ainda pára para visitar a irmã, uma judia ortodoxa.

O mesmo invólucro de “Morangos Silvestres”. Neste, Isak Borg (Sjöström) é um médico que viveu apenas pensando no seu sucesso profissional, se tornando frio e distante de todos os familiares. Ao receber um convite para retornar à universidade que concluiu, ele percebe que não tem com quem compartilhar a glória, já que se encontra sozinho. Entretanto, ele oferece carona para a nora e, no caminho, encontra três jovens que o fazem lembrar da própria juventude. Antes da universidade, ele visita a mãe, uma senhora quase centenária e gelada.

Claro que dentro desse mesmo recipiente, que poderíamos apelidar de road movie existencial, Allen e Bergman colocam conteúdos diferenciados. O nova-iorquino é satírico ao extremo, enquanto Bergman visita a infância e juventude na tentativa de explicar como foi construída a personalidade de seu protagonista. Mas é exatamente nessa diferença que ressalta a obra de Allen.

É como se ele invertesse o sinal de drama para o de comédia, sabendo que, no fim, ambos têm a mesma origem. O crítico Jaime Biaggio comenta esse ponto:

“Woody Allen é um comediante muito inspirado, e sabe como poucos imbuir de dramaticidade o riso. Por isso mesmo, quando se vale dessa arma, acaba por prestar belas homenagens indiretas ou mesmo diretas a Bergman (dá para encarar ‘Desconstruindo Harry’, pra mim talvez o melhor filme dele, dessa forma, por exemplo).”

Em uma pequena expressão: é um stand up comedian existencialista