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terça-feira, 20 de março de 2018

Práticas da conspiração

Dois trechos da excepcional reportagem do "Guardian" (que você DEVE ler - link ao fim) sobre como as nossas escolhas como democracia são facilmente manipuláveis. Dois trechos que falam diretamente sobre nossa comarca aqui.

"SCL Elections had used a similar suite of tools in more than 200 elections around the world, mostly in undeveloped democracies that Wylie would come to realise were unequipped to defend themselves."

(...)

"Millions of people’s personal information was stolen and used to target them in ways they wouldn’t have seen, and couldn’t have known about, by a mercenary outfit, Cambridge Analytica, who, Wylie says, “would work for anyone”. Who would pitch to Russian oil companies. Would they subvert elections abroad on behalf of foreign governments?

It occurs to me to ask Wylie this one night.

“Yes.”

Nato or non-Nato?

“Either. I mean they’re mercenaries. They’ll work for pretty much anyone who pays.”"

Link: https://www.theguardian.com/news/2018/mar/17/data-war-whistleblower-christopher-wylie-faceook-nix-bannon-trump

quarta-feira, 19 de fevereiro de 2014

Uruguai: um estudo de campo

Professores, acadêmicos, estudiosos passam a vida inteira para tentar decifrar um aspecto de seus próprios países e nós, quando passamos apenas o período de nossas férias no lugar, já nos achamos no direito de dizer o que é ou não é tal lugar. É claro que não dá para saber ao certo o que é um país - nem em 20, 30 dias, nem em uma vida inteira. Mas, talvez, os primeiros dias, aqueles em que você está com as antenas mais abertas, que tenta captar todas as nuances do lugar, que confronta com as suas expectativas, ou seja os dias das suas férias, podem ser os mais marcantes. Feita esta reserva, podemos continuar afirmando o óbvio: o Uruguai é surpreendente - positiva e negativamente.

O polêmico Palácio Salvo, durante um tempo o mais alto edifício da América Latina
Comecemos pelo aspecto que talvez mais vai boquiabrir os brasileiros-classe-média-liberais: Mujica não é uma unanimidade entre os uruguaios. A primeira pessoa que me falou isso, não exatamente uma esquerdista, não me convenceu. Porém foi ela quem me deu pela primeira vez as razões e os motivos que iriam se repetir por toda a viagem.

O melhor paralelo que eu pude fazer - que não é assim excepcional - foi com Lula, e sua recepção no Brasil versus no exterior. Claro que Lula foi o presidente que teve a maior aprovação da história, que elegeu sua sucessora sem muito esforço, mas o símbolo que ele representava para os estrangeiros, de um homem do povo, um operário que chegou ao cargo mais importante da política brasileira, era muito maior. O que leva a crer que os estrangeiros ficamos apenas com o símbolo do político, com a poesia que ele representa, e, nós sabemos, sabemos desde Ferreira Gullar: o preço do feijão não cabe no poema.

É aí que Pepe trabalha
José "Pepe" Mujica é criticado por falar demais, em uma linguagem simples, não ter tido uma profissão regular, ter virado um profissional da política, por ter prometido grandes investimentos na educação, que não se concretizaram. Até seu aspecto mais simples de viver é visto, pelos seus partidários, como uma espécie de obrigação a que todos os políticos deveriam assumir. Já pelos seus opositores, como uma espécie de exotismo, que estão loucos para se ver livre. Articulista do jornal de direita El Observador um determinado dia dizia que esperava a próxima eleição ver novamente um presidente de gravata. Acho que conhecemos bem o que é isso.

O partido de Mujica, o comparativamente recente Frente Amplio, é visto como um rolo compressor, que estraçalhou a oposição e aprovou tudo o que queria. E é ainda mais criticada por não ter feito, mesmo com essa ampla maioria, os investimentos prometidos em campanha. Aliás, os oposicionistas acham que o pior inimigo da F.A. é a própria F.A., que é um saco de gatos, que lutam para puxar o país mais ligeiramente para a esquerda ou muito mais para a esquerda. Também já vimos esse filme.

Os uruguaios também têm um Pan de Azúcar - esse morro aí
Pelo outro lado, os tradicionais partidos Blanco e Colorado, de direita, tentam voltar ao governo na eleição deste ano, utilizando um discurso bem conhecido do espectro político que representam: o medo da violência. Argumentam que Montevidéu, por exemplo, capital do país, principal cidade que reúne cerca de metade da população da baixamente populada nação, virou um caos. Esqueceram de combinar com a realidade: o país - e também a cidade - é a de menor taxas de homicídio, por exemplo, de toda América Latina [o que não é muita vantagem, é verdade].

O argumento, contudo, não encontra eco na população, aparentemente. Pelo que eu pude perceber - e eu posso estar completamente enganado - os jovens gostam ou toleram a F.A. por conta de suas atitudes mais liberalizantes [apesar de ninguém comentar, espontaneamente, sobre a legalização da maconha, por exemplo, como se fosse algo que não impactasse a vida deles, como se fosse algo normal, comum, mais que obrigação]. Os mais pobres gostam da F.A. porque, bem, porque pela primeira vez foram atendidos, mesmo que em menor grau em suas exigências. A classe média - e o Uruguai é um país de classe média - porque não enxerga na direita qualquer possibilidade de melhora real. Só sobram os ricos, frequentadores de Punta del Este e adjacências, para votar na direita, com medo de uma invasão de estrangeiros, por exemplo - uma das últimas propostas a assustá-los.

Tirei poucas fotos em Punta del Este
Por isso tudo aí, o Uruguai me surpreendeu: esperava uma versão em miniatura da Argentina e encontrei um país bastante diferente, com uma influência, sim, imensa do irmão do sul, mas também a presença constante e maciça do outro irmão, do norte. O Brasil existe para o Uruguai, inclusive, como uma alternativa da ligação com os argentinos.

Aliás, esse é um belo conselho para se dizer aos gaúchos que ainda sonham em se separar do Brasil: dê um pulo no Uruguai. O país é extremamente dependente dos países vizinhos para sua sobrevivência econômica. Houve crise na Argentina? Diminuirá o fluxo de turistas nas praias uruguaias no verão. Menos divisas, menos dinheiro, crise uruguaia. Inclusive, o conselho de estudiosos das relações internacionais para o próximo presidente era exatamente tentar fugir dessa dependência com os hermanos, e tentar uma maior aproximação com os irmãos.

Piriápolis
No aspecto social-comportamental, Montevidéu me pareceu uma cidade um tanto quanto provinciana, no melhor e no pior que o termo carrega. Se é ainda comum ver senhoras e senhores de certa idade sentados fora de casa, observando a rua, tomando o mate do fim do dia, coisa que no Rio, ao menos, só vemos na nossa memória do subúrbio, e em comunidades, quando é possível, também é curiosa o tom das conversas da juventude, que se baseia quase que na totalidade em uma espécie de colunismo social ao vivo, quando não resvala na fofoca moralista.

Essa foto é de Colonia, mas poderia ter sido de Mdeo
Claro que esse comportamento futriqueiro é comum em todos os lugares onde há círculos sociais: todos temos nossos códigos de conduta e, caso algum deles seja quebrado, se torna objeto de pauta. Mas, com uma população tão pequena, é mais comum que todos se conheçam, que os círculos sejam mais fortes, que os compartilhamentos, mais intensos. Sem dúvida há universidades importantes, livrarias incríveis, cujas vitrines espelham as obras completas de todos mais conhecidos os filósofos ocidentais, gente que estuda arte, que lê, pensa, desenha, produz. Mas, contrariando a música, o que se pode perceber é que a classe média e alta individualista é classe média e alta individualista em qualquer canto. As misérias é que são diferentes.

De toda forma, não espere um país "de esquerda", seja lá o que isso queira dizer hoje em dia - bastando passar em Punta del Este para acabar com qualquer expectativa nesse sentido. Mas um país mais tranquilo, mais calmo. E múltiplo: quando em Cabo Polônio, talvez um dos lugares mais incríveis que eu conheci na vida, perguntei para duas montevideanas se aquele pequeno pueblo, encravado dentro de um parque nacional, um pequeno paraíso que não tem luz elétrica nem água corrente, faria parte do Uruguai, ou era uma exceção, elas me disseram que sim. Que o Uruguai era exatamente a soma de suas diversidades, de cidades exuberantes como Punta del Este, e rústicas, como Cabo Polônio. De achados históricos portugueses, como Colônia do Sacramento, a cidades que representam a tradição da colonização espanhola na região do Prata, como Montevidéu.

Cabo Polônio
Como todos os países, o Uruguai não é um, mas vários. Esse foi apenas o que eu consegui enxergar e reproduzir.

quarta-feira, 8 de janeiro de 2014

O fim do jornalismo como fim

Quando terminei a faculdade de Relações Públicas, um detalhe se me apareceu: de todos os meus amigos mais próximos, apenas um continuava a trabalhar com a matéria. Um tinha virado fotógrafo, outro, ido trabalhar com cinema, um terceiro fez concurso público. Eu, como aconteceu com outros comparsas, fui fazer a segunda faculdade. Agora, parece que o mesmo procedimento se repete, com o jornalismo.

De todos os meus amigos mais próximos, apenas um trabalha com jornalismo hardnews, com o que seria o jornalismo-jornalismo, aquela editoria em que cabe tudo, você realmente é especialista em porra-nenhuma, mas sabe falar sobre qualquer assunto por cinco minutos, no mínimo. E mesmo ele faz uma segunda faculdade agora, depois de anos, em Ciências Sociais.

Não quer dizer que eu não conheça ninguém que trabalhe com RP - conheço vários; a imensa maioria, mulheres - ou que trabalhe na geral (todo mundo de TV aberta é de geral, mais ou menos). Mas que o jornalismo, de certa forma, expulsou os seus profissionais para outras áreas afins. Ou nem tão afins.

O jornalismo sempre foi a profissão que, via de regra, se o cara gosta e se destaca na sua função, como a reportagem por exemplo, ganha como premiação sair do seu lugar e virar editor. Agora, com a especialização e, principalmente, com a dificuldade de traçar as fronteiras entre onde começa e termina o jornalismo dentro de uma grande empresa de comunicação no Brasil, vários jornalistas acabaram navegando em outras águas. Mas eu vou um pouco além, me arriscando num terreno que eu não tenho qualquer informação além do meu próprio chute.

O fulano que escolhe - ou, ao menos, escolhia - cursar o jornalismo era um sujeito com um pezinho na utopia. De leve, ao menos. Ele queria fazer reportagens que mostrassem as mazelas do mundo. Queria denunciar os escândalos políticos, econômicos. Queria fazer aquela entrevista com o grande artista do momento. Em suma, queria, mesmo que sutilmente, mesmo apenas em um resvalar, mudar o mundo. Que fosse um tiquinho, queria. Que fosse apenas na forma de ajudar alguém. Queria. Só que o jornalismo não é mais isso há muito tempo.

Em geral, o jornalismo virou uma grande reprodução de assessorias de imprensa - aliás, lotados de jornalistas que querem um pouco mais de conforto, e quase sem RPs que não são vistos como capacitados para o trabalho. O jornalista simplesmente repete as versões oficiais, na tentativa de fechar o jornal [em qualquer que seja o seu formato] na hora. Deadline foi e continua sendo um dos principais métodos do jornalismo, mostrando a sua urgência. O que mudou não foi o prazo, mas a quantidade de material que se tem que produzir.

Não há tempo para o jornalista refletir sobre a história que está escutando/produzindo/escrevendo. O que ele ouve é tida como verdade, sem contestação, sendo que o entrevistado não assinou nenhum contrato de veracidade com ele, não colocou a mão sobre a Bíblia para garantir de que falaria apenas a verdade, nada além da verdade. Assim nascem as reportagens que são apenas chapa-branca.

Acho que esse desespero, essa necessidade de publicação sem tempo para parar, respirar, e pensar sobre o que está sendo publicado, é o que tirou o tesão dessa geração de jornalistas, a qual eu faço parte, humildemente. Por sorte caí em uma revista mensal com características muito próprias, que me dão algumas vantagens e muitas, mas muitas desvantagens. Entre as vantagens está exatamente a possibilidade de revisitar o que me foi dito. Já as desvantagens...

O provável é que o jornalismo apenas reflita os grandes anseios da população em geral, que quer ler notícias mais simples e diretamente, sem qualquer tipo de informação mais complexa. O jornalismo, agora, corre atrás do prejuízo para criar novos formatos de divulgação, que não são mais o escrito, nem apenas o visual, quiçá o áudio, mas uma mistura dessas linguagens, num ambiente que não é assim mais tão novo, mas que parece que descobrimos recentemente para que é que existe mesmo.

O jornalismo vai acabar? Claro que não. Só vai ter que mudar de roupa, para se adequar à nova moda. Vamos ler menos? Provavelmente não, apenas em menor profundidade e com menos atenção. Isso é definitivamente ruim? Não necessariamente. Quem disse que temos que ler para sermos melhores?

quinta-feira, 14 de novembro de 2013

Felicidades e tristezas em 'Orfeu Negro'

[Publicado originalmente aqui.]

É bastante representativo que a música mais conhecida fora da peça Orfeu da Conceição, de Vinicius de Moraes, seja a que canta “tristeza não tem fim / felicidade sim”. Em todas as suas estrofes, a canção mostra como a felicidade é efêmera: gota de orvalho numa pétala de flor, pluma que o vento vai levando pelo ar. Curiosamente a música se chama "Felicidade", e é representativa porque resumiria o caráter da tragédia, que virou filme pelas mãos do francês Marcel Camus (sem parentesco aparente com o outro Camus, o Albert), com a trilha sonora assinada por Tom Jobim. Mas será que toda tragédia mostra que a tristeza não tem fim, apenas, no caso, a felicidade?

O filme de Camus, Orfeu negro, é falado em português e situado no morro da Babilônia, como se fosse uma espécie de Olimpo carioca, com o Pão de Açúcar de um lado, a praia do Leme do outro. Vinicius percebe isso e escreve na introdução da peça: “O morro, a cavaleiro da cidade, cujas luzes brilham ao longe”. Ele traz o mito trácio de Orfeu para a realidade dos negros e das favelas do Rio de Janeiro no fim da década de 1950, com direito a samba, carnaval e sensualidade. Novamente para comprovar isso, na introdução da peça, Vinicius sugere que “todas as personagens da tragédia devem ser normalmente representadas por atores da raça negra, não importando isto em que não possa ser, eventualmente, encenada com atores brancos”. Ou seja, não era uma cota, mas uma indicação de como o seu autor, o branco mais preto do Brasil, ficaria satisfeito. E, comprovando o nosso racismo velado, teria sido, segundo o site oficial de Orfeu, apenas na primeira montagem da peça, em 25 de setembro de 1956, com quase meio século de existência, que o Theatro Municipal recebeu um ator negro em seu palco. No caso, um elenco inteiro.

Para perceber a importância do herói Orfeu para a mitologia dos trácios – um povo que ficava exatamente na ligação entre o que hoje chamaríamos de Grécia, Bulgária e Turquia –, Voltaire, em seu Dicionário filosófico, o compara a Abraão, entre judeus, cristão e muçulmanos, a “Tot entre os egípcios, o primeiro Zoroastro na Pérsia, Hércules na Grécia” e “Odin nas nações setentrionais”. Sua história, diferente de outros mitos, não tem uma versão “oficial”, não aparecendo em Homero ou Hesíodo, por exemplo, mas já era conhecido no tempo de Ibicus (c. 530 a.C. ) e Pindar (522 – 442 a.C.), que o chamava de “pais das canções”. Em algumas fontes, se diz que Orfeu seria filho de Apolo e da musa Calíope (como a própria peça de Vinicius, que coloca como sua mãe Clio, a musa da História), em outras, esse parentesco não é citado. Há muitas referências a Dionísio, inclusive chegando a dizer que ele seria a hipóstase do deus grego, ou seja, sua realidade concreta, sua substância, sua “encarnação”. De qualquer forma, é curiosa a ligação com esses dois deuses (Apolo e Dionísio), principalmente após Nietzsche, em O nascimento da tragédia, os ter colocado em posições quase antagônicas, de um lado o belo, o perfeito, a verdade, a razão, do outro o instinto de força, de luta, de desequilíbrio. No meio, entre os dois, a música. É aí que Orfeu, o herói, se situa. É o ponto de convergência entre Apolo e Dionísio.

Morto por mulheres
Se não temos a certeza do texto oficial, podemos perceber que em todas as versões que se contam sobre o mito, há uma coincidência: Eurídice. É por ela que Orfeu se encanta, se apaixona, e é por ela que ele vai até o Hades, o reino dos mortos. Os dois estão juntos quando Eurídice foge da perseguição do pastor Aristeu, e, na fuga, pisa em uma serpente que a pica, e a mata.  Desesperado, Orfeu resolve usar a sua arte para trazê-la de volta à vida. Desce ao submundo, e encontra Hades que fica sensibilizado com a sua música, e com o seu sofrimento, e faz-lhe a proposta de trazer Eurídice ao mundo debaixo do sol. Hades aceita mas impõe uma condição: desde que, na trajetória, Orfeu não olhasse para sua amada. Mas o amor nem sempre é paciente. O desespero, a ansiedade e a insegurança foram maiores e Orfeu, antes de chegar de volta ao mundo dos vivos, se vira e a encara. Assim, desrespeitando a ordem de Hades, a perde para sempre. De volta ao mundo dos vivos, Orfeu foi morto – as assassinas variam, mas sempre mulheres – por aquelas que se sentiram desdenhadas e invejavam o amor de Orfeu por Eurídice. “Mas as Musas, a quem o músico tão fielmente servira, recolheram seus despojos e os sepultaram ao pé do Olimpo. Sua cabeça e sua lira, que haviam sido atiradas ao rio, a correnteza jogou-as na praia da Ilha de Lesbos, de onde foram piedosamente recolhidas e guardadas ” – explica La leyenda dorada de los dioses y de los héroes, da autoria do helenista Mario Meunier, citado na apresentação da peça de Vinicius.

O filme de Camus, que venceu a Palma de Ouro do festival de Cannes, além de ganhar o Oscar de melhor filme falado em língua estrangeira, segue esse mito. Orfeu (Breno Mello) é um motorneiro e um grande músico, um dos principais componentes da fictícia escola de samba do morro da Babilônia. Segundo a lenda em torno de si, é ele quem faz, com o seu violão, o sol se levantar todos os dias de manhã. É um sujeito alegre, simpático, por quem as mulheres do morro vivem suspirando, enquanto os homens o consideram um grande camarada. Mais atirada que as demais, Mira (Lourdes de Oliveira) consegue levá-lo a um cartório para que fiquem noivos. Mas o homem que os atende, como um oráculo, já vaticina: Orfeu sempre ficou, fica e ficará com Eurídice. E Eurídice (Marpessa Dawn) já estava lá. Tinha acabado de chegar ao morro da Babilônia, vinda do Nordeste, fugindo de um homem, fazendo as vezes do pastor Aristeu, que ela diz que lhe quer mal. Chega no início do carnaval e vai ficar na casa da alegre Serafina (Léa Garcia), que vai proteger o casal e criar situações para que Mira não perceba a aproximação dos dois. A partir daí, a história segue até o seu esperado fim.

O que Vinicius de Moraes (e depois Camus) fez com Orfeu foi seguir uma tradição da modernidade, a mesma que o irlandês James Joyce já tinha seguido ao visitar a Odisseia em seu clássico Ulysses. Eles trazem o mito grego para os dias de então, mostrando como eles são eternos, e adaptar determinadas passagens para cenários e situações da cidade em questão. Joyce com Dublin, Vinicius com o Rio, mas o Rio mais pobre que há. Além disso, Joyce também usou da linguagem que era mais cara aos anglo-saxões, a literatura, enquanto Vinicius quis misturar palavra, som e gestos no teatro, mostrando o caráter menos letrado do nosso povo, mas não menor em nenhum aspecto, por conta disso.

Na ida ao reino dos mortos, por exemplo, Camus teve a brilhante ideia de adaptar um dos principais símbolos que há no Brasil de ligação entre os vivos e os não-vivos. Após a morte de Eurídice, Orfeu fica vagando pela cidade cheia por causa do carnaval. Em seguida, é levado por um faxineiro que se apieda de seu desespero para um terreiro de uma religião afrodescente, onde acompanha um ritual de evocação de espíritos. O seu acompanhante sugere que ele cante, para chamar Eurídice de volta, e Orfeu obedece. O clima da cena aumenta, com som de atabaques crescendo de volume, várias mulheres vestidas de branco andando em círculos, como se quisessem entrar em transe, até que uma delas recebe um santo. Orfeu fica assustado, mas continua cantando, até que se ouve uma voz, a voz de Eurídice, vinda de trás de Orfeu. Ele fica ainda mais surpreso, não esperava conseguir encontrá-la. Eurídice diz que eles poderiam conversar, mas que nunca mais se veriam. Ele jamais poderia se virar para vê-la. Se fizesse isso, ela desapareceria para sempre. Desesperado e sem aguentar ficar longe da mulher que ama, Orfeu se vira e vê não Eurídice, mas uma mulher mais velha, que não tinha aparecido até então, e que logo depois, sai do transe. O espírito de Eurídice já tinha ido embora.

Ao voltar para o morro, depois de já ter encontrado, ao menos, o corpo de Eurídice, Orfeu, carregando o cadáver nos braços, é recebido por uma ensandecida Mira, que havia descoberto que estava sendo enganada. Ela ataca Orfeu que morre, ao cair de uma ribanceira, junto com Eurídice. O herói, na morte, se une à sua amada.

Além da felicidade
A história de Orfeu, como a grande maioria das tragédias gregas, mostra que não podemos escapar do nosso destino último, que é a morte.  Mas mostra também que até lá, até o suspiro final, podemos navegar nessas águas nem sempre calmas da maneira como conseguirmos. Nem sempre os ventos são a favor, mas podemos nos adaptar para tirar o melhor proveito disso. O que Vinicius e Camus fazem, com essa adaptação do mito trágico, é jogar luz ao caráter melancólico, além do galhofento, da cultura nacional.

Mostram que, além da felicidade, também é do nosso caráter, até por sermos humanos, a tristeza. Não dá para escapar dela. Essa afirmação pode parecer até estranha num momento como os tempos presentes, em que se busca o prazer de maneira desesperadora, como se viver sem prazer já fosse um sofrimento em si. Mas tristeza e felicidade são, de uma maneira misteriosa, interligadas. Assim como Apolo e Dionísio.

Certamente há momentos em que é complicado pensar que haverá outro carnaval, quando a quarta-feira de cinzas chega, como mostra uma das estrofes da música “Felicidade”, de Vinicius: “A felicidade do pobre parece / A grande ilusão do carnaval / A gente trabalha o ano inteiro/ Por um momento de sonho/ Pra fazer a fantasia / De rei ou de pirata ou jardineira/ Pra tudo se acabar na quarta-feira”. Falta um ano inteiro de tristezas, que parecem não ter fim.

Porém, é também certo que o próximo carnaval é mais aguardado e saboreado quanto mais cinzenta for a quarta-feira. É essa dualidade que faz com que ambos os lados tenham sabor. Se só tivermos contato com um deles, ele acaba se autodeprimindo, ficando sem forças, já que não haverá felicidade o suficiente para se manter para sempre alegre, ou para livrar de uma tristeza profunda. E basta-nos estar na vida para saber que ela sempre se movimenta. Como se a felicidade tivesse fim, sim, mas a tristeza também. Apenas não conseguimos enxergar esse fim, quando estavamos vivenciado um ou outro sentimento. Mas o simples fato de os sentimentos existirem, mostra essa dinâmica de um lado para o outro, como se fosse um pêndulo.

Apesar da grande tragédia, o fim do longa deixa uma pista para essa conclusão. Os dois meninos que acompanham Orfeu e Eurídice durante todo o filme, correm para tocar o violão de Orfeu e assim fazer o sol nascer – como o herói sempre fazia. O sol, de maneira completamente independente das nossas vidas, continua a se levantar. Mas nós podemos dar um sentido para ele – no caso, tocando a música que o fará despertar. Ao se levantar, o sol também nos mostra mais que uma indiferença para com todas as tragédias debaixo dele. Nos aponta uma proposta de vida: de que precisamos seguir, sempre. Mesmo nos momentos mais tristes.

sexta-feira, 18 de outubro de 2013

A questão das biografias: uma terceira via

Em vez de tomar partidos, o historiador Ronaldo Vainfas escolheu uma terceira via para se discutir a polêmica das biografias. Tive a sorte de entrevistá-lo, para sair desse FlaxFlu. Um trecho polêmico:
acho que qualquer indivíduo tem o direito de aceitar ou não virar tema de livro. É uma questão de privacidade. O que não pode é aceitar ser biografado e interferir no trabalho do biógrafo para construir uma auto-imagem que lhe convenha. Já no caso dos mortos, acho um absurdo que as famílias se metam nisso. A legislação que delega às famílias, por exemplo, o direito de acesso à documentação pública é um desatino. Pior ainda é processar editoras ou autores que publicam passagens da vida do biografado que, no entender dos parentes, atenta contra a honra e a memória do personagem. No caso da biografia dos personagens contemporâneos já mortos, este problema é tremendo. Se a família do biografado não autoriza ou não facilita a documentação, o livro não sai. Por que isto ocorre? Porque os familiares querem "preservar a memória" edificante do biografado, como se alguém fosse santo, ou então querem tirar proveito financeiro do autor ou da editora.
Mais aqui

domingo, 8 de setembro de 2013

Corporativismo de todos os lados

Minha timeline ferve todas as vezes que um repórter é expulso das manifestações. Todos [jornalistas] chamando de imbecis [o adjetivo mais leve utilizado] os protestantes que convidam indelicadamente o trabalhador da imprensa, geralmente de uma das grandes empresas, ainda mais comumente da Globo e congêneres, a se retirar do fuzuê. Apesar de achar um absurdo essa proibição do direito de ir e vir, eu fico ainda mais constrangido com os comentários que vejo. Parece corporativismo. E é.


Tentarei me explicar antes que eu perca as amizades [virtuais]. Via de regra, os argumentos utilizados por quem reclama dessa expulsão - quando usa de algum argumento, além do xingamento - é algo como "o fulano estava trabalhando". Ou "ele estava denunciando a violência policial". Ou [o meu preferido] "isso é censura".

Temos que entender que o fato de alguém estar trabalhando não o torna mais especial que nenhuma outra pessoa. Ao contrário. Ele é mais desgraçado porque não tem muito direito a escolha [provavelmente teria preferido ir à praia que estar ali]. Daí, argumentar que ele deveria ser aceito porque não está ali por vontade própria não faz qualquer sentido. É como se fosse um prêmio de consolação. É um argumento que clama por caridade, num lugar onde os ânimos estão bastante exaltados. Não acho que funcione.

Também não adianta dizer que ele - o jornalista expulso - estava do lado certo: em vez de denunciar as quebradeiras dos black blocks [por exemplo], estava mostrando o poliça sádico que diz que gosta mesmo de bater nos manifestantes. Naquele momento, o jornalista-expulso não representa ninguém, além da canopla que ele segura. Se ela vier com um globo, em qualquer dos seus formatos, ele será mal-visto.

Essa generalização é certa? Claro que não. Como vimos recentemente no editorial do Globo, que dizia que houve um erro [histórico, não estratégico] em apoiar o golpe de 1964, as Organizações já tiveram dentro de suas redações até comunistas [!]. Mas [e agora quem vai falar não é o jornalista, mas o relações públicas] a imagem da maior empresa de comunicação do Brasil perante uma parcela cada vez maior e representativa da população letrada, classe-média [versão antiga], de ambos os espectros políticos, é péssima. A folha corrida da empresa é longa e as pessoas mais escolarizadas conseguem citar acusações e mais acusações contra o grupo.

Daí, os caras não estão expulsando o fulano-pobre-coitado que segura um microfone [ou um celular, em tempos recentes] com a marca da vênus platinada [sempre detestei esse apelido] e ganha uma mixaria [mesmo] ao fim do mês. Mas a própria coisa-ruim. Ele ali não é apenas um indivíduo, mas uma corporação de quase 100 anos e com muita roupa suja para lavar.

Como essa imagem pode mudar? Como esse ódio - é uma verdadeira raiva! - pode acabar? Certamente não de uma hora para outra. Até lá, os seus funcionários deveriam ganhar insalubridade. É o resultado, suspeito, de ser uma mídia de massa numa época de nichos.

Por fim, dizer que essa expulsão seria censura, pode ser, por mais irônico que pareça, a verdade. Não uma censura do estilo clássico, com um sujeito que lê todo o material antes de ser publicado, mas como um impedimento do ir e vir, que, em tese, está na Constituição e é para todos. Aqueles sujeitos mascarados [as personificações do mal, num duelo dicotômico e simplista entre bem x mal] se auto-outorgaram o poder da força e decidiram quem pode seguir e quem não. Mais ou menos como os traficantes e os milicianos fazem em favelas.

Mas, então, devemos lembrar que o conceito ali não é exatamente a não-divulgação de informações, mas uma tentativa de ataque ao exército do inimigo. Aliás, se há algo que os protestos cada vez mais se parecem é com o formato de uma mini-guerra, em que de um lado ficam as infantarias [os soldados Black Blocks, a inteligência do Anonymous, a comunicação da Mídia Ninja, a organização do Fora do Eixo], e do outro, o poder constitucionalizado, as instituições fixas, tudo o que já há, é ou está. Como sempre, somos pródigos em fla x flus.

Xingar os manifestantes por conta da expulsão de repórteres mostra, a meu ver, um ligeiro desconhecimento das causas mais gerais dos protestos, e de seus atores envolvidos. Além disso, cria uma atmosfera exclusiva, como se os jornalistas fossem melhores, diferentes ou imunes às coisas mundanas [o que não é o caso], como super-heróis de quadrinhos. Assim, fica complicado fazer qualquer crítica aos médicos por conta da vinda dos seus pobres colegas estrangeiros.

domingo, 14 de julho de 2013

Corporativismo e falta de realidade jornalística

Está me chocando - não a palavra não é "chocando", a palavra é "entristecendo": está me entristecendo acompanhar colegas e amigos meus jornalistas de grandes empresas da mídia brasileira tentando demonstrar a importância dos grandes jornais e das TVs daqui. Entristecendo.

Tenho certeza de que é importante grandes empresas de comunicação ter espaço dentro de uma sociedade de direito. São as grandes empresas, provavelmente, que vão ter força o suficiente para poder investigar mais e mais profundamente as outras grandes empresas, as megacorporações e os principais políticos do país. Jornalismo é caro. Além disso, um escândalo veiculado para o Brasil inteiro choca mais que o mostrado para poucas pessoas. Mas o caso não é esse.

Insistir que os grandes grupos são importantes porque-são me parece usar de um argumento bem parecido como o utilizado para dar uma resposta às crianças pequenas que insistem em diversas questões. E, para jornalistas que são os reis dos "por quês?", fica, no mínimo, contraditório.

Some a isso o fato de as grandes empresas jornalísticas terem perdido - se é que um dia tiveram - a conexão com a realidade-mais-real das ruas. Elas falam para a elite, e se você não se acha parte da elite porque mora de aluguel, ou porque não tem nem carro, ou porque tem que trabalhar de segunda a sexta, às vezes com plantão, para ganhar uma mixaria, sugiro uma ida para o complexo do Alemão. Dê uma volta no mais que polêmico teleférico, passe por suas cinco estações que se estendem por todas as comunidades, e, lá de cima, perceba o quão diferente são aquelas vidas da sua.

Se tiver mais coragem, opte por, em vez de tratar os moradores da favela como bichos em um zoológico, e, assim também voltar de teleférico, fazer o percurso de retorno a pé. Desça, se não for possível todo o caminho, ao menos o Morro do Adeus, a última estação. Desça e perceba que as roupas das pessoas são completamente diferente das suas, que foram compradas nas melhores lojas do ramo, em Paris ou Miami, dependendo de que tipo de elite você é.

Confira que os meninos ainda soltam pipa, hábito perdido numa infância já remota. E jogam bola com qualquer pedaço de plástico rasgado que encontram.

Mas cuidado para não se perder pelas vielas de terra úmida e escorregadia e faminta que sustenta barracos construídos com pedaços de madeira, cacos de vidro e todos os lixos do lixo. Cuidado para não se perder e nunca mais voltar.

A cidade continua muito partida e a grande mídia [esse termo deveras genérico e gasto por anos e anos de críticas de marxistas e pseudomarxistas] não enxerga isso. Um levantamento feito pelo Observatório de Favelas e publicado ano passado mostra que em torno 50% das reportagens mostram a favela como um lugar de violência, criminalidade e drogas. Isso sem contar com as reportagens sobre UPP.

No mesmo relatório, há um apanhado sobre as pequenas mídias que apareceram dentro das favelas. Sites como o Rocinha.org, que nasceu exatamente para tentar mostrar um outro lado das favelas, como diz a sua página institucional, e hoje tem quase um milhão de acessos mensais.

Os jornalistas, ao defenderem os grandes veículos, soam apenas como corporativistas, que querem a reserva de mercado. Mais ou menos como aconteceu com a discussão da obrigatoriedade do diploma.

Esses profissionais, ótimo profissionais na maioria dos casos, se esquecem que, assim como outros "poderes constituídos", há a necessidade de legitimação para se continuar como um poder. E o que é legitimação? É soar como verdadeiro, como representante daquilo que se quer ouvir e ver.

O poder não pertence aos seus representantes, mas a quem lhes dá o poder. Isto é: o político só é eleito se tiver votação. O mesmo acontece com os meios: ele só é um grande veículo à medida que tem uma audiência condizente com isso - seja na quantidade, seja na influência indireta. No momento em que essa legitimidade acaba, não adianta reclamar pelo que, na sua opinião particular, deveria ser/existir para todo o sempre. Aí, em vez de jornalista, você, que se acha muito liberal por votar no PSol, acabou de se transformar em um conservador.

Dito isso tudo, só falta acrescentar que é também muito feio, pega muito mal, defender veículos que, vez por outra, fazem campanhas políticas ao mesmo tempo escancaradas e disfarçadas. Quase um paradoxo, mas que sabemos bem como funciona.

quarta-feira, 12 de junho de 2013

Imprensa dilmista

Manchete do G1 neste exato momento: "Dilma empresta R$ 5 mil a famílias do Minha Casa - Com qualquer renda, elas terão crédito para adquirir móveis e eletrodomésticos." [negrito é meu.]



A reportagem em questão tem o seguinte título: "Famílias do Minha Casa terão R$ 5 mil para eletrodomésticos e móveis"

Dilma só aparece no terceiro parágrafo, assim: "O programa foi anunciado durante cerimônia no Palácio do Planalto, com presença da presidente Dilma Rousseff."

Ou temos um dilmista infiltrado no G1 - logo escolhendo as manchetes - ou, talvez, a ideia de um complô da imprensa contra o governo seja um pouco exagerada.

Manifestar-se ou não manifestar-se

Sin embargo, la clase media, poco acostumbrada en este país a las manifestaciones de protesta en las calles, está aplaudiendo a las autoridades, que han pedido mano dura a la policía contra las movilizaciones, que están paralizando el tráfico en ciudades ya de por si supercongestionadas.
Do jornal "El País".

Ainda o jornalismo

A ventania reformadora dos meios de comunicação voltou ao Brasil da pior e da melhor maneira. Cortaram-se vagas e poderão ser extintos títulos que fizeram história. Esse é o aspecto fim do mundo. Há o outro, do mundo novo. De sua casa na Gávea, o jornalista Glenn Greenwald explodiu um dos grandes segredos do governo americano jogando o companheiro Obama no fosso da falta de credibilidade. Ele grampeia o mundo, inclusive seus cidadãos.
Elio Gaspari mostra que não há coincidência nessas duas informações terem aparecido ao mesmo tempo. Mas um discrepância de como o jornalismo é entendido, aqui e lá [seja onde for o aqui e o lá, reparem]. Ou, em outras palavras: o jornalismo está morto, vida longa ao jornalismo.

segunda-feira, 10 de junho de 2013

Índio de calça jeans

“Eu não usava computador até acabar a minha tese, mas continuo a mesma pessoa. Existe esse preconceito de que índio com calça jeans ou celular não é mais índio. Obviamente que é. Simplesmente, eles não estão numa redoma, querem compartilhar os benefícios da nossa sociedade e são fascinados por tecnologia: adoram andar com filmadoras para registrar as suas cerimônias. Isso não interfere na sua identidade indígena”.
A antropóloga Vanessa Lea, que lança um livro sobre os Mẽbêngôkre, também conhecidos como Kayapó, explicando o óbvio.

terça-feira, 4 de junho de 2013

Istambul x Rio de Janeiro

Você vê algum paralelo com a história recente brasileira ou as diferenças entre as culturas são mais fortes que as suas semelhanças?
MSG: Em minha tese de doutorado dediquei um capítulo a comparar o Rio e Istambul como "capitais periféricas" do século XIX. Era bastante comum os viajantes compararem o impacto da beleza de ambas ao se aproximar de seus portos, assim como o desapontamento ao desembarcar em ambas as cidades e se deparar com a sujeira ou escravidão em suas ruas. Hoje também não é raro ouvir de viajantes brasileiros que Rio e Istambul, em especial, tem similaridades na beleza das cidades e na simpatia das pessoas. Pode-se tranquilamente se adicionar a isso a sanha por obras por que ambas passam e a grita por parte da população por conta da falta de transparência ou negociação, sendo Istambul em proporções bem maiores, obviamente.
Imagem da Praça Taksim: veja mais aqui.

Porque eu tenho amigos morando perto da Praça Taksim, o imbróglio na Turquia me chama mais a atenção que em outros lugares. Mas eu sempre achei que Istambul e Rio, assim como Brasil e Turquia, dividem uma identidade em comum. Nessa entrevista com a pesquisadora Monique Sochaczewski Goldfeld, da FGV, podemos ver bem os paralelos.

segunda-feira, 6 de maio de 2013

O fim do furo como fim

Foto de Marcos Estrella, da TV Globo, no meio do temporal
Durante muito tempo, os jornais [e aí eu incluo todos os veículos de mídia] se diferenciavam pelo furo, ou seja, pela história que só eles tinham e que ninguém mais sabia. Era uma época em que: 1/ havia diversos jornais; 2/ As publicações eram diárias, não instantâneas como agora.

Não que a instituição do furo tenha se tornado irrelevante, não mesmo. É sempre bom sair do marasmo do jornalismo de release, principalmente quando isso acontece por meio dos recursos antigos, como fontes, investigação, etc. Mas é que esse recurso já não repercute como acontecia. O jornalismo não é mais feito de furos.

Primeiro porque há tantas formas de se informar que o leitor não sabe mais de onde partiu a informação original, no dia-a-dia [se é que um dia ele soube, porque, para saber, ele deveria ler mais de um jornal por dia, o que, suspeito, era incomum]. E porque esse leitor pode ser também um produtor de conteúdo, em um veículo de mídia não tradicional, como, por exemplo, as redes sociais.

É sempre citado o caso da morte de Whitney Houston, cuja informação foi dada primeiro pelos funcionários do hotel onde ela estava hospedada via Twitter [se eu não me engano], depois pelas empresas de mídia tradicionais.

Se a questão for o furo pelo furo, o jornalismo - sério, correto - sempre vai perder. Porque, em vez de publicar uma suposição, ele vai apurar primeiro, com outras fontes, principalmente se for um caso de vida ou morte. E isso leva tempo. E quem não tem essa preocupação, como qualquer leitor comum, vai divulgar a informação ainda no seu formato "boato". Não há como competir nesse caso.

E aí que uma nova-antiga função do jornalismo aparece: credibilidade. Exemplo: Chove nas ruas do Rio. Você pode recorrer às redes sociais para saber o que os seus amigos estão enfrentando, quais lugares você deve evitar, onde está uma banheira, etc. Mas para ter uma noção mais total e confiável, você recorre aos meios mais tradicionais.

O "Guardian", esse jornal que é, provavelmente, a atual vanguarda dos meios de comunicação desse lado do mundo, tem uma outra sugestão: o jornalismo vai se especializar em dados. Como todo mundo produz informação, esse volume vai se agigantar cada vez mais, e o jornalista vai ser aquele que vai peneirar tudo isso, vai descobrir a notícia dentro do turbilhão que nos povoa. Ao chover na rua, além de correr para as ruas, ele corre para a internet, para pesquisar sobre onde as pessoas mais reclamam de poças e alagamentos. E apura com autoridades, manda gente para o lugar, vê em câmeras da prefeitura, descobre se a informação condiz com a sua interpretação ou não.

Eu gosto do jornalismo de outro jeito: é o algo a mais. Além de noticiar que está chovendo - já que isso qualquer um pode fazer - é saber por que tais e tais lugares ainda alagam, desde quando isso acontece e o que as autoridades estão fazendo para resolver o problema numa próxima chuva. É sair do que se chama "factual", do fato em si, para tentar entender o problema, e sugerir soluções para ele.

Porque não é possível ter furos em relação à chuva.

domingo, 21 de abril de 2013

O Rio virou MAR

O MAR é um museu que nasceu praticamente para falar do maior ativo do Rio: sua paisagem. A primeira parada minha - e, acredito, de todas as pessoas, é exatamente no último andar do prédio "novo", onde há um visual breathtaking de toda a área portuária carioca. Só depois vamos às exposições. Sendo que, ainda assim, a primeira, seguindo esse caminho, no último andar do prédio "velho", é exatamente sobre como a paisagem do Rio foi retratada ao longo dos séculos.

A obra-piada [esse gênero que nasce da "sacadinha" do "artista", que tem uma "boa ideia" e a executa da melhor maneira possível. Mas que ao fim parece sem muita sustança], como dizia, a obra-piada que melhor representa esse processo de curadoria dos registros históricos sobre o Rio é a peça de Marcos Chaves de 1961 "Só vendo a vista" [abaixo].



Neste momento, achei que a grande obra-piada não feita deveria ser: um buraco emoldurado na parede, com o enquadramento da vista. Para dar uma "consciência social", seria interessante também mostrar algum aspecto "humano", ou seja, que houvesse a presença do homem de alguma maneira [hoje é fácil isso], para que a "obra" fosse "viva", se modificasse ao longo dos anos. Fica a sugestão para os artistas.

Nove fora as obras-piadas, é difícil não ficar tocado pela exposição [apenas uma entre várias: dá vontade de ir e voltar diversas vezes ao museu]. Eu diria que 90% dos presentes eram turistas brasileiros que estavam lá para ver outros aspectos do Rio e cumprir uma obrigação social de ver "arte" num "museu". Uns 5% eram de turistas gringos e os demais eram cariocas que passavam horas tentando entender a geografia de uma cidade que não existe mais.

A minha parte preferida foi o século xix, exatamente por esse motivo. Sempre imagino um Rio sem muita contaminação, luxuriante, um Rio completamente verde, com ruas estreitas e de terra batida, como são as vias das cidades pequenas de interior. Os artistas do período, a grande maioria de estrangeiros, ficam nitidamente embasbacados com as paisagens que encontra. São registros e mais registros da Baía de Guanabara, vista de diversos pontos diferentes. Pão de Açúcar. Corcovado. etcetcetc.

Me pergunto nessa hora se as obras são bonitas porque retratam um lugar bonito, ou são bonitas e retratam um lugar bonito e só consigo responder anos depois, quando chego ao modernismo e vejo como o retrato não era mais a intenção dos artistas. Mas que há, mesmo assim, diferenças entre dois artistas, no período em que a intenção era ser o mais próximo da "realidade". Veja o caso de Taunay [lê-se "toné", como descobri ontem], por exemplo.

É dele as três primeiras obras expostas. E, embora seja bastante comum entre os pintores viajantes do século xix retratar, na periferia dos seus retratos, personagens e, em se tratando do Rio, de muitos negros trabalhando enquanto brancos são paparicados, é do francês Taunay a mais incrível crítica que eu vi lá contra o tratamento diferenciado entre pessoas, baseado em cores de pele: "A cascatinha da Tijuca" [não sei a data exata, mas é das primeiras décadas do 1800].


O quadro aparentemente é inócuo, e deve ter sido visto assim pela maioria das pessoas que passou apressada pela sala, com a intenção de cumprir em menor tempo a corrida intramuseus, que acontece ao mesmo em todo mundo onde quer que tenha uma exposição acontecendo. A "cascatinha..." mostra uma paisagem fora das "tradicionais", uma cachoeira no que hoje é o Parque da Tijuca, e pelo que eu entendi, se chama agora Taunay. O francês morava por ali, construiu suas casas, iniciou uma plantação de café, criou os filhos. E quando voltou para a França, deixou como herança para os herdeiros. Era um ambiente que ele conhecia bem.

No alto da obra, vemos a pintura se esfumaçando, com o vapor d'água se misturando com o céu branco, em contraste com os temas e cores terrenos e terrosos e escuros na parte debaixo da tela. E é nessa parte que mora o detalhe, o twist, que faz a obra sair da categoria de boa para a de excelente [veja abaixo].


É na parte inferior, com cores mais avermelhadas, menos etérea, mais terrena, menos religiosa, mais cotidiano, menos idealização, mais "verdade", que aparece um sujeito com casaca e cartola com paleta de cores e um cavalete segurando uma tela. Ele olha para fora do quadro. Ele mira o espectador. Ele quer pintar, está pintando a reação das pessoas que o veem, que ficam impressionados pela cascatinha. Esse pintor é Taunay? Não importa. Seu objetivo é retratar não mais uma paisagem, mas gente, de carne e osso.

Se esse recurso metalinguístico estivesse sozinho já seria o suficiente para alavancar a obra para um patamar que foge da mesmice. Mas há ainda outro elemento que, aí sim, a torna única. Ao lado do pintor, reparem, há dois personagens. Negros. Eles não são mostrados como carregadores, trabalhadores, como homens-animais que servem apenas para dar o seu suor pelo branco, mas como espectadores de uma obra-de-arte. Portanto capazes de sentir, de se emocionarem, de, em suma, serem humanos. Ter a mesma reação que o espectador do lado de fora da tela, provavelmente um branco, que via essa obra. Certamente os negros aparecem com menos espanto que os brancos. Ou seja, Taunay iguala os homens, mostra que não há qualquer diferença entre os espectadores, de qualquer cor. Mexe com a convicção arraigada dos preconceituosos.

quinta-feira, 11 de abril de 2013

Quando a dama de ferro amolece

Maryl Streep no papel de Thatcher[Texto publicado originalmente no site da Revista de História]

O filme “A dama de ferro” recebeu críticas à época do lançamento em 2011 por não ter abordado, na opinião dos críticos, com a devida importância o lado liberal da ex-primeira-ministra britânica Margaret Thatcher. Thatcher, como se sabe, morreu nesta semana, aos 77 anos, vítima de um derrame.

É verdade. O filme, da diretora Phyllida Lloyd [que já tinha feito “Mamma mia” igualmente com Meryl Streep], tenta dar um apanhado geral da vida da mulher que comandou as ilhas britânicas de 1979 a 1990. E, dentro desse apanhado, suas posições direitistas ocupam um espaço tão importante quanto qualquer outro aspecto, como sua adolescência trabalhando com o pai em uma vendinha, sua passagem para a Universidade de Oxford, sua entrada no partido Conservador e a sua escalada até o poder.

São retratados, também, toda a onda de protestos que o governo dela enfrentou, por conta de suas políticas de estado-mínimo, que privatizou companhias estatais estratégicas, criou uma massa de descontentes, e deu nome a uma era: tatcherismo. É mostrado até o ataque a bomba perpetrado pelo Exército Revolucionário Irlandês em um encontro do partido conservador em 1984. Sua vida não foi pouco atribulada quiçá sem polêmica.

No entanto, pareceu pouco, pouco, na opinião dos críticos, para mostrar a vida da única mulher que assumiu o principal cargo político das ilhas britânicas. A começar, a cinebiografia é narrada como se fosse um longo diálogo [imaginado] entre Margareth e seu marido, já então falecido, Denis Tatcher, de quem ela recebeu o sobrenome. Na cena inaugural, ela chega em casa e, como uma dona-de-casa comum, reclama do preço dos produtos do supermercado. A intenção é clara: Margareth não deixou de ser a filha do dono da quitanda.

É esse o principal argumento de todo o longa. Mostrar que a dama considerada de ferro era, ao fim e ao cabo, uma mulher simples, que entendia de política e economia como qualquer pessoa que tem uma vendinha. Esse estigma, de ser filha de um quitandeiro, e não descendente de uma família nobre, como é razoavelmente comum entre os membros do partido Conservador inglês, é, inclusive, um motivo de chacota durante toda a sua carreira política.
Essa forma de lidar com a política é, segundo a intepretação do filme, os principais pontos positivo e negativo de Tatcher. Se ela não deixou a simplicidade de lado jamais, também se colocou como um exemplo a ser seguido. Talvez o único. Sua política liberal, sua diminuição do estado social, era uma continuação da sua política da quitanda. Como se dissesse: se eu consegui sair de trás do balcão e chegar aqui, à frente de uma das nações mais importantes do mundo, qualquer um pode chegar também.

A mulher do estado mínimo, da aposta na competição, no mercado, desconsidera um dos fatores mais importantes da questão: o indivíduo e todas as suas diferenças entre si. Acredita apenas numa ideia quase darwinista, em que os mais fortes sobreviverão, enquanto os mais fracos devem ser deixados para trás na cadeia evolutiva.

Ao humanizá-la, ao tentar traçar uma explicação mais psicológica, menos maniqueísta, uma razão para as suas atitudes que reflitam sua biografia, de mulher bem sucedida, o filme mostra que ela não era um monstro que apenas pensava no bem de poucos, em detrimento de muitos. Isso não a impedia, claro, de tomar atitudes controversas, antipopulares, para seguir os seus ideais de vida e política. Ao fim, talvez não tenhamos uma grande coleção da vida política da dama de ferro. Mas percebemos que, ao menos, era uma mulher com princípios. Menos pior que uma direita disfarçada, é uma direita que não tem vergonha de mostrar a cara.

terça-feira, 2 de abril de 2013

'Não sabia 'fazer' nada de 'útil''

RH: Você já falou sobre ter sofrido uma crise de identidade na adolescência ao ter que ir estudar na cidade e viver em uma aldeia. Poderia explicar quais eram as grandes dúvidas que lhe perpassavam?

DM: Imagine viver num mundo onde as pessoas se importam umas com as outras; onde não há pobres e ricos; onde não infância abandonada ou jovens em situação de riscos; onde todos têm casa, comida, espaço para diversão...Imagine chegar em outro lugar onde tudo isso desmorona e você se sente à margem, excluído, impotente...acho que isso geraria uma grande crise de identidade, não é mesmo? Criança ainda, fui obrigado a viver uma vida que não era minha, morar numa casa que eu não conhecia, conviver com pessoas que não gostavam de mim e aprender coisas que não me diziam respeito. Como me sentir bem num ambiente assim? Como gostar do que eu era se tudo me levava a crer que minha vida de aldeia era a comprovação de que eu era primitivo, atrasado, selvagem? Ora, tudo isso gerava em mim muitos sentimentos contraditórios que me levaram a negar minha origem e desejar ser outro. Na medida em que eu crescia, as angústias aumentavam e me faziam crer que eu não seria “alguém” na vida, pois minha vocação para o trabalho produtivo era nula. Eu não sabia “fazer” nada de “útil” para a sociedade brasileira. Todo o conhecimento que carregava comigo tinham a ver com o cuidado de casa, com o conhecimento da natureza, com o nadar no rio. E a escola dizia que isso era “coisa de índio” e que eu deveria abandonar aquilo se quisesse ser “alguém”. Francamente eu acho que as crianças e jovens das cidades estão vivendo a mesma crise nos dias de hoje. As escolas continuam descomprometidas com os conhecimentos que as crianças trazem de casa criando uma barreira. A escola é chata, monótona e segue um modelo de poder que já está ultrapassado na cultura juvenil. A impressão que tenho é que a escola quer continuar assim para ser, ainda, um lugar de controle da criatividade e da revolução.

[Entrevista feita com o escritor Daniel Munduruku - foto acima, de Moisés Moraes - para a Revista de História. Para ler o restante, clique aqui.]

sexta-feira, 22 de março de 2013

Guerrilheiros de ontem a hoje

[Reportagem publicada na RHBN desse mês de março]

Especial Guerrilheiros -- No dia 28 de agosto de 1979, o então presidente da República, João Batista de Oliveira Figueiredo, sancionou o que ficou conhecido como a “Lei da Anistia”. Ela concedia indulto a quem tinha cometido crimes “políticos ou conexos com estes” ou crimes “eleitorais” e também a quem tinha sido punido “com fundamento em Atos Institucionais e Complementares”. Eram beneficiados pela lei os brasileiros que abriram mão de sua juventude – conforme eles mesmos afirmam –, para lutar por uma sociedade mais igualitária, pela liberdade democrática, ou apenas aqueles que foram colocados na genérica categoria de subversivos. Além de devolver a cidadania a essas pessoas, a lei contém, segundo um dos envolvidos na luta, alguns artigos que não foram escritos. Trata-se de um código de comportamento que, mesmo implícito, foi respeitado por uma parcela significativa de homens e mulheres dessa geração. “O primeiro: ‘Não falarás da sua luta’. O segundo: ‘Poderás falar do seu sofrimento, mas nunca da luta’”, enumera Carlos Eugênio Paz, um dos últimos comandantes da Ação Libertadora Nacional, a ALN, responsável por organizar e participar de diversas “ações revolucionárias” como, por exemplo, o “justiçamento” (as mortes dos agentes da repressão) do empresário dinamarquês Henning Boilensen. Além de financiar a ditadura, de acordo com os relatos dos revolucionários, Boilensen fazia questão de assistir às sessões de tortura. Para eles, seu assassinato era uma questão de justiça. Justiça revolucionária.

“Guerrilheiro não é somente quando você está com a arma na mão. É quase como uma concepção de vida”, segundo Carlos Eugênio Paz

Paz acredita que a história de sofrimento, com prisões aumentando em escala exponencial ao longo da ditadura, e torturas cada vez mais “científicas”, que se “aperfeiçoavam” para retirar mais informações dos subversivos, é uma das prováveis explicações para a dificuldade de encontrar quem se autodenomine guerrilheiro hoje em dia. Para ele, entretanto, “Guerrilheiro não é somente quando você está com a arma na mão (...). É quase como uma concepção de vida”, argumenta Paz, que até hoje atende pelo nome de guerrilha, Clemente. Para mostrar o alcance da luta, ele afirma ter feito um censo da ALN, no final de 1971, em todo o Brasil. Desde a sua criação, em 1966, haviam passado pela organização 15 mil militantes – ou guerrilheiros? – incluindo sua própria mãe, que ele diz ter recrutado para a luta.

“Mao Tsé-Tung calculava que para cada pessoa que pegava em arma, você tinha que ter cinco pessoas no apoio. A luta mostrou que você deve ter de 15 a 20 pessoas, que vão ser o ponto de apoio dentro daquela corporação”, calculou ele, citando como exemplo o caso de guerrilheiros que trabalhavam como jornalistas nas seções policiais para trazer informações diretas do “inimigo”.

A história da transformação de Paz em Clemente data de quando ele era muito jovem. Quando o golpe aconteceu, ele tinha apenas 13 anos. Era um escoteiro, disciplinado, que quase ignorou o acontecido: apenas ficou feliz por não ter tido aula. Em seguida, com a reação dos politizados familiares, percebeu a catástrofe que tinha sido a derrubada do regime democrático. Aos 15 anos, conheceu Carlos Marighella, o criador da ALN, do qual virou um ídolo. O líder comunista o selecionou para a sua organização fazendo dois pedidos: não se envolver com o movimento estudantil e entrar no Exército para aprender a atirar e descobrir como os militares pensam.

“Não existem muitas pessoas que, por sua experiência direta, tenham conhecido o cotidiano e as entranhas da luta armada desde o seu começo até o fim”, escreveu o ex-ministro Franklin Martins sobre Clemente, no prefácio do livro Viagem à luta armada, de Carlos Eugênio Paz (1996), sobre o fato improvável de seu autor não ter sido preso, apesar da “repressão” o ter escolhido como um dos principais inimigos. Foi uma exceção.

A história de Clemente encontra curiosos paralelos na do professor de natação Rômulo Noronha, que atualmente trabalha na Confederação Brasileira de Desportos Aquáticos. Assim como Clemente, Noronha era um robusto nadador que foi escolhido por Marighella para atuar no Grupo Tático Armado, mais comumente chamado de “grupo de fogo”, que reunia quem realmente pegava nas armas. Coincidência ou não, Noronha é outro que admite ter sido guerrilheiro – e, bastante assertivo, os dois não escondem até mesmo os erros cometidos. O professor de natação também serviu ao Exército: foi paraquedista. E os dois pensam o mesmo sobre os tempos de luta. Se Paz acredita que houve uma “vitimização” desse passado, por conta da enorme violência que começou com o golpe, Noronha afirma que “não quis entrar nessa de coitadinho”.

“Participei, no Méier [Zona Norte do Rio], de uma 'expropriação' de banco para obter recursos que eram usados para manter guerrilheiros”, recorda ele, usando outro jargão usado pelos revolucionários. “Os guerrilheiros ganhavam pouco mais de um salário mínimo, viviam vida espartana. Essa história de que ‘nós assaltávamos banco para viver bem’... Porra nenhuma!”

Noronha “caiu” e ficou preso de 11 de março de 1970 até 6 de fevereiro de 1979 – sabe até hoje o número de dias que passou atrás das grades. Na hora do julgamento não escondeu que tinha participado da ação, mas não concordou com o processo porque as denúncias tinham sido obtidas por meio de tortura – jamais, segundo ele, falou segredos da organização. Quando perguntado, em juízo, sobre o motivo que o levou a se envolver na “expropriação”, usou como resposta a fala de um personagem de Bertold Brecht em “A ópera dos três vinténs”: “O que é roubar um banco comparado a fundar um banco?”. Conclusão: “Fui condenado por desacato. Éramos considerados jovens cultos e rebeldes”.

“Guerrilheiro pouca gente foi”, defende o ex-ministro José Dirceu. Para ele, o objetivo das organizações, como a que participou, era “a propaganda armada”

Além da prisão, o caso de Noronha se diferencia do de Paz por uma característica própria: Noronha tinha uma companheira, no outro sentido do termo. Foi por conta dela que ele, junto com outros presos políticos, lutou para mudar o sistema carcerário, permitindo a visita íntima na cela. “Greve de fome de 16 dias, eu fiz cinco. As de menos tempo, eu perdi a conta”, enumera.

Ilma Maria Horsth Noronha, a companheira, hoje tem 61 anos e trabalha como bibliotecária na Fiocruz, no Rio de Janeiro. Fala mais pausadamente que o marido, como se estivesse repetindo um amargo capítulo que aconteceu há tantos anos e que ela “começa a esquecer”. Revisitando essas duras memórias, contou que quando o marido, na época namorado, foi preso, ela estava grávida da primeira filha. Decidiu imediatamente ir para a clandestinidade. Saiu do Centro da cidade e após passar por diversos “aparelhos” (assim se chamavam as células destes movimentos armados), foi morar em uma casa pequena no bairro de Piedade, subúrbio do Rio, com “um menino de 23 anos” que era um dos dirigentes da ALN, Elson Pereira Fortes.
“Minha filha já tinha nascido e para a vizinhança nós éramos um casal recém-casado que tinha vindo morar no Rio, para não ter nenhuma possibilidade de se chegar à minha família, que era da cidade”, conta. Nunca chegou a participar de ações armadas porque era do setor de inteligência. “Fazia levantamento dos bancos a serem assaltados, digo, expropriados, e das pessoas de destaque para serem sequestradas”, explica.




Por uma questão de segurança, ninguém da própria organização conhecia o endereço desse “aparelho”, diz ela. Porém, quando os companheiros começaram a ser presos, eles tiveram que quebrar algumas regras de segurança para socorrê-los. Em fuga da polícia, um casal de São Paulo fez contato com a ALN, que o deslocou para o endereço de Piedade. E esse casal acabou “abrindo”, ou seja, informando sobre a localização do “aparelho”.

“A polícia chegou lá de madrugada, cercou a casa”, diz ela. “Minha combinação com Elson era que ele tinha que chegar até às 21 horas, era o nosso código. Se não chegasse era porque alguma coisa muito grave tinha acontecido, e eu teria que sair até às 7 horas do dia seguinte. Não sairia de madrugada porque com o bebê chamaria mais atenção”, diz ela, um pouco confusa. “Fui esvaziando a casa, queimando documento, escondendo as armas. Quando eu abri a porta com a Tânia no colo, pronto.

Todos se levantaram de armas em punho... Foi algo que eu nem me lembro muito bem.” Ela foi presa com a filha Tânia. E foi levada para o quartel do Exército na Rua Barão de Mesquita, na Tijuca, Zona Norte do Rio. Ficou lá um tempo, não sabe dizer ao certo, enquanto entregavam a sua filha para a mãe de Noronha. Dias depois, Ilma foi liberada por falta de provas. Apesar da prisão, do sofrimento, do isolamento, da ausência, da memória fraca, ela diz que faria tudo outra vez. “O sentimento de que aquilo era importante é muito claro para mim.”

Como Che Guevara e outros ícones da década de 1960, o termo guerrilha foi ironicamente apropriado pelo mercado. Hoje em dia, talvez seja mais fácil encontrar quem se considere guerrilheiro entre os que praticam a moda do “marketing de guerrilha” do que entre aqueles que participaram de organizações de luta armada, buscando a volta da democracia.

“A gente deveria ter feito uma resistência política e popular à ditadura, combinada com a resistência armada”, argumenta Dirceu.

“Guerrilheiro pouca gente foi”, defende em entrevista à Revista de História, o ex-ministro José Dirceu, também ex-líder estudantil que foi preso no congresso da União Nacional dos Estudantes, em Ibiúna, no sul do estado de São Paulo, no ano de 1968 – um dos 15 nomes escolhidos para ser trocado pelo embaixador norte-americano sequestrado naquele mesmo ano. Após passagem rápida pelo México, ele acabou indo para Cuba, onde começou a participar do Movimento de Libertação Popular (Molipo). Para ele, o objetivo das organizações, como a que participou, era “a propaganda armada”. “Queríamos organizar, no interior, colunas guerrilheiras. E isso é outra discussão”, argumenta, explicando a sua atuação como “política”. Ele considera que “apoiou ou integrou uma organização que fazia luta armada”.

“Não tínhamos a postura de combate”, reitera, e explica o conceito segundo o seu ponto de vista: “Combater é tomar um quartel, tomar uma delegacia, cercar uma tropa, prender ou aniquilar aquela tropa. Tomar uma cidade, assaltar um trem. O que fazíamos era uma sobrevivência.”

Em Cuba, ele fez um treinamento militar básico, inicial para “qualquer outra tropa especial”. “É você aprender a sobreviver, marchar, conhecer emboscadas, defesas, retiradas, como organizar uma coluna, conhecer todo tipo de explosivo, armas sem recuo, metralhadoras .30, .50, todos os tipos de armamento, principalmente os que têm em seu país, como o fuzil FAL, que estava sendo introduzido.” Dirceu explicou que o aprendizado mais teórico sobre histórias de guerra, da América Latina e de Cuba, e a doutrina militar, são apenas a primeira fase do treinamento, que podia demorar até um ano e meio. Depois havia uma especialização, se aprendia diversos ofícios que podiam ser úteis para o guerrilheiro, como radiocomunicação, fotografia, falsificação de documentos, ou como viver na clandestinidade – que foi o caso dele.

José Dirceu voltou clandestino ao Brasil na metade de 1971. Ficou um tempo em São Paulo, no bairro do Brás, mas logo teve que fugir mais uma vez. Primeiro, Recife. Depois, Havana novamente, após passar por um périplo pela Europa. Sempre carregando uma mala com armas, dinheiro e documentação falsa.

“Nós transformamos a luta armada e a possibilidade de guerrilha rural numa prioridade”, diz ele. “Na verdade, a gente deveria ter feito uma resistência política e popular à ditadura, combinada com a resistência armada.”




Essa revisão do passado, às vezes, é feita com menos ideologia política e mais melancolia. Os anos de violência, repressão, censura e tortura marcaram profundamente a geração que viveu diretamente esses eventos. Quando começa a falar por que a guerrilha brasileira não funcionou no Brasil, o advogado pernambucano Francisco de Assis Rocha Filho, mais conhecido como Chico de Assis, dá um riso nervoso, de quem percebe como é duro falar do fim dos sonhos da juventude: “Porque [a ideia revolucionária] morreu no período inicial, bem primário de preparação, que seriam as ações urbanas, armadas, para fortalecer a parte rural”, explica replicando o manual guerrilheiro de Marighella.

Sua trajetória é a de muitos que optaram por lutar contra a ditadura. Estudante de classe média e militante da esquerda era preocupado com os problemas sociais da época. Empolgado com a política, em seu caso, com um exemplo prático no estado: o governo de Miguel Arraes, eleito em 1962, “o melhor entre os seus seis mandatos”. Com o golpe, opta por entrar em uma organização dissidente do PCB, o PCBR, com “R” de “revolucionário”, exatamente porque o partidão não tinha pegado em armas contra a “revolução” da direita de 1964. A diferença dos outros grupos, explica Chico, era que o PCBR ainda mantinha uma preocupação partidária. De resto, praticava os mesmos estratagemas, com “expropriações” de bancos para bancar uma futura guerrilha rural, que seria o germe da revolução, esta de esquerda.

“Dava impressão de que estávamos dominando o mundo, vivíamos o dia inteiro em reuniões, em pontos, mas estávamos, cada vez mais, nos resumindo às nossas forças”, conta ele sobre o turbilhão de emoções que era viver na clandestinidade, em “aparelhos”, como profissional do partido. “Nós fomos perdendo à medida que a repressão foi crescendo, que a violência foi se tornando algo real na sociedade, prendendo as ruas do Recife, e das capitais brasileiras, que se tornaram palco de arrastões permanentes, dentro dos quais se levava qualquer cara suspeito.”

“As lutas pelo aprofundamento da democracia ao longo da história sempre exigiram o alargamento de suas margens”, acredita Cid Benjamin

Foi preso em 1970, “ficando nove anos, quatro meses e 27 dias” em reclusão. Ao sair, por conta das amizades antigas, foi trabalhar como assessor de Roberto Freire, então do quadro político do PCB e atual deputado pelo PPS. A única exigência de Chico? Não ter qualquer vínculo com organizações revolucionárias. “O que ficou do comunismo para mim foi a sua a feição humanista.”

Mesmo com os sofrimentos generalizados, parece haver um sentimento em comum entre quem lutou contra a ditadura: valeu a pena. Uma sensação compartilhada, talvez um novo artigo não escrito na Lei da Anistia, por colocar do “lado certo” da disputa aqueles que, apesar dos arrependimentos e cuidado nas escolhas de palavras, não tem medo de falar abertamente sobre o período, inclusive desafiando o “outro lado” a fazer o mesmo.

“Tenho orgulho desse passado, pois ele significa que tivemos consciência dos crimes cometidos pelo estado ditatorial e demonstramos que sempre haverá quem lute pela liberdade e pelo bem comum”, resume o jornalista Andrei Bastos, que militou na Vanguarda Popular Revolucionária. Assim como Carlos Eugênio Paz e Rômulo Noronha, o jornalista também entrou no Exército para se preparar para a “linha de fogo”. O contato com leituras diversas e com militantes do PCB fizeram com que ele recuasse para a retaguarda da organização.

“A luta armada era inviável no Brasil, especialmente pela correlação de forças absurdamente desfavorável e pela evidência de que a população não seguiria uma vanguarda revolucionária, tanto pelo alto grau de alienação quanto pelo fato de que se vivia uma fase de abundância no chamado ‘Brasil Grande’”, diz ele enfatizando uma explicação meio comum para o fracasso da oposição à ditadura: a economia.

Quase meio século depois, as controversas memórias finalmente começam a aparecer. Uma mesma cena pode virar objeto de disputa sobre quem teve a ideia de tal ou qual ação. Ou ser narrada de diferentes pontos de vista, às vezes, contraditórios. Há também esquecimentos e lapsos como forma de proteção psicológica. Mas, talvez por conta do esquecimento público, também exista muita vontade de relembrar. Ao menos, para uma parcela que lutou contra a ditadura – e tudo o que ela representou. Filmes, livros, vídeos na internet, blogs, a Comissão da Verdade, esta edição da Revista de História mesmo. Não deixa de ser representativa a coleção de informações que apareceu recentemente. Uma onda de versões do que aconteceu.

“Malgrado os erros políticos que cometemos, temos o direito de bater no peito e afirmar que estivemos sempre do lado certo, o lado daqueles que lutaram para conquistar uma sociedade em que todas as pessoas fossem respeitadas igualmente e vivessem com dignidade”, escreve o jornalista e professor Cid Benjamin, um dos idealizadores do sequestro do embaixador americano Charles Elbrick, na apresentação de seu livro de memórias ainda inédito. “As lutas pelo aprofundamento da democracia ao longo da história sempre exigiram o alargamento de suas margens.”

Para que a luta – e a juventude – desses homens e mulheres não tenha sido em vão, parece que o artigo secreto da Lei da Anistia está começando a ser desrespeitado.

Leia também:
Especial Guerrilheiros
Saiba mais:
- DA-RIN, Silvio, Hércules 56 – O sequestro do embaixador americano em 1969. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2007.
- FERREIRA, Jorge e REIS, Daniel Aarão (org.), As esquerdas no Brasil, Volume 3: Revolução e democracia. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2007.
- PAZ, Carlos Eugênio, Viagem à luta armada. Rio de Janeiro: Best Bolso, 2008 (Record, 1996)

Filme:
- Hércules 56, Silvio Da-Rin, Brasil, 2006

quinta-feira, 21 de março de 2013

Guerrilheiros ou terroristas?

RH - O senhor acha que há alguma diferença entre os termos "guerrilheiros" e "terroristas"? Se sim, qual?
GA -Sim, há nítidas diferenças entre guerrilha e terrorismo, bem balizadas pelo Direito Internacional. Os guerrilheiros são amparados pela Convenção de Genebra e por organismos de direitos humanos de entidades internacionais, desde que atendam a algumas condicionantes, como a existência de uma zona liberada sob seu controle, a existência de uma causa, expressa em seu ideário, de chefes, de uniformes, de armamentos, de bandeira, etc, etc (diga-se que o terrorismo não é a sua finalidade, mas também, algumas vezes, fazem uso do mesmo). O exemplo atual é o das Farc, da Colômbia. Diga-se que no Araguaia, o bando do PCdoB que lá se instalou não pode ser considerado, jurídico-militarmente, como um movimento guerrilheiro: observe-se que não teve o reconhecimento nacional nem internacional, de órgãos jurídicos específicos, não merecendo, pois, o tratamento previsto na mencionada Convenção de Genebra.
RH- E o terrorismo?
GA - Já o terrorismo não possui nenhum apoio do Direito Internacional, a não ser de organizações de determinados países, sendo considerado como método criminoso hediondo, sendo as suas ações cruéis e sanguinárias, condenadas por todo o mundo democrata. O “guerrilheiro” pode ser visto como um civil que cooptado por uma causa luta contra o poder do Estado, que conta com os seus instrumentos para combatê-los, principalmente as suas forças militares. A opção pelo terrorismo é terrível, pois é executada por indivíduos incógnitos, evidentemente descaracterizados, que não possuem fardas ou qualquer meio que os identifiquem e o seu objetivo é causar pânico, levando o caos para a sociedade.
É a forma mais cruel e desumana de atuação. Seus seguidores desprezam as mínimas regras de humanidade e justificam a sua insanidade por algum propósito, ideológico ou não. Por isso, não estão preocupados que inocentes sejam atingidos, mesmo que o seu alvo seja a destruição de instalações ou de pessoas do governo. Nos dias de hoje, é politicamente incorreto lembrar que os guerrilheiros comunistas eram violentos. Quanto à repressão que os enfrentou e que os tinha como único alvo de sua ação, diferentemente deles próprios que, por atos de terrorismo, faziam vítimas indiscriminadamente entre a população brasileira. Os terroristas, hoje, posam de vítimas para dissimular o seu fanatismo, seus equívocos, sua violência e a sua intenção de transformar o Brasil em uma grande Cuba.
O general-presidente do grupo chamado Terrorismo Nunca Mais opina sobre a "guerra" que se combateu na época da ditadura civil-militar no Brasil.