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quinta-feira, 6 de julho de 2017

A casa [da mãe Joana] França-Brasil

D'accord, dou o braço a torcer. Agora, parece inegável que a relação Brasil-França (ou seria Rio-Paris?) é maior, ou pelo menos de outra natureza, mais íntima, mais profunda, que a do Brasil com outros países ricos. É claro que essa é uma percepção subjetiva, mas é a mesma impressão e método que usei para avaliar outros países. Como forma de contra-prova, ou prova dos 9, eu me defendo dizendo que estava até recentemente tentando evitar essa associação de todas as formas. Mas contra as coincidências quase cotidianas [a última foi a francesa que nasceu no Brasil, o pai é ex-diplomata no Rio e o irmão, produtor de cinema de "Cidade de Deus" e outros blockbusters nacionais] não há muitos argumentos.

Sempre me perguntei, para evitar uma aproximação exagerada entre Brasil e França, que falseasse o real: por que a França - e não outro país - teria essa ligação íntima com o Brasil? O que a França - ou Paris; ou Paris? - tem que outros lugares não têm? A questão é que não consegui fugir das questões com respostas satisfatórias e agora estou me esforçando para levantar alguns possibilidades de caminho.

Minha primeira tentativa é histórica. Os franceses tentaram, diversas vezes, colonizar não somente o Rio, como também outras áreas da costa do que veio a ser o Brasil. Discordando daqueles que reclamam do nosso passado português, imagino que para nós, que somos o resultado de uma colônia europeia com tráfico de escravos africanos tirados a força de suas casas dentro de um território manchado com o sangue do genocídio indígena, não haveria muita diferença. Vide o Haiti. Reze pelo Haiti. Todavia, para os franceses...

Para os franceses houve, suspeito, uma sentimento de perda, de queda de um espécie de paraíso na Terra. Uma terra em que, finalmente, eles cumpririam o destino deles: o de serem os donos da porra-toda. Em outras palavras, a Casa Grande numa terra grande.

[Pausa para dizer que se os jornais ainda poderiam ser usados como forma de entender uma parcela representativa da sociedade, o mais que insuspeito "Le Monde" demonstra como os franceses pensam sobre o restante do Monde. Todo e qualquer assunto internacional é, de uma maneira bem direta, parte das suas políticas internas. Eles devem, de alguma maneira, estar a par de todos os assuntos porque eles teriam, numa imaginação um pouco fantasiosa, influência direta nisso. Dias desses, por exemplo, a capa do site era sobre um drama na sucessão do trono na Arábia Saudita. Noves fora o peso estratégico do reino, o tema é, no mínimo, estranho para olhos brasileiros. Fim da pausa.]

Voltando à França, e à sua relação com o Brasil. Os gauleses, sem o Brasil para explorar, se sentiram naquela famosa relação de quem poderia ter sido e nunca foi. Uma promessa nunca cumprida. Um potencial não explorado, por motivos de: caminhos tomados estranhamente na vida - da vida. Seria possível, com pouco esforço, dizer o mesmo do Brasil, apelidado pelo Stefan Zweig de "O país do futuro". O mesmo Zweig, vale o comentário, que tem uma presença bem mais constante aqui em sebos e livrarias que em outros países que visitei [nunca fui à Áustria, no entanto].

Haveria, daí, uma segunda identificação entre o Brasil e França. Os dois se sentiriam parte do mesmo clube dos corações frustrados. França, como o irmão mais velho e rabugento, Brasil, como o mais novo e festivo. De onde nasce a terceira ligação.

Poder-se-ia [o presidente-intestino ficaria orgulhoso da mesóclise] supor que esse irmão mais velho e ranzinza quer, no fundo, cair na folia do mais novo. Haveria uma inveja... não, não: uma cobiça, uma vontade de ser desse modo descompromissado, desleixado, desse jeito de não se levar a sério, não conseguir se levar a sério - mesmo quando uma dose leve de seriedade seria indicada - do Brasil e dos brasileiros. [Esse modo que não é, claro, mais que uma caricatura em zoom out da maneira de ser que o Brasil exporta para si mesmo e para os outros.]

Isso lembra as maneiras atrapalhadas do franceses de não se deixarem ser tão desleixados, de não deixarem a cultura do jeitinho se espalhar indiscriminadamente: com uma mão pesada da burocracia. Não há ninguém que more aqui mais que um mês que não tenha ido aos correios, La Poste, aqui. Para ter um celular de conta, por exemplo, é necessário mandar uma carta de próprio punho assegurando que você não atrasará o pagamento. Sabe lidar com a sólida e inflexível estrutura de algumas instituições públicas brasileiras, que têm pouco ou nenhum jogo de cintura? Agora multiplique por três. Pronto.


Há, portanto, um aspecto cultural - no sentido mais amplo do termo - em comum entre Brasil e França e o território francês, com sua particularidade geográfica, só vem a confirmar isso. É banhado pelo Mediterrâneo, por baixo, e pelo golfo de Biscaia e pelo canal da Mancha, que é uma saída já do mar do Norte, por cima.

Existem diversas maneiras caricatas de dividir a Europa [ver ao lado], mas uma das mais comuns é entre o Norte [protestante, frio, funcional, moderno...] e o Sul [católico, caloroso, confuso, clássico...], que funciona "bem", até a página 3. No máximo. A França, como os mapas aí do lado mostram, carrega as cicatrizes dos dois lados da fronteira Norte-Sul. Há uma culpa por não ser tão eficiente, quanto os irmãos de cima, nem tão relaxados como os irmãos de baixo. Há sempre um sentimento de não estar confortável com o que se é. Um estar desalojado de si mesmo. Um sentido que o brasileiro e a brasileira de classe média levemente intelectualizada conhecem bem, apostaria.

Ao mesmo tempo, a França é ainda um país extremamente central na Europa, propagadora de vários dos elementos que compõem os alicerces das chamadas democracias liberais. Além disso, é uma das mais consolidadas metonímias da Europa, fruto de governos centralizadores, reis, imperadores e que tais. Essa sua posição histórica-geográfica obrigaria, nessa minha hipótese, a França a ter uma participação mais ativa na política internacional [vide as manchetes do "Le Monde"], quando, na verdade, ela só gostaria de estar relaxada numa praia tropical, tomando caipirinhas [onipresentes] ao som de samba [idem]. Voilá, uma contradição não-ambulante. Uma contradição bem brasileira.

Mas por que a França? Por que não outros países com mais vínculos com o Pa-tropi? Bem, porque Portugal ficou muito pequeno para o Brasil. Talvez eles tenham essa relação mais íntima com Angola e, quiçá, Moçambique, sabe-se lá. Espanha tem suas próprias ex-colônias para se preocupar - e invejar. A Inglaterra é fechada dentro da sua própria Commonwealth de influência, e muito cinza para se alegrar com sombra e água fresca. Alemanha tem a barreira da língua, quase intransponível num primeiro momento. Os EUA são abastecidos por tantos outros estrangeiros e influências externas, que a força brasileira se dilui completamente. A França reúne, talvez por coincidência, os elementos para adorar o Brasil, para ter esse diálogo quase paternalista. Não é responsável por suas mazelas, portanto não carrega uma culpa, e não recebe uma onda massiva de imigrantes. E, principalmente, valoriza os nossos clichês como a utopia a se alcançar. Vai entender.

É, ainda, na França que o emigrante brasileiro que não quer tentar a sorte nos EUA [por qualquer motivo que seja], e não sabe falar outra língua além do português-brasileiro com forte sotaque, se arrisca. É o irmão mais novo pedindo ajuda ao irmão mais velho. E tome bar baiano, restaurante com feijoada, roda de samba, forró misturado até com música dos balcãs [dizem que é divertido].

O La Fontaine é sempre citado nos cursinhos de francês com suas fábulas de moral nível He-Man explicando o episódio. Num de seus versinhos que não bebeu diretamente de Esopo, ele fala de uma formiguinha trabalhadora e acumuladora de capital, e de uma cigarra, que canta a vida, sem se preocupar muito com o dia de amanhã. Parece que de alguma maneira, Brasil e França são da mesma família: a das cigarras que são, no menor ou no maior grau, obrigadas a se comportarem como formigas. Talvez um dia consigamos simplesmente nos sentir bem em nossa própria pele.

domingo, 18 de dezembro de 2016

Dataism

Na famosa entrevista para "Der Spiegel", Heidegger reforça um argumento seu, já então bastante batido, de que a filosofia, como ele a entendia, teria chegado ao seu fim [em ambos os sentidos: de término e de atingir o objetivo] e que não daria mais conta das questões contemporâneas. Ele elenca como esse modo de pensamento teria se dividido em vários outros, como a Psicologia, a Lógica, a Politologia. É o desespero dos entrevistadores que queriam uma resposta, no mínimo semi-pronta, para questões contemporâneas. "E quem ocupa agora o posto da Filosofia?", eles perguntam, tentando tirar algo mais substancioso: "A Cibernética", responde Heidegger. Estávamos em 1966.

Essa resposta está dentro de um grande pensamento heideggeriano sobre o que ele, no segundo momento da sua produção intelectual, chamou de Técnica [Technik, no original], que vai além das coisas técnicas. [Aliás, uma curiosidade: cibernética vem do grego kybernetiké, que pode ser traduzido por "Arte [techné] de pilotar".]

Técnica, para Heidegger, não era o conjunto de objetos técnicos, de gadgets, de aparelhinhos que compramos no Natal para dar de presente para o sobrinho, nem mesmo a habilidade que aperfeiçoamos em determinado métier, como futebol, violino, dirigir, ou cirurgia do coração. Seria um sistema que organiza todas as nossas formas de agir, de raciocinar, de, enfim, ser, que teria se tornado hegemônico em todas as sociedades ocidentais contemporâneas - mesmo aquelas que não ficam no ocidente geográfico.

Esse sistema consiste em mostrar como todas as coisas foram transformadas em apenas elementos que são requisitados pelo próprio sistema com o único fim de manter a máquina do mundo funcionando, no menor custo, tempo e esforço e com a maior produtividade. Mesmo que não haja um grande piloto a comandar tudo, nem mesmo uma reunião de donos do mundo [apesar da tendência de acharmos o inverso], o objetivo é fazer sempre mais com menos, o máximo com o mínimo, quase tudo com quase nada. Todas as coisas que não se encaixam nesse objetivo único, como, sei lá, ler poesia, observar o pôr-do-sol, tomar chá pelo gosto do chá, ou mesmo estudar filosofia, são descartadas - ou completamente absorvidas por essa lógica. Poesia se torna boa para aumentar nosso vocabulário; observar o pôr-do-sol mostra sua capacidade estética ou sua sensibilidade; chá é bom para relaxar ou acordar. Todas atividades boas para aumentar nossa produtividade, que é o que o importa para a Técnica.

Cinquenta anos depois, o historiador Yuval Noah Harari, autor de "Sapiens", best-seller do "New York Times" quando lançado, em que analisa o passado que trouxe aquele primata estranho até o atual momento, publicou "Homo Deus", em que ele muda de lado sua lente de aumento e aponta para o futuro, para sugerir alguns prognósticos sobre os caminhos que vamos tomar a partir de agora.

Apesar de ser um autor extremamente neoliberal [defende abertamente o mercado como única forma possível de se viver bem], e de alguns escorregões que me fizeram duvidar de suas credenciais como historiador [quando ele coloca nas costas do comunismo todos os problemas da URSS ou da atual China, por exemplo], suas apostas para o futuro acendem a luz laranja.

Um dos pontos altos em seu livro [para alguém como eu, que acha que a metafísica é, feliz ou infelizmente, indispensável] é chamar de "religião" todos arcabouços de pensamento que sustentam o nosso modo de ser em sua totalidade, mesmo que essa "religião" seja o humanismo, ou suas subdivisões, como o que ele chama de liberalismo, socialismo ou darwinismo [cujo ponto mais sombrio seria o Nazismo]. Nesse sentido, a Técnica, identificada por Heidegger, seria também uma "religião". Ou mesmo a ciência, pensada aqui como modo de justificativa para nosso modo de ser. "Religião", portanto, seria o nosso "fundamento", onde nos apoiamos para decidir o caminho que vamos tomar para conseguir nos decidir. Metafísica, em lato sensu.

Ele sugere que o liberalismo, um outro nome para a democracia capitalista nos países ricos, teria "vencido" a guerra fria por, entre outras razões, saber lidar melhor com os dados que o mundo se-nos apresenta diariamente. Mas que esse tipo de "religião" não daria mais conta de um mundo em que somos soterrados diariamente por uma quantidade absurda e exponencial de informação. Para lidar com esse novo paradigma, ele imagina que haverá - ou já há - uma nova "religião": Dataism [algo como Dadoísmo, a junção de "dados" com o sufixo "ismo", que se refere a doutrinas, sistemas, tendências etc.].

É um fato: não damos conta de tudo o que acontece [se é que um dia demos - lembrar que o verso "quem lê tanta notícia?" foi publicado em 1968]. Mas se não é uma questão de qualidade [como se um dia mudamos a nossa característica de "dar conta" das coisas para agora não dar], a quantidade é tão avassaladoramente maior, que quase torna essa característica uma outra coisa. Ou seja, a quantidade é tão de outra ordem que as regras aqui parecem precisar mudar completamente [pensar em mecânica quântica].

Para dar um exemplo de como vivemos em uma constante avalanche de informações, basta tentar lembrar para qual assunto espinhoso e extremamente relevante para nossa vida e para o mundo conseguimos dar nossa atenção nessa última semana: À reforma do ensino médio? À PEC que congela os gastos da saúde e educação por 20 anos? Às denúncias e aos apelidos da Odebrecht? À Lava [a] Jato? Às operações da PF? À crise política econômica fluminense? Às chicanas políticas de Renan et caterva? Ao golpimpeachment? Ao Temer? Ao Trump? Ao Putin? À Allepo? Ao Iraque? À China?

Isso só para ficar nas questões de cunho político mais estrito. Nossos sentidos estão tão abertos a vários e intensos estímulos que impulsos de outras frequências não são nem mesmo captados por nós [ouvi a expressão "Compassion fatigue" - e ela se aplica aqui bem]. Eu fiz de tudo para não saber nada sobre a Síria nesse momento. Não estava dando conta.

O que era incomum - a alta quantidade de notícias - se tornou abundante, exponencial. Estamos ainda na Modernidade, mas em seu fim, no seu extremo fim. Esses dados, que sempre existiram, só podem agora serem lidos por uma inteligência que as processa sem, hum, "pensar" muito. Isto é, que não coloca todas as informações em perspectiva, que não analisa cada uma das questões, a cada momento, que não tem sua atenção desviada com outro assunto no meio da análise. Os humanos não dão mais conta disso. [Não me surpreende que o Transtorno de Déficit de Atenção seja um dos principais problemas entre as crianças. E que a Ritalina se tome no lugar da jujuba hoje em dia.]

O que Harari sugere - e não somente ele -  é que os algoritmos vão tomar conta de nossas decisões a partir de agora. Abastecidos por essa quantidade de informações incomensuravelmente crescente, eles , e só eles, conseguirão processá-las para, a partir de cálculos matemáticos-probabilísticos, dizer qual é a solução "correta". Saímos da verdade divina, passamos pela certeza científica e chegamos às probabilidades técnicas.

Em uma bifurcação, os algoritmos vasculharão todas as informações já publicadas sobre a estrada e descobrirão qual é a melhor forma de se evitar engarrafamentos e chegar o mais rapidamente ao destino. É uma decisão fria, distante, pragmática.

 A democracia representativa perde um pouco de sentido. Não precisaremos mais votar em candidatos: eles seriam colocados no poder a partir da análise de suas biografias, que utilizariam os critérios das últimas pesquisas e artigos científicos publicados para propor quem é o mais apto ao cargo. Aliás, talvez nem precisaríamos de políticos, já que todas as decisões poderiam ser feitas a partir desse mesmo critério: os algoritmos avaliariam os prós e contras de cada uma das bifurcações e optariam, instantaneamente, por um dos caminhos, pelo melhor caminho, cientificamente comprovado, estatisticamente mais produtivo. O único objetivo é seguir em frente, rumo a uma sociedade cada vez mais perfeita - portanto, cada vez menos "humana".

"Humano" aqui é o que eu chamo de nossa capacidade exatamente de nos reter em um determinado assunto e refletir sobre ele, sem exatamente chegar a alguma conclusão definitiva. O que Heidegger chama, grosso modo, de pensamento - daí que o polêmico filósofo alemão falava que a ciência não pensava, mas apenas respondia a estímulos. E, fazendo uma comparação ainda mais controversa, o que Harari chamaria de "consciência".

Mesmo que os computadores tenham cada vez mais capacidade de processar teradados em alta velocidade, essa inteligência não teria necessariamente consciência. Apesar dos grandes avanços da neurociência e da biologia, ainda não se sabe como nasce ou nasceu a consciência; foi a junção de uma alta capacidade de processamento de dados? Foi a nossa constante capacidade de autoquestionamento? Por que precisamos nos questionar tanto? O questionamento pode até ter tido alguma função evolucionista no passado: mas ela ainda teria num mundo em que os algoritmos resolveriam nossas dúvidas?

Podemos ainda dizer que há uma necessidade de cientistas em programar esses algoritmos, portanto os humanos não teriam se tornado obsoletos. Isso, entretanto, vale por pouco tempo: conforme a Inteligência Artificial avança, os computadores entendem cada vez mais sozinhos o que devem fazer, a partir, simplesmente, do mergulho no universo praticamente infinito de dados - como mostra esse artigo da "Economist", por exemplo.

Com o fim da privacidade, forneceremos ainda mais dados biométricos, bioquímicos etc. Em pouco tempo, as próprias máquinas poderão também, por que não?, produzir seus próprios dados a partir dos estudos comparativos [há casos como o de David Cope, para citar um, que criou um algoritmo que produz música e haikus sozinhos, ao entender como funcionavam os formatos já estabelecidos]. Os humanos nos transformaremos, enfim, em apenas uma coleção de dados para a leitura desses algoritmos que produzirão e reproduzirão nosso mundo. Por isso que a filosofia não dá mais conta das nossas questões, segundo Heidegger.

Não sei bem o que pensar sobre isso.

terça-feira, 18 de outubro de 2016

As similaridades entre 'ciência' e 'fé'

O que o seu Buonarroti fez foi obra da fé ou da ciência - ou foi arte?
Não vejo diferenças essenciais entre o que as pessoas em geral chamam de "ciência" e o que chamam de "fé". Essas divisões acontecem, me parece, por conta de uma tentativa de colocar cada um dos saberes em um determinado escaninho em que as coisas não podem se misturar. Para mim, elas não somente se misturam: acho que, em alguns casos, elas são a mesma coisa.

Não estou tentando dizer aqui apenas que a fé pode ajudar a ciência - e/ou vice-versa -, mas que os âmbitos, as estruturas, a organização [como quer que o chamemos] entre os dois são extremamente permeáveis. Ou seja, alguma coisa pode ser "ciência" E também ser "fé" - não é excludente. Ou alguma coisa pode ser "fé" em determinado momento, sob algum determinado ponto de vista, e ser "ciência" em outro ponto de vista.

Também não estou afirmando que alguém com câncer deva optar pela homeopatia em vez da quimioterapia. O que eu estou dizendo é que, em alguns casos, circunstancialmente, a homeopatia teria o fim que em outros casos a quimioterapia teria. Tudo, me parece, nessa discussão, é circunstancial. Não daria para generalizar em nenhum caso [e isso é um problema danado, principalmente para a comunicação e a linguagem].

Muito menos estou tentando justificar a educação por parâmetros religiosos, ou qualquer tentativa de acabar com Darwin. Acho que, para se viver nesta nossa sociedade de alguma maneira ocidentalizada, da maneira como ela se apresenta para nós, neste momento, o que chamamos de "ciência" dá mais possibilidade de se criar um diálogo entre os diferentes que o que chamamos de "fé". Entre Stephen Hawking e o Papa fofinho, fico com o primeiro.

Esses argumentos, entretanto, me lembram um amigo que termina agora o doutorado em Farmácia. Ele disse certa vez que há estudos que comprovam a eficiência da homeopatia em alguns tratamentos. Ninguém consegue entender, pelo método científico, como isso funciona, mas, ao fim, funciona. [Isso é tão polêmico que vou perguntar novamente para ele.]

Ou também toda a discussão da física quântica, que, pelo pouquíssimo que entendo, no mínimo, ampliou a forma de nós entendermos a física, a partir da perspectiva unicamente newtoniana - e ninguém entende bem como alguns processos quânticos funcionam. Para ficar num exemplo bobo, o bóson de Higgs foi "comprovado" recentemente, apenas.

Ou de como, muitas vezes, o método científico é manipulado para chegar a determinados fins. Tipo, gente que ainda defende que o aquecimento global não teria influência dos humanos. Ou, menos polêmico, e um caso hipotético - porque não procurei um exemplo formal -, gente que ainda defenda que o fumo de cigarros industrializados não aumentaria a probabilidade de ter câncer.

Isso tudo para ficar apenas no parâmetro-sistema-hegemonia ocidental-capitalista-eurocêntrico. Se sairmos desse ponto de partida e colocarmos o centro em outro lugar, toda a conversa muda instantaneamente de figura. Não haveria divisões assim tão claras entre "ciência" e "fé" - aliás, esses conceitos-noções já não receberiam nomes com essas correspondências.

Eu fico imaginando que essa vontade de separar a nossa vida, a nossa experiência de viver, nosso contato com o mundo, em determinadas possibilidades-destinos-conceitos-noções é fruto da tradição fundada lá com o "Hamlet" do Shakespeare, no momento-chave do "Ser ou não ser". Mesmo que a passagem seja sobre um caso bem específico. Se eu me lembro bem [o que eu duvido], é uma discussão sobre se é melhor viver ou morrer. Mas ainda assim é um exemplo a se lembrar: ou se está vivo, ou se está morto, uma coisa anularia a outra. Mas aí eu lembro: e o gato de Schrödinger? Suspeito que, após Einstein, nós temos que mudar nossos parâmetros para: ser E não ser.

Também discordo, teoricamente, da afirmação de que "a revolução científica foi uma revolução da ignorância", que demonstraria que só a partir desse momento as pessoas começaram a duvidar de suas afirmações, um dos moto-contínuos da própria ciência. Se seguirmos esse raciocínio, o processo teria começado bem antes da revolução científica: no mínimo teríamos que voltar a Sócrates, quando ele diz que só sabia que não sabia. 

Mesmo que ele tenha dito isso para mostrar a ignorância dos seus interlocutores, o método dele era investigativo, ou, para usar uma expressão inventada neste exato momento, protocientífico. O que eu quero reafirmar com esse ponto não é marcar uma data de nascimento da ciência [há a anedota sobre um filósofo famoso do século xx que afirmou que a bomba nuclear já estaria contida no primeiro poema de Parmênides], mas que o Ocidente, essa abstração que criou toda a dor e a delícia do que nós somos, teria como princípio, em linhas gerais, claro, essa busca por saber mais. Só acho que, vez por outra, rola algo mais como um aprendiz de feiticeiro: somos surpreendidos por nossas criações. Vide a bomba atômica, o aquecimento global, a superpopulação e tantos outros efeitos colaterais.

Outro detalhe que eu acho que é importante ressaltar nessa discussão entre a ciência e a fé: de alguma forma, há sempre a necessidade de se "acreditar" na ciência - mesmo a que passou por todos os procedimentos e correções. Não há qualquer garantia que a "ciência" funcione - mesmo que ela funcione 1 milhão de vezes, há sempre um "salto no escuro", uma aceitação condicional desse formato. Gosto de usar o nome "metafísica" para explicar isso. Costumo brincar que a diferença entre ciência e fé é que a primeira tem uma corda imensa para explicar o caminho de "a" a "b" enquanto a segunda vai de "a" para "b" num instante. Mas os lados "a" e "b" permanecem os mesmos.

Também não vejo por que não se possa duvidar da própria fé. Conheço casos e mais casos de fiéis que não conseguem aceitar bem a própria fé e lutam contra ela - geralmente o pessoal das religiões mais estigmatizadas, como umbanda e candomblé. Claro que podemos dizer que os casos de problemas com a fé aqui poderiam vir do fato de essas pessoas estarem num mundo em que elas sofrem preconceitos - mas vejo o fenômeno acontecer até com pessoas que estudam profissionalmente tais religiões. O que diminui a possibilidade dessa influência. Isso para não dizer como a própria igreja católica conseguiu reverter o lado da questão da dúvida, para dizer que a dúvida é o que fortalece a fé em Cristo.

Mas, claro, isso tudo aqui tem que ser colocado em dúvida, já que foi escrito por um descrente que tem dificuldades de crer nas menores coisas - como, por exemplo, na própria "ciência".

quarta-feira, 1 de abril de 2015

'Backlash'

O termo inglês "backlash" quer dizer algo como "retrocesso" ou "o ato de retroceder". Muitas vezes o sentido usado é um pouquinho diferente: uma espécie de reação contra algum tipo de avanço. Dá para pensar em uma imagem poética, que daria um sentido mais claro do movimento que isso envolve: como se fosse uma onda que retrocede em direção ao mar após explodir na areia. Mas esse último tipo de interpretação só pode ser vista como otimista no atual estado de coisas do Brasil.

Desde mais ou menos 2002 até cerca de junho de 2013, o Brasil surfou uma maré progressista, como se todos os nossos problemas fossem resolvidos apenas com o passar do tempo. Noves fora uma política que transformou nossa economia em uma monocultura de exportação, com o sacrifício de florestas e ecossistemas (numa citação quase irônica da teoria da dependência do sociólogo Fernando Henrique Cardoso), havia a sensação de que, enfim, o Brasil estava dando certo. O futuro do país havia chegado. Pela primeira vez em muito tempo os pobres urbanos tinham acesso a bens de consumo - nunca serviços de cidadania - que os aproximava, mas ainda a uma distância imensa, da parte de cima da sociedade. Depois chegou junho de 2013, em seguida veio outubro de 2014 e, por fim, este março de 2015 que finalmente, esperamos, se encerrou ontem.

Não dá para pensar nesse momento histórico do Brasil sem sentir ecos de outros momentos da nossa curta trajetória de país consolidado. E esse 1º de abril, em que alguns comemoram [sic] o 51º aniversário do golpe de Estado cometido por militares com apoio maciço da elite, que conseguiu levar a população conservadora para as ruas do país, não nos deixa esquecer dessa proximidade.

Muito se fala de como João Goulart, que era fortemente atacado pela direita conservadora, demorou para se apoiar na esquerda revolucionária. E que, quando ele se apoiou, a aproximação deu mais argumentos para a direita recrudescer suas ações. Lembre-se que o inflamado discurso na Central do Brasil foi no dia 13 de março de 1964, portanto menos de 20 dias antes do golpe. Também se fala muito de como a própria esquerda era bastante radical no período, não aceitando negociar ou dialogar com o governo, pensando que o único caminho possível para melhorar a vida da população mais pobre era a via revolucionária. Goulart, apesar de ou por ter propostas muito fortemente populares, ficou sozinho e foi alvo fácil daqueles que sentiram seus privilégios ameaçados. Naquele período e espaço geográfico bem afeito a intervenções militares, deu no que deu.

Jango não foi o primeiro chefe de Estado que foi atacado pela elite por tomar atitudes políticas que podem ser consideradas populares. Seu padrinho político, Getúlio Vargas, foi outro que sofreu com acusações e mais acusações de corrupção e incompetência canalizadas nos - não deve ser coincidência - veículos de comunicação de então. O Vargas que assumiu o governo na década de 1950 era bem diferente do ditador do Estado Novo. Era um político ligado aos trabalhadores e isso deve ter desagradado o andar de cima. Segundo algumas interpretações, ele teria conseguido adiar por dez anos o golpe por conta da atitude extrema do seu suicídio, e criou o caminho perfeito para a subida ao poder de um dos políticos mais escorregadios que já tivemos, JK.

De qualquer forma, pode-se sugerir que o primeiro golpe de Estado que "endireitou" o caminho do Brasil foi ainda outro: a proclamação da República. Não se deve esquecer que o nosso segundo monarca era considerado "republicano" e que os atos da República nova podem ser vista como dignos de uma ditadura, apoiada por forças conservadoras. Basta pensar que a República só foi instituída logo após o império brasileiro ter tomado uma atitude considerada, novamente, popular: a abolição da escravatura. Não se mexe em privilégios impunemente.

Longe da teoria da conspiração, essa sucessão de acidentes nos faz pensar: e se essa crise em que vivemos foi fabricada? É muito complicado defender o governo atual, depois de tantas escolhas controversas - para dizer o mínimo, mas e se a elite sentiu que não poderia mais especular com a maior taxa de juros do mundo? Que deveria finalmente adentrar o capitalismo produtivo, com um atraso de 200 anos?  E se a elite ficou incomodada com a presença dos pobres em lugares antes exclusivos? E não quisesse mais ter que pagar caro para ter uma empregada doméstica ou um marceneiro? E se até o ano passado não houvesse reais motivos para preocupação alguma e nos foi incutido que estávamos caminhando para a bancarrota e após tantas repetições e boicotes dos mercados, começamos a acreditar nesse caminho e entramos em uma espiral decrescente?

Não teremos um golpe de Estado porque não é a moda atual, mas nos direcionamos para um país cada vez mais conservador, quase um Estado Totalitário, sem precisar de nenhuma intervenção militar - para desespero de alguns. Principalmente com o crescimento dos políticos ligados às bancadas da bala e da fé, entre outras patrocinadas por lobbies conservadores. Os primeiros sinais já estão à mostra. Algumas apostas para os próximos capítulos:

/ As pautas de segurança pública [maioridade penal, aumento de efetivo policial etc.] serão obviamente reforçadas - é a união de forças da direita religiosa com a elite de direita que acreditam que só mais força pode combater a violência.

/ A economia deverá ter uma guinada, ainda mais forte, à direita - pelo mesmo motivo: acreditam no Estado mínimo como se fosse a solução para todos os problemas. O Estado, aliás, é o problema.

/ As pautas de direitos humanos e minorias serão vistas como perfumaria: num momento de crise, alguns ovos deverão ser quebrados para o omelete da nação. A Amazônia, para essas pessoas, é um deserto.

/ As pautas comportamentais [legalização de drogas, aborto etc.] são as únicas ainda em disputa, porque a elite de direita tende a ser "liberal", no sentido de não querer se meter com a vida privada. Laissez faire, laissez passer, clássico. Mas esse é um ativo forte para a bancada religiosa. 

É sempre bom lembrar na hora do golpe de 1964, muita gente "decente" e "boa" apoiou a deposição do presidente eleito, mas ninguém sabia onde aquele processo reacionário iria dar. Não basta colocar senhoras respeitáveis se beijando na novela das 9, quando o primeiro-ministro quer instituir o dia do orgulho hétero.

O que acompanhamos neste momento é, novamente, como uma repetição de uma história que queríamos esquecer, a elite de direita e a direita religiosa fazendo uma campanha publicitária [nos meios de comunicação], usando o mesmo vocabulário [contra a corrupção], o mesmo discurso [pela moral, os bons costumes, a tradição, a família e a propriedade], movimentando as mesmas peças [classes médias conservadoras], e conseguindo o mesmo resultado: "backlash".

ps. recebi de um amigo que entende, realmente, de História a seguinte crítica: "fez total sentido. mesmo. e acho que sua avaliação tá corretíssima. a escalada conservadora, entretanto, ocorre com co-participação do próprio executivo federal, que cedeu desde sempre à ideia tradicional de "controle das classes perigosas", quando essas classes confrontam o Estado - e sentimos isso na pele em 2013 e 2014. a pauta da maioridade penal estava adormecida; o primeiro poder a colocar em marcha o crescimento do poder policial foi o executivo federal, açodado pelos executivos estaduais dos partidos aliados. tem um pouco de PT na ressurreição parlamentar da diminuição da maioridade penal." Acho que é válido o complemento.

domingo, 29 de março de 2015

Negação da individualidade

"Sentindo necessidade imediata de ordem, e de dar nome ao que existe, apelidou-a de Pequena
Flor." Quando se lê essa frase de Clarice Linspector em "A menor mulher do mundo", conto que Verissimo considera ser o melhor em língua portuguesa, muitas ideias brotam na cabeça. Principalmente quando se lê esse conto logo depois de passar por "Elegbara", a reunião de narrativas curtas de Alberto Mussa, em especial "A cabeça de Zumbi" e "O último neandertal". Há algo aí que junta as duas [ou três] pontas e que nos leva a um outro formato de pensamento.

Ao fim de "... Zumbi", Mussa escreve:
Mas não por muito tempo. Porque Zumbi, mortal eterno, atingindo o ápice do seu ideal, tinha diluído a própria individualidade, disseminando-se como um ente coletivo. Nenhum dos filhos de Deus ousou semelhante grandeza.
Assim, vez por outra, Pernambuco continuava a ver o rosto de Zumbi. Até em mulheres; até em crianças; até em brancos.
Por isso a angústia dos que vêm às cercanias de Palmares ou simplesmente contemplam a serra da Barriga: porque se esconde naquelas matas uma possível negação da singularidade dos seres e da própria ontologia humana; porque, vagando pelas brenhas, certamente ainda há algum Zumbi para morrer.
Ao fim de "... neandertal", ele deixa como moral a seguinte passagem:
Se os nomes comuns serviam para destacar do real tangível classes de entidades de existência meramente cognitiva, os nomes próprios desencadearam a sensação falsa de que cada pessoa era em si uma classe, uma entidade única, criando o artifício da personalidade. Os demais conceitos — alma, família, beleza, propriedade — surgiriam como atributos secundários dessa idéia.
Os neandertais refratários a tal perversão certamente anteviram os efeitos que iria produzir. Não cabe discutir se foram ou não foram mais inteligentes. Fique apenas a imagem do último deles, a um só tempo solitário e coletivo, como que a demonstrar que o indivíduo é uma falácia; que a consciência é uma falácia; que o próprio ser — em sua furna — também é uma falácia.
O que as três narrativas fazem é questionar, de modo brando no caso de Lispector, ou diretamente no de Mussa, a certeza da individualidade, de um existir em separado dos demais, a ideia de que há "um homem" em vez de "os homens", ou ainda "os seres". Um duvidar de que há um ente puro, isolado, em vez de ser simplesmente como que mergulhado num grande mar infinito [talvez os hindus chamem isso de brahman]; um ser em que é impossível determinar as fronteiras, demonstrando como somos unos - e a própria ideia de plural ou singular se torna complicada, já que não haveria nenhuma diferença em relação a isso.

Lispector mostra a surpresa do explorador francês Michel Petre ao encontrar um mulher negra de 45 centímetros no meio de uma tribo de pigmeus na África equatorial. Ele está tomado de um espanto que o leva para longe de todas as certezas acumuladas por anos de ciência racional europeia. Encontra algo que desafia a sua lógica, o que estava acostumado, as verdades assentadas dentro de si. Seu deus, nesse momento, morreu. Não tinha mais em que se apoiar. Era só dúvida. Espalhado, perdido, vagando, sem um porto. Era puro devir. Seu incômodo cresce, não pode trafegar nessas águas tão turbulentas sem algum tipo de apoio. "Na certa, apenas por não ser louco, é que sua alma não desvairou nem perdeu os limites", escreve Lispector. Decide dar à pequena mulher um nome, algo que a retira desse fundo em que ela se confundia, em que ela se sentia parte integrante, e criar uma perspectiva em relação aos demais, como um pintor renascentista. Na necessidade de criar uma "ordem", uma direção, um sentido; fazer um recorte no mundo para que essa parte em separado pudesse ser enxergada. "E, para conseguir classificá-la entre as realidades reconhecíveis, logo passou a colher dados a seu respeito."

Os pigmeus não teriam necessidade de se identificar: "Os Likoualas usam poucos nomes, chamam as coisas por gestos e sons animais." Uma senhora, mãe de uma noiva, personagem do conto, sugere que a tristeza que ela exala não é "humana", mas de "animal". Nós e eles. Uma separação, um limite, uma borda, uma fronteira que nos coloca sobre os demais, hierarquicamente. Já o pai de outra família imagina a pigmeu servindo a sua mesa. Um escravo, um menor, um outro. O mesmo raciocínio.

O explorador sente mal-estar porque sua Pequena Flor sorri. Sorri sem motivo - para ele - sem razão, que ele enxergue. Sorri porque está viva. Está feliz simplesmente por se percebe viva e não morta. Por ser e por não não-ser. Ela não precisa de mais nada além disso, não precisa de qualquer outra bengala para se apoiar e justificar para si sua vida. Ela vive e é isso. Essa falta de motivo aparente violenta o explorador que tem seus apoios, seus objetivos, seus futuros a cumprir. "Esse riso, o explorador constrangido não conseguiu classificar." Como assim sorrir sem razão? Ela sorria porque o amava - e não amava a ele, explorador, simplesmente, mas amava o que o mundo lhe apresentava, amava, por fim, a vida, o viver, o estar viva. Ele fica constrangido e sorri de volta, querendo entender como funciona o diálogo, mas logo volta a si, à razão, à sua História, se recompõe. Toma notas, organiza, classifica. Tenta estabelecer novamente um limite entre um e outro, a divisão da comunhão que havia se estabelecido. A volta a si, dentro de si, o mergulho em sua individualidade, sua subjetividade.

Mussa é explícito no seu argumento: "os nomes próprios desencadearam a sensação falsa de que cada pessoa era em si uma classe, uma entidade única, criando o artifício da personalidade. Os demais conceitos — alma, família, beleza, propriedade — surgiriam como atributos secundários dessa idéia." No seu conto, ele mostra como o neandertal negou a separação do seu entorno, se misturando com o fundo, que todos eram apenas um e um era todos. Ou como o objetivo de vida de Zumbi era não ser ele, apenas, mas ser muitos, todos serem ele e ele ser todos - todos serem todos.

Não é uma defesa de uma forma mais sábia de lidar com o mundo, de viver, de existir enfim, apenas a demonstração que, com esse prognóstico, afirma-se a ideia de um ser único em separação do restante, "como que a demonstrar... que o próprio ser — em sua furna — também é uma falácia". O ser como momento em que o devir é aprisionado, um limite para o espraiar de vida, de força, de vontade nietzschiana - não como uma possibilidade infinita, tal qual Heidegger defende na sua obra capital. Mas um ser que fosse uma fronteira estabelecida, uma determinação de algo que existe independentemente dos demais. Um ser que é quase um não-ser por ser a cristalização de um determinado modo de ser, em vez de se deixar flutuar, navegar, nadar ao sabor do tempo. Um ser que, mesmo que em alguns casos seja momentâneo, permite que se separe, se torne único.

É possível em nossa sociedade extremamente neurotizada e neurotizante ainda se pensar sem a noção do indivíduo? Não é indispensável se pensar movimentos que girem de um lado para o outro, que demonstrem que há a necessidade também de uma constituição para depois haver uma destituição? O equilíbrio dinâmico entre os pontos cardeais? Como perder a soberba de se imaginar único?

domingo, 22 de março de 2015

Epidemia de opinião

É quase uma contradição dizer que vivemos em uma epidemia de opinião. Melhor dizendo: é uma contradição. Mas alguém tem que incorrer nessa contradição na tentativa certamente vã de acender não mais uma luz amarela, mas algo ainda mais intenso que o vermelho. O sacrifício é por conta da casa.

O momento é de grande confusão de vozes, de um emaranhado de chiados como uma sobreposição de distorções. Todos falam e poucos se escutam. Todos opinam, poucos leem outras opiniões. Todos escrevem grandes tratados no Facebook, poucos frequentam ambientes contraditórios. Todos são autores, poucos são leitores. Todos têm certezas, poucos duvidam de si. Todos são portadores de alguma verdade, poucos são aqueles que desconfiam daquilo que sabem.

Temos que ter alguma solidez para cumprir nossas metas cotidianas, sem dúvida. Alguma coisa que nos faça levantar da cama e enfrentar oito horas de trabalho nem sempre recompensador, chefes às vezes pouco amigáveis, salários quase nunca abonados. Seja o lazer que o dinheiro suado proporciona das noites de sexta à música de abertura do "Fantástico", a compra de um apartamento de dois quartos, duas vagas na garagem e churrascaria na varanda, ou o futuro de engenheiro, advogado ou médico dos filhos. Também não cabe ficar, a todo momento, duvidando se estamos certos ou errados em relação às nossas decisões. Por que temos que pensar se votamos corretamente, se poluímos o planeta, se estamos ajudando o mundo, se só pensamos em nós mesmo, se o egoísmo é a única forma de convivência dentro de uma cidade caótica? Certezas são importantes para o cotidiano, sem dúvida. Mas não duvidar de si, em nenhum momento, nos torna pouco maleáveis, nos estabiliza, nos estaciona no tempo. O que pode ser um problema para um mundo que corre cada vez mais veloz.

Se a era moderna recebeu como epígrafe um trecho do famoso monólogo de "Hamlet", o tal "Ser ou não ser, eis a questão", que simbolizaria a dúvida existencial do ser humano frente à infinidade de possibilidades que a vida lhe traz, o momento atualíssimo nos parece trazer um outro temperamento, não mais baseado numa peça de teatro, mas em personagens de videogames: somos imaginados como personagens estanques, com três estrelinhas na característica de velocidade, meia estrelinha nas habilidades de lutas, duas estrelinhas na quantidade de força, quatro coraçõezinhos cheios de vida e três armas de calibres cada vez maiores. Diferentemente dos personagens dos games atuais, não temos "continues" infinitos nem podemos salvar uma fase para voltar depois.

Determinado nosso caráter, como uma escolha customizada num guarda-roupa virtual, a partir das nossas mais variadas formações e defesas, o próximo passo é bradar essa escolhas fixas. O facebook se transformou em um canal interessante para isso, principalmente por conta de seu algoritmo que vai, aos poucos, filtrando opiniões contrárias às suas. Quanto mais nos afirmamos, mais angariamos curtidas, que no linguajar atual quer dizer reconhecimento. O se expressar, podemos suspeitar a partir disso, está ligado diretamente à construção da nossa própria imagem. Pensamos ser o que escolhemos ser, o que pudemos escolher ser, e o espelho da internet só nos mostra o reflexo de Narciso.

É possível suspeitar, porém, que o mundo seja mais flexível, mais multifacetado, do que nos mostra a nossa própria vontade de ser. Não basta construir família, ser bem sucedido, viajar para lugares cada vez mais exóticos, fazer parte de um programa social que ajuda os menos afortunados no fim de ano, para sentir esse sentimento que o seu Aristóteles chamou de "eudaimonia", palavra complicada de traduzir, que recebeu versões bem diferentes no português que vão da simples felicidade, passando pelo "bem-estar" e chegando ao "desenvolvimento humano". É complicada porque "felicidade" não é um porto de chegada, não é uma linha final, não é a completude de uma caminhada. Se você acredita nisso, você pode se considerar devedor das religiões que acreditam em paraíso. Mas, pense: qualquer ambiente que não se modifica, que permanece o mesmo, é, em pouco tempo, absorvido, se torna sem vida, chocho, sem graça. Mesmo a melhor das festas não pode durar naturalmente para sempre. Ela tem que acabar. Todo o carnaval tem que ter o seu fim.

Se você, ainda assim, se mantém muito seguro de suas certezas, de suas verdades, é bem provável que vai gritá-las para, inclusive, se convencer delas. O pensamento quando transformado em palavras e sons é mais poderoso que quando apenas isolado dentro da cabeça, onde fica matutando, maturando, batucando, indo de um lado a outro como um pinball. Ao se tornar expressão, o pensamento se cristaliza, se transforma, mesmo que momentaneamente, em uma verdade. Fixa, imutável. É possível se apoiar nela. Você, que quase duvidou de si mesmo, tem que se apoiar nela. É sua única jangada no meio de um oceano nada pacífico.

Há ainda os que acreditam que essa difusão de vozes cada vez mais violentas e em volume mais alto seria apenas a indicação de uma muito incipiente formação do novo tipo de praça pública, agora virtual. Um lugar onde estaríamos debatendo para chegar aos nossos melhores consensos possíveis. O problema é que ninguém quer abrir mão de suas convicções, porque elas não são apenas opiniões, elas são a Verdade - ditadas por deus, o diabo, o pastor, a globo, o colunista da veja, o site patrocinado pelo pt, o meme do facebook, o vídeo do whatsapp.

Inventamos uma nova forma de interação: em vez de diálogos, diversos monólogos. O "eu" vem sempre à frente do "tu", do "ele" e só não vem à frente do "nós", caso o "nós" envolva gente muito, mas muito próxima mesmo, porque o pirão deve ser servido para mim primeiramente, mesmo se a farinha estiver sobrando. Nesse tempo de epidemia de opinião, descobrimos o óbvio: não há forma de conversar quando todos só falam.

quarta-feira, 4 de março de 2015

Para lá e para cá de Marrakesh

Andar pelas ruas da Medina de Marrakesh assusta às primeiras passadas de um turista acostumado com a organização das cidades europeias contemporâneas. A melhor e a mais simples definição é a de um labirinto, "maze" em inglês, que faz lembrar a origem da palavra "amazing". Um espanto. São ruelas, e ruelíssimas, que levam a lugar nenhum, ou a casas de pessoas que vivem suas vidas como viviam seus antepassados há dezenas de dezenas de anos. São pequenas vias onde passam burros, motonetas e até carros de pequeno porte. Onde os verdureiros dividem espaço com o senhor que só fala berber e vende arruda e alecrim murchos que parecem ter sido colhidos há dias em sua própria horta. São lojinhas de quinquilharias em que os atendentes não lembravam como se chamava fósforo em francês. Vendinhas de frutas onde pode-se encontrar uma criança de 9, 10 anos carregando uma faca com um papelão fazendo as vezes de punho, para cortar um cacho de bananas que será devida ou indevidamente, não se sabe, pesado numa balança antiga que ele mesmo segura. E há os souks, os mercados intrincados, em zigue-zague, com vários boxes, onde se encontra todos os produtos tradicionais do norte da África: chá, temperos, tecidos, couro, artesanatos, pinturas, açougue, etc. Perder-se na Medina é uma regra e, após o costume, uma regra bem-vinda.

A Medina é como um bairro histórico, preservada à maneira marroquina, dentro da grande cidade que é Marrakesh. Do lado de fora dos seus muros, parece uma urbe qualquer. Ocidentalizada, europeizada, americanizada. A Globalização é uma troca desigual de forças. Sair da Medina faz lembrar "A vila", o filme de Shyamalan. Pulamos alguns séculos de um instante para o outro.

Essa região cresceu em volta da Jemaa el-Fna, a praça central que por séculos reúne todo o tipo de gente do Marrocos e além. Sempre um lugar de concentração. O coração da cidade. No final do século XIX, parece, tentaram transformar o lugar para um estacionamento. Não deu certo e as pessoas continuaram a frequentá-la. De dia, vendedores de suco de laranja, frutas secas, encantadores de serpentes, malabaristas, videntes, poetas e contadores de história que repetem os relatos ouvidos há gerações. De noite, restaurantes que vendem os tradicionais tajine e cuscuz, mas também frituras de frutos do mar, espetos de todos os animais, cabeças inteiras de novilho - onde as famílias marroquinas se reúnem nos fins de semana para apreciar a iguaria, como se num estrela Michelin, e quase ninguém fala francês (uma exceção no lugar em que quase todos os atendentes conseguem arranhar ao menos algumas palavras em muitas línguas).

O preparo da cabeça do novilho, à vista de todos, é de espantar. Coloca-se inteira dentro de um panelão, onde será cozido, num caldo feito com os ossos de outras cabeças e especiarias. Após, corta-se ao meio, em sentido meridional, arranca o couro, e se retira todas as carnes moles: bochecha, língua, cérebro. Corta-se até o triturar e joga-se tudo dentro de uma panela com um caldo para refogar. Na versão "mixture", come-se com pão e sem talheres. Aconselha-se estar com a mão, direita, limpa. O guardanapo parece os papéis de refugo dos jornais que cobrem mesas dos bares mais tradicionais do Rio. Espalha em vez de absorver a gordura. O prato não surpreende: é excepcional.

Marrakesh é a última cidade importante do Marrocos (é uma das cidades imperiais) antes da chegada ao Saara. Para lá de Marrakesh, o deserto-mor. Para lá de Marrakesh, a África negra, o coração das trevas. Os europeus, pode-se suspeitar, tinham receio de ultrapassar essa fronteira - mais um motivo para nos espantarmos com a coragem dos portugueses, que iniciaram a circunavegação da África nos primórdios do século XV, quase como uma continuação das guerras de reconquistas. Parece que se empolgaram.

Andar por esses becos e travessas é uma afronta ao pensamento único ocidental. Tão próximos da Europa, e ao mesmo tempo tão distantes. As ruas tortuosas que funcionam de um jeito menos organizado se os mirarmos pelos nossos olhos cartesianos, limpinhos e assépticos, são metáforas imperfeitas, como todas as metáforas. Lembram favelas. Lembram a área de Londres anterior ao incêndio de 1666, o que faz pensar o quanto esse grande fogo não teria sido proposital para fazer uma "higiene social". Lembram um mundo antes das revoluções, principalmente antes da revolução científica, que tudo calcula, tudo metrifica. É uma organização orgânica, que cresce à medida que a necessidade exige. Não há planejamento. Há sobrevivência. Há uma inteligência que se pode encontrar, em menor ou maior grau, em lugares pobres: ginga, malandragem, balanço. Um raciocínio mais intuitivo, mais ligado à corporalidade.

Isso não quer dizer que a Medina de Marrakesh é o melhor lugar para se morar - porque não é. Nem próximo. É, isso sim, um desafio a uma imposição de se comportar, e pensar, de uma única e exclusiva maneira ao redor de todo o globo. É um grito para dizer que não devemos seguir as mesmas regras, que não devemos respeitar o mesmo tempo, que o Ocidente, a Europa, os EUA não dão conta - nunca deram - de todo o mundo. É a tentativa de mostrar que outras formas de viver são mais que possíveis, são necessárias.

O projeto hegemônico ocidental-europeu-norte-americano chegou, ou, ao menos, deveria ter chegado, ao seu fim.

domingo, 5 de outubro de 2014

Panorama das eleições - 1o turno

Por uma série de razões [incompetência, falta de tempo, polêmicas se atropelando...], não consegui dar qualquer pitaco sobre as eleições neste primeiro turno. Fiquei, então, com o cargo de observador-cronista-crítico das posições políticas que observei, o que me deu mais vontade de escrever do que sobre a eleição em si. Mais vontade porque, de certa forma, durante muito tempo, a eleição para a presidência não me preocupou: Dilma e Marina são candidatas equivalentes para ocupar o cargo [Aécio, não]. Equivalentes, não iguais.

Não são perfeitas, têm milhares de defeitos diferentes entre si, mas de algum modo perverso, funcionam como análogas, caso você afaste o microscópio. Nos detalhes, são quase opostas [uma ambientalista, outra desenvolvimentista; uma pretensa esquerdista pré-68, outra pretensa esquerdista pós-68; uma pragmática outra idealista, etc.], mas numa visão aérea, distante, sem pormenores, as duas seriam confundidas, suspeito. Os seus defeitos são intercambiáveis e no fim vira um grande "tanto-faz" sobre quem for eleita.

Novamente, e para deixar bem claro isso: Aécio, por sua vez, não é equivalente às duas candidatas mulheres. Ele claramente representa o reacionário [no sentido de manter políticas de privilégio] e liberal [no sentido de econômico de deixar o mercado nas mãos apenas dos tubarões].

O que sempre me espantou foi as eleições para o governo dos estados: Alckmin, sendo reeleito num estado que está sofrendo de falta d'água; Pezão, vice-governador de Cabral, liderando as pesquisas num estado onde se acampou na porta do então governador por semanas, em sinal de protesto contra a violentíssima política de segurança. Claro que dá para entender os motivos dessas votações [um sentimento forte anti-petista, no primeiro caso; uma tentativa de fazer "voto útil" logo no primeiro turno contra Garotinho, no segundo], mas não consigo entender.

Com isso, me restou acompanhar das trincheiras, como um espectador de novela, os comentários entre os partidários dessa guerra pseudo-ideológica que foi palco o faketruque. Foi difícil segurar o ímpeto de me intrometer [só opinei em um caso de mentira deslavada], foi complicado aguentar tanta artilharia pesada vinda de todos os lados que mais queria ferir que construir, mas eu sobrevivi, sobrevivi para contar. :-)

Não precisa ser um gênio para perceber os públicos ali envolvidos, mas quero deixar registrado, como forma de crônica de uma eleição anunciada: O Brasil está dividido ao meio. De um lado quem apoia o projeto que se chamou lulo-petista, do outro, os muito e muito diferentes entre si contra isso.

Por mais curioso que possa parecer para quem se lembra da mesma crítica levantada ao outro espectro político, o projeto lulo-petista, que é, em tese, ou que se vende como tal, de esquerda, é bem mais coeso que o adversário. A chamada oposição está esfacelada - muito provavelmente por culpa dela mesma. Não há oposição porque e/ou não se sabe, e/ou não se conseguiu, e/ou não se quis fazer oposição nos últimos anos.

Entre os oposicionistas, há claramente de três a quatro grandes divisões: anti-petistas, claramente reacionários; os marinistas, ligados às causas mais atuais, verdes, tecnológicas; e os esquerdistas, que querem puxar o debate mais para a esquerda - grupo que ainda se divide entre os anarquistas e os mais pragmáticos [nomes todos meus, claro]. Vou tentar traçar o perfil de cada um desses grupos aqui, mas se há algo que os une, em linhas muito gerais, e o que é muito curioso, é a lógica do ressentimento. Não se vota a favor do próprio candidato, na maioria das vezes, mas contra o outro. Aponta-se o indicador para o outro e se esquece dos outros quatro dedos que miram o próprio.

Ou, do lado exatamente oposto, há um sentimento de grande desesperança coletiva porque não haveria nenhum político "bom". Sentimento este muito parecido com a descoberta de que deus não existe, nem mesmo existe o papai noel ou o coelhinho da páscoa. Puxa-vida.

Mas como ser extremamente coerente para governar um país de 200 milhões de diferentes almas? Como agradar a gregos, troianos, espartanos, cretenses, efésios, e tantas e tantas outras populações? [Daí algumas pessoas falarem sobre a importância dos governos menores, como prefeituras e centros comunitários. Mas isso é papo para outro dia.] Aos eleitores, pois:

Lulo-petistas
Por conta do tamanho do eleitorado, há muitas divergências entre esses, mas há algo que os une: Percebe-se que houve avanços sociais inegáveis nos últimos 12 anos. Inegáveis até para os adversários, que mantêm seus discursos sobre a manutenção dessas mesmas políticas [Bolsa família, Pro-Uni, Minha casa, Mais médicos...]. Esses eleitores nem sempre concordam com tudo o que o projeto lulo-petista pratica, mas o prefere, claramente, contra os adversários. Provavelmente por isso, há uma demonização dos principais adversários.

Os ataques a Aécio antes da morte do Eduardo Campos [aliás, que eleição foi essa, hein?], e depois, mais fortemente contra Marina são prova disso. Marina, claro, não se ajudou, voltando atrás de políticas mais liberais, mas os partidários do projeto lulo-petista pegaram essas fraquezas da Marina e fizeram troça. Chafurdaram. Sambaram na cara.

Se ela recuou sobre o casamento entre homossexuais, é porque é evangélica e obedece ao Silas Malafaia. Se tem o Giannetti e o Lara Resende na equipe econômica, é porque é neoliberal. Se muda sobre a lei da anistia, é porque é ligada aos militares torturadores da ditadura. Todas associações muito rápidas que nem sempre se comprovam na realidade.

Porém e o principal: todas essas são posições que o lulo-petismo não só defendeu como praticou. Ou Lula ou Dilma tocaram nas causas ditas moralistas [aborto, drogas, LGBT etc.], cortaram os lucros dos grandes bancos ou revisaram a lei da anistia? No fundo, os dilmistas criticavam na Marina algo que a candidata deles fazia exatamente igual.

Marinistas
Esses, para mim, são os mais interessantes. Marina nunca ganhou uma eleição majoritária, sempre participou do legislativo, e quando foi para o executivo, como ministra, se sentiu sufocada e pediu para sair. Isso talvez seja a explicação dos diversos erros que ela cometeu nessa candidatura.

Com a morte de Eduardo Campos [novamente: que eleição!], Marina ganhou todos os votos e mais um pouco dos dedicados ao seu antecessor. Ela virou um sinônimo de uma política que poderia ser de esquerda, verdadeiramente de esquerda, mas que se importaria com causas que o governo lulo-petismo parecia não se importar, como as verdes ou a de proteção de populações minoritárias fora do eixo urbano. Era alguém que encarnava uma esquerda que não pensa em crescer o bolo para dividir, que não divide a sociedade em apenas classes sociais, que sai do âmbito da política quadrada, de dentro de gabinete e protocolar. Em suma, parecia a personagem perfeita para incorporar a vontade das ruas do ano passado. Parecia. Com a ajuda dos dilmistas e dos aecistas, ela se auto-implodiu.

Os marinistas não conseguem mais declarar seu voto em altos brados, como foi no início da sua campanha. Há uma vergonha atravessada na garganta, como uma espinha de peixe. Há uma dificuldade de se aceitar a posição dela ambígua em relação aos ruralistas, por exemplo. Como uma verde negocia com gente assim? É uma contradição que não consegue se sustentar, porque ataca seu eixo principal.

Entre os que votam em Marina, há ainda aqueles que querem apenas votar contra o PT. O que nos leva ao próximo grupo de eleitores.


O anti-petismo
Entre esses, não importa quem vença a eleição, desde que não seja Dilma. O sentimento é de nojo contra o PT e Lula, muito parecido com o que havia quando eu era moleque contra Brizola. A piada, então, era "Brizola? Isola". Me parece uma posição reacionária, no sentido clássico, de querer voltar a ser o que era, antes de Lula.

A principal bandeira desse grupo é a da moralidade no sentido da lisura com a coisa pública. Muito parecida, aliás, com a levantada por Collor em 1989, quando se anunciou como "o caçador de marajás". Apregoam o voto contra Dilma como se a compra de votos de parlamentares para a processo de privatização da Vale ou para a emenda constitucional para a reeleição em cargos executivos, ambos no governo tucano de FHC, não tivessem existido. Ou que o mensalão não tivesse aparecido no governo do Azeredo, do PSDB, em Minas Gerais. Ou que o governo eterno do PSDB de São Paulo não estivesse sendo investigado por corrupção nas obras de expansão do metrô. Marina, claro, sai na vantagem com esse argumento da lisura, mas sua fraqueza em outros aspectos detonam sua imagem aqui.

Além do argumento da propensa honestidade, se usam de argumentos elitistas e de manutenção de privilégios - às vezes nem se dando conta disso. Os símbolos aqui são outros, não necessariamente diretos porque, bem, ninguém no Brasil é machista, racista ou tem qualquer preconceito. Mas não se vota no PT porque o Lula é analfabeto, Dilma é mulher [Marina entra no balaio igualmente], pobre agora frequenta os mesmos lugares que eu, tem muito preto na faculdade, gente que não sabe se comportar em ambientes públicos. O melhor-pior argumento que eu cheguei a presenciar foi: a inflação cresceu [o que já é uma falácia] com os serviços caros porque se paga muito pelos empregados, que não são qualificados para receber tanto.

Esquerdistas
Por fim, há esse pequeno, porém barulhento, grupo que quer puxar a discussão mais para a esquerda: Quer introduzir a discussão sobre as pautas morais [aborto, drogas, LGBT...], quer pensar outro modelo econômico para o país, diminuir a grande desigualdade social que ainda existe, planejar um futuro mais igualitário para todo mundo.

Nesse grupo, há os pragmáticos, que conseguem enxergar em algum candidato alguém que represente esses anseios. Entre os pragmáticos, ainda há os: pragmatíssimos, que votam nos principais nomes [principalmente Dilma] abrindo mão de alguma dessas bandeiras para focar em outras, que acham mais importantes [como o caso da desigualdade social à custa da destruição ambiental, por exemplo]; e os pragmatinhos, que votam em candidatos menos expressivos [Luciana Genro, mas também Eduardo Jorge], porque são os únicos que falam sobre esses temas de maneira aberta, mas que não tem qualquer chance [eleição não é só para vencer, minha gente!].

E há os anarquistas, que querem outra forma de política, e sugerem não votar.

Estes sugerem que pensar que a participação na democracia deve acontecer apenas de dois em dois anos é se abster dos destinos do país pelos outros dois anos e se achar o super-importante quando vai a uma urna eletrônica. Pensar que a democracia representativa é a única forma de se mudar o país é ter uma visão antiquada e, muito pior, covarde.

Falta água em São Paulo não apenas porque os governos foram gananciosos e acabaram com o ambiente do estado, mas porque nós, paulistas, consumimos muito, muito mais que o estado consegue produzir. Mata-se muito no Rio porque nós, fluminenses, queremos que se mate muito os pobres nas favelas, e assim podemos nos sentir seguro. Nós somos o problema.

Enquanto acharmos que o problema político é dos outros e não nosso - meu! - só ouviremos reclamações e acusações contra o outro lado. É a lógica do ressentimento.

segunda-feira, 22 de setembro de 2014

A posição de Deus

Não creio em Deus, mas acredito que exista uma posição de Deus. Não um lugar, um espaço físico reservado para um ser de barba branca que tudo sabe, tudo vê e tudo pode. Mas uma postura que seria negada aos homens e reservada apenas para esse Deus-que-não-existe. Uma forma de comportamento, um jeito de ser que todas as vezes que o homem tenta repetir se dá mal. Uma prepotência, mas uma prepotência não dada aos pobres mortais, uma prepotência em que a potência aí é de uma voltagem maior que o homem aguentaria. E o homem sempre se queima feio.

A história está cheia de exemplos desse tipo. Pensemos em Prometeu, para começar. Tentou roubar o fogo dos deuses, para de alguma maneira ter o mesmo poder deles, e foi condenado por esses mesmos deuses, vingativos, à eternidade a ter o fígado comido pelos abutres durante o dia, enquanto de noite o órgão se regeneraria - fazendo com que o martírio jamais acabasse. Mas não aprendemos com Prometeu. Pense em César, que ainda tentava segurar o ímpeto de ter dominado Europa, norte da África e parte da Ásia com a ajuda do ajudante, mas que acabou morto por um amigo, por exatamente ter concentrado demais o poder em si mesmo. Ou, mais recentemente, me lembrei agora, de "Scarface". Ou, mais próximo da gente, mesmo, de Eike.

Eu já escrevi sobre um desses momentos "divinos" de um dos grandes homens que já dividiram a humanidade conosco. Nada me tira da cabeça que Nietzsche entrou em colapso quando, já debilitado, percebeu que ele não era o Übermensch, o tal do além-do-homem, muitas vezes traduzido por super-homem, que ele pensava ser. Como se percebesse que sua proposta de comportamento ético/estético não era atendido por si mesmo. Que o Zaratustra não pregava nem mesmo para o seu criador.

Não foi o único, porém, a ter tido uma pane após um momento de grande estresse. Algo parecido - menos dramático, como aliás tudo em sua vida, mas certamente mais épico - aconteceu com Heidegger. É curioso como a história vai envolvendo o filósofo de Meßkirch, elevando-o para fora da realidade, até que ele simplesmente despenca. E o som do corpo dele no chão é parecido com aquele de Hiroshima ou Nagasaki. Quanto mais alto estamos, maior é a queda.

Em 1927, Heidegger publica sua obra mais famosa: Ser e tempo. Foi feita às pressas, para que ele assumisse a cátedra que era de Husserl, seu mais famoso professor, em Freiburg. Sua proposta era investigar o "ser", em vez de se ater apenas aos "entes", onde, ele reclamava, toda a tradição filosófica tinha se mantido. Em outras palavras, ele queria responder à famosa pergunta: o que nós somos? O que está lá em nosso cerne? O que é a nossa verdade mais verdadeira? Qual é o chão que todos nós pisamos?

Queria responder a isso, mas sem precisar usar de subterfúgios, de qualquer outra explicação que não fosse apenas o ato de "ser" mesmo. Não queria dizer que somos isso ou aquilo, porque isso seria resumir demais o que seria o ser. Chegou a sugerir um bom caminho de resposta, quando acrescentou o conceito de temporalidade, lembrando que somos a cada momento algo diferente. Mas não se deu por satisfeito. Entregou a obra incompleta, segundo o seu planejamento, percebendo que tinha, de alguma maneira estranha para uma obra que veio a fazer tanto sucesso, fracassado.

Mas antes mesmo da publicação do livro e de ele assumir a cátedra que fora de Husserl, Heidegger já era chamado de "O rei oculto" da filosofia, conforme lembrou Hannah Arendt, então sua discípula e amante, no texto em comemoração aos 80 anos de Heidegger.
For Heidegger’s “fame” predates by about eight years the publication of Sein und Zeit (Being and Time) in 1927; indeed it is open to question whether the unusual success of this book—not just the immediate impact it had inside and outside the academic world but also its extraordinarily lasting influence, with which few of the century’s publications can compare—would have been possible if it had not been preceded by the teacher’s reputation among the students, in whose opinion, at any rate, the book’s success merely confirmed what they had known for many years.
Logo após a publicação do livro, sua fama cresce enormemente, como se lê aí em cima. Ele consegue a cátedra e, pouquíssimos anos depois, num período que para sempre vai manchar a sua reputação, ele se associa ao partido Nacional-Socialista. Num lance para lá de estranho, ele aceita virar reitor da mesma universidade - cargo que ocupa por pouco tempo, mas cujo período o persegue até hoje.

Muito já foi escrito sobre essa passagem, esse deslumbre. Não sem receio de resumir demais, sugiro que ele tenha entrado para o partido nazista para tentar "salvar" a Alemanha, do que ele chamava "bagunça" que o país tinha se enfiado após a 1a guerra. E tenha saído do partido por conta de uma espécie de decepção com o ritmo lento dessa salvação. Ele queria mais organização, mais militarização da vida cotidiana, mais ordem. Mas nem mesmo o nazismo conseguiu transformar, na velocidade que ele queria, a mentalidade da nação.

Após sair da reitoria, ele começa a ser perseguido. De um dos orgulhos do partido, vira vidraça. Resolve, então, salvar Nietzsche dos nazistas, com as famosas aulas sobre o conterrâneo - e para sempre vai usar esse argumento a seu favor na hora de se defender. Logo depois começa a guerra.

Sem ter tido acesso aos cadernos negros, só posso imaginar o que se passou na cabeça dele. O editor deles, que aliás vem num evento em São Paulo mês que vem, assegura que "pela primeira vez, é preciso dizer que Heidegger não só se engajou pelo nacional-socialismo, o levou muito a sério e durante um certo período o acompanhou com simpatia – para depois criticá-lo severamente; além disso, vemos agora que ele também abriu seu pensamento filosófico ao antissemitismo".

Dando uma bisbilhotada no famoso "Beiträge...", uma coleção de textos filosóficos de fôlego curto escritos um pouco antes da guerra, dá para ver que uma mudança estava em curso. Marco Antonio Casanova - autor da tradução em português - explica como tal obra é a demonstração de que já, então, havia uma crítica ao trabalho anterior de Heidegger. Estava sinalizada uma mudança profunda de sua perspectiva. Mas ainda não totalmente.

Logo após o fim da guerra, ele tem que passar pelo comitê de desnazificação, é criticado fortemente pelo seu então amigo-do-peito Karl Jaspers, é impedido de dar aulas até 1950 e acontece, enfim, a queda física: Heidegger tem um colapso nervoso em 1946. Menos dramático que Nietzsche, com certeza, mas também certamente mais épico.

Quando volta a produzir, Heidegger é outro. No fim do mesmo ano, escreve uma carta, a tão citada "Carta sobre o humanismo", para Jean Beaufret, talvez o seu maior entusiasta na França, onde já demonstra com todas as letras que houve uma mudança. Tal mudança foi apelidada por ele mesmo como "Kehre", ou, como ficou conhecida em português, "virada", ou "viragem". Já não tenta observar a totalidade do ser, como se soubesse que essa posição não pertencesse aos homens, mas somente ao divino. Atem-se, desde então até a sua morte, aos entes. Pelo restante da sua vida, vai falar sobre a questão da tecnociência, da linguagem. Vai revisitar Kant, Hegel, Nietzsche rapidamente, os pensadores originais, como Parmênides e Heráclito. Nunca mais escreve um texto com tanto fôlego como Ser e tempo. Transforma-se em mais um no meio do mundo.

Curioso como até mesmo as chamadas mais brilhantes mentes da humanidade não conseguem fugir de um dos sentimentos mais comuns dos seres humanos: a vaidade. Não espanta, então, que Milton, o diabo interpretado pelo mesmo Al Pacino que imortalizou Scarface citado lá em cima, o considere seu pecado favorito.

Na verdade, ainda em tempo, nada contra a vaidade. Mesmo. O problema é a posição divina. Se colocar acima dos outros, numa posição de superioridade, de pensar maior ou melhor. Mesmo Heidegger ou Nietzsche, ou qualquer grande homem que fundou escolas, academias, religiões, nunca foram melhores ou essencialmente diferentes que qualquer outro sujeito que andou por estas terras. Todos somos humanos, demasiadamente humanos.

segunda-feira, 28 de julho de 2014

A esquerda, a direita e outros bichos

A esquerda quer mudar o mundo. A direita enxerga no mundo a sua verdadeira face. A extrema esquerda vê nessa verdadeira face do mundo, sua beleza. A extrema direita não acha nada belo, além do próprio espelho. O centro é talvez, depende, quem sabe.

A esquerda acredita que o homem pode mais. A direita vê a miséria dos outros e dá de ombros, c'est la vie, ou melhor, that's life. A extrema esquerda fica revoltada e quer mudar isso de qualquer jeito. A extrema direita fica revoltada e quer que os outros se explodam. O centro é contrário a ser do contra.

A esquerda pensa nos outros, no coletivo, no a-gente. A direita age, no máximo, pela própria categoria. A extrema esquerda quer que todos ajam no coletivo, pela gente. A extrema direita acha que ninguém é igual a ela. O centro escolhe não escolher.

A esquerda é um por todos e todos por um. A direita é farinha pouca meu pirão primeiro. A extrema esquerda é Chaos AD, Tanks on the streets. Confronting police. Bleeding the plebs, mas como crítica. A extrema direita é capitão Nascimento, primeiro filme. O centro é devagar, devagar, devagarinho.

A esquerda é movimento. A direita, estática. A extrema esquerda é espoleta, a extrema direita, explosão. O centro é em cima do muro.

A esquerda é para frente, a direita, para trás. A extrema esquerda é para um lado, a extrema direita, para o outro. O centro é ponto morto.

A esquerda quer mais diálogo, a direita, um líder, a extrema esquerda um líder forte que dialogue, a extrema direita, o filho de deus. O centro dos Beatles E dos Rolling Stones.

Aliás...
A esquerda é Beatles. A direita, Rolling Stones. A extrema esquerda, Clash. A extrema direita, Johnny Ramone, só ele. O centro pergunta do jogão de ontem.

A esquerda quer arte engajada. A direita acha que a arte deve mirar o sublime. A extrema esquerda não acredita em arte que não seja política. A extrema direita queima livros que não concordem com ela. O centro leu "O pêndulo de Foucault", mas prefere não opinar para não ferir suscetibilidades.

A esquerda muda, a direita fica, a extrema esquerda é a própria revolução, a extrema direita, a involução. O centro passa essa pergunta.

A esquerda é mais Estado, a direita é menos Estado, a extrema esquerda é sem Estado, por um lado, a extrema direita, por outro - ou muito Estado, o que for pior. O centro ainda está indeciso. Ou vota com a maioria.

A esquerda acredita no outro. A direita acredita em si. A extrema esquerda não acredita. A extrema direita acredita em Deus. O centro depende da plateia.

A esquerda é democrática, até ser contrariada. A direita é contrariada pela democracia. A extrema esquerda não é lá muito democrática, a extrema direita não é, definitivamente, democrática. O centro não é contra nem a favor - muito pelo contrário.

A esquerda ri, mas acha que não deveria. A direita não ri, mas acha que deveria. A extrema esquerda não ri, e acha que não deveria. A extrema direita não ri e tem raiva de quem o faz. O centro ri, adora um carnaval, uma mixórdia e uma folia.

A esquerda adora o povo. A direita enxerga no povo identidade. A extrema esquerda se acha o povo. A extrema direita quer acabar com o povo. O centro [se] frequenta, às vezes, o povo.

A esquerda é manifestantes. A direita, O Globo. A extrema esquerda é black bloc, a extrema direita, polícia. O centro quer saber se vai dar praia no fim de semana.

A esquerda é socialista, a direita, corporativista, a extrema esquerda é anarquista, a extrema direita é só imbecil, mesmo. O centro não gosta muito de política.

A esquerda acha que todos são iguais, até que se prove o contrário. A direita acha que todos são diferentes, e ninguém vai provar o contrário. A extrema esquerda prova que todos são iguais, e ai de quem acha o contrário. A extrema direita acha isso uma palhaçada. O centro pede mais calma.

segunda-feira, 9 de junho de 2014

Termos em disputa

Que a linguagem foi o grande tema da filosofia no século XX, isso, quem já ouviu falar de Wittgenstein, Heidegger, ou do próprio Benjamin, não há como negar. Acredito que seja fruto ainda da chamada "morte de Deus", anunciada com estardalhaço por Nietzsche, ou seja, do fim dos parâmetros superiores que controlavam, comandavam o que era certo ou errado, bom ou mau, verdade ou não-verdade. A partir de então, cada palavra teve que se virar sozinha, a partir da interpretação dos interlocutores que a estão usando.

Não é incomum que, antes de falar sobre qualquer assunto, o pensador passe um tempo justificando a utilização do termo que virá a seguir. É o caso, por exemplo, da palavra "autoridade", no famoso texto "O que é autoridade", em Entre o passado e o futuro, de Hannah Arendt. Igualmente comum que se procure noções que fogem do senso comum [e aí já começamos: "senso comum" no sentido Arendtiano, de um terreno/momento em que as pessoas dividem a mesma opinião] para expressões consagradas. É o caso, igualmente conhecido, de "verdade", na filosofia de Heidegger.

A história é conhecida e criticada. Heidegger teria analisado Platão, mas não somente ele, para demonstrar o momento em que a noção de verdade muda. Num primeiro momento, é apresentado como a retitude de um conceito em relação a uma ideia. Em outros termos: quando um termo corresponderia a uma coisa (ente) - a forma de interpretação usual, mas não única, da atualidade. Quando pensamos em "casa", por exemplo, muitas informações nos inundam, mas há um senso comum sobre o que seria "casa". Se disputássemos cada conceito, toda frase viria com um aposto. A verdade, num segundo momento da filosofia de Platão, nos revela Heidegger, seria descrita com a famosa palavra "alétheia", que, grosso modo, quer dizer "desvelamento".

Seguindo essa interpretação, para Heidegger, só seria possível encontrar o que é verdade, em poucos momentos, quando ela [a verdade] saísse do velamento, do esconderijo, e aparecesse. Heidegger é um pensador que, como sabe quem conhece sua principal obra, quer falar sobre o "ser", ou seja, o que nós, eu, você, todo mundo, seríamos sem o auxílio das carapuças que usamos diariamente. Sem ser jornalista, irmão, amigo, ex-marido, estudante, sem esses penduricalhos mundanos, ou, por outro lado, com a soma de todos eles, o que nós somos, o que é o nosso ser.

O filósofo alemão lembra que o ser tende a se esconder e só se apresentaria em determinados momentos, como em um flash. É o momento da verdade, ou melhor, a verdade em si. Não seríamos capazes de sermos verdadeiros em todos os momentos, mas há situações que somos. É fácil de entender com um exemplo bobo.

Sabe quando escutamos uma música [ou vemos um filme, ou olhamos um quadro etc.] que nos toca profundamente? Esse seria o momento em que teríamos contato com o ser. Não é comum, não é corriqueiro. Mas acontece. E, para comprovar como a linguagem é o tema dessa conversa aqui, nessa situação, quando vemos [ouvimos, observamos...] a verdade, não a conseguimos colocá-la em palavras.

Recorremos aos tais penduricalhos - o que Heidegger chama de "entes" - para tentar transmitir essa emoção, essa abertura, mas nunca passamos a verdadeira relação com o ser,com a exceção apenas de você conseguir provocar o mesmo "desvelamento" naquele que lê [ouve, vê...]. Falamos sobre a história da música, da banda, sobre a trajetória dos músicos, sobre suas influências, sobre os instrumentos, recursos utilizados, sobre as novidades supostamente apresentadas... mas isso não é o ser, isso são só entes que encobrem o ser. A verdade foi o que mexeu conosco e não dá para ser apreendida.

Recentemente, percebi como os termos em disputa causam problemas [graves ou pequenos, não importa] no cotidiano, exatamente pela falta de um senso comum. A polêmica envolvendo a hashtag #nãovaitercopa é um exemplo disso. Não acredito que os criadores desse slogan pensaram em sã consciência que conseguiriam expulsar a Copa do Mundo do Brasil. Bastaria pensar em Maquiavel e lembrar que o governo tem a força militar e a usará para impedir qualquer tipo de manifestação mais exaltada.

Mesmo que os criadores do slogan, ou seus primeiros bradadores, tivessem acreditado nessa utopia, de que a Fifa retiraria do Brasil a organização da competição, a poucos meses da realização do evento, não acredito [outra vez] que tenham ficado exatamente decepcionados com os resultados da massificação desse grito de guerra. Porque a expressão era isso tudo aí que eu escrevi: uma hashtag, um slogan, um grito de guerra. Em todos os casos, ela carrega mais um desejo que uma profecia. E o desejo não precisa ser completamente realizado, porque o desejo é móvel, nunca estanque, e tende a ser nunca realizado mesmo, por completo.

De certa forma, é difícil de entender mesmo: vai ter Copa e não vai ter Copa. É claro que Brasil e Croácia vão entrar em campo num Itaquerão não concluído na próxima quinta-feira para dar o pontapé inicial da competição. Mas, de certa forma, ao tornar a expressão "não vai ter Copa" comum, os manifestantes fizeram algo ainda mais difícil que cancelar a competição: fizeram uma nação inteira acostumada a viver a vida no fluxo a interromper o processo e pensar sobre o assunto.

O resultado disso é a enxurrada de justificativas para dizer o óbvio: que vamos todos [ou a grande maioria] torcer pela seleção. Um jogo de alto nível bem jogado é uma das possibilidades, arriscaria, de nós encontrarmos a verdade desvelada, para citar o Heidegger aí de cima, e isso é mais complicado que terminar as obras do aeroporto Galeão. Mas ninguém, com a exceção do governo e de seus partidários, apoia a maneira como essa Copa foi realizada. Ou seja, com essa confusão toda, com esse debate exacerbado, reforçamos uma distinção que está caindo bastante em desuso: privado x público. Vai ter Copa, privadamente, não vai ter Copa, publicamente.

ps. Qualquer crítica aqui ao governo não é um apoio ao lado direito-negro da força, ao contrário: a tentativa é forçar que atitudes mais à esquerda sejam tomadas. Porque pensar que o PT seja de esquerda é esquecer que os bancos brasileiros tiveram os maiores lucros da História nos últimos 12 anos.

terça-feira, 3 de junho de 2014

Metáfora da natação

Comecei a nadar com seis meses de idade, se os relatos que eu escutei a vida inteira estão corretos. Antes dos 5 anos, já dominava os quatro estilos. Aos 5, fui federado, e tinha o segundo número de inscrição mais baixo entre todos os atletas fluminenses da minha idade [eu conheci o primeiro]: 25.079. Nadei ininterruptamente até os 16 anos quando, depois de muitas decepções minhas, pessoais, resolvi viver a vida fora das piscinas. Não voltei a nadar até os 26, porque o luto era forte. Entre idas e vindas, após o retorno, continuo nadando até hoje. Mas, recentemente, houve uma grande mudança nesse meu hábito.

Durante esses quase 30 anos de braçadas, eu praticamente só nadei dentro de piscinas. Em um espaço razoavelmente controlado, limitado, onde você sabe muito bem o que te espera. Era um constante ir e vir, um exercício de contar azulejos. Poucas vezes havia algo que fugisse de um marasmo, de algo extremamente repetitivo e monótono. Entre essas exceções, lembro da lenda da piscina do Guanabara que escutava quando criança, e onde, por acaso, fui nadar de maneira bem amadora muitos anos mais tarde.

O Guanabara, que fica aqui pertinho de casa, tem a piscina olímpica mais antiga não só da cidade como de todo o Brasil, segundo o site oficial deles. A construção se iniciou em 1932 e acabou em 1935, e foi sede do campeonato sul-americano deste ano, além de, ao longo de sua história, ser palco de cinco quebra de recordes mundiais, inclusive de gente como Maria Lenk, Manoel dos Santos e José Fiolo, nomes que são famosos para quem lembra um pouco da história da natação. Há uma placa com o feito de Fiolo no parque aquático até hoje, por exemplo.

Por ser uma piscina tão antiga, e dedicada igualmente a outras modalidades dos esportes aquáticos, os engenheiros acharam por bem fazer o poço, aquela fundura enorme que serve de segurança para a galera dos saltos ornamentais, na mesma piscina. Até aí, mais ou menos tudo bem. É como se, ao nadar nas raias centrais, olhássemos para o abismo das profundidades, que nem sendo tão profunda assim [gira em torno de seis metros] parece uma eternidade para quem está passando ali em cima. Para piorar, quando éramos garotos, a área do poço estava totalmente tomada por lodo, como se não fosse limpa há décadas. Não se enxergava nada além de uma espessa cobertura de limo verde-amarronzado.

Girava entre os garotos a lenda de que haveria uma ligação clandestina entre a piscina e a baía de Guanabara, que fica literalmente do outro lado da rua, na sua vertente praia de Botafogo, o que justificaria o gosto salobro da água - e o que também explicaria a quantidade de recordes ali, já que a água mais densa proporciona uma maior flutuação, portanto menos atrito, além de uma maior capacidade de deslocamento com as braçadas. Nós, meninos ainda crédulos das coisas desconhecidas, não pensávamos muito nisso: apenas nadávamos mais forte todas as vezes que por azar caíamos nas raias centrais [onde normalmente ficam os melhores tempos balizados]. Eu, particularmente, fechava os olhos, de medo. Como dizem por aí: para olhar para o abismo tem que estar forte, porque, senão, ele pode olhar de volta.

De toda forma, a principal diversão de quem nada na piscina é, muito provavelmente, a competição. Nem, necessariamente, ser mais rápido que o coleguinha, algo muito comum entre nadadores que tem a síndrome do peixe beta - aquele que não pode ver um igual que quer logo brigar. Mas, se já está um pouco mais maduro, ser mais rápido que você mesmo. Como se você estivesse sempre querendo evoluir. Ou nunca estivesse satisfeito consigo mesmo. Ou tendo que arranjar maneiras de não morrer de tédio.

Recentemente, eu dizia, recentemente houve uma mudança. Decidi aproveitar que eu vivo numa cidade litorânea, e na proximidade de praias que, segundo o governo estadual [quem ainda acredita nele?], estão balneáveis, resolvi simplesmente abandonar a piscina e nadar na praia. Escolhi, para o receio de amigos, conhecidos, gente que gosta de mim, e quer me ver com saúde, a praia Vermelha, por ser, bem, por ser na minha rua. Todos os dias que não chove, nem na véspera, nem no dia anterior, eu dou minhas braçadas de um lado a outro dos morros, da Urca e da Babilônia [acho que o nome é esse]. Só não faço virada olímpica porque de um lado a pedra está tomada de limo, e do outro, não há pedra para se virar.

Antes desse novo cotidiano, a minha impressão foi outra: medo. Essa informação não deveria assustar quem me conhece já que eu sou um dos maiores medrosos que existe. Mas era um medo meio generalizado, sem um motivo específico. Era medo do que eu não conhecia, medo do que eu suspeitava, medo do que eu poderia conhecer. Medo, medo, medo. Nadar no mar, mesmo que numa praia bem delimitada, com uma distância de cerca de 250 metros entre uma pedra e outra, numa profundidade que não deve passar a da piscina do Guanabara [que, aliás, foi limpa há cerca de dez anos], dá medo. Ou me deu medo.

Em várias oportunidades, não dá para enxergar um palmo à frente da cara. Sempre é necessário levantar a cabeça para saber se você não vai ser atropelado por um caiaque, um sujeito no stand-up paddle, por um pequeno barco, ou mesmo por um outro nadador. Na pedra do morro da Babilônia, sempre há um homem vestindo branco e pescando, e desde que ainda garoto vi um outro menino ser fisgado por um anzol e ter que cortar a própria carne para retirar, com a menor consequência, o pedaço de metal da perna, eu tenho receio de ser pescado também. No outro lado, aos pés da pista Cláudio Coutinho, é comum encontrar gente que faz pesca submarina, com seus arpões prontos para disparar. Há uns anos, um sujeito flechado por essas armas brancas [como diria O Globo] apareceu boiando nesta mesma praia. Fora que é difícil confiar nas medições do governo quando você encontra todos os tipos de objeto boiando na praia, especialmente às segundas-feiras, após um domingo bastante ensolarado - mesmo que os parâmetros entre o que o governo avalia e o que eu vejo sejam diferentes.

Nadar no mar, descobri, é outro esporte. Mesmo que a água seja mais densa e, como já vimos, auxilie na natação, manter o equilíbrio dentro d'água é um exercício que não para nunca. Como as águas, mesmo as mais calmas, estão sempre se mexendo, o primeiro esforço que se faz é para ficar quieto, parado, para seguir adiante. É um trabalho constante que aumenta de intensidade conforme o mar está mais nervoso. É um negócio de estabilizar-se para logo se desestabilizar e forçar a estabilização, que logo sai de estabilidade. Parece um equilíbrio em movimento. Uma ginga da capoeira. O andar de bicicleta. Sabe aquele nado bonito, esbelto, que você viu nas Olimpíadas e conseguiu repetir depois de muito esforço? Esqueça. No mar, nadar já é muito.

Em um segundo momento, nadar no mar requer uma disciplina ainda mais ferrenha, porque você sempre tem que estar atento para não ser atropelado, como dito acima, mas também para nadar em uma linha razoavelmente reta: você deve ir em uma direção que você mesmo pré-estabeleceu. Além disso, todas as vezes que você se desliga, algo te rouba a atenção. Uma vez, encontrei um cardume de peixes bem pequenininhos e nadei sobre eles por cerca de 20 segundos. Parece pouco, mas me senti naquela cena do personagem principal do "Barba ensopada...", do Galera, quando ele nada sobre uma baleia [aliás, parece que a cena realmente aconteceu com o autor; aliás 2, parece que Galera também nadava na praia Vermelha quando no Rio]. Minha atenção foi tomada por aqueles peixinhos. A velocidade com que eles mudavam de rumo. O ritmo coreografado entre todos. Era por demais fascinante para eu poder pensar em qualquer outra coisa além.

Há também a beleza natural do Rio, que eu, talvez por ter nascido em outra cidade, ainda não me acostumei. É muito impressionante respirar para um lado e olhar para o Pão de Açúcar, ali, do meu lado, enorme, impávido colosso. Respirar para o outro e ver, lá de longe, o Corcovado e a estátua daquele moço de braços abertos como se quisesse dar um abraço na cidade inteira. Mas o principal é o sentimento de liberdade. O horizonte que não tem fim. É o não enxergar bordas por todos os lados. O não ver os limites postos tão fisicamente. Isso, realmente, é enobrecedor. Claro que há limites - não nado quando chove, não nado quando alguém, eu ou o mar, está de ressaca, não nado quando estou cansado, quando tenho que fazer outras coisas. Mas há ainda muita liberdade dentro dessas limitações. Uma liberdade que geralmente não enxergamos quando estamos presos à vida dentro da piscina.

Para isso, para enxergar essa liberdade, não ver esses limites como inibidores, mas como incentivadores, descobri que há de se ter um pouco de coragem. E coragem nada mais é que enfrentar os próprios - e não de outrem - medos. E os medos são sempre, me parece, do nosso tamanho.

quarta-feira, 14 de maio de 2014

O apoio à greve dos rodoviários

É muito difícil ter simpatia pela greve dos rodoviários no Rio. Parece que é um trabalho para masoquistas: como se fôssemos a favor daqueles que infligem o desconforto diariamente contra nós. E quem pegou - quem conseguiu pegar - um ônibus nesses dias de paralisação teve maior dificuldade de ser favorável aos rodoviários. Os motoristas pareciam ainda mais carregados nas piores características associadas ao seu trabalho. Talvez por estarem sem fiscais e sem uniformes, eles corriam ainda mais desesperadamente, só paravam fora do ponto, faziam manobras mais bruscas, gritavam e discutiam mais com os passageiros. Mas, se desejamos uma sociedade mais igual, sem tantos desníveis entre a elite e as classes abaixo, precisamos nos esforçar por alcançarmos essa simpatia.

Motorista de ônibus talvez seja a categoria mais cotidianamente odiada pela grande maioria das pessoas. Políticos são muito ausentes das questões diárias para serem lembrados com tanta frequência, e ainda despertam um certo tipo de reverência, principalmente pelos menos acostumados a celebridades. Policiais são odiados com mais frequência que políticos e com muito mais intensidade que motoristas de ônibus, mas ainda acho que a questão com os motoristas de ônibus é mais geral, atingindo a todos, quase sem exceção [o ex-governador Cabral, que anda de helicóptero, deve pensar que coletivo é alcateia de lobos].

Mesmo que a paralisação esteja, em tese, quebrando determinações judiciais, ou passando por cima do sindicato organizado, ainda assim, ainda dessa maneira, acredito que devemos ter alguma simpatia com a greve. Principalmente porque acredito que a lei deve correr atrás do tempo passado. Há um fato incontornável: os motoristas e trocadores estão em greve. Condená-los só fará a situação piorar, o abismo social tende a aumentar. O direito, e a Justiça como executora do direito, deveria tentar incluir os homens, não o inverso. Não é na canetada de um juiz, não deveria ser no medo, que uma greve deveria acabar.

Outro problema que os rodoviários enfrentam é uma suposta manipulação política de profissionais dos cargos públicos eletivos. Como se motoristas e cobradores tivessem se transformado em massa de manobra de políticos como Garotinho e / ou congêneres. Ou, como dizem, que a manifestação fosse "política". Há um erro de entendimento aí, na minha concepção.

Sempre nos esquecemos que mesmo palavras fortes como "política" ou "democracia" são, antes de fortes, palavras. Assim carrega muito das cargas que pudermos lhes impor. No caso em questão, a reclamação é pelo uso mais mesquinho da política, o das tramoias e maracutaias. Os rodoviários estariam, com a sua paralisação, incentivando a volta de Garotinho ao poder estadual. Retiramos, porém, desta forma, a capacidade de eles agirem por si só, sem um cérebro por trás. Seriam apenas bonecos, cujo títere mexeria as cordas para os fazer andar. Não sei se consigo acreditar 100% nisso.

Além disso, mesmo que eles estejam apoiando Garotinho, nos esquecemos que vivemos numa democracia e que eles têm o direito de apoiar quem eles quiserem. E, novamente, estaríamos pensando que, com essa atitude, os eleitores ficariam sensibilizados e votariam contra o consórcio Paes-Cabral-Pezão. E outra vez tirando a autonomia dos eleitores. Não sei...

Também não sou favorável do apoio baseado num argumento de pena. Eles ganham pouco, trabalham em situações completamente desfavoráveis, portanto têm mais que o direito de reivindicar melhores condições. E nós, numa posição de superioridade, autorizaríamos um pequeno sacrifício próprio para que eles possam melhorar de vida. Não é por aí.

Eu começo a tentar responder a questão usando dois argumentos. Primeiro: Ao se posicionar contra o cartel das empresas de ônibus eles estão atacando os principais culpados do problema que mais cotidianamente afeta a população do Rio. Pode-se pensar que a tática foi errada - ouvi de um amigo que a melhor proposta seria eles circularem com as roletas abertas, sem cobrar nada. Talvez fosse, realmente, mais efetivo, mas não sou eu quem decide a maneira como eles protestam, sou apenas um usuário do transporte que quer prestar solidariedade.

Perfeita ou imperfeitamente, eles estão atacando o centro dessa máfia, que atinge a todos nós. Dão um prejuízo imenso para esses empresários e, com a outra mão, demonstram a completa falência do transporte público sem alternativas, e totalmente dependente de um modelo incompetente. A atitude deles mostra como somos trouxas de aceitar como meio de transporte ônibus, controlados por empresários gananciosos que, segundo boatos fortíssimos, têm ligações escusas com as esferas do poder.

O segundo motivo é mais genérico, mas não menos importante: todo mundo tem o direito à greve. Aliás, com a chegada da Copa, vemos como esse direito está sendo exercido cada vez mais. A greve pode ser justa ou injusta, dependendo de que lado a enxergamos. Pode ser mais ou menos efetiva. Pode ser uma paralisação ou manifestações que comuniquem a insatisfação. Mas ninguém pode retirar esse direito da reclamação. Se houve um resultado claramente positivo das chamadas jornadas de junho foi a política, no sentido do viver a rua da cidade, voltar à pauta de todo mundo. O caminhar ainda é bastante claudicante, mas se há um jeito de nos encaminhar para um melhor entendimento ele passa por esse movimento.

Resumidamente poderíamos citar a frase erroneamente associada a Voltaire: eu discordo do que você diz, mas vou defender até a morte seu direito de o continuar dizendo. Não preciso concordar com os hábitos perniciosos da categoria para defender o seu direito de buscar os seus direitos. Porque eles somos nós, e nós somos eles.