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quinta-feira, 7 de fevereiro de 2013

Homenagem aos historiadores

Os fatos que geram a História são alterados pela má memória, pela interpretação conveniente, pela ornamentação fantasiosa, por tudo que vem com o tempo depois do fato. Com o tempo o mito vira realidade e a realidade vira mito. Mas é só dar mais tempo ao tempo que a verdade aparecerá.
 Verissimo mostra um certo otimismo com o tempo. De toda forma, o faz com maestria, como sempre.

sexta-feira, 25 de janeiro de 2013

Frases - Allen e Verissimo

A morte é uma sacanagem. Sou cada vez mais contra. [daqui.]
I am not afraid of death, I just don't want to be there when it happens. [mais citações dele, aqui]
 Lembro que o Ruy Castro já tinha dito que Verissimo é o nosso Woody Allen. Acrescento que, ao menos, é mais simpático. Sua frase publicada ontem em entrevista à Folha [link lá em cima] mostra como os dois operam no mesmo tom de humor. Além disso, cresceram em ambientes muito parecidos, sendo influenciados pela cultura popular americana. O exemplo maior, talvez, seja o caso do jazz: além de fãs, ambos tocam em bandas.

A entrevista do Verissimo é recheada de frases incríveis. Eu diria que praticamente toda a resposta tem, ao menos, uma boa tirada. É uma sucessão de humor. Como quando ele diz que
O problema é que eu não conseguia distinguir alucinação de realidade. Ouvia conspirações à minha volta, meu espírito, ou coisa parecida, andou até em Pelotas, que fica a 200 quilômetros de Porto Alegre, e tenho quase certeza de que não dancei uma valsa com a enfermeira que me ajudou a sair da cama pela primeira vez, na UTI.
Ou quando afirma que não vai
dizer que fazer crônica é como andar de bicicleta, a gente não desaprende. A analogia é boba. Nem andar de bicicleta é como andar de bicicleta. Sempre é preciso recuperar o equilíbrio.
Eles são, talvez, a última geração em que a ironia ainda poderia ser considerada inofensiva.

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

Verissimos


Luis Fernando Verissimo fala sobre o pai, Erico, com mediação do Sérgio Rodrigues, que faz aniversário hoje, num evento do IMS. Imperdível.

terça-feira, 1 de novembro de 2011

Biografia - Schopenhauer

Nunca fui muito fã de biografias, por puro preconceito. Todas as que eu li, ou as que eu lembro ter lido, foram boas.  Sempre imaginei que a vida da pessoa não mostrava nada do que ele – ou ela – escreveu, produziu, criou. Claro que há um espelhamento aí, mas há tanta reflexão entre a vida e a obra final, que a vida pode simplesmente ser desimportante para analisar a obra em si. Ou seja, é possível até enxergar a vida desse criador na obra, mas ela é indiferente para a sua interpretação.

Também, talvez pelo mesmo motivo, sempre não gostei do que eu apelidei de literatura de personagem – em contraposição à de trama. A de personagem geralmente é centrada em um protagonista central, e narra a vida – toda ou um trecho – dessa pessoa. A de trama é focada na ação, ou no que está acontecendo. Novamente, voltamos a discussão sobre chatice, mas em outro formato. Geralmente, a de personagem é “psicológica”, interior – o que não é, para mim, em princípio, um problema. Porém, como regra, os autores tendem a valorizar os sentimentos sofríveis e/ou de sofrimento, em vez de mostrar raciocínios intrincados, ou mesmo humor. Por exemplo, Machado de Assis só narra por meio de seu “autor-defunto”, ou melhor, “defunto-autor” as “Memórias póstumas...”, mas nem por isso torna o ritmo mais lento. Ritmo, alguns livros carecem de ritmo. Ou melhor, tocam um ritmo que não me agrada – para continuar na metáfora musical, que, acho, funciona bem aqui. Assim como não gosto de samba de fossa, não gosto de gente que sente pena de si mesmo, ou uma narração enorme que mostra como certo personagem sofreu horrores porque matou uma mulher que considerava cruel. Não falemos mais mal dos russos, por favor, antes que tenhamos um problema diplomático.

Hum, acabei de me lembrar de um caso exemplar em relação às biografias. Dois títulos de um mesmo autor, brasileiro, erudito, conhecido, sucesso, que  tiveram recepções bem diferentes por mim – e eu imagino o porquê: “O anjo pornográfico” e “Estrela solitária”, ambos do Ruy Castro. A pesquisa de ambos é impecável – e se não fosse, pouco me importaria, já que eu não estou procurando a verdade quando leio uma biografia, mas uma verdade – e a escrita, incrível, como se lêssemos um romance, como se Nelson Rodrigues ou o Mané fossem invenções da cabeça de Ruy – curiosamente, também li a única obra de ficção dele, “Olhai estrelas”, que peca pelo vício da grande pesquisa, atravancando a narração. Todavia, acho o “... anjo...” uma obra-prima, que serviu para me tornar fã de Nelson Rodrigues, enquanto o sobre o pernas-tortas me distanciou do jogador. São vidas diferentes a ponto de as suas particularidades terem influenciado no meu julgamento? Sim e não.

No “...anjo...”, Ruy, além de descrever a trágica vida de Nelson, que sozinho daria um romance bem dramático, também não se furta a tecer seus comentários sobre as obras rodrigueanas. Ele mesmo diz que não é um Sábato Magaldi, mas que iria se permitir um hábito que os jornalistas – por medo, por descostume, por precaução – evitam: opinar. Assim, você tem uma primeira visão crítica da obra de Nelson, um apanhado, não tão profundo, mas jamais raso, de cada uma das peças e livros que o dramaturgo, que dizia que era necessário sorte até para chupar um chicabon, escreveu. Há uma vivência desse lado “alto” da vida Nelson com intensidade, sabemos de seus sucessos e, até nos seus fracassos, percebemos um gênio – no sentido de produtor – criativo atuando. Mesmo quando Castro fala sobre as peças mais açucaradas, os contos mais bobos, mesmo assim, percebemos alguém produzindo, agindo, saindo do lugar. Quando chega a velhice e a sequência de problemas – de ordem moral [o que podemos desprezar um pouco] e de saúde –, já estamos descendo a ladeira, já passamos pelo ápice da obra, e estamos esperando apenas o livro voltar ao início, ao chão, à planície. Como se os problemas não tivessem ocupado um espaço [temporal] grande na biografia [com duplo sentido] de Nelson.

Já a sobre Garrincha, talvez por respeitar o mesmo procedimento cronológico - comum a inúmeras biografias, mas não uma regra intransponível -, mostra pouco do homem que foi apelidado a alegria do povo e bastante sobre o seu fim lastimável. Fica-se com a impressão, ao final, de que o jogador quase não existiu, de que ele passou semidespercebido pela vida, que ele teve uma importância apenas mediana, ao se comparar o espaço dado ao sofrimento que foi o término da sua vida. Aquele Garrincha que aparece nas imagens driblando os zagueiros, com o seu jogo de corpo, indo e voltando, perdeu o viço, acabou escurecido e se transformando numa sombra do homem que era internado, dia sim, dia não, no hospital por conta da bebida. Nem a sugestão de justificativa que Castro faz sobre a razão do alcoolismo de Garrincha – que ele teria sido viciado ainda criança, num costume bizarro [para nossos olhos “civilizados”] dos seus pais de dar bebida para os filhos – melhora a vida dele. No fim, em vez de um ídolo humanizado, ele se torna um coitado, alguém que não merece outro sentimento além da pena.

Castro deveria ter omitido as “derrotas” de Garrincha? Jamais. Aliás, não sei exatamente o que fazer – ou como resolver esse problema. Estou apenas descrevendo o sentimento que duas obras de um mesmo autor, sobre personagens diferentes me trazem. Isso porque queria falar sobre uma outra biografia, que também ultrapassa o simples narrar de fatos, para fazer uma interpretação, ou um releitura, ou um comentário sobre a obra do biografado. Chama-se “Schopenhauer – e os anos mais selvagens da filosofia” – num subtítulo estranho – de um alemão, que já havia escrito livros sobre Nietzsche e Heidegger, chamado Rüdiger Safranski.

Antes, acho interessante – hum, não – necessário – hum, talvez – importante – hum, só se for no sentido de contextualização – explicar o que, ou quem representa Schopenhauer na minha vida. Meu pai morreu quando eu era pequeno – tinha 11 anos. Não tive muito contato com ele, não me lembro bem de sua fisionomia, e o que eu lembro dele é uma gargalhada que não combina bem com o que dizem dele para mim – sempre descrito como um homem taciturno, que jamais dava um sorriso para um desconhecido e que era rígido ao extremo. O fim de sua vida foi, como todo fim de vida, dramático e cheio de significados para todos da família, inclusive para mim – mas não é o caso de escrever sobre isso, ou, pelo menos, não agora.

O fato é que, assim que ele morreu – odiava essa palavra, porque era banal;  gostava de relacionar a morte do meu pai com a palavra “falecer”, que, para mim, parecia mais nobre; era meu pai, não? Merecia toda a nobreza, a exclusividade, o sentimento de ser o único do mundo – assim que ele morreu, passamos pelo processo doloroso e comum a todas as mortes de ter que nos desfazer das suas coisas. Mesmo pequeno, era bastante “adulto” para a minha idade e minha mãe me deixou ajudá-la com os procedimentos mais simples – e menos emotivos. Como, por exemplo, esvaziar as caixas e malas em que ele guardava papéis velhos. Documentos antigos sem valor, papéis do seu trabalho que já tinham caducado, maços de desimportância generalizada. Em uma das maletas, encontrei uma surpresa, porém, que, posso dizer, hoje, depois de anos, moldou um pouco a minha vida. Ou muito. Fez ser o que eu sou, hoje. Trabalhar onde trabalho, ter estudado o que eu estudei, escrever o que eu escrevo. Iniciou um caminho de onde não saí mais. Encontrei recortes de jornal com inúmeras crônicas e desenhos do Luis Fernando Verissimo.  Pode parecer bobo, sem importância, reles, mas aqueles pequenos textos, recheados de – humor [sempre] e – inteligência foram um tipo de substituto para o meu pai. Talvez ele não me desse todos os conselhos que eu buscaria com o meu pai, mas saber como ele pensava, como se comportava, como ele criava os filhos, me dava um parâmetro para eu me apoiar e saber para onde estava indo. Claro que não fiquei apenas nos recortes. Assim que tive idade e dinheiro, comprei tudo o que encontrei do autor gaúcho filho de um dos nossos ícones literários. Mesmo sem tê-lo conhecido, e o tendo visto pouquíssimas vezes, eu o sinto como um pai para mim, alguém que estaria ali quando eu precisasse.

Verissimo, por sua vez, também tinha os seus ícones e, por meio de uma de suas obras, encontrei o meu “avô”, digamos assim: Jorge Luis Borges [se eu tivesse um filho, ele se chamaria “Luis”]. Foi em uma obra com título meio bobo [“Borges e os orangotangos eternos”] e em uma crônica maior que o normal chamada “Borgeanas” que “ouvi” pela primeira vez o nome desse argentino de Buenos Aires – não é coincidência que a minha primeira viagem internacional tenha sido para a Argentina. Num ímpeto de coragem, e sem-noçãozismo, antes de ler qualquer coisa dele, comprei o primeiro volume de suas obras completas. Penei para passar pelos primeiros livros de poesia, sofri na obra sobre “Evaristo Carriego”, mas esse caminho me preparou para o ápice, que começaria em “Ficções”, logo após “História universal da infâmia”. Borges me confirmou a trilha de Verissimo, me embaçou as fronteiras entre o vivido e o lido, entre a arte e a realidade, entre a verdade e as verdades. Criou uma literatura que era, ao mesmo tempo, interrogativa e filosófica. Era um jogo que nós aceitávamos participar ao ler a primeira linha e que nos puxava como um elástico até o fim, mesmo que passássemos sem absorver tudo. Porque reler Borges era ainda melhor que lê-lo. Já perdi as contas de quantas vezes passei pelas suas “Ficções” e pelo seu “Aleph”, além de inúmeros dos seus outros textos [pensei em escrever “não-ficcionais”, mas achei que seria uma injustiça]. E foi Borges quem, seguindo essa tradição familiar, me apresentou meu bisavô, com uma frase em que dizia que ele, meu “bisavô”, talvez, tenha explicado o mundo: Arthur Schopenhauer.

Por ser uma leitura mais complexa – tanto no sentido de ser mais difícil de ser encontrada, quanto na ausência de proposta de entretenimento – tenho que dizer que, de toda a minha família, sou / estou menos familiarizada com “bivô” Schopenhauer. Daí a vontade de ler essa biografia que, como já disse, vai além de narrar os episódios da vida do alemão que nasceu em uma cidade que hoje fica na Polônia, mas que quase veio ao mundo na Inglaterra. Fiz umas anotações em determinado momento dessa sua biografia, que vou reproduzir abaixo. Já peço desculpas adiantadas se se tornar deveras chato:
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Rüdiger Safranski , além de lembrar a ligação de Schopenhauer com o brahmanismo [ele chega a fazer uma piada citando “O mundo como Brahma e Maya”, fazendo referência à obra principal do alemão “O mundo como Vontade e Representação”], sugere que o sistema schopenhaureano não tinha como intenção “explicar” um sistema filosófico novo, mas compreendê-lo. Explicar, como Safranski mesmo diz com outras palavras, envolveria a “representação” da “representação”, ou em outros termos, a cristalização dos conceitos, a transformação do sentimento em um código que pode ser identificado por outros. Já compreender/entender, é sentir. É trazer esse raciocínio, repeti-lo e tentar fazer com que cada pessoa o vivencie, já que a vontade é única, pessoal, mas comum a todas as pessoas.
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“A vontade é um impulso primário e vital e um movimento que pode tomar consciência de si mesmo somente em um caso limite; e só então a consciência assume um alvo, um propósito ou um objetivo”. [375]
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“Spinoza disse que uma pedra movida por um impulso qualquer, caso dispusesse de consciência, acreditaria que se movia por sua própria vontade. Pois aqui eu acrescento que essa pedra teria razão” – Schopenhauer, tirado da página 376.

E novamente voltamos a Spinoza o filósofo que parece sobreviver ao tempo praticamente incólume – ou que na média sai na vantagem – ou que foi citado tanto por Schopenhauer como Nietzsche [marginais da tradição filosófica].

Se Schopenhauer comparava a sua “Vontade” com o conceito de Brahma, em que seria o ponto central [não-geográfico] do nosso ser, naquele momento em que não somos representação, e nesse sentido, seríamos iguais a todos, como pequenos retalhos de uma grande e única colcha de retalhos, Spinoza dizia que tudo fazia parte da mesma essência, ou Deus, ou natureza.
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“A vontade, que se encontra na base de tudo, não é absolutamente um espírito em processo de autorrealização, porém um impulso cego incessante, sem meta e devorador de si mesmo, sem deixar transparecer através de si nenhum impulso diretor, nenhum pensamento deliberado, sem sequer apresentar o menor sentido.” [379]
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Melhor consciência – negação da vontade. Para Rüdiger Safranski, as duas ideias são a mesma, apenas com nomes diferentes. Porém, essas alcunhas não deixam de passar um certo raciocínio que não pode deixar de ser levado em conta. A “melhor consciência” nasce da época em que Arthur faz grandes caminhadas a montanhas – ela é o resultado de uma mente livre e desapegada. Parece a conclusão de um processo, enquanto a “negação da vontade” é o caminho a ser trilhado. Como se somente por meio da “negação da vontade” – no sentido dado por Schopenhauer – se pudesse alcançar a “melhor consciência”.
Isso é apenas uma suposição. De qualquer maneira, há uma ligação direta com Nietzsche quando ele diz que Schopenhauer era um pessimista por negar essa força – ou potência, em suas palavras – que sua vontade lhe proporcionava. Há aí um racha entre os dois filósofos. Ambos identificam a Vontade e a sua força /potência – mas um a nega enquanto o outro a afirma.
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Outro fato que separa Nietzsche e Schopenhauer é a crença-sugestão deste na Vontade como aquilo que existe além das representações, o que pode ser interpretado como uma espécie de “essência”. Nietzsche, por sua vez, jamais aceitaria que existe algo além das “aparências” [seria a sua “representação”?], desdenhando do conceito “ideal” platônico, que, numa interpretação poética, veio a dar na coisa-em-si kantiana.
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Para Schopenhauer, a Vontade cumpria, ao menos, duas funções: uma de caráter “essencial”, de essência; outro de “impulsividade”, de força. A primeira, Nietzsche desdenha, a segunda, abraça.
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Um segundo problema encontrado no sistema schopenhaureano mostra que todas as vontades dos seres são a mesma vontade – como o conceito poético brahmânico. Mas além de fazer refência ao Brahmanismo, e à coisa-em-si kantiana, não está claro o motivo dessa igualdade. Por que não se poderia ter vontades individuais, singulares? Ou o simples fato de cada um dos elementos possuir esse elemento impulsivo-seminal já é possível para torná-los, em algum grau, iguais?
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Schopenhauer dá exemplos de como as coisas, abandonadas, são impelidas a fazerem o que elas fariam “normal” e “naturalmente”, para demonstrar que as vontades seriam essas “vontades de viver” – sendo tautológico [ele mesmo admite o problema]. E aí a crítica de Nietzsche faz sentido: por que negar essa vontade? Por que negar a vontade de viver?
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Ainda não terminei de ler a biografia, mas o melhor momento para se escrever sobre um livro é no meio dele, em seu ápice, na parte que sua energia criativa está no auge e que não sobra tempo para você pensar sobre outra coisa. 

sábado, 27 de agosto de 2011

Profundidade rasa

Se me lembro bem - o que eu duvido - Verissimo em uma crônica sobre o Woody Allen da década de 1970 fala que o cineasta desvendou em suas produções artística que, no fundo, no fundo, só há raso. Talvez essa seja a maior característica do norte-americano, a mistura entre um assunto que se propõe complexo, elaborado, que afetaria a humanidade inteira como um todo, e algo frugal, banal, sem maiores consequências.

No livro de entrevista com o Eric Lax ["Conversas com Woody Allen"], há um momento em que o diretor se sai com uma frase que exemplifica esse raciocínio. Lax pergunta sobre o final não muito feliz de "A rosa púrpura do Cairo", e como ela refletiria a visão de vida de Allen. O cineasta responde que sim, ele acha que a vida é muito amarga, mas [e então começa a sorrir, segundo a rubrica do livro] que é o único lugar onde se pode comer comida chinesa. O sorriso de Allen demonstra que ele já imagina qual será o resultado de sua frase: como algo cômico. É nessa "assimetria" que ele se alimenta para produzir seu humor, nessa suposta antítese, nesse contraste absurdo, que beira o nonsense.

Além da questão cômica, porém, há nessa frase uma proposta de vida mais "humana", assim como propunha, talvez, sob a minha interpretação, Nietzsche. O filósofo bigodudo sempre implicou com o cristianismo por conta de sua transcendência, ou seja, pela proposta da religião cristã de que deveríamos viver uma vida asséptica na Terra para, após morrer, ter acesso ao paraíso, na verdadeira vida, a eterna. Claro que esse raciocínio ele ampliou - e foi ampliado pelos seus intérpretes - para diversos fatores. Não haveria, portanto, conteúdo, só forma. Não haveria nada além do aparente. Não haveria profundidade, só o raso.

Essa tese se torna complicada sem a sua devida contextualização nos dias de hoje, principalmente porque pode parecer ser uma defesa da "boa aparência", por exemplo, ou de uma produção em série de pessoas "bonitas". Mas a desconstrução desse argumento fica exatamente no fato de que o "belo" também é uma construção cultural e social. Correr atrás desse ideal, quando não é algo internalizado, mas importado de maneira pré-fabricada, é ter uma vida apenas reativa, que reage ante os outros, em vez de tomar as rédeas sozinho.

Voltando a Allen, e à sua frase, podemos perceber que a sua frase diz ainda muitas coisas. Ele admite que o mundo é complexo, cheio de problemas e completamente amoral. Não fecha os olhos para esses fatores, mas deixa claro a pergunta: o que ele pode fazer sobre isso? Praticamente nada. Somos bastante inofensivos dentro desses parâmetros. Não é uma proposta pessimista, como imagina os crentes e os que querem uma recompensa pelas suas boas ações. Mas de extrema realidade, que pode afetar os mais sensíveis, os que imaginam que devem agir de tal forma para alcançar algo no futuro. Ele apenas demonstra a nossa completa incapacidade de controlar o que nos arrodeia. Só isso.

O ideal é, portanto, viver os pequenos prazeres que nos é possível. É descobrir aquilo que nos agrada, e que não desagrada em demasia os demais - porque ainda vivemos em sociedade, não? -, e tentar, à medida do possível, praticá-lo. Como por exemplo, comer comida chinesa. Ou ler um texto do Verissimo, um livro do Nietzsche ou assistir a um filme do Woody Allen. Belo ideal de vida, não?

quarta-feira, 17 de agosto de 2011

Pseudointelectuais


Essa cena do "Annie Hall" sempre foi uma das minhas preferidas. Um sujeito pedante, esnobe, que se autoaplica um verniz cultural, um pseudointelectual em suma, está discorrendo sobre diversos assuntos logo atrás do personagem de Woody Allen, Alvy Singer. Singer, claro, fica incomodado a cada frase de efeito, a cada paráfrase, a cada teoria inventada naquele momento. Nervoso, começa a discutir com Annie [Diane Keaton], até que não aguenta e pergunta ao espectador, diretamente, olhando para a câmera, como ele agiria numa situação dessas. O chato também sai do lado de sua parceira e vai discutir com Allen usando o argumento mais básico do mundo: "este é um mundo livre e eu posso me expressar do jeito que quiser" [ZZZzzz...]. Allen retruca perguntando quem era ele para dizer que sabia algo sobre Marshall Mcluhan, o último nome citado [namedropping é uma expressão em inglês que designa o fulano que fica enumerando celebridades intelectuais para mostrar, ou fingir, que os conhece]. O cara treplica informando que era professor de mídia-qualquer-coisa em Columbia e portanto era a pessoa mais indicada para falar sobre Mcluhan. Allen, furioso, diz que, em vez de falar sobre, chamaria o próprio Mcluhan para a discussão. O homem que cunhou a expressão aldeia global acaba dizendo que o tal professor não sabe nada sobre ele - Mcluhan - e acaba com o bate-boca.

Durante muito tempo Woody Allen caçoou do homem que se dizia culto em seus filmes. Talvez por ser realmente culto, em vez de querer parecer culto, talvez por perceber a completa desimportância de ser culto, talvez porque ele saiba que não exista essa história de intelectual, talvez por perceber que a cultura serve para absolutamente nada, dentro de um ponto de vista simplesmente existencial. Nessa última fase, digamos, pós-Nova York, ele caiu em várias armadilhas e se colocou no papel em questão - ou escreveu sobre esse personagem - de maneira mais condescendente. Como se percebesse que em um mundo aculturado, aquele que ao menos aparenta ter conhecimento é mais interessante que o completo ignorante. Em outras palavras: que é melhor um sujeito falar sobre Woody Allen sem nem mesmo ter visto um único filme dele, do que nem saber quem é o diretor nova-iorquino. Mas esse desvio no caminho durou pouco tempo. No último filme dele, "Midnight in Paris", novamente vemos um sujeito cheio das explicações profundas sobre a história da arte ser ridicularizado.

Verissimo - que já foi chamado, curiosamente, da versão brasileira de Allen - em uma de suas crônicas publicadas no seu primeiro livro [se eu não me engano - o que eu duvido - se chama "O popular"], faz uma brincadeira sobre quem seria os intelectuais. Como percebê-lo, como identificá-lo, como alimentá-lo, como tratá-lo, etc. Não é possível saber quem realmente tem conhecimento, ou quem finge, realmente. No fundo, como diz o próprio Verissimo em um contexto sobre Allen, só há raso.

Imagino que nem Woody Allen nem Luis Fernando Verissimo sejam contra a acumulação de cultura. As obras dos dois, as suas indagações, as suas propostas demonstram que isso seria completamente contraditório. O que eles propõem, na minha humilíssima opinião, é a quebra da sisudez da pessoa que tem acesso a esses conteúdos, mostrando que saber ou não o que Mcluhan disse ou quis dizer não torna ninguém melhor ou pior que outras pessoas. Ser ou não ser intelectual - se isso for possível - não é, ou não deveria ser, razão para dar privilégio a ninguém. É tornar a teoria do não-se-levar a sério uma prática diária.

quinta-feira, 5 de agosto de 2010

Autobiografia das 'Memórias póstumas'

Luis Fernando Verissimo costuma brincar com a questão da biografia. Ele diz que não haverá nunca solução para o problema da fidelidade - ainda cogitando, hipoteticamente, que isso fosse possível por si só.

A sugestão, bem humorada, é que o melhor formato seria a autobiografia, já que ninguém saberá tanto de si quanto você mesmo - claro, com a exceção de você não estar aqui após a sua vida, e não poder falsear algumas passagens em prol de uma melhor compreensão por parte dos outros da sua própria história, a.k.a. cair na tentação de não mostrar os próprios podres.

É, portanto, um problema sem solução. Se um personagem for biografado por outrem, ele pode até ser visto objetivamente [no sentido de se tornar algo o mais distante possível dos humores], mas quem disse que isso é bom? E como ele vai saber o que o biografado pensa, sente, quer?

Estava pensando nisso quando me atentei para a solução. Ela está na, provavelmente, maior obra literária brasileira: as "Memórias póstumas de Brás Cubas" [incrível como eu estou, nesse momento de estudo, confundindo esta com a seguinte: "Quincas Borba", que, aliás, cabe um ps. no fim], onde o "defunto autor" também é "autor defunto". Isso quer dizer que ele é a pessoa que mais sabe de si, não tem nenhum problema de se expor e ainda tem a vantagem de poder bisbilhotar sua vida, em perspectiva e em retrospectiva. Solução literária, sim, mas qual não o é?

ps. Diferentemente das "Memórias póstumas", "Quincas Borba" não tem um narrador em primeira pessoa. Estou pensando, teorizando, divagando, que, considerando que há uma relação muito clara entre as duas obras, uma sendo citada na outra, com personagens se repetindo, histórias interligadas, o narrador de uma é o mesmo de outra. Ou seja, é Brás Cubas quem narra "Quincas Borba" [esqueça o Machado, ele não tem nada a ver com isso]. Apenas se mantém incógnito para não atrapalhar o desenrolar da história.

pps. Encontrei no capítulo 24 das "Memórias..."  o trecho abaixo que exemplifica a teoria do texto desse post:
Talvez espante ao leitor a franqueza com que lhe exponho e realço a minha mediocridade; advirta que a franqueza é a primeira virtude de um defunto.Na vida, o olhar da opinião, o contraste dos interesses, a luta das cobiças obrigam a gente a calar os trapos velhos, a disfarçar os rasgões e os remendos, a não estender ao mundo as revelações que faz à consciência; e o melhor da obrigação é quando, a força de embaçar os outros, embaça-se um homem a si mesmo, porque em tal caso poupa-se o vexame, que é uma sensação penosa e a hipocrisia, que é um vício hediondo. Mas, na morte, que diferença! que desabafo! que liberdade! Como a gente pode sacudir fora a capa, deitar ao fosso as lentejoulas, despregar-se, despintar-se, desafeitar-se, confessar lisamente o que foi e o que deixou de ser! Porque, em suma, já não há vizinhos, nem amigos, nem inimigos, nem conhecidos, nem estranhos; não há platéia. O olhar da opinião, esse olhar agudo e judicial, perde a virtude, log que pisamos o território da morte; não digo que ele se não estenda para cá, e nos não examine e julgue; mas a nós é que não se nos dá o exame nem do julgamento. Senhores vivos, não há nada tão incomensurável como o desdém dos finados.

sábado, 16 de outubro de 2004

Com vocês, Antônio Maria

Copacabana transcorria sem pressa envolta numa nuvem agradável de temperatura idem quando, neste ambiente tranqüilo, adentra uma coleção de mulheres de que, se não merecem respeito, anseiam admiração. Por coincidência lia uma coletânea de Antônio Maria e pensei: 'vou parar de cansar as minhas vistas e homenageá-lo de outra forma'. Foi assim, por um bom bocado de caminho. Eu, óculos escuros, mulheres de todos os calibres à minha volta, Copacabana deitada e quieta, sem ondas e cinza, contrastando com o Forte homônimo em seu extremo oriente.

Ontem ele fez o pior dos aniversários. Aquele que ninguém comemora, principalmente o aniversariante. Há 40 anos atrás, o pernambucano de 120 quilos portador de uma gargalhada estrondosa descontava um cheque num boteco e teve um segundo ataque cardíaco, na calçada perto do prédio de quarto e sala em que ele alugava uma unidade.

Costumava dizer que apenas ele e seu amigo Di (Cavalcanti) ainda não possuíam o sonho da casa própria. Autor de um dos clássicos brasileiros mais gravados no mundo inteiro ('Manhã de carnaval', em parceria com Luiz Bonfá. Descobri esse detalhe ontem, já que, de sua música, só leio as crônicas), e morre na sarjeta. A História, eu sei, é clichê. Mas como é curiosa.

Maria (para os menos íntimos), também soube na matéria dO Globo, é visto como um sujeito triste. Isso, como irretocavelmente afirma João Máximo, porque sabia fazer samba-canção de suas 'fossas monumentais como eram as daquele tempo'. O curioso, neste caso, é que eu tinha/tenho uma imagem completamente antagônica do sujeito.

Havemos de convir que ele nunca foi, quiçá será, tão famoso ou conhecido como o (Rubem) Braga, para desmitificar qualquer mal entendido. E, essa minha reação particular contrário ao senso comum deve ter como origem, o início de tudo. Só tive contato com o seu texto através de um escritor bem-conhecido pelo seu bom-humor: Verissimo. Numa crônica de três de junho de 1974 (depois reunido em seu 'Comédias da vida pública'), LFV comenta a reestréia de uma peça com texto de Maria: 'Brasileiro: Profissão Esperança'. E diz que 'faz muito bem em, de vez em quando, relembrar Antônio Maria'. O que logo é salientado no texto do gaúcho, porém, é a quantidade de frases memoráveis do plantel do filho caçula de Inocêncio Ferreira de Morais e Diva Araújo de Morais. Algumas:

'Eu, como sempre brilhante naquilo que irei dizer e em tudo o que poderia ser dito, na hora de falar não disse coisas nenhuma'.

'Quando alguém fala 'todavia' é porque a frase é decorada'

'Esta noite... esta chuva... estas reticências... sei lá'.

Demorei para me fazer o favor de adquirir algo de sua própria autoria. Depois descobri que esse meu entrave era motivado pelo fato de que sua obra só veio a ser reeditada ano passado, com pedidos de pelamordedeus do Joaquim Ferreira dos Santos. Antes disso, só com reza forte e em sebos. Aliás e inclusive, esse meu primeiro exemplar, se perdeu no buraco negro da casa do Zé. Comprei uma versão, agora há pouco, de 'Com vocês, Antônio Maria'. Leio como minutos de sabedoria: abro ao léu e traço a crônica que aparecer. Raramente me arrependo:
'Nesse trecho do Leme*, a vida é sempre igual. Os carros batem na mesma esquina, muitas vezes os mesmos carros. Junta gente. As mesmas pessoas pessoas que saem dizendo, escandalizadas:
- Nunca vi uma batida tão grande.
São iguais as comidas dos pequenos restaurantes de uma porta só. Iguais as mulheres de trottoir. A polícia é a mesma desde a fundação da cidade'.
* Nota minha: o autor se referia à esquina da Viveiros de Castro com a Prado Júnior.

Na resposta à carta de uma leitora:
'Meu filho, Eleutério veste-se mal, porque quem escolhe as roupas é o pai.'
E o nome, foi a senhora que escolheu?'
Sempre percebi um humor, um riso, mesmo que triste, até nos seus momentos mais amargos. Sorriso embutido este que combina com a sua gargalhada. Um riso não de otimismo retumbante e cego, mas de diversão. Daqueles que saíam todas as noites com Vinícius de Moraes numa Copacabana romântica, onde os pequenos inferninhos eram as filiais domiciliares.

Sinto uma certa saudade daquilo que nunca vivi. Nostalgia, já ecoa em meus tímpanos. Pode ser. Apenas sei ao certo que, ao ler os seus textos, (parece) que vivo todo esse clima onírico - novamente. Coisas inexplicáveis. Como a morte aos 43 anos, como tantas outras coisas. Se valeu para alguma coisa, o dia de ontem, foi para rememorar Antônio Maria. E é sempre bom, de vez em quando, lembrar dele.