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terça-feira, 24 de novembro de 2015

A mesma Torre de Babel

Uma das formas de se interpretar a parábola da Torre de Babel é a dificuldade do entendimento mútuo, a incomunicabilidade intrínseca a essa estranha espécie que é a humana. Na curta passagem bíblica, lemos que os homens sobre a terra se uniram para construir o mais alto dos edifícios, com a intenção, interpretam alguns sábios, de se igualarem a Ele. Deus, não querendo muito ter competidores, resolveu descer do paraíso e zás!, trocou os idiomas falados pelos homens. Como eles não se entenderam mais, a construção foi abortada. Perdidos em linguagens diferentes, os homens se espalharam pelo mundo.

Num primeiro olhar, parece que a sociedade ocidental, aquela que exerce sua hegemonia em quase todos os cantos do mundo nos dias de hoje, conseguiu finalmente retornar a um estado pré-babélico: fala a mesmíssima língua. Todos os povos sobre a terra que participam do jogo sistemático econômico em atuação se expressam no mesmo idioma da eficiência, do lucro, da produtividade. Seja rico ou seja pobre, ou muito pelo contrário, o dinheiro sempre vem em primeiro lugar. Claro que essa linguagem vem travestida de uma outra roupagem. Todos professamos o mesmo discurso de liberdade, de independência, de defesa do comportamento do indivíduo: "Laissez faire, laissez passer", lembra? Está tudo conectado. Todos acordamos que temos direitos e deveres - mas nos esquecemos que alguns com mais direitos que deveres, e vice-versa.

Para as classes-médias globais-liberais é fácil ver essa conexão mundial. No cotidiano, procrastinamos na mesma rede social, bradamos contra os mesmos preconceitos, participamos das mesmas campanhas de conscientização. Em inglês, discutimos as mesmas músicas, reclamamos dos mesmos spoilers das mesmas séries, compramos os mesmos gadgets nas mesmas lojas. Nas férias, viajamos para os mesmos lugares, descobrimos os mesmos destinos, frequentamos os mesmos bares secretos. Nos fins de semana, cozinhamos as mesmas receitas, bebemos as mesmas cervejas artesanais, visitamos as casas de amigos com as mesmas decorações. Reclamamos das mesmas grandes corporações, optamos pelas mesmas ações solidárias, dormimos o mesmo sono dos justos. Riqueza é riqueza, em qualquer canto.

Para conseguir essa hegemonia homogênea, claro, não é assim tão indolor. Sempre há exploração e destruição da terra, da água, do ar, do subsolo, das matas, dos seres viventes. É um jogo que jogamos cotidianamente, tentando fechar os olhos para as suas consequências, nos agarrando na ideia de que temos uma dieta mais balanceada que a de monarcas do período feudal. Mas nos esquecemos que não dá para o planeta aguentar a globalização do padrão de consumo médio de um norte-americano. Não dá nem para ter o padrão de um carioca da Zona Sul.

Os mais pobres, periféricos, menos escolarizados, independentes do sistema, ou simplesmente mais tacanhos de espírito, todos, enfim, neófitos nesse livre circular de capitais sem fronteiras, são obrigados a participar dessa partida global, mesmo que não queiram. Vide os casos dos índios expulsos das suas aldeias para a construção das feias Belos Montes e congêneres que ganharam versões modernas dos espelhinhos, como geladeiras e caminhonetes. Estes são expulsos dos seus modos de viver e viram presas fáceis para as propagandas internacionalizantes, bancadas pela elite sem-fronteiras, que torna tudo a mesma receita de um bolo anódino, cheio de corante, açúcar refinado, farinha branca e gordura hidrogenada. Assim, aumenta(m)-se a venda de carros, o lucro dos bancos, o empreendedorismo "social", o gasto de energia, as obras faraônicas, a ingestão de carne, a construção de enormes condomínios, o desmatamento de florestas, a preocupação sócio-ambiental, as monoculturas de exportação, e, novamente, a exploração, a devastação, a destruição. Tudo parte do mesmo jogo.

Só que no meio da partida, quando nós, os liberais que usamos sacola retornável, nos enganávamos de que essa não era a sociedade perfeita, mas era o melhor que já tivemos - olhe a nossa ciência! olhe a nossa tecnologia! -, zás!, acontece novamente. Voltamos para a Torre de Babel. Descobrimos que o mito da linguagem única era isso: um mito. Pobres periféricos, classes-médias globais, elites sem-fronteiras, percebemo-nos todos no mesmo prédio, temos, em tese, a mesma intenção [nos mantermos aqui, não?] mas descobrimos que não falamos a mesma língua. Temos planos completamente diversos, às vezes antagônicos, para alcançar objetivos nem sempre muito claros para ninguém. Não nos entendemos sobre nada. Não temos um fundamento em comum, aparentemente. Nada que possa servir de corrimão.

Pois como explicar para alguém que não tem um bom transporte público perto de casa, que nunca foi servido por qualquer facilidade para exercer o seu direito constitucional de ir e vir, que ter um carro hoje em dia é contribuir para a destruição do planeta? Como defender para os donos de mineradoras, de empresas de petróleo, fábrica de automóveis, que eles estão acelerando o processo dessa mesma destruição? Como contar para alguém que tem como maior forma de socialização o churrasquinho do fim de semana que a criação de gado para o consumo de carne é uma das principais causas da falta d'água [noves fora a podre política dos políticos podres]? Como dialogar com latifundiários que destroem os aquíferos para plantar a soja que vai alimentar este mesmo gado de vários países ao redor do mundo? Como deixar claro que ninguém é a favor do aborto, ao contrário, mas, sim, a favor das mulheres decidirem o que fazer com os seus próprios corpos? Como mostrar para amigos liberais que reciclar o seu lixo não adianta quase nada num mundo em que há crimes ambientais como os praticados pela Samarco no Rio Doce? Como conversar com um indivíduo que acha que sua religião tem o direito de interferir nas decisões individuais de outras pessoas, como no caso de suas "preferências sexuais"? Como convencer a máquina pública moralista que a guerra às drogas é apenas uma forma de exterminar os pretos, pobres e favelados do mundo? Enfim, como aprender a falar a língua do outro?

Não dá mais para se espalhar pelo mundo, como aconteceu lá com o povo de Deus. Mas também não dá para ficar na mesma torre sem entender o que o outro quer dizer.

Uma certeza, ao menos, se tira disso tudo: A linguagem única, da eficiência, do lucro e da produtividade, não está funcionando.

quinta-feira, 5 de março de 2015

Rio 450 anos: o que temos para comemorar?

Em qualquer viagem, é inevitável fazer comparações com o seu país, seu estado, sua cidade. Você fica pensando, a cada curva no mapa, a cada estátua desvendada, o que é diferente da sua casa e o que é igual de todos endereços tão familiares. Tenta fazer uma brincadeira de espelho e encaixar a alameda da sua casa dentro da avenida do hotel. Colocar o boteco no pub. A Medina na favela. O Cristo na Torre. Lembra da dificuldade de tomar um ônibus na hora que enfrenta a dificuldade de tomar um trem. Percebe os tempos - longos, curtos, médios, ondulados. Os gostos. As temperaturas. Os cheiros que te remetem para as memórias mais longínquas, em cascatas. As pessoas andando nas ruas. Como se olham. Como se tocam. Como se vestem. Você compara, converte, mede com uma fita métrica do seu bairro, tenta falar com o mesmo alfabeto, léxico e gramática que você usa cotidianamente. É uma tentativa de tornar próximo aquilo que é, a cada momento, estrangeiro. Isso tudo acontece sempre, sempre que você toma um avião para sair do mesmo lugar de sempre. Mas uma viagem a Lisboa multiplica esse sentimento exponencialmente. São tantas familiaridades, tantos traços em comum, que às vezes o caminho é exatamente o oposto: o que temos de diferente?

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Quando Pessoa, travestido de Bernardo Soares - o heterônimo mais próximo do autor, segundo os entendidos -, diz que a sua "pátria é a língua portuguesa", percebo o quanto temos - portugueses e brasileiros - de diferente aí. O contexto da citação até pode não ser exatamente este, mas pode-se sugerir que há, aí, um elogio da literatura, da palavra escrita. Dessa tradição tão europeia de passar as suas histórias e a História ao longo do tempo por essa mídia chamada papel. Língua, literatura, cultura escrita, essa tradição tão vindo nas caravelas para o resto do mundo.

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Os brasileiros não podemos - no sentido de "deveríamos" - falar que compartilhamos a mesma pátria. Nossa pátria não é formada das mesmas letras, nem da mesma terra. Temos, sim, essa herança, o que é inegável  - e a capacidade de se emocionar ao ler o próprio Pessoa nos mostra o quanto deste passado está presente.

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Se pudesse sugerir onde fica nossa pátria, eu arriscaria: na música. É lá onde o povo-popular se encontra. Foi lá que o Brasil oficialmente desobedeceu os impostos ibéricos de maneira mais clara, e tal qual Édipo, começamos a caminhar, cegos e sozinhos (mas qual caminhar sozinho não é uma metáfora para a cegueira?).

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Não quer dizer que não tivemos Glauber, Machado [Machado!], Oiticica, todos grandes Macunaímas. Mas é na música que estabelecemos mais claramente nossas fronteiras sentimentais nacionais. E, de certa forma, é o que nos mantém unidos.

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Isso mostra como nós somos diferentes da tradição estritamente europeia. Todo país europeu tem o seu Cervantes, Goethe, Shakespeare. Nós, claro, temos Machado, temos Drummond, que as pessoas adoram tirar fotos e arrancar seus óculos, mas a representatividade da literatura em nosso cotidiano é irrisória. Pense, como um entre tantos exemplos, em nossas tiragens para lançamentos de um livro grande [sem ser um Paulo Coelho ou "50 tons de cinza" da vida] e compare com o que acontece em Portugal.

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Nossa tradição tem muito, mesmo que nós, brasileiros-preconceituosos, não queiramos, de índio e africano: somos muito mais corpo que alma. Muito mais rua que casa. Somos muito mais ginga, requebrado, rebolado. Samba, xaxado, afoxé. Mesmo o pessoal mais ao sul, mais ligado à Europa. [E, sim, estou generalizando para efeito de divagação.] Nosso pensamento não é cartesiano. Nosso tempo não respeita o horário. Nossas estações são diferentes. Não somos europeus em exílio, como disse Borges sobre sua Buenos Aires - e ele mesmo estava errado.

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Por isso não entendo a comemoração dos 450 anos do Rio. Quer dizer, entendo, mas não concordo. Comemorar o quê? Comemorar o início de uma cidade que tentava ser europeia? Comemorar o marco inicial da expulsão dos índios que aqui estavam? O genocídio? A destruição do sistema ecológico daqui? O maior porto de escravos das Américas? A elite que sempre governou para a própria elite?

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O pessoal do andar de baixo teve que se virar. A necessidade de sobrevivência fez com que eles criassem, inventassem, transformassem a massa que era entregue para eles em algo novo. Sem muito planejamento, sem muita visão do todo, sem pensar muito no amanhã. Era o que tinha para aquele hoje. Tinham que desviar das pedras e pedregulhos e montanhas no meio do caminho.

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O que ficou disso, o que é comemorado agora nos 450 anos? O folclórico, o vazio, o malandro sem malandragem, o sambista de panamá da Uruguaiana e camisa listrada azul pronto para se exibir para a câmera do turista gringo. Falta sangue nas veias. Mas não falta nas ruelas.

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Perto da minha casa, o filho do Andrei Bastos, que eu tive a honra de entrevistar certa vez, Alex Schomaker Bastos, foi assassinado por assaltantes. Os pais e amigos do menino fizeram uma homenagem a ele, com cartazes colados no ponto onde ele esperava o ônibus. Parece que os cartazes foram retirados, mas a família colou tudo de novo. Agora, há uma patrulhinha parada ao lado para dar mais "segurança" ao lugar. E o prefeito prometeu transformar o lugar e construir uma pracinha. No primeiro caso, uma medida paliativa que apenas empurra o problema da violência para alguns metros adiante ou para trás. No segundo caso, uma medida hipócrita.

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O que temos para comemorar? A Baía de Guanabara e as praias constantemente poluídas? Os ônibus caríssimos e ineficientes? As contas dos donos das empresas de ônibus na Suíça? A violência em crescimento vertiginoso nas áreas menos privilegiadas? A crise de abastecimento de água? O futebol e as escolas de samba caídos em descrença? O custo de vida estratosférico e subindo? O prefeito mentindo sobre as obras para as Olimpíadas? A inexistente herança da passagem da Copa do Mundo? O que temos para comemorar?

quinta-feira, 13 de novembro de 2014

O preto no branco e os muitos tons de várias cores

Existem dois tipos de pessoas: as que dividem o mundo em dois tipos de pessoas e as que acham isso uma besteira. Eu faço parte do segundo grupo.

Durante um tempo, houve uma discussão muito grande sobre se seria possível a máquina, os robôs, a tecnologia enfim, substituir os humanos. Os defensores dos humanos pensavam que o homem e a mulher seriam impreteríveis porque não poderiam ser apreendidos, englobados, encapsulados. Como os humanos sempre tivéssemos algo que fugisse de uma relação de previsibilidade, que seria o modo de operar das máquinas - repetir para aperfeiçoar.

Por conta disso, a tecnologia sempre correria atrás, perseguiria esse caminho que foge da compreensão racional, do esperado, do planejado. Até conseguiria ser melhor que o homem e a mulher nesses processos, até mesmo tornando o humano algo ultrapassado, no processo do cotidiano reprisado. Não precisamos mais de Charlie Chaplins para apertar parafusos, algum Wall-e já faz isso por nós.

Chegamos a cogitar que a tecnologia poderia, inclusive, começar a prever nossas necessidades e criar artefatos inovadores que pudessem substituir até mesmo a capacidade do humano de ser imprevisível. Mas sempre percebemos que nossas demandas, mesmo em situações que se investe bastante em futurologia, como previsão do tempo ou diagnósticos médicos, são sempre inusitadas. A imprevisibilidade é parte integrante, quase essencial, do mundo. Até hoje, não se criou qualquer matriz [matrix?] matemática que enxergue o futuro de forma clara. Os chutes são cada vez mais precisos, mas os erros milimétricos ganham mais destaque igualmente.

O futuro é tão inesperado que jamais imaginaríamos o que está acontecendo agora. Ou melhor, que está acontecendo já há muito tempo, mas cuja velocidade de transformação vem se acentuando em uma aceleração exponencial. Em vez de achar que as máquinas conseguiriam, um dia, pensar como os humanos, acabou acontecendo o inverso: nós, humanos, estamos cada vez mais pensando como máquinas.

Com frequência assustadoramente crescente, estamos respondendo aos nossos problemas utilizando uma lógica que, na falta de nome melhor, poderíamos chamar de código binário. É sempre da ordem do "ou isto ou aquilo", ou Fla ou Flu, ou Dilma ou Aécio. Não se consegue ver - ou não se quer ver - que há muito mais coisas entre o céu e a terra do que imagina as vãs matemáticas utilitárias que usam o 0 e o 1 para tentar decifrar todos os nossos problemas. Não se consegue ver - ou não se quer ver - que há muito mais times, muitos outros esportes, muitas outras formas de se entreter que não assistindo a uma partida em que 11 homens de cada lado correm atrás de uma bola. O mundo não necessariamente é, mas pode ser mais complexo que isso.

Esse é o problema. Ao complexificar essas relações, ao colocar mais dúvidas que certezas (já que com o código binário é bem mais simples: uma resposta está certa enquanto a outra está errada) perdemos velocidade de reação. Temos que avaliar cada uma das possibilidades, pensar seus prós e seus contras, perceber que nenhuma opção está isolada no mundo, que já faz parte de uma outra teia de relações, que por sua vez também está inserida em um outro mundo completamente diferente, que interfere numa série de outras vidas que nós nem imaginávamos, e assim por diante. Não é uma equação do primeiro grau que vai resolver isso. É um pensar que envolve, muito e principalmente, a sensibilidade.


Não deve ser coincidência, portanto, que estamos menos e menos afeitos ao sensível, aquilo que mexe com nossas emoções, que nos faz sonhar - até mesmo falar sobre isso parece algo uncool. Vivemos num ritmo de acumulação, de lugares visitados, de mulheres e homens com quem transamos, de dinheiro que guardamos, de status que enchem o nosso ego, de cervejas diferentes e cada vez mais esdrúxulas tomadas, e cada vez menos num humor de contemplação, de sentimentos, de mergulhar em algo um pouco abaixo da superfície. Relaxamos no fim de semana ou temos nossas obrigatoriedades festivas? Viajamos nas férias ou tentamos apenas colecionar destinos? Trabalhamos porque gostamos, porque acreditamos, ou precisamos somente ganhar o salário no fim do mês para pagar os nossos remédios antimonotonia? Em que momentos nos escutamos?

Não dá para dizer que é certo ou errado agir assim ou assado: cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é, já dizia o Caê. Mas ao perdemos as nuances entre o preto e o branco, perdemos junto o caminho de qualquer tipo de diálogo - com quem quer que seja. Para qualquer diálogo, aquele em que se tenta construir algum tipo de ponte, para se chegar a outro lugar além de si, é necessário uma pequena recusa das suas próprias propostas. É preciso enxergar dentro de si uma cor que seja uma cor parecida com a do seu interlocutor. Só assim é possível escutá-lo, não para concordar com ele, nem mesmo para mudar de opinião, mas para saber que não somos os únicos no mundo, nem indivíduos solitários. Como disse dona Hannah Arendt, neste mundo, não há o homem, mas os homens. Somos, gostemos ou não, plurais.

Quando optamos por uma relação de preto no branco, estamos nos isolando e, pior, colocando o interlocutor do outro lado do tabuleiro, da praça de guerra, da vida. Quando você opta pelo código binário, eu certamente vou estar sempre do outro lado.

quarta-feira, 8 de outubro de 2014

Manual para discussões na internet

Não ria. Temos que conter a vontade de gargalhar ao pensar que precisamos de um manual para comportamento, uma etiqueta pós-moderna. A verdade é que essa eleição está se mostrando um ambiente perfeito para que as discussões se acirrem muito fortemente. Há uma polarização imensa entre os dois candidatos ao governo federal, que é abastecida pelas suas torcidas, como se eles fossem times de futebol. E, como diz o seu Elio Gaspari hoje, essa eleição será plebiscitária: ambos pedem o voto com o único argumento de que o outro é pior que você [ver: Ressentimento].

Portanto, para tentar não convencer o outro - aquele diferente de você - de que o seu partido e candidato são os melhores, sugiro um procedimento para que consigamos conversar com o outro para conservar a amizade.

Seguindo uma dica da professora Déborah Danowski, que por sua vez cita Deleuze, poderíamos dizer que
O ser de direita é sempre perceber as coisas a partir de si mesmo, como num endereço postal. Assim: eu, aqui, neste lugar, na minha casa, na rua tal, na praia de Botafogo, Flamengo, Rio de Janeiro, América do Sul. E você pensa o mundo, ali, como uma extensão de si mesmo. E cada vez que você se afasta, vai perdendo interesse, a coisa vai decaindo de valor. E ser de esquerda é o contrário: vai do horizonte até a casa.
Daí, poderíamos pensar em algum lugar onde os dois se encontram. E é só a partir desse encontro que podemos dialogar. Somente quando temos algo em comum, quando dividimos alguma certeza, alguma verdade, quando estamos andando sobre o mesmo chão é que temos a capacidade da troca, que é o início - ou deveria ser - de uma discussão. Exemplo-mor: Se não falamos a mesma língua, como vamos conversar, quiçá debater? Mas a língua é a condição básica. É necessário um outro fundamento para funcionar como fiel da balança e para que o embate tenha algum proveito. Se não...

Outro exemplo: Uma vez, quando fiz uma brincadeira sobre esquerda e direita, fui xingado [dá para conferir nos comentários], e não consegui dialogar com as pessoas que me xingavam porque não dividíamos o mínimo de lugar-comum.

Quando escrevi que "A esquerda quer arte engajada. A direita acha que a arte deve mirar o sublime. A extrema esquerda não acredita em arte que não seja política. A extrema direita queima livros que não concordem com ela. O centro leu "O pêndulo de Foucault", mas prefere não opinar para não ferir suscetibilidades", a resposta que eu recebi foi: "quem queima livros é a extrema esquerda".

Para esse rapaz [ou moça, ele/a não se identifica], me pareceu, Hitler seria de extrema-esquerda. Temos um conflito cognitivo imenso aí. Eu o [Hitler] colocaria no outro lado do espectro político, por uma série de comportamentos e políticas, como a xenofobia e o preconceito generalizado, o ideal de desenvolvimento a qualquer custo, o parâmetro fixo e excludente. Dentro da definição da Déborah, o nazista é um narcisista elevado a enésima potência [narcizista?].

A questão, para o comentarista do outro post, porém, é outra, suspeito. Apesar de ele não se explicar, tento acompanhá-lo: como a política nacional-socialista tinha no nome "socialista", além de pensar num Estado poderosamente forte, que invade as privacidades, essa política só poderia ser de esquerda, extrema-esquerda. Para ele/a, a diferença entre esquerda x direita se atém principalmente ao papel do Estado. Quanto mais interferência na vida individual, no mercado, nas "liberdades", mais ligado à esquerda. O inverso também se aplicaria.

Curiosamente, nesse caso, a direita se liga ao "liberal". Liberal, no sentido clássico, inglês. Em outras palavras, Adam Smith. Porque é possível ser liberal, no comportamento, ou seja, querendo que o Estado interfira o mínimo nas minhas individualidades, seja em relação à chamada pauta moralista [drogas, aborto, LGBT], mas, ao mesmo tempo, querer que o Estado seja intervencionista na economia, se metendo nas regras do jogo do mercado, porque não se acredita na isonomia da mão-invisível. Nesse caso, não precisa ser comunista, socialista ou outra coloração avermelhada para não querer que a economia fique com os abutres. Pode ser keynesiano - que estava longe de ser um revolucionário. A paleta de cores é grande.

É complicadíssimo estabelecer um diálogo com alguém sem entender razoavelmente o que o outro quer falar. Algumas vezes, apenas falamos em dialetos diferentes. Em geral, porém, temos a tendência de lutar com o que for possível para vencer o diálogo, impor o que sabemos como única verdade existente, e nos desesperamos ante a qualquer argumento contrário, que não enxerga o "óbvio". Somos em geral arrogantes, detentores do certo, do ético, do correto, totalmente seguros de si, desmerecedores, em tom de ironia destrutiva e corrosiva, do outro. Ou simplesmente grosseiros - como foi o caso dos comentários do outro post. O raciocínio é simples: Ele é imbecil e pronto. Fim da discussão. Próxima polêmica, por favor, onde eu possa dar a minha visão superior.

Talvez, e finalmente, estejamos aprendendo o que é a opinião pública - mais de 200 anos depois do iluminismo francês, e quase 200 anos após a criação do Speaker Corner, no Hyde Park londrino. Porém, essa defasagem deixa muitas marcas, marcas que o tempo só acentua. A nossa opinião pública cada vez mais parece uma afonia de vozes surdas, um conjunto de opiniões privadas que não criam qualquer música, além do mero barulho. Uma sugestão sem querer criar uma regra: talvez fosse melhor escutarmos, e muito, antes de falarmos qualquer coisa.

sábado, 21 de dezembro de 2013

O autorretrato do ano

A foto correu o mundo via redes sociais. Três das pessoas mais importantes do mundo, no meio de um enterro de um dos maiores ícones do século XX, se juntaram, sacaram um celular potente, fizeram uma pose descontraída, falaram xis, e se autofotografaram. Ou, em inglês, fizeram um “selfie”. A história seria apenas exótica, caso os homens e a mulher em questão não fossem o presidente dos EUA, Barack Obama, a primeira-ministra da Dinamarca, Helle Thorning-Schmidt, e o primeiro-ministro do Reino Unido, David Cameron – no velório do ex-presidente sul-africano Nelson Mandela.

 Acho que a Michelle não gostou de não ser chamada [flagra de Roberto Schmidt/AFP]
Muito já se criticou a postura dos três líderes mundiais, que teriam desrespeitado a memória do sul-africano. Outros fizeram questão de defender a descontração do trio, lembrando que a cerimônia fúnebre não era necessariamente triste, mas uma celebração da vida do homem que representou, pessoalmente, o fim do regime do Apartheid. Não importa quem tem a razão nesta discussão. A foto dos três juntos se tornou um dos principais fatos do ano. Ou o autorretrato de 2013.

Não que tenha tido a relevância política das manifestações que abalaram Turquia, Brasil e outros países do mundo. Nem que tenha estremecido as relações multilaterais, como os escândalos da espionagem patrocinada pelos EUA. Ou o impacto da mudança de um papa taciturno, para um que abraça as pessoas nas ruas naturalmente (Aliás, que ano foi esse 2013, hein?). Mas o “selfie”, esse hábito de registrar a própria imagem com o celular ou uma câmera digital e, em seguida, compartilhar em uma mídia da internet, mostra muito como nos comportamos, no âmbito privado – ou o que restou dele – neste ciclo que agora se encerra.

Esta não é uma conclusão deste texto ou deste que vos escreve, mas uma constatação geral. “Selfie”, o diminutivo carinhoso de “Self”, que por sua vez quer dizer algo como “a si mesmo”, foi escolhida a palavra do ano pelo tradicional dicionário Oxford. A frequência com que ela foi usada na internet subiu 17.000% neste ano, se comparado com o ano anterior. O dicionário ainda conseguiu traçar a primeira aparição da palavra com essa acepção: foi em um fórum de internet na Austrália em 2002. De lá para cá, a palavra, e o hábito de se autofotografar, explodiram. Mas o que isso representa?

Muita gente tentou pegar o caminho do narcisismo exacerbado na interpretação do fenômeno. Inclusive uma capa do tabloide New York Post, em que mostrava como uma turista, ao perceber que havia um fulano tentando pular da ponte do Brooklyn, sacou o celular e se enquadrou junto ao suicida em potencial para registrar o momento (em tempo: o rapaz não se jogou). O título da reportagem foi um trocadilho intraduzível: “Selfie-ish”, sendo que “selfish” é visto normalmente como “egoísta”.

É claro que vivemos um momento em que nos desacostumamos a sair do centro das atenções. Compartilhamos todos os nossos passos na tentativa de mostrar o quanto merecemos receber os olhares dos outros. Queremos ser as celebridades cotidianas da vida social que se estabelece ao nosso redor. O “selfie” representa bem esse período, claro, já que você vira o paparazzi de si mesmo. Mas há ainda uma outra forma de interpretar que talvez seja complementar a essa.

Desde que a fotografia foi inventada – ou mesmo antes, quando a ideia de “retrato” entrou na pintura – sempre houve quem gostasse de deixar registrado sua imagem para a posteridade. E outros que não, que fogem de momentos assim, que abaixam a cabeça, jogam o cabelo na frente do rosto. Os motivos dessa diferença de comportamento entre os “exibidos” e os “envergonhados” podem variar enormemente, e esse texto não vai tentar elencá-los. Parece óbvio, também, que o número de exibidos subiu, proporcionalmente, enquanto o de envergonhados teria diminuído. Mas há um detalhe que, numa leitura superficial, tem ficado de fora: como, agora, o retrato é feito pela própria pessoa, sem o auxílio, ou a participação de ninguém mais.

Como dito, autorretratos não são novidades no mundo estabelecido das artes. Rembrandt e Van Gogh, para ficar em exemplos fáceis, são artistas que gostavam de se usar como modelos. Se no caso do misterioso Rembrandt, podemos supor que era uma forma de autoinvestigação, estudo, e facilidade – já que o modelo está disponível ao mesmo tempo que o pintor –, no de Van Gogh, além desses mesmos motivos, também havia um outro componente que se encontra nos atualmente famosos selfies: o isolamento social. Rembrandt pintou seus mais de 60 autorretratos ao longo de toda vida, Van Gogh concentrou o grosso da sua produção autorreferencial em apenas dois anos – os dois mais conturbados anos de sua vida.

Assim, o selfie representaria a ausência de um outro, que compusesse a relação criada no retrato. Imaginemos o exemplo de um modelo-fotógrafo que, agora, viaja sozinho, e quer deixar marcado que ele visitou – ou consumiu – tais e tais lugares. Não precisa de ninguém para sair, se divertir, conhecer o mundo. É independente, totalmente livre, e ainda um cidadão cosmopolita. Mas esse raciocínio não se sustenta tão facilmente. Principalmente num mundo em que a virtualidade se confunde com a realidade.

Este autorretrato mostra, em vez dessa completa independência, uma incapacidade de se relacionar dentro de uma sociedade factível, imperfeita, cheia de arestas solas. Uma inabilidade social, em tempos de redes sociais. Não é que nosso modelo-fotógrafo tenha preferido viajar sozinho – ele simplesmente não teve ninguém para viajar com ele. Isso não é um problema em si. Apenas se torna um problema quando se encara dessa maneira. E o selfie teria um componente que desnudaria essa farsa de autossuficiência.

Com o autorretrato o modelo-fotógrafo tenta, de uma maneira virtual, arranjar companhia para si. Porque um selfie só é um selfie se o retrato for postado. O selfie, em seguida, cruza os dedos para que a sua foto seja curtida, comentada, compartilhada. Que ele se transforme, por uma questão de segundos, no foco das atenções, desse mundo em que o déficit de atenção se tornou a resposta para todos os problemas das crianças, e a ritalina, que combate o problema, se tornou uma droga tomada no café-da-manhã.

Em vez de liberdade, o selfie demonstra uma dependência absurda do outro. É uma aposta no individualismo, num “eu me basto”, mas num individualismo desesperado, que precisa que alguém, por favor, o observe para existir. Uma tentativa de roubar o olhar do outro para que, só assim, a sua individualidade pudesse ser notada. Um pedido de socorro.

Há um exercício no teatro em que os atores, sentados em uma roda, devem tentar chamar a atenção de quem está à sua esquerda. Vale qualquer ação: falar, gritar, chorar, puxar, levantar... Mas como cada um se vira à esquerda para realizar o seu próprio objetivo, o processo parece impossível. O selfie é assim. Escancara a nossa privacidade para demonstrar toda a nossa inabilidade de lidar com o público. É um exemplo, um ótimo exemplo, de um tempo em que todos querem falar e ninguém escutar, a maioria quer ser escritor, a minoria, leitor.

terça-feira, 5 de novembro de 2013

Eike, o homem que queríamos ser

No início do ano, antes de todo o derretimento, um jornalista do Wall Street Journal, amigo-de-amigo-de-amigo, veio conversar comigo sobre o que eu achava do Eike Batista. Melhor dizendo: ele queria saber por que as pessoas confiavam tanto nele. Fui pego completamente de surpresa, nunca tinha pensado nisso. Além disso, sou um completo ignorante no assunto economia, aquele que passa pelos cadernos lendo apenas as amenidades, e fugindo de qualquer assunto mais economês. Mas me veio uma resposta à ponta da língua e a deixei escapar: por causa da Luma.

Luma mostrou a quem pertencia em 1998, na Sapucaí
Assim que eu disse isso, uma história inteira se apresentou à minha cabeça, com início, meio e fim. Não sabia se fazia sentido na vida real, mas ela tinha uma lógica que praticamente me convenceu. Eike era o homem que nós brasileiros queríamos ser, e com quem as brasileiras queriam casar. Ele espelhava todas as nossas ambições, todos os nossos devaneios, nossas fantasias, anseios, desejos. É um homem bonito, que tinha enriquecido, segundo ele, às custas do próprio suor, um verdadeiro self-made-man brasileiro, e que, diferente do Lula, outro que se fez sozinho, fala até alemão - e com o cachorro. Lembre-se dos nomes dos filhos. Não poderiam ser Peri ou Macunaíma. Jamais. Era um deslumbre.

E Luma é um dos seus maiores símbolos. Durante anos, do fim dos anos 1980 até meio dos 2000, foi considerada a mulher mais desejada do Brasil. A rainha de bateria pelo qual as escolas duelariam, que os fotógrafos se matavam para pegar um ângulo mais inusitado. Qual não foi o impacto na psiquê coletiva quando ela, no auge de sua popularidade, apareceu de coleira com o nome de um razoável desconhecido chamado Eike? É alemão? Como se pronuncia isso? Áique? Na época, era mais fácil: ele se apresentava como "o marido de Luma de Oliveira". Para os brasileiros foi um recado claro: se ele conseguiu conquistar Luma, nada lhe é impossível. Muito deslumbre.

Claro que também ajudou a Eike o fato de ele ser filho de Eliezer Batista, o cara que foi o presidente da Vale em duas oportunidades, o que, para os brasileiros, dá uma outra garantia de ele não ser esse tipo de aventureiro que pede o nosso dinheiro e depois some. Tinha pedigree. É alguém que vai pedir "com licença", antes de sair. Ou seja, ele era um self-made-man, mas sem vandalismo. Nunca fora pobre. Tudo deslumbrante.

O implante do cabelo também deve ter pesado na sua imagem

Mas em todo conto de fadas há o momento em que o príncipe deve decidir entre si e um objetivo maior. É nessa hora que se percebe qual é a nacionalidade da história a se contar. Daí, a grande queda de Eike não teria começado nas bolsas, mas quando essa imagem de homem que todos nós queremos ser / ter (lembre-se de como os políticos, de Lula e Dilma, passando por Cabral até Paes, enchiam desavergonhadamente a sua bola!) ruiu. E, dentro dessa história da carochinha, esse marco também é claro: quando o filho atropela e mata um homem ao voltar de uma festa. Não adianta colocar a culpa na vítima, que estava bêbado, atravessando uma pista de alta velocidade fora da passarela. Thor estava acima da velocidade. É batom na coleira.

Para continuar com a confiança dos brasileiros, cabia ao homem mais rico do país, naquela hora, agir como um empresário, mas do tipo anglo-saxão, ético, distante, frio, progressista, que pensa no business acima de tudo - o que nos faz, nós, brasileiros, salivarmos de inveja. Mas ele desatinou. Se portou como um reles brasileiro pai de família, que tentou de todas as formas acobertar o crime e proteger o filho. A família é mais importante que a vida de outra pessoa? A família é mais importante que tudo? É isso, então? Se até podemos entender - e lá no íntimo aceitar - essa atitude pessoal de Áike, perdemos a confiança no empresário Eike.

Sua imagem de homem perfeito, que queremos ser quando crescer, um exemplo para o país, ficou indelevelmente manchada. Os brasileiros achamos que ele era mais um, que apenas teve mais sorte que os demais. Um rei do camarote que conseguiu enlaçar Luma, e sabia vender bem seux produtox. Não merecia nosso dinheiro.

Agora, como em um prólogo, há uma catarse coletiva entre os brasileiros, como se quisessem tripudiar do homem que os tentou enganar durante tanto tempo. Como se houvesse um alívio, misturado com raiva, porque ele prometeu que era possível ser brasileiro e rico, ao mesmo tempo, e quando não conseguiu concluir essa promessa, acabou com as esperanças de quem confiava nele para também enriquecer. Junto a isso, porém, ele também demonstrou que ninguém é completamente incapaz por não conseguir enriquecer. Até o homem que pegou a Luma não consegue ficar rico por muito tempo. Deve ser problema da peruca.

sexta-feira, 12 de abril de 2013

O inferno são os outros

Não sei se a moda é atual, mas a cada notícia nacional de maior vulto, corremos para a internet para saber como os outros países estão vendo isso. Talvez seja um fruto das facilidades de comunicação. Agora, podemos ver na hora que saiu as reportagens em veículos de mídia famosos internacionalmente. [Agora, aliás, todo mundo lê o "Guardian". Todo mundo tem uma revista de música preferida. Todo mundo conhece os principais jornais dos países de maior destaque...] Talvez sempre tivemos essa vontade de ver como nos olham para saber como nos comportar. Talvez ainda não temos um caminho razoavelmente delimitado e vamos nos espelhando nos outros. Talvez.

Nada contra olhar para fora, nem mesmo se inspirar em práticas que podem funcionar aqui. O isolamento é um sentimento de onipotência que não merece ser incentivado. E a autossuficiência é uma miragem. O problema acontece de duas formas: quando nos apequenamos, e quando só vemos o problema pelos olhos dos outros.

O primeiro caso é mais simples de entender. Basta pensar que, se há brasilianistas em todos os países ricos, raramente encontramos um "norte-americanista" ou um "alemanista". Claro que essas figuras existem, mas eles não são reconhecidos do lado de lá, nos outros países, como autoridades, como pessoas que entendem das nações abordadas - salvo as raras exceções, como é o caso, por exemplo, da Cleonice Berardinelli, especialista, no caso, em Fernando Pessoa.

Não há reciprocidade. Há uma relação de objetivação, ou seja, de diminuição, por parte dos países ricos em relação a nós - mesmo que não seja o caso a caso -, e, do nosso lado, uma relação de idolatria, de transformar o outro num ideal fantasioso, inexistente.

O segundo caso é mais complicado. Seja pelo lado de mais sutil, seja porque é mais danoso. O melhor exemplo foi a reportagem do "Globo" sobre como o estupro da turista americana no Brasil manchava a imagem do país no exterior. Com esse tipo de reportagem, eu quase penso: ainda bem que mancha. Porque, qual seria a opção? Passarmos incólumes? Ou, o absurdo, ao olharem para esse tipo de assunto, nem se importarem com isso?

Mas o ponto aqui é outro. Por que esse caso - e qualquer outro - deve ser visto sob a ótica internacional? Por que temos que recorrer ao outro para dizer o que somos e como devemos nos comportar? Não somos capazes de dizer o que é bom ou ruim, para nós mesmos? Temos que nos utilizar das réguas dos outros?

Parecemos, com esse tipo de atitude, o filho pequeno que, ao cometer um erro, fica com medo não do erro em si, às vezes nem o percebe, mas da repreensão que vai levar dos pais. Ou o sujeito sem muita segurança com sua identidade que se baseia, única e exclusivamente, na opinião dos outros para formular os seus modos de viver.

Quando vamos ganhar a segurança da maturidade e andar com as nossas pernas?

sexta-feira, 8 de março de 2013

Sobrevivência, o vazio e vivência

[O que se verá a seguir não é nenhuma novidade para a humanidade.]

Isle of Skye, Scotland
O ser humano [ou deveríamos chamá-lo de Dasein, como Heidegger?] tem necessidades próprias, obrigações, situações que não podem ser contornadas de jeito algum [com a exceção de relatos, nem sempre confiáveis, de personagens extremistas, como faquires, sadus, monges etc.]. Alimentação, por exemplo. Sem comer ou beber morremos. E, como já vimos, há algo que nos empurra à frente, que nos faz viver. Por isso, sugiro, a fome dói tanto. Porque é essa força, em seu estado mais puro, gritando, exigindo que seja atendida.  A isso eu chamo de sobrevivência.

Mas e quando a sobrevivência é suprida, quando temos tudo o que precisamos para viver? Não estou falando de uma questão hipotética, antiga, que existe apenas no mundo controlado da memória, mas atual: quando temos uma vida razoavelmente construída, não temos grandes dramas, nossas necessidades são atendidas e ainda sobra um dinheirinho no fim do mês para tomar uma cerveja com os amigos? A sobrevivência, essa nossa necessidade, essa nossa única e verdadeira obrigação, não é mais uma preocupação, o que acontece?

Encontramos um buraco. Uma falta de noção, de sentido, de caminho claro para ser seguido. Um "e agora?". Um "para onde ir?" O que devemos fazer? A essas perguntas eu chamo de vazio.

Esse é um processo comum, que provavelmente atinge a todos que já passaram da situação de "sobrevivência". Talvez nem todos percebam. Talvez o processo de muitos seja apenas continuar, sem qualquer reflexão. Nesse caso, seguem os passos já estabelecidos pela tradição, pelas relações de família, por um senso comum enviesado pelo ângulo de quem vê. E continuam, repetindo os erros e os acertos anteriores, sem mudar o traçado, sendo um eco de palavras anteriores.

Mas há os que param, respiram, e percebem à sua frente o nada, o "absurdo", a falta de um motivo pelo qual se deve continuar a sobreviver. [São poucos ou muitos? Não sei.]

Estes começam a se perguntar: devemos seguir um cotidiano pendular, de idas e vindas do trabalho? Construir uma família parecida com as de comercial de margarina? Entrar numa seita religiosa e deixar nosso destino nas mãos de outrem, para que não precisemos nos preocupar em decidir nada? Devemos nos engatar numa luta pela melhora das condições de vida no mundo? Salvar os pandas? Ganhar mais dinheiro para poder ganhar mais dinheiro? Pegar todas as mulheres do mundo? Estudar em todos os tempos livres para ser o mais culto? Inventar um hobby? Torcer por um time de futebol? Virar um cinéfilo? Plantar uma árvore?

Alguns capitulam. Fazem o mais fácil. Chegam a esse processo e resolvem retroceder. Mesmo que tenham encarado o vazio, voltam e optam por um caminho já traçado. Escolhem não escolher. Deixam suas decisões na mão de um outro, seja pai, mãe, chefe, pastor, padre, presidente, técnico. [São poucos ou muitos, estes? Novamente, não sei.]

Nesse momento, essas atitudes além-da-sobrevivência se tornam, igualmente, parte da sobrevivência. Como se, sem elas, estes homens e mulheres não conseguissem seguir adiante. Como se trocassem suas vidas pelo pouco de prazer que essas atitudes fornecem. Usam essas atividades como produtoras de prazer, serotonina, como um droga, para aguentar o resto da vida. São, normalmente, tristes. Profundamente tristes [no sentido de serem, apesar de aparentemente felizes, lá no fundo, tristes].

E há os que escolhem, que optam, que têm a coragem para seguir com o que querem e tem vontade -  e aguentam as consequências de seus atos. Obedecem o impulso que, parecido com o de sobrevivência, existe e joga para frente. [São muitos ou poucos? Duvido que sejam muitos. São melhores ou piores? São apenas diferentes.] Podem escolher qualquer um dos caminhos que eu citei, mas escolhem ativamente, sabendo o que estão fazendo, não como defesa, passiva, para o mundo. Entram de cabeça, mergulham, tem orgulho dos próprios defeitos, dos erros que porventura vierem a cometer. Porque sabem que estão fazendo o melhor que pode. A estes, eu considero que saíram da categoria de sobrevivência e entram na que eu chamo de vivência. Supervivem.

quarta-feira, 6 de março de 2013

¿Por qué no te callás?

Ainda bem que temos humor na internet - onde iríamos parar
sem isso? [Foto roubada do FB de Claudia Croitor]
Fiquei assombrado - a palavra é assombrado - com as reações à morte do presidente venezuelano Hugo Chávez. Todas eram de grande alívio, travestido de revolta, ou de um pesar imenso, como se um líder de nossos tempos tivesse morrido. Todas eram excessivamente emotivas, fossem raivosas ou tristes. Um amigo posta que um câncer levou o outro. Outro mostra uma imagem em que o presidente entra num livro cuja capa está escrito "História". Nada razoável, nada comedido, nada centrado. As piadas, tão comuns nesses casos de mortes entre os humoristas de plantão das redes sociais, se resumiram a uma ou outra referência à série "Cháves", do Roberto Bolaños - portanto, o ator, não o escritor.
Sentiam o mesmo que, em outras plagas, sentem em relação a Evo Morales, a Lula. Um sentimento que está quase aquém, ou além da ideologia, da política -quando entendidas, tais expressões, no seu sentido apenas usual, pedestre. Asco, nojo, porque um sentimento que nasce da rejeição étnica, antes de tudo. Uma questão de pele.
Comenta Bob Fernandes, que diz tê-lo entrevistado várias vezes, sobre os inimigos de Chávez, em comparação com outros líderes, em um texto exatamente sobre esses extremos de emoções..

Para mim foi curioso - e assustador. Principalmente porque eu não tenho qualquer opinião sobre a Venezuela mais concreta. Nenhuma informação mais profunda, que fuja do fla x flu. Conheci, uma vez, um casal venezuelano. Ela, jornalista, ele, engenheiro, mas que queria fazer cinema. Ela, ferrenhamente contra Chávez. Ele, apaixonadamente a favor do líder da revolução bolivariana. Ela, reclamando do aumento de preços, do sumiço de produtos básicos, da extrema violência de Caracas [o Rio parece um lugar paradisíaco se compararmos os relatos]; ele falando sobre a distribuição de renda, a preocupação com as classes mais pobres, com a aceitação popular ao governo, o movimento nacionalista. Ela, representando a classe média. Ele, a mais baixa. Não me surpreendeu quando soube - por uma dessas coincidências incríveis: ela estudou com amigos na Espanha! - que não são mais um casal. Representavam esse desnível de comunicação, os polos extremistas.

Tentei ver ontem sites de jornais venezuelanos. "El Universal" saiu do ar [parece que não fui o único]. "El Nacional" se posicionou entre os revoltados. Não me pareceram, assim, bastante isentos de emoções fortes também. Também pudera. Uma das grandes acusações que chega para nós, aqui do outro lado da América do Sul, é exatamente a luta contra a imprensa. O curioso é que conseguimos ver essa imprensa ainda aqui.

Comentei isso ontem, em voz alta, e recebi de volta que Chávez era um homem a que não se podia ficar indiferente. Fiquei me sentindo um estranho no ninho.

Claro que esse debate público durou até a chuva cair no Rio. Aí, novamente voltamos nossas energias e emoções a outra efeméride. E hoje, com a morte de outro ícone de nossos tempos, vamos ter assunto para mais um dia. E assim vamos em frente.

sábado, 23 de fevereiro de 2013

Estupideza econômica

"É a economia, estúpido". Foi assim que um assessor do Clinton respondeu a uma pergunta sobre como o seu chefe havia sido eleito, mesmo tendo como adversário um Bush pai com uma boa aprovação do seu governo, que tentava a reeleição. Apesar de os norte-americanos terem apoiado a sua invasão ao Iraque [estou falando da primeira vez, e do primeiro Bush], a economia dos EUA não ia assim tão bem. Essa frase me veio à cabeça por conta de dois momentos históricos razoavelmente parecidos cuja resposta pode ser a mesma.

Uma das melhores argumentações do motivo pelo qual os ânimos se arrefeceram contra a ditadura brasileira de 1964 foi exatamente o sempre citado milagre econômico. Quando o golpe acontece, há um movimento razoavelmente forte de oposição à ditadura - considerando todos os pesares -, que vai diminuindo de intensidade por vários motivos, sendo uma das principais a crescente e cada vez mais violenta repressão, com tortura, mortes, desaparecimentos. Mas não foi a única razão.

Na virada para os 1970s, com os grupos de oposição acéfalos, encurralados e sem perspectivas, houve ainda esse crescimento brasileiro. Mesmo que não fosse algo compartilhado por toda a população diretamente, como é lembrado pela frase do bolo que só no futuro se repartiria, houve um aumento de poder aquisitivo por parte dessa classe cada vez mais amorfa chamada "média". Como ouvi de um guerrilheiro: perdemos a nossa fonte de recrutamento.

Liu Xiaobo, na página do Nobel
O jovem universitário tinha que colocar em um dos pratos da balança a possibilidade de lutar por liberdade, um país mais justo, ou mesmo a revolução comunista - que seja -, mas com risco para a própria vida; ou simplesmente seguir uma existência comum, e quadrada, com um emprego e uma família para sustentar. Não tenho dúvidas qual prato ficou mais pesado.

Hoje, em uma reportagem no "Prosa" sobre o lançamento [no ano passado] do livro do Nobel da paz de 2010, Liu Xiaobo, lemos que ele reclama exatamente dessa "geração nascida após a abertura econômica, a quem considera negligente, 'amaciada pelo bem-estar e pelo pragmatismo' e 'uma geração cuja lembrança é totalmente vazia'". Parece ter encontrado o mesmo problema lá na China.

Não imagino que todas as decisões humanas sejam tomadas de acordo com a economia, em detrimento da ideologia. Mas suspeito que as pessoas prezam o bem estar pessoal sobre o sentimento coletivo de liberdade. A liberdade, ou o sentimento de estar fazendo algo certo, é algo intangível. O carro do ano, ou o último gadget - ou simplesmente ter comida no prato, perguntem aos cubanos - não é.

sábado, 22 de dezembro de 2012

Como nascem os gostos

Tive uma epifania nessa semana. Consegui responder a uma pergunta que me fazia há muito: como nascem os nossos gostos? Ou melhor, por que somos tão influenciados, principalmente na tradição psicanalítica, pela ideia de que os nossos primeiros anos moldam bastante nossas personalidade? Isso, claro, já partindo da premissa - ou seja, já respondendo a questionamentos anteriores, afirmando claramente um caminho - de que somos feitos de uma matéria bastante moldável ao nascermos. Considerando isso, por que somos mais influenciados nesse primeiro momento de vida que em todos os demais?

Antes de continuar, a contextualização. Uma das grandes vantagens da arte urbana, essa que não fica restrita ao interior de museus, e que pode ser vista ao andarmos pelas ruas, é exatamente a possibilidade de revisita. Em alguns casos, passamos todos os dias pelos mesmos monumentos. Eu tenho o privilégio, por exemplo, de ver uma obra que desde a primeira vez que a descobri, gostei.

Foto de Laura Marques, d'"O Globo".
É a peça singelamente batizada de "Escultura para o Rio de Janeiro", de Waltercio de Caldas, criada em 1997. Acho incrível esses pilares puxando a calçada para o alto, para o céu, como se fossem algo orgânico, como se tivessem vida, como se a cidade, a parte mais física da cidade, mais pedra, mais terra, mais solo, se movesse por vontade própria.

Nem sempre, claro, foi assim, desse jeito, de passar por uma obra que eu gostasse à primeira vista. O que não é bom nem ruim em princípio. Talvez se não tivesse passado por outra experiência, diferente dessa, nunca teria chegado à conclusão de como nascem os nossos gostos. Em um dos meus outros trabalhos anteriores, tinha que passar diariamente em frente ao muro do jóquei em frente ao Hospital da Lagoa.


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Aqui dá para ter uma ideia do que eu via diariamente.

É uma tela urbana - digamos assim - bem dinâmica. Que muda todos os dias, praticamente. Que tem sempre elementos novos, mesmo que sem a ação do homem. Pode chover, aparecer uma infiltração. Pode alguém novo aparecer e pintar por cima dos antigos. Pode a prefeitura "limpar" a tela. As variáveis são muitas. Mas, como passava diariamente por ela, eu acompanhava essas transformações lentas, como todas as da natureza. No início, um pouco sem um diálogo. Apenas via aquelas imagens e elas não faziam sentido para mim. Depois, com o tempo, relaxando, sem querer entender o sentido delas, eu comecei a me encantar pelo todo. E novamente tive essa sensação de que o muro era vivo, mutante, influenciado por diversos organismos que o faziam diferente a cada olhada. Sem perceber, na hora que baixei a guarda da minha razão que tentava explicar os seus detalhes em separado, comecei a gostar do muro também.

Foi assim que, agora, eu, que hoje em dia vejo um grafite pouco realista na escada do Botafogo, sem prestar muita atenção para ela, comecei a sentir uma simpatia gratuita por aqueles traços que reproduzem esportistas das mais variadas atividades, tive esse insight.

As crianças são influenciadas pelos pais nos seus primeiros anos exatamente porque elas não têm esse raciocínio, essa elaboração, para refletir sobre as informações que lhes são dadas. Elas recebem toda a carga do mundo emotivamente, sem qualquer trava, sem qualquer defesa, vão absorvendo tudo, aprendendo, e apreendendo sem qualquer filtro, direto, na veia, dentro de um desses espaços que recentemente descobrimos e apelidamos em nosso cérebro.

Depois, com o passar do tempo, criamos algumas barreiras, formas de nos defender dessa inundação, dessa enchente de dados novos, para podermos, inclusive, ter noções de tempo, espaço, aprender recursos cognitivos, criar mecanismos racionais etc. É um processo lento e que provavelmente demora muito para se acabar - se acabar.

Não sei se a minha resposta é factível, nem se é a verdade. Mas é uma resposta que me convence. Isso é mais que suficiente.

terça-feira, 11 de dezembro de 2012

A bossa nova é foda

Talvez tenha sido apenas coincidência. Na mesma semana que iriam morrer Niemeyer e Décio Pignatari, eu ouvi o novo disco do Caetano, "Abraçaço", que começa exatamente com "A bossa nova é foda". Para terminar a semana, vi a exposição fixa do MAM-Rio que usa o famoso acervo de Gilberto Chateubriand para fazer uma impressionante "genealogia do contemporâneo". O que me chamou mais a atenção? A área de "Respirações Geométricas - O legado concreto e neoconcreto na afirmação de uma modernidade singular no Brasil". Não deve ser coincidência.


O segundo momento do Brasil como um país democrático acontece pós-Vargas. Para mim, o período de produção artística e cultural que até hoje norteia bastante de nossa vida. Até hoje, nossos parâmetros estéticos ainda são a Bossa Nova [depois Tropicalismo], o concretismo e o neo-concretismo [poesia, artes plásticas], em suas áreas respectivas. Era, como bem escreve Luiz Camillo Osório, a "afirmação de uma modernidade singular no Brasil", uma tentativa de se fazer uma "modernidade" à brasileira. É, após descobrirmos do que éramos e estávamos sendo feitos, tentar produzir algo inédito, que nos afirmaria como únicos, nos identificaria, e - por consequência, mas não como objetivo inicial - afetaria o mundo inteiro. Foi assim, em menor ou maior grau, com todos esses processos.

O que é curioso nessa seção "geométrica" do MAM-Rio é ver como as produções foram se - na falta de uma palavra melhor - abrasileirando. Como no início elas são muito duras, retas, linhas diretas, e vão se transformando em curvas, molezas, levezas. Ou, para forçar uma barra e usar o exemplo dos mortos da semana, saindo de Pignatari e indo para Niemeyer. Daí, por exemplo, as trocentas frases que se resgataram essa semana em que o arquiteto reforça a sua adoração pelas curvas em detrimento dos ângulos retos.

Se o modernismo foi o tempo histórico em que as representações entraram em crise - pense em todos os movimentos internacionais em que o "realismo" tinha saído de moda, desde o início do século XIX até as vanguardas do XX -, coube a essa geração de 1950-60, então, a tentativa de produzir a nossa - brasileira - primeira arte abstrata, portanto "moderna".

Num primeiro momento, cada um se inspirando em uma fonte diferente, me parece que eles tentam forçar o que na falta de palavra melhor vou chamar de "durezas" exteriores. Depois, "amolecem". Claro que nenhuma das fases é clara, nem os seus "seguidores" - é uma impressão minha e uma imprecisão geral. E é complicado colocar artistas tão versáteis em grupos estáticos. Pegue o exemplo de Volpi, por exemplo, que tenta abrasileirar os seus desenhos geométricos em bandeirinhas. Como se fosse impossível ser exatamente reto no Brasil. Como se o sol, o céu, o sal amolecessem nossas vidas.

No fim de "A bossa nova é foda", Caetano resume o espírito ao cantar: "O velho transformou o mito das raças tristes / Em Minotauros, Junior Cigano, / em José Aldo, Lyoto Machida, / Vítor Belfort, Anderson Silva / e a coisa toda: / a bossa nova é foda". Não é claro, ao menos para mim, quem é o "velho". Tenho duas interpretações. A primeira, por conta do título da música e da idolatria de Caetano, seria João Gilberto. "O mito das raças tristes" me lembrou Lévi-Strauss, mas também e principalmente o complexo de vira-lata, desenvolvido por Nelson Rodrigues, que, por acaso, é até hoje chamado de "velho" pelo seu filho Nelsinho. Esse personagem híbrido, meio Nelson, meio João, que não precisa nem seria bom ser identificado, teria conseguido transformar nossa raça de tristes em guerreiros, orgulhosos de sua força.

Talvez no futuro vejamos esse nosso terceiro momento democrático, que vai de Itamar e FHC até Lula e Dilma [até agora] como um novo renascimento. Com a retomada no cinema, o aparecimento de um tímido, porém constante mercado editorial, de novas formas de produção musical, novos nomes nas artes plásticas, etc. Tudo fruto de uma liberdade maior, de políticas públicas de incentivo, de um crescimento econômico, de uma maior preocupação com a produção artística como elemento identitário, etc. Mas precisamos de, ainda, algumas gerações para poder enxergar bem esse processo. No fim, fico imaginando que não deve ser uma coincidência o fato desses movimentos aparecerem com a democracia.

quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

A batata quente e a terceirização da culpa

Lembro do dia em que morreu Renato Russo e o "Programa livre", então comandado por Serginho Groisman, reprisou a última gravação com a Legião Urbana. Era um programa recente, já pós-disco "O descobrimento do Brasil", que terminou com "Perfeição" enquanto subiam os créditos. Não acompanhei nem Renato nem a sua banda, mas ali em cima do palco ele não era mais um punk que perguntava que país era o nosso ou que reclamava da maneira como tratávamos os nossos índios. Era um sujeito melancólico, que tentou evitar cantar "Pais e filhos" porque lembrava aos presentes: era uma música sobre um suicídio. Como a plateia ignorou esse argumento - e, talvez, também o teor da música - ele teve que cantá-la.

A internet não é uma maravilha?

Mas o que ficou na minha cabeça mais claramente foi quando Renato confirmou a sua mudança de garoto enxaqueca para o homem que apenas não queria passar a batata quente para os outros. Ele até deu um exemplo: Você entra no ônibus e dá bom dia para a trocadora que, nervosa porque, sei lá, o marido brigou com ela, nem responde. Aí, a partir daquele momento, você também está de mau humor. E quando encontrar alguém, também pode contaminar outra pessoa. Ele dizia como esse comportamento era contagioso e nocivo e como ele não queria mais fazer parte disso. Talvez estivesse sendo otimista. Talvez estivesse prevendo sua morte em breve.

De toda forma, esse processo de tentar dividir com o próximo o seu problema, acontece tanto pelo lado das consequências - como o mau humor, a grosseria, as brigas desnecessárias - como das causas. Pegando o mesmo exemplo do ônibus, podemos ver como isso acontece.

Você vai pegar o ônibus com a trocadora mal humorada, mas ele não parou no ponto. Na verdade, você teve que sair correndo, e pegá-lo na segunda pista, ou seja, além de cometer uma infração, atrapalhou ainda mais o trânsito e quase foi atropelado, além de ter sido xingado pelo motorista do veículo que trafegava na pista do canto - geralmente um carro, que entrou ali para fugir do engarrafamento, e aproveitou para pegar um vácuo deixado pelos outros ônibus. Com o erro de cálculo, ele começa a xingar você, que está naquele momento específico atrapalhando o passar dele, como se você fosse o único culpado de todo o nó do trânsito.

O motorista parou o ônibus lá na segunda pista porque tinha uma fila - nada indiana, totalmente torta - de carros. Em número muito maior, provavelmente, que o necessário, caso a situação viária da cidade fosse planejada. Ele também parou lá longe porque tem um horário a cumprir, a chegar no ponto-final, já que o fiscal vai cobrá-lo, descontar do fim do mês, tirar aquela bonificação que pagaria a camisa do time oficial, caso se atrase. Mas, além disso, além de ter que cumprir horário, o motorista deve atingir uma cota de passageiros, uma meta por cada viagem, independente de gratuidades em geral - daí, ele evita velhinhos, por exemplo.

Isso porque o sistema de transporte é tratado como um sistema que tem que dar lucro - quando, na verdade, ele pode até dar lucro, mas deve, em primeiro lugar, servir ao público. E o sistema é assim porque a máquina pública não quer / não tem força política para mudar a forma de concessão, que já existe desde que o mundo é mundo. E não tem força política porque os empresários fazem lobby de todas as maneiras para que nada mude o que é, agora, desse jeito, completamente desigual para quem realmente precisa do transporte público.

Por outro lado, a trocadora está de mau humor porque está trabalhando mais do que aguenta. No calor. Ganhando pouco. E com um motorista que ela acha um chato e que não respeita os velhinhos. Isso tudo ela poderia engolir, porque tem que ter um emprego para sustentar as cinco bocas que tem em casa, frutos de três relacionamentos diferentes. O atual é um sujeito que só faz bicos - se fosse rico, seria freela, mas é pobre... -, de ajudante de obras, flanelinha, o que pintar. Mas ele bebe. Muito. Se sente degradado por conta disso, por não ter um emprego decente, por, na sua cabeça ainda essencialmente machista, ser sustentando pela mulher. Assim, reclama com ela, dia e noite, num eterno mimimi de autoflagelação e de como o mundo é injusto com ele.

Ou, com outro exemplo, igualmente triste, que Gil Castello Branco mostra em um artigo desta terça n'"O Globo", "As masmorras brasileiras":
Atualmente temos 514 mil presos, a quarta maior população carcerária do mundo. [...] No entanto, a capacidade máxima das 1.312 unidades prisionais brasileiras é de apenas 306 mil detentos, o que gera déficit de 208 mil vagas. Como cada vaga criada custa cerca de R$ 20 mil, o rombo é de R$ 4,2 bilhões. Essa situação seria atenuada caso o Judiciário fosse mais ágil, visto que 37% dos detentos são presos provisórios, com processos não julgados. Por outro lado, imaginem se fossem executados os 500 mil mandados de prisão expedidos e não cumpridos...
Além disso:
A manutenção dos presídios brasileiros — verdadeiras filiais do inferno — não é barata. Como 82% dos presos não trabalham, o ócio é subsidiado. O custo médio mensal para a manutenção de um preso em presídio comum é de R$ 1.500, chegando a R$ 4.500 em penitenciária de segurança máxima.
A culpa, como se vê, nunca é nossa. Como diria Sartre, o inferno sempre são os outros. Terceirizamos a nossa responsabilidade, acredito, até porque precisamos, por uma questão de sobrevivência. Como sugere o ditado, de que a corda sempre arrebenta no lado mais fraco, todo mundo que se sente fragilizado por alguma situação qualquer, faz de tudo para não segurar nesse cabo-de-guerra na hora da verdade. É justo, pessoalmente justo.

A sugestão é tentar não passar essa batata quente para o outro, o próximo, aquele do lado que não tem nada a ver com você. Não é evitar dividir os problemas que porventura aparecerem com os entes queridos, mas tentar não divulgar o mau humor de maneira generalizada. Na prática, isso é bem complicado, óbvio. Como, na hora do vamovê, você vai conseguir pensar com clareza se aquela pessoa com quem você está falando é ou não é a culpada do fato de você ter que fazer o que você está fazendo o mais rápido possível e sem erros? É difícil. Talvez, porém, ter isso em mente, em algum momento, seja o suficiente para já mudar, aos poucos a própria percepção da realidade. É apenas uma sugestão.

domingo, 2 de dezembro de 2012

Lula e Rosemary: o escândalo moral

Até o momento, eu não estou entendendo muito bem esse escândalo envolvendo a ex-assessora da presidência da República Rosemary Noronha. Não que eu entenda bem alguma crise política brasileira, mas esse em específico está me deixando inquieto.

Dona Rosemary, aparentemente, teria praticado tráfico de influência, o que, se comprovado, deve ser julgado com bastante rigor, sem dúvida. Mas até o momento eu ainda não encontrei o que exatamente ela ganhava ao participar desse esquema. Porque não consigo imaginar que ela fez todas essas indicações para cargos de confiança - mesmo que os candidatos às vagas tivessem experiência para concorrer aos postos - para que uma empresa de sua família ganhasse uma licitação pública.

Em alguns casos, esse escândalo chega a ser meio bobo, ou uma sucessão de piscadelas para o público, quando traduz em uma troca de emails "PR" por "Presidência da República", mas evita qualquer referência de "JD" a "José Dirceu".

Ela nega qualquer envolvimento em crime e diz que nunca fez "nada ilegal, imoral ou irregular", e eu acrescento, à Roberto Carlos, que engordasse, "que tenha favorecido o ex-ministro José Dirceu ou o ex-presidente Lula".


Eis que aparece, ontem, pela primeira vez o talvez motivo de todas essas denúncias. Em uma outra dessas reportagens - não assinada! - com piscadela de olho para o leitor, sem dizer tudo, apenas com insinuações, há a informação de que Lula e Rosemary eram amantes.

:-O

"Marisa Letícia, a mulher do ex-presidente, jamais escondeu que não gostava da assessora do marido", diz um trecho da reportagem. "Quando a então primeira-dama Marisa Letícia não acompanhava o marido nas viagens internacionais, Rose integrava a comitiva oficial", diz outro, "Rose acompanhou o ex-presidente em algumas internações durante o período em que este se recuperava do tratamento de um câncer no Sírio-Libanês, em São Paulo. Mas só pisava no hospital quando Marisa Letícia não estava por perto", está escrito em um terceiro momento.

As referências levam a crer que Rosemary tinha uma grande, digamos, intimidade de Lula, portanto conseguiria favores especiais do então "PR" para fazer as tais nomeações a que ela está sendo acusada. Novamente, se for comprovado, o caso deve ser julgado exemplarmente. Mas, eu ainda caio no raciocínio, agora com mais força: por que ela fez isso? Por que ela teria participado desse esquema de tráfico de influência? O que ela ganha com isso? E, principalmente, se ela já era amante do "PR", o que mais ela iria ganhar?

Nesse momento, só penso - e eu quero estar enganado - que o caso é nada mais que um escândalo moral. Foi a desculpa para desmascarar o, de acordo com a opinião mais tradicional, casamento bonito e feliz de Lula e dona Marisa. Foi uma maneira de atingir Lula, principalmente no eleitorado mais conservador, que não aceita - em tese - a traição. Foi uma forma de falar mal, fazer fofoca do ex-presidente para as mulheres, que vão certamente se colocar no papel da ex-primeira-dama e crucificar Lula. Mas estamos realmente gastando tinta e papel por conta disso? Não seria melhor salvar as árvores?

Todavia, do jeito que Lula é o cara, pode acontecer ironicamente o contrário. Apesar dessas denúncias de infidelidade, o ex-presidente pode ser visto ainda mais como um humano, portanto frágil, capaz de errar, mas que teve a chance, agora, de dar a volta por cima. A ver.

Lembro, porém, que a última vez que se usou um escândalo moralista contra Lula deu certo. Foi em 1989, e  a denúncia partiu da campanha do então candidato Collor sobre o caso em que Lula abandonou a ex-namorada Miriam Cordeiro aos seis meses de gravidez, e ainda teria sugerido um aborto. Dizem que esse escândalo teria abalado Lula e tirado os votos de um eleitor mais conservador. Era 1989, apenas quatro anos depois do fim da ditadura. Lula, na época da eleição, justificou essa ação por causa do amor: teria se apaixonado por outra mulher e não tinha resistido. Deve ser importante dizer, agora, que a outra mulher era Marisa Letícia.

quarta-feira, 21 de novembro de 2012

A derradeira entrevista de Heidegger

Na entrevista que Martin Heidegger concedeu à revista "Der Spiegel" em 1966, dez anos, portanto, antes de sua morte, é possível destacar vários aspectos sobre a sua controversa vida e sua até hoje pouco decifrável obra.

Não, esse não é o Cony
O professor americano William J. Richardson, responsável tanto pela tradução para o inglês que eu li quanto por divulgar a obra do alemão nos EUA, sugere por exemplo que essa entrevista é uma espécie de testamento de Heidegger, em que ele se defende de várias acusações que são comumente associadas à sua biografia. Notada e principalmente, a sua ligação com o nazismo.

Também achei curioso, num período histórico [o atual] em que os jornais, e o jornalismo por associação, cai[em] em descrédito, o provável maior filósofo do século XX [na minha humilíssima opinião, claro] ter escolhido esse formato para deixar registrado as suas últimas vontades, e as suas derradeiras opiniões. Tudo bem que era a revista e alemã "Der Spiegel", ou seja, não foi o "Meia hora". Even though. Mas esse detalhe só aparece, provavelmente, para os jornalistas. Os demais mortais nem perceberiam - com bastante razão, eu acrescento timidamente.

Porém, há um aspecto que eu, do alto da minha quase ignorância, gostaria de colocar meus dois tostões sobre. Heidegger aparece em toda a entrevista um pouco contrariado, arredio. Apesar de não termos informações sobre o seu humor, nem uma introdução da própria revista [na versão que eu li, ao menos], é possível ver que há uma contradição constante entre o entrevistador e o filósofo. Como se Heidegger não quisesse, realmente, passar por esse interrogatório, mas engolisse o orgulho pensando em sua posteridade.

Isso se reflete, por exemplo, na sua quase má-vontade [talvez, apenas um comportamento exageradamente prático, o que é, na tradição, deveras germânico] em apontar um papel para a filosofia, demonstrando que ela está ultrapassada e que a cibernética ["Cybernetics"] a teria que / a deveria substituir. Talvez para demonstrar que a filosofia não poderia cair na vala comum tecno-científica das demais áreas do conhecimento em que há um fim claro para toda a sociedade. A filosofia, no olhar de Heidegger, estaria, assim, fora do seu tempo, já que não teria mais importância nem posição dentro dessa sociedade em que tudo converge para uma razão, mas não conseguiria sair de cena. Uma contradição bem interessante a meu ver.

Ele, entretanto, não se vê nem como pessimista - muito menos como otimista, aliás, chamando que ambos os posicionamentos "não iriam muito longe", no que eu só posso concordar, pensando que os dois raciocínios são auto-enganações, máscaras muito parecidas que colocamos para encarar o mundo real como ele é.

Depois de muito pressionado, Heidegger concede - mas pelo lado oposto. Em vez de dizer uma das possibilidades de aplicação da filosofia no mundo atual, ele generaliza [não sem um tom hiperbólico, que pode ser visto como humorado, mas o humor de um filósofo alemão] dizendo que essa inadequação se aplicaria não somente à filosofia mas a todos puros esforço e reflexão humanos ["all purely human reflection and endeavor", na tradução]. E, em seguida, ele solta a bomba que faria qualquer pós-Nietzscheano se arrepiar:
Apenas um deus pode nos salvar. A única possibilidade para nós é que, através do pensamento e da poetização nós preparemos uma prontidão [ou fiquemos prontos, ou nos preparemos, ou preparemos um esquema: "prepare a readiness", na tradução para o inglês] para o aparecimento de um deus, ou para a ausência de um deus em nosso declínio, enquanto à vista do deus ausente, estamos no estado de declínio.
Noves fora o fato de o próprio Heidegger não acreditar em traduções - de nenhum tipo, e ele fala isso também nessa entrevista -, Richardson tenta contextualizar algumas das expressões usadas nessa resposta. Diz Richardson:
"Pensamento" para Heidegger quer dizer mais que uma mera atividade intelectual. Envolve uma autêntica resposta do homem total à revelação do Ser [e esse "Ser", eu acrescento, seria o grande motivo heideggeriano]. Assim, é não-conceitual e não-representativo - uma total aceitação aberta ao Ser. Do mesmo modo, "poetizando" significa mais que o simples escrever "poesia" ou a "arte poética" no sentido mais ordinário. Quer dizer trazer a revelação do ser numa linguagem apropriada.
E, em outra nota, acrescenta:
Sob todas as probabilidades, Heidegger não usa a palavra "deus" aqui em nenhum sentido pessoal / personalista ["personal sense"], mas no sentido que ele dá à palavra [frequentemente na expressão "deus ou os deuses"] nas suas interpretações de [poeta alemão romântico] Hölderlin, i.e., como a concreta manifestação do Ser como o Sagrado.
Ou seja, o pós-Nietzscheano pode ficar um pouco mais tranquilo. Mas não muito. Porque ainda há a possibilidade de interpretação desse deus como uma espécie de substituição do Deus que já conhecemos. Mas me surgiu uma outra possibilidade, ligando a outro filósofo fora da curva da tradição metafísica: Spinoza. Principalmente após uma determinada passagem da mesma entrevista:
Nós não precisamos mesmo de bombas atômicas [para nos desenraizar] - o desenraizamento do homem já é uma realidade. Todas as nossas relações tornaram-se meramente técnicas. Não é mais sobre a terra que o homem vive hoje. [na tradução para o inglês: We do not need atomic bombs at all [to uproot us]— the uprooting of man is already here. All our relationships have become merely technical ones. It is no longer upon an earth that man lives today.]
Ou seja, como se o homem tivesse se deslocado, saído da terra. Terra, eu acrescentaria, poderia ser, na minha interpretação, um sinônimo para natureza, naquele velho e grego sentido de Physis, em que todas as coisas que existem fazem parte dela. Daí eu linkaria com Spinoza que, segundo meus parcos conhecimentos, dizia que deus era um dos nomes para a physis, já que ele seria tudo, a totalidade e nada estaria fora. E sustentaria essa hipótese com o fato de Heidegger ter buscado muito de sua filosofia revisitando os pré-socráticos, onde esse conceito de physis era bastante forte.

Portanto, seguindo essa linha de raciocínio, encontrar esse "deus" seria encontrar essa "natureza", essa "physis", que teríamos perdido em algum lugar, quando começamos a optar por esse mundo tecno-científico [em que cada vez mais vivemos], que estaria, pela primeira vez, fora da physis. Nesse momento, e já há algum tempo, teríamos perdido contato, estaríamos desenraizados, nas palavras de Heidegger. Não sei como isso poderia ser mais atual.

quarta-feira, 14 de novembro de 2012

Tática do Cabral

Todas as vezes que eu vejo o nosso excelentíssimo senhor governador, Sérgio Cabral, chamar os policiais de "débeis mentais", "assassinos" e "desastrados", entre outros epítetos carinhosos, tenho uma ânsia de concordar com ele: é isso mesmo! Um absurdo! Queimem a bruxa, queimem!

Geralmente nosso excelentíssimo governador se refere aos policiais com essas simpáticas alcunhas por conta de um crime absurdo cometido por eles. Morte de inocentes, geralmente crianças, por puro despreparo. Ou flagra de tráfico de drogas. Ou algo que gere uma imediata repercussão nas mídias. Ele vem a público e, como representante do próprio público, externa a voz e a fala que o público gostaria de ter. Claro, não passa de publicidade.

Depois de concordar com ele, já de pé, exaltado, dedo em riste, me pego no ato: mas, peraí, não é ele, Cabral, o chefe desses policiais? Não é ele, ao fim, o cara que manda e desmanda nas corporações policiais do estado? Não seria ele, ao longo de um cadeia de raciocínio, a se criticar por conta das atitudes completamente equivocadas desses policiais?

Ontem, foi a vez do digníssimo senhor ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, ter o seu dia de Cabral. Em uma palestra a empresários, ele afirmou que "se fosse para cumprir muitos anos na prisão, em alguns dos nossos presídios, eu preferiria morrer". Disse também que "temos um sistema prisional medieval, que não só desrespeita os direitos humanos como também não possibilita a reinserção."

Fiquei pensando: que bom que o ministro sabe das condições dos nossos presídios. Que bom que ele está reclamando. Que bom que... e novamente caí no: peraí, ele está reclamando para quem? Quem é o responsável pelas nossas prisões medievais? Quem é que pode mudar essa situação?

Lembro há muitos anos [link nesse caso é um luxo] de uma pergunta que deixou o então presidente Fernando Henrique Cardoso completamente fora de prumo: se ele viveria com um salário mínimo por mês. FH, revoltado, respondeu que o repórter estava sendo leviano, que não existia mais família que vivesse com essa renda, apenas, que há sempre mútua cooperação, etc. etc. etc. Mas não respondeu.

Desde então, eu gostaria que alguém fizesse como meta de vida perguntar aos políticos que porventura fosse entrevistar se eles se utilizam dos serviços públicos que eles dispõem para a sociedade. Se eles, quando doentes, vão para o hospital público. Se pegam o ônibus, trem ou metrô para ir trabalhar. Se já tentou chamar a guarda municipal pelo telefone central da prefeitura, sem se identificar.

Na pior das hipóteses, pode acontecer como o prefeito de Caxias, Zito, que vai responder cinicamente que, sim, se utiliza do serviço de limpeza urbana da cidade. O problema, nesse caso, será que você vai descobrir que só ele usa, enquanto o restante do município sofre com o lixo acumulado, e as suas consequências [mal cheiro, doenças, entupimento, enchentes, etc.].

Ao se colocar junto dos principais afetados, Cabral e qualquer outro político agem da maneira mais covarde que um político no cargo executivo pode agir. Retira-se do papel de responsável pelas ações para posar de completamente passivo, como se fosse igualmente uma vítima da situação. Na verdade é ele o principal causador da tragédia.

quinta-feira, 1 de novembro de 2012

O preenchimento do vazio de cada um - parte 2

Esse vazio não é exclusividade de quem usa crack - e é aí que eu quero chegar. Todos nós carregamos conosco essa falta de sentido, essa completa e irrestrita perdição. Esse não saber para onde se deve / tem que/ quer ir. Fala-se do fim das ideologias, pós-comunismo, mas a questão é anterior. O comunismo, de certa forma, veio só responder a um anseio antigo, milenar, de igualdade. Ou de um mundo melhor. Só que em vez de no reino dos céus, como prega a tradição ocidental cristã, a paz na terra entre os homens, de bem ou de mal. Ou seja, esse vazio que sempre existiu era antigamente preenchido pela Igreja.

Depois, como bem explica Nietzsche, os deuses foram substituindo o Deus, cristão, que estava em desuso, com sua fé em declínio. Os deuses se reproduziram. Agora, pode ser o deus do dinheiro, o deus da família perfeita-de-comercial-de-margarina, o deus da dominação, do poder; ou mesmo deuses mais "aceitáveis" para a sociedade, como o deus da democracia, o deus da justiça, o deus da igualdade. Todos esses "deuses" são ícones, são ideologias, ideais, que, às vezes, nos obrigamos a ter fé para poder acreditar que a vida tem um sentido. Para fazer o tempo passar. Para nos entreter. Para não sentir esse vazio dentro da gente.

A indústria da celebridade tem que se atualizar
A "arte", em todas as suas versões, da mais chinfrim até a mais sofisticada, da mais pueril a mais complexa, é apenas mais um desses deuses. E o que eu chamo aqui de "arte" é um conceito bem amplo. Pode ser encarado/chamado por outras pessoas por outros nomes, como cultura, indústria cultural, cultura de massa, e até, de certa forma, a comunicação de massa. Algo que cai na categoria do entretenimento puro. Revista/site de fofoca, por exemplo, estaria nessa categoria. Na maioria das vezes, esse segmento funciona como passatempo, como uma forma de consumir uma pílula de felicidade, que vai dar um calorzinho interno, vai fazer as agruras passarem. Vai descortinar o sofrimento nosso de cada dia e nos alegrar, por um tempo determinado. Quanto mais fugaz, quanto mais vazia, sem significado, oca, aliás, mais rapidamente temos que consumir outra. Como viciados, precisamos de mais uma dose para continuarmos nublados, para nos mantermos longe desse vácuo que carregamos dentro de nós. Daí, eu acho, o crescimento da indústria de celebridade.

Essa arte-entretenimento, a droga e a religião [quando não usada como objeto de poder], portanto, têm a mesma "função", a mesma "utilidade" na sociedade: preencher o espaço vazio. O problema, me parece, é que o vazio funciona como se fosse um buraco-negro, captando tudo o que é colocado nele, em volta dele, por perto. Há pessoas que conseguem viver a vida inteira sem nem perceber que ele existe, já que estão tão inseridos na roda-da-vida, que agem como autômatos, sem parar para pensar no que realmente querem, são, ou estão.

Os demais, tentamos preencher esse vazio, alimentar esse monstro com os elementos que temos à mão. Às vezes conseguimos, outras, fracassamos. Entre esses, ainda há os que preenchem esse vazio com esses deuses auto-impostos [casamento, emprego estável, dinheiro, filhos etc.], e então as doses devem aumentar, até que, provavelmente, perdem o efeito.

Outros, como os monges, os abstêmios, os ascetas, ainda tentam encarar esse vazio, olhar bem no fundo dele, e conviver com ele, sem alimentá-lo. Mas essa talvez seja uma liberdade tão ou mais dolorosa que a própria dependência.

Como se vê, não existe solução fácil. Talvez, sejamos todos esses personagens, horas um, horas outro. Nunca parados. Talvez.