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sexta-feira, 13 de setembro de 2013

A música e a vida estética para Nietzsche

O início da biografia escrita por Rüdiger Safranski sobre Nietzsche é arrebatador:
O verdadeiro mundo é a música. A música é o Inaudito [Ungeheuer]. Quando a ouvimos, pertencemos ao Ser. Assim Nietzsche a vivenciava. Era tudo para ele. Não deveria cessar nunca. Mas ela cessa, e por isso temos o problema de como continuar vivendo quando a música acaba.
O trecho define muito bem a ética de Nietzsche, talvez a única forma de pensar que Nietzsche nunca tenha mudado de posição tão radicalmente. Porque ética, para Nietzsche, sempre foi estética. Viver deveria ser produzir arte. Todo homem deveria ser artista, no sentido dionisíaco do termo. Não quer dizer todo homem deveria ser pintor, escritor ou músico, mas que deveria encarar a vida como uma tela em branco, onde se criaria, com toda a nossa potência.

Monstra Niliaca Parei, que aparece quando fazemos uma
pesquisa sobre Ungeheuer. Mais sobre ela aqui.
Isso demonstra, diferentemente de outros raciocínios, a importância, para Nietzsche, da arte - especialmente, da música e produções correlacionadas. Durante muito tempo, ele, inclusive, a viu metafisicamente, como uma forma de substituto do próprio Deus. Mas o que fica, o que permanece em toda a trajetória de pensamento de Nietzsche, é esse caráter essencial da arte. Como se só se vivesse uma vida boa - ou uma vida completa - quando tivéssemos um caráter artístico na vida.

Há outra passagem em que Safranski descreve bem como, para Nietzsche, a arte seria indispensável, não mero apetrecho:
Sentimos em Nietzsche toda a indignação de uma pessoa para quem estar na arte, especialmente na música, é estar no coração do mundo, que encontra no fascínio da arte o seu verdadeiro Ser, e que por isso luta contra uma tendência para a qual a arte é uma bela coisa secundária, talvez até a mais bela, mas mesmo assim uma trivialidade.
Quando vivemos "artisticamente", podemos enfrentar o abismo que se abre ao fim da execução da música. Ao completo sem sentido da vivência. Esse é um dos motivos que faz Nietzsche gostar das grandes tragédias, principalmente nas peças operísticas de Wagner. A tragédia o agrada exatamente porque tem um grau alto de aleatoriedade, não tem muita razão de ser. Em outras palavras, mostra a força inexorável do destino, que arrasta os homens independentemente das suas forças de vontade.

A tragédia seria a única forma artística que conseguiria se equivaler à vida. Não porque a vida seria trágica, no sentido de que a palavra tomou, de cruel, mas porque a vida também não é regida por qualquer lei, seja causalidade ou a de um Deus onipotente.

Me diga que você não entende o que Nietzsche quer dizer ao fim desse clipe?

Suspeito que uma maneira de entender bem o que Nietzsche quer dizer é pensar na palavra Ungeheuer, que a tradutora traduz por Inaudito (em maiúsculas) talvez para fazer uma relação com a música, já que sua primeira acepção é exatamente o fato de não se escutar. Ela anota, porém, a palavra pode ser traduzida ainda como "monstro", ou "algo extraordinário, incomum, ingente". O próprio inaudito, com a questão de que nunca se ouviu, parece algo espantoso. A música, e a vida, é / são espantosa[s].

terça-feira, 11 de dezembro de 2012

A bossa nova é foda

Talvez tenha sido apenas coincidência. Na mesma semana que iriam morrer Niemeyer e Décio Pignatari, eu ouvi o novo disco do Caetano, "Abraçaço", que começa exatamente com "A bossa nova é foda". Para terminar a semana, vi a exposição fixa do MAM-Rio que usa o famoso acervo de Gilberto Chateubriand para fazer uma impressionante "genealogia do contemporâneo". O que me chamou mais a atenção? A área de "Respirações Geométricas - O legado concreto e neoconcreto na afirmação de uma modernidade singular no Brasil". Não deve ser coincidência.


O segundo momento do Brasil como um país democrático acontece pós-Vargas. Para mim, o período de produção artística e cultural que até hoje norteia bastante de nossa vida. Até hoje, nossos parâmetros estéticos ainda são a Bossa Nova [depois Tropicalismo], o concretismo e o neo-concretismo [poesia, artes plásticas], em suas áreas respectivas. Era, como bem escreve Luiz Camillo Osório, a "afirmação de uma modernidade singular no Brasil", uma tentativa de se fazer uma "modernidade" à brasileira. É, após descobrirmos do que éramos e estávamos sendo feitos, tentar produzir algo inédito, que nos afirmaria como únicos, nos identificaria, e - por consequência, mas não como objetivo inicial - afetaria o mundo inteiro. Foi assim, em menor ou maior grau, com todos esses processos.

O que é curioso nessa seção "geométrica" do MAM-Rio é ver como as produções foram se - na falta de uma palavra melhor - abrasileirando. Como no início elas são muito duras, retas, linhas diretas, e vão se transformando em curvas, molezas, levezas. Ou, para forçar uma barra e usar o exemplo dos mortos da semana, saindo de Pignatari e indo para Niemeyer. Daí, por exemplo, as trocentas frases que se resgataram essa semana em que o arquiteto reforça a sua adoração pelas curvas em detrimento dos ângulos retos.

Se o modernismo foi o tempo histórico em que as representações entraram em crise - pense em todos os movimentos internacionais em que o "realismo" tinha saído de moda, desde o início do século XIX até as vanguardas do XX -, coube a essa geração de 1950-60, então, a tentativa de produzir a nossa - brasileira - primeira arte abstrata, portanto "moderna".

Num primeiro momento, cada um se inspirando em uma fonte diferente, me parece que eles tentam forçar o que na falta de palavra melhor vou chamar de "durezas" exteriores. Depois, "amolecem". Claro que nenhuma das fases é clara, nem os seus "seguidores" - é uma impressão minha e uma imprecisão geral. E é complicado colocar artistas tão versáteis em grupos estáticos. Pegue o exemplo de Volpi, por exemplo, que tenta abrasileirar os seus desenhos geométricos em bandeirinhas. Como se fosse impossível ser exatamente reto no Brasil. Como se o sol, o céu, o sal amolecessem nossas vidas.

No fim de "A bossa nova é foda", Caetano resume o espírito ao cantar: "O velho transformou o mito das raças tristes / Em Minotauros, Junior Cigano, / em José Aldo, Lyoto Machida, / Vítor Belfort, Anderson Silva / e a coisa toda: / a bossa nova é foda". Não é claro, ao menos para mim, quem é o "velho". Tenho duas interpretações. A primeira, por conta do título da música e da idolatria de Caetano, seria João Gilberto. "O mito das raças tristes" me lembrou Lévi-Strauss, mas também e principalmente o complexo de vira-lata, desenvolvido por Nelson Rodrigues, que, por acaso, é até hoje chamado de "velho" pelo seu filho Nelsinho. Esse personagem híbrido, meio Nelson, meio João, que não precisa nem seria bom ser identificado, teria conseguido transformar nossa raça de tristes em guerreiros, orgulhosos de sua força.

Talvez no futuro vejamos esse nosso terceiro momento democrático, que vai de Itamar e FHC até Lula e Dilma [até agora] como um novo renascimento. Com a retomada no cinema, o aparecimento de um tímido, porém constante mercado editorial, de novas formas de produção musical, novos nomes nas artes plásticas, etc. Tudo fruto de uma liberdade maior, de políticas públicas de incentivo, de um crescimento econômico, de uma maior preocupação com a produção artística como elemento identitário, etc. Mas precisamos de, ainda, algumas gerações para poder enxergar bem esse processo. No fim, fico imaginando que não deve ser uma coincidência o fato desses movimentos aparecerem com a democracia.

sábado, 8 de dezembro de 2012

Questão de humanidade

Tenho uma relação mista com Criolo. Não fui um dos primeiros a "adotá-lo", e fiquei um bom tempo sem nem mesmo conhecê-lo. Quando o descobri, fiquei impressionado como ele conseguia usar elementos de estilos que eu gosto muito, como afrobeat, e que, por acaso, raramente eram usados em músicas aqui no Brasil. Foi uma ótima surpresa.

"Bogotá" é excepcional.

Em um show, porém, com Mulatu Astatke, muito da minha simpatia foi por água abaixo. Ele parecia em uma outra voltagem, interpretando um personagem elétrico, ligadão, doido ["Criolo doido" era a sua alcunha ainda nos tempos das quebradas], que não condizia com a tranquilidade sábia daquele senhorzinho que tocava xilofone tão calmamente ao lado. No palco, Criolo parecia over, exagerado, demasiado, too much. Desde então acabei tendo pouco contato com ele novamente.

Mas fiquei feliz quando ele foi um dos nomes escolhidos pela equipe da BBC par mostrar os novos sons da América Altina [escrevi errado, sem querer, mas gostei do neologismo, que me remete a algo "altivo", mas no "alto", como se nos "Andes"]. A outra brasileira, igualmente bem escolhida na minha opinião, foi Gaby Amarantos, que eu também não conhecia. Infelizmente, ela foi alvo dos "comentaristas de internet"* quando a BBC divulgou o link da reportagem no Facebook.

Voltando a Criolo, fiquei ainda mais impressionado quando ele, nesse videozinho pequeno da BBC, falou uma frase que ficou ecoando na minha cabeça desde então. Parecia ingênua, sem muita elaboração, quase como um ato de fé, uma verdade que se repete para se aprender por incorporação. Mas, mesmo que ele não soubesse o que estava falando, ou, principalmente, se é algo intuitivo, que ele nem tem noção ao certo de onde brotou, que ele percebe como uma verdade própria e estava, naquele momento, apenas a externando... isso não importa. O fato é que a frase é excelente:

"Definir a arte é esquartejar uma das poucas coisas no planeta que ainda te faz sentir humano."

Por partes, por favor [evitando o esquartejamento].

A primeira parte da frase é mais controversa: "Definir a arte é esquartejar...". Soa como se a arte não pudesse ser definida por palavras, como se as palavras fossem incapaz de abarcar todas as possibilidades da arte. É verdade, sim, mas tem um lado medroso, implícito, de evitar problemas espinhosos. Mesmo que seja um "esquartejamento", e, portanto, uma certeza de fracasso, você fala essa frase de efeito, dá essa saída, que é mais fácil, do que enfrentar o problema insolúvel. Como se sabe, eu discordo completamente. Não é porque o problema não pode ser resolvido que não se pode pensar nele. Esse raciocínio, aliás, me lembrou aquele outro, de Wittgenstein, de que não devemos falar sobre o que não sabemos.

Mas é a segunda parte da frase que me interessa: "... uma das poucas coisas no planeta que ainda te faz sentir humano." Se isso não é já uma definição para a arte, eu não me chamo Kleber Cavalcante Gomes. E é uma belíssima definição, eu diria.

Em um mundo em que as pessoas pensam - ou, num raciocínio otimista, ainda pensam -, verdadeiramente, que se pode resumir todas ações em algoritmos, como se fosse possível a previsão do futuro, em que estamos destinados à cibernética, que somos cada vez mais ciborgues, que nossa simbiose com as máquinas aumenta de maneira exponencial... o que é ainda humano? O que ainda te faz sentir-se humano? O que o homem faz e que o não-homem não consegue fazer?

Numa época que o artista é [ainda? ?] mais importante que a obra, que a arte [ainda, já?] não se banalizou o suficiente para perder a sua aura de mágica, podemos pensar que é esse objeto, esse ato, essa interpretação de mundo que, por falta de nome melhor, chamamos de "arte",  nos diferencia dos não-homens. Nem adianta existirem macacos-pintores, porque é o ato de olhar, não o de produzir, que a arte existe. Só existe arte quando o espectador [mesmo que o próprio artista] decide isso. E isso, otimisticamente, não deve ser uma questão de "ainda" ou "já".

%%%

* "Comentaristas de internet" são aqueles fulanos que tendem a falar mal do assunto proposto, independentemente do quê, só porque o bom é aquilo que eles conhecem, sabem, tem acesso, imaginam, mas que nunca é tátil, ficando apenas no campo da idealização ou do sonho. Geralmente eles se colocam numa posição de superioridade ao objeto retratado, falando coisas como "é um absurdo que isso esteja sendo mostrado". Também é comum a presença de nostalgia nesses comentários, mesmo, ou principalmente, quando há uma nostalgia daquilo que não se viveu. Exemplo: "Olha como a nossa música, que já produziu Chico&Caetano, está representada hoje!" São típicos casos de pequenos autoritários preconceituosos, com idade mental próxima da antiga pré-adolescência, que não tem o hábito nem de ouvir qualquer opinião controversa à sua, de ler os textos que criticam, nem de simplesmente clicar nos links apresentados.

segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

A imprecisão do viver, segundo Fernando Pessoa

Pertenço a uma geração que herdou a descrença na fé cristã e que criou em si uma descrença em todas as outras fés. Os nossos pais tinham ainda o impulso credor, que transferiam do cristianismo para outras formas de ilusão. Uns eram entusiastas da igualdade social, outros eram enamorados só da beleza, outros tinham a fé na ciência e nos seus proveitos, e havia outros que, mais cristãos ainda, iam buscar a Orientes e Ocidentes outras formas religiosas, com que entretivessem a consciência, sem elas oca, de meramente viver.
Tudo isso nós perdemos, de todas essas consolações nascemos órfãos. Cada civilização segue a linha íntima de uma religião que a representa: passar para outras regiões é perder essa, e por fim perdê-las a todas.
Nós perdemos essa, e às outras também. Ficamos, pois, cada um entregue a si-próprio, na desolação de se sentir viver. Um barco parece ser um objeto cujo fim é navegar; mas o seu fim não é navegar, senão chegar a um porto. Nós encontramo-nos navegando, sem a ideia do porto a que nos deveríamos acolher. Reproduzimos assim, na espécie dolorosa, a fórmula aventureira dos argonautas: navegar é preciso, viver não é preciso.

"Fernando Pessoa e outros pessoas" é uma
bela HQ desenhada pelo Guazzelli que tenta
emoldurar alguns poemas e trechos do poeta
português dentro de sua Lisboa querida.
Nessa famosa passagem, Fernando Pessoa [ou eu deveria dizer Bernardo Soares?] em seu "Livro do Desassossego" [que eu aconselho ser lido em forma de "minutos da sabedoria"], chega àquela famosa conclusão do fim das utopias com a "morte de Deus". E ele, mais ingênua ou sabiamente que os nossos contemporâneos, sente a falta desse alicerce, desse fundamento, desse firmamento.

Ele sugere, por exemplo, que o fim é mais importante que os meios - e aí, talvez, podemos entortar um pouco o nosso nariz, num misto de dúvida com incredulidade, com pitadas de desgosto. E lembra que a fórmula supercitada de que "navegar é preciso, viver não é preciso" deve ser reproduzida - pelo ponto de vista dele - "na espécie dolorosa", ou seja, na interpretação mais dura e sem concessões. A vida realmente é algo completamente sem parâmetros, que não pode ser mapeada, traçada, antecipada, aprendida, sem que se viva ao mesmo tempo [que dilema!].

O que talvez possamos criticar é essa atitude diante da "fórmula": por que não ter um mapa é ruim? Que medo é esse do devir? Por que não podemos simplesmente deixar a vida / a sorte / a fortuna / a ventura aparecer? Por que não podemos deixar o vento soprar e nos deixar levar para onde quiser? Por que não podemos repetir um outro verso igualmente supercitado sobre o mar, de outro poeta, que talvez reconheça mais as nossas cores e sabores, que diz: "não sou eu quem me navega / quem me navega é o mar"?

Na verdade, o melhor seria encontrar o meio do caminho, não pseudobudista, estático. Mas que balança, como as ondas. E tentar descobrir - ao mesmo tempo que se vive - qual é o momento que se deve pegar no  timão, para se tentar domar o mar, e os outros, em que não adianta lutar contra a fúria de uma tormenta. É uma sabedoria que, acredito, só se aprende com a experiência.

sábado, 1 de dezembro de 2012

Como nascem os gostos?

O que faz você ter afinidades com um certo tipo de música, literatura, filme, artes em geral, e não outro? Por que, aliás, você se identifica com as artes em geral e não com carros, cerveja, mergulho submarino? Como preferimos uma coisa a outra? Há forma de modificar esse nosso gosto? Ou há algo muito íntimo, inicial, que marca a nossa alma que nos define assim que somos concebidos? Se for possível, o que fazer? Por que fazer? Quando fazer? Como fazer?

Eu gosto do Pão de Açúcar
Igual a outras situações, suspeito que não haverá uma resposta simples nem única para todas essas indagações. Cada um vai tentar  responder a essas dúvidas - se quiser, claro - da melhor maneira possível. Eu, pelo meu lado, sigo a sugestão deixada por Borges, quando ele dizia que gostar é se reconhecer [ou algo do gênero]. Para os críticos dessa ideia, o argumento contrário é que isso demonstraria como somos narcisistas - o que não é necessariamente verdadeiro.

Não acho que seja o caso de só achar bonito aquilo que é espelho, mas de, quando precisamos / podemos escutar os nossos quereres, sem precisar nos guiar por imposições externas, mergulhamos dentro de nós até encontrar algo que reverbere o que presenciamos. Ou, para ser bastante psicanalítico - já que estamos falando de Narciso - tentamos nos lembrar, e repetir [reverberar, ecoar, revisitar] as nossas alegrias primárias. Talvez seja impossível. Talvez nunca nos banhemos no mesmo rio, talvez tenhamos caído já do nosso paraíso pessoal e jamais provaremos o gosto daquela fruta novamente. Mas isso não nos impede, até mesmo inconscientemente, de tentar refazer o gesto.

Mas esse raciocínio nos leva a outro, um tantinho mais estranho. Se admitirmos que gostar é se reconhecer, o processo seguinte é, então: como sabermos que estamos vendo um espelho ou estamos sendo enganados por um vidro transparente que mostra "apenas" o mundo lá fora? Ou ainda: de onde brotam esses fundamentos, essas primeiras alegrias que são os motivos de gostarmos ou não de alguma coisa?

À primeira pergunta, a resposta é igualmente translúcida. Não sabemos. Apenas suspeitamos quem somos, ou nos descobrimos a cada momento e cabe a cada um de nós afiar os ouvidos para tentar escutar os nossos gritos internos e, à medida do possível, tentar tocar o barco nessa ou naquela direção. Não é certeza de tiro certeiro, mas é o melhor que podemos fazer. É suficientemente certo, digamos assim.

À segunda questão, me parece que já tinha insinuado a réplica. Aprendemos a gostar ou desgostar de cada um dos elementos da vida. Por mais que esse raciocínio possa parecer que somos uma espécie de barro que é moldado aos poucos. Quando nascemos, não somos programados, mas a partir das nossas experiências, vamos escolhendo, inconscientemente, automaticamente, individualmente, o que queremos, o que gostamos. Como eu ouvi recentemente, quando nascemos, somos apenas um filhote do bicho homem, é com o convívio que nos tornamos gente [alguns mais que outros, claro].

Isso quer dizer que podemos mudar os nossos gostos futuramente? Em tese, teoria, até poderia se dizer que sim. Isso pode acontecer, por exemplo, com o gosto musical. Com o tempo, aprendemos - ou desaprendemos - a gostar de determinadas bandas, gêneros, estilos, cantores, etc. Em outros casos, há uma trava, que remete a algum pedaço quase esquecido lá de dentro do nosso ser.

A prática demonstra que há algumas verdades que já foram tão assentadas em nosso solo interno, que já não conseguem se desgrudar do nosso corpo sem a perda de um ou de outro. Seria como tirar um pedaço nosso. Seria como arrancar o Pão de Açúcar de lugar - dá até para imaginar, mas é verdadeiramente impossível.

terça-feira, 13 de novembro de 2012

'Obra de arte de relevância'

Ontem ouvi um pedaço da entrevista de Andrew Keen, aquele do "Culto do amador", muito pequeno para conseguir formular qualquer opinião, mas que me deu uma ideia exatamente contrária à [que eu acho ser a] dele. Um dos pontos do livro dele que eu imagino saber sobre ele, de orelhada, é que com o culto desse artista não-profissional, não teríamos mais obras de arte de relevância como sempre foram criadas. Para ele, é necessário uma profissionalização dos artistas para que consigamos sair do marasmo. Ele cita trocentros exemplos [ontem, eu vi ele citando o "Vertigo", do Hitchcock] para comprovar sua tese. Há uma lógica aí. Que eu discordo.

Minha homenagem aos 'artistas'

Não pelo lado dos meios de produção. Mas do que seria "obra de arte de relevância". A definição de obra de arte é extremamente complicada, e cada vez mais complexa. A sua relevância, então, se torna um dilema, uma dúvida, uma discussão que as melhores cabeças pensantes da universidade ainda não chegam a propostas, quiçá consensos. Geralmente aplicam teorias antigas a novos formatos e, como acontece sempre, o quadro fica meio torto.

Na verdade, o que tem que ser lembrado é que não existe uma obra de arte a priori, ou em princípios. Não existe arte sem que exista uma materialidade, mesmo conceitual. Nos casos mais antigos é mais fácil de se enxergar. Uma escultura de Michelangelo é, primeiro, uma escultura. Depois de Michelangelo. Depois, se o espectador assim o enxergar, uma obra de arte. Portanto, uma obra de arte, na minha opinião, só existe se alguém disser que ela é arte.

Uma vez li um exemplo hipotético bom sobre esse caso. Um quarto fechado, sem que ninguém tenha entrado nunca, mas que contém obras dos maiores pintores do mundo. O autor argumentava que esses quadros eram obras de arte, porque respeitavam tais e tais critérios. Eu discordo.

Seguindo esse raciocínio, não é possível saber o que é uma obra de arte, muito menos de relevância, antes que ela seja feita.

Talvez seja cruel para as pessoas que se autodenominam artistas. Descobrir que se elas não produzem nada [e novamente insisto que isso pode ser até mesmo conceitualmente], elas estão vazias. Não são nada. Ser chamado de artistas, portanto, e na minha opinião, não quer dizer muita coisa. Qualquer um pode se autodenominar.

quinta-feira, 1 de novembro de 2012

O preenchimento do vazio de cada um - parte 2

Esse vazio não é exclusividade de quem usa crack - e é aí que eu quero chegar. Todos nós carregamos conosco essa falta de sentido, essa completa e irrestrita perdição. Esse não saber para onde se deve / tem que/ quer ir. Fala-se do fim das ideologias, pós-comunismo, mas a questão é anterior. O comunismo, de certa forma, veio só responder a um anseio antigo, milenar, de igualdade. Ou de um mundo melhor. Só que em vez de no reino dos céus, como prega a tradição ocidental cristã, a paz na terra entre os homens, de bem ou de mal. Ou seja, esse vazio que sempre existiu era antigamente preenchido pela Igreja.

Depois, como bem explica Nietzsche, os deuses foram substituindo o Deus, cristão, que estava em desuso, com sua fé em declínio. Os deuses se reproduziram. Agora, pode ser o deus do dinheiro, o deus da família perfeita-de-comercial-de-margarina, o deus da dominação, do poder; ou mesmo deuses mais "aceitáveis" para a sociedade, como o deus da democracia, o deus da justiça, o deus da igualdade. Todos esses "deuses" são ícones, são ideologias, ideais, que, às vezes, nos obrigamos a ter fé para poder acreditar que a vida tem um sentido. Para fazer o tempo passar. Para nos entreter. Para não sentir esse vazio dentro da gente.

A indústria da celebridade tem que se atualizar
A "arte", em todas as suas versões, da mais chinfrim até a mais sofisticada, da mais pueril a mais complexa, é apenas mais um desses deuses. E o que eu chamo aqui de "arte" é um conceito bem amplo. Pode ser encarado/chamado por outras pessoas por outros nomes, como cultura, indústria cultural, cultura de massa, e até, de certa forma, a comunicação de massa. Algo que cai na categoria do entretenimento puro. Revista/site de fofoca, por exemplo, estaria nessa categoria. Na maioria das vezes, esse segmento funciona como passatempo, como uma forma de consumir uma pílula de felicidade, que vai dar um calorzinho interno, vai fazer as agruras passarem. Vai descortinar o sofrimento nosso de cada dia e nos alegrar, por um tempo determinado. Quanto mais fugaz, quanto mais vazia, sem significado, oca, aliás, mais rapidamente temos que consumir outra. Como viciados, precisamos de mais uma dose para continuarmos nublados, para nos mantermos longe desse vácuo que carregamos dentro de nós. Daí, eu acho, o crescimento da indústria de celebridade.

Essa arte-entretenimento, a droga e a religião [quando não usada como objeto de poder], portanto, têm a mesma "função", a mesma "utilidade" na sociedade: preencher o espaço vazio. O problema, me parece, é que o vazio funciona como se fosse um buraco-negro, captando tudo o que é colocado nele, em volta dele, por perto. Há pessoas que conseguem viver a vida inteira sem nem perceber que ele existe, já que estão tão inseridos na roda-da-vida, que agem como autômatos, sem parar para pensar no que realmente querem, são, ou estão.

Os demais, tentamos preencher esse vazio, alimentar esse monstro com os elementos que temos à mão. Às vezes conseguimos, outras, fracassamos. Entre esses, ainda há os que preenchem esse vazio com esses deuses auto-impostos [casamento, emprego estável, dinheiro, filhos etc.], e então as doses devem aumentar, até que, provavelmente, perdem o efeito.

Outros, como os monges, os abstêmios, os ascetas, ainda tentam encarar esse vazio, olhar bem no fundo dele, e conviver com ele, sem alimentá-lo. Mas essa talvez seja uma liberdade tão ou mais dolorosa que a própria dependência.

Como se vê, não existe solução fácil. Talvez, sejamos todos esses personagens, horas um, horas outro. Nunca parados. Talvez.

quinta-feira, 25 de outubro de 2012

O ato de passar pelo traço de Loredano

Após conferir as cerca de 30 obras - desenhos, às vezes ainda com recados do próprio autor para o eventual espectador - do artista Loredano expostas na Galeria Paulo Fernandes, no Centro do Rio, fiquei imaginando que deveria ser criado um verbo novo: Loredanear. É o ato de uma personalidade [no sentido antigo do termo] passar pela interpretação criativa desse craque do traço.

Lembro que quando eu fazia clipping, há dez anos, uma das minhas principais atividades extra-curriculares era recortar as caricaturas dele e guardar. Até hoje, se ninguém mexeu, eu tenho a de Jorge Luis Borges, que dá para encontrar na internet.


Nele podemos ver uma de suas características mais comuns em outros dos seus desenhos. A diferença entre  os olhos. São assimétricos. Como se ele aproveitasse para descrever dois pedaços da personalidade do retratado. No caso de Borges, ainda ajuda o fato do personagem ter sido cego. Então, os olhos miram lugares diferentes. Ambos parecem amedrontados, mas o da direita, maior, está quase cansado. O da esquerda parece mais com um medo "ativo", de quem quer atacar para se defender. O que contrasta com o nariz, para cima, dando um tom pernóstico, talvez incentivado pelo saber literário quase enciclopédico do escritor. As mãos, sobre a bengala demonstram a fragilidade, novamente, mas uma fragilidade acomodada, de quem sabe que a sua situação é a mesma dos demais seres humanos.

Na exposição, talvez a melhor caricatura seja de Machado de Assis.


Os cabelos estão desgrenhados e a barba falha, dando uma impressão de suor, que nos lembra que ele usava um jaquetão pesado, mesmo no Rio de Janeiro. Os óculos tortos, que mostram os olhos - novamente, os olhos - de diversos ângulos.

Há ainda Drummond com um pescoço descomunal e sem braços, livro sobre o colo, à beira do mar. Mário de Andrade, cujos olhos - olhos - escapam do corpo. Hitchcock com um tesoura no bolso - por quê? Schopenhauer, sem nariz, cabelos esvoaçantes. Freud em três momentos, o mais retratado. Cartum de Bush com o mundo ligado ao seu rabo - literalmente - cuja descrição diz que o desenho foi proibido por Mário Sergio Conti de ser publicado no "J.B." em 2001, mas que acabou, dias depois, nas páginas de "El País".

Fiquei pensando em como chamá-lo. "Caricaturista" é todo aquele que faz caricaturas, como ele. Mas como o termo ficou bastante batido, ele mereceria algo além. Decidi por artista. Reflete bem o poder da sua obra, que dá um prazer apenas de se olhar. Desenhista, quando precisar adjetivá-lo duas vezes num espaço curto.

sábado, 22 de setembro de 2012

Definição de arte

O problema evidente agora é a definição de arte. Os teóricos da estética do mundo moderno denunciam esse mundo dizendo que, se há a dimensão comercial, não pode ser arte. Eu me oponho a isso. Acredito que mesmo o kitsch é arte. É arte ruim, mas é arte. - Gilles Lipovetsky, em entrevista a Audrey Furlaneto, em "O Globo" de hoje.

quarta-feira, 4 de abril de 2012

Sinal dos tempos na arte

Nessa semana por uma coincidência termina a exposição das paisagens do artista inglês David Hockney, na Royal Academy of Arts, e começa a retrospectiva dos trabalhos da década de 1990 de Damien Hirst, no Tate Modern. Se o primeiro é injustamente desconhecido no Brasil por quem não acompanha arte mais de perto, o segundo é injustamente conhecido, exatamente porque a sua produção extrapola os limites, num sentido complicado da expressão, do bom senso e do bom gosto no campo das artes.

"Winter Timber", uma de suas peças que eu mais gostei

As obras de Hockney dialogam com a tradição, mas tentando encontrar um caminho próprio. Nessa exposição, foram reunidas todas as suas produções que tinham como tema "paisagem". Portanto, há pinturas a óleo imensas e sequências de aquarelas, além de esboços e desenhos a carvão, meios que fazem jus à alcunha de "artista" desde que esse termo começou a ser empregado a quem gosta de desenhar.

Mais de acordo com os tempos tecnológicos em que vivemos, também foram feito desenhos em iPad e impressos em sequência, para formar uma instalação [como ele mesmo a chama]. Ou uma floresta, no meu ver [dá para ficar até meio zonzo].

Ou ainda, elevando a sua preferência por retalhar uma imagem imensa em fotos polaroides, como já havia mostrado aqui na sua homenagem a Picasso, ele retalha seus quadros gigantescos em inúmeros painéis. Além disso, ele também recorreu ao vídeo digital em alta definição para, com nove ou 18 câmeras ao mesmo tempo, registrar um ambiente. Tudo isso é bem impressionante.

Não é só a mídia que ele utiliza que chama a atenção, nem a forma como ele a utiliza -senão, o formato seria esvaziado, como, aliás, acontece com Hirst e suas, hum, instalações- mas o que ele retrata, como ele pinta, e, o mais difícil, a maneira como ele capta a beleza das coisas.

Um dos detalhes de suas obras que mais me chamou a atenção e me deixou ressabiado à primeira vista foi o uso de cores nem sempre usuais, como roxo, ou um verde claro, mas luminoso, quase fluorescente. É uma escolha exagerada, que incomoda os olhos na primeira olhada. Com o passar do tempo na observação, entretanto, você começa a se acostumar, e o quadro se torna mais que agradável, se torna único, novo, recria algo que não existia antes. Aprisiona uma beleza sem precisar ser realista, nem repetir exatamente as cores da paisagem retratada.

"A bigger Grand Canyon" [clique na imagem para ver melhor a obra]

Ele usa dois tipos de processo para fazer essas paisagens: pinta por observação, e de memória. No caso da observação, o fato de ele usar telas menores, facilmente carregáveis, o ajuda a pintar o seu quadro olhando diretamente para a paisagem e depois só precisa apenas montar o todo em estúdio. No segundo caso, para mim o melhor, ele usa a sua memória para tentar recriar o ambiente.

A memória se transforma em imaginação, ou, no mínimo, fonte para a sua imaginação, e ele não respeita a realidade mais, recriando as paisagens de maneiras diversas ao original. Como se tirasse o poder do realismo, derrubasse a pretensa verdade do retrato direto. As suas produções de memória [e imaginação] são, na minha humilde opinião, mais interessantes.

Ao ouvir o audioguia da exposição, podemos conferir as opiniões do próprio Hockney sobre as suas produções. Ele diz, a certo momento, que sabia que a pintura de paisagens foi um tema bastante visitado na história, e que as pessoas sempre dizem que não se pode fazer nada além do que já foi feito. Ele afirma que tinha conhecimento dessa ideia, mas que sempre, também, duvidou que isso poderia ser uma verdade absoluta. Porque a natureza, diz ele, é quase inapreensível, ou, por outro ponto de vista, sempre mutável. A natureza pode ser eternamente objeto de obras com pretensão artística. Não poderia concordar mais.

***

E o Hirst, hein? Bem, não vi, nem quero ver. Suas obras representam, para mim, tudo o que há de pior no âmbito da arte, hoje em dia. Suas produções são exageradas, grotescas, que visam apenas o choque, como se ainda vivêssemos no ambiente das vanguardas. Apesar de ser mais novo que Hockney, parece mais datado que o conterrâneo.

Em vez de conferir um tubarão mergulhado no formol, prefiro ver um elefante sem pele, que nunca se propôs ser arte, mas é, ao menos, mais bonito.

quinta-feira, 15 de março de 2012

O que é arte?

Pois. Já devo ter escrito isso antes, mas não importa. Não me lembro, para falar a verdade. A questão é que falei bastante sobre arte e estética, mas jamais entrei no, talvez, mais espinhoso dos temas: o que -dionísios!- é arte? O que faz algo ser considerado arte?

Como se sabe, esse conceito mudou muito durante o caminho da história. Os gregos nem tinham uma palavra para isso, sendo que -se eu não me engano- os romanos traduziram o mais próximo dos seus conceitos, "thekné", por "ars", que veio a dar na nossa palavra "arte". Foi só com Kant e, em seguida, os românticos alemães, ou seja, no século xix, ou seja, ontem, que começamos a valorizar essas produções que aparentemente não temos muito como explicar.

Aliás, foi exatamente Kant quem disse que não tínhamos como explicar o que era "arte", mas sabíamos o que era - o que é uma boa resposta até hoje. E é mais ou menos o que eu aplico até hoje - misturado com outras ideias, que eu também gosto.

De toda forma, mesmo desde então, todo mundo -filósofos, estetas, artistas, historiadores, críticos, pensadores, a humanidade, enfim- tentou separar a arte do que não era arte. Antes da revolução da fotografia, era um pouco mais fácil, como se sabe. Bastava seguir o conceito ainda de Aristóteles de "mimetizar a physis".

Demóstenes Torres, infelizmente, também
 faz parte da  physis [Fonte: wikimedia]
Essa palavra estranha -"mimetizar"- quer dizer mais que "copiar". Gosto da tradução "representar", mas, para mim, é um pouco mais que isso. Seria uma "re-representação", ou seja, o ato representar pela segunda vez, já que ela já está representada. E ela, no caso, seria a famosa physis, que, para os gregos tinha uma tradução simples: natureza. Não a natureza de plantas, verde, cachoeira, essas coisas hippies, mas tudo o que há no mundo, tudo é parte da natureza, inclusive o concreto, o lixo, o Demóstenes Torres, o que há de melhor e pior. [Já ouvi que Spinoza dizia que esse conceito de physis era um sinônimo para o que ele considerava Deus, o que eu, seguindo uma tradição do Upanishad, o texto filosófico dos Vedas, por sua vez o conjunto de textos sagrados dos hindus, concordo.]

Ou seja, voltando à questão principal, ao re-representar a natureza, o homem estaria produzindo arte - era fácil identificar. Eu também acho que esse conceito, de certa forma, ainda se aplica, mas, adaptado aos nossos tempos - considerando que re-representar não é, necessariamente, copiar exatamente o que se vê, mas o artista misturar sua particularidade -"subjetividade"- com a natureza e reproduzir isso no seu formato preferido. Mas esse conceito é amplo demais, e não dá para saber o que é arte ou não a partir disso.

Além disso, com o advento da fotografia, o conceito de cópia da natureza caiu, porque a fotografia era mais precisa que qualquer outro meio não mecânico. Não é coincidência que se começou a experimentar formas de pintar que deram no abstracionismo, nas vanguardas e em tudo o que vivemos hoje - em que, ao andar num museu de arte contemporânea, é complicado saber o que se propôs ser arte e o que simplesmente é o entulho do cara que está pintando um espaço do museu.

Pobre arte povera...  Acima: "Venere degli stracci", de Michelangelo Pistoletto.
Antes de continuar, quero dizer que, hoje em dia, valorizamos demais os artistas, em vez da arte, em si - sinal dos tempos. Como se eles fossem super-homens, os únicos capazes de criar algo além-do-normal, aqueles tocados por uma força superior, que conseguem produzir esses objetos que, na falta de outra palavra, chamamos de arte. Além disso, deveríamos pensar que, mesmo que eles possam produzir essa coisa chamada "arte", essa arte pode ser ruim. Arte não é -ou não deveria ser- sinônimo de excelência.

Na verdade, essa característica -ou qualidade- de produzir arte está em todo mundo, alguns de maneira mais latente, outros, mais explícitas. Li um artigo ontem que dizia algo interessante: o fato de se apreciar um arte e conseguir extrair algum significado -mesmo que apenas estético, em que não se traduz em palavras- também é um ato de criação. Concordo. Acho que a arte não é nada, não quer dizer nada sem o espectador. Diferentemente de outro texto que eu li, acredito que uma obra de um nome famoso guardado num quarto escuro, sem ninguém ver, não é -ainda, ao menos- arte.

E, enfim, chegamos aos dias de hoje, e a minha opinião: só é arte o que o espectador achar que é arte. Um terceiro fulano que eu li fala algo parecido: que é arte aquilo que um grupo de especialistas achar que é arte. O grupo de especialistas seria formado por curadores, os próprios artistas, críticos, estudiosos, frequentadores amadores de galerias, e quem mais se autodenominar especialista. Eu concordo, em parte. Primeiro porque eu acho que não precisa de um grupo, basta uma pessoa achar que é arte para tal objeto o ser -pelo menos para ela, o que é suficiente-; e, segundo, porque nem acho que alguém precisa se autodenominar especialista, pode ser alguém que está tendo contato pela primeira vez com o objeto em questão.

Benjamin, indeciso sobre ser comunista
ou cabalista - ambas crenças difíceis
 de se seguir [Fonte:Wikimedia]
Eu gosto de uma definição do Benjamin -que todo mundo costuma ler apenas o "Obra de arte na era da reprodutibilidade técnica", em seu momento mais comunista-materialista e menos judeu-cabalista [sim, ele balançou entre esses dois extremos]- de que a obra de arte é o objeto alegórico que pode ser reinterpretado infinitas vezes. [Não estou certo se ele falou exatamente isso, ou se eu, depois de alguns anos, estou reinterpretando a frase dele para o meu prazer - no fim, estou usando o conceito "contra" ele.]

Objeto alegórico seria aquele que não é metafórico. Metáfora, por sua vez, e na minha interpretação do que Benjamin falou, é a substituição de um símbolo por outro; já alegoria é a criação de um novo símbolo para se representar o símbolo previamente dado. Alegoria, portanto, cria significados, metáforas apenas trocam significados, repetem o sistema já usado.

E, no caso de "reinterpretado infinitas vezes", eu vejo assim: a fonte de interpretações da obra de arte não seca jamais. Um livro, um quadro, uma música, uma peça, uma dança podem ser sempre entendidos de outro ângulo nunca antes visto. Esse caráter infinito seria único da obra de arte -os outros objetos teriam faces finitas.

Por fim, acho que, além de valorizar demais o artista, também temos uma vontade incrível de encontrar o que é "arte", para separar dos objetos dito comuns -cabalistica e paulo-coelhamente, poderia acrescentar que não há objetos comuns. Como se quiséssemos tascar um rótulo em determinados objetos para nos sentirmos mais tranquilos, para, como já disseram, denominar e, assim, dominar. A minha proposta é que, em vez de tentar procurar desesperadamente a "arte", busquemos os objetos -criados pelo homem ou já inseridos na natureza- que sejam capazes de produzir o que se convencionou chamar "experiências estéticas". Talvez seja para isso que o mundo exista.

segunda-feira, 12 de março de 2012

O amor 'secreto' de Picasso

Assim como outros artistas contemporâneos, congelar a arte de Picasso em uma determinada fase é, no mínimo, complicado. Complicado mais no sentido de ser quase impossível obrar isso - tantas e tão variadas são suas produções -, que no sentido de ser um desperdício - o que, convenhamos, também o é.

"Nu au Plateau de Sculpteur", da fase mais
erótica de Picasso 
O comum é vê-lo sempre associado ao cubismo, mas isso é pouco. Que fase do cubismo? Que fase, sua, dentro, do que ficou convencionado chamar cubismo - e que ele, com Braque, foram os grandes motivadores? A primeira, quando ele usa uma palheta de cores ocre, com exagero na transformação das figuras, beirando a abstração? Uma outra - não sei em que posição fica - em que ele arredonda as figuras - geralmente femininas - para demonstrar uma sensualidade impraticável com as técnicas tradicionais de representação - desconstrói o ponto-fixo do olhar, e cria uma ilusão [e o que é a arte, senão ilusão?] de uma multidimensionalidade no mesmo plano? Ou, ainda, no pré-segunda guerra, quando sua Espanha natal vira o palco de uma guerra civil, e ele usa essa fragmentação para expressar a dor de um povo, que foi massacrado por um ditador, e que culmina na, provavelmente, sua obra-prima, "Guernica"? Isso, para ficar só nas fases cubistas mais conhecidas. Fora o período que ele flerta com um classicismo quase grego, ou suas incursões originais, as famosas fases rosa e azul, ou ainda quando ele faz colagens, esculturas, etc..

Admito que gosto mais do período em que Picasso usa o que se convencionou chamar cubismo para retratar a sensualidade e o erotismo das mulheres. Ele aproveita a sua auto-imposta liberdade figurativa para fazer contornos impossíveis, traçar linhas curvas insinuantes e fazer um jogo de esconde-esconde que excita qualquer apreciador de mistérios. Esse último aspecto acontece mais com os retratos que ele fez de sua quase eterna amante Marie-Thérèse Walter.

Os dois se encontraram quando Picasso já era um quarentão e Marie-Thérèse nem tinha completado a maioridade. Picasso era então casado com a dançarina russa Olga Khokhlova, de quem jamais se separou, mesmo quando Olga, oito anos depois do início da relação Picasso e Marie-Thérèse, descobriu tudo e saiu de casa. Picasso só se desinteressou de Marie-Thérèse quando conheceu Dora Maar - e houve a famosa briga entre as duas. Mas essa é outra história.

Durante esses oito anos que Picasso tinha Marie-Thérèse como amante e modelo, ele sempre arranjava uma maneira de, utilizando a sua técnica como desculpa, se colocar no quadro, mesmo que, para alguém menos atencioso, possa ser apenas um segundo ponto-de-vista do rosto da modelo. Reparem nesse quadro "Femme nue dans un fauteuil rouge".



Ele claramente coloca um segundo rosto, de cabeleira verde, sobre o rosto da loura Marie-Thérèse, que  a beija na boca. Há um segundo personagem sobre-posto, que abraça a modelo, mas que também é o corpo dela. Como se os corpos se misturassem, como se Picasso tivesse se pintado como uma sombra, um fantasma que poderia, sem se materializar, penetrar no corpo de quem ele quisesse. Um sonho, como se sabe, que ele acalentou durante muitos anos.

***

Com o cubismo, e essa quebra da linearidade na narrativa dos quadros, Picasso consegue, mesmo que poeticamente - talvez a única maneira possível -, dar conta de um dos aspectos do absoluto. Ele conseguia mostrar várias faces de um objeto/modelo ao mesmo tempo, destruindo aquela máxima que, se eu não me engano, foi imortalizada pelos relativistas, os físicos, de que quando se olha o ponto, se perde a linha, e vice-versa. Com Picasso, ambos podem coexistir, simultaneamente. Na arte, o que parece impossível pode ser realizado, se você tem coragem - e isso, ele teve.

***

Essa transformação, essa mutação na obra de Picasso, é uma das grandes inspirações para David Hockney, o último artista a aparecer na exposição do Tate Britain sobre a relação de Picasso com a Inglaterra:  as oportunidades em que passou aqui, os projetos em que trabalhou, as obras que sempre estiveram no país [talvez o ponto baixo de toda a exposição, pelo processo quase dicionárico de listar o caminho das obras, o que não importa em nada no momento de sua apreciação], as influências em outros artistas ingleses etc.. As obras de Hockney mostram essa preocupação de nunca se acomodar num formato, passando de desenhos simples - jamais simplórios - até uma pintura cubista feita com fotos polaroides. São incríveis.

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

Questão do gosto

Numa época que os cadernos culturais parecem extensões dos obituários [com duplo sentido, por favor], a morte de alguém que já apareceu bastante vira um grande acontecimento. Foi o caso da Whitney Houston. Todo mundo correu atrás da "notícia" para falar que ela tinha ganho não sei quantos prêmios e vendido uma quantidade abissal de álbuns, além de ser uma ótima cantora.

Fugiu do comum o comentário do Camilo Rocha, que tentou contextualizar historicamente a importância da cantora, que ficou famosa mundialmente por, além de ser cantora, ter sido a protagonista de "The bodyguard". Ele mostra que ela representava bem um ideal anos-1980, sobre um aspecto que era novo então, os buppies [black + yuppies]. Ele ainda afirma, muito bem, que Houston abriu a porteira para o que ele chamou magistralmente de "ginastas da voz" [Mariah Carey, Toni Braxton, Celine Dion, Vanessa Williams].

Entre os meus amigos, ficou a impressão de que faltou algo como esse comentário na imprensa em geral.  Concordei, mas fiz uma ressalva que, apesar de ele contextualizar historicamente a cantora, ele apenas dava vazão ao gosto dele que, por acaso, combina com o nosso.

Um amigo argumentou brilhantemente também que o papel do crítico não poderia ficar apenas no gosto. Dou as aspas para ele:
O papel do crítico não é dizer somente se ele gosta ou não. Por, teoricamente, escutar/ver/ler mais que a média, ele tem a função de 'guiar' o leitor (whatever) por aquela obra, artista, etc. É muito pouco ele ficar só no 'gosto' dele.  
realmente é um assunto espinhoso e é claro que o 'gosto' vai acabar aparecendo. Mas não é esse o que deveria ser o norte principal. Obras precisam ser vistas em perspectiva - com o legado do próprio artista e com o que os outros estão fazendo. Daí vc crava se aquele cara tem relevância ou não: mercadológica, artística, etc.

Vamos de Adele. Artisticamente, a Adele não tem relevância nenhuma. Ela conseguiu apenas ser o maior sucesso comercial dessa onda soul-vintage-britânico-branquelo que tinha na Amy Winehouse sua maior promessa (e na Duffy o maior mico). Musicalmente a Adele não importa, apesar de duas ou três músicas mais ou menos. E pq ela não tem relevância? Pq o que ela faz é um pastiche de soul, pq existem quatrocentas cantoras que já fizeram essa mesma música melhor e primeiro que ela. Nós temos essa referência.

No fundo, Amy Winehouse e Adele são a mesma coisa: sem relevância (artística, pq a Amy tem relevância comportamental). Só que da Amy eu gosto, da Adele, não. Sacou a diferença?
Concordo. Mas não acho isso inteiramente possível. Acho que o gosto, quando utilizamos qualquer argumento subjetivista, como "relevância" ou "influência", é, sempre, o principal aspecto, mesmo que disfarçado de outros nomes. Vou repetir minha resposta a ele, aqui:
no seu argumento, por exemplo, você está dizendo que o artista deve ser julgado - é ou não é relevante - por conta da história [você usa a palavra "perspectiva"]. o quanto ele influenciou o futuro, o quanto ele pegou de influência do passado, como ele retrabalha, como ele reproduz, etc. mas isso, em si, também é relativo, ou melhor, tem a ver com o ponto de vista de quem decide. quem deve ser influência? o que é ser pastiche? O que é fazer uma bela reprodução? o que é brega num momento é cool no outro - continua sendo ruim ou vira bom o exemplo original?

exemplo ruim: as bandas da bahia podem argumentar que eles são boas porque se inspiram no puro axé.

exemplo médio: qual é a influência da galera da guitarrada no belém? eles são bons?

exemplo bom: kafka quase não foi publicado em vida. se ele não fosse, ele continuaria sendo bom?

no fundo, o que os críticos fazem hoje é usar um critério que não há como negar: o mercado. fulana vendeu tanto. isso não é relativo, ela vendeu e pronto.

não sou a favor disso, sou exatamente o contrário disso. quero que as pessoas digam do que elas gostam e vamos moldando nossas leituras a partir de gostos e desgostos em comum.
Nem sempre a História, o que ficou para contar a história, é o que é melhor.

Não dá para dizer, também, como alguém passa a ser crítico, ou não. Não há qualquer critério técnico para afirmar isso.

No fim, o que sobra, se não formos apelar para números, é a opinião de quem quer escrever, sempre.  

Knowledge in arts

Eileen John believes that theorists of art agree that works of art can produce what she calls as “cognitive stimulation”, but this not necessarily can lead to a proper knowledge. For her, some objects require its spectator to know and follow its own rules.

She adds that art, and mainly literature, has an advantage to pieces of philosophy, because it needs a deeper involvement. If the philosophy can work on moral and ethical subjects, the literature touches in others aspects too, as imagination, emotion or even the pleasure-seek. Other vantage, John explains, of the literature over philosophic contents is to help us to develop complex, ambiguous and ironic concepts, besides a logical relationship.

John describes “experiential knowledge” as to gain “knowledge of what it is like to experience something”. In other words, to get in touch with certain situations which could give us determined learning about a specific issue. Art can provide this kind of expertise when it makes the spectator to live an emotion as it would be its real life.

On example: when a work of literature shows a given situation, its reader may put itself in place of the protagonist, and, this way, the reader is apt to practice its behaviour and be more prepared when, hypothetically, it will be confronted with this kind of given situation.

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

Necessidade de contexto

Uma das grandes defesas do julgamento de um objeto artístico feitas por Kant era a necessidade do olhar desinteressado. Em cruas palavras, isso seria: o objeto deveria ser avaliado em si, sem qualquer influência exterior, sem qualquer necessidade de extrapolar o seu círculo. Um livro deveria ser bom não porque poderia ser usado para explicar como vivia certa sociedade em determinado século, mas apesar dessa explicação. Essa contextualização seria desnecessária para se encontrar a verdadeira arte. Eu sempre acreditara nisso. Acho que não mais.

Primeiro porque eu acho que esse isolamento é completamente irreal. Como você vai fazer para que outras áreas de interesse não apareçam enquanto você está apreciando uma música, por exemplo? Como não prestar atenção na letra - para aqueles que prestam -, como não reparar nas influências históricas na melodia - para aqueles reconhecem? Como deixar de ser você, naquele momento, para frio, cru, nu e insossamente ter contato com a arte sem influência?

Não estou sugerindo que se julgue um livro pelo nome que aparece em sua capa. Seria o lado oposto da contextualização. Esse raciocínio seria de "se eu conheço tudo o que tal pessoa produz, o seu novo filme será, certamente, bom". Não é isso. Não é nada disso. Estou dizendo que um julgamento "isento", ou "desinteressado", como fala Kant, é impossível de se acontecer na vida real, no dia-a-dia. Somos sempre atravessados por uma série de emoções que se modificam a cada infinitésimo.

Pensemos num blind tasting. Mesmo que outro dos paradigmas sugeridos nessa mesma obra ["Crítica da faculdade do juízo"] por Kant seja separar o juízo de gosto do juízo de belo, vou quebrar mais essa regra dele para dar mais um exemplo, talvez ainda mais controverso. Faço isso porque imagino que as experiências de prazer podem ser muito parecidas. Pensemos, portanto, num blind tasting. Normalmente são colocados mostras de vinho [ou cerveja, uísque &c.] sem a presença do rótulo e sem qualquer informação sobre a origem daquele líquido. Entendidos provam e dão notas, dentro de parâmetros, para cada uma das bebidas. No conjunto, se elege a melhor. Simples. Porém, porque devemos privar o julgador dessas informações de contexto? Em que situação alguém vai repetir essa experiência de ignorar completamente a garrafa, o rótulo, a história daquela bebida? Para que serve, portanto, provar que em uma situação quase ideal um vinho é melhor - segundo o critério desses entendidos, reunidos em uma espécie de eleição - que outro? Isso me lembra os problemas de física quando o professor dizia que era para ignorar o atrito - como se isso fosse possível.

Não vivemos isolados, não vivemos separados de nossos sentimentos, não vivemos longe de nossa história. Temos que, de posse de todo o nosso "eu", perceber, descobrir o que nos dá essa experiência de prazer - e o que não dá. E podemos, se quisermos, insistir, estudar, nos aprimorar em determinado assunto, para ter conhecimentos e revelar segredos que são escondidos para os apreciadores / observadores bissextos. Quanto mais ferramentas, mais possibilidades de aberturas de portas ocultas. [Repare, coloquei possibilidade, não certeza...]

Continuo achando que um dos seres deve encontrar a sua própria estrada. Isso não é o fim da crítica, mas a transformação da crítica em um objeto de debate, em vez de censura. É saber que a crítica nos ajuda, não no julgamento, mas na indicação de onde estão essas portas para nos transportar para outro lugar, para mudarmos de fase. Mas o julgamento, mesmo que isso possa soar bastante subjetivo, é único. Jamais - e ainda bem - teremos uma unanimidade de gosto.

Porque a vida não basta

Todas as vezes que Ferreira Gullar fala em eventos públicos que "a arte existe porque a vida não basta", eu fico impactado com o efeito dessa frase, mas não entendia exatamente o quê. Poderia ser interpretada como a arte ser maior que a vida, e que esta não era o suficiente para as vontades. Acho que ontem eu digeri essa frase por completo pela primeira vez, e posso me dar o luxo de acrescentar que ela não se aplica somente à arte, mas a todas as áreas similares do pensamento.

Ela - a frase - me explicou a "utilidade" da arte na sociedade em todos os tempos - e como falei, de áreas similares do pensamento, como a filosofia, a religião, os entorpecentes e outras - como vou tentar explicar adiante. Porque, se você pensar que a arte tem alguma importância para a vida de indivíduos que seguem adiante em comunhão, você está se enganando. A arte não serve para absolutamente nada, além de ser apreciada como arte. Ela pode até ter um componente antropológico, pedagógico, moralista, pode até tocar em outras áreas, mas ela, em si, não tem essa intenção. Ela é inútil por natureza. Por que, então, somos fascinados por ela? Porque a vida não basta.

Na minha interpretação, o que Gullar quer dizer com "vida" nessa frase é apenas ligado ao cotidiano mais simples, duro, de subsistência. Cada um, claro, sabe o que é completamente essencial para a sua vida, mas há um patamar razoavelmente único para todas as pessoas que podemos chamar de "vida", que é quando a sua razão age para nos mantermos vivos, e prosseguindo. Por alguma razão que não tenho uma explicação muito clara além das moralistas, os vivos querem se manter vivos. Não está óbvio, para mim, o motivo disso. Querer viver ou querer morrer são ações muito parecidas entre si, portanto é curioso que a imensa maioria das pessoas opte por viver e não morrer. Acredito que é nisso que a razão trabalha: para manter a máquina humana rodando, para seguir adiante.

Porém, quando estamos razoavelmente a salvos, quando estamos vivendo em uma situação de conforto mínimo, onde não somos ameaçados diretamente, onde não temos qualquer problema para seguir, a vida, essa vida dura e cotidiana, não é mais o bastante. Queremos mais. Nos sentimos vazios, sem sentido, nos sentimos perdidos e abandonados, nos sentimos caretas, sem graça, cinza, bege, entediados. Nesse momento, entra a arte.

A arte trabalha com outros elementos que não a razão. Ela não quer agradar, ela não busca o agrado, ela busca um sentimento que nos tire do chão, que nos leve para um lugar onde não frequentamos nos nossos dias comuns, ela nos entorta a cabeça, nos faz duvidar de tudo o que vivemos até o momento. Se você reparar, essas mesmas explicações podem ser aplicadas à religião. E à filosofia [por meios diversos, ressalvo]. E até para as experiências com entorpecentes. A vida, comum, não é o suficiente, deve-se procurar algo além da vida. Uma experiência que o faça desligar essa máquina da razão que segue adiante, ou sintonizar o pensamento em outro canal, que dê uma descarga elétrica e reanime o corpo para continuar. O que chamam de experiência estética não é diferente - na sua raiz - às outras experiências de suspensão.

O mistério, de certa forma, continua. Por que queremos mais, por que não nos contentamos com a vida? Por que, portanto, a vida não basta? Não tenho respostas para isso, e acredito que talvez nem as haja. Mas se alguém tentar explicar, sugiro começar pela explicação da sobrevivência. Se nos apegássemos apenas à "vida", no sentido de Gullar, de certa forma estacionaríamos, não nos modificaríamos, ficaríamos parados. E ficar parado, mesmo que metaforicamente, é o primeiro passo rumo à morte - e à "morte".

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

Of artists and arts

One of the good commentaries made by Weitz in his "The role of the theory in aesthetics" is about the two ways we use to call objects as "art": evaluative and definition.

The first concept can be understood as when we consider some object so special that it can only be a work of art - no matter if it is far from a traditional work that what people from [what is known as] the artworld use to call art.

We can name a very beautiful and old chair of your grandmother as a work of art, even assuming it could not ever be exposed in a museum. Or we can name a wonderful sunset a work of art, or other some natural phenomenon, with no participation of human beings. Or, even, a painting made from a very recognized artist, like Leonardo Da Vinci.

If it is special in some way [normally it has a high degree of beauty for its viewers], it will find someone who will name it as art. In this way, something can be, or can't be, a work of art. There is no possibility of indecision, or graduation.

In the second interpretation, we repute some object as a work of art, as we use to categorize other objects, like, again, the beautiful and old chair of your grandmother, or the wonderful sunset. In the category "chairs", that specific is "beautiful", "old" and "of your grandmother". The sunset would be "wonderful". The work of art "from Da Vinci".

This second interpretation confirms for me a possibility that pleases me. Because besides of being a work or art from Da Vinci, it could be a "bad" or a "good" work of art. Plus: the artist can be a "good" or a "bad" one. The epithet "artist", hence, loses its godlike's aura, its atmosphere of superiority, as everyone name with this designation could only produce divine things.

We just need to see the most acknowledge artists of all times to prove this theory. First: they are not unanimities. Ones will put this name, others will put that person. It is impossible to create a perfect canon, that nobody in the world will add or decrease any of its items. Second: they didn't produce works at the same level all their lifetime. Some are better than others, as we can see when we use the world "masterpiece". It is the best work this artist could make. Third, to have produced a work of art once doesn't mean everything the artist produces will be "art". Every object must be judged separately.

Being an artist is - or at least should be - a common profession as any other. In some way, it should be less valuable than others occupations, as it doesn't need any special education - to be a writer, you must only need to know how to... write. To build a building, you must know how to do some very difficult calculations. The work of the artist - therefore, the art, and only the art - is what must be judge, not who create it. Artist is not important, art just is [in a unexplainable way, which I will speak better another day, but it is].

Rubinho Jacobina, a Brazilian singer, summarized the idea in one chorus: "Artista é o caralho", what means in a open translation: "Artist's my ass" [it is a little bit more rude than this, but the point is clear].

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

Criteria for art

Weitz tells that different kinds of objects can be identified as “art”, but these objects do not have all its features in common. It can be found similarities among them, but no one familiar property in every single object, which would mark it as artistic.

He states it is possible to list some characteristics one can see in objects which are normally assumed as artistic, but it is impossible to enumerate all of the attributes an object known as artistic has, because these qualities vary enormously from one to another example.

This way, he defends that art is a kind of open concept, because it is emendable and corrigible, changing with circumstances. It is important to say, however, that in Weitz opinion, only mathematical or logic concepts are closed one.

For Weitz, the most important task in aesthetic is to discover in which conditions we can apply the concept of art accurately. He suggests the aestheticians must try to list what he name as “criteria of recognition”, which is the group of similarity properties we can find among the objects we use to call artistic.

Even if it is impossible to draw a line to separate art to non-art, he said we should look for some elements and relations that occur often. Weitz, eventually, affirms this criteria is not a kind of border that cannot be crossed. Some objects can be “artistic”, but they do not need to respect some of these rules. He said, nevertheless, if this object does not attend to at least one of the feature found in this “collection”, it cannot be described as art.

terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

O que não é arte

Os seguidores de Wittgenstein* [alguns, não todos] costumam atender indiscriminadamente a máxima do seu líder de que não devemos falar sobre o que não sabemos. Sobre a arte, alguns costumam dizer que não é possível saber o que é ou o que não é, e uma tentativa nesse sentido é uma perda de tempo.

Concordo em parte com a afirmação - apenas o suficiente para sugerir exatamente o inverso. Quando não se sabe, deve-se pensar sobre o caso - não no sentido desesperador, apreensivo, como se fosse uma questão de vida ou morte, mas como uma formiguinha que não sabe o quão pequena é a sua contribuição para o formigueiro, e continua.

Por isso, acredito que qualquer um pode designar - tal um rei, ministros - aquilo que é, ou não, arte, e por quê.

Essa máxima de fugir dos assuntos ditos impossíveis me lembra Jung** e como ele deve ter sofrido ao propor estudar assuntos tão descartados pela Academia [como sincronicidade, por exemplo] como se fossem nonsenses ou misticismo. Só pelo fato de ele, organizadamente, ter remado contra a maré já merecia o nosso respeito.

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Às vezes, esse comportamento dos seguidores de Wittgenstein me lembra um pouco os de religiosos que preferem acreditar em um Deus a ser livre. A liberdade, para esses, é um peso danado.

Por outro lado... há a tentativa louvável de se evitar discutir nova e literalmente o sexo dos anjos.

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* Wittgenstein morreu em Cambridge, onde tinha uma longa vida acadêmica, tendo estudado, por exemplo, com Russel. Imaginem, portanto, o quanto ele influencia a filosofia desse país.

** Tive dificuldades de entender os pormenores de "The dangerous method", o filme do Cronenberg sobre a relação de Jung e Freud. Mas se eu entendi, Freud, que era um sujeito que também tinha problemas com a academia, fazia quase troça das propostas de Jung.

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ps. um detalhe curioso, coincidente: o austríaco de herança judia Wittgenstein e os dois fundadores da psico-análise [um suíço e um judeu austríaco] foram contemporâneos.

pps. Wittgenstein e Hitler estudaram na mesma escola em Viena. Ao mesmo tempo.

domingo, 5 de fevereiro de 2012

End of the world, and I feel fine

Era uma oportunidade única para se assistir a dois dos irmãos do National, aliados ao vocalista do TV on the Radio, Thunde Adebimpe. Além disso, o projeto Long Count, capitaneado pelos gêmeos Dessner, unia teatro, animação, dança, e ainda contava com uma pequena orquestra de câmara.

O nome se refere ao famoso - hoje em dia - calendário maia, que prevê o fim do nosso mundo [o quarto, na mitologia deles] e o início de um outro, no dia 20 de dezembro deste ano. O projeto ainda conta com o vídeo-artista Matthew Ritchie, que faz projeções no palco cheio de espelhos [uma bola dentríssima], que contam em uma narrativa nada linear um pouco dessa mitologia, misturando com imagens inspiradas na infância dos dois irmãos, que, se eu não me engano, são do meio-oeste [pense em milharais e campos de centeio] americano. E o vocal da nunca-te-vi-sempre-te-amei Kelley Deal, aquela que, junto com a irmã Kim, do Pixies, criaram o Breeders, daquela música* que fez parte das festas da minha pós-adolescência. Portanto, eles tinham cartões-de-visita suficientes para me fazer ir sem pestanejar.

E o projeto em si não é ruim. Poderia participar, sem problemas, em um desses eventos capitaneados pelo Batman Zavarese, que unem imagem e música. Aliás, a música é, provavelmente, o ponto-alto. O som é um encontro da Björk com Sonic Youth e cordas. Há distorções, crescendos incríveis, jogos musicais com violinos, um baterista que toca ao mesmo tempo caixa, percussão e xilofone [!], e os dois guitarristas que apenas acompanham o grupo, sem querer se sobressair. A segunda e última música cantada por Adebimpe é de, literalmente, arrepiar.

As projeções não deixam também muito a desejar. São desenhos de ícones que misturam a vida dos gêmeos com os maias. Segundo o libreto [sim, há um libreto para explicar o projeto], eles se inspiraram num pedaço do mito que mostra dois irmãos gêmeos na criação de um mundo, enquanto participam de um jogo de bola. A ideia começou quando eles estavam participando de um outro projeto ["projeto" é o novo "coletivo"] com o Bon Iver Justin Vernon e escreveram a música "Big red machine", sobre um time de beisebol que foi a grande sensação quando eles eram crianças. Então eles quiseram misturar beisebol, calendário maia, música [em várias vertentes] e vídeo. Bem...

O problema, para mim, foi ter um tom solene em toda a apresentação. Solene demais. Os cantores [além de Deal e Adebimpe há também a participação Shara Worden] estão vestidos com fantasias [nada contra!] e fazem uma teatralização [ok!], que, às vezes, passa do tom. Não pode. No libreto, os irmãos explicam que há um momento de "humor", quando eles simulam um jogo de beisebol com uma guitarra pendurada numa corda fazendo às vezes de bola. Que bom que eles avisaram. Pena que só li depois de ver o show.

Descobri, então, que para me emocionar, para me tocar, a arte deve sempre buscar o humor. Não o escrachado - o exagero não é solução para nada - mas a ironia, o não-se-levar a sério, uma autoconsciência da falta de importância do que se está produzindo, a certeza de que, no fundo, tudo é raso, mesmo a mais comovente arte é um tipo de entretenimento [nada banal, porém]. A seriedade excessiva é a porta de entrada para o ridículo, que é você perceber que você está cantando para uma plateia, ou atuando com roupas extravagantes, ou escrevendo intimidades, ou dando pitaco sobre o que não foi chamado. Se você achar que isso é realmente importante, está lascado. Repara, é naturalmente ridículo. Por isso, relaxe. Deve-se continuar, claro, por uma espécie de vontade de fazer a piada, mesmo que se perca o amigo. E tendo noção que nada vai mudar por sua conta. Acho que  R.E.M. resumiu bem esse sentimento no título daquela famosa música que eu parafraseei no título deste post: "It's the end of the worl as we know it [and I feel fine]". Se o mundo for acabar, que riamos por último, em uníssono.


* O clipe de "Cannonball" é dirigido por Spike Jonze e nada menos que Kim Gordon, a outra baixista que figura no altar de qualquer banda dos sonhos.