quinta-feira, 10 de março de 2022

Contradições políticas, desde sempre

[N]a região ocidental da Alemanha, havia grande número de associações de planejamento familiar de caráter predominantemente "socialista". Por ocasião da campanha de Wolf-Kienle, em 1931, houve votações sobre a lei do aborto, tendo-se verificado que as mesmas mulheres que votaram no nacional-socialismo ou nos partidos do centro eram pela revogação dessa lei, ao passo que os seus partidos a isso se opunham violentamente. Estas mulheres votaram pelo planejamento familiar, de acordo com os princípios da economia sexual, porque queriam preservar o seu direito à satisfação sexual; mas, simultaneamente, votaram naqueles partidos, não porque desconhecessem as suas intenções reacionárias, mas porque, sem terem consciência dessa contradição, estavam simultaneamente dominadas pela ideologia reacionária da "maternidade pura", da oposição entre maternidade e sexualidade e, especialmente, pela própria ideologia autoritária. Essas mulheres desconheciam o papel sociológico desempenhado pela família autoritária numa ditadura, mas encontravam-se influenciadas pela política sexual reacionária: aceitavam o planejamento familiar, mas temiam a responsabilidade decorrente de um mundo revolucionário.

REICH, Wilhelm. Psicologia de massas do fascismo

 

segunda-feira, 13 de dezembro de 2021

A esperança

A esperança. — Pandora trouxe o vaso que continha os males e o abriu. Era o presente dos deuses aos homens, exteriormente um presente belo e sedutor, denominado "vaso da felicidade". E todos os males, seres vivos alados, escaparam voando: desde então vagueiam e prejudicam os homens dia e noite. Um único mal ainda não saíra do recipiente; então, seguindo a vontade de Zeus, Pandora repôs a tampa, e ele permaneceu dentro. O homem tem agora para sempre o vaso da felicidade, e pensa maravilhas do tesouro que nele possui; este se acha à sua disposição: ele o abre quando quer; pois não sabe que Pandora lhe trouxe o recipiente dos males, e para ele o mal que restou é o maior dos bens — é a esperança. — Zeus quis que os homens, por mais torturados que fossem pelos outros males, não rejeitassem a vida, mas continuassem a se deixar torturar. Para isso lhes deu a esperança: ela é na verdade o pior dos males, pois prolonga o suplício dos homens.

Nietzsche, em Humano, demasiado humano§71.

terça-feira, 7 de dezembro de 2021

Vida x liberdade

Tornar-se mais indiferente à labuta, dureza, privação, até mesmo à vida. Estar disposto a sacrificar seres humanos à sua causa, não excluindo a si mesmo. Liberdade significa que os instintos viris, que se deleitam na guerra e na vitória, predominam sobre outros instintos, os da “felicidade”, por exemplo. 

Falas como a do ministro da Saúde [‘Melhor perder a vida do que perder a liberdade’] lembram muito passagens como essa aí de cima do Nietzsche. Se há um componente do liberalismo escravocrata, como bem salientou o Marcos Queiroz aqui, há uma tentativa de resgatar também uma honra, um elemento metafísico superior, de virilidade, de não poder ser impedido, de reencontrar o animal adormecido. Se na época do Nietzsche isso fazia algum sentido - ele estava combatendo uma tradição literalmente milenar de adormecimento dos instintos - agora, quase 200 anos depois de nos termos liberado dessas amarras, parece apenas patético.  

quarta-feira, 24 de novembro de 2021

A dificuldade em pagar as contas

Manter-me nesses últimos anos – isso foi talvez o mais difícil que o meu destino até agora me exigiu. Depois de um tal brado, como foi meu Zaratustra, desde o mais íntimo da alma, não ouvir nenhuma voz de resposta, nada, nada, sempre a solidão sem voz de mil faces – isso é sobremaneira terrível, nisso pode sucumbir ‘até o mais forte’! Ah, eu não sou o mais forte! Meu ânimo está, desde então, ferido; admiro que ainda vivo. Mas não há dúvida de que eu vivo: quem sabe o que ainda tenho que vivenciar!

Carta de Nietzsche a F. Overbeck, de 17 de junho de 1887. KSB 8, n. 863, p. 93s. 

Te entendo, Nietzsche. Te entendo.