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quinta-feira, 11 de setembro de 2014

La metahistoria

"Las sociedades son históricas pero todas han vivido guiadas e inspiradas por un conjunto de creencias e ideas metahistóricas. La nuestra es la primera que se apresta a vivir sin una doctrina metahistórica; nuestros absolutos - religiosos o filosóficos, éticos o estéticos - no son colectivos sino privados. La experiencia es arriesgada. Es imposible saber si las tensiones y conflictos de esta privatización de ideas, prácticas y creencias que tradicionalmente pertenecían a la vida pública no terminará por quebrantar la fábrica social. Los hombres podrían ser poseídos nuevamente por las antiguas furias religiosas y por los fanatismos nacionalistas. Sería terrible que la caída del ídolo abstracto de la ideología anunciase la resurrección de las pasiones enterradas de las tribus, las sectas y las iglesias. Por desgracia, los signos son inquietantes."

Octavio Paz, ao receber o Nobel de literatura em 1990.
Alias, todo discurso é genial. Para lê-lo, aqui.

quarta-feira, 26 de junho de 2013

A diferença entre sociedade e povo

Já reparou que, por aqui, usamos diferentemente os termos “sociedade” e “povo”? Isso não é uma curiosidade irrelevante, creio. Usamos “sociedade” para nos referirmos a quem tem voz; é praticamente como se estivéssemos dizendo “alta sociedade”, mas incluindo todo mundo que consegue comprar um carro zero. Por sua vez, “povo” designa algo muito abstrato, o velho “hoi polloi” dos gregos, isto é, o grande número, sem rosto, sem nomes, a multidão amorfa e perigosa, desprovida de direitos e de responsabilidade para com o coletivo, cujas únicas manifestações midiaticamente visíveis são as descargas de ódio ou de alegria, na violência ou nas festividades. A comunicação entre a sociedade e o povo se dá sempre assim: ou com condescendência, como quando o pessoal de Ipanema vai comer feijoada em Oswaldo Cruz, como quando um magnânimo patrão ajuda a mãe da empregada a conseguir um leito no hospital; ou, por outro lado, com rispidez e crueldade, quando alguém do “povo” sai da linha que lhe foi designada por alguém da “sociedade”. Já quando alguém da “sociedade” sai da linha, é porque “o Brasil não tem jeito, mesmo”.
[...]
A sociedade brasileira se tornou mais complexa nos últimos anos e dentro de um mundo mais complexo também. Hoje, é difícil espancar o “povo” sem acertar um pouco de “sociedade” também. Eu diria mesmo que os movimentos sociais só vão ser vitoriosos quando a distinção desses termos desaparecer. Até lá, vai ser difícil impedir que um movimento por pautas concretas seja seqüestrado por banais manifestações conservadoras do “contra tudo que está aí”.
Textão, nos dois sentido, de Diego Viana, sobre tudo o que está acontecendo por aí. Vale muito perder um tempinho para ler.

sábado, 11 de maio de 2013

'Fla-flus sem beleza'

Algo do Brasil atual, com seus emergentes e suas zonas de exclusão, com sua indecisão entre o arranque e a regressão, dá sinais de uma aproximação galopante e não consciente à verdade de sua história escravista através de confrontos não politicamente formalizados nem simbolicamente elaborados, que se expressam no conflito entre os poderes de Estado, na loucura religiosa, nos tribunais do Facebook, nas facções discursivas, no alarde das opiniões, nos fla-flus sem beleza, sem perspectiva e sem regras. São a marca viciosa daquilo que na nossa sociedade vai mudando sem mudar, que se transforma sem transformar, e que resiste a encarar tanto o real de suas violências constitutivas e de suas desigualdades profundas quanto o real de sua potência inovadora.
José Miguel Wisnik, em texto sobre a proposta de diminuição de maioridade penal, aborda a questão das polarizações cada vez mais radicais das discussões. Parece que ninguém mais abre mão do seu querer, da sua opinião em prol de um discurso de consenso, de uma sociedade menos dividida, rasgada por dogmas - racionais ou irracionais. Será que estamos entrando, até aqui, numa sociedade binária? Quando é que vamos nos abraçar durante os debates por saber que, no fim, a intenção é que seja o melhor não para uma ou outra pessoa, mas para todos?

[Esse texto fez uma ponte com outro, de Ethan Nadelmann, cientista político e diretor-executivo da ONG norte-americana Drug Policy Alliance, publicado hoje também, no "Prosa". Entre outros argumentos, diz ele: "A proibição das drogas é a maior fonte de renda para o crime organizado, gerando violência e corrupção. Leis criminais mais duras apenas alimentam uma guerra que não pode ser vencida."] 


quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013

Excesso de memória

[...] é possível viver quase sem lembrança, sim, e viver feliz assim, como o mostra o animal; mas é absolutamente impossível viver, em geral, sem esquecimento. Ou, para explicar-me ainda mais facilmente sobre meu tema: há um grau de insônia, de ruminação, de sentido histórico, no qual o vivente se degrada e por fim sucumbe, seja ele um homem, um povo ou uma cultura.
Contra a hegemonia desses tempos super-históricos, Nietzsche.

Ou como bem notou o narrador de "Funes...": "Le era muy difícil dormir. Dormir es distraerse del mundo".

[escreverei mais sobre isso em breve.]

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013

'O Medo', de Carlos Drummond de Andrade

O Medo

Em verdade temos medo.

Nascemos no escuro.

As existências são poucas;

Carteiro, ditador, soldado.

Nosso destino, incompleto.

E fomos educados para o medo.

Cheiramos flores de medo.

Vestimos panos de medo.

De medo, vermelhos rios

Vadeamos.

Somos apenas uns homens e a natureza traiu-nos.

Há as árvores, as fábricas,

Doenças galopantes, fomes.

Refugiamo-nos no amor,

Este célebre sentimento,

E o amor faltou: chovia,

Ventava, fazia frio em São Paulo.

sexta-feira, 25 de janeiro de 2013

Frases - Allen e Verissimo

A morte é uma sacanagem. Sou cada vez mais contra. [daqui.]
I am not afraid of death, I just don't want to be there when it happens. [mais citações dele, aqui]
 Lembro que o Ruy Castro já tinha dito que Verissimo é o nosso Woody Allen. Acrescento que, ao menos, é mais simpático. Sua frase publicada ontem em entrevista à Folha [link lá em cima] mostra como os dois operam no mesmo tom de humor. Além disso, cresceram em ambientes muito parecidos, sendo influenciados pela cultura popular americana. O exemplo maior, talvez, seja o caso do jazz: além de fãs, ambos tocam em bandas.

A entrevista do Verissimo é recheada de frases incríveis. Eu diria que praticamente toda a resposta tem, ao menos, uma boa tirada. É uma sucessão de humor. Como quando ele diz que
O problema é que eu não conseguia distinguir alucinação de realidade. Ouvia conspirações à minha volta, meu espírito, ou coisa parecida, andou até em Pelotas, que fica a 200 quilômetros de Porto Alegre, e tenho quase certeza de que não dancei uma valsa com a enfermeira que me ajudou a sair da cama pela primeira vez, na UTI.
Ou quando afirma que não vai
dizer que fazer crônica é como andar de bicicleta, a gente não desaprende. A analogia é boba. Nem andar de bicicleta é como andar de bicicleta. Sempre é preciso recuperar o equilíbrio.
Eles são, talvez, a última geração em que a ironia ainda poderia ser considerada inofensiva.

domingo, 23 de dezembro de 2012

A língua perfeitamente correta

In his preface, Quijada wrote that his “greater goal” was “to attempt the creation of what human beings, left to their own devices, would never create naturally, but rather only by conscious intellectual effort: an idealized language whose aim is the highest possible degree of logic, efficiency, detail, and accuracy in cognitive expression via spoken human language, while minimizing the ambiguity, vagueness, illogic, redundancy, polysemy (multiple meanings) and overall arbitrariness that is seemingly ubiquitous in natural human language.”
Quijada, fotografado por Dan Winters
Em um dos seus perfis mais que perfeitos, a "New Yorker", via repórter Joshua Foer, tentou descrever o trabalho e a obra monumental de John Quijada, a construção e criação da língua Ithkuil - o site dele é precioso. O texto é imenso, com um apanhado de informações invejável, citações a outros criadores de língua, inclusive a John Wilkins, e termina com uma grande reviravolta que, talvez, numa interpretação bem aberta, pode explicar bastante a proposta da língua.

Um dos problemas graves de Quijada remete a Wilkins. Conforme anotou Borges no seu famoso ensaio, o defeito da proposta do "capellán de Carlos Luis, príncipe palatino..."era acreditar ser possível mapear as atitudes humanas. Como se fossem finitas. Como se cada interpretação da vida fosse igual. Como se as próprias palavras não tivessem vida própria e mudassem seus sentidos anos depois. A língua é uma ótimo exemplo de como, mesmo dentro do que nós costumamos chamar de humanidade, desse processo que consistiu em levar a razão para dentro da animalidade, nós não temos controle de nada.

Um belo exemplo disso, é aquela passagem do ensaio de Borges, ainda mais famosa, exatamente porque foi citada por Foucault como epígrafe da sua tese, "As palavras e as coisas".
Esas ambigüedades, redundancias y deficiencias recuerdan las que el doctor Franz Kuhn atribuye a cierta enciclopedia china que se titula Emporio celestial de conocimientos benévolos. En sus remotas páginas está escrito que los animales se dividen en
a. pertenecientes al Emperador
b. embalsamados
c. amaestrados
d. lechones
e. sirenas
f. fabulosos
g. perros sueltos
h. incluidos en esta clasificación
i. que se agitan como locos
j. innumerables
k. dibujados con un pincel finísimo de pelo de camello
l. etcétera
m. que acaban de romper el jarrón
n. que de lejos parecen moscas

sexta-feira, 19 de outubro de 2012

Em homenagem a Vinicius

Hoje, Vinicius de Moraes faria 99 anos. Deixo registrado um esboço de samba [quem diria] carnavalesco [quem diria 2] que faz citações ao poeta:

Vinicianas

Enquanto houver peixinhos a nadar / nesse mar
Você vai continuar a me amar / m'amar
Então a tristeza vai ter fim / malandrim
E a folia vai começar / arlequim

Vou dar muitos beijinhos na sua boca / me provoca
Porque você é a mais bonita carioca / não retoca
Mesmo paulista, gringa ou na pipoca / que beijoca
É hora de sair da sua oca / sai minhoca!

Nosso amor é eterno enquanto eu duro / todo puro
A água de beber é de Iemanjá / vai tocar?
E não adianta dançar nem kuduro / eu te juro
São Jorge, me dê cana para tomar! / e sambar!

Mas pra fazer um samba com alegria / simpatia
É só olhar a coisa mais linda / que assedia!

E quando acabar o carnaval / ilegal!
Vamos começar tudo de novo / não faz mal!

quarta-feira, 17 de outubro de 2012

Aliás... quem nunca?

[Daqui.]

Ou:
[Daqui.]

E ainda isso aqui.

[...Ou de como estamos completamente distantes da realidade em nossa volta.]

quinta-feira, 20 de setembro de 2012

Science x art - again

"Science is more beautiful than art" - according to an article in Guardian. Is it? I am not dead sure. http://gu.com/p/3agkd

sexta-feira, 31 de agosto de 2012

Tráfico de escravos no Brasil


Há cartas e mais cartas na British Library, além de inúmeros relatórios que detalham as apreensões de barcos brasileiros por embarcações britânicas, demonstrando a relação intrusiva da Grã-Bretanha na soberania brasileira, por um lado, e escondendo a tragédia da escravidão, e dos interesses não revelados, por outro.

Os barcos tem nomes quase irônicos, em se tratando de navios de tráfico de escravo, como Activo, Perpétuo defensor, Heroina ou Venturoso. Outros têm nomes mais sugestivos, como “Eclipse”. Há ainda nomes quase cristãos, como Tentadora.

Um exemplo é a carta do comandante do barco Grecian, William Smyth, um dos mais ativos. Ele diz ter detido a escuna Recuperador no dia 28 de maio de 1839, a sudoeste de Cabo Frio, que navegava com bandeira portuguesa e três armas. Seu comandante, Sebastião da Fonseca, declarou que eles estavam indo do Rio de Janeiro para Angola e Benguela. Embora não levasse qualquer escravo, Smyth concluiu que o barco traria negros da África. E lista provas que respaldam seu argumento: ferros para a segurança de escravos. Escotilhas maiores que um barco daquele tamanho precisaria, e pronto para ser anexado de barra de ferros, como as usadas para prender escravos. Farinha – escrito assim mesmo – e arroz em maiores quantidades do que poderia ser consumido pelos 17 tripulantes e dois passageiros, e que não eram mencionadas como parte da carga. Pólvora. Caixas de mosquetes. Ferramentas de cobre. Remédios. Tubos. Bombas de mão. Madeira. E uma outra série de objetos. Por fim, o comandante Smyth afirma que pareceu a ele “expressamente e o mais efetivamente e completamente” [os itálicos são originais] que eles estão equipados para o tráfico de escravos.

sábado, 18 de agosto de 2012

Filosofia do dinheiro

A empresa americana LineStanding.com apresenta-se como líder “em ajudá-lo contra a multidão”. Por meio dela, lobistas pagam para que alguém fique na fila de audiências no Congresso, ajudando-os a passar à frente de, por exemplo, representantes comunitários. É também por dinheiro que se tenta despertar o gosto pela leitura em crianças de várias escolas americanas: elas recebem US$ 2 por cada livro lido. Viciadas em drogas recebem para ligar as trompas, assim como obesos ganham dinheiro para emagrecer e tabagistas para parar de fumar. Compram-se óvulos, aluga-se um útero (mais barato na Índia do que nos EUA), vende-se sangue.
Assustador o primeiro parágrafo da entrevista com o filósofo Michael J. Sandel, feita por Mariana Timóteo, no Prosa, para divulgar o seu novo livro “O que o dinheiro não compra: os limites morais do mercado”.

New Zadie Smith

NW by Zadie Smith, because this isn't a place where you offer tea for a stranger – extract http://gu.com/p/39nz6

quinta-feira, 21 de junho de 2012

Irlandeses e ingleses

A Irlanda é um país que faz um belo contraponto à Inglaterra. No que a vizinha tem de opulência, riqueza, grandiosidade, a Irlanda tem de delicadeza, intimidade, companheirismo. Dublin e London, as cidades principais, representam bem esse contraste. A primeira tem 500 mil habitantes, a segunda, quase 8 milhões. Londres é a capital do mundo, talvez mais cosmopolita que Nova York, enquanto Dublin é uma cidade pequena, com todas as vantagens e desvantagens que isso pode ter.

Mas se pensarmos com outros critérios, ficamos com algumas dúvidas em relação à superioridade de Londres. Um dos meus favoritos é o literário. É difícil comparar elementos tão qualitativos, tão subjetivos, tão pessoais. Lembro uma vez de o diretor Jorge Furtado chamar um festival de cinema de competição entre elefantes e geladeiras - o que é melhor? Cada um tem uma opinião diversa. Mas, se pegarmos um critério técnico, por assim dizer, algo que se pode comparar, como o prêmio Nobel de literatura, é possível mostrar que a Irlanda pode fazer frente  à Inglaterra.

A lista de escritores que tinham cidadania britânica e ganharam o prêmio é extensa, tem  dez nomes - enquanto os irlandeses têm "apenas" quatro láureas. Mas comparemos os nomes. Os britânicos receberam o prêmio primeiro com Kipling. Apesar de grande defensor das ideias do império britânico, inclusive tendo sofrido por isso, Rudyard Kipling nasceu na Índia, na então Bombaim. Sua primeira língua, inclusive, foi o hindi. Mesmo que seja apenas um cidadão britânico com tudo o que nós associamos a ele, não podemos esquecer que ele é filho de uma política expansionista da Inglaterra - que é onde eu quero chegar, daqui a pouco.


Em seguida, vem  Galsworthy, cuja principal obra é a saga Forsyte - não muito conhecida do outro lado do Atlântico. Depois, é a vez de  T.S. Eliot, americano de nascimento que assumiu a cidadania britânica - que também explica muita coisa. Após, vem Bertrand Russel, grande filósofo e inglês até o último ancestral, que fez um trabalho monumental escrevendo "Uma história da filosofia ocidental" - mas nenhum trabalho literário ficcional. Em seguida é a vez de  Winston Churchill, e eu fico pensando se o prêmio foi literário ou político. De qualquer forma, Churchill também escreveu um trabalho gigantesco sobre a História do povo inglês - e, novamente, nenhum trabalho literário ficcional.

O próximo da lista é Elias Canetti, um búlgaro que escrevia em alemão, e eu me pergunto se ele deveria entrar nessa lista. O seguinte era inglês e bastante literário-ficcional, para compensar:  William Golding. Depois vem  V. S. Naipaul, e lembramos novamente do império colonial, de Trinidad Tobago e da Índia.  Harold Pinter é o seguinte. Além de inglês, londrino, de Hackney. Mas com ancestrais judeus. A lista se encerra com  Doris Lessing que, adivinhem, nasceu na então Pérsia, e viveu boa parte da vida no Zimbábue.

Já a lista dos irlandeses quase dispensa apresentações: W. B. Yeats, G. B. Shaw, Beckett e  Seamus Heaney - talvez o único menos conhecido da lista.

O que isso prova? Nada, mas podemos especular algumas coisas. A Inglaterra conseguiu tanta divulgação por conta do seu poderia bélico, da sua expansão econômica, do seu grande vício em colonizar e exportar o seu ponto-de-vista para outros. A Irlanda, por sua vez, sofreu com esse expansionismo britânico - tanto é que só conseguiu sua independência em 1921 - e hoje é, nitidamente, um país na periferia do capitalismo - para citar uma expressão conhecida por nós brasileiros.

Os ingleses se aproveitaram de sua força dominadora e sugaram talentos de todos os cantos por onde passaram, Índia, Caribe, Oriente Médio, África. Ou se impuseram, se fizeram importantes, apenas por historiar o mundo [ocidental] ou eles próprios. Ou foram tão imponentes que serviram de chamariz para povos do mundo inteiro.

Mesmo os irlandeses tinham dificuldades de viver na sua ilha, consideradas por alguns provincial. Beckett nega até a língua inglesa e escreve basicamente em francês [fazendo ele próprio a tradução para o inglês]. Shaw vive durante boa parte da sua vida em Londres.

É outro irlandês, porém, que escreve, talvez, a melhor definição sobre a relação entre os dois povos. James Joyce, cujo "Ulysses" é considerado por muitos [principalmente os norte-americanos] o melhor livro escrito em língua inglesa do século XX, fala, via seu possível alter ego Stephen Dedalus, logo no início da sua obra monumental :

"--It is a symbol of Irish art. The cracked looking-glass of a servant ".

Acho que resume tudo.

ps. Sobre Irlanda, Irlanda x Inglaterra e Joyce, leia também:
- "Retrato de Dublin quando Bloomsday "
- "Dublinenses "
- Irlandeses e eleição em Londres
- "'Once': uma vez é impossível "

segunda-feira, 16 de abril de 2012

More about open internet

The principles of openness and universal access that underpinned the creation of the internet three decades ago are under greater threat than ever, according to Google co-founder Sergey Brin.
In an interview with the Guardian, Brin warned there were "very powerful forces that have lined up against the open internet on all sides and around the world". "I am more worried than I have been in the past," he said. "It's scary."
The threat to the freedom of the internet comes, he claims, from a combination of governments increasingly trying to control access and communication by their citizens, the entertainment industry's attempts to crack down on piracy, and the rise of "restrictive" walled gardens such as Facebook and Apple, which tightly control what software can be released on their platforms.
The rest of the Guardian's interview, here

sábado, 14 de abril de 2012

Jack Upholsterer White

[...] he began a career as an upholsterer. His company was colour coded – everything from his clothes to his van to his tools had to be either white or yellow or black, "as an aesthetic presentation". He wrote his bills in crayon, and hid poems addressed to other upholsterers inside the furniture he restored: "I thought, we're the only ones to see inside this furniture, we should be talking to each other, like the Egyptian masons might leave a message on the stone they were putting in the pyramid. On one occasion, he and another upholsterer formed a band – called the Upholsterers – pressed 100 copies of a single, and hid them inside furniture they were restoring. "Not one's been found yet," he chuckles. "They were on clear vinyl with transparency covers, so even if you x-rayed the furniture you wouldn't be able to find them. I know where a couple of them might be, but it's very funny in that sense."
Via

segunda-feira, 9 de abril de 2012

O encontro

[da coluna do Verissimo nos jornais brasileiros, neste domingo, 8/04/2012]

Um homem livra-se de todos os seus bens materiais, abandona a família e vai viver no deserto. Leva o suficiente para sobreviver no deserto durante um ano. Não fazendo nada, só olhando o sol de dia e as estrelas à noite. Quer se encontrar com Deus e não quer nada à sua volta. Nada que distraia sua atenção, nada que confunda sua visão no caso de Deus aparecer. E o deserto é nada para todos os lados. Nada de horizonte a horizonte.

Mas de tanto olhar o sol e examinar os horizontes esperando ver Deus, o homem fica cego. É socorrido e levado para um hospital numa cidade grande, e, incapaz de ver o que o cerca e distinguir o sono da escuridão da cegueira, mergulha em si mesmo - e encontra Deus, que o recebe com um "alô" amistoso.

- Eu queria muito encontrá-lo - diz o homem.

- Eu sei, eu sei.

- Fui procurá-lo no deserto, despojado de tudo, livre da civilização...

- Pois é, foi no lugar errado. Acontece muito. Eu estava aqui todo este tempo.

- Esperei você em vão.

- Para dizer a verdade, não gosto muito de lugares ermos. A gente começa a pensar demais, a se autoquestionar... E a solidão? Prefiro lugares onde há gente e movimento. Bom é civilização.

- Mas ninguém se lembra de procurar você dentro de si.

- Pois é. Querem espetáculo. Visões no deserto. Epifanias. Conversões cinematográficas. Não é o meu estilo.

- Mas...

- Vê se dorme um pouco. Amanhã a gente conversa. Agora você sabe onde me encontrar.