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sexta-feira, 25 de janeiro de 2013

Frases - Allen e Verissimo

A morte é uma sacanagem. Sou cada vez mais contra. [daqui.]
I am not afraid of death, I just don't want to be there when it happens. [mais citações dele, aqui]
 Lembro que o Ruy Castro já tinha dito que Verissimo é o nosso Woody Allen. Acrescento que, ao menos, é mais simpático. Sua frase publicada ontem em entrevista à Folha [link lá em cima] mostra como os dois operam no mesmo tom de humor. Além disso, cresceram em ambientes muito parecidos, sendo influenciados pela cultura popular americana. O exemplo maior, talvez, seja o caso do jazz: além de fãs, ambos tocam em bandas.

A entrevista do Verissimo é recheada de frases incríveis. Eu diria que praticamente toda a resposta tem, ao menos, uma boa tirada. É uma sucessão de humor. Como quando ele diz que
O problema é que eu não conseguia distinguir alucinação de realidade. Ouvia conspirações à minha volta, meu espírito, ou coisa parecida, andou até em Pelotas, que fica a 200 quilômetros de Porto Alegre, e tenho quase certeza de que não dancei uma valsa com a enfermeira que me ajudou a sair da cama pela primeira vez, na UTI.
Ou quando afirma que não vai
dizer que fazer crônica é como andar de bicicleta, a gente não desaprende. A analogia é boba. Nem andar de bicicleta é como andar de bicicleta. Sempre é preciso recuperar o equilíbrio.
Eles são, talvez, a última geração em que a ironia ainda poderia ser considerada inofensiva.

sábado, 27 de agosto de 2011

Profundidade rasa

Se me lembro bem - o que eu duvido - Verissimo em uma crônica sobre o Woody Allen da década de 1970 fala que o cineasta desvendou em suas produções artística que, no fundo, no fundo, só há raso. Talvez essa seja a maior característica do norte-americano, a mistura entre um assunto que se propõe complexo, elaborado, que afetaria a humanidade inteira como um todo, e algo frugal, banal, sem maiores consequências.

No livro de entrevista com o Eric Lax ["Conversas com Woody Allen"], há um momento em que o diretor se sai com uma frase que exemplifica esse raciocínio. Lax pergunta sobre o final não muito feliz de "A rosa púrpura do Cairo", e como ela refletiria a visão de vida de Allen. O cineasta responde que sim, ele acha que a vida é muito amarga, mas [e então começa a sorrir, segundo a rubrica do livro] que é o único lugar onde se pode comer comida chinesa. O sorriso de Allen demonstra que ele já imagina qual será o resultado de sua frase: como algo cômico. É nessa "assimetria" que ele se alimenta para produzir seu humor, nessa suposta antítese, nesse contraste absurdo, que beira o nonsense.

Além da questão cômica, porém, há nessa frase uma proposta de vida mais "humana", assim como propunha, talvez, sob a minha interpretação, Nietzsche. O filósofo bigodudo sempre implicou com o cristianismo por conta de sua transcendência, ou seja, pela proposta da religião cristã de que deveríamos viver uma vida asséptica na Terra para, após morrer, ter acesso ao paraíso, na verdadeira vida, a eterna. Claro que esse raciocínio ele ampliou - e foi ampliado pelos seus intérpretes - para diversos fatores. Não haveria, portanto, conteúdo, só forma. Não haveria nada além do aparente. Não haveria profundidade, só o raso.

Essa tese se torna complicada sem a sua devida contextualização nos dias de hoje, principalmente porque pode parecer ser uma defesa da "boa aparência", por exemplo, ou de uma produção em série de pessoas "bonitas". Mas a desconstrução desse argumento fica exatamente no fato de que o "belo" também é uma construção cultural e social. Correr atrás desse ideal, quando não é algo internalizado, mas importado de maneira pré-fabricada, é ter uma vida apenas reativa, que reage ante os outros, em vez de tomar as rédeas sozinho.

Voltando a Allen, e à sua frase, podemos perceber que a sua frase diz ainda muitas coisas. Ele admite que o mundo é complexo, cheio de problemas e completamente amoral. Não fecha os olhos para esses fatores, mas deixa claro a pergunta: o que ele pode fazer sobre isso? Praticamente nada. Somos bastante inofensivos dentro desses parâmetros. Não é uma proposta pessimista, como imagina os crentes e os que querem uma recompensa pelas suas boas ações. Mas de extrema realidade, que pode afetar os mais sensíveis, os que imaginam que devem agir de tal forma para alcançar algo no futuro. Ele apenas demonstra a nossa completa incapacidade de controlar o que nos arrodeia. Só isso.

O ideal é, portanto, viver os pequenos prazeres que nos é possível. É descobrir aquilo que nos agrada, e que não desagrada em demasia os demais - porque ainda vivemos em sociedade, não? -, e tentar, à medida do possível, praticá-lo. Como por exemplo, comer comida chinesa. Ou ler um texto do Verissimo, um livro do Nietzsche ou assistir a um filme do Woody Allen. Belo ideal de vida, não?

quarta-feira, 17 de agosto de 2011

Pseudointelectuais


Essa cena do "Annie Hall" sempre foi uma das minhas preferidas. Um sujeito pedante, esnobe, que se autoaplica um verniz cultural, um pseudointelectual em suma, está discorrendo sobre diversos assuntos logo atrás do personagem de Woody Allen, Alvy Singer. Singer, claro, fica incomodado a cada frase de efeito, a cada paráfrase, a cada teoria inventada naquele momento. Nervoso, começa a discutir com Annie [Diane Keaton], até que não aguenta e pergunta ao espectador, diretamente, olhando para a câmera, como ele agiria numa situação dessas. O chato também sai do lado de sua parceira e vai discutir com Allen usando o argumento mais básico do mundo: "este é um mundo livre e eu posso me expressar do jeito que quiser" [ZZZzzz...]. Allen retruca perguntando quem era ele para dizer que sabia algo sobre Marshall Mcluhan, o último nome citado [namedropping é uma expressão em inglês que designa o fulano que fica enumerando celebridades intelectuais para mostrar, ou fingir, que os conhece]. O cara treplica informando que era professor de mídia-qualquer-coisa em Columbia e portanto era a pessoa mais indicada para falar sobre Mcluhan. Allen, furioso, diz que, em vez de falar sobre, chamaria o próprio Mcluhan para a discussão. O homem que cunhou a expressão aldeia global acaba dizendo que o tal professor não sabe nada sobre ele - Mcluhan - e acaba com o bate-boca.

Durante muito tempo Woody Allen caçoou do homem que se dizia culto em seus filmes. Talvez por ser realmente culto, em vez de querer parecer culto, talvez por perceber a completa desimportância de ser culto, talvez porque ele saiba que não exista essa história de intelectual, talvez por perceber que a cultura serve para absolutamente nada, dentro de um ponto de vista simplesmente existencial. Nessa última fase, digamos, pós-Nova York, ele caiu em várias armadilhas e se colocou no papel em questão - ou escreveu sobre esse personagem - de maneira mais condescendente. Como se percebesse que em um mundo aculturado, aquele que ao menos aparenta ter conhecimento é mais interessante que o completo ignorante. Em outras palavras: que é melhor um sujeito falar sobre Woody Allen sem nem mesmo ter visto um único filme dele, do que nem saber quem é o diretor nova-iorquino. Mas esse desvio no caminho durou pouco tempo. No último filme dele, "Midnight in Paris", novamente vemos um sujeito cheio das explicações profundas sobre a história da arte ser ridicularizado.

Verissimo - que já foi chamado, curiosamente, da versão brasileira de Allen - em uma de suas crônicas publicadas no seu primeiro livro [se eu não me engano - o que eu duvido - se chama "O popular"], faz uma brincadeira sobre quem seria os intelectuais. Como percebê-lo, como identificá-lo, como alimentá-lo, como tratá-lo, etc. Não é possível saber quem realmente tem conhecimento, ou quem finge, realmente. No fundo, como diz o próprio Verissimo em um contexto sobre Allen, só há raso.

Imagino que nem Woody Allen nem Luis Fernando Verissimo sejam contra a acumulação de cultura. As obras dos dois, as suas indagações, as suas propostas demonstram que isso seria completamente contraditório. O que eles propõem, na minha humilíssima opinião, é a quebra da sisudez da pessoa que tem acesso a esses conteúdos, mostrando que saber ou não o que Mcluhan disse ou quis dizer não torna ninguém melhor ou pior que outras pessoas. Ser ou não ser intelectual - se isso for possível - não é, ou não deveria ser, razão para dar privilégio a ninguém. É tornar a teoria do não-se-levar a sério uma prática diária.

sábado, 9 de julho de 2011

Bergman como fã de Allen

Na reportagem do Lichote do "Segundo Caderno" hoje, há um trecho que passa quase despercebido, em meio às revelações de que o mestre Ingmar Bergman assistia a "Duro de matar" e outros filmes longe de seu universo típico. Na entrevista com outro sueco que conheceu de perto Bergman, há a informação que o cineasta autor de "Morangos silvestres" gostava de Woody Allen. Chamou-me* a atenção pelo motivo óbvio:  normalmente vemos declarações elogiosas no sentido inverso: do nova-iorquino ao nórdico. Esse novo caminho das frases favoráveis, portanto, são raras, menos conhecidas, ou até novidades. E também por uma questão pessoal: já escrevi uma monografia exatamente comparando as influências de Bergman em Allen.

Não quero dizer que o sueco era influenciado por Allen - mas, quando é que podemos controlar as influências? Como dizer onde o que é você termina e começa o outro? De qualquer maneira, não é essa intenção, apesar de achar que seria bem interessante pensar sob esse viés, se não na prática, ao mesmo na teoria: como seria uma relação entre pupilo e mestre em que houvesse a construção criativa de ambos os lados?

De qualquer maneira, a situação me lembrou de minha monografia, feita para conclusão da segunda faculdade, de jornalismo, chamada de "Woody Allen: a paródia do cinema de Bergman". Resumidamente, digo que a paródia é a [ou uma] proposta original [repare na contradição dos termos] dos artistas americanos [do norte, do centro e do sul]. A paródia, a "arte de segunda-mão", aquela que sabe que não produz o original, que se sabe periférica, que se sabe como regurgitante, apenas. Pense em Oswald de Andrade, que está em voga, por exemplo.

No livro "Woody Allen por Woody Allen", longamente citado no meu trabalho, o jornalista - sueco e amigo de Bergman - Stig Björkman faz uma longa entrevista com o nova-iorquino sobre a sua produção artística. Talvez o melhor momento para demonstrar como os dois se admiravam tão intensamente está numa passagem descrita por Allen do primeiro e - aparentemente, ou até o momento - único encontro dos dois.


Nunca tive contato com ele (Bergman) até filmar “Manhattan”. Liv Ullmann, que eu já tinha encontrado e sabia o quanto eu gostava de Bergman,, me avisou que ele estaria na cidade dentro de uma semana. Sugeriu que ela, eu, Bergman e a mulher dele jantássemos juntos. Liv me assegurou que ele também gostaria de se encontrar comigo. Assim, lá fui eu ao apartamento do hotel onde Bergman estava e jantamos. Tivemos uma conversa longa, bastante longa, que foi muito agradável. Conversamos sobre muitas, muitas coisas. Surpreendeu-me o fato de muitas coisas corriqueiras que me aconteceram também terem acontecido com ele, exatamente na mesma época. E ficamos conversando. Porém, na última vez que fui a Estocolmo, não pude estar com ele porque estava com as crianças. Contudo tivemos uma longa conversa pelo telefone que durou, provavelmente, umas duas horas. Ele tem uma conversa muito divertida. Mantivemos vários conversas telefônicas como esta, mas a única vez que tive contato, contato pessoal com ele, foi naquela noite no hotel em Nova York, aliás, uma noite das mais agradáveis. Engraçado como tantas coisas tolas acontecem com todos os cineastas, creio que é algo universal. Ele me contou que quando um filme dele entra em cartaz, o pessoal da produção telefona, imediatamente, contando tudo. E dizem: “Olha, a primeira exibição estava repleta e podemos predizer que o filme vai render mais dinheiro do que qualquer outro que você fez antes”. Isto também acontece comigo. As previsões são as mesmas. Tudo parece fantástico, mas depois, em cinco dias, todas as previsões otimistas desaparecem. Com ele é a mesma coisa (Björkman, 1992: 88).


O que é bom e sempre foi bom para mim sobre as criações dos dois - sem me alongar mais nesse já longo texto - é a capacidade de produzir filmes que são facilmente entendidos por qualquer pessoa. Talvez o espectador menos acostumado com o cinema mais calmo e contemplativo tenha dificuldades de se manter parado, apenas olhando todas as cenas e diálogos de Bergman, por exemplo. Ou não ache engraçado as piadas de Allen. Mas os dois não são artistas herméticos, que dificultam a entrada em seus mundos. Lá dentro, você pode se embrenhar e ir se aprofundando e captando detalhes e comentários mais e mais complexos. Mas a primeira leitura, aquela que podemos ter despreocupadamente, eles permitem a todos. A questão é que, após vê-los, essa despreocupação desaparece.

* essa construção me lembrou a primeira frase de "Moby Dick", sempre citada como uma das melhores da literatura em língua inglesa, mas que cuja tradução sempre me intrigou. A sentença é simples e qualquer pessoa com o menor domínio do inglês consegue entender: "Call me Ishmael". Agora, como traduzir isso? "Call me", sem considerar o contexto, pode ser tanto "Me chamo" ou "Me chamam". O problema é que a expressão começa a frase: devemos colocar o pronome antes, então, e desrespeitar uma das regras mais controversas da ortografia da língua portuguesa? E, ao colocar o pronome no lugar "correto" não estaria optando por uma "formalidade", que não é nem de perto o tom de todo o romance? Bom, deixo as questões sem resposta, propositalmente - porque não as tenho.

sexta-feira, 6 de maio de 2011

Allen sobre Machado


I just got this in the mail one day. Some stranger in Brazil sent it and wrote, "You'll like this". Because it's a thin book, I read it. If it had been a thick book, I would have discarded it.
I was shocked by how charming and amusing it was. I couldn't believe he lived as long ago as he did. You would've thought he wrote it yesterday. It's so modern and so amusing. It's a very, very original piece of work. It rang a bell in me, in the same way that "The catcher in the rye" did. It was about subject matter that I liked and it was treated with great wit, great originality and no sentimentality.
Woody Allen, sobre "Memórias póstumas de Brás Cubas", do Machado de Assis. Daqui. [via]

quarta-feira, 27 de outubro de 2010

Desconstruindo mitos

- É muito interessante, para mim, quando revejo filmes que me marcaram há dez, 11 anos, como é o caso de "Desconstruindo Harry", e percebo que consigo reconhecer os motivos pelos quais gostei do longa, além de ter a grande satisfação que ainda gosto dele, mas agora por outros motivos. Foi como se olhasse para uma paixão adolescente e, mesmo sem a paixão, conseguisse ver o quanto foi - e é - importante para mim. Foi emocionante.

- Borges dizia que, no início de sua carreira literária, ele se aliou ao ultraísmo porque queria parecer antenado com o seu tempo de tantos ismos e necessidades de vanguarda. Dizia ele que tentava ser moderno porque havia se esquecido que era impossível não pertencer ao seu próprio tempo. De maneira inversa - exatamente porque gosto muito de Borges - tentei me isolar de meu tempo e espaço, para, primeiro, fugir à sina que ele tanto imaginava como impossível de se escapar, segundo porque queria imitá-lo, porque na minha interpretação mais primária, não via o quanto o século xx de Buenos Aires estava em todas as suas criações.