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domingo, 29 de março de 2015

Negação da individualidade

"Sentindo necessidade imediata de ordem, e de dar nome ao que existe, apelidou-a de Pequena
Flor." Quando se lê essa frase de Clarice Linspector em "A menor mulher do mundo", conto que Verissimo considera ser o melhor em língua portuguesa, muitas ideias brotam na cabeça. Principalmente quando se lê esse conto logo depois de passar por "Elegbara", a reunião de narrativas curtas de Alberto Mussa, em especial "A cabeça de Zumbi" e "O último neandertal". Há algo aí que junta as duas [ou três] pontas e que nos leva a um outro formato de pensamento.

Ao fim de "... Zumbi", Mussa escreve:
Mas não por muito tempo. Porque Zumbi, mortal eterno, atingindo o ápice do seu ideal, tinha diluído a própria individualidade, disseminando-se como um ente coletivo. Nenhum dos filhos de Deus ousou semelhante grandeza.
Assim, vez por outra, Pernambuco continuava a ver o rosto de Zumbi. Até em mulheres; até em crianças; até em brancos.
Por isso a angústia dos que vêm às cercanias de Palmares ou simplesmente contemplam a serra da Barriga: porque se esconde naquelas matas uma possível negação da singularidade dos seres e da própria ontologia humana; porque, vagando pelas brenhas, certamente ainda há algum Zumbi para morrer.
Ao fim de "... neandertal", ele deixa como moral a seguinte passagem:
Se os nomes comuns serviam para destacar do real tangível classes de entidades de existência meramente cognitiva, os nomes próprios desencadearam a sensação falsa de que cada pessoa era em si uma classe, uma entidade única, criando o artifício da personalidade. Os demais conceitos — alma, família, beleza, propriedade — surgiriam como atributos secundários dessa idéia.
Os neandertais refratários a tal perversão certamente anteviram os efeitos que iria produzir. Não cabe discutir se foram ou não foram mais inteligentes. Fique apenas a imagem do último deles, a um só tempo solitário e coletivo, como que a demonstrar que o indivíduo é uma falácia; que a consciência é uma falácia; que o próprio ser — em sua furna — também é uma falácia.
O que as três narrativas fazem é questionar, de modo brando no caso de Lispector, ou diretamente no de Mussa, a certeza da individualidade, de um existir em separado dos demais, a ideia de que há "um homem" em vez de "os homens", ou ainda "os seres". Um duvidar de que há um ente puro, isolado, em vez de ser simplesmente como que mergulhado num grande mar infinito [talvez os hindus chamem isso de brahman]; um ser em que é impossível determinar as fronteiras, demonstrando como somos unos - e a própria ideia de plural ou singular se torna complicada, já que não haveria nenhuma diferença em relação a isso.

Lispector mostra a surpresa do explorador francês Michel Petre ao encontrar um mulher negra de 45 centímetros no meio de uma tribo de pigmeus na África equatorial. Ele está tomado de um espanto que o leva para longe de todas as certezas acumuladas por anos de ciência racional europeia. Encontra algo que desafia a sua lógica, o que estava acostumado, as verdades assentadas dentro de si. Seu deus, nesse momento, morreu. Não tinha mais em que se apoiar. Era só dúvida. Espalhado, perdido, vagando, sem um porto. Era puro devir. Seu incômodo cresce, não pode trafegar nessas águas tão turbulentas sem algum tipo de apoio. "Na certa, apenas por não ser louco, é que sua alma não desvairou nem perdeu os limites", escreve Lispector. Decide dar à pequena mulher um nome, algo que a retira desse fundo em que ela se confundia, em que ela se sentia parte integrante, e criar uma perspectiva em relação aos demais, como um pintor renascentista. Na necessidade de criar uma "ordem", uma direção, um sentido; fazer um recorte no mundo para que essa parte em separado pudesse ser enxergada. "E, para conseguir classificá-la entre as realidades reconhecíveis, logo passou a colher dados a seu respeito."

Os pigmeus não teriam necessidade de se identificar: "Os Likoualas usam poucos nomes, chamam as coisas por gestos e sons animais." Uma senhora, mãe de uma noiva, personagem do conto, sugere que a tristeza que ela exala não é "humana", mas de "animal". Nós e eles. Uma separação, um limite, uma borda, uma fronteira que nos coloca sobre os demais, hierarquicamente. Já o pai de outra família imagina a pigmeu servindo a sua mesa. Um escravo, um menor, um outro. O mesmo raciocínio.

O explorador sente mal-estar porque sua Pequena Flor sorri. Sorri sem motivo - para ele - sem razão, que ele enxergue. Sorri porque está viva. Está feliz simplesmente por se percebe viva e não morta. Por ser e por não não-ser. Ela não precisa de mais nada além disso, não precisa de qualquer outra bengala para se apoiar e justificar para si sua vida. Ela vive e é isso. Essa falta de motivo aparente violenta o explorador que tem seus apoios, seus objetivos, seus futuros a cumprir. "Esse riso, o explorador constrangido não conseguiu classificar." Como assim sorrir sem razão? Ela sorria porque o amava - e não amava a ele, explorador, simplesmente, mas amava o que o mundo lhe apresentava, amava, por fim, a vida, o viver, o estar viva. Ele fica constrangido e sorri de volta, querendo entender como funciona o diálogo, mas logo volta a si, à razão, à sua História, se recompõe. Toma notas, organiza, classifica. Tenta estabelecer novamente um limite entre um e outro, a divisão da comunhão que havia se estabelecido. A volta a si, dentro de si, o mergulho em sua individualidade, sua subjetividade.

Mussa é explícito no seu argumento: "os nomes próprios desencadearam a sensação falsa de que cada pessoa era em si uma classe, uma entidade única, criando o artifício da personalidade. Os demais conceitos — alma, família, beleza, propriedade — surgiriam como atributos secundários dessa idéia." No seu conto, ele mostra como o neandertal negou a separação do seu entorno, se misturando com o fundo, que todos eram apenas um e um era todos. Ou como o objetivo de vida de Zumbi era não ser ele, apenas, mas ser muitos, todos serem ele e ele ser todos - todos serem todos.

Não é uma defesa de uma forma mais sábia de lidar com o mundo, de viver, de existir enfim, apenas a demonstração que, com esse prognóstico, afirma-se a ideia de um ser único em separação do restante, "como que a demonstrar... que o próprio ser — em sua furna — também é uma falácia". O ser como momento em que o devir é aprisionado, um limite para o espraiar de vida, de força, de vontade nietzschiana - não como uma possibilidade infinita, tal qual Heidegger defende na sua obra capital. Mas um ser que fosse uma fronteira estabelecida, uma determinação de algo que existe independentemente dos demais. Um ser que é quase um não-ser por ser a cristalização de um determinado modo de ser, em vez de se deixar flutuar, navegar, nadar ao sabor do tempo. Um ser que, mesmo que em alguns casos seja momentâneo, permite que se separe, se torne único.

É possível em nossa sociedade extremamente neurotizada e neurotizante ainda se pensar sem a noção do indivíduo? Não é indispensável se pensar movimentos que girem de um lado para o outro, que demonstrem que há a necessidade também de uma constituição para depois haver uma destituição? O equilíbrio dinâmico entre os pontos cardeais? Como perder a soberba de se imaginar único?

quinta-feira, 11 de setembro de 2014

La metahistoria

"Las sociedades son históricas pero todas han vivido guiadas e inspiradas por un conjunto de creencias e ideas metahistóricas. La nuestra es la primera que se apresta a vivir sin una doctrina metahistórica; nuestros absolutos - religiosos o filosóficos, éticos o estéticos - no son colectivos sino privados. La experiencia es arriesgada. Es imposible saber si las tensiones y conflictos de esta privatización de ideas, prácticas y creencias que tradicionalmente pertenecían a la vida pública no terminará por quebrantar la fábrica social. Los hombres podrían ser poseídos nuevamente por las antiguas furias religiosas y por los fanatismos nacionalistas. Sería terrible que la caída del ídolo abstracto de la ideología anunciase la resurrección de las pasiones enterradas de las tribus, las sectas y las iglesias. Por desgracia, los signos son inquietantes."

Octavio Paz, ao receber o Nobel de literatura em 1990.
Alias, todo discurso é genial. Para lê-lo, aqui.

segunda-feira, 25 de agosto de 2014

'El perseguidor' - Cortázar, trecho

Como es natural mañana escribiré para Jazz Hot una crónica del concierto de esta noche. Pero aquí, con esta taquigrafía garabateada sobre una rodilla en los intervalos, no siento el menor deseo de hablar como crítico, es decir de sancionar comparativamente. Sé muy bien que para mí Johnny ha dejado de ser un jazzman y que su genio musical es como una fachada, algo que todo el mundo puede llegar a comprender y admirar pero que encubre otra cosa, y esa otra cosa es lo único que debería importarme, quizá porque es lo único que verdaderamente le importa a Johnny.

Es fácil decirlo, mientras soy todavía la música de Johnny. Cuando se enfría... ¿Por qué no podré hacer como él, por qué no podré tirarme de cabeza contra pared? Antepongo minuciosamente las palabras a la realidad que pretenden describirme, me escudo en consideraciones y sospechas que no son más que una estúpida dialéctica. Me parece comprender por qué la plegaria reclama instintivamente el caer de rodillas. El cambio de posición es el símbolo de un cambio en la voz, en lo que la voz va a articular, en lo articulado mismo. Cuando llego al punto de atisbar ese cambio, las cosas que hasta un segundo antes me habían parecido arbitrarias se llenan de sentido profundo, se simplifican extraordinariamente y al mismo tiempo se ahondan. Ni Marcel ni Art se han dado cuenta ayer de que Johnny no estaba loco cuando se sacó los zapatos en la sala de grabación. Johnny necesitaba en ese instante tocar el suelo con su piel, atarse a la tierra de la que su música era una confirmación y no una fuga. Porque también siento esto en Johnny, y es que no huye de nada, no se droga para huir como la mayoría de los viciosos, no toca el saxo para agazaparse detrás de un foso de música, no se pasa semanas encerrado en las clínicas psiquiátricas para sentirse al abrigo de las presiones que es incapaz de soportar. Hasta su estilo, lo más auténtico en él, ese estilo que merece nombres absurdos sin necesitar de ninguno, prueba que el arte de Johnny no es una sustitución ni una complementación. Johnny ha abandonado el lenguaje hot más o menos corriente hasta hace diez años, porque ese lenguaje violentamente erótico era demasiado pasivo para él. En su caso el deseo se antepone al placer y lo frustra, porque el deseo le exige avanzar, buscar, negando por adelantado los encuentros fáciles del jazz tradicional. Por eso, creo, a Johnny no le gustan gran cosa los blues, donde el masoquismo y las nostalgias... Pero de todo esto ya he hablado en mi libro, mostrando cómo la renuncia a la satisfacción inmediata indujo a Johnny a elaborar un lenguaje que él y otros músicos están llevando hoy a sus últimas posibilidades. Este jazz desecha todo erotismo fácil, todo wagnerianismo por decirlo así, para situarse en un plano aparentemente desasido donde la música queda en absoluta libertad, así como la pintura sustraída a lo representativo queda en libertad para no ser más que pintura. Pero entonces, dueño de una música que no facilita los orgasmos ni las nostalgias, de una música que me gustaría poder llamar metafísica, Johnny parece contar con ella para explorarse, para morder en la realidad que se le escapa todos los días. Veo ahí la alta paradoja de su estilo, su agresiva eficacia. Incapaz de satisfacerse, vale como un acicate continuo, una construcción infinita cuyo placer no está en el remate sino en la reiteración exploradora, en el ejemplo de facultades que dejan atrás lo prontamente humano sin perder humanidad. Y cuando Johnny se pierde como esta noche en la creación continua de su música, sé muy bien que no está escapando de nada. lr a un encuentro no puede ser nunca escapar, aunque releguemos cada vez el lugar de la cita; y en cuanto a lo que pueda quedarse atrás, Johnny lo ignora o lo desprecia soberanamente.
 Todo el cuento acá.

quarta-feira, 6 de agosto de 2014

Which life?

In the short interval between the time when my beard began to sprout and now, when it is beginning to turn grey, in this half-century more radical changes and transformations have taken place than in ten generations of mankind; and each of us feels: it is almost too much! My today and each of my yesterdays, my rises and falls, are so diverse that I sometimes feel as if I had lived not one, but several existences, each one different from the others. For it often happens that when I carelessly speak of “my life,” I am forced to ask, “which life?"
 Stefan Zweig, in The world of yesterday (1942)

sábado, 19 de outubro de 2013

A ginga brasileira em "O drible"

Existe uma possibilidade de explicação totalizante do que-quer-que-seja, como acredita Murilo Filho - e todos, até a sua geração? Provavelmente não. Provavelmente o que podemos fazer é tentar, por meio de uma alegoria, explicar um aspecto qualquer do-que-quer-que-seja e, a partir disso, a partir desse lampejo, dessa faísca, esperar um fogo do saber, que não pode ser contado, comunicado, compartilhado, se alastrar por dentro de si, e repentinamente, sem que se pensasse possível, se sabe, se tem o conhecimento - mesmo que ele não possa ser apreendido dentro da cabeça, porque o apreender seria colocá-lo em palavras, ou seja, englobá-lo, encapsulá-lo, em outras palavras, totalizá-lo, e, aí, se perderia novamente. Apenas se sabe. É carnal, ultrapassa a fronteira do puro racional e se espalha pelo corpo todo.

Por que essa introdução empolada? Para tentar explicar que livro [!], de que tamanho que é "O drible", novo livro de Sérgio Rodrigues - e "pai" do personagem supracitado Murilo Filho, apesar de "pai", neste livro, não ter uma acepção fácil. Sérgio escolhe o futebol para tentar não explicar, porque aí cairíamos na desgraça da totalização, mas "pensar" o Brasil, mais especificamente no século XX, na segunda metade deste século tão estranho. Pensar o Brasil - adentrando alguns dos seus meandros, das suas principais qualidades e mais difíceis defeitos. Que país construímos, como nós nos identificamos, o que vemos, quando olhamos para o espelho.

São dois os personagens principais: Murilo Filho e Murilo Neto, pai e filho, sendo que há um antagonista claro, Peralvo, um personagem que permeia toda a obra e é quase a personificação, quase a humanização do que é o Brasil [se isso fosse possível]: o filho de uma mãe de santo com um europeu, que se cruzaram, não se sabe muito bem como, em uma cidade ínfima no interior de Minas Gerais. Um menino que demora a falar, como um Brasil que demorou a ser visto até como uma terra a ser explorada, e que começa a se comunicar exatamente numa derrota, quando o Brasil perde para o Uruguai em 1950. Traça ali o seu destino: seria jogador de futebol.

O futebol, nesta obra, é mais que um pano de fundo: a linguagem está encharcada dele.
Esse drible do Pelé no Mazurkiewicz é
importantíssimo no livro [ver aqui]
Aparece até mesmo em sua ausência: se Murilo Filho é um cronista esportivo da grande geração brasileira de cronistas que povoou nossas redações, dos anos 1950 até, no máximo, 1990, entre Nelson Rodrigues e Paulo Mendes Campos, para ficar em dois exemplos citados, Murilo Neto ignora o esporte, mas sua fixação com a cultura pop dos anos 1970 é interpretada como um paralelo ao do pai pelo futebol: são colecionadores de lembranças. São arquivistas de emoções passadas. Murilo Filho despreza o filho, desde pequeno, mas ele tenta, de todas as maneiras, chamar a atenção do pai - inclusive, tentando jogar bola. Infrutiferamente.

Esse é o esqueleto da obra. Encarnando esse organismo, está o desbunde de uma geração que se descobria no fim da década de 1950 e início da seguinte, pela primeira vez talvez na vida, talvez na história, livre; o baque e a violência com o golpe de 1964; a repressão que se transformou em uma máquina de sangue, e que acabou não apenas com utopias, mas com vontades e coragens; e os anos anestesiados de 1980, que estávamos aprendendo novamente a escutar nossa voz - talvez ainda não tenhamos aprendido, talvez não aprendamos nunca, talvez aprender seja uma constante que nunca termina. Há a música da bossa nova e o rock brasil. A literatura de Nelson e Machado de Assis. Mas, sobretudo, há o futebol.

O livro mostra o cotidiano das relações entre jogadores, jornalistas, dirigentes inescrupulosos [um certo sr. Miranda, do Vasco], massagistas pais de santo, olheiros, e toda a fauna que gravita em torno, e dentro, das quatro linhas. Narra também partidas épicas em estádios esquecidos, que têm sabor de lenda, em que Peralvo marca dez gols, sozinho, em um único tempo, e é perseguido por matadores ainda dentro do campo. Ou quando Peralvo joga possuído por uma entidade de outro mundo contra Pelé.

Além de todas as possibilidades interpretativas, há ainda a forma: vários estilos e vozes narrativas, que mudam o ponto de vista a toda hora, deixando a leitura mais dinâmica, e quase de acordo com as mudanças do estilo do próprio Murilo Filho [aliás, uma homenagem clara ao Mário Filho, que é, entre outras tantas coisas, autor de "O negro no futebol brasileiro"]. Começa com uma conversa entre pai e filho, sendo que só o pai fala, num tom de diálogo sem resposta, mais ou menos o que acontece em "Grande Sertão: Veredas", passa por um realismo fantástico, em que Peralvo é capaz de enxergar auras e antecipar em cerca de um segundo o mundo - uma grande vantagem para um jogador de futebol -, resvala numa literatura pop, tipo Nick Horby, volta para o diálogo rosiano, e termina num monólogo interior de Murilo Neto. Se isso não bastasse, há um humor entremeando todo o livro, e uma ação que empurra para frente o leitor, e o faz cair no muito conhecido - e pouco experienciado - paradoxo do livro que você não quer que acabe, mas também não quer parar de ler.

O autor, o autor
São diversas passagens que dariam interpretações imensas, que poderiam conjecturar sobre cada um dos elementos, como os seres que são conjurados a Peralvo por sua mãe: Oxóssi, Dom Sebastião, o Judeu Errante, Olorum, Seu Sete, o Enforcado, Joana D'Arc. Todos eles têm explicações prováveis no próprio texto. Todos eles contêm segredos que podem ser desdobrados e que dariam outras histórias.

Até mesmo o que, em uma primeira interpretação, poderia ser visto como o ponto fraco do livro, o suicídio da mãe de Murilo Neto, esposa de Murilo Filho, - já que é um assunto muito distante do ambiente do livro, parecendo gratuito - consegue ter uma explicação, ao fim, que remonta à história de nossa literatura, e que passa, novamente, por Nelson, Machado, de uma maneira bem real por Euclides da Cunha e, o autor não coloca, mas eu acrescentaria, Jorge Amado.

Ao fim, ficamos com a certeza de que Sérgio conseguiu trazer o futebol para explicar a vida, já que o inverso, como Murilo Filho explica, não é possível. "Há entre os dois uma simetria, um descompasso no qual não me surpreenderia que coubesse toda a tragédia da existência." Não poderia ser mais preciso.

quinta-feira, 17 de outubro de 2013

Brasil x Uruguai: o nosso maior clássico

No primeiro - e excepcional - capítulo do novo livro de Sérgio Rodrigues, "O drible" (que será lançado na noite desta quinta-feira no Shopping Leblon), um dos personagens, que ainda não está totalmente exposto, fala sobre uma das cenas mais famosas da Copa de 1970, da Seleção, e, talvez, de toda a história do futebol: o não-gol de Pelé contra o goleiro uruguaio Mazurkiewicz, em que o nosso camisa 10 dá um drible da vaca, deixa passar a bola por um lado do guarda-balisa e chega nela pelo outro e chuta para a meta - mas erra, milimetricamente. Realmente é um lance impressionante [como se pode ver abaixo] - e a narração no livro desse lance não fica muito atrás de sua origem.


O personagem que narra o drible explica o seu fascínio por este momento específico: "Pelé desafiou Deus e perdeu. Imagine se não perdesse. Se não perdesse, nunca mais que a humanidade dormia tranquila. Pelé desafiou Deus e perdeu, mas que desafio soberbo. Esse gol que ele não fez não é só o maior momento da história do Pelé, é também o maior momento da história do futebol."

Ao ler essa frase, e todo o capítulo, fiquei pensando que, talvez, nosso maior adversário, nosso maior rival, não seja a Argentina. A Argentina talvez seja famosa hoje em dia porque teve Maradona, que os nossos vizinhos insistem em dizer que era maior que Pelé. Nossa questão com eles, tendo a sugerir, é mais de aversão, por conta do que nós consideramos como soberba. Todavia, não consigo lembrar um jogo tão importante que tenhamos disputado com eles. Já contra o Uruguai... Há, ao menos para a minha geração, três marcos históricos, três pontos que nós lembramos e somos lembrados sempre, como aqueles em que nós nos construímos. E em todos eles há ligação com o Uruguai.

O primeiro, e o mais óbvio, seria o Maracanazo. O maior estádio do mundo. Um time até então imbatível. Uma torcida de milhares de pessoas. Apenas a necessidade de um empate. E aí...


Esse primeiro momento marca o que foi chamado por Nelson Rodrigues de "complexo de vira-lata", nossa pré-história, aquele momento que nós éramos cidadãos de segunda-classe, nós não éramos nós mesmos. Ainda não tínhamos descoberto nossa brasilidade, nosso jeito de ser e agir. O Maracanazo é quase a demonstração prática de que "não vamos dar certo". Não adianta ser o melhor, temos que ganhar. O 2x1 para eles, de virada, foi, provavelmente, a maior humilhação que nossa seleção tomou.

Já o segundo momento seria exatamente esse jogo nas semifinais da Copa de 1970, o tal "maior momento da história do futebol", como descreve o personagem do Sérgio. É o ápice da superação desse complexo de inferioridade, o momento em que o futebol virou uma das nossas principais características, nossa principal afirmação, nossa identidade. O processo que tinha se iniciado em 1958, com a primeira conquista, chegava ao cume na melhor das copas, vencida pelo melhor dos times. Vencemos a partida contra o Uruguai por 3x1, em um jogo em que Pelé não marcou na copa do México. Não precisava. Já tinha se imortalizado.

Depois de 1970, o Brasil entrou num jejum de títulos mundiais que durou 24 anos. É uma fase de depressão, quase revisitando o momento "vira-lata". Era a ressaca de uma ditadura que aterrorizou os brasileiros de diversas maneiras por 21 anos. Não podíamos mais ser nós mesmos, porque isso era ser contra o que se determinou ser Brasil.

Já na década de 1990, após passar por Sarney e Collor, o Brasil começava a se reerguer. E, para ir para a Copa dos EUA, em 1994, teria que enfrentar, pela última rodada das eliminatórias exatamente ele, o nosso maior adversário, Uruguai, em uma outra oportunidade. Mas por que esse jogo deve figurar como um dos mais importantes do Brasil de todos os tempos? Talvez não seja exatamente um clássico no mesmo nível dos anteriores, já que, para começar, nem de Copa era. Mas para mim, para a minha geração, esse jogo representou exatamente a volta da esperança. Uma ideia de que podíamos, de novo, ganhar uma copa, não era mais algo tão inacreditável.


Além disso, esse jogo "final" foi aquele em que Romário, finalmente, tinha sido convocado para a seleção, após uma campanha imensa que só faltou o presidente Itamar Franco se meter. Foi o jogo que fez Parreira aceitar que Romário era imprescindível. Que ele era um supercraque indiscutível. E foi importante para ele, Romário, mostrar para o técnico que não era tão indisciplinado, como sua fama o anunciava.

A partida foi eletrizante. Para os brasileiros, principalmente. Foi o típico jogo de um time só. Era ataque contra defesa. Nossa superioridade, nossa vontade, não deixaram o drama de 43 anos antes se instalar novamente no Maracanã. Romário também contribuiu. Sempre foi um perigo, conseguindo meter uma bola no travessão logo de cara. Mas o gol, apesar da grande pressão brasileira, não saiu no primeiro tempo.

Na metade final, o gol ainda fez um pouco de doce. Mas era questão de tempo, mesmo. E saiu numa jogada que, apesar dos oficiais 1,68 m de Romário, acontecia com razoável frequência: um gol de cabeça do Baixinho. Por fim, para fechar o caixão, uma jogada que, por uma dessas coincidências que o Deus do futebol gosta de aprontar, lembra bastante o de Pelé, 23 anos antes.

Romário é lançado e sai correndo. Está cara a cara com o goleiro Siboldi, exatamente como Pelé estava com Mazurkiewicz no México. Romário joga o corpo para dar o drible da vaca, assim como Pelé havia feito, mas, 23 anos depois, o guarda-metas uruguaio já esperava essa reação e vai se encaminhando para, esquecendo a bola, fazer a falta no atacante brasileiro; Romário, por sua vez, também, já esperava a reação à sua ação, e consegue entortar o corpo para o lado oposto de onde tinha ameaçado primeiramente ir e, em vez de fazer o drible em que ele passa por um lado e a bola pelo outro do arqueiro, decide continuar seguindo a bola, driblando o goleiro pela obviedade. Assim, ele alcança a bola e, diferentemente de Pelé, faz o gol.

Poderíamos gastar páginas e mais páginas sobre a discussão do que é mais importante, o drible ou o gol. Se foi mais importante Romário ter feito um lance menos bonito, mas mais eficiente, ou a jogada Pelé foi tão perfeita que ele quase errou ao fim, só para dar um caráter de incompletude, mais ou menos como Michelangelo afirmava sobre suas esculturas que ele deixava sem terminar. Melhor que essa discussão quantitativa, é pensar como a história de um lance pôde enriquecer o outro e que, sem querer comparar os gênios da bola, estamos falando de jogadores fora-de-série, que conseguiam tomar decisões em milissegundos, "tão rápidas são essas operações mentais, chamamos de instinto", como escreve Sérgio, via seu personagem, no livro. Um privilégio para nós brasileiros que ambos tenham vestido a Canarinho.

Em nosso principal clássico, portanto, nos jogos mais marcantes - para mim - estamos vencendo. De 2 x 1. Nesse caso, porém, o juiz nunca vai apitar o fim da partida.

sexta-feira, 11 de outubro de 2013

O verdadeiro cínico

[...] Quincas Borba já adulto, quando o menino que gostava de representar qualquer personagem que tivesse “supremacia” se torna um mendigo. Filósofo, mendigo  e ladrão, que lhe rouba um relógio nesse reencontro .
Nesse momento é quase impossível não lembrar de outro filósofo que poderia ser visto, pelos padrões atuais, como um mendigo: Diógenes, o cínico, um dos filósofos com maior número de anedotas ligadas à sua biografia. Entre as mais famosas está a que mostra um encontro entre ele e Alexandre, o Grande. Quando o conquistador lhe pergunta o que poderia fazer por ele, o filósofo apenas pede que ele saia de sua frente porque estava lhe tapando o sol. Consta também que Alexandre teria dito que se não fosse Alexandre, gostaria de ter sido Diógenes. Outra história associada ao nome do filósofo nascido em Sinope lembra que ele usava uma lanterna, mesmo durante o dia, para procurar um homem verdadeiro. Tendo estudado com Antístenes – um dos discípulos de Sócrates – e com um pensamento que teria influenciado os estóicos, diz-se também que ele vivia apenas em um barril à guisa de casa e que teria abandonado a cuia que carregava para beber água quando observou um menino usando as mãos para o procedimento e percebeu como ainda vivia com supérfluos.
Além de cínico e de ser um homem sem posses, que unem tanto Quincas Borba como Diógenes, há ainda uma terceira questão – também anedótica, mas que não poderia ser diferente num autor que se propõe ser além de filosófico, também humorístico – é a ligação com os cachorros. Diz-se ainda que Diógenese se comportaria como um cão, sendo esse também uma das formas como ele ficou conhecido. Aliás, o termo “cínico” vem do grego kynikos, a forma adjetiva de kynon que quer dizer “cão”.

[Trecho de monografia que aborda Diógenes, talvez o primeiro filósofo de quem eu ouvi falar.]

quinta-feira, 10 de outubro de 2013

O individualismo que é a farinha nossa do dia a dia

Um tempo depois da morte de seu amigo David Foster Wallace, o também escritor americano Jonathan Franzen resolveu encarar a realidade: o autor de pérolas literárias como Infinit Jest realmente tinha se matado, em casa, sem dar nenhum aviso prévio mais claro. Após uma longa reflexão, analisando diversas nuances da personalidade de Wallace, Franzen consegue admitir: havia sido uma atitude wallaciana.

Esse processo de reflexão é narrado em um longo ensaio publicado na New Yorker em 2011, em que Franzen fala também sobre uma viagem que ele fez para as ilhas onde teria vivido o homem que inspirou Daniel Defoe a criar seu Robinson Crusoé. Daí o grande tema desse excepcional texto não seja, portanto, apenas a morte de Foster Wallace, mas algo que também engloba isso: o individualismo.

É complicado marcar a data, a hora e o lugar onde se nasce uma ideia, principalmente se ela for compartilhada por uma sociedade inteira, ainda mais se ela se tornar hegemônica em todo o mundo. Mas num exercício literário ou poético, poderíamos sugerir - e é o que muita gente boa faz - que o famoso livro de Defoe, considerado o primeiro novel do mundo anglo-saxão, seria esse símbolo que precisamos.

Robinson Crusoé está ilhado e só depende dele e da fortuna para sobreviver. A sociedade, como a conhecemos, está a milhas de distância, e ele pode ignorar os padrões morais estabelecidos. Ali, o homem estava de volta à natureza, quase antecipando as ideias de Rousseau - que, como nos fala Franzen, era um grande fã do livro. O homem, neste livro, e a partir de então, está sozinho, livre, independe do outro. Não há mais um Deus que possa impor suas vontades. E Franzen lembra que a obra nasceu dentro do contexto de uma Inglaterra muito bem economicamente, além de ter já uma tradição de quase 200 anos de um protestantismo estranho e exótico, que não tem igual em nenhum lugar. Robinson Crusoé é o indivíduo elevado ao máximo da sua potência - e com todas as consequências que isso pode trazer.

Franzen e Wallace, ainda novinho, e um sujeito à esquerda que eu não sei quem é [daqui]
Ao ler o artigo de Franzen, me lembrei de uma palestra do Roberto DaMatta na British Library ano passado falando sobre Jorge Amado. Bastante exaltado, ele chegou até a dizer que “vocês [europeus] é que deveriam estar discutindo Jorge Amado, não nós [brasileiros]”. O ponto dele era claro. Se Crusoé marcou o início da literatura como nós a conhecemos na Inglaterra, teria sido Jorge Amado quem fez esse papel no Brasil.

Exageros à parte, o grande argumento seria que se Defoe mostraria o arquétipo da civilização anglo-saxã como sendo individualista, Jorge Amado, com sua dona Flor e os seus dois maridos, teria mostrado que, no Brasil, a ideia do individualismo não tinha pego. Para começar pelo óbvio, Flor não estava sozinha, ao contrário: tinha dois maridos. Dois maridos antagônicos, que são os arquétipos do trabalhador e do malandro. Ou seja, nossa sociedade era, por definição, relacional, e fora dos padrões estabelecidos pelos países europeus. Para usar o exemplo mais à mão, nosso casamento era oficialmente monogâmico, mas arranjávamos um jeito de burlar essa regra. Essa e qualquer outra. Inclusive caindo no famoso dilema da dosagem desta informalidade: qual é a diferença entre o remédio e o veneno?

O que, aliás, pode ser uma das causas do forte movimento de negação que nasceu daí. Um sentimento que os anglo-saxões chamam de backlash, e que não dá para ser traduzido simplesmente como "retrocesso". Talvez a imagem da onda do mar indo e voltando, como uma repetição que vai acontecer sempre, seria o melhor. Um movimento que acompanhou o deslocamento da importância da produção cultural do Rio para São Paulo, e, como uma cópia em larga escala dessa prática, do Nordeste para o Sul.

Além disso, essa interpretação do Brasil via Jorge Amado poderia ser possível até um tempo em que as fronteiras dos mundos eram mais claras e havia uma distinção mais acentuada entre as identidades nacionais. Ou, ainda: nós nunca nos importamos, realmente, verdadeiramente, com o outro, independentemente do fenômeno da globalização. Como escreve Luiz Ruffato no excelente texto de abertura da Feira de Frankfurt, "a história do Brasil vem sendo alicerçada quase que exclusivamente na negação explícita do outro, por meio da violência e da indiferença". Além disso, se todos os países se acham no direito de ser exemplos de grandes contrastes, o Brasil realmente tem fatos e números que nos fazem vergonhosamente campeões nesta categoria: "75% de toda a riqueza encontra-se nas mãos de 10% da população branca e apenas 46 mil pessoas possuem metade das terras do país". Não seria mais um caso de contraste, mas de paradoxo.

Luiz Ruffato lá em Frankurt
Como se dissesse que sempre fomos individualistas, mas de uma maneira ainda mais cruel que o caso anglo-saxão. Em vez de um egoísmo disfarçado de altruísmo, como diria Nietzsche, o exacerbamento do ideal marcado pelo ditado de "farinha pouca, meu pirão primeiro". Se as classes dominantes querem perpetuar o sistema para manter seus privilégios, sem perceber que esse caminho é uma bomba relógio, as classes médias e baixas têm como ideal se tornar elite para ter os mesmos privilégios. Ninguém quer interromper esta ordem para chegar ao progresso - individual.

Ou como muito melhor disse Ruffato: "Voltamos as costas ao outro - seja ele o imigrante, o pobre, o negro, o indígena, a mulher, o homossexual - como tentativa de nos preservar, esquecendo que assim implodimos a nossa própria condição de existir. Sucumbimos à solidão e ao egoísmo, e nos negamos a nós mesmos".

Talvez a saída para esse dilema do "indivíduo" esteja dormindo na famosa e muito citada - por mim - última entrevista de Heidegger, quando ele diz que apenas um Deus pode nos salvar. Claro que ele não está pedindo a volta de uma religião como a católica que nos dizia o que era certo ou errado, mas que nós - seres humanos, que ele chamava de Dasein - tenhamos um objetivo para além da nossa individualidade. Que consigamos transcender esse limite do "um" que nos destina de maneira irrefutável, como muito bem explicou Casanova, ao tédio, ao enfado. Exatamente o que Franzen fala sobre Foster Wallace: David died of boredom.

domingo, 29 de setembro de 2013

Pela 'Barba...' do Galera: a livre vontade e o fado

Como toda obra de arte, "Barba ensopada de sangue", de Daniel Galera, pode ser interpretada de inúmeros ângulos, além de não ser isenta de pontos menos brilhantes. Geralmente, ambos os fatores estão conectados, o que especificamente é o caso. 

Assim como seu protagonista sem nome, Galera também tem [ou teve] barba
e também gosta de nadar
As descrições do cotidiano do personagem principal, um jovem gaúcho que não é nomeado em todo o livro, às vezes pecam pelo excesso de, exatamente, cotidiano. Há uma necessidade muito grande, e às vezes exagerada, de situá-lo no tempo e no espaço. Penso, por exemplo, no aparentemente alongado comentário sobre as eleições municipais do pequeno município de Garopaba, que dão vontade de bater de ombros.

Mas esse exagero descritivo - que abarca não apenas os gestos cotidianos, mas também as feições dos personagens e ambientes, que caem inevitavelmente em momentos poéticos que podem desagradar os menos ligados a uma forma de contemplação não referencial - faz completamente sentido dentro de um contexto em que o personagem principal tem uma doença que o faz esquecer completamente os rostos das pessoas que ele conhece em questão de minutos.

Aliás, esse ponto cria para o autor um excelente problema narrativo, já que ele vai ter que descrever as personagens com o maior nível de detalhamento possível para poder registrar, para o seu personagem, a identidade das pessoas em um outro formato de linguagem.

Identidade. Esse é um dos grandes temas deste livro de Galera - o escritor mais gaúcho dos paulistas. Como sabemos quem somos? Somos identificados com um nome, com um rosto, com um passado, com nossos antepassados, com nossos movimentos, com a nossa formação acadêmica, com nossos gostos, com nossa forma de rezar, com um tique? Esse assunto pode - e deve - ser interpretado por páginas e páginas, com excelentes exemplos do livro.

Vou optar por falar sobre um outro aspecto que também permeia todo o livro, talvez não explicitamente, e que também pode ser vivido fora das páginas do livro. Um assunto que cala mais fundo na minha forma de ver o mundo. Quem é que segura o timão de nossas vidas? Há o livre arbítrio ou estamos todos fadados a seguir adiante um plano desenhado por um Destino?

Peço licença para tergiversar rapidamente. Aos 17 anos, Nietzsche escreveu o seu primeiro texto que pode ser considerado como filosófico. É um ensaio curto que se chama "Fado e História" [daí eu ter usado no parágrafo passado "fadados"]. Como é apresentado, o pequeno artigo vai tratar de uma maneira ainda bastante simples, e sem a raiva dionísica que vai pintar todos os seus futuros escritos, temas que Nietzsche vai pensar a vida toda: religião, doutrina cristã, Deus, moral, eterno retorno etc. Mas como o título adianta, o texto fala muito e principalmente sobre "fado" e "história".
[N]a medida em que o homem é arrastado nos círculos da história universal, surge essa luta da vontade individual com a vontade geral; aqui se insinua este problema infinitamente importante, a questão do direito do indivíduo ao povo, do povo à humanidade, da humanidade ao mundo; aqui se acha também a relação fundamental entre fado e história. A mais elevada concepção da história universal é impossível para o homem; mas o grande historiador, tal como o grande filósofo, torna-se profeta; pois ambos fazem abstração dos círculos interiores para os exteriores.
Para logo em seguida perguntar: "Não nos vem tudo ao encontro no espelho de nossa personalidade?"

É, como se percebe, a discussão entre livre arbítrio e destino. Ou, como uma personagem importantíssima, mas praticamente ausente, fala no finzinho do livro de Galera: "Ou existe livre-arbítrio ou não existe. Se o ser humano é um agente livre, se temos escolhas, podemos ser responsabilizados. Se não existe, se o universo é predeterminado pelas leis da natureza e tudo não passa do resultado do que aconteceu logo antes, aí ninguém tem culpa do que faz. Nem rancor nem perdão fazem sentido."

A resposta do protagonista, que se acha um inculto nadador, é digna deste jovem Nietzsche: "Quero dizer que as duas alternativas me parecem erradas. Ou as duas tão certas ao mesmo tempo. Duas respostas certas pra pergunta errada." E umas linhas abaixo: "Sei que não existe escolha e que mesmo assim a gente precisa viver como se existisse. Só isso."

As palavras parecem complementar as do filósofo ainda imberbe: "A vontade livre aparece como aquilo sem vínculos, arbitrário: é o infinitamente livre e errante, o espírito. O fado, porém, é uma necessidade, se não quisermos acreditar que a história do mundo é um sonho incerto, as indizíveis dores da humanidade são invenções, e nós mesmos joguetes de nossas fantasias. Fado é a infindável força de resistência contra a livre vontade; livre vontade sem fado é tão pouco concebível como espírito sem real, bem sem mal. Pois só a oposição cria o atributo...".

O que ambos estão demonstrando em seus discursos é a inocência que é pensar a vida apenas como títeres de um grande arquiteto do mundo, de um escritor cansado que já escreveu o épico de nossas vidas e que agora assiste a tudo deitado no seu sofá, entediado. Porém, não há como trazer para o homem, esse homem comum, de todos os sexos, o poder de todas as decisões, porque há limites claros entre o que ele pode e o que ele não consegue fazer. Pensar que o homem substituiu Deus em seus atributos é levar a vida seguindo a ideologia da Xuxa, quando ela afirmava que "querer é poder". O que não é nem aconselhável, quiçá desejável.

Os dois também estão dizendo que há uma combinação, que pode ser vista como cruel entre esses dois elementos, mas que deve ser encarada com coragem quase estoica. Mesmo que não tenhamos todas as possibilidades de ação, que sejamos forçados por circunstâncias a tomar determinadas atitudes, devemos encará-las como nossas responsabilidades. Devemos enfrentar suas consequências, não com a culpa cristã que arrasta correntes como assombrações, mas o peito aberto que os mitos gregos enfrentavam sua sina, após terem sido avisados por deuses amoralistas que voltavam para o Olimpo logo em seguida.

Nietzsche diz ainda da necessidade de ligação entre esses dois elementos, em como só haveria a possibilidade de existência com os dois elementos. Na ausência de um, o outro também pereceria, e na ausência de ambos [caso isso fosse possível], provavelmente - e agora especulo - ambos renasceriam com outro formato, outro nome.
Na livre vontade está para o indivíduo o princípio da singularização, da separação do todo, da absoluta irrestrição; mas o fado torna a colocar o homem em ligação orgânica com a evolução geral, e o obriga, na medida em que busca dominá-lo, ao livre desenvolvimento de forças contrárias; a livre vontade absoluta, sem fado, transformaria o homem em Deus, o princípio fatalista em um autômato.
Em última análise, sempre temos escolhas. Mas nem sempre as escolhas foram escolhidas por nós mesmos. Mesmo em um restaurante de prato único, pode escolher não comer nada. Mas como Nietzsche - esse já o maduro e bigodudo de "Genealogia da moral" - diz, "o homem preferirá ainda querer o nada a nada querer...".

O livro de Galera sugere, talvez de uma maneira muito fatalista, que sempre estamos no meio do nosso devir rumo a um futuro possível, quase provável, e que nos traz, vez por outra apenas, a possibilidade de nos surpreender. Mas diferente de se colocar como vítima de um mundo cruel que só trouxe opções negativas, o protagonista sugere abraçar o seu fado, como abraçou o seu passado, que o constrói. Talvez demonstrando que entre o instantâneo presente, o futuro imaginado e o passado que se apaga com os rostos, há uma ligação mais forte que podemos apreender cotidianamente em nossa pobre e limitada linguagem.

quinta-feira, 26 de setembro de 2013

Contra a ironia

O autor de um enunciado irônico se distancia daquilo que ele mesmo diz, no ato de dizê-lo. Pense numa discussão em que alguém, em vez de argumentar a favor ou contra os diferentes pontos de vista, apenas ironize aquilo que é dito. De certo modo, essa pessoa não está apenas se colocando fora da discussão, pairando acima da disputa como se fosse superior a ela, mas também permanece fora das próprias frases que pronuncia, pois é impossível saber aquilo que ela realmente pensa sobre o que é dito. Enquanto quem argumenta de alguma forma se coloca no que diz, pois a frase define sua posição diante do assunto, quem ironiza se mantém numa zona difusa. Ainda que a ironia sugira que o que é dito não é aquilo que se pensa ou quer dizer, isso que é dito tampouco é diretamente refutado. A ironia não estabelece argumentos, mas sim um jogo, no qual as posições mais distintas (e duras) são transformadas numa matéria maleável, a ser manipulada livremente.   
Para Foster Wallace, o deslizamento irônico no limite inviabiliza qualquer relação humana significativa, porque as pessoas se manteriam guardadas, protegidas, em alguma medida de fora ou acima do que dizem, fazem, são. Ao não se comprometer com nada, a não ser com o próprio movimento, a ironia acabaria por reiterar uma lógica de consumo superficial, tratando o diverso como igual, fazendo de tudo uma matéria comum e descartável, mero pretexto para a paródia e o escárnio.
 Miguel Conde, escrevendo sobre um dos pontos que mais me interessa em David Foster Wallace.

quarta-feira, 25 de setembro de 2013

Beatriz Sarlo, Borges e os russos

Talvez tenha sido coincidência, uma série de acontecimentos que levou à crítica cultural argentina - apresentada como a maior intelectual latino-americana - Beatriz Sarlo ficar conosco durante tanto tempo. Para falar a verdade, não foi tanto tempo assim. Apenas um dia e meio, mas foi intenso. Tivemos ao menos três conversas longas, inclusive uma grande entrevista que vai sair na "Revista de História da Biblioteca Nacional" em algum momento. E falamos de muitos assuntos: Brasil contemporâneo, mercado editorial, racismo, música, Vinicius, subjetividade, cinema argentino independente, Lula, Antônio Candido, história, literatura e, claro, Borges.

Sarlo é autora de Borges, un escritor en las orillas, um livro em que ela mostra todo o caráter argentino do escritor que é muito conhecido pelo seu cosmopolitismo. Em um grande resumo, ela explica que Borges consegue criar uma chave de interpretação para o seu país - mais ou menos como Roberto Schwarz, de quem ela é muito amiga, fez com Machado de Assis em Um mestre na periferia do capitalismo.

Isso a catapulta à maior conhecedora / especialista de Borges do mundo? Improvável saber. Não há uma escala para medir isso. De toda forma, ela é a mais famosa pensadora argentina, abordando um dos principais temas da Argentina. Porque, como ela diz, "nenhum argentino chega a Borges", ele já está lá. Daí, pudemos conversar vários aspectos borgianos, mas um, que sempre me intrigou, foi o principal para mim.

É curioso que um escritor onívoro como Borges tenha deixado de lado toda uma tradição literária importante, como é inegavelmente a russa. Não há em seus comentários quase nenhuma citação a Dostoiévski. Nunca li nada dele sobre Tolstói, ou mesmo Tchekhov - outro contista como Borges.

"No conjunto de livros de Borges que está na Biblioteca Nacional da Argentina", contou Beatriz, "Só há um livro de Dostoiévski, com poucas anotações, e um de Tolstói, com nenhuma marcação. Nada de Tcheckhov", diz ela, lembrando que Borges gostava de escrever, com a sua letra miúda, nos livros que lia.

Sempre interpretei essa aversão de Borges pelos russos - aversão que me influenciou bastante - como uma diferença de temperamento. Borges, muito influenciado pelos pragmáticos e aventureiros anglo-saxões, não teria muita paciência com os sofredores e profundos eslavos. Era uma questão de gosto, simplesmente. Beatriz confirmou.

"Alguns contos de Dostoiévski, porém, eu acredito que ele poderia gostar, se tivesse lido", explicou ela, deixando claro que eram contos específicos. "Mas eles não estavam traduzidos quando ele estava vivo ainda." E foi então que ela contou algo que eu senti com bastante similaridade: a tradução antiga para o espanhol, via o francês, era horrível. Pomposa, exageradamente barroca. Açucarava o que não precisava de doçura. Mais ou menos o que havia no Brasil, antes da razoavelmente recente onda de traduções direta do russo aqui.

Beatriz contou que ela mesma só entendeu Dostoiévski quando leu uma tradução feita por uma russa-alemã que nasceu na pátria de Fiódor e cresceu na de Goethe e que, segundo ela, é excelente. Borges, que lia em alemão, também não teve a sorte de ter essas traduções. Dei mole e não anotei o nome da senhora tradutora que fez o milagre, mas segundo Beatriz, que aprendeu o alemão com quase 60 anos, vale a pena encarar mais uma língua, e logo que língua!, para ler essas traduções.

Ano que vem, Beatriz, ano que vem.

domingo, 8 de setembro de 2013

Autoficção e a 'abolição da gravidade'

Não é de hoje que se fala em autoficção. Os artistas-escritores sempre usaram suas próprias subjetividades para criar suas obras, mas com a autoficção esse limite, que parecia claro, óbvio [verdade x mentira, ficção x não-ficção], ficou mais esfumaçado, já que um dos recursos é usar a própria vida como "fonte direta", não apenas como inspiração para um retrabalho.

Mas qual seria, então, a diferença para a autobiografia? Seria a autoficção um elemento da chamada metalinguagem, em que se brinca com os códigos dados, o que seria "real" e o que seria "invenção"?

Não creio - apenas nisso. De maneira bastante rasa, poderíamos dizer que o processo da autoficção é exacerbar o elemento "real" na produção de textos literários. Mas é extremamente complicado criar parâmetros para dizer onde começa a ficção, onde se inicia a autoficção e o que é a autobiografia pura. Para isso, deveríamos acreditar na possibilidade de se produzir, criar sem qualquer elemento próprio, sem qualquer inspiração, e, a partir daí, criar parâmetros para delimitar essas fronteiras. Não há essa possibilidade, nem essa régua, que mapeie matematicamente as divisões entre os chamados gêneros. Ainda bem.

Como mais ou menos escreve o professor Gustavo Bernardo em "O livro da metaficção", o mais provável é que, ao escrever, mesmo o mais científico e isolado texto, estivéssemos produzindo só e simplesmente ficção. Os demais nomes aplicados à narrativa são formas de tentar explicar, não nos perder diante de uma avalanche de informação.

Dante e Virgilio no inferno, visto por Delacroix
Dá para perceber, porém, que, se admitirmos essa qualificação como diferencial, a chamada autoficção não foi inventada nesse século, nem no passado. Exemplo maior disso, eu sugeriria, é a "Comédia", de Dante, chamada divina. Antes que receba um apedrejamento em espaço virtual público, meu argumento se baseia no fato de o próprio Dante ter se colocado como personagem do livro que escrevia, mostrando como ele, e não outra pessoa, teve que ir até o inferno por sua Beatrice.

Não que, na dita "vida real", ou em vida, ele tenha passado por purgatório e chegado ao paraíso, mas o fato de se colocar como protagonista, e não outra pessoa, com qualquer nome, dá argumentos para se pensar o quanto não haveria diferença entre a "realidade" e a "ficção", para ele, Dante. Talvez Dante não tenha conhecido os círculos do inferno, mas queria que as pessoas que lessem sua obra achassem isso, achassem que ele tinha ido até as profundezas da vida - e da morte - por amor.

E não é essa a intenção de todo autor, artista, produtor [no sentido grego da palavra poiesis que quer dizer grosso modo "fazer", mas que é a origem de nossa "poesia"]? Dizer que o que ele faz/produz/escreve é a verdade? Ou ainda: não sonha todo artista em atingir, mesmo que momentaneamente, de relance, num lapso, a Verdade?

Outros casos usam de artifício inverso: retratam suas vivências, sem "literatices", mas mudam o nome de seus protagonistas. Penso, principalmente, no pessoal americano da década de 1950-60, como os beatniks, Bukowski, Fante. Na virada do 1990 para o 2000, eles voltaram como referência para um grupo forte influenciado pelo pessoal do Cardoso On Line [mas não somente eles] e que apelidaram essa proposta de autoficção de egotrip. Uma viagem usando o eu como timoneiro, sem muita autocrítica.

Desde então, a autoficção vem aumentando de força representativa. Em 2008-9, o mais famoso livro no Brasil [entre o que seria a alta literatura, apesar de esse nome ser bastante ruim e datado] foi uma autoficção: "O filho eterno", do Cristovão Tezza. Nele, Tezza, sem se autodenominar, fala sobre como foi difícil para ele criar um filho com síndrome de Down. Mais recentemente, esse processo se agudiza com Ricardo Lisias e "O divórcio", cujo título é autoexplicativo. A vida desses escritores é colocada nas suas obras de uma maneira que é interpretada pelo leitor como tendo sido exatamente aquilo que foi, o que eles viveram, sem qualquer acréscimo de outra fonte que não a própria vida.

Não li o segundo livro, mas na obra[-prima] de Tezza há muita divagação, também. Há muita reelaboração, muito fluxo de pensamento. Daí, o limite entre "verdade" e "mentira" sai do âmbito da física para a, com o perdão do trocadilho, metafísica. Não sabemos que o que se está sendo escrito é a verdade ou uma invenção do escritor, retrabalhada posteriormente.

A intenção desse textinho que já se alonga demais não é analisar obra a obra, mas mostrar como essas incidências que cada vez mais se correlacionam podem ser o retrato de uma época em que os nossos parâmetros são apenas e tão somente o "eu". Com o fim de referências fixas externas, com a - como eu escutei recentemente - abolição da gravidade, não há mais uma força que força a todos, igualmente.

Há um cenário em que as pessoas são incentivadas a se mostrarem, mais e mais, e outras pessoas, como espectadores de um big brother da vida real, assistem a tudo, para poder criar seus próprios parâmetros, avaliar, a partir de outras e semelhantes experiências formas como lidar com cada uma das suas próprias decisões.

Claro que nem sempre isso é consciente e há muito de voyeurismo barato, principalmente se considerarmos a proliferação do mercado de fofoca que explora a exibição nos mínimos detalhes de subcelebridades iniciantes. Mas, novamente, estamos aprendendo os limites desse processo.

Talvez, ao descobrir a individualidade do outro acabemos descobrindo a nossa própria, num processo curioso em que a alteridade se transforma, de uma maneira estranha, em transcendência. Você também é parte do outro, assim como o outro também te constitui. Mas isso é só uma hipótese que acaba de me ocorrer.

O que podemos sugerir com um grau forte de certeza é que nenhuma outra literatura representa tão bem o nosso momento histórico quanto a autoficção. O "eu" finalmente ganhou.

sexta-feira, 16 de agosto de 2013

'Pássaros na boca', de Samanta Schweblin

[Publico aqui essa tradução feita por este que vos escreve e pelo Douglas Duarte há gerações passadas para finado O Livreiro, na tentativa de que ela não se perca, apenas.]
 
Desliguei a tevê e olhei pela janela. O carro de Silvia estava estacionado em frente à casa com o pisca-alerta ligado. Pensei se havia alguma possibilidade real de não atender, mas a campainha voltou a soar; ela sabia que eu estava em casa – fui até a porta e abri.

- Silvia – disse.

- Olá – disse ela, e entrou sem que eu chegasse a dizer nada. – Temos que conversar. Apontou o sofá e obedeci porque, às vezes, quando o passado bate à porta e me trata como há quatro anos, continuo sendo um imbecil.

- Você não vai gostar. É… É forte – olhou o seu relógio – é sobre Sara.

- Sempre é sobre Sara – disse.

- Você vai dizer que exagero, que sou uma louca, tudo isso. Mas hoje não há tempo. Você tem que vir à minha casa agora mesmo. Tem que ver com seus próprios olhos.
- O que houve?
- Já disse a Sara que você iria. Ela está esperando.

Ficamos em silêncio um momento. Pensei em qual seria o próximo passo, até que ela franziu o cenho, se levantou e foi até a porta. Peguei meu casaco e saí atrás dela.
Por fora a casa estava como sempre, com a grama recém cortada e as azaleias de Silvia penduradas das sacadas do primeiro piso. Cada um saiu de seu carro e entramos sem falar. Sara estava no sofá. Embora as aulas deste ano já tivessem terminado, usava o agasalho da escola que lhe dava um ar igual às colegiais pornôs das revistas. Estava sentada com as costas retas, os joelhos juntos e as mãos sobre os joelhos, concentrada em um ponto da janela ou do jardim, como se estivesse fazendo um desses exercícios de ioga da mãe. Me dei conta de que, mesmo que tenha sido sempre mais para pálida e magra, aparentava transbordar saúde. Suas pernas e seus braços pareciam mais fortes, como se viesse fazendo exercícios há alguns meses. Seu cabelo brilhava e as bochechas estavam rosadas, como de maquiagem, mas real. Quando me viu entrar, sorriu e disse:

- Oi, papai.

Minha filha era realmente uma doçura, mas duas palavras bastavam para entender que algo ia mal com essa menina, algo seguramente relacionado com a mãe. Às vezes penso que talvez devesse ter levado ela comigo, mas quase sempre penso que não. A uns metros da tevê, perto da janela, havia uma gaiola. Era uma gaiola para pássaros – de uns setenta, oitenta centímetros – que pendia do teto, vazia.

- O que é isso?

- Uma gaiola – disse Sara, e sorriu.

Silvia me fez um sinal para que a seguisse à cozinha. Fomos até o janelão e ela se virou para verificar que Sara não nos escutava. Seguia rija no sofá, olhando a rua, como se nunca tivéssemos chegado. Silvia me falou em voz baixa.

- Olha, você vai ter que ter calma.

- Não enche. O que é que tá acontecendo?

- Ela não come desde ontem.

- Você tá brincando?

- Você precisa ver com seus próprios olhos.

- Você tá louca?

Disse que voltássemos à sala e me apontou o sofá. Me sentei em frente a Sara. Silvia deixou a casa e a vimos cruzar o janelão e entrar na garagem.

- O que está acontecendo com a sua mãe?

Sara deu de ombros, dando a entender que não sabia. Seu cabelo preto e escorrido estava preso num rabo de cavalo, com uma franjinha que chegava quase aos olhos. Silvia voltou com um caixa de sapatos. Trazia-a nivelada, com ambas as mãos, como se tratasse de algo delicado. Foi até a gaiola, a abriu, tirou da caixa um pardal bem pequeno, do tamanho de uma bola de golf, meteu ele dentro da gaiola e a fechou. Jogou a caixa no chão e a chutou para o lado, junto a outras nove ou dez caixas similares que iam se amontoando debaixo da escrivaninha. Então Sara se levantou, seu rabo de cavalo brilhou de um lado a outro de sua nuca, e foi até a gaiola saltitando como fazem as garotas que têm cinco anos a menos que ela. De costas para nós, na ponta dos pés, abriu a gaiola e tirou o pássaro. Não pude ver o que fez. O pássaro deu um pio e ela forcejou um momento, talvez porque ele tentasse escapar. Silvia tapou a boca com a mão. Quando Sara se virou para nós, o pássaro tinha sumido. Tinha a boca, o nariz, o queixo e as mãos manchadas de sangue. Sorriu envergonhada, sua boca gigante se arqueou e se abriu, seus dentes vermelhos me obrigaram a levantar de um salto. Corri até o banheiro, me fechei e vomitei na privada. Pensei que Silvia me seguiria e começaria com as culpas e as determinações do outro lado da porta, mas ela não fez nada. Lavei minha boca e meu rosto e fiquei escutando em frente ao espelho. Baixaram algo pesado no andar de cima. Abriram e fecharam algumas vezes a porta de entrada. Sara perguntou se poderia levar com ela a foto da prateleira. Quando Silvia respondeu que sim, sua voz já estava longe. Abri a porta tentando não fazer barulho, e entrei no corredor. A porta principal estava aberta de par em par e Silvia punha a gaiola no assento traseiro do meu carro. Dei uns passos com a intenção de sair da casa gritando umas verdades, mas Sara saiu da cozinha para a rua e me detive para que eu não visse. Se abraçaram. Silvia a beijou e a colocou no assento do acompanhante. Esperei que voltasse e fechasse a porta.
- Que merda…?

- Leve ela – foi até a escrivaninha e começou a amassar e dobrar as caixas vazias.

- Meu Deus Silvia, sua filha come pássaros!

- Não posso mais.

- Ela come pássaros! Você viu? Que merda ela faz com os ossos?
Silvia ficou me olhando, desconcertada.
- Acho que ela os engole também. Não sei se os pássaros… – disse e ficou me olhando.
- Não posso levar ela.
- Se ela ficar, me mato. Me mato e antes mato ela.
- Ela come pássaros!
Silvia foi até o banheiro e se trancou. Olhei para fora, pelo janelão. Sara me acenou alegremente do carro. Tratei de me acalmar. Pensei em coisas que me ajudaram a dar alguns passos torpes até a porta, rezando para que esse tempo fosse suficiente para voltar a ser um homem comum e corrente, um tipo elegante e organizado capaz de ficar dez minutos de pé no supermercado em frente à gôndola dos enlatados se certificando de que as ervilhas que está levando são as mais adequadas. Pensei que, se é fato que algumas pessoas comem pessoas, então comer pássaros vivos não é tão ruim. Também que, de um ponto de vista natural, é mais saudável que as drogas, e, do social, é mais fácil de ocultar que uma gravidez aos treze. Porém, até pegar na maçaneta do carro, segui repetindo come pássaros, come pássaros, come pássaros, e assim foi.

Levei Sara para casa. Não disse nada durante a viagem e quando chegamos, trouxe sozinhas as suas coisas. Sua gaiola, sua mala – que havia colocado no porta-malas -, e quatro caixas como as que Silvia havia trazido da garagem. Não pude ajudá-la com nada. Abri a porta e então esperei que ela fosse e voltasse com tudo. Quando entramos, disse que podia usar o quarto de cima. Depois que se instalou, a mandei que descesse e se sentasse diante de mim na mesa da copa. Preparei dois cafés, mas Sara Pôs de lado sua xícara e disse que não tomava infusões.

- Você come pássaros, Sara – disse.

- Sim, papai.

Mordeu os lábios, envergonhada, e disse:

- Você também.

- Você come pássaros vivos, Sara.
- Sim, papai.

Me lembrei de Sara aos cinco anos, sentada à mesa conosco, correndo para o seu prato, devorando fanaticamente uma abóbora, e pensei que, de alguma forma, solucionaríamos o problema. Mas quando a Sara que tinha diante de mim voltou a sorrir, me perguntei o que sentiria ao engolir algo quente e em movimento, algo cheio de plumas e patas na boca. Tapei a minha própria boca, como fazia Silvia, e deixei ela sozinha em frente aos dois cafés intactos.

Passaram três dias. Sara estava quase todo o tempo na sala, rija no sofá, com os joelhos juntos e as mãos sobre eles. Eu saía cedo para o trabalho e me aguentava as horas consultando na internet infinitas combinações das palavras “pássaro”, “cru”, “cura”, “adoção”, sabendo que ela seguia sentada ali, olhando para o jardim durante horas. Quando entrava em casa, por volta das sete, e a via tal qual a havia imaginado durante todo o dia, os pelos da nuca se eriçavam e me dava vontade de sair e deixá-la trancada à chave, hermeticamente trancada, como esses insetos que se caça quando se é criança para guardar em frascos de vidro até que o ar acabe. Poderia fazer isso? Quando eu era pequeno, vi no circo uma mulher barbada que carregava ratos na boca. Mantinha-os um tempo, com o rabo se mexendo entre os lábios fechados, enquanto caminhava em frente ao público sorrindo e mexendo os olhos para cima, como se isso lhe desse um grande prazer. Agora pensava nessa mulher quase todas as noites, dando voltas na cama sem poder dormir, considerando a possibilidade de internar Sara em um centro psiquiátrico. Talvez pudesse visitá-la uma ou duas vezes por semana. Poderia revezar com Silvia. Pensei nesses casos em que os médicos sugerem certo isolamento do paciente, afastando-o da família por uns meses. Talvez fosse uma boa opção para todos, mas não estava seguro de que Sara poderia sobreviver num lugar assim. Ou sim. Em qualquer caso, sua mãe não permitiria. Ou sim. Não conseguia me decidir.
No quarto dia, Silvia veio nos ver. Trouxe cinco caixas de sapatos que deixou junto à porta de entrada, do lado de dentro. Nenhum de nós dois disse nada a respeito. Perguntou por Sara e lhe apontei o quarto de cima. Quando desceu, lhe ofereci café. Bebemos na sala, em silêncio. Estava pálida e suas mãos tremiam tanto que fazia tilintar a louça cada vez que voltava a apoiar a xícara sobre o pires. Um sabia o que o outro pensava. Eu podia dizer “isso é culpa sua, isto é o que você conseguiu”, e ela podia dizer algo absurdo como “isto está acontecendo porque você nunca prestou atenção nela”. Porém a verdade é que já estávamos muito cansados.
- Eu cuido disso – disse Silvia antes de sair, apontando para as caixas de sapatos. Não disse nada, mas a agradeci profundamente.

No supermercado, as pessoas carregavam seus carrinhos de cereais, doces, verduras, carnes e laticínios. Eu me limitava a meus enlatados e enfrentava a fila em silêncio. Ia duas ou três vezes por semana. Às vezes, mesmo que não tivesse nada para comprar, passava antes de voltar para casa. Tomava um carrinho e percorria as gôndolas pensando no que podia estar esquecendo. À noite, assistíamos juntos à televisão. Sara, ereta, sentada em seu canto do sofá, eu na outra ponta, espiando ela de tempos em tempos para ver se acompanhava a programação ou se já estava outra vez com os olhos cravados no jardim. Eu preparava comida para dois e levava à sala em duas bandejas. Deixava a de Sara em frente a ela, e ali ficava. Ela esperava que eu começasse a comer e então dizia:

- Com licença, pai.

Se levantava, subia ao seu quarto e fechava a porta com delicadeza. A primeira vez, baixei o volume do televisor e esperei em silêncio. Se escutou um pio agudo e curto. Uns segundos depois, a torneira do banheiro e a água correndo. Às vezes, descia uns minutos depois, perfeitamente penteada e serena. Outras vezes tomava uma ducha e descia diretamente em pijama.

Sara não queria sair. Estudando o seu comportamento pensei que talvez sofresse algum princípio de agorafobia. Às vezes colocava uma cadeira no jardim e tentava convencê-la de sair um pouco. Porém era inútil. Ainda conservava uma pele radiante de energia e estava cada vez mais bonita, como se passasse o dia fazendo exercícios debaixo do sol. De tempos em tempos, fazendo as minhas coisas, encontrava uma pluma. No piso junto à porta da copa, detrás da lata de café, entre os talheres, ou ainda úmida no box. As recolhia, cuidando que ela não me visse fazendo isso, e as metia no vaso sanitário. Às vezes ficava olhando como iam embora com a água. Às vezes o vaso voltava a se encher, a água se aquietava, como um espelho outra vez, e mesmo assim seguia ali olhando, pensando se seria necessário voltar ao supermercado, se realmente se justificava encher os carrinhos com tanto lixo, pensando em Sara, no que é que havia no jardim.

Uma tarde, Silvia me ligou para avisar que estava de cama, com uma gripe feroz. Disse que não poderia nos visitar. Me perguntou se eu me viraria sem ela e então entendia que não poder nos visitar significava que não poderia trazer mais caixas. Lhe perguntei se tinha febre, se estava comendo bem, se tinha ido a um médico, e quando a deixei suficientemente ocupada com suas respostas, disse que tinha que desligar e desliguei. O telefone voltou a tocar, mas não o atendi. Víamos televisão. Quando trouxe minha comida, Sara não se levantou para ir a seu quarto. Olhou o jardim até que eu terminasse de comer, e só então voltou ao programa que estávamos vendo.

No dia seguinte, antes de voltar para casa, passei pelo supermercado. Pus algumas coisas no meu carrinho, o de sempre. Passeei entre as gôndolas como se fizesse um reconhecimento do mercado pela primeira vez. Me detive na seção de animais de estimação, onde havia comida para cachorros, gatos, coelhos, pássaros, peixes. Levantei alguns alimentos para saber o que se eram. Li do que eram feitos, suas calorias, e as quantidades que recomendadas para cada raça, peso e idade. Depois, fui à seção de jardinaria, onde só havia plantas com ou sem flor, vasos e terra, então voltei outra vez à seção dos animais de estimação e fique ali pensando no que fazer depois. As pessoas chegavam com seus carrinhos e se moviam se esquivando de mim. Anunciaram nos alto-falantes a promoção de laticínios para o Dia das Mães e passaram uma música melódica sobre um sujeito que tinha várias mulheres mas sentia falta de seu primeiro amor, até que final empurrei o carrinho e voltei à seção de enlatados.

Essa noite, Sara demorou a dormir. Meu quarto estava embaixo do dela, e escutei-a caminhar nervosa no teto, se deixar, voltar a levantar. Me perguntei em que condições estaria o quarto, não havia subido desde que ela tinha chegado, talvez o lugar estivesse um verdadeiro desastre, um curral cheio de sujeira e penas.

A terceira noite depois do telefonema de Silvia, antes de voltar à casa, me detive para ver as gaiolas de pássaros que estavam penduradas do toldo de uma veterinária. Nenhum se parecia com o pardal que havia visto na casa de Silvia. Eram coloridos, e em geral um pouco maiores. Fiquei ali um pouco, até que um vendedor se aproximou perguntando se eu estava interessado em algum pássaro. Disse que não, que de jeito nenhum, que só estava olhando. Ficou por perto, mexendo em caixas, olhando para a rua, depois entendeu que eu realmente não compraria nada, e voltou para o balcão.

Em casa, Sara esperava no sofá, erguida em seu exercício de ioga. Nos cumprimentamos.
- Oi, Sara.

- Oi, papai.

Estava perdendo suas bochechas rosadas e já não estava tão bem quanto nos dias anteriores. Preparei minha comida, me sentei no sofá e liguei o televisor. Depois de um tempo, Sara disse:
- Paizinho…
Engoli o que estava mastigando e baixei o volume, duvidando de que realmente tivesse falado, mas ali estava, com os joelhos juntos e as mãos sobre os joelhos, me olhando.

- Que? – eu disse.

- Você me ama?

Fiz um gesto com a mão, acompanhado de um assentimento. Tudo em conjunto significava que sim, que claro. Era minha filha, não? E ainda assim, por via das dúvidas, pensando sobretudo o que minha ex-mulher teria considerado “o correto” disse:
- Sim, meu amor. Claro.

E então Sara sorriu, uma vez mais, e olhou o jardim durante o resto do programa.

Voltamos a dormir mal, ela passeando de um lado ao outro do quarto, eu dando voltas em minha cama até que adormeci. Na manhã seguinte, chamei Silvia. Era sábado, mas não atendia ao telefone. Chamei mais tarde, e por volta do meio-dia também. Deixei uma mensagem, mas não respondeu. Sara esteve toda a manhã sentada no sofá, olhando o jardim. Seus cabelos estavam desarrumados e já não se sentava tão ereta, parecia muito cansada. Perguntei se estava tudo bem e ela disse:

- Sim, papai.

- Por que você não sai um pouco ao jardim?

- Não, papai.

Pensando na conversa na noite anterior, me ocorreu que poderia perguntar a ela se me amava, mas em seguida me pareceu uma estupidez. Voltei a telefonar a Silvia. Deixei outra mensagem. Em voz baixa, tomando o cuidado para que Sara não escutasse, disse para a secretária eletrônica:

- É urgente, por favor.
Esperamos sentados cada um em seu sofá, com o televisor ligado. Umas horas mais tarde, Sara disse:
- Com licença, papai.

Se trancou em seu quarto. Desliguei o televisor para escutar melhor: Sara não fez nenhum barulho. Decidi que telefonaria a Silvia uma vez mais. Porém, levantei o gancho, escutei o sinal de linha e desliguei. Fui de carro até a loja de bichos, procurei o vendedor e lhe disse que necessitava de um pássaro pequeno, o menor que tivesse. O vendedor abriu um catálogo com fotografias e disse que os preços e a alimentação variavam de uma espécie para outra.

- Você gosta dos exóticos ou prefere algo mais familiar?

Golpeei o tampo com a palma da mão. Algumas coisas saltaram no balcão e o vendedor ficou em silêncio, me olhando. Apontei para um pássaro pequeno, escuro, que se movia nervoso de um lado a outro de sua gaiola. Me cobraram cento e vinte pesos e me entregaram em uma caixa quadrada de cartolina verde com pequenos buracos, um saco grátis de alpiste que não aceitei e um folheto do criador com a foto do pássaro na frente.
Quando voltei, Sara continuava trancada. Pela primeira vez desde que ela estava em casa, subi e entrei no quarto. Estava sentada na cama em frente à janela aberta. Me olhou, mas nenhum de nós dois disse nada. Estava tão pálida que parecia doente. O quarto estava limpo e ordenado, a porta do banheiro encostada. Havia umas vinte caixas de sapatos sobre a escrivaninha, mas desmontadas – de modo que não ocupavam tanto espaço – e empilhadas cuidadosamente umas sobre as outras. A gaiola pendia vazia perto da janela. Na mesinha de cabeceira, perto do abajur, o porta-retrato que tinha levado da casa de sua mãe. O pássaro se moveu e escutamos suas patas na cartolina, mas Sara permaneceu imóvel. Deixei a caixa sobre a escrivaninha e, sem dizer nada, saí do quarto e fechei a porta. Então me dei conta de que não me sentia bem. Me apoiei na parede para descansar um momento. Olhei o folheto do criador, que ainda levava na mão. No verso, havia informações sobre o cuidado do pássaro e seus ciclos de procriação. Ressaltavam a necessidade da espécie se acasalar nos períodos quentes e as coisas que se podia fazer para que os anos de cativeiro fossem os mais amenos possíveis. Escutei um pio breve, e depois a torneira do chuveiro. Quando a água começou a correr me senti um pouco melhor e soube que, de alguma forma, conseguiria descer as escadas.

segunda-feira, 15 de julho de 2013

"O homem sem qualidades", trechos

O mundo é realmente cômico, analisado do ponto de vista da técnica; nada prático nas relações humanas, altamente antieconômico e inexato em seus métodos; e quem estiver habituado a resolver seus problemas com a régua de cálculo, simplesmente não pode mais levar a sério metade das afirmações dos homens. A régua de cálculo consta de dois sistemas de cifras e traços combinados com inaudita argúcia, de duas varetas laqueadas de branco, que deslizam uma sobre a outra, dois recortes em forma de trapézio, com ajuda dos quais se resolvem num instante as tarefas mais complicadas, sem desperdiçar nem um pensamento; a régua de cálculo é um pequeno símbolo que se carrega no bolso interno do casaco, e se sente sobre o coração como um traço branco e duro: quem possui uma régua de cálculo, e encontra alguém que faz afirmações grandiosas ou tem sentimentos grandiosos, diz: um momento, primeiro vamos calcular as margens de erro e o valor mais provável de tudo isso!
[...]
É exatamente como se a velha humanidade ineficiente tivesse adormecido sobre um formigueiro; quando despertou a humanidade nova, as formigas tinham entrado no seu sangue, e desde então ela precisa fazer movimentos incessantes, sem conseguir se livrar desse chatíssimo ímpeto de fanatismo pelo trabalho.
[...]
Realmente não é preciso falar muito a respeito; a maioria das pessoas sabe perfeitamente, hoje, que a matemática entrou em todos os campos de nossa vida, como um demônio. Talvez nem todas essas pessoas acreditem na história do Diabo a quem se pode vender a alma; mas todas as pessoas que entendem alguma coisa de alma, por serem sacerdotes, historiadores e artistas, e tirarem boas vantagens disso, testemunham que foi a matemática que arruinou a alma, que a matemática é a fonte de uma inteligência perversa que faz do homem senhor da terra, mas escravo da máquina. E assim, já no tempo em que Ulrich se tomou matemático, havia pessoas que profetizavam a derrocada da cultura européia, porque nenhuma crença, nenhum amor, nenhuma candura restavam no ser humano; e significativamente todos foram maus matemáticos na juventude e nos anos escolares. Isso provou para eles, mais tarde, que a matemática, mãe da ciência natural exata, avó da técnica, também é mãe ancestral daquele espírito do qual finalmente brotaram os gases venenosos e os pilotos de guerra.
Trechos do livro do Robert Musil. Todo o livro aqui

quarta-feira, 3 de abril de 2013

As terceiras margens

Muito bonito o senhor Sloterdijk
Não sou nenhum leitor especialista em Peter Sloterdijk, ao contrário. Sou um neófito nos seus textos. Mas já há algo que eu gostei de cara nele, além dos motivos que me levaram a ele [Juliano, Heidegger, Rüdiger Safranski etc]: a tentativa de destruir as divisões humanas em pares. Acho que ter apenas duas opções é muito pouco para se entender o mundo.

Pelo que eu pude perceber até agora - mas posso estar completamente enganado -, Sloterdijk até toma uma posição polêmica, corajosa e extremamente perigosa: opta por um dos lados. Ele prioriza o homem, acredita no humano, no individualismo, sugere que invistamos nesse ser que até hoje conseguiu trazer a espécie mais ou menos intacta.

Entre as sugestões que eu li, por exemplo, parece que ele diz no primeiro volume da trilogia de sua obra máxima "Esferas" [acho que só traduzido para o espanhol] que o Estado substituiria o papel do superior ao indivíduo. Papel que antes havia sido interpretado por, entre outros, a mãe, enquanto o bebê ainda está na placenta. Ele é contra, pelo que eu entendi, ao pagamento de imposto proporcional à renda - entre outras ideias. No que eu vi, ele sugere que as pessoas paguem o quanto de taxas quiserem. Só assim, seguindo o seu argumento, o Estado não interferiria demasiadamente nas questões individuais. Digamos que numa disputa entre o Leviatã estatal de Hobbes e o Bom selvagem do Rosseau, ele estaria, me utilizando de uma grandessíssima liberdade poética e filosófica, do lado do francês. Como disse, é uma proposta no mínimo ousada.

Eu vou para um outro lado. Vou tentar fugir da política, apesar de não gostar que haja uma polarização entre a esquerda e a direita - como, aliás, cada vez mais se apregoa na teoria [e menos na prática]. Por que tentamos entender o mundo sempre com apenas dois conceitos? E mais: por que temos que ficar fixos em ideais que se mostraram falhos, ou que não podem se aplicar a todos os aspectos da vida? Por que temos que ignorar que podemos sempre "estar algo", portanto circunstancial, momentâneo, adaptável, maleável, em vez de, como agora, "ser alguma coisa", e aí, existencial, eterno, pesado?

Talvez essa minha atitude seja reflexo de uma vida quase que inteira sem ter que prestar continência a nenhuma grande ideologia - ou deus, para usar a minha expressão do momento. Talvez eu seja "pós-moderno", como já me chamaram. Talvez. Mas acho que a divisão fixa em dois grande totens muito limitadora. Também acredito que haja trocentas gradações entre um lado ao outro, como me disse meu cunhado americano-republicano. É verdade. Mas por que se ater a apenas duas formas de encarar o mundo? [E eu nem estou falando do Rede, novo partido da Marina, hein.]

Peguemos pelo lado da arte, por exemplo. Por que temos que gostar da vanguarda, por ser ousado, cerebral, desafiador, e desprezar o popular? Ou vice-versa: por que acreditamos que o fato de comunicar com as pessoas é a principal característica que uma obra deve ter? Por que não pensamos que o que torna um objeto qualquer uma obra de exceção é algo tão inapreensível que não dá para colocar apenas duas grandes balizas ao redor eles?

Alguns grupos tentaram, com mais sucesso na minha opinião, a solução terciária. Entre os que me ocorreram agora estão hindus, católicos e a dialética, vista mais recentemente sob a ótica marxista. O raciocínio hindu é bem interessante. Pensam ciclicamente com um personagem criador [Brahma], um mantenedor [Vishnu] e um destruidor [Shiva]. Assim, conseguem mitologicamente dizer que a vida nunca para. Os católicos fizeram uma mistureba grande: há o criador [deus pai], o mantenedor [deus espírito santo] e o destruidor [deus filho]. Ou, para usar a dialética: a tese [deus pais], a antítese [espírito santo, mas também aqui poderia ser o anjo caído, e agora me ocorreu que o espírito santo seria apenas um nome para satanás - Nota mental: desenvolver a ideia depois] e a síntese: [J.C.].

Eu gosto de uma solução mais caseira. Gosto da ideia principal do continho de Guimarães Rosa, "A terceira margem do rio". Como em quatro páginas é possível resumir uma ideia tão grandiosa? É ainda mais difícil retirar um trecho que dê conta do todo, de todo o paradoxo, da decisão de viver ao sabor do rio, no meio do devir, sem ter que optar tão fortemente por um ou outro lado, porque nenhuma margem é realmente uma escolha acertada, apenas demonstra a vontade de parar de viver livremente. Vou tentar: "Nosso pai não voltou. Ele não tinha ido a nenhuma parte. Só executava a invenção de se permanecer naqueles espaços do rio, de meio a meio, sempre dentro da canoa, para dela não saltar, nunca mais. A estranheza dessa verdade deu para estarrecer de todo a gente. Aquilo que não havia, acontecia." Mas sugiro fortemente a leitura de todo o texto.

domingo, 17 de março de 2013

Joyce's Saint Patrick's

In Saint Patrick's day, a Joyce homage to the Jesuits in "Grace", his short story in "Dubliners".
He took no part in the conversation for a long while, but listened, with an air of calm enmity, while his friends discussed the Jesuits.
"I haven't such a bad opinion of the Jesuits," he said, intervening at length. "They're an educated order. I believe they mean well, too."
"They're the grandest order in the Church, Tom," said Mr. Cunningham, with enthusiasm. "The General of the Jesuits stands next to the Pope."
"There's no mistake about it," said Mr. M'Coy, "if you want a thing well done and no flies about, you go to a Jesuit. They're the boyos have influence. I'll tell you a case in point...."
"The Jesuits are a fine body of men," said Mr. Power.
"It's a curious thing," said Mr. Cunningham, "about the Jesuit Order. Every other order of the Church had to be reformed at some time or other but the Jesuit Order was never once reformed. It never fell away."
"Is that so?" asked Mr. M'Coy.
"That's a fact," said Mr. Cunningham. "That's history."
"Look at their church, too," said Mr. Power. "Look at the congregation they have."
"The Jesuits cater for the upper classes," said Mr. M'Coy.
"Of course," said Mr. Power.
"Yes," said Mr. Kernan. "That's why I have a feeling for them. It's some of those secular priests, ignorant, bumptious——"

sexta-feira, 1 de março de 2013

A memória e a memória de Funes

[Tenho um grupo de estudos com amigos do trabalho sobre assuntos que nos interessam. O foco do grupo poderia ser, resumidamente, descrito da seguinte forma: como a História é uma forma de literatura. Eu sugeri um texto essa semana, que foi aceito: "Funes, el memorioso", de Borges. Repasso abaixo as minhas considerações ao livro, enquanto o relia.]

- No prefácio de "Artifícios", segundo volume das "Ficções", Borges anota uma frase curta: "['Funes...'] és una larga metáfora del insomnio". O autor argentino enfrentava o problema a essa época. E lembra a citação - talvez no sentido inverso - de Nietzsche.

- Já na primeira linha do conto, as palavras iniciais já dão o tom e o norte do que será o conto, apesar do neófito não ter muita informação para desvendar a referência: "Lo recuerdo...", escreve o narrador. Recordar, lembrar-se, conseguir resgatar algo dentro desse armazém empoeirado que é a memória. O narrador lembra-se dele, de Funes. Mas logo ele quase se arrepende de ter usado a expressão, exatamente porque a memória desse tipo parece ínfima, pequena demais ante o personagem que será mostrado. O narrador, imagino que para manter o suspense, não fala quem é o homem, o único homem que teria direito de usar, verdadeiramente, o verbo "recordar".

- Entre os sinônimos imperfeitos, como "rememorar" ou "acordarse", Borges escolhe "recordar". É interessante uma segunda interpretação para o verbo, como o de gravar, de registrar, principalmente se considerarmos que Borges falava inglês fluentemente desde muito pequeno.

- Quando Funes olha para a "passionaria", ele a observa durante todo o dia, porque a cada instante a flor é outra, diferente da anterior. O tempo modifica a matéria. Não há dois momentos iguais, não dá para mergulhar duas vezes no mesmo rio.

- Em certos momentos, o narrador se lembra de Funes, mas já duvida da própria memória e acrescenta um "creo".

- O narrador se mostra feliz com o projeto de escreverem sobre Funes - descobrimos que a conto-minibiografia faz parte de uma coletânea. Toda coletânea tenta abarcar o máximo possível, ou desejado, o objeto escolhido. Sejam escritores fantásticos, poemas brasileiros do século xx, ou músicas de uma banda. No caso de Funes. Uma coletânea é uma reunião de memória e interpretações sobre um assunto. Mas o que acontece quando o assunto, por ter a memória mais ampla que existe ou existiu, seria o único candidato capaz, ou ao menos indicado, ou melhor, sugerido, a tentar a tarefa inglória de descrever o absoluto, o todo de algum assunto? Só quem se lembra de tudo poderia, em tese, fazer isso.

- Talvez até faltasse capacidade de enxergar o todo, porque uma memória geral não quer dizer obrigatoriamente que se é capaz de captar o todo, mas apenas que o captado não é esquecido, mas haveria espaço para armazenar informações.

- Uma coletânea sempre é falível. Como qualquer lista. Sempre haverá omissões.

- O narrador se diz parcial. Mesmo que se proponha a um relato objetivo, como faz, ele vai se esquecer de algo.

- Então, antes mesmo da segunda página do conto, já temos ao menos três aspectos ligados à memória e ao tempo:
-- Como o tempo afeta a percepção dos objetos e os próprios objetos, sem falar na memória.
-- Como só uma memória infalível poderia conceber uma história total.
-- Só uma memória infalível poderia se propor a ser imparcial [o que não seria garantido].

- O narrador compara Funes ao super-homem nietzscheano. Funes é, de uma maneira até anedótica, o inverso do homem supra-histórico. Se no texto de Nietzsche, o alemão se refere a uma questão ética, do homem que não fica acorrentado a um passado, o super-homem borgeano difere minuto a minuto a contagem do tempo, por apreender tudo. Conhece todos os detalhes, todos os que lhe são depositados.

- No primeiro encontro, ele parece "normal". Vai adoecendo. Sua voz, no início, é aguda e burlona. No fim, fica nasal.

- A memória serve para as línguas!

- A citação de Plínio, o velho, da "Naturalis historia", "ut nihil non iisdem verbis redderetur audítum", quer dizer: "Nada que é ouvido pode ser contada da mesma forma".

- Logo em seguida, o narrador pede desculpas porque a história, o trecho que ele narrará já passa de meio século. A memória enfraqueceu com o tempo.

- Casos de memórias excepcionais na obra de Plínio:
Ciro, rey de los persas, que sabía llamar por su nombre a todos los soldados de sus ejércitos; Mitrídates Eupator, que administraba la justicia en los veintidós idiomas de su imperio; Simónides, inventor de la mnemotecnia; Metrodoro, que profesaba el arte de repetir con fidelidad lo escuchado una sola vez.
- A leitura de Plínio desperta em Funes, como numa epifania, seu "poder", sua memória. Mas não somente. Além da memória, sua percepção era agora "infalible". Como ter memória sem percepção?

- Para se reconstruir um dia inteiro se requer um dia inteiro. [Borges volta a essa metáfora em "El hacedor", quando fala de um mapa perfeito.]

- O narrador levanta a hipótese de que um homem imortal saber, um dia, tudo. É a metáfora dos macacos escritores, virada ao avesso. A teoria desconsidera, porém, a capacidade de parar de aprender, por exemplo. Ou de simplesmente repetir o aprendizado.

- O sistema de numeração: é um dos recursos mais famosos da memorização. Ao fazer ligações entre assuntos diversos, a memória é ativada.

- Os projetos de Funes revelam, segundo o narrador, grandeza. Daí, talvez, a ligação com o super-homem de Nietzsche. Uma das condições do alemão é exatamente deixar sua marca registrada na História.

- A parte mais interessante fica para o final: quando o narrador diz que Funes era "casi incapaz" de ideias gerais, platônicas, e dá o exemplo do "perro". O símbolo, para alguém com essa memória super-humana, não consegue identificar nenhum grupo, quiçá o indivíduo, já que ele se modifica com o tempo e o espaço. "Era el solitario y lúcido espectador de un mundo multiforme, instantáneo y casi intolerablemente preciso".

- Novamente a metáfora da insônia: o narrador diz que Funes quase não dormia porque "Dormir es distraerse del mundo".

- Sobre a incapacidade de generalização, o narrador expõe uma suspeita: "no era muy capaz de pensar", diz um pouco com vergonha, e explica o que entende por pensar: "es olvidar diferencias, es generalizar, abstraer". No mundo de Funes, só há "detalhes".

- Funes, apesar de ter apenas 19 anos, parece gasto, velho. Como se houvesse vivido mais que os outros. Como se o tempo houvesse corrido mais rapidamente para ele. Ou ele tivesse alongado o tempo, saboreado cada um dos seus segundos.

- Ao fim, ele morre com 21 anos, de uma morte cotidiana, talvez para humanizá-lo, retirar o caráter supra-humano dele. Talvez para mostrar que à morte, todos somos iguais.