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sábado, 2 de fevereiro de 2013

As tragédias e a catarse

A pior situação após uma grande tragédia é a cobertura jornalística de uma grande tragédia. É claro que isso é uma opinião minha, de quem já cobriu [poucas] tragédias, de diferentes tamanhos, e vê como o ser humano se mostra um pouco sádico nessas horas.

Escultura que representaria Aristóteles, do Louvre,
cópia do 
século I ou século II de uma outra,
do escultor grego 
Lisipo,
Imagino que Aristóteles poderia explicar bem esse sentimento geral. Não deve ser coincidência utilizarmos o termo "tragédia" quando algo completamente fora da normalidade choca um público grande.

Na sua obra "Poética", como em todas as suas demais obras, o aluno de Platão e professor de Alexandre analisa [no sentido científico do termo, de tentar separar o todo em partes menores] a estética, principalmente sob o viés da tragédia, o gênero teatral.

Essa obra seminal ditou as formas como o Ocidente entendeu as obras de arte - principalmente as escritas - durante séculos. Alguns de seus conceitos são usados até hoje, como a ideia de mímese [dá para ler um pouco sobre isso aqui] ou, e é aí onde queremos chegar, a de catarse.

Aristóteles era filho de médico. Daí, acredita-se, a sua vontade de "analisar" seus objetos, de torná-los fontes para ciência, de, inclusive, criar esta mesma ciência como a conhecemos hoje. Igualmente é especulado que vem de seu pai o vocabulário usado em alguns termos, como em catarse. No grego, essa palavra que tomou o significado de "efeito libertador", quer dizer simplesmente "expurgar", "purgação" ou, "purificação". Se minha memória não me falha, "catarse" [o Google me diz que se escreve assim em grego: "κάθαρση"] era o termo dado a quando se tomava um remédio para provocar vômitos, por exemplo.

O filósofo usa pouquíssimas vezes tal expressão em sua "Poética" [se eu não me engano, apenas duas]. Fora do contexto, a primeira citação funciona muito bem aqui: "Suscitando a compaixão e o terror, a tragédia tem por efeito obter a purgação [catarse] dessas emoções." Colocando as palavras em outros lugares na mesma frase: a tragédia conseguiria aterrorizar-nos, nós, os espectadores, e provocar-nos a compaixão, conseguindo, com isso, retirar, ou acostumar-nos, ou tornar-nos aptos a enfrentar emoções parecidas. Serviria, portanto, para doutrinar-nos, treinar-nos para a vida real, fora dos teatros, nas ruas, onde as tragédias verdadeiras acontecem.

Voltando, portanto e finalmente, às tragédias verdadeiras. Há uma espetacularização das tragédias por parte da cobertura e é fácil enxergar isso. Uma vontade de transformá-las em uma narrativa, de ficcionalizá-las. Se fôssemos pensar na estrutura de três atos, estes seriam:  1º/ a grande epifania, a cena do acidente, mortes, desespero e dor; 2º/ flashback, para contextualizar quem são as vítimas, humanizá-las, trazê-las para perto dos espectadores; 3º/ a busca ensandecida, e às vezes totalmente cega, por culpados, a caça às bruxas, a expiação do bode [que era carneiro, provavelmente], a vingança. A catarse, enfim [ver o ps. abaixo]. Todos ficam "expurgados" das emoções de "terror" e "compaixão", que faz tanto mal carregar dentro de si. Por isso as reportagens e as informações são consumidas com afinco, com vigor, com vontade.

O problema, contudo, de trocar as tragédias-teatrais pelas tragédias-verdadeiras é o mais simples de todos: confundir a realidade com a ficção. Não é tão fácil assim sair do teatro do cotidiano. Sem uma mudança na estrutura do roteiro das tragédias-verdadeiras, elas tendem a se repetir eternamente. E, diferentemente das peças teatrais, pessoas realmente morrem no dia-a-dia.

ps. do dia seguinte: Fiquei pensando que há uma segunda informação que não pode deixar de ser considerada. A mudança no sentido da palavra catarse, e a posição em que ela se encontra nas tragédias teatral e verdadeira. Na teatral, a catarse é o sentimento final, uma explosão, em que há a série de desgraças, e o tal "efeito libertador". As pessoas saem mal das peças, e por conta disso, sabem como é se sentir mal. Já na verdadeira, é o inverso. Diferentemente do que eu imaginei ontem, a catarse acontece no início, logo de cara, e as pessoas não sabem lidar com esse inevitável, com essa sensação do "sem sentido" e vão em busca de um significado maior, que tente ajudá-las a entender essa falta de razão exagerada. Procuram novamente voltar para um mundo em que há causa e consequência, em que há justiça, mesmo que divina. A busca por culpados é exatamente a tentativa de dar uma razão, de determinar as causas daquela catástrofe, tentar evitar aceitar que o mundo, às vezes, é aleatório, completamente aleatório. Na vida real, as tragédias não nos ensinam absolutamente nada.

quarta-feira, 31 de março de 2010

Águas que juntam gênios de todos os tempos

Existem épocas em que personagens incríveis, de relevância internacional e atemporal, viveram ao mesmo tempo, bebendo da mesma água, e pagando o mesmo iptu. Coincidência? Talvez.

O jornalista Élio Gaspari fala sempre, por exemplo, dos fundadores dos EUA (para ficar nos mais famosos): George Washington, John Adams, Benjamin Franklin e Thomas Jefferson. Cientistas, humanistas, cervejeiros (reza a lenda), maçons, eles fundaram a primeira nação americana livre do jugo da Europa, com uma Constituição que influenciou até a Revolução Francesa, 13 anos mais jovem. Não é todo dia que conseguimos reunir numa mesma frase quatro políticos que conviveram e deixaram um legado que não quer dizer contas para o seu sucessor. Suspeito que os EUA são o que são a potência que são hoje em dia por causa desses moços aí.

Porém não é só na questão política que isso acontece. Nas artes, é mole citar um monte de exemplos. De cabeça: o cineasta Luis Buñuel, o pintor Salvador Dalí e o poeta Federico García Lorca foram amigos no início da carreira - depois, brigaram por questões políticas (aliás, há até um filme sobre esse encontro, com o galãzinho Robert Pattinson fazendo o Dalí). Já Leonardo da Vinci e Michelangelo di Buonarroti, os maiores artistas do maior movimento artístico de todos os tempos, o Renascimento, até conviveram na mesma casa, a dos Médici, mas nunca foram exatamente amigos, por questões de ciúmes. Isso para não falar do restante do time, que vai de Donatello até Rafael, para completar as tartarugas ninjas.

Mas o meu período favorito é a passagem do século v para o iv a. C., na Grécia. A sequência Sócrates, Platão, Aristóteles (e, se quiserem continuar, Alexandre, o grande) é matadora. Melhor que a anterior, a dos fundadores da filosofia, do pessoal lá de Mileto, Tales que foi o professor de Anaxímenes e Anaximandro. Tirando Tales, ninguém normal ouviu falar dos outros dois. Já de Sócrates-Platão-Aristóteles, posso suspeitar que viraram até sinônimo para pessoas sábias. Inclusive, a grossíssimo modo, os três sugeriram os moldes pela qual hoje em dia nossa sociedade está moldada. Se voltarmos um pouquinho, coisa de um século, ainda vamos ter Heródoto, primeiro historiador, Hipócrates, pai da medicina, o nascimento do teatro trágico...

Deve ser a água... NOT.