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terça-feira, 3 de junho de 2014

Metáfora da natação

Comecei a nadar com seis meses de idade, se os relatos que eu escutei a vida inteira estão corretos. Antes dos 5 anos, já dominava os quatro estilos. Aos 5, fui federado, e tinha o segundo número de inscrição mais baixo entre todos os atletas fluminenses da minha idade [eu conheci o primeiro]: 25.079. Nadei ininterruptamente até os 16 anos quando, depois de muitas decepções minhas, pessoais, resolvi viver a vida fora das piscinas. Não voltei a nadar até os 26, porque o luto era forte. Entre idas e vindas, após o retorno, continuo nadando até hoje. Mas, recentemente, houve uma grande mudança nesse meu hábito.

Durante esses quase 30 anos de braçadas, eu praticamente só nadei dentro de piscinas. Em um espaço razoavelmente controlado, limitado, onde você sabe muito bem o que te espera. Era um constante ir e vir, um exercício de contar azulejos. Poucas vezes havia algo que fugisse de um marasmo, de algo extremamente repetitivo e monótono. Entre essas exceções, lembro da lenda da piscina do Guanabara que escutava quando criança, e onde, por acaso, fui nadar de maneira bem amadora muitos anos mais tarde.

O Guanabara, que fica aqui pertinho de casa, tem a piscina olímpica mais antiga não só da cidade como de todo o Brasil, segundo o site oficial deles. A construção se iniciou em 1932 e acabou em 1935, e foi sede do campeonato sul-americano deste ano, além de, ao longo de sua história, ser palco de cinco quebra de recordes mundiais, inclusive de gente como Maria Lenk, Manoel dos Santos e José Fiolo, nomes que são famosos para quem lembra um pouco da história da natação. Há uma placa com o feito de Fiolo no parque aquático até hoje, por exemplo.

Por ser uma piscina tão antiga, e dedicada igualmente a outras modalidades dos esportes aquáticos, os engenheiros acharam por bem fazer o poço, aquela fundura enorme que serve de segurança para a galera dos saltos ornamentais, na mesma piscina. Até aí, mais ou menos tudo bem. É como se, ao nadar nas raias centrais, olhássemos para o abismo das profundidades, que nem sendo tão profunda assim [gira em torno de seis metros] parece uma eternidade para quem está passando ali em cima. Para piorar, quando éramos garotos, a área do poço estava totalmente tomada por lodo, como se não fosse limpa há décadas. Não se enxergava nada além de uma espessa cobertura de limo verde-amarronzado.

Girava entre os garotos a lenda de que haveria uma ligação clandestina entre a piscina e a baía de Guanabara, que fica literalmente do outro lado da rua, na sua vertente praia de Botafogo, o que justificaria o gosto salobro da água - e o que também explicaria a quantidade de recordes ali, já que a água mais densa proporciona uma maior flutuação, portanto menos atrito, além de uma maior capacidade de deslocamento com as braçadas. Nós, meninos ainda crédulos das coisas desconhecidas, não pensávamos muito nisso: apenas nadávamos mais forte todas as vezes que por azar caíamos nas raias centrais [onde normalmente ficam os melhores tempos balizados]. Eu, particularmente, fechava os olhos, de medo. Como dizem por aí: para olhar para o abismo tem que estar forte, porque, senão, ele pode olhar de volta.

De toda forma, a principal diversão de quem nada na piscina é, muito provavelmente, a competição. Nem, necessariamente, ser mais rápido que o coleguinha, algo muito comum entre nadadores que tem a síndrome do peixe beta - aquele que não pode ver um igual que quer logo brigar. Mas, se já está um pouco mais maduro, ser mais rápido que você mesmo. Como se você estivesse sempre querendo evoluir. Ou nunca estivesse satisfeito consigo mesmo. Ou tendo que arranjar maneiras de não morrer de tédio.

Recentemente, eu dizia, recentemente houve uma mudança. Decidi aproveitar que eu vivo numa cidade litorânea, e na proximidade de praias que, segundo o governo estadual [quem ainda acredita nele?], estão balneáveis, resolvi simplesmente abandonar a piscina e nadar na praia. Escolhi, para o receio de amigos, conhecidos, gente que gosta de mim, e quer me ver com saúde, a praia Vermelha, por ser, bem, por ser na minha rua. Todos os dias que não chove, nem na véspera, nem no dia anterior, eu dou minhas braçadas de um lado a outro dos morros, da Urca e da Babilônia [acho que o nome é esse]. Só não faço virada olímpica porque de um lado a pedra está tomada de limo, e do outro, não há pedra para se virar.

Antes desse novo cotidiano, a minha impressão foi outra: medo. Essa informação não deveria assustar quem me conhece já que eu sou um dos maiores medrosos que existe. Mas era um medo meio generalizado, sem um motivo específico. Era medo do que eu não conhecia, medo do que eu suspeitava, medo do que eu poderia conhecer. Medo, medo, medo. Nadar no mar, mesmo que numa praia bem delimitada, com uma distância de cerca de 250 metros entre uma pedra e outra, numa profundidade que não deve passar a da piscina do Guanabara [que, aliás, foi limpa há cerca de dez anos], dá medo. Ou me deu medo.

Em várias oportunidades, não dá para enxergar um palmo à frente da cara. Sempre é necessário levantar a cabeça para saber se você não vai ser atropelado por um caiaque, um sujeito no stand-up paddle, por um pequeno barco, ou mesmo por um outro nadador. Na pedra do morro da Babilônia, sempre há um homem vestindo branco e pescando, e desde que ainda garoto vi um outro menino ser fisgado por um anzol e ter que cortar a própria carne para retirar, com a menor consequência, o pedaço de metal da perna, eu tenho receio de ser pescado também. No outro lado, aos pés da pista Cláudio Coutinho, é comum encontrar gente que faz pesca submarina, com seus arpões prontos para disparar. Há uns anos, um sujeito flechado por essas armas brancas [como diria O Globo] apareceu boiando nesta mesma praia. Fora que é difícil confiar nas medições do governo quando você encontra todos os tipos de objeto boiando na praia, especialmente às segundas-feiras, após um domingo bastante ensolarado - mesmo que os parâmetros entre o que o governo avalia e o que eu vejo sejam diferentes.

Nadar no mar, descobri, é outro esporte. Mesmo que a água seja mais densa e, como já vimos, auxilie na natação, manter o equilíbrio dentro d'água é um exercício que não para nunca. Como as águas, mesmo as mais calmas, estão sempre se mexendo, o primeiro esforço que se faz é para ficar quieto, parado, para seguir adiante. É um trabalho constante que aumenta de intensidade conforme o mar está mais nervoso. É um negócio de estabilizar-se para logo se desestabilizar e forçar a estabilização, que logo sai de estabilidade. Parece um equilíbrio em movimento. Uma ginga da capoeira. O andar de bicicleta. Sabe aquele nado bonito, esbelto, que você viu nas Olimpíadas e conseguiu repetir depois de muito esforço? Esqueça. No mar, nadar já é muito.

Em um segundo momento, nadar no mar requer uma disciplina ainda mais ferrenha, porque você sempre tem que estar atento para não ser atropelado, como dito acima, mas também para nadar em uma linha razoavelmente reta: você deve ir em uma direção que você mesmo pré-estabeleceu. Além disso, todas as vezes que você se desliga, algo te rouba a atenção. Uma vez, encontrei um cardume de peixes bem pequenininhos e nadei sobre eles por cerca de 20 segundos. Parece pouco, mas me senti naquela cena do personagem principal do "Barba ensopada...", do Galera, quando ele nada sobre uma baleia [aliás, parece que a cena realmente aconteceu com o autor; aliás 2, parece que Galera também nadava na praia Vermelha quando no Rio]. Minha atenção foi tomada por aqueles peixinhos. A velocidade com que eles mudavam de rumo. O ritmo coreografado entre todos. Era por demais fascinante para eu poder pensar em qualquer outra coisa além.

Há também a beleza natural do Rio, que eu, talvez por ter nascido em outra cidade, ainda não me acostumei. É muito impressionante respirar para um lado e olhar para o Pão de Açúcar, ali, do meu lado, enorme, impávido colosso. Respirar para o outro e ver, lá de longe, o Corcovado e a estátua daquele moço de braços abertos como se quisesse dar um abraço na cidade inteira. Mas o principal é o sentimento de liberdade. O horizonte que não tem fim. É o não enxergar bordas por todos os lados. O não ver os limites postos tão fisicamente. Isso, realmente, é enobrecedor. Claro que há limites - não nado quando chove, não nado quando alguém, eu ou o mar, está de ressaca, não nado quando estou cansado, quando tenho que fazer outras coisas. Mas há ainda muita liberdade dentro dessas limitações. Uma liberdade que geralmente não enxergamos quando estamos presos à vida dentro da piscina.

Para isso, para enxergar essa liberdade, não ver esses limites como inibidores, mas como incentivadores, descobri que há de se ter um pouco de coragem. E coragem nada mais é que enfrentar os próprios - e não de outrem - medos. E os medos são sempre, me parece, do nosso tamanho.

sexta-feira, 3 de agosto de 2012

A final dos 50 livre

O que aprendemos nesta semana - principalmente nesta sexta-feira - nas Olimpíadas?

- Que a natação se modificou bastante na era pós-maiôs.

Vai começar a bagunça...

- Que quando você vai ao Parque Aquático, você vai ver Phelps ganhar algo.

- Que ninguém fica em pé, mesmo na final dos 50m livre.

E às vezes era bem difícil enxergar alguma coisa.
- Que o hino dos EUA enjoa. Que o hino da França é mais legal.

- Que os ingleses ficam muito felizes mesmo quando uma favorita ganha bronze - e a nadadora chora de emoção no pódio com a ovação.

- Que adolescentes de 15, 16 e 17 anos estão se tornando campeãs olímpicas na natação.

- Que nós ficamos mal acostumados sendo campeões olímpicos.

Se não reconhecer esse perfil sério, olhe ali no placar eletrônico

- Que é praticamente impossível assistir às provas de natação num lugar em frente ao poço de saltos.

- Que não é só no futebol que a França estraga os nossos prazeres. [Talvez devêssemos ressuscitar o Gustavo França Borges.]

O que será que ele falou ali?

- Que Cielo chora, mesmo em terceiro lugar. Talvez por outros motivos.

- Que quando um dirigente brasileiro aparece para entregar as medalhas, o brasileiro na prova decepciona.

Um dos maiores medalhistas olímpicos brasileiros
- Que nenhuma competição se ganha de véspera. Que favorito não serve de nada absolutamente nada. Que ser líder do ranking não modifica o resultado final. Que treinar muito é essencial. Que treinar muito não é tudo.

Ficamos atrás e cabisbaixos.

quinta-feira, 2 de agosto de 2012

Momento olímpico, in loco

É uma baleia. Das grandes, com mais de 50 metros de comprimento. Moby Dick ficaria pequena, envergonhada. A barriga, com listras, estrias, meridianos que cobrem todo o corpo e um movimento como se fosse subir para tomar ar. Igual aos nadadores. O parque aquático das Olimpíadas de 2012 é uma baleia.
Do lado de fora, parece um parque normal...

... aqui você vê o rabo da baleia...
... e aqui, a barriga.

A noite começou auspiciosa. Cielo foi o primeiro brasileiro a cair n'água. Fez o melhor tempo da série, empatando com um americano. Sugeri mentalmente para os meus vizinhos húngaros repetir a façanha nos 200 medley. Sugeri em português mesmo. Eles pareceram aceitar. Ao menos não disseram nada, nada que eu entendesse. Talvez tenha faltado combinar melhor com o adversário.

Ou talvez tenha faltado treinar melhor esse empate. Não é tão fácil assim bater tão junto. Veja o Phelps, por exemplo, um dos que mais nadou nas últimas olimpíadas. Nunca conseguiu. Já ganhou de um centésimo e já perdeu de cinco. Jamais empatou.

Thiago Pereira até se esforçou para cumprir a sua parte. Apesar de ter passado bastante na frente, esperou ele ao fim, para que os dois batessem juntos, repetindo a tática de sempre, que vemos desde Atenas 2004. Como se diz déjà vu em húngaro?

O húngaro bateu na frente. Por dois centésimos. Não conseguiu cumprir sua parte no trato e acabou sendo recompensado com a medalha de bronze. Tinha ficado fora por uma bobeira no 400m medley. E o Thiago, nadando sozinho, ganhou a prata. [Talvez devêssemos vendá-lo.]

Acho que vocês conhecem esse moço da foto
No 200 medley, Thiago entortou aquela manchete famosa: nadou como sempre, perdeu como sempre.

Colé, Mike, Ry, tranqs? Laszlo, vou te ignorar, não sabe brincar...
Quem venceu? Phelps, ora. Mais isso já não devia ser mais notícia.

Amanhã, com os 100m borboleta, tem mais para ele. E, com os 50m livre, para a gente.

E lá vamos nós de novo...

Decepção olímpica

Ontem, fiquei decepcionado com o resultado do César Cielo na final dos 100m livre. Talvez não devesse, talvez não tenha nada a ver comigo, e eu não tenha esse direito. Mas fiquei. E não tenho como esconder isso. Decepção parecida igual a quando o Fluminense caiu para a segunda divisão.

Não foi porque ele ficou longe do pódio - isso é parte consequência de outros fatores e parte sorte. Mas porque achei que ele fez menos que ele poderia fazer. O mesmo sentimento eu teria, e até mais, se fosse australiano e visse o Magnussen perder para o americano Nathan Adrian, e principalmente para ele mesmo. Magnum fez um tempo muito pior que o que ele próprio tinha feito nas eliminatórias australianas. Se repetisse, teria uma medalha dourada no peito, não uma prateada. Quando marcou o 47.1, se gabou que não tinha para ninguém. Seria campeão olímpico. Adrian, com toda a justiça e com a sorte de quem não se importa com os adversários, se tornou o primeiro americano a ganhar a prova nobre da natação desde Matt Biondi, em 1988. O um centésimo de diferença tem sozinho história na natação - que remete, inclusive e também, a Biondi.

Natação, diferentemente do que pensam alguns nadadores, não é boxe. Você não compete contra ninguém, mas com alguém, e esse alguém é, tão só e apenas, você. Se você perder para si mesmo, é um derrotado. O único derrotado que pode existir, aliás. A medalha de prata não é humilhante quando você melhora o seu tempo. É uma superação pessoal. É fazer mais do que você fazia. É se tornar maior, melhor, mais rápido. Não é para isso que existe a Olimpíada? Já o ouro pode não ter gosto de vitória quando você piora.

Na prova de ontem, César Cielo piorou um segundo do seu recorde mundial, batido logo após as olimpíadas de Pequim, no mundial de Roma. Um segundo e um centésimo, para ser exato. Lá, ainda com maiôs tecnológicos, ele foi imbatível. Desde então, com mais fama, passou por momentos delicados. Trocou de técnico após o fracasso no Pan-Pacífico. Foi pego num exame anti-doping, e absolvido em seguida, o que foi criticado por alguns adversários [o que é normal]. Ficou novamente fora do pódio nos 100m no mundial seguinte, em Xangai. Jamais voltou a nadar na casa dos 47'. Nadou ontem, mas não foi o suficiente para repetir o bronze de quatro anos atrás.

O que me surpreende é essa piora. O que levou ele não conseguir repetir um tempo ótimo desde então? A resposta mais óbvia é o fim do maiô. Mas será que a vestimenta era responsável por um ganho tão grande assim? Outros resultados de outros atletas não mostram isso. Será que o maiô ajudava mais ao Cielo que a outros nadadores? Por quê?

Uma outra especulação é que o Cielo focou nas provas de 50m. É esse caminho que me deixa mais decepcionado. Não que ele não vá ganhar. Como disse a um amigo, acredito tanto na vitória dele nos 50m, que sugiro enviar a medalha pelo correio. Mas acho um atleta especialista em 50m tão limitado, que não consigo esconder a minha insatisfação. Os 50m são um prova de extrema força e agilidade. Vários esportes são baseados apenas nisso. O próprio lema olímpico, como citei acima, fala sobre isso. Além disso, a medalha dos 50m é tão importante quanto outra qualquer. Mas vejo a natação de maneira diferente - e talvez seja minha culpa, mesmo.

Além dos 50m, qualquer prova é divida entre a força e a resistência. Mesmo os 100m livre, ou outro 100m qualquer. Há sempre uma volta, uma segunda parte que se entrelaça com a primeira. É como se a primeira metade fosse relativa à natureza do atleta, ser explosivo e rápido, e a segunda, com a vontade dele, com o que ele se esforçou durante anos e anos para construir. É o treino, às 6 da manhã, numa segunda-feira fria, depois de um fim de semana de competição. É aquela série que antes de começar você acha que nunca vai conseguir fazer, durante você acha que ela jamais vai acabar, e depois, dá um sentimento de orgulho só por ter completado. É o momento que dói tudo, que o braço encurta, que a respiração fica ofegante e ainda falta muito, muito para terminar. É o tiro que te dá pouquíssimo descanso, para simular a situação de competição, mas que vem junto com um cansaço infinito. É o sentimento de você ultrapassou a si mesmo, diariamente, durante um tempo, e que no dia da prova, você vai nadar mesmo sem querer.

É a velha divisão: uma parte seria o genótipo, a outra, o fenótipo. Ninguém conseguiria ser como Phelps sem ter a sua altura e envergadura, o seu tronco avantajado, mas principalmente sem a sua flexibilidade. Ninguém faria como Phelps se não treinasse como ele. A natação não é, claro, o único esporte a demonstrar bem esses dois lados, mas consegue fazer uma metáfora na própria prova disputada. As metades, em que cada lado mostra quem é você.

Os 50m... Bem, os 50m são só metade da prova. É a versão nadadora daquela música cantada por Tom Cavalcante em homenagem ao Romário: "treinar para que, se eu já sei  o que fazer".

Minhas esperanças foram reacendidas com o Thiago Pereira, entretanto, que está fazendo provas bem mais inteligentes que ele jamais fez na vida. Ontem, após a semi dos 200 medley, ele ainda deu uma declaração que me deu ainda mais confiança, mas confiança do tipo que jamais vai ser perdida com decepção. Ele afirmou que vai fazer o seu melhor na final, hoje, e espera que o seu melhor seja o suficiente para ganhar uma medalha. Não espero nada diferente disso. É simples.

quarta-feira, 1 de agosto de 2012

Phelps, o maior

E o que dizer desse rapaz, Michael Fred Phelps II? Talvez, apenas, que é o maior atleta de todos os tempos. Imagine um recorde, uma marca? Ele, agora, é o detentor. Maior número de medalhas em uma única edição das Olimpíadas? Sim. Maior número de medalhas em todas as edições? Sim. Maior número de ouros? Sim.

Você pode ainda pensar: ele pode ter tido a sorte de nascer numa geração fraca? Como resposta, diria que na última olimpíada, ele bateu sete recordes mundiais, das oito medalhas de ouro que ele ganhou. Na oitava, bateu o recorde olímpico. O mundial, ele bateu um ano depois. Além disso, não é sempre que ele pode competir com um sujeito tipo Ryan Lochte, outro nadador fora-de-série.

Essa não é a olimpíada de Phelps. A grande, a que ele entrou para a história, foi a anterior. Esta é a sua quarta participação, onde ele apenas está recebendo os louros, só recebendo os parabéns. Em Sidney, ele competiu como o mais novo recordista mundial da história da natação - recordes são a sua marca registrada. Talvez nervoso, ficou em sexto, na sua prova maior, o 200m borboleta, aquela que só quem treina muito, mas muito mesmo, se destaca. Aliás, como são os 400m medley, outra que ele também é destaque. Em Atenas, ganhou seis ouros e dois bronzes - faltou o ingrediente da sorte, necessário a qualquer pessoa e muito mais a um atleta. Pequim foi a consagração. Nada, nadinha, deu errado. Quando você imaginava que ele ia perder, algo acontecia e tudo mudava, e ele ganhava. E batia outro recorde.

Em Londres, ele encerra a carreira. Nunca mais vai competir. Está só se divertindo, como ele bem colocou na entrevista coletiva, antes da competição começar. Não precisa ir ao Rio. Não precisa mostrar mais nada, seu nome será lembrado para sempre. Ainda bem que eu vou vê-lo ao vivo, amanhã.

ps. Essa olimpíada marca o fim da geração Phelps, a que veio depois de Hoogenband, que, por sua vez, veio depois da de Popov. Kitajima, Pellegrini, Coventry, Rice, todos não foram bem em suas respectivas provas. Começou a geração de Missy Franklin, Ye Shiwen, Ruta Meilutyte. Como ela vai se chamar? 

César Cielo e os 100m livre

Não sei qual é a tática do César Cielo para os 100m livre, mas se a declaração que eu li ontem dizendo que ele deixar de forçar tudo nessa prova para priorizar os 50m livre for isenta de malícia, eu acho que ele perde ambas.

Já se for com malícia... está surtindo efeito. É muito curioso o atual recordista mundial da prova ser tratado como azarão. É, de certa forma, uma vantagem. Você saber que é bom, e ninguém reparar em você. Estar com o quinto tempo, na raia dois, e passar quase despercebido. Ter ganho medalha na prova nas últimas três competições importantes [olimpíada e mundiais em piscina longa]* e só citarem o Magnum, o Agnel, e o americano. Ser chamado de "Tchielo", quando apresentado, e completamente ignorado pelos comentaristas.

Não o conheço, nunca conversei com ele, não posso dar uma opinião com o meu ponto-de-vista, como "fonte direta". Mas pelo o que eu acompanho das entrevistas dele, e sobre ele, desde antes do Pan de 2007,  Cielo sempre me pareceu um menino que se empolga e desempolga muito rapidamente. Muda de opinião com facilidade. Lembro que uma das primeiras declarações pós-medalha de ouro nos 50m livre em Pequim 2008, era reclamando do Coaracy, eterno presidente da confederação de esportes aquáticos, e afirmando que ele, Cielo, não recebia a grana combinada no patrocínio há muito tempo. Após uma conversa de bastidores, ele veio a público dizer que não era nada bem isso, ele quem tinha se confundido, e que ele e Coaracy eram amigos de infância.

Outro exemplo: teve resultados aquém dos esperados no Pan-Pacífico, se separou do treinador Brett Hawke, que o tinha transformado no campeão olímpico. Recentemente, em uma boa entrevista para o Globoesporte.com, Hawke falou sobre outra oportunidade em que "Tchielo" mudou de temperamento como quem trocou de sunga:
Naquela manhã de agosto, em Pequim, há quatro anos, Cesar Cielo acordou descrente. Faltavam poucas horas para a final dos 100m livre, mas aquela raia 8 incomodava. Nadar no canto da piscina, com sete adversários nadando mais rápido do que ele, foi demais para a cabeça do jovem calouro. Foi preciso ouvir palavras duras de Brett Hawke, seu treinador na ocasião, para entender que estava tão ou mais veloz do que os outros, que estava tão ou mais bem preparado do que eles para ganhar um medalha.
Nesse momento, só espero que alguém chegue para ele e diga: "Seje um sujeito hômi!" Porque a pior derrota é aquela que acontece antes de cair na água.

* ele ficou em quarto no último mundial, em 2011.

sexta-feira, 5 de agosto de 2011

O centésimo e outros nomes para a coincidência

“Épico. Isto mostra que este cara não só é o maior nadador de todos os tempos e o maior olímpico também, como talvez seja o maior atleta de todos os tempos. Ele é o maior competidor de todos que andaram pelo planeta.” – Mark Spitz sobre Michael Phelps.

O homem sempre tentamos achar explicação para as coincidências. É-nos muito difícil encarar situações que normalmente não aconteceriam, mas acabam ocorrendo. Um telefone de alguém em quem estávamos pensando. Um sonho – no sentido de antônimo da vigília – que se profetiza.  Uma situação que se repete, diversas vezes, com diversos formatos... Os exemplos prosseguiriam por folhas. Com a questão aleatória, aquela que não tem qualquer razão, dentro da irracionalidade em que vivemos, nós já usamos de diversos estratagemas para nos confortar. Da religião, passando pela ciência e outros totens modernos, até a simples resignição. Mas a coincidência... a coincidência acaba com o humor do mais arraigado ateu-racional-materialista. Uns  a enquadramos como mais um traço da aleatoriedade. Outros apelamos para argumentos lógicos: defendemos que, ao sermos impressionados por determinado assunto, criamos uma espécie de filtro mental que destaca, do grande conjunto de situações em que estamos imersos, os assuntos mais afins, ressaltando, portanto, as incidências com caráter parecido e duplicado. Ou forçamos uma espécie de correlação entre os fatos, para dizer a frase redentora, um “maktub” qualquer, e demonstrar, assim, que ainda sofremos de uma mal disfarçada orfandade do deus pai que tudo vê, tudo pode, tudo sabe e ainda por cima nos protege.  Ou apenas ficamos estupefatos, boquiabertos, sem qualquer palavra. O que é mais comum.

Parece que foi Carl Gustav Jung – que cunhou o termo sincronicidade, para explicar “a ligação entre os acontecimentos, em determinadas circunstâncias, pode ser de natureza diferente da ligação causal e exige um outro princípio de explicação” (CW VIII, par. 818) – quem criou, ou identificou e registrou, essa terceira categoria das ações. Além do aleatório (tudo aquilo que acontece sem uma relação de causa e consequência), e daquilo que se presta ao jogo da causalidade, haveria uma terceira classe do que pode acontecer, que não respeitaria nenhuma dessas duas regras anteriores. Aparentemente, Jung não chega a decifrar essas situações híbridas que são, sob o ponto de vista puramente racional, injustificáveis, mas que respeitam algum tipo de lógica, mesmo que nós não alcancemos (lembremos de Pascal: “Le cœur a ses raisons que la raison ne connaît point”).  Como se houvesse um padrão que ainda não foi padronizado. Uma norma tão grandiosa e com tantas variáveis que abarcasse toda a Terra e fosse impossível, até o momento, de ser decodificada – e talvez nunca seja, mesmo. (pensemos, agora, em Shakespeare, pela boca de seu filho mais famoso: “There are more things in heaven and earth, Horatio, than are dreamt of in your philosophy”). Tal explicação foi melhor encarada quando físicos do porte de Wolfgang Pauli e Albert Einstein (portanto herdeiros da ciência, da exatidão, da tradição acadêmica que mais se sobressaiu desde a modernidade) deram o aval deles – com ressalvas – para a teoria. No macro ou no microcosmo, há partículas que respeitam algum padrão de comportamento, mas que são – ainda, ou não – imprevisíveis. Saber que algo existe, porém, não nos tira o assombro. Pelo contrário.

Um dia tem 8.640.000 centésimos. Pensar que apenas um deles possa ser decisivo na biografia de uma pessoa já seria pavimentar o caminho em direção a aceitação do fator aleatório em nossas existências. Imaginar e comprovar que dois personagens com trajetórias de vida parecidas foram afetados por um e quase o mesmo centésimo, porém com a diferença entre os dois episódios de 20 anos, faz começarmos a duvidar de nossa fé na razão e começar a abraçar a religião das coincidências. Estamos falando do hoje mundialmente famoso Michael Fred Phelps e do esquecido Matthew Nicholas Biondi. Elencar as conquistas e recordes  do primeiro se torna, em pouco tempo, tedioso, e tira o mérito e o valor dos seus triunfos. Talvez um dado consiga abarcar a importância do nadador para os esportes em todos os tempos. Ele é o maior medalhista de ouro individual dos Jogos Olímpicos modernos, com nove conquistas em duas edições. Na natação, diferentemente de outros esportes individuais, como o surfe, de outro fenômeno chamado Kelly Slater, ou o automobilismo, de Michael Schumacher, ou mesmo esportes coletivos, é possível fazer uma comparação entre gerações de maneira menos absurda. Não comparando tempos, já que isso seria anacrônico, mas resultados. Ele pode ser considerado o melhor nadador de todos os tempos não apenas por ter ganho tantas medalhas nos Jogos Olímpicos – poderia ter tido apenas sorte de ter nascido numa geração fraca –, mas por, ao ganhar essas medalhas, ter batido os recordes mundiais na quase totalidade das respectivas provas, demonstrando que os resultados positivos não eram coincidência. Aliás, se há uma coincidência no caso – como se verá mais à frente – é o fato de a única prova em que ele não bateu o recorde mundial (foi “só” o olímpico) foi os 100 metros borboleta.

O currículo de Biondi não é tão brilhante quanto o de Phelps – nem poderia ser: só pode haver um maior nadador de todos os tempos. Competiu em três Olimpíadas (1984, 1988 e 1992) quando conquistou “apenas” oito medalhas de ouro, considerando as provas individuais e coletivas, fora pratas e bronzes. Era menos versátil e competia em provas mais rápidas que Phelps, como os 50 e os 100 metros livre – provas do brasileiro Cesar Cielo, por exemplo – e foi hegemônico na segunda até o aparecimento de um outro fenômeno: Alexander Popov.  Biondi fica numa honrosa sexta colocação no ranking de medalhistas de ouro em apenas uma edição dos jogos, cinco, em 1988, em Seul. Mas a principal diferença entre os dois pode estar em apenas um centésimo.

Já o que junta ambos nadadores é um terceiro atleta das piscinas: Mark Andrew Spitz. Até Phelps, Spitz era o maior nome da natação na História. Era dele o recorde de medalhas de ouro numa mesma edição de Jogos Olímpicos, sete, em 1972, Munique – a Olimpíada que, infelizmente, ficou mais conhecida pelo sequestro e subsequente assassinato de 11 atletas israelenses. Spitz, judeu, ficou em segundo lugar. Além das sete medalhas, Spitz, mesmo com o seu famoso bigodão, também bateu os sete recordes mundiais das provas em que nadou, provando, com o mesmo argumento, de que não tinha se beneficiado de uma geração fraca. (Um exemplo de um bom nadador que teve a sorte de competir em uma Olimpíada fraca foi Gustavo Borges. Em 1996, ele foi segundo lugar com o tempo de 1’48’’08 nos 200 metros livre, que não lhe daria nem o bronze de 1992, quiçá de 1988 – medalha aliás, que ficou para Biondi.)

A história deste recorde de medalhas de Spitz começa quatro anos antes, em 1968. Assim como Phelps, Spitz foi sempre um garoto prodígio da natação. Aos dez anos já tinha um recorde mundial na categoria. (Phelps, por sua vez, bateu seu primeiro recorde adulto aos 15 anos e 9 meses, se tornando o mais jovem atleta a superar uma marca absoluta.) Na Cidade do México, Spitz chegou como uma grande expectativa de conquistar cinco medalhas douradas, considerando que já havia estabelecido, aos 18 anos, dez recordes mundias, e, um ano anos, nos jogos Pan-Americanos de Winnipeg, ele já tinha conseguido o quinteto. (Esse recorde de Spitz foi batido por um brasileiro, Thiago Pereira, no Pan de 2007.) Porém, Spitz só venceu as provas de revezamento que participou. No 200 metros borboleta, terminou em oitavo, o último colocado na bateria. Nos 100 metros livre, terminou em terceiro. E nos 100 metros borboleta, a única prova em que Spitz, Biondi e Phelps dividem, ficou em segundo, por 5 décimos de segundo. Numa época em que a divisão do tempo parava na primeira casa decimal após o segundo, num exemplo sutil da menor preocupação com a precisão do tempo, essa disparidade representava uma diferença ínfima. Talvez não como um centésimo, mas cinco.

Nunca saberemos ao certo, mas podemos imaginar que essa derrota no 100 metros borboleta – a prova favorita de Spitz – tenha doído mais que o oitavo lugar dos 200 metros do mesmo estilo. O lugar-comum assegura de maneira cruel que o segundo colocado é o primeiro perdedor. Numa sociedade competitiva,  essa proximidade com o sucesso, essa dor do quase, a síndrome do vice, machuca mais que o completo anonimato, que a lanterna, que “fechar raia”, que no jargão da natação quer dizer chegar em último. Principalmente para Spitz, cujo pai, Arnold, lhe dizia: “Swimming isn't everything; winning is”. Era vencer ou nada.

Após o triunfo em 1972, Spitz abandonou a natação, aos 22 anos. Tentaria a carreira como ator, como, aliás, outro grande nome da natação americana e mundial, Johnny Weissmuller. Além de ter sido o primeiro homem a nadar a distância abaixo do cabalístico tempo de 1’00’’ nos 100 metros livre, Weissmuller se transformou no dono do mais famoso grito de Tarzan da história do cinema. Diferentemente do homem-macaco-peixe, a vida de Spitz fora das piscinas não foi tão famosa. Ele ainda tentaria voltar às piscinas, para as Olimpíadas de 1992, com mais de 40 anos. Em 1991, competiu numa prova não-olímpica, os 50 metros borboleta, contra Tom Jager – então recordista dos 50 metros livre – e... Matt Biondi. Perdeu para ambos. Desistiu da ideia um pouco louca de tentar ir a Barcelona quando não conseguiu nem se classificar para a seletiva americana. O tempo exigido era 55’59, ele fez 58’03 – uma eternidade de diferença.

O grande triunfo de Phelps também se iniciou antes de 2008. Oito anos antes, para ser exato. Ainda com 15 anos, ele foi o mais novo atleta da natação a competir em Sidney. Nadou apenas os 200 metros borboleta – talvez a mais assustadora prova que exista para um nadador – e, mesmo com a pouca idade, ficou em quinto lugar. Cinco meses após os jogos, ele bate o recorde mundial da mesma distância. Quatro anos após Sidney, era a vez de Atenas. Phelps já é, provavelmente, o maior nadador em atividade, num período que outro fenômeno também divide as piscinas com ele, Ian Thorpe. O americano está inscrito em oito provas, claramente numa tentativa de sobrepor as sete conquistas de Spitz. No campeonato mundial de natação do ano anterior, realizado em Barcelona, ele já tinha nadado em seis provas e levado quatro ouros e duas pratas. Comparando Barcelona 2003 e Atenas 2004, podemos ver que na primeira competição ele optara por não competir exatamente na prova em que Thorpe detinha o recorde mundial, os 200 metros livre, e não fora incluído no revezamento 4 x 100 metros livre, por não ser especialista na distância. Em Atenas, porém, ele estava escalado para ambos os desafios. E foram exatamente nessas duas provas que ele “falhou”, chegando em terceiro lugar. Ele ganhou em todas as demais provas e saiu de Atenas com “apenas” seis medalhas de ouro e duas de bronze. Ficou no quase.

Matt Biondi também competira em uma Olimpíada antes da sua principal, a de 1988. Nadou o revezamento 4x100 metros nado livre, que levou o ouro em Los Angeles. Quatro anos depois, em Seul, começava a saga do primeiro homem que se propunha a igualar as sete medalhas de ouro de Mark Spitz numa mesma edição dos jogos. Suas provas eram: 50, 100 e 200 metros livre (esta, a sua aposta mais arriscada), os 100 metros borboleta e os três revezamentos, 4x100 metros livre, quatro estilos e os 4x200 metros livre. Como acontecia com bastante frequência, os EUA foram soberanos nos revezamentos: em nenhum deles a equipe norte-americana ganhou com menos de um segundo de vantagem sobre os adversários. Nos 50 e 100 metros, apesar da concorrência com Tom Jagger na primeira prova, Biondi faturou ambas. Já nos 100 metros borboleta... Antes, porém, é bom deixar explícito que Biondi, ao cair na água, já não tinha chance de igualar Spitz. Ele perdera dois dias antes a prova dos 200 metros livre para um australiano até então praticamente desconhecido: Duncan Armstrong. Ficara em terceiro, sendo, provavelmente, abalado por essa derrota.

Nem sempre as histórias seguem um roteiro com encadeamento lógico - mesmo as mais coincidentes. Se essa saga tivesse sido criada por um roteirista afeito a simetrias, certamente alguns detalhes seriam diferentes. Ou Biondi teria vencido os 200 metros livre, ou a prova teria acontecido após o desastre dos 100 metros borboleta. Porém, talvez o borboleta não tivesse sido tão catastrófico, assim, caso ele tivesse vencido o crawl. Aliás, essa derrota de Biondi pode ter, sim, uma semelhança, pelo inverso, com uma prova de Phelps, já em 2008. Uma prova que nem foi vencida por Phelps, mas que injetou nele uma certeza de que ele não poderia perder mais.

É possível apostar que quem assistiu aos jogos de Pequim não esquecerá de uma cena específica. Phelps gritando com os músculos do peito, bíceps, abdômen, todos tensionados, com os braços estendidos à frente de seu corpo, as veias dos antebraços e pescoço saltando, em uma expressão máxima da vitória. Era o fim do revezamento 4 x 100 metros livre, sua prova mais difícil, já que não é especialista em velocidade. Os EUA haviam vencidos os franceses, numa chegada extremamente improvável. O caminho estava livre e a esperança nunca havia estado em tão alto patamar. Phelps fora o primeiro a cair na água entre os norte-americanos e entregara em segundo com um tempo memorável, 47’51, recorde continental, atrás apenas do australiano Eamon Sullivan que, na ocasião, batera o recorde mundial. Para efeito de comparação, com esse tempo, Phelps seria o terceiro colocado na prova individual, à frente de César Cielo e do conterrâneo Jason Lezak, que empataram em 47’67. Lezak era o último nadador do revezamento dos EUA, o responsáel por “fechar” a prova, como se diz entre os nadadores, e cairia na água junto com o homem que tinha vencido a prova individual, o francês Alain Bernard. Para dificultar a tarefa de Lezak, além de ter que bater um atleta que havia sido melhor que ele na competição individual, seu companheiro anterior tinha nadado a distância em cerca de um segundo mais lento que o adversário francês, e entregara o revezamento com meio corpo de desvantagem. Qualquer nadador teria todo o direito de ficar intimidado com essa incumbência. Se a natação, ou mesmo a vida, fosse lógica, e se respeitasse os resultados previamente obtidos, Lezak teria se matado de nadar e, mesmo assim, Bernard teria batido na frente. Phelps teria perdido nesse momento a chance de superar Spitz no número de ouros, mas nem poderia culpar o companheiro: ele estava nadando, em desvantagem, contra o campeão olímpico! Lezak nadou, portanto, por ele, pelo seu país – o presidente dos EUA, George W. Bush, estava na plateia, segurando uma bandeirinha –, por seus companheiros, mas muito mais por Phelps. Eram a vida, a carreira, a reputação de Phelps que estavam sendo decididas a cada braçada de Lezak. Ninguém acreditava. Era uma tarefa dificílima. Se é possível usar a expressão “impossível” para algo que, depois, foi feito, essa é a situação ideal. Antes de ele cair na água, o narrador da TV americana chega a dizer: “ele vai ter que voar”. Se ainda restasse alguma esperança ao maior dos crédulos, ele a teria perdido e desistido por completo quando visse que Bernard abrira o outro meio corpo de vantagem na virada dos 50 metros. A distância entre os dois beirava os dois metros e possívelmente um segundo. Porém, a volta de Lezak foi a mais fenomenal de todos os tempos. Ninguém parecia acreditar quando ele crescia e se aproximava de Bernard até que na chegada, bateu na frente do francês. Oito centésimos à frente do oponente. Enquanto Phelps gritava e comemorava, os companheiros franceses olhavam para o placar eletrônico, atônitos, sem acreditar no que tinha acontecido. Bernard escondia o rosto, ainda na piscina, envergonhado por ter perdido. Phelps tinha passado em sua prova mais difícil, mas ainda teria uma outra prova de velocidade pela frente. E dessa vez, não poderia contar com os companheiros. Eram os 100 metros borboleta.

Vinte anos antes, a mesma prova, 100 metros borboleta. Matt Biondi chega para competir podendo se tornar, ao menos o segundo nadador de todos os tempos, com seis ouros. Quase um Spitz. Uma medalha de diferença. Ao seu lado, o nome mais conhecido é o do alemão ocidental Michael Gross, apelidado de Albatroz, por ter uma envergadura comprida. Entre os oito finalistas, nadadores das maiores potências do mundo, à época. Além dos EUA e da Alemanha Ocidental, o Canadá, a Grã-Bretanha e a URSS. E um competidor do Suriname. Anthony Nesty.  Reza a lenda que não havia nenhuma piscina olímpica no Suriname quando Nesty treinava lá. Seu país de origem tem tanta tradição na natação quanto o Zimbábue – que recentemente, aliás, teve uma nadadora  duas vezes campeã olímpica, Kirsty Coventry. Nessa época, Nesty já treinava nos EUA e não era exatamente um desconhecido. Havia batido alguns recordes menores e tinha ganho o Pan de 1987 – mas estava longe de ser uma ameaça para os planos de Biondi. Quando o locutor chama o seu nome, o norte-americano mostra um sorriso confiante, quase displicente. A câmera de TV só o acompanha. O juiz pede para todos se aproximarem dos blocos de partida e percebemos a diferença física entre os nadadores. Nesty, negro, baixo para os padrões dos nadadores (1,80 m), com pouca musculatura. Gross, imenso (2,01 m), peitoral avantajado, cabelos louros amarelados. Biondi, altíssimo (2 m) , forte, ombros largos, cabelos pretos raspados à máquina. O juiz faz o pedido tradicional, “take your marks”, e apita, todos caem. Na água, como bom velocista que era, Biondi sai na frente de todos, virando os primeiros 50 metros abaixo do recorde mundial, e abrindo quase um corpo dos demais, que vinham juntos, num segundo pelotão uniforme. Aos poucos, contudo, ele vai cansando na volta, enquanto os demais se aproximam, vagarosamente. Porém, nada parece afetar Biondi seriamente. Tudo indica que ele vai se manter inteiro na luta pelas suas seis medalhas de ouro. A cinco metros da borda, todavia, todos os competidores estão bem próximos. Nesse momento, o espectador mais especulativo poderia imaginar que se houvesse mais uns dez metros, Biondi nem subiria no pódio: sorte dele que a prova acabaria em poucos instantes. Não foi preciso mais do que outros poucos metros. No “T”, a marcação nos azulejos do chão da piscina no formato dessa letra, Biondi mede sua última braçada de maneira errada e se estica todo para tocar a borda. Na raia 3, Nesty, com sua envergadura menos avantajada, dá uma braçada menor e encosta. O tempo de Matt Biondi: 53’01. De Nesty: 53’00. Biondi deixa de ganhar a medalha de ouro por apenas um único centésimo. O sentimento de incredulidade é compartilhado por todos. Enquanto Nesty sai da água para abraçar as pessoas, Biondi fica olhando para a borda, quase imóvel.

Novamente 2008. A sétima prova de Phelps era exatamente os 100 metros borboleta. A vitória seria dupla, a derrota, infinita. Se ganhasse, igualaria o recorde Spitz e ainda seria selecionado para o revezamento 4 x 100 metros quatro estilos dos EUA, com fortes chances de ganhar a oitava medalha. Se perdesse, repetiria o êxito de quatro anos antes, e ficaria no “quase”. Seria novamente o nadador que tentou bater Spitz e ficou bem próximo, duas vezes. Duas vezes falhando. Para complicar a prova para Phelps, por ser sua sétima prova, ele já estava mais exaurido que qualquer outro nadador naquela prova. Entre eliminatórias, semifinais e finais, Phelps tinha caído dezenas de vezes na água e nadado milhares de metros, entre elas, as provas mais cansativas que a natação tem, como o 400 metros medley e o 200 metros borboleta. Ao lado dele, estava o recordista mundial da prova, seu compatriota Ian Crocker.  Se Crocker o vencesse, ele nem disputaria o revezamento e seu resultado seria ainda pior que o de quatro anos antes. Além dele, havia ainda um sérvio, nascido nos EUA, meio falastrão, chamado Milorad Čavić. Antes da competição, Čavić chegou a dizer que seria “bom” se Phelps perdesse a prova e ficasse marcado como o homem que apenas igualou o recorde de sete ouros. Phelps respondeu que quando pessoas falam coisas como essa, “it fires me up more than anything”. O norte-americano estava mordido. Queria a sétima medalha e a passagem para a eternidade.
Quando o locutor apresenta Čavić, na raia quatro, a dos favoritos, ele segura o escudo do uniforme de seu país – outro sem qualquer tradição no esporte – como quem quer demonstrar orgulho, comprovar que, mesmo tendo nascido nos EUA, é totalmente sérvio. Em seguida, é a vez de Phelps. Imóvel, completamente impassível, olhando para um ponto fixo logo acima do horizonte, escutando música, como faz sempre. Depois da apresentação obrigatória, apenas se vira e começa a tirar sua roupa. Na raia 6, Ian Crocker, já pronto para a prova, respira fundo, como se já soubesse que seria apenas o coadjuvante dessa disputa. Antes de subirem no bloco de partida, coincidentemente, Čavić e Phelps ficam frente a frente: ele decide subir por sua direita, e Phelps, pela esquerda. Eles não se encaram. Phelps apenas alonga os muito alongados braços enquanto Čavić balança os músculos. Sobem no bloco. Čavić faz o sinal da cruz, Phelps repete o seu procedimento padrão: abaixa o tronco à frente e cruza os dedos das mãos às suas costas para esticar pela última vez os braços, os soltando em seguida de maneira violenta para quase se autoabraçar, uma, duas, três vezes, como se estivesse batendo asas. Vai começar. Take your marks. Silêncio em todo o estádio. É agora. Bip. Todos mergulham e a torcida se transforma em uma plateia enlouquecida. A primeira braçada dos dois acontece concomitantemente, mas Čavić logo a seguir começa a liderar a prova com facilidade, enquanto Phelps, talvez sentido o cansaço, talvez optando por uma tática negativa – de voltas mais fortes que a ida –, está entre os últimos. Čavić passa os primeiros 50 metros em primeiro lugar, nove centésimos de segundo abaixo da parcial do recorde mundial. Ian Crocker está em segundo. Phelps continua como um dos últimos.

Além de ter uma grande “natação”, como se diz sobre os nadadores extremamente técnicos, com um estilo bonito de se ver, Phelps é uma grande especialistas também nos fundamentos: sua parte submersa da prova é, senão a melhor entre todos os competidores, uma das. Ao sair da água, após a virada, ele já é o quinto colocado, apenas meio corpo atrás de Čavić – mas o sérvio não vai entregar facilmente a prova. Aos 75 metros, Phelps já é o segundo, mas a diferença para Čavić diminui muito vagarosamente. Aos cinco metros da borda, novamente, pensamos: Phelps perdeu essa. No “T”, Čavić mergulha com a sua última braçada para bater na borda, enquanto a mão de Phelps ainda está no ar. Em seguida, filme repetido, protagonistas mudados, história já conhecida.

Phelps, 50’58. Čavić, 50’59.

Ele tenta esboçar uma comemoração: bate na água, tensiona os músculos, mas está cansado. Čavić vai cumprimentá-lo, em seguida Crocker. “Michael Phelps, você é absolutamente invencível”, diz o locutor da TV inglesa. Não há muito como discordar dele. Em outro momento, afirma: “Ele é um garoto de sorte”.
Sorte, um dos nomes da coincidência. Quando não sabemos muito bem o que acontece com nossas vidas, tentamos dar nomes para, ao menos, tornar essa situação mais familiar, nos afastar do desconhecido, nos confortar como uma figura familiar. Matt Biondi e Michael Phelps foram protagonistas de uma mesma peça em que a um foi dado um final não muito feliz, que, dentro dos padrões atuais, pode quase ser visto como ruim. Ao outro, a honra suprema. Para Biondi, estar próximo dessa coroa foi o seu maior problema. Phelps se esbaldou. O centésimo se transformou em uma moeda jogada ao ar que tinha cinquenta por cento de chance de cair para um lado ou para outro. O centésimo mudou de lado, dentro de uma história que visivelmente se repetiu, com personagens parecidos,  locais similares, resultados diversos, angularmente opostos. Biondi na condição de favorito esperou que a borda chegasse para ele, assim como fez Čavić – que caíra na água na condição de homem a impedir a devastadora vitória do oponente. Phelps e Nesty foram em direção à chegada, como se não houvesse fim a corrida. Acreditando que enquanto não atingir o alvo, não chegou à conclusão. Eternizando o instante. Confiando que em um centésimo ainda é possível vencer.

Um centésimo. O piscar de olhos do clichê dura de dez a 20 centésimos. Praticamente a definição do “quase”. Um centésimo é quase inapreensível. Inexplicável. Não há nada que se possa fazer nesse tempo. Além de perder, ou ganhar, dependendo do lado que você encara o assunto. Um centésimo é o instantâneo. E o instantâneo é aquilo que nunca se apreende, é o eterno devir, é uma eternidade pelo seu lado oposto, aquilo que se modifica a todo momento. Menos quando entramos na transcendência. Então, um centésimo pode durar uma vida inteira e nunca ser esquecido. Para o mal ou para o bem.

Não existe uma lógica entre o nível da vontade de cada um e os resultados que daí se pode tirar. Não há como medir esse “querer” das pessoas, para saber quem era o que mais queria. Não há qualquer “justiça”, nos termos de quem faz bem, leva, que se esforça mais, ganha, quem merece é o bom. Ganha, simplesmente, quem bate na frente. Qualquer um pode entender esse processo. Não existe explicação complicada, estudo, ou outra tentativa de teorizar sobre o aspecto. Leva quem chega em primeiro. O placar eletrônico é amoral: registra os tempos e a discussão tem fim. Mas é tentador pensar o que faz um ou outro vencer. Treino? Alimentação? Biotipo? Vontade? Raça? Deus? Coincidências? E é ainda mais provocante quando isso ocorre com dois episódios em que um “justifica”, “explica” ou “desfecha” o outro. Como se houvesse, primeiro, um sacrifício para a compensação final, em que um personagem é imolado aos deuses da natação para a exibição pública de sua vergonha de ter perdido por um centésimo para que, 20 anos depois, um compatriota, um igual, pudesse alcançar a glória máxima, exatamente usando o mesmo procedimento. Os três atos explícitos: a vergonha inicial, a luta pela vitória e a consagração. O mentor e o aprendiz. Protagonistas americanos, antagonistas de nações menos famosas. Não é possível assegurar se as coincidências são realmente uma terceira forma de se encarar os atos e as ações. Novamente: é difícil fugir de tentar encontrar uma explicação, algo que decifre esse código superior, que possa torná-lo algo decodificável, que demonstre que há uma lógica atrás de tudo e que, portanto, estamos a salvos – o que a colocaria dentro da categoria da causalidade. Podemos imaginar que nesse caso, as coincidências podem ensinar algo, como a atitude ativa tende a ser melhor encarada pelo destino que a passiva. E logo descobrimos que é balela. Porque destino é apenas outro dos nomes que damos à coincidência.

Legenda da revista Life para essa foto da Getty Images: "Olympic gold medalists Mark Spitz, Michael Phelps and  Matt Biondi pose on the red carpet at the Fourth Annual Golden Goggles Awards at the Beverly Hilton Hotel on November 18, 2007 in Los Angeles, California.". Daqui.

ps. esse ensaio foi escrito antes do campeonato mundial deste ano. mas não mudam muito as minhas opiniões.

sábado, 23 de julho de 2011

Fragmentos de uma edição

Se a vida é edição, o que deixamos de lado também pode ser visto como vida. A seguir, os trechos cortados de um ensaio que estou escrevendo. Duvido alguém acertar o assunto.

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E se for uma circunstância sofrida, aí, piora. O peso é, por vezes, demasiado para se carregar apenas com a razão. É preciso uma explicação, algo que dê um sentido e compense a dor pelo que se passa, mesmo que baseado em uma imaginação que não respeite qualquer realidade. Com frequência, o ímpeto de explicar o inexplicável é lembrado como uma das possíveis origens das religiões. Como não sabemos o que vamos encontrar após a morte, por exemplo, inventamos uma grande mitologia, que envolve ora a vida eterna, ora reencarnações em série. Dentro dessa lógica, de fundo ilógico, temos uma série de comportamentos a cumprir para seguir adiante, passar de fase – num linguajar de video-game – e alcançar as benesses. Claro que essa troca de procedimentos considerados proveitosos durante a vida por uma pós-vida de benefícios se torna um mecanismo de poder, deixando em uma posição de privilégio quem determina o que é uma “boa conduta” sobre aquele que “apenas” precisa seguir essas regras

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O curioso fica por conta de uma tentativa de explicação para eventos considerados bons.

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Quando há um acontecimento por acaso, sempre nos surpreendemos. Exemplos: ao pensar em alguém, logo em seguida, encontrar a pessoa. Quando se está precisando de dinheiro, e se encontra ou se recebe um valor. Etc. Etc. Etc.

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Só que, às vezes, não dá para enquadrá-lo simplesmente dentro de uma categoria aleatória.

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O amigo e depois desafeto de Freud propõe que as sincronicidades devem se diferenciar das ações simplesmente aleatórias, mas que não...

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Nietzsche, ainda no século XIX, ao perceber o enfraquecimento da explicação divina para os acontecimentos, foi contra a substituição dessa figura onipotente por outros recursos, como, inclusive, a ciência. Para ele, a troca da crença no deus cristão por um ícone qualquer seria apenas a substituição das causas do niilismo. O super-homem encararia bem a realidade com sua alta dose de absurdo, e não recorreria à fantasia – muito menos a disfarces. Mas esse, também, não é o caso.

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Essa imprevisibilidade sistemática é o que nos seduz.  Juntamos o melhor dos dois mundos. Estamos dentro de um arcabouço razoavelmente seguro, mas podemos ser completamente livres, dentro dele, desde que não saiamos de lá. Pensemos num solo musical. Dentro de determinadas regras, o músico pode inventar o que ele quiser. Pensemos num equilibrista na corda bamba – com rede de proteção lá embaixo. Pensemos nas competições, mais especificamente nas competições esportivas. Quando dois times de futebol entram em campo, por mais superior que um seja sobre o outro na teoria, o resultado, o que vai acontecer após os 90 minutos regulamentares é quase totalmene aleatório, mas respeitando algumas regras literalmente básicas. Salvo um evento externo – como um blecaute no estádio, ou uma chuva torrencial, sabemos que um time vai ganhar, ou haverá empate. Não sabemos quem vai ganhar, ou se ninguém vai ganhar, menos perder – portanto o grau de aleatoriedade está respeitado – mas um desses três resultados está garantido – e, consequentemente, os parâmetros estão afixados.  O mesmo acontece com todos os esportes coletivos – mesmo naqueles que não existe empate ou que demoram dias para terminar. Nos individuais, além desse aspecto de aleatoriedade-controlada, sobre quem vai ganhar, quem vai perder...

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A simultaneidade, o fato que desperta a curiosidade por ser tão imprevisível, é outro, e tem a duração de um centésimo.

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Isso, com 26 anos, programado para disputar as próximas olimpíadas, de Londres, em 2012

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Mostrando que o autor desse texto é humano, demasiadamente humano,

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Ou melhor, talvez seja. Talvez seja o caso de um deus contemporâneo, dentro de nossos padrões atuais, de um super-homem, que consegue superar todas as marcas estabelecidas antes dele, capaz de ser um generalista em uma época de técnicos  treinados para apertar um único botão. Estamos falando de Michael Fred Phelps.

sexta-feira, 10 de outubro de 2008

Braço sem palmar

"Quando lhe perguntei como ele conseguia ser tão bom no braço sem palmar, a resposta foi: 'Porque eu gosto de fazer braço sem palmar'. Dificilmente vou conseguir explicar a grandeza metafísica dessa resposta para quem não a identificou de cara."

Simplicidade deveria ser o sobrenome desse cara. Profundidade, o segundo nome.

sábado, 16 de agosto de 2008

Centésimos

Pequim não é a primeira olimpíada do Oriente em que um americano chega tentando bater o recorde do Mark Spitz de medalhas de ouro. Em 1988, em Seul, Matt Biondi era o cara. Menos versátil que Phelps, nadava "apenas" os 50m, 100m livre e 200m livre, além dos revezamentos. E os 100m borboleta. Sua primeira prova.

Ele vinha de algumas derrotas em provas nos EUA contra um surinamês moreno chamado Anthony Nesty. Na prova, Biondi sai na frente, sem dar margem para o adversário. Mas, ao alcançar o T final da piscina, o americano ondula, estica os braços e encosta na borda, marcando 53'01. O adversário crava 53'. No T, com quase um antebraço de desvantagem - uma eternidade - ele dá uma segunda braçada curta e rápida. O sonho das sete medalhas de Biondi já tinham acabado antes mesmo de começar.

Depois, ele ainda viria perder os 200m livre para o australiano Duncan Armstrong, zebríssima para a prova. Entretanto, achava Biondi um dos melhores nadadores de todos os tempos, talvez até maior que Spitz, em considerando as diferentes épocas.

E, então, veio Pequim. E Phelps devolve a derrota por um centésimo, na mesma prova, na sua sétima medalha de ouro. E dizem que coincidência não existe...

ps. E o Cesão? Além de tudo, fica a dois centésimos do recorde mundial. Impressionante.

terça-feira, 12 de agosto de 2008

Por que torço por Phelps

Ele é americano, logo, normalmente recebe minha antipatia gratuita. Nada as principais provas de dois dos nadadores brasileiros. E é franco favorito para tudo o que entra, portanto os adversários receberiam as minhas atenções em condições normais. Mas a questão é que torço para Phelps na sua tentativa de chegar aos oito ouros.

O principal motivo é de ordem anti-saudosita: não agüento mais as comparações com Mark Spitz. Sei que começará, agora, as comparações com o próprio Phelps. Isso quer dizer que já começarei a torcer por quem quer que seja que tente quebrar a barreira dos oito ouros - caso Phelps consiga, claro.

Mas Phelps é um garoto que parece do bem. É norte-americano do tipo inofensivo. Diferentemente de Spitz. Minha mãe sempre dizia que, em 1968, o americano chegou afirmando que levaria sete medalhas e entraria para a História. Ganhou duas, apenas em revezamento. Apenas quatro anos depois, de bico fechado, é que levou as douradas.

O nadador de 23 anos é um atleta moldado para ser fora-de-série. Provavelmente, seria finalista de qualquer prova que disputasse. Concorreria a medalhas em 75% delas. Mas o mais impressionante, na minha humilde opinião, é que, além de ganhar as provas, Phelps está batendo todos os recordes mundiais. Exatamente o que Spitz fez em 1972.

Porque ganhar sete medalhas de ouro pode ser sorte. Uma safra ruim poderia deixar um sujeito "apenas" acima da média com essas medalhas. Lembre de 1996 e os seus tempos ridículos - com a exceção honrosa dos 100 m livre. Mas, ao bater os recordes, Phelps e Spitz mostram que são o que melhor se produziu até aquele momento na natação. E, como disse Kobe Bryant, eu gosto de presenciar os melhores,

segunda-feira, 11 de agosto de 2008

Recorde (para sempre)

Você tem a responsabilidade de fechar um revezamento. O revezamento é o 4x100 m livre. Sua equipe é os EUA, que não ganham tal prova desde 1996. Você é considerado um amarelão por jornalistas de seu país. O seu rival direto é o francês que até dois minutos atrás era o recordista da prova. Ele está em vantagem de um corpo.

Jason Lezak, não sabendo que era impossível, foi lá e cravou 46'06. O resto é história.

ps. Phelps, correndo atrás das suas medalhas, agradece.
ps. 2 Cesão terá um problemão no 100 m livre. Vários caras nadaram abaixo de 48'.

quarta-feira, 9 de julho de 2008

Sem parar

"It's sort of bittersweet for me because I've made my fifth Olympic team, but I'm going to be away from my daughter for a month and that's really hard emotionally. But I'm happy to be going to Beijing", said Dara Torres, 41.


sexta-feira, 27 de julho de 2007

'O Pan engorda'

A frase-título, do Hélio de la Peña, do Casseta e Planeta, condiz inteiramente com a verdade. O ser humano retrocede se transformando num vegetal da família das samambaias, com raízes muito bem fincadas em frente à TV. Todos os esportes são bem-vindos, sem preconceito de origem, cor ou classe social. Neste momento, inclusive, a televisão passa aqui atrás a semi de futsal - uma de nossas medalhas certas.

Por isso, essa demora em abordar os resultados da natação nos Jogos Pan-americanos. É inegável que as seis medalhas de ouro, e as outras de prata e bronze, do Thiago impressionam. Também é um fato que ele é o mais completo nadador em atividade no Brasil. O apelido de "Phelps do Pan" é 100% factível. Mas, já que citamos o coisa-ruim, Thiago tem esse calo a superar. Suas provas são as mesmas de Phelps.

Há apenas duas que o americano nada e o brasileiro, não. Os 100 e os 200 borboleta. Exatamente as duas do Kaio. Ou seja, apesar de ter feito ótimos tempos, o paraibano, que foge completamente dos estereótipos do nadador, tem poucas chances.

O que deixa o Cesar Cielo como a nossa maior esperança de medalha de ouro em olimpíada. Em provas que o "nosso" outro calo, o Popov, reinou durante anos.

É quase uma licença poética.

domingo, 1 de abril de 2007

O melhor de todos os tempos

Dorrit Harrazim escreveu boa parte do que eu penso sobre o Michael Phelps n'O Globo - link indisponível depois da reformulação. Ela só teve a desvantagem de escrever quando o garoto tinha "só" seis ouro. Agora, ele já tem o sétimo. Com direito a seis recordes mundiais - se não me falha a memória, que normalmente falha. Só não conseguiu a oitava medalha porque, na eliminatória do 4x100 medley, o vice e recordista mundial dos 100m borboleta, Ian Crocker, queimou.

Fica a pergunta: teria sido uma espécie de vingança de Crocker contra Phelps, porque o melhor-de-todos-os-tempos havia vencido a prova dele? Ele perderia uma medalha de ouro, mas Phelps não bateria o recorde de sete ouros em uma mesma grande competição, como Olimpíada e/ou Mundial, feito só alcançado pelo Spitz em 1972 (com direito aos sete recordes mundiais, se não me falha... você sabe.)

Deixando a teoria da conspiração de lado, Harrazim argumenta brilhantemente, como sempre, que Phelps não precisava de números para ser considerado o melhor de todos os tempos. Não foram os números que fizeram Michael Jordan ser o melhor no basquete - apesar de ter colaborado bastante.

Phelps seria o melhor porque, escreve Harrazim, teria o melhor estilo em todos os estilos. Seria o nadador polivalente, numa época de especialistas. O nadador de medley por excelência, o sujeito que é tão bom em tudo, que quebra a máxima de não ser o melhor em nada. Phelps, parafraseando Romário, o melhor-de-todos-os-tempos na grande área, é o cara.

Felizmente ele não nada os 100m livre, o que mantem a esperança para o César Cielo Filho, vulgo cabelos louros. Já Thiago Pereira... Bem... Podemos nos contentar com, considerando a evolução do garoto, a medalha de prata.