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terça-feira, 29 de dezembro de 2015

O Clube da encruza em 2015

Um dos anos mais complicados na política nacional [na inter também] talvez merecesse um texto que falasse sobre os desmandos de Brasília, Laranjeiras ou do Piranhão. Mas não me sentiria bem em invadir o terreno de colegas muito mais capacitados, nem gostaria de, agora, repisar assuntos considerados de difícil digestão. Não podemos baixar a guarda nunca, mas merecemos um refresco para recarregar as baterias e mirar o 2016 de frente.

Talvez o melhor seja falar sobre outro assunto que tenha ficado à sombra de todos os infortúnios e, quem-sabe?, tenha florescido exatamente por conta dessas desgraceiras todas - mais ou menos como aconteceu no período da ditadura civil-militar. Não é uma mera percepção pessoal, mas um assunto que foi conversado em vários lugares - das redes sociais às redações de jornais: como esse ano foi extremamente produtivo para a música brasileira. O pessoal do Tramp, por exemplo, conseguiu eleger 150 álbuns brasileiros no ano. Não é pouca coisa. E não estamos falando apenas de gente não tão conhecida, mas nomes que variam entre o medalhão (Gal, Djavan, Lenine etc.) até outros que estão crescendo e aparecendo entre aqueles que fogem do senso comum (Siba, Letuce, Tulipa...).

Pode-se fazer uma lista como eles fizeram, ou tentar resumir essa nova onda de maneira metonímica, elegendo algum grupo que consiga sintetizar o espírito desses tempos tão multifacetados. Minha sugestão para tentar entender esse ano de 2015, por um lado que não seja o mar de lama (literal e literário) que estamos metidos, é o Clube da encruza. São os músicos que, entre outros projetos, criaram encontros inesquecíveis como o Metá Metá e o Passo Torto; e que participaram, só neste ano, do disco da Elza Soares, produzindo talvez o grande álbum do ano, e o de Rodrigo Campos, talvez o outro grande álbum do ano. O pessoal que foi apelidado de povo do "samba sujo de São Paulo": além do Rodrigo, Kiko Dinucci, Marcelo Cabral, Thiago França, Romulo Fróes, e, claro, Juçara Marçal.

Nesse ano da desgraça de 2015, o Clube da encruza [nome que eles se deram para uma apresentação na sala Funarte - grande palco carioca - em agosto] lançou - juntos ou separados - ao menos três discos memoráveis. Além dos dois supracitados ("A mulher do fim do mundo", da Elza, e "Conversas com Toshiro", do Rodrigo Campos), podemos colocar no mesmo patamar o "Thiago França", isso, o nome do saxofonista, do Passo Torto, que contou com a participação de Ná Ozzetti (que, por sua vez, participou do disco de Rodrigo Campos). Mas não ficam só nisso.

Mais experimental, Juçara Marçal participou de dois projetos com muito noise e pitadas generosas de influência das culturas de tradição africana: "Anganga", com Cadu Tenório, de influência mais eletrônica; e "Abismu", com o parceiro de sempre Kiko Dinucci, e Thomas Harres, mais free jazz, mais rock, mais improviso.

(Um parêntese rápido: Harres não é um desconhecido; ele é baterista de Ava Rocha, que também produziu um disco incrível neste ano, o "Ava Patrya Yndia Yracema", Negro Léo (cujo último disco - de 2015 - "Niños heroes", chegou a ser elogiado até pelo NYT, para não dizer que estamos sendo benevolentes com a produção nacional) e Abayomi. As boas influências tendem a se encontrar, não?)

Se não bastasse, Thiago França, aos 30 minutos do segundo tempo desse 2015, lançou ainda um disco com seus solos de saxes e percussão para fazer versões de músicas consagradas do candomblé ou de outros estilos com forte influências africanas, o "Sambanzo, coisas invisíveis". E já em dezembro, lançou ainda outro projeto, "Boomshot", agora com Kiko, o rapper Síntese e o DJ Akilez, com músicas mais ligadas ao hip-hop. É capaz de até o dia 31, eles lançarem outras coisas.

O que todos esses discos têm em comum? Em uma primeira audição, pouca coisa, além do fato de eles compartilharem os mesmos músicos, em várias versões. Mas, ao se dar tempo ao tempo - coisa tão incomum nesse 2015 - pode-se ver que, além de beberem numa fonte que sai lá da África [aliás, outro rapper que também provou dessa água neste ano foi Emicida, com o  "Sobre crianças, quadris, pesadelos e lições de casa"], misturado com a sujeira, o barulho, o noise bem comum da geração novaiorquina dos anos 1990, há uma tentativa de experimentar. Uma urgência de colocar logo no ar, de saber que uma obra nunca está verdadeiramente pronta se nós não a lançarmos. Uma tentativa de registrar as subidas e as descidas das vontades na hora que elas se apresentam. Uma intuição de que o esboço é a melhor forma de se expressar nos dias de hoje.

Isso não quer dizer que os discos são toscos, amadores, feitos nas coxas. O tamanho das produções de discos como o da Elza e do Rodrigo Campos não permitiriam dizer isso. São complexos, grandiosos, cheios de arranjos em que podemos ir descobrindo pequenas pérolas escondidas. Mas eles sabem que é necessário também mergulhar em terrenos pouco confiáveis para se oxigenar. Não é possível rodar em volta do lugar já conquistado para todo o sempre, porque aí se perde o viço. E as experimentações são os lugares perfeitos para entender a dinâmica entre erros e acertos. Perceber onde, como, quem estabelece a fronteira entre esses dois campos. Enxergar os lados todos do poliedro arrendondado em que vivemos e registrar essa história.

O Clube da encruza talvez seja a metonímia desse 2015 porque conseguiu acompanhar a quantidade gigantesca de informação sobre a qual a atualidade nos soterra, processando-a, transformando-a em algo mais perene que o simples clicar em um link da timeline. Conseguiu surfar nessa tera-onda, e, concomitantemente, interromper o fluxo de tempo, para criar um outro... tempo para se viver. Mostraram que não existe mais - se é que um dia existiu - um grupo fechado, hermético, desconectado, sem contato com outras dimensões. Que as influências podem vir de todas as partes do mundo, ao mesmo tempo e agora. Que é possível misturar punk com axé, que é possível encontrar na sujeira de uma microfonia uma doce boniteza harmônica. Que as regras são sempre estabelecidas a posteriori e que é preciso viver primeiro para conhecer quais são elas, mesmo que isso pareça mais doloroso.

domingo, 14 de junho de 2015

As experiências extremas de Fernando Brant

"Tenha fé em nosso povo que ele resiste / tenha fé em nosso povo que ele insiste".
Fernando Brant e Milton Nascimento

A morte de Fernando Brant poderia passar batido, mas não deveria. Representa o que o Brasil tem de melhor e pior. Compositor de algumas das mais belas canções que já tivemos contato, ele nos lembra o poder que a música chamada de popular tem no Brasil - capaz de criar, inclusive, uma sigla para ela própria (sigla essa que tanto torce o nariz de gente que quer encontrar o que seria a verdadeira arte do verdadeiro povo brasileiro: a mais original, a mais profunda, a mais representativa dos que nunca foram representados). Mas Brant também foi capaz de defender posições que podem ser interpretadas como a tentativa de perpetuar nosso abismo social.

As letras de Brant nas músicas de Milton Nascimento confirmam aquilo que o poeta Eucanaã Ferraz diz na introdução para o livro "O mundo não é chato", de textos escritos por Caetano Veloso para jornais, capas de discos e outras crônicas mais ligeiras - sem deixar de ser profundo: "no Brasil, a música popular é a instância da vida coletiva mais apta para viver essa experiência [extrema]", que é se pensar [tomar posicionamentos, agir, ser capaz de atacar e de defender] o país.

A música popular é o quando e o onde as pessoas se reúnem, no mais próximo da política arendtiana que temos. É aquela produção - no sentido que eu entendo da poiésis grega - em que se debate o hoje, se relembra o passado, se projeta o futuro. Não temos capilarização na literatura; tradição nos estudos estritamente acadêmicos, científicos ou universitários; musculatura na artes plásticas; relevância de debates dos meios de comunicação mais ou menos populares. Nos sobra - e "sobra" no sentido de abundar - a música, que nos afeta, nos nocauteia, nos eleva, enleva, nos mexe, mexe, nos destroça e nos constrói e reconstrói.

Não é um fenômeno único brasileiro, deve ter acontecido em outros lugares, mas isso não importa. O que importa é que a música é o que temos de mais profundo, que melhor nos mostra para nós mesmos, púlpito de debates, escola de quereres, sinal da beleza que se pode fazer com a nossa história.

Entretanto Brant, na sua atuação fora do campo da produção mais ligada ao campo das sensações, também nos lembra da outra metade da laranja brasileira, do erro cotidiano da dosagem do remédio que o transforma em veneno.

Suas posições extremamente raivosas na defesa dos direitos autorais de artistas carrega, além das motivações óbvias de defesa da classe, uma possibilidade de segundas e mais verticais interpretações. Era um ato conservador, no sentido mais próprio da palavra, da defesa da conservação do estado das coisas existentes. Era uma tentativa de manter as coisas como sempre foram e nunca aceitar qualquer tipo de mudança. Era uma escolha por manter privilégios de quem conseguiu esses privilégios - e não tentar construir pontes para diminuir a distância entre as extremas pontas da sociedade.

Como um homem pode ser tão inovador em um campo (estético) e tão reacionário em outro (político)? Ou por que alguém quando ultrapassa a bolha do andar de baixo já assume as posturas do andar de cima? Ou qual miopia impede os de cima de enxergar os de baixo como se fossem iguais?

Nelson Rodrigues talvez seja o principal exemplo nessa seara: um católico moralista orgulhoso de ser reacionário que dizia que expurgava suas neuroses e sonhos em uma produção teatral que era libertária, catártica, explosiva.

Essa divisão "Dr. Jekyll and Mr. Hyde" brasileira já foi muito melhor retratada por sujeitos como Roberto DaMatta, em seu "A casa e a rua". Somos conservadores em casa e liberais na rua. Somos violentos e conciliadores, ao mesmo tempo. Somos cordiais e cordiais, como diria Sérgio Buarque de Holanda. Somos extremados, precisamos de "experiências extremas".

Num momento de tamanho conservadorismo e atitudes retrógradas, excludentes e que beiram, quando não chafurdam, num fascismo descarado, quando a gangorra dessa nossa relação tensa histórica pende para um dos lados, é bom se agarrar a, ao menos, uma certeza: a música produzida no Brasil é linda. E Brant, o compositor, nos lembra disso. Que esse seja celebrado e o outro, combatido.

terça-feira, 14 de abril de 2015

'O quereres', Caetano Veloso


Onde queres revólver, sou coqueiro
E onde queres dinheiro, sou paixão
Onde queres descanso, sou desejo
E onde sou só desejo, queres não
E onde não queres nada, nada falta
E onde voas bem alto, eu sou o chão
E onde pisas o chão, minha alma salta
E ganha liberdade na amplidão
Onde queres família, sou maluco
E onde queres romântico, burguês
Onde queres Leblon, sou Pernambuco
E onde queres eunuco, garanhão
Onde queres o sim e o não, talvez
E onde vês eu, não vislumbro razão
Onde queres o lobo, eu sou o irmão
E onde queres cowboy, eu sou chinês
Ah! Bruta flor do querer
Ah! Bruta flor, bruta flor...
Onde queres o ato, eu sou espírito
E onde queres ternura, eu sou tesão
Onde queres o livre, decassílabo
E onde buscas o anjo, sou mulher
Onde queres prazer, sou o que dói
Onde queres tortura, mansidão
Onde queres um lar, revolução
E onde queres bandido, sou herói
Eu queria querer-te e amar o amor
Construir-nos dulcíssima prisão
Encontrar a mais justa adequação
Tudo métrica e rima e nunca dor
Mas a vida é real de viés
E vê só que cilada o amor me armou
Eu te quero e não queres como sou
Não te quero e não queres como és
Ah! Bruta flor do querer
Ah! Bruta flor, bruta flor...
Onde queres comício, flipper-vídeo
E onde queres romance, rock’n’roll
Onde queres a lua, eu sou o sol
E onde a pura natura, o inseticídio
Onde queres mistério, eu sou a luz
E onde queres um canto, o mundo inteiro
Onde queres quaresma, fevereiro
E onde queres coqueiro, eu sou obus
O quereres e o estares sempre a fim
Do que em mim é de mim tão desigual
Faz-me querer-te bem, querer-te mal
Bem a ti, mal ao quereres assim
Infinitivamente pessoal
E eu querendo querer-te sem ter fim
E, querendo-te, aprender o total
Do querer que há e do que não há em mim

terça-feira, 19 de agosto de 2014

Tristeza que tem fim com um samba

Quando eu fiz a minha pós-graduação em Arte e filosofia, minha monografia versou sobre a forma como Machado de Assis teria psicografado o caráter do brasileiro - esse ser inefável - ao comentar como iria escrever sua mais famosa obra: "com a pena da galhofa e a tinta da melancolia". Ou seja, o "exterior", a pena, desse sujeito bem humorado, feliz e contente, seria apenas um disfarce para o verdadeiro interior, que esconderia uma tristeza inconteste.

Não sei se hoje eu ainda aceitaria repetir essa definição, a começar por essa divisão tão metafisicamente clara [ou seria claramente metafísica?], ou mesmo por pensar esse binômio não daria mais conta [se é que um dia deu] do que seria esse sujeito brasileiro; ou, ainda, por duvidar de qualquer possibilidade de definição totalizante.

De qualquer forma, a relação deste provável lado sombrio da personalidade do brasileiro sempre me chamou bastante a atenção, porque, de certa forma, comprovaria a tese do palhaço que esconde a tristeza interna fazendo piada. Tese esta muito bem representada, aliás e infelizmente, pelo suicídio semana passada do Robin Williams.

Por mais que eu suspeite de que Machado tenha feito um gol nesse seu chute, me espanto quando encontro representantes nas artes de brasileiros que mostram esse caráter mais obscuro, não abertamente resplandecente, como cada vez mais é a regra. Acontece todas as vezes que penso no Goeldi, por exemplo. De toda forma, o samba, mais amplamente a música popular feita no Brasil desde a bossa nova até o fim dos anos 1970, é, provavelmente, a mais representativa dessa mistura entre os dois polos.

Talvez o marco inaugural desse período, a criação de "Orfeu negro", quando Vinicius e Tom trabalham pela primeira vez juntos, já comprove isso. Como se sabe, a música mais famosa da peça, depois filme, chama-se "Felicidade", mas versa sobre a tristeza, aquela que não tem fim, enquanto o seu antagônico teria, sim.

Recentemente eu tive um estalo quando vi [ou ouvi] Caetano Veloso dialogando com essa tradição. O baiano de Santo Amaro nunca escondeu que a sua maior influência seria João Gilberto, o deus espírito santo da santíssima trindade bossa-novística, e seu último disco comprova como até hoje ele acha a bossa nova foda. Nessa música, mesmo, ele admite como João Gilberto teria dado razão para que não nos sentíssemos apenas o fruto de três raças tristes, mas o resultado de uma mistura única, que, como toda miscigenação, é forte exatamente por ter elementos diversos.

Vinte anos antes, pelo menos, Caetano já tentava dar uma resposta-continuação para essa questão levantada por Machado e incrementado por Vinicius e a bossa nova: a tristeza, a melancolia está presente em nossa psiquê coletiva? Seria essa a alma que estaria dentro do corpo do brasileiro arquetípico? Junto com Gil, Caetano, em uma dessas músicas que já nascem clássicas, admite que a "tristeza é senhora / desde que o samba é samba". Um dos elementos parece ser essa mesmo, portanto.

"Desde que o samba é samba", apesar de ter uma letra bem curtinha, parece se inserir completamente na história da música brasileira. No verso seguinte, fala sobre a questão do racismo, do preconceito de cor, que é parte mais que integrante da tradição do samba, talvez seja a sua essência [no sentido de origem]: "A lágrima clara sobre a pele escura". Uma das interpretações lembra a imagem do homem e da mulher negros, descendentes de escravos, da maior violência que o Brasil e, antes, Portugal, produziu nessas violentas terras, que é o ícone do samba, do sambista, chorando. "A noite, a chuva que cai lá fora", refletindo a mesma imagem, de um continente negro, [galhofento? feliz? sambista?] que está triste, chora.

Os versos seguintes reforçam o clima melancólico, que já tinha sido lembrado pelas frases iniciais: "Solidão apavora / Tudo demorando em ser tão ruim". Mas o seguinte já começa a mudança: "Mas alguma coisa acontece / No quando agora em mim". A primeira parte seria uma referência a "Sampa"? Se alguma coisa acontece no coração de Caetano "só quando [ele] cruza a Ipiranga e a avenida São João", isto é, só então, lá dentro da cidade maior do Brasil ele pode sentir, gostar, ser São Paulo, em "Desde que o samba...", ele afirma essa "alguma coisa acontece" neste momento exato, "agora". É mais urgente. O samba, que nessa música está bastante embebido de bossa nova, e que pode ser uma metonímia para música e, por que não?, para a arte, e arte brasileira especificamente, circula no sangue de Caetano+Gil, a todo momento, sempre, nunca para. Assim, eles descobrem como fugir da dualidade melancolia x galhofa, para uma relação de mudança:

"Cantando eu mando a tristeza embora". Pela primeira vez, há uma atitude, há um posicionamento ativo, algo que se possa fazer. E não é trabalhar, ou qualquer ato ligado às tradições do chamado Ocidente, mas o cantar, o divertir-se, o, seguindo o modo de viver de quem é sambista, portanto, viver a vida como ela é. E o cantar não esconde a tristeza. O cantar é o transformar a tristeza em outro algo.

Em uma entrevista em que ele fala sobre essa música, Caetano lembra muito da última parte da letra, que continua esse raciocínio e lembra outros:
O samba ainda vai nascer
O samba ainda não chegou
O samba não vai morrer
Veja o dia ainda não raiou
O samba é o pai do prazer
O samba é o filho da dor
O grande poder transformador
Os quatro primeiro versos seriam a afirmação de que esse elemento fora das práticas utilitárias, no caso o samba, a música, a arte, não se perde, não acaba, mesmo com o mundo se transformando em algo cada vez mais ligado a relações pragmáticas. Lembra muito a fala do antropólogo Eduardo Viveiros de Castro quando se refere aos índios, esses marginalizados por definição, como aqueles que vão nos ensinar, nós do centro, a viver após a catástrofe iminente do nosso mundo. E lembra o próprio Caetano em "Um índio", que coloca o personagem geralmente ligado preconceituosamente a um passado remoto, arcaico, tradicionalista, descendo de uma "estrela colorida / brilhante" para nos revelar, nós os donos da hegemonia, o "óbvio".

Os três últimos versos reforçam a tradição talvez iniciada por Machado, mas com uma pequena mudança, um twist: o samba, a música, a arte, e a arte brasileira nascem a partir da tristeza [dor, melancolia] e transforma essa dor em alegria [prazer, galhofa]. Ele não nega a tradição brasileira, a herança que recebeu, ao contrário, a reafirma, mas acrescentando um detalhe pequeno, que mostraria uma posição mais própria dos indivíduos.

A arte, esse estado de espírito produzido pelo artista, é o "entre" os dois polos que, talvez, um dia, nos definiram - e que podem, de alguma forma, ainda nos definir. Um entre que não separa dois elementos concomitantes, mas que se transmutam um no outro. Um sendo o elemento originário do outro. Em vez de serem elementos duais do mesmo corpo, são o mesmo elemento, apenas transformado pelo fogo da arte.

sábado, 3 de maio de 2014

Damon Albarn ataca [suavemente] de novo

Minha relação com Damon Albarn é tardia, mas não exatamente recente. Não fui um fã muito assíduo do britpop, ainda tinha um gosto bem mais pesado na época. Só fui o encontrar já na faculdade, e, depois, morando em Londres, ele realmente se transformou numa grande referência artística. Para ter uma ideia, o escolhi como tema de uma das pouquíssimas colunas que eu escrevi de lá. Minha expectativa então era alta quando soube que ele iria lançar um disco solo, "Everyday robots". E a primeira reação foi: é isso? Depois, com a audição mais cuidadosa, dá para afirmar: é isso. É exatamente isso.

Não é o primeiro disco que Albarn lança longe do Blur. Sem contar com os projetos paralelos, como Gorillaz, The good, the bad, and the queen, ou Rocket Juice - todos excepcionais - ou discos de óperas, ele já tinha gravado um álbum após sua viagem ao Mali, e um disco dentro de um quarto de hotel. Mas esse é, talvez, o primeiro disco que ele com o mesmo cuidado que ele se dedicava aos discos do Blur, por exemplo. E é essa a sua principal referência, como o Sílvio Essinger já havia notado, principalmente a fase "Tender".

Há também várias informações de que esse seria um disco mais intimista dele, em que ele falaria de sua infância ou de sua passagem pela heroína. Mas esse não é - nem pode ser - o principal ponto de um disco. Sou partidário da ideia de que a voz é instrumento para a música. Se ela é poesia também, melhor, mas não é condição para avaliação.

O que importa são os climas e os sentimentos que ele consegue despertar no ouvinte. E há ao menos duas, três ou quatro músicas que te levam totalmente, sem que você consiga oferecer resistência - como se quisesse. Pela ordem:

A primeira é "Lonely press play". Entra um clima soturno, com programação, para só vir a boniteza com o tecladinho de Albarn. Parece a trilha sonora para a geração que ficou impressionado com as relações tecnológicas mostradas em "Her".

Em seguida, vem "Mr. Tembo", a música mais solar de todo o disco, sobre um bebê elefante que foi adotado, com o seu ukelele é de uma alegria de manhã de domingo de outono carioca, quando o sol entra devagar, e o calorzinho vai aquecendo o dia. Para depois vir a voz de Damon e, principalmente, o coro, que coro!, de igreja negra americana. É de arrepiar.

A próxima obra-prima fica com "You & me", e como há uma mudança de trajetória da música logo após um solo de tambor de aço que faz você se perder dentro da música, e querer ser arrastado por ela, novamente.

Por fim, a última música: "Heavy seas of love". É assim que você se sente, após ouvi-lo. Dentro de um mar de amor, quente, confortável, calmo. Começa com a voz grave de Brian Eno, e entra, novamente, um coro enorme. É repeat nela.

Mas um time não faz só com craques. Se as outras não emocionam tanto, ou não emocionaram tanto até agora, não devem ser colocadas na categoria de ruins. E é isso que faz de Albarn, ou mantém Albarn, um grande músico - talvez o maior de sua geração. 

sábado, 5 de abril de 2014

Arcade Fire in Rio

Não foi catártico. Não foi de chorar. Mas não por culpa dos nem tão meninos nem tão meninas do Arcade Fire. Mas as circunstâncias foram muito diferentes das de quase dez anos atrás. De qualquer forma, você sabe que foi um grande show. E o set list aí debaixo não me deixa mentir.


Arcade Fire in Rio, 4/4/14 by ronaldo pelli on Grooveshark


quarta-feira, 30 de outubro de 2013

Reflexões sobre Arcade Fire e 'Reflektor'

Agora que já se passaram alguns dias do lançamento extra-oficial do novo disco do Arcade Fire, "Reflektor", já é possível se chegar a uma conclusão direta e pouco surpreendente em se tratando da banda canadense: que disco, meus amigos, que disco!

Seguindo uma tradição recente de fazer um grande suspense para o lançamento, que talvez tenha atingido o seu perigoso ápice com Daft Punk e o "Random access memories", lançado no já longínquo 21 de maio, os não mais tão meninos e nem tão meninas do Arcade Fire também foram divulgando as músicas em conta-gotas, nas últimas semanas.

Daí veio a faixa título, num vídeo dirigido pelo craque Anton Corbijn [que criou a estética de muita banda da década de 1980, de U2 a The Cure] e a excelente "Afterlife", que faz uma homenagem ao Orfeu de Camus, inspirado na peça de Vinicius, entre tantas outras músicas. Mas, de alguma maneira, apesar dessas duas músicas citadas terem clipes interessantes [o de "Afterlife" é lindo], parecia que alguma coisa ali "atrapalhava" a fruição da música. Agora, sem a imagem para "competir", podemos ver que, sim,  Win ButlerRégine Chassagne e cia. acertaram. De novo.



Se colocassem um arma na cabeça para me obrigar a dizer qual é a maior banda da atualidade, diria que é o Radiohead. Mas o Radiohead não é exatamente da minha geração - quero dizer, teria idade para acompanhá-los desde o início, mas eu não tinha idade mental para percebê-los lá pela metade da década de 1990. Já o Arcade Fire é a banda que eu acompanhei desde o primeiro disco. Vi crescer, por assim dizer.

O grupo da francófila Quebec [o que, por si só, já dá um caráter mais global às outras bandas de sua geração] apareceu no meu radar numa segunda onda de bandas independentes do século XXI, após a primeira enxurrada que trouxe, entre outros, Strokes e White Stripes. Eles chegaram a mim com uma outra banda que, para demonstrar como funciona essa questão do hype, eu nem me lembro mais qual era. Não quer dizer que esta segunda banda era ruim, [Foi o Bloc Party? Acho que não, acho que o Bloc Party veio depois, ainda.] mas que o Arcade Fire conseguiu se manter num auge contínuo, como se fosse possível, se renovando sempre, mas sem perder à conexão com eles mesmos. Eu até lembro que eu preferia a outra banda na época, por ser mais rock 'n' roll que o Arcade Fire, mas tudo mudou com um show a que eu assisti deles.

Era o saudoso Tim Festival, por sua vez, já uma mutação do Free Jazz. Eram também as minhas primeiras férias na vida. Para piorar, coincidiam também com um casamento de amigos próximos. Apesar disso tudo, não pestanejei: iria voltar das férias e assistir ao septeto [atualmente; na época, não sei], mesmo que precisasse ir de terno. E assim foi. E não me arrependi. Foi um dos melhores shows da minha vida. Logo de cara, já me fez pensar: "como assim eu ainda preferia a outra banda?". Eles subiram todos ao palco e ficaram em silêncio encarando a plateia por alguns míseros segundos, suficientes para hipnotizar quem estivesse embaixo. Começaram a entrada da música, ainda no escuro, baixinho, calminho, sem nervosismo, mas quando vem o momento "Oooooh, ooooh, oooooh, oooooooh, ooooooh...", as luzes se acenderam numa explosão e, aí, meu amigo, eles já tinham ganham completamente o jogo. Momento arrepio imediato, que só de assistir de novo arrepia novamente. A partir disso, o que fizessem ali - e eles fizeram muito, os caras chegaram a escalar a estrutura do palco! - era extra. O vídeo abaixo não dá nem um triscado do que realmente foi. Mas já dá para sacar:



Desde então, não consegui evitar acompanhar tudo o que eles fizeram. Quando reclamaram da soberba por terem gravado em igrejas, por conta da acústica, seu segundo disco "Neon bible", pensei, após ouvir o resultado, que o mundo, então, precisava de mais soberba - deste tipo de soberba que entrega o que promete. Quando lançaram "The suburbs" não precisei defendê-los de nada porque era um álbum intocável.

Aliás, se há algo que se repete a cada disco com o Arcade Fire é que eles não fazem, quase que como um milagre, música ruim. Não conseguem. Ao ouvir e assistir aos vídeos deste novo "Reflektor" pensei que, finalmente, tinham errado. Não era um alívio, nem uma decepção, era uma aceitação de que ninguém acerta sempre. Nem mesmo o Radiohead.

Mas aí que, talvez, more a grande diferença entre as bandas - além de todas as outras. Enquanto o Radiohead quer sempre experimentar, o Arcade Fire quer fazer canções bonitas. O nível de boniteza em suas músicas é muito, muito alto. Sempre é de uma beleza tão impactante, envolvente, quente, gostosa, feliz. Daí, talvez, a crítica pela soberba em "Neon bible". Pareciam estetas, sem sangue nas veias. Mas se para fazer músicas bonitas assim é preciso ser um pouco divino, e menos humano, eu, um simples ouvinte, autorizo. Que assim seja, então.

Às primeiras audições de "Reflektor", já sem as imagens para desviar meu foco, meu pensamento, minha percepção oscilou entre achar que era o disco mais rock 'n' roll deles, com direito até a riffs de guitarra, e o disco mais de pista, para dançar, com batidas mais retas, linhas de baixo mais evidentes. Como se fossem o elo perdido entre Joy Division e New Order, mas sem as nuvens pretas que cobriam o céu dos ingleses de Manchester. Como poderiam? A resposta para as minhas dúvidas, então, apareceu no nome do imenso [no talento] James Murphy. Ele, o homem por trás de nada menos que LCD Soundsystem, foi o produtor do disco. Tudo agora se explica. Eles são rock E também são dançantes. E também continuam produzindo músicas lindas, lindas, lindas que você não vai acreditar que são possíveis.

O que faz essa beleza toda, na minha humilíssima opinião, é a utilização, sem medo de parecerem grandiosos - e aí, novamente vamos nos aproximando de uma outra característica do Radiohead, que também não tem medo da grandeza - de inúmeros e diferentes instrumentos. Cordas são presença garantida em todos os álbuns, mesmo nesse, mais rock, mais dançante.

Outra vantagem dos canadenses logo de cara é a mistura das vozes masculina inglesa do californiano que cresceu no Texas Win Butler e da feminina francesa quebequense Régine Chassagne. É um contrabalanço entre alto e baixo. Grande e pequeno. Grave e agudo. Força e delicadeza. E as metáforas poderiam continuar. Na música título deste último disco, por exemplo, ela canta em francês um pedaço, e faz o backing vocal para ele. É uma camada perfeita para ele se exercitar.

Na segunda faixa, "We exist", além de barulhinhos eletrônicos, guitarra econômica, um baixo que parece saído de uma música do Michael Jackson, você encontra os violinos, ali. É como se eles juntassem o pueril, do entretenimento, do querer se divertir numa pista, sem se importar com o dia de amanhã, com uma necessidade de tocar mais fundo, com a vontade de emocionar. O final dele, em crescendo, com os violinos sustentando toda a música, é capaz de emocionar e fazer dançar - ao mesmo tempo - o mais duro das pedras.

Mas se você ainda tem espaço para se emocionar um pouco a mais, eles emendam com "Afterlife". Tecladinhos saídos de uma música disco da década de 1990. Bateria seca, simples, nada demais. Entra Win Butler: "Afterlife / oh my god, what awful word". Parece uma música simples, até que, ao fim da primeira estrofe, ele pergunta: "I've gotta know" - e aí começa de verdade. Percebemos que a simplicidade inicial é apenas a cama para a música, o tecladinho jamais vai sumir, mas ele vai ficar embaixo de uma camada de guitarras, de um coro simples, que tornam a música imensa, enorme. "But you say / Oh / When love is gone / Where does it go? /  And you say / Oh / When love is gone/ Where does it go? / And where do we go?  / Where do we go? / Where do we go? / Where do we go?"

"Afterlife" não é exatamente sobre a vida após a morte - ou não apenas. Mas sobre aquele momento em que estamos saindo de um amor e perguntamos: e agora? Como recomeçar? O clipe mostra isso bem.



Bem, poderia falar coisas bonitas de cada uma das canções desse disco, que virou uma pequena obsessão desde que o escutei pela primeira vez. Mas talvez possa resumir dizendo que estou cogitando mudar a resposta para o suposto homem atrás da arma, lá de cima, quando ele me perguntar "qual é a maior banda da atualidade?"

domingo, 15 de setembro de 2013

A música, a maior das artes

Mas por que a música? Por que a música é considerada por muita gente como a forma de arte mais importante? Bem, vou tentar dar a explicação do Schopenhauer, que eu acho interessante.

Tá meio desanimado, Schop?
Antes, porém, temos que lembrar que a definição de arte - e todas as suas subdivisões - é das coisas mais complicadas de se fazer. Então dizer o que seria arte e, dentro disso, o que seria a música, e o que caracterizaria de arte uma música é um trabalho praticamente infinito. Daí, vamos deixar isso como dado e passar à frente.

Voltando a Schopenhauer. A mais famosa e importante obra do alemão, como se sabe, se chama "O mundo como vontade e representação". Grossíssimo modo diríamos que ele seguiu a tradição metafísica de Kant, em que divide o mundo em dois aspectos, aquilo que podemos conhecer [no caso, a representação], e o que não temos como conhecer a totalidade [o que Kant chama de coisa-em-si e ele de vontade]. Há diferenças entre os dois aspectos, principalmente porque Schopenhauer tem pitadas de filosofias orientais e volta também a Platão, vez por outra. Mas com isso dá para seguirmos adiante.

Portanto, o mundo é dividido entre as coisas físicas, que são as representações, que, por sua vez, são as representações da vontade dessas coisas. E a vontade é a força interior, a essência, o impulso original de todas as coisas. Pois bem.

Para Schopenhauer, a música é a única entre as artes que não carrega a representação dada a priori. Se pensarmos que estamos falando de uma música orquestral, sem qualquer letra, não temos uma imagem mental com a sequência de acordes. Literatura, artes pictórias, teatro, dança, em tudo há um caráter de representação. Quando escrevemos "amor", pintamos uma rosa, subimos num palco caracterizados de palhaço, executamos uma pirueta, estamos passando uma informação que já tem uma série de informações associadas a ela.

A música, não. Apesar de durante anos ter se pensado que haveria acordes proibidos, ou acordes diabólicos, não há uma ligação entre um determinado trecho de música e um sentimento dado. Não sabemos - e eu não entendo nada de música para saber o tamanho da besteira do que vou falar a seguir - qual é a sensação que um dó seguindo de um si bemol vai causar no ouvinte. Assim, a música seria o mais próximo da vontade, já que ela não precisava ser representada. Era a vontade em seu estado mais próximo do puro.

Talvez hoje, após tantas e tantas avalanches musicais, já tenhamos desenvolvido uma certa memória musical e associemos determinadas músicas a sentimentos específicos. Principalmente depois que as letras se tornaram onipresentes e obrigatórias. Daí, algumas bandas são deprês, outras festinha. Outras são hippies, outras viajandonas. A lista de climas do AllMusic mostra o quão diversos esses sentimentos podem ser. Portanto, talvez, hoje, essa proposta de uma música sem influência não funcione mais.

Mas não é curioso que a música, ainda hoje, seja a parte da arte mais valorizada? Que outra arte tem festivais do tamanho de um Rock in Rio, só para ficar no exemplo mais à mão? Mesmo que as indústrias do cinema e dos jogos eletrônicos sejam maiores, não há qualquer comparação com a adoração que se tem com os astros da música. Uma idolatria que, se me permitem, é quase religiosa.

Além disso, a música não pede licença para contaminar o ouvinte - o que é diverso das outras artes que exigem uma dedicação, mesmo que mínima, do espectador. Quantas e quantas vezes nos pegamos cantarolando uma música que não gostamos oficialmente? E dançando aquela música constrangedora? Ou sendo tomados por uma apresentação que não dávamos nada?

Eu suspeito que a música nos conecta com um pedaço de nós que nem sabíamos que ainda existia. Nos tira de nosso controle mental, abre nossas mais ferrenhas defesas e nos mostra a nós mesmos. Além disso, todas as artes tentam [ou deveriam tentar] voltar ao estado da música. Um poema, uma peça, um quadro, tudo tem que ser ou tender ao musical. Porque, para mim, a música é o estado original de todas as artes.

quinta-feira, 6 de junho de 2013

Música do momento n. 44: "Everything's fucked"

Everything's Fucked by Dirty Three on Grooveshark

Eu sempre gostei do Dirty Three, e a sua combinação estranha de instrumentos, mas nunca tinha ouvido essa música, em específico. O título, bem, não condiz com a sua beleza.

segunda-feira, 27 de maio de 2013

Música do momento n. 43: "Your hand in mine"

Your Hand in Mine by Explosions in the Sky on Grooveshark

Ontem o show do Explosions in the sky deveria ser exibido, na íntegra, para o pastor e deputado federal Marcos Feliciano como prova de que a beleza também pode conter o demoníaco. Veja como tudo começou [e como o guitarrista Munaf Hainif fala bem português e dança muito estranhamente]:

segunda-feira, 20 de maio de 2013

Música do momento n. 41: "Enjoy Your Rabbit"

Enjoy Your Rabbit by Sufjan Stevens on Grooveshark

Há quanto tempo não escutava uma música do Sujfan Stevens? Esse disco, homônimo, é dos mais estranhos dele. Mas ainda assim fora da média.

Música do momento n. 40: "Thistle & Weeds"

Thistle & Weeds by Mumford & Sons on Grooveshark

Como é o nosso momento histórico. Já tinha me esquecido que essa música e esse disco ["Sigh No More"] do Mumford & Sons eram incríveis. E é de 2009! Aliás, essa nova geração de folk-rock vindo da Inglaterra é, talvez, a minha única decepçãozinha do período que eu vivi lá: ter visto menos shows do que eu gostaria. Mas não se pode ter tudo na vida.