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segunda-feira, 15 de junho de 2015

Universais

Sou um puto do pensamento de outrem
Não sou fiel a nenhum homem, mulher
Corrente ou proposta
Sou politeísta, polissexual, polimórfico
Uso os conceitos, as ideias, as noções e depois, já bem usados, jogo fora
Não sigo panelas, não respeito hierarquias, não admito limites ou rótulos
Não aceito nomes
Faço aproximações insanas, interpretações inortodoxas,
Encontro verdades momentâneas no meio do jornal enrolado no peixe
Sou onívoro, despreconceituoso
Bebo o que tem para hoje
Estou suicida, enxergando a poucos metros na horizontal
Existindo e sendo o devir
Misturando quem não se fala
Criando pontes Escher
Assustando doutrinários
Propondo sociedade indisciplinárias
Sou sem nós
Não danço conforme a música
Sou um homem composto por letras do acha-palavras
Sou canhoto, sinistro, do contra
Sou quase sempre

quinta-feira, 7 de maio de 2015

Lascas

Balança, balança e não sai do lançar
Planeja, planeja e nunca cai ao mar
Se joga, se joga sem qualquer descansar
Faz rima, faz rima, que sempre ficam no ar.

Movimentos em círculos concentrados
Rodam sem aviso prévio ou férias
Voando aos extremos desmeridionados
Sem passagem pelos trópicos maismolentes

Fixos no congelamento das certezas fundadoras
Se arrepiam ante o ponto de questão
Apregoam o cinema da década de 1930
Suas metáforas que sustentam a discussão.

Se desconfiassem que flutuamos sobre um abismo
O nada, único e somente, ancora
O fim, próprio, autêntico, compartilhável
Mas ninguém sabe onde fica o retorno!

Se a marca da dúvida fechasse as frases
O chão de geléia irreal nos assegura
O céu róseo de outono como desafio
Mas o horizonte com significados mutantes!

De quem faço esse retrato?
Enxergo o lago de Narciso
As lentes são caixa de lápis
Meu mundo / minha alma / meu mundo / minha alma

Carrossel sem circunferência exata
Plano de voo desconstruído às pressas
Movimentos pendulares foucaultianos
Sou a cada momento o momento que acaso sou

Transito sem responder a questão
Desdigo o que dois e dois são
Evito tentativas de afirmar o não
Construo com passos lentos um caminhão

quinta-feira, 30 de abril de 2015

Nada mais ou menos

Registro para os escafandristas
Nada também é importante
Não se deixe enganar por rostos angelicais
Nada é nada
Diminuir o ritmo, pintar uma cena do diário
Não é nada.
Branco do céu chuvoso, rede balançando
É quase nada
Nadar no natural
É um ótimo tipo de nada possível
Nada, nada mesmo, é improvável.
Nada é não responder perguntas, dúvidas, demandas
Nada que se alcança, é certo
Nada não se enxerga, mas nada ninguém viu
Em nenhum lugar.
Nada ajuda a tudo fluir melhor.
Tudo não é o oposto de nada.
Tudo é o que sobra quando nada sai de cena.
Tudo é o mundo lá fora.
Nada é o meu mundo.
Tudo é a Terra que nos engloba e nos engole
Nada não importa
Não importa - para tudo
Para tudo!
Para tudo, dizem que há uma saída.
Nada é a saída - ou a entrada
Que leva a tudo. A todos.
Tudo e todos. É enorme.
Nada é miudinho.
O nada, claro, que roçamos
O nada de que podemos falar.
O quase-nada então.
Não é exatamente o nada, mas o seu-vizinho
Indica nada
Tem cheiro e gosto de nada
É o que suspeitamos.
Nada diminui a velocidade
Até o batimento basal, natural
Tudo obriga a nós, brigamos, abriga-nos
Tudo, tudo, tudinho
Tudo que não sabemos também exatamente tudo.
Tudo, porém, é mais fácil.
Tudo, porque tudo envolve
Até onde a vista cansa
Tudo me mata de desgosto, se só tudo existe
Nada desenlaça, desengasta, desentorpe
Viver nesse mundo que exige tudo
E eu só tenho nada a declarar
É ter pernas largas e dar passos longos
Nada realmente importa
Tudo, nesse caso, e ao contrário, exporta
E importa
Tudo é um jogo, é participação no tabuleiro.
Nada é encontrar sua própria respiração
Dá para viver com nada?
Nada, não. Quase nada?
Tudo espreita.

terça-feira, 14 de abril de 2015

'O quereres', Caetano Veloso


Onde queres revólver, sou coqueiro
E onde queres dinheiro, sou paixão
Onde queres descanso, sou desejo
E onde sou só desejo, queres não
E onde não queres nada, nada falta
E onde voas bem alto, eu sou o chão
E onde pisas o chão, minha alma salta
E ganha liberdade na amplidão
Onde queres família, sou maluco
E onde queres romântico, burguês
Onde queres Leblon, sou Pernambuco
E onde queres eunuco, garanhão
Onde queres o sim e o não, talvez
E onde vês eu, não vislumbro razão
Onde queres o lobo, eu sou o irmão
E onde queres cowboy, eu sou chinês
Ah! Bruta flor do querer
Ah! Bruta flor, bruta flor...
Onde queres o ato, eu sou espírito
E onde queres ternura, eu sou tesão
Onde queres o livre, decassílabo
E onde buscas o anjo, sou mulher
Onde queres prazer, sou o que dói
Onde queres tortura, mansidão
Onde queres um lar, revolução
E onde queres bandido, sou herói
Eu queria querer-te e amar o amor
Construir-nos dulcíssima prisão
Encontrar a mais justa adequação
Tudo métrica e rima e nunca dor
Mas a vida é real de viés
E vê só que cilada o amor me armou
Eu te quero e não queres como sou
Não te quero e não queres como és
Ah! Bruta flor do querer
Ah! Bruta flor, bruta flor...
Onde queres comício, flipper-vídeo
E onde queres romance, rock’n’roll
Onde queres a lua, eu sou o sol
E onde a pura natura, o inseticídio
Onde queres mistério, eu sou a luz
E onde queres um canto, o mundo inteiro
Onde queres quaresma, fevereiro
E onde queres coqueiro, eu sou obus
O quereres e o estares sempre a fim
Do que em mim é de mim tão desigual
Faz-me querer-te bem, querer-te mal
Bem a ti, mal ao quereres assim
Infinitivamente pessoal
E eu querendo querer-te sem ter fim
E, querendo-te, aprender o total
Do querer que há e do que não há em mim

sábado, 28 de março de 2015

'O equilibrista', de Eucanaã Ferraz



Traz consigo resguardada
 certa idéia que lhe soa
clara, exata.

 No entanto, hesita: que palavra
a mais bem medida e cortada
para dizê-la?

Enquanto não lhe vem o verso, a frase, a fala,
segue lacrada a caixa
no alto da cabeça.

Eucanaã Ferraz

quarta-feira, 25 de março de 2015

'Quem sou eu?', de Luís Gama

Quem sou eu? Que importa quem?
Sou um trovador proscrito,
Que trago na fronte escrito
esta palavra "Ninguém!"
A.E. Zaluar - "Dores e Flores"

Amo o pobre, deixo o rico,
Vivo como o Tico-tico;
Não me envolvo em torvelinho,
Vivo só no meu cantinho;
Da grandeza sempre longe
Como vive o pobre monge.
Tenho mui poucos amigos,
Porém bons, que são antigos,
Fujo sempre à hipocrisia,
À sandice, à fidalguia;
Das manadas de Barões?
Anjo Bento, antes trovões.
Faço versos, não sou vate,
Digo muito disparate,
Mas só rendo obediência
À virtude, à inteligência:
Eis aqui o Getulino
Que no pletro anda mofino.
Sei que é louco e que é pateta
Quem se mete a ser poeta;
Que no século das luzes,
Os birbantes mais lapuzes,
Compram negros e comendas,
Têm brasões, não - das Kalendas;
E com tretas e com furtos
Vão subindo a passos curtos;
Fazem grossa pepineira,
Só pela arte do Vieira,
E com jeito e proteções.
Galgam altas posições!
Mas eu sempre vigiando
Nessa súcia vou malhando
De tratante, bem ou mal,
Com semblante festival
Dou de rijo no pedante
De pílulas fabricante
Que blasona arte divina
Com sulfatos de quinina
Trabusanas, xaropadas,
E mil outras patacoadas.
Que, sem pingo de rubor
Diz a todos que é DOUTOR!
Não tolero o magistrado,
Que do brio descuidado,
Vende a lei, trai a justiça
- Faz a todos injustiça -
Com rigor deprime o pobre
Presta abrigo ao rico, ao nobre,
E só acha horrendo crime
No mendigo, que deprime.
- neste dou com dupla força,
Té que a manha perca ou torça.
Fujo às léguas do lojista,
Do beato e do sacrista -
Crocodilos disfarçados,
Que se fazem muito honrados
Mas que, tendo ocasião,
São mais feros que o Leão
Fujo ao cego lisonjeiro,
Que, qual ramo de salgueiro,
Maleável, sem firmeza
Vive à lei da natureza
Que, conforme sopra o vento,
Dá mil voltas, num momento
O que sou, e como penso,
Aqui vai com todo o senso,
Posto que já veja irados
Muitos lorpas enfurnados
Vomitando maldições,
Contra as minhas reflexões.
Eu bem sei que sou qual Grilo,
De maçante e mau estilo;
E que os homens poderosos
Desta arenga receosos
Hão de chamar-me Tarelo
Bode, negro, Mongibelo;
Porém eu que não me abalo
Vou tangendo o meu badalo
Com repique impertinente,
Pondo a trote muita gente.
Se negro sou, ou sou bode
Pouco importa. O que isto pode?
Bodes há de toda casta
Pois que a espécie é muito vasta...
Há cinzentos, há rajados,
Baios, pampas e malhados,
Bodes negros, bodes brancos,
E, sejamos todos francos,
Uns plebeus e outros nobres.
Bodes ricos, bodes pobres,
Bodes sábios importantes,
E também alguns tratantes...
Aqui, nesta boa terra,
Marram todos, tudo berra;
Nobres, Condes e Duquesas,
Ricas Damas e Marquesas
Deputados, senadores,
Gentis-homens, vereadores;
Belas damas emproadas
De nobreza empantufadas;
Repimpados principotes,
Orgulhosos fidalgotes,
Frades, Bispos, Cardeais,
Fanfarrões imperiais,
Gentes pobres, nobres gentes
Em todos há meus parentes.
Entre a brava militança
Fulge e brilha alta bodança;
Guardas, Cabos, Furriéis
Brigadeiros, Coronéis
Destemidos Marechais,
Rutilantes Generais,
Capitães de mar-e-guerra
- Tudo marra, tudo berra -
Na suprema eternidade,
Onde habita a Divindade,
Bodes há santificados,
Que por nós são adorados.
Entre o coro dos Anjinhos
Também há muitos bodinhos.
O amante de Syringa
Tinha pêlo e má catinga;
O deus Mendes, pelas costas,
Na cabeça tinha pontas;
Jove, quando foi menino,
Chupitou leite caprino;
E segundo o antigo mito
Também Fauno foi cabrito.
Nos domínios de Plutão,
Guarda um bode o Alcorão;
Nos lundus e nas modinhas
São cantadas as bodinhas:
Pois se todos têm rabicho,
Para que tanto capricho?
Haja paz, haja alegria,
Folgue e brinque a bodaria;
Cesse pois a matinada,
Porque tudo é bodarrada!

mais infos aqui.

domingo, 28 de dezembro de 2014

Paul Celan sobre Heidegger

TOTDNAUBERG
Arnica, eufrásia, o
gole da fonte com o
dado de estrelas acima,
na
cabana
aquela, no livro
– de quem os nomes tomou
antes do meu? –,
aquela, no livro,
escrita linha de
uma esperança, hoje
de um Pensante ente
a palavra
no coração.
capim de floresta, não aplainado
satirião e satirião, solitário,
cru, mais tarde, na estrada,
claro,
o que nos conduziu, o homem,
o que ia na escuta,
as meio per-
corridas trilhas
de madeira, nas veredas,
úmido,
muito.

TODTNAUBERG
Arnika, Augentrost, der
Trunk aus dem Brunnen mit dem
Sternwürfel drauf,
in der
Hütte,
die in das Buch
—wessen Namen nahms auf
vor dem meinen?-,
die in dies Buch
geschriebenen Zeile von einer Hoffnung, heute
auf eines Denkenden
kommendes
Wort
im Herzen,
Waldwasen, uneingeebnet,
Orchis und Orchis, einzeln,
Krudes, später, im Fahren,
deutlich,
der uns fährt, der Mensch
der’s mit anhört,
die halbbeschrittenen
Knüppel-
pfadeim Hochmoor,
Feuchtes,
viel.

Tradução e comentários [abaixo] do professor Adalberto Müller. Outros poemas de Celan aqui.

[...] “Todtnauberg”, que Celan publicou depois do encontro com Heidegger, em sua cabana rústica, na Floresta Negra. “Todtnauberg” é o nome do local, mas seu nome evoca as palavras “Tod” (morte) e “Berg” (monte). “Eufrásia”, planta medicinal usada em infecções nos olhos, em alemão se diz “Augentrost”, que literalmente significa “consolo para os olhos”. Parte do poema é o que Celan deixou escrito no livro de visitas da cabana do filósofo. O estirião é um gênero de orquídeas (orchis mascula). Vários comentadores do poema acreditam que Celan esperava que Heidegger falasse do seu erro ao acreditar em Hitler em 1933, mas, ao que tudo indica, a conversa não teria ido nessa direção. Alguns comentadores inclusive dizem que Celan – admirador profundo da filosofia Heideggeriana – teria se suicidado no Rio Sena devido a esse encontro malogrado. Vale lembrar que Celan perdera os pais brutalmente, por serem judeus, durante a invasão dos nazistas à Romênia. Hadrian France-Lanord, no excelente Paul Celan et Martin Heidegger, desmente essas especulações e superinterpretações. Enfim, o que restará é o poema, com toda a “pressão de luz”que tenta retirá-lo de seu esconderijo – lá onde ele luta, no escuro, resistindo, em tempos de penúria e destruição.

terça-feira, 16 de dezembro de 2014

'Especulações em torno da palavra homem' - Carlos Drummond de Andrade


Mas que coisa é homem,
que há sob o nome:
uma geografia?


um ser metafísico?
uma fábula sem
signo que a desmonte?


Como pode o homem
sentir-se a si mesmo,
quando o mundo some?


Como vai o homem
junto de outro homem,
sem perder o nome?


E não perde o nome
e o sal que ele come
nada lhe acrescenta


nem lhe subtrai
da doação do pai?
Como se faz um homem?


Apenas deitar,
copular, à espera
de que do abdômen


brote a flor do homem?
Como se fazer
a si mesmo, antes


de fazer o homem?
Fabricar o pai
e o pai e outro pai


e um pai mais remoto
que o primeiro homem?
Quanto vale o homem?


Menos, mais que o peso?
Hoje mais que ontem?
Vale menos, velho?


Vale menos morto?
Menos um que outro,
se o valor do homem


é medida de homem?
Como morre o homem,
como começa a?


Sua morte é fome
que a si mesma come?
Morre a cada passo?


Quando dorme, morre?
Quando morre, morre?
A morte do homem


consemelha a goma
que ele masca, ponche
que ele sorve, sono


que ele brinca, incerto
de estar perto, longe?
Morre, sonha o homem?


Por que morre o homem?
Campeia outra forma
de existir sem vida?


Fareja outra vida
não já repetida,
em doido horizonte?


Indaga outro homem?
Por que morte e homem
andam de mãos dadas


e são tão engraçadas
as horas do homem?
mas que coisa é homem?


Tem medo de morte,
mata-se, sem medo?
Ou medo é que o mata


com punhal de prata,
laço de gravata,
pulo sobre a ponte?


Por que vive o homem?
Quem o força a isso,
prisioneiro insonte?


Como vive o homem,
se é certo que vive?
Que oculta na fronte?


E por que não conta
seu todo segredo
mesmo em tom esconso?


Por que mente o homem?
mente mente mente
desesperadamente?


Por que não se cala,
se a mentira fala,
em tudo que sente?


Por que chora o homem?
Que choro compensa
o mal de ser homem?


Mas que dor é homem?
Homem como pode
descobrir que dói?


Há alma no homem?
E quem pôs na alma
algo que a destrói?

Como sabe o homem
o que é sua alma
e o que é alma anônima?


Para que serve o homem?
para estrumar flores,
para tecer contos?


Para servir o homem?
Para criar Deus?
Sabe Deus do homem?


E sabe o demônio?
Como quer o homem
ser destino, fonte?


Que milagre é o homem?
Que sonho, que sombra?
Mas existe o homem?

sábado, 15 de novembro de 2014

Alcançar o infinito

"Dizia o filósofo alemão Heidegger — Manoel o admirava — que, no mundo dominado pela ciência e pela técnica, estamos perdendo o chão. A falta de chão nos torna a cada dia mais dependentes das coisas técnicas (do carro ao Facebook). Precisamos, diz o filósofo, aprender a tratar essas coisas técnicas com indiferença, acompanhada de uma abertura para o mistério. Assim, poderemos criar novamente raízes no chão, para podermos alcançar o infinito"

Adalberto Müller, talvez o maior especialista em Manoel de Barros, consegue definir bem o que eu quero dizer, falando do poeta. O resto do texto, aqui:
http://oglobo.globo.com/cultura/livros/artigo-eulogia-para-manoel-14555679

 

quinta-feira, 21 de agosto de 2014

Adorável azul - Hölderlin

IN LIEBLICHER BLÄUE...
(Friedrich Hölderlin)
No azul adorável, floresce o telhado de metal do campanário. Em redor pairam gritos de andorinhas, à volta estende-se o mais comovente azul. O sol, por cima, vai muito alto e dá cor à chapa metálica. Mas suave, lá no alto, ao vento, range o catavento. Quando alguém desce, abaixo do campanário, os degraus, então o silêncio é vida; pois quando o corpo a tal ponto se destaca, depressa se forma uma figura do homem. As janelas de onde tocam os sinos parecem portas da beleza. Sim, as portas, parecendo ainda natureza, são à imagem das árvores da floresta. A pureza, que é simplicidade, é também bela. No interior, do diverso nasce um espírito grave. Tão simples são as imagens, tão santas, que por vezes se tem medo, na verdade, de as descrever. Mas os celestes, que são sempre inteiramente ricos e generosos, fazem dessa modéstia a sua virtude e a sua alegria. O homem, nisso, pode imitá-los. Mas, quando a sua vida não é senão cansaço, pode um homem olhar para cima e dizer: assim quero eu ser? Sim. Enquanto no seu coração permanecer a pura amizade, o homem pode medir-se, feliz, pela divindade. Será Deus desconhecido, ou será, como o céu, evidente? E nisto que prefiro acreditar. Tal é a medida do homem. Rico em méritos, é no entanto poeticamente que o homem habita nesta terra. A sombra da noite estrelada não é mais pura, se ouso dizê-lo, que o homem como imagem de Deus. Haverá na terra uma medida? Não há nenhuma. Nunca o mundo do Criador suspendeu o curso do trovão. Uma flor é ela própria bela porque floresce sob o sol. Frequentemente, o olhar encontra nesta vida seres que poderíamos dizer ainda mais belos que as flores. Oh, como o sei! Porque sangrar do corpo, e do próprio coração, por já não ser inteiro, agradará isso a Deus? A alma, creio, deve permanecer pura, senão do Todo-Poderoso aproxima-se com as suas asas a águia, reforçada pelo louvor do seu canto e as vozes de numerosas aves. É a essência, é a forma. Belo pequeno ribeiro, tu brilhas comovente enquanto corres, tão claro como o olhar da divindade pela via láctea. Conheço-te bem, mas as lágrimas perturbam o olhar. Vejo no entanto uma vida alegre florescer nos próprios corpos da criação ao redor de mim, porque a comparo sem erro às pombas solitárias entre os túmulos. O riso, dir-se-ia, desgosta-me no entanto dos homens, porque tenho um coração. Quereria eu ser um cometa? Assim o creio. Porque eles têm a rapidez das aves; florescem em fogo e são na sua pureza semelhantes à criança. Desejar um bem maior, a natureza do homem não o deixa presumir. A alegria de tal virtude, também ela merece ser louvada pelo espírito grave que sopra por entre as três colunas do jardim. Uma jovem bela deve coroar a sua fronte com flores de mirto, porque é simples, de essência e de sentimento. Mas os mirtos estão na Grécia. Quando alguém se vê ao espelho, quando um homem aí vê a sua imagem como pintada, ela assemelha-se-lhe. A imagem do homem tem olhos, a lua, porém, tem luz. O rei Édipo tem um olho a mais, talvez. O sofrimento de um tal homem parece indescritível, indizível, inexprimível. Quando o drama o representa, é isso que ocorre. Mas de mim agora, o que é que vem, que eu pense em ti? Como ribeiros, arrasta-me para aí o fim de um não sei quê, que se estende como a Ásia. Esta dor, naturalmente, Édipo conhece-a. Naturalmente é por isso. Terá também Hércules sofrido? Certamente. Os Dióscuros, apesar da sua amizade, não suportaram também a dor? Sim, lutar, como Hércules, com Deus, isso é sofrer. E possuir a imortalidade, que esta vida inveja, é também sofrimento. Sofrimento, também, contudo, quando um homem se cobre de sardas e fica coberto de muitas manchas dos pés à cabeça! E o belo sol que faz isso: ele tudo chama à sua revelação. Ele conduz os jovens com o encanto dos seus raios como com rosas. Os sofrimentos de Édipo são como os de um pobre homem que se lamenta de alguma falta. Ó filho de Laios, pobre estrangeiro na Grécia! Viver é morrer, e a morte é também uma vida.
Tradução daqui, da revista TBC, The Black Cat, em prosa. Aparentemente o original foi escrito em versos.

domingo, 22 de junho de 2014

'Orfeu. Eurídice. Hermes', de Rilke

Insondável era a mina das almas.
Como veios de prata serpeavam
silentes pela treva. Entre raízes
jorrava o sangue no deflúvio para os homens,
e parecia duro como pórfiro nas trevas.
Nada foi mais vermelho.

Somente rochedos
bosques insubstanciais. Pontes sobre o vazio,
e o lago imenso, pardo e cego,
suspenso do fundo distante
como pluvioso céu sobre uma paisagem.
Entre prados, suave, em plena calma,
surge o traçado tênue do trajeto
estirado como longo risco branco.

Deste caminho único vinham eles.

À frente, o esbelto homem no manto azul,
mudo, impaciente, olhos fixos no alvo.
Sôfrego, devorava o caminho em grandes tragos
Com os seus passos; as mãos pensas,
graves e fechadas no colapso das rugas
nada mais sabiam do alívio da lira,
que pendia da ilharga esquerda
como um feixe de rosas em ramo de oliveira.
Seus sentidos estavam bifurcados:
o olhar como um cão o precedia,
voltava, no ir e vir pairava sempre ao longe,
aguardando na primeira curva,
mas o ouvido permanecia atrás como um perfume.
Parecia-lhe sentir às vezes
a caminhada dos outros dois,
que deviam segui-lo na senda ascensional.
Não restava, todavia, senão o rumor dos seus passos
que subiam ao aflar do vento no seu manto.
Mas a si mesmo dizia que decerto vinham.
Dizia bem alto e ouvia o esmaecer da voz.
Eles vinham, mas os dois encalçavam
os passos terrivelmente inaudíveis. Se pudesse
voltar-se uma só vez (não fosse a retrovisão o fim
do intento em vias de se consumar) veria
as plácidas figuras, que o seguiam, silenciosamente:

o deus viajor e mensageiro das distâncias,
o capacete sobre os olhos claros,
o fino caduceu diante do corpo,
o propulsar levípede das asas
e, confiada à mão esquerda: ela.

Amada sublime, que suscitou na lira
mais lamento do que as carpideiras,
em clamor convertendo o mundo: bosques e vales,
caminhos e povoados, campos e rios e animais;
em redor no mundo do clamor, como em outra terra,
a queixa tácita do sol e o constelado céu
um céu em pranto com estrelas disformes -
A sublime amada.

Ia guiada pela mão do deus,
o passo tolhido pelas longas vestes fúnebres,
incerta, branda, sem pressa.
Ia dentro de si, como suprema esperança,
e não pensava no homem que ia à frente
nem no caminho escalonado rumo aos vivos.
Estava em si. E o estar morta
dava-lhe plenitude.
Como um fruto de doçura e treva,
estava plena em sua grande morte,
tão nova que nada entendia.

Entrara em nova adolescência
inviolada; seu sexo era
botão em flor no entardecer,
e suas mãos eram tão alheias ao enlace
que mesmo o toque suave
do levíssimo deus que a guiava
a magoava como ousada intimidade.

Já não era a mulher loura
divulgada nos cantos do poeta
nem aroma e ilha do largo leito
nem propriedade desse homem.

Estava solta como os seus cabelos
liberta como chuva que cai
exposta como copiosa provisão.

Agora era raiz.

E quando enfim o deus
a deteve e, com voz condoída,
pronunciou as palavras: "Ele se voltou". -
ela não compreendeu e disse: "Quem?"

Mas ao longe, sombrio na saída clara,
estava alguém, cujo rosto
era irreconhecível. Ele estava parado e viu,
em meio à clareira do caminho,
o deus mensageiro, com olhar tristonho,
volver-se e acompanhar, silencioso, o vulto
que retornava pela mesma via,
o andar tolhido pelas vestes fúnebres,
incerto, brando, sem pressa.

(Trad. Ronaldes de Melo e Souza. A versão original está aqui.)

[Esse poema de Rilke me fez pensar numa outra interpretação para o tema de Orfeu e Eurídice. Após a tragédia, que é a morte de Eurídice, Orfeu poderia estar com ela desde que a mantivesse na memória, no seu pensamento, na sua imaginação. Ela não poderia se materializar. Era algo que não existia. Ao confrontar a realidade, Orfeu a perde. Eurídice já era outra Eurídice após a morte. Orfeu jamais a teria de volta.]

quinta-feira, 24 de abril de 2014

'Esqueça', por Czeslaw Milosz

Esqueça
Esqueça o sofrimento
Que você causou.
Esqueça o sofrimento
Que te causaram.
As águas rolam e rolam,
Fontes faíscam e logo secam,
Você anda na terra e a esquece.
Ouve às vezes um refrão lá longe.
O que ele quer dizer, quem o canta?
Um solzinho infantil aquece.
Um neto e um bisneto nascem.
Você volta a ser levado pela mão.
Os nomes dos rios restam com você.
Como esses rios parecem sem fim!
Os campos permanecem selvagens,
As torres urbanas perecem.
Você permanece mudo no limiar.

Czeslaw Milosz

[da coluna de M. S. Conti, hoje.]

quarta-feira, 24 de abril de 2013

O mistério do 'sucesso' da nova poesia

A internet começou a alterar formalmente, em termos de tamanho de versos, de velocidade de imagem, de linguagem coloquial, a maneira de escrever poesia.
Eu acho que as imagens das poesias são muito mais velozes hoje em dia. Uma das características da poesia é este poder de síntese. Mas acho que há um volume tão grande de imagens nas poesias atuais que esta característica perde o sentido, é uma síntese que não sintetiza mais, porque acumula e sobrepõe imagens.
Não sei se essa mudança foi causada pela internet, mas há uma intensificação desta característica nesta nova leva, muito por conta desta necessidade de publicar muito, em blogs, redes sociais. Ao mesmo tempo, tem essa coisa do texto curto, desde o surto do Twitter. Que afeta o verso, afeta.
Leonardo Gandolfi, em uma entrevista semana passada, para a revista do "Globo", talvez tenha resumido - sintetizado? - a razão de uma onda de poesia: a síntese. Que ironia histórica.

Que ironia histórica. A poesia, vista nas últimas décadas com um pouco [ou muito] desprezo, principalmente por conta dos ilimitados exageros das décadas de 1960-70 e a ressaca que ainda se mantém nos que não saíram totalmente desse período, talvez tenha encontrado o seu espaço nesse lugar estranho que é a internet.

Não tenho números muito confiáveis, além do fato de um poema da Angélica Freitas [também entrevistada nessa reportagem] ser um dos textos mais lidos em meu blog [o que não é exatamente uma grande vantagem]. É apenas uma suposição, que é adensada com essa entrevista e com os números de venda das obras completas do Paulo Leminski - dizem que foi o livro mais vendido nas livrarias por semanas. Quem diria.

Eu tenho uma sugestão de explicação. Uma possibilidade de início de elucubração. Mas antes, há uma condição pregressa em todas essas poesias: que elas sejam coloquiais ou diretas, cujos sentimentos sejam mais "fáceis" de se pescar, que a primeira leitura esteja ali, quase pronta, bastando o leitor passar os olhos. João Cabral, que fazia da poesia uma educação pela pedra, por exemplo, não deve se tornar pop. Ele não é "difícil", ao contrário, usa de palavras bem simples, mas sua proposta exige mais tempo. Não há uma emoção à primeira leitura. Parece um texto quase banal.

Seria necessário, portanto, para resumir essa minha introdução à introdução, que haja uma comunicação imediata. Uma clara carta de claras intenções. Não pode haver mistério. Ou muito mistério. Ou um mistério total. Algo que torne a leitura difícil. Que exija uma segunda leitura. Uma atenção maior. Isso não quer dizer que as obras atuais que fazem sucesso não mereçam uma segunda leitura, mas que elas podem ser "entendidas" logo no primeiro contato. Uma de suas faces se mostra de cara.

Portanto, o recurso da comunicação é essencial, mas não acredito que seja isso, essa é a razão de haver uma procura maior atualmente, ou uma aceitação razoável por poesias. Se fosse apenas o fato de se comunicar, qualquer pessoa que escreve de maneira clara e em versos entraria nessa categoria. Para mim, o "mistério do sucesso" está nessa capacidade de sintetizar pequenas narrativas. Veja o caso do Leonardo [para mim, um ótimo exemplo - leia algumas poesias dele aqui]. Em outro momento da entrevista ele explica o que o move: "O que eu gosto de fazer é contar histórias. Eu sou um contador de histórias falhado. Eu queria ser contista, romancista. O verso me incomoda um pouco. Mas eu o uso para contar as histórias com uma imagem sintética, ou um verso longo" [o itálico é meu].

Claro que esse processo é dele, mas há algo em comum, suspeito, entre as outras histórias dos outros poetas. As poesias viraram pequeninas narrativas, quase com início, meio e fim, não necessariamente ficcionais, não necessariamente sobre um aspecto tradicional, mas ainda assim narrativas, em que a palavra tem que se virar para dar conta das várias leituras possíveis, para carregar dentro de si, como uma semente, a força, a beleza, a graça. 

Essas poesias - é o meu chute - viraram um "sucesso" [lembremos que "sucesso" aqui é uma figura de linguagem hiperbólica] por serem pequenas narrativas - e como o homem tem fome de narrativas! Cada verso pode ser destacado e carregado dentro da memória para futuras repetições, sejam mentais ou virtuais. As poesias podem ser compartilhadas. Os versos que mais tocam o leitor podem virar frases-bordões. Além de todos os outros serviços, dá ao seu compartilhador um status, um verniz cultural, diferenciador dos demais - já que quem gosta de poesia seria, assim, seguindo esse raciocínio duvidoso, mais sensível que os outros. Daí o sucesso igualmente de minicontos, microcontos, e outras narrativas minúsculas. São pílulas de felicidade intelectual que a pessoa precisa tomar para poder continuar.

segunda-feira, 22 de abril de 2013

Friedrich Hölderlin

"Pão e vinho"

Mas amigo! Viemos demasiado tarde.
Na verdade vivem os deuses
mas sobre nossa cabeça, acima em outro mundo
trabalham eternamente e parecem preocupar-se pouco
se vivemos. Tanto se cuidam os celestes de não ferir-nos.
Pois nunca poderia contê-los um débil navio,
somente às vezes suporta o homem a plenitude divina.
A vida é um sonho dos deuses.
Mas o erro nos ajuda como um adormecimento.
E nos fazem fortes a necessidade e a noite.
Até os herois crescidos em uma cunha de bronze,
como em outro tempo seus corações são parecidos em força
aos celestes.
Eles vivem entre trovões.
Me parece às vezes melhor dormir, que estar sem companheiro.
A esperar assim, o que fazer ou dizer eu não sei.
E para que poetas em tempos de carência?
Mas, são, dizes tu, como os sacerdotes sagrados do Deus do
vinho,
que erravam de terra em terra, na noite sagrada.


E o iniciozinho de outro poema, "Patmos" [traduzido, dessa vez, para o inglês aqui]:

The god
Is near, and hard to grasp.
But where there is danger,
A rescuing element grows as well

segunda-feira, 1 de abril de 2013

'o dia rompe / as regras da luz'

Percal

manhã: maquete
que aninha a dor
inchaços, e não
feixes
o dia rompe
as regras da luz
a casa fareja
os arredores
enquanto o mar
escapa – massa
sanguinolenta

a noite ainda rasga o olho
língua suja
e vacilante
(você prefere
o reino subaquático
ou as batidas
do coração?)
dentro
do corpo um sol
engalanado desliza
puro terror

manhã: nunca água
- óleo
incrustado ao redor

- Juliana Krapp
[Mais dela aqui e em outros links daí.]

domingo, 24 de março de 2013

'O olho vê, a lembrança revê, e a imaginação transvê'

As lições de R. Q.

Aprendi com Rômulo Quiroga (um pintor boliviano):
A expressão reta não sonha.
Não use o traço acostumado.
A força de um artista vem de suas derrotas.
Só a alma atormentada pode trazer para a voz um
formato de pássaro.

Arte não tem pensa:
O olho vê, a lembrança revê, e a imaginação transvê.
É preciso transver o mundo.
Isto seja:
Deus deu a forma. Os artistas desformam.
É preciso desformar o mundo:
Tirar da natureza as naturalidades.
Fazer cavalo verde, por exemplo.
Fazer noiva camponesa voar – como em Chagall.

Tirar da natureza as naturalidades.
Fazer cavalo verde, por exemplo [...]
Agora é só puxar o alarme do silêncio que eu saio por
Aí a desformar.
Até já imaginei mulher de 7 peitos para fazer vaginação comigo.

de Manuel de Barros

sábado, 5 de janeiro de 2013

Um poema feminista de Angélica Freitas

mijo
(um poema urgente)

1.

uma mulher não deve mijar
deve fazer xixi

2.

uma mulher faz xixi
não mija
mas em banheiros públicos
a mulher acaba que mija

3.

uma mulher faz xixi
porque é mais sexy
mas quando é incontinente
a questão se torna irrelevante

4.

conheço uma mulher
que mijava
mas dizia por aí
que fazia xixi

5.

mijei no balde
foi libertador
mijei no balde
dentro do elevador
mijei com vontade
sim senhor
hoje
sou outra mulher

6.

xixi, mijo, urina: como queira chamar
se tiver nojo e a água acabar
se quiser viver vai ter que tomar
mijo. se quiser pode dizer
xixi ou guaraná

mas continua sendo mijo

7.

nisso tudo eu pensava
a caminho do banheiro
após ter lido uma frase
do marcelo rubens paiva
será que ele mija, o marcelo?
com certeza deve mijar
mirando as estrelas, será?
fazendo desenhos no ar?

(quem se importa?
eu não me importo)


8.

outra questão a se especular
quando acontece dormindo
é xixi ou mijo?
dependerá do fluxo?
da quantidade?
qual o critério?
outra coisa que direi
como aviso ou comentário:
mija-se desperto ou dormindo
peidar só se pode acordado

março de 2011
provavelmente
Angélica Freitas
[mais dela, aqui]

quarta-feira, 31 de outubro de 2012

Dia D, de Drummond

Como eu já escrevi, e reescrevi, sobre o meu poema preferido de Drummond, deixo uma outra homenagem singela a nosso poeta-mor, em seu Dia D.

quinta-feira, 8 de março de 2012

A função da arte

Volto ao discurso de recepção do prêmio Nobel, “O poeta e o mundo” (...), no qual Szymborska afirma o alto valor de uma pequena frase: “Eu não sei.” Segundo a poeta, só a consciência do não saber pode nos dar a chance de expandir os horizontes dentro e fora de nós: “Se Isaac Newton nunca tivesse dito para si mesmo ‘eu não sei’, as maçãs em seu pequeno pomar poderiam ter caído no chão como granizo e na melhor das hipóteses ele teria se abaixado para pegá-las e devorá-las com entusiasmo.” Indagar é o destino mais alto do humano e a função mesma da arte, ensina-nos a poesia de Szymborska.
Eucanaã Ferraz faz um belíssimo apanhado sobre a vida, a obra e os temas da poetisa Wislawa Szumborska, que morreu no último dia 1º de fevereiro.

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

É fogo

Talvez um dia aceitaremos
que somos reações químicas
que podem ser manipuladas,
ou, ao menos, entendidas
quase matematicamente.
Então, voltaremos à dúvida original
De que sem o calor inicial
não há fogo.
E ainda não aprendemos
como se faz fogo.