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sábado, 19 de outubro de 2013

A ginga brasileira em "O drible"

Existe uma possibilidade de explicação totalizante do que-quer-que-seja, como acredita Murilo Filho - e todos, até a sua geração? Provavelmente não. Provavelmente o que podemos fazer é tentar, por meio de uma alegoria, explicar um aspecto qualquer do-que-quer-que-seja e, a partir disso, a partir desse lampejo, dessa faísca, esperar um fogo do saber, que não pode ser contado, comunicado, compartilhado, se alastrar por dentro de si, e repentinamente, sem que se pensasse possível, se sabe, se tem o conhecimento - mesmo que ele não possa ser apreendido dentro da cabeça, porque o apreender seria colocá-lo em palavras, ou seja, englobá-lo, encapsulá-lo, em outras palavras, totalizá-lo, e, aí, se perderia novamente. Apenas se sabe. É carnal, ultrapassa a fronteira do puro racional e se espalha pelo corpo todo.

Por que essa introdução empolada? Para tentar explicar que livro [!], de que tamanho que é "O drible", novo livro de Sérgio Rodrigues - e "pai" do personagem supracitado Murilo Filho, apesar de "pai", neste livro, não ter uma acepção fácil. Sérgio escolhe o futebol para tentar não explicar, porque aí cairíamos na desgraça da totalização, mas "pensar" o Brasil, mais especificamente no século XX, na segunda metade deste século tão estranho. Pensar o Brasil - adentrando alguns dos seus meandros, das suas principais qualidades e mais difíceis defeitos. Que país construímos, como nós nos identificamos, o que vemos, quando olhamos para o espelho.

São dois os personagens principais: Murilo Filho e Murilo Neto, pai e filho, sendo que há um antagonista claro, Peralvo, um personagem que permeia toda a obra e é quase a personificação, quase a humanização do que é o Brasil [se isso fosse possível]: o filho de uma mãe de santo com um europeu, que se cruzaram, não se sabe muito bem como, em uma cidade ínfima no interior de Minas Gerais. Um menino que demora a falar, como um Brasil que demorou a ser visto até como uma terra a ser explorada, e que começa a se comunicar exatamente numa derrota, quando o Brasil perde para o Uruguai em 1950. Traça ali o seu destino: seria jogador de futebol.

O futebol, nesta obra, é mais que um pano de fundo: a linguagem está encharcada dele.
Esse drible do Pelé no Mazurkiewicz é
importantíssimo no livro [ver aqui]
Aparece até mesmo em sua ausência: se Murilo Filho é um cronista esportivo da grande geração brasileira de cronistas que povoou nossas redações, dos anos 1950 até, no máximo, 1990, entre Nelson Rodrigues e Paulo Mendes Campos, para ficar em dois exemplos citados, Murilo Neto ignora o esporte, mas sua fixação com a cultura pop dos anos 1970 é interpretada como um paralelo ao do pai pelo futebol: são colecionadores de lembranças. São arquivistas de emoções passadas. Murilo Filho despreza o filho, desde pequeno, mas ele tenta, de todas as maneiras, chamar a atenção do pai - inclusive, tentando jogar bola. Infrutiferamente.

Esse é o esqueleto da obra. Encarnando esse organismo, está o desbunde de uma geração que se descobria no fim da década de 1950 e início da seguinte, pela primeira vez talvez na vida, talvez na história, livre; o baque e a violência com o golpe de 1964; a repressão que se transformou em uma máquina de sangue, e que acabou não apenas com utopias, mas com vontades e coragens; e os anos anestesiados de 1980, que estávamos aprendendo novamente a escutar nossa voz - talvez ainda não tenhamos aprendido, talvez não aprendamos nunca, talvez aprender seja uma constante que nunca termina. Há a música da bossa nova e o rock brasil. A literatura de Nelson e Machado de Assis. Mas, sobretudo, há o futebol.

O livro mostra o cotidiano das relações entre jogadores, jornalistas, dirigentes inescrupulosos [um certo sr. Miranda, do Vasco], massagistas pais de santo, olheiros, e toda a fauna que gravita em torno, e dentro, das quatro linhas. Narra também partidas épicas em estádios esquecidos, que têm sabor de lenda, em que Peralvo marca dez gols, sozinho, em um único tempo, e é perseguido por matadores ainda dentro do campo. Ou quando Peralvo joga possuído por uma entidade de outro mundo contra Pelé.

Além de todas as possibilidades interpretativas, há ainda a forma: vários estilos e vozes narrativas, que mudam o ponto de vista a toda hora, deixando a leitura mais dinâmica, e quase de acordo com as mudanças do estilo do próprio Murilo Filho [aliás, uma homenagem clara ao Mário Filho, que é, entre outras tantas coisas, autor de "O negro no futebol brasileiro"]. Começa com uma conversa entre pai e filho, sendo que só o pai fala, num tom de diálogo sem resposta, mais ou menos o que acontece em "Grande Sertão: Veredas", passa por um realismo fantástico, em que Peralvo é capaz de enxergar auras e antecipar em cerca de um segundo o mundo - uma grande vantagem para um jogador de futebol -, resvala numa literatura pop, tipo Nick Horby, volta para o diálogo rosiano, e termina num monólogo interior de Murilo Neto. Se isso não bastasse, há um humor entremeando todo o livro, e uma ação que empurra para frente o leitor, e o faz cair no muito conhecido - e pouco experienciado - paradoxo do livro que você não quer que acabe, mas também não quer parar de ler.

O autor, o autor
São diversas passagens que dariam interpretações imensas, que poderiam conjecturar sobre cada um dos elementos, como os seres que são conjurados a Peralvo por sua mãe: Oxóssi, Dom Sebastião, o Judeu Errante, Olorum, Seu Sete, o Enforcado, Joana D'Arc. Todos eles têm explicações prováveis no próprio texto. Todos eles contêm segredos que podem ser desdobrados e que dariam outras histórias.

Até mesmo o que, em uma primeira interpretação, poderia ser visto como o ponto fraco do livro, o suicídio da mãe de Murilo Neto, esposa de Murilo Filho, - já que é um assunto muito distante do ambiente do livro, parecendo gratuito - consegue ter uma explicação, ao fim, que remonta à história de nossa literatura, e que passa, novamente, por Nelson, Machado, de uma maneira bem real por Euclides da Cunha e, o autor não coloca, mas eu acrescentaria, Jorge Amado.

Ao fim, ficamos com a certeza de que Sérgio conseguiu trazer o futebol para explicar a vida, já que o inverso, como Murilo Filho explica, não é possível. "Há entre os dois uma simetria, um descompasso no qual não me surpreenderia que coubesse toda a tragédia da existência." Não poderia ser mais preciso.

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

Verissimos


Luis Fernando Verissimo fala sobre o pai, Erico, com mediação do Sérgio Rodrigues, que faz aniversário hoje, num evento do IMS. Imperdível.

sexta-feira, 18 de junho de 2010

Morte do Saramago - a falta da unanimidade

Saramago era a piada temida por jornalistas que lidam com literatura, assim como o Michael Jackson, para a música, e Roberto Carlos, Pelé, e Niemeyer para todo mundo em redações.

Por isso, imaginava que ele teria entrado na categoria das unanimidades - mesmo quem não o conhece, nutria uma certa admiração. Não é o caso. Vi muita gente falando mal. E gente que se absteve de aparecer e comentar a morte do velhinho, argumentando que nunca tinha lido nada dele. Dignidade é isso aí.

Das pessoas que comentaram, o escritor Sérgio Rodrigues levantou uma questão interessante: há um flaxflu na literatura portuguesa, que deixa o Saramago em segundo plano, porque ele seria "fácil", em comparação ao Lobo Antunes - esse sim, o grande escritor português. "Coincidentemente", o mais underground - como se só a marginália daria legado à literatura. Em seguida, inclusive, Rodrigues, com clareza e inteligência, acaba com esse engano: "só os pedantes igualam acessibilidade a inferioridade estética".

Outros, como o João Paulo Cuenca, lembraram como Saramago, apesar de ser encarado por muitos como um vanguardista - simplesmente por abolir símbolos de pontuação, o que é uma simplificação do termo - era um sujeito tradicional. E seu encantamento pela esquerda mais conservadora é um exemplo claro, mas parcial sobre isso.

Sua prosa era oral. Sempre o li pensando que ele contava uma história para mim. Colocava sua voz - a voz dele mesmo, do velhinho, com sotaque português e tom firme - em cada uma das longas frases de seus livros. Assim o que no início era difícil ou estranho, foi se transformando em algo natural, como uma conversa, ou uma aula.

Dos que livros que li (não foram tantos assim), gostei do óbvio: "Ensaio sobre a cegueira". É uma obra que, sozinha, merecia ganhar a eternidade.

"A caverna" me trouxe o mito platônico numa época em que mal sabia o que era filosofia - e serviu apenas para isso. "Evangelho..." tem uma proposta simples, até intuitiva, mas é bastante rancoroso, mostrando alguém que quer incomodar necessariamente o outro lado,no caso a Igreja. "Memorial..." tem a personagem Blimunda, que me marcou para a vida, e uma narrativa que muda de posição no meio do caminho.

Não li livros que, dizem, ser os melhores dele: "O ano da morte de Ricardo Reis", "Jangada de pedra", "Cerco de Lisboa". Talvez um dia o faça. Ele merece.

Certamente, o melhor texto de homenagem ao homem José Saramago ficou por conta de seu editor e amigo Luiz Schwarcz.

Escreve ele:
"Agora só quero me despedir mais uma vez de José. Com as melhores lembranças, o amor, e minha saudade. Maldita palavra, tão portuguesa, que agora ficará associada ao meu amigo. Mas saudade não tem remédio, não é, José?"

O restante do texto, aqui.