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quinta-feira, 22 de fevereiro de 2018

Texto sem contexto

"I’m sorry to have to tell you that books are now considered an endangered species. By books, I also mean the conditions of reading that make possible literature and its soul effects. Soon, we are told, we will call up on “bookscreens” any “text” on demand, and will be able to change its appearance, ask questions of it, “interact” with it. When books become “texts” that we “interact” with according to criteria of utility, the written word will have become simply another aspect of our advertising-driven televisual reality. This is the glorious future being created, and promised to us, as something more “democratic.” Of course, it means nothing less then the death of inwardness—and of the book."

Carta de Susan Sontag a Borges - dez anos depois de ele ter morrido. Toda ela aqui:
https://lithub.com/read-susan-sontags-love-letter-to-borges-written-10-years-after-his-death/

terça-feira, 15 de outubro de 2013

'El golem' - Jorge Luis Borges

Si (como afirma el griego en el Cratilo)
el nombre es arquetipo de la cosa
en las letras de 'rosa' está la rosa
y todo el Nilo en la palabra 'Nilo'.

Y, hecho de consonantes y vocales,
habrá un terrible Nombre, que la esencia
cifre de Dios y que la Omnipotencia
guarde en letras y sílabas cabales.

Adán y las estrellas lo supieron
en el Jardín. La herrumbre del pecado
(dicen los cabalistas) lo ha borrado
y las generaciones lo perdieron.

Los artificios y el candor del hombre
no tienen fin. Sabemos que hubo un día
en que el pueblo de Dios buscaba el Nombre
en las vigilias de la judería.

No a la manera de otras que una vaga
sombra insinúan en la vaga historia,
aún está verde y viva la memoria
de Judá León, que era rabino en Praga.

Sediento de saber lo que Dios sabe,
Judá León se dio a permutaciones
de letras y a complejas variaciones
y al fin pronunció el Nombre que es la Clave,

la Puerta, el Eco, el Huésped y el Palacio,
sobre un muñeco que con torpes manos
labró, para enseñarle los arcanos
de las Letras, del Tiempo y del Espacio.

El simulacro alzó los soñolientos
párpados y vio formas y colores
que no entendió, perdidos en rumores
y ensayó temerosos movimientos.

Gradualmente se vio (como nosotros)
aprisionado en esta red sonora
de Antes, Después, Ayer, Mientras, Ahora,
Derecha, Izquierda, Yo, Tú, Aquellos, Otros.

(El cabalista que ofició de numen
a la vasta criatura apodó Golem;
estas verdades las refiere Scholem
en un docto lugar de su volumen.)

El rabí le explicaba el universo
"esto es mi pie; esto el tuyo, esto la soga."
y logró, al cabo de años, que el perverso
barriera bien o mal la sinagoga.

Tal vez hubo un error en la grafía
o en la articulación del Sacro Nombre;
a pesar de tan alta hechicería,
no aprendió a hablar el aprendiz de hombre.

Sus ojos, menos de hombre que de perro
y harto menos de perro que de cosa,
seguían al rabí por la dudosa
penumbra de las piezas del encierro.

Algo anormal y tosco hubo en el Golem,
ya que a su paso el gato del rabino
se escondía. (Ese gato no está en Scholem
pero, a través del tiempo, lo adivino.)

Elevando a su Dios manos filiales,
las devociones de su Dios copiaba
o, estúpido y sonriente, se ahuecaba
en cóncavas zalemas orientales.

El rabí lo miraba con ternura
y con algún horror. '¿Cómo' (se dijo)
'pude engendrar este penoso hijo
y la inacción dejé, que es la cordura?'

'¿Por qué di en agregar a la infinita
serie un símbolo más? ¿Por qué a la vana
madeja que en lo eterno se devana,
di otra causa, otro efecto y otra cuita?'

En la hora de angustia y de luz vaga,
en su Golem los ojos detenía.
¿Quién nos dirá las cosas que sentía
Dios, al mirar a su rabino en Praga?

quarta-feira, 25 de setembro de 2013

Beatriz Sarlo, Borges e os russos

Talvez tenha sido coincidência, uma série de acontecimentos que levou à crítica cultural argentina - apresentada como a maior intelectual latino-americana - Beatriz Sarlo ficar conosco durante tanto tempo. Para falar a verdade, não foi tanto tempo assim. Apenas um dia e meio, mas foi intenso. Tivemos ao menos três conversas longas, inclusive uma grande entrevista que vai sair na "Revista de História da Biblioteca Nacional" em algum momento. E falamos de muitos assuntos: Brasil contemporâneo, mercado editorial, racismo, música, Vinicius, subjetividade, cinema argentino independente, Lula, Antônio Candido, história, literatura e, claro, Borges.

Sarlo é autora de Borges, un escritor en las orillas, um livro em que ela mostra todo o caráter argentino do escritor que é muito conhecido pelo seu cosmopolitismo. Em um grande resumo, ela explica que Borges consegue criar uma chave de interpretação para o seu país - mais ou menos como Roberto Schwarz, de quem ela é muito amiga, fez com Machado de Assis em Um mestre na periferia do capitalismo.

Isso a catapulta à maior conhecedora / especialista de Borges do mundo? Improvável saber. Não há uma escala para medir isso. De toda forma, ela é a mais famosa pensadora argentina, abordando um dos principais temas da Argentina. Porque, como ela diz, "nenhum argentino chega a Borges", ele já está lá. Daí, pudemos conversar vários aspectos borgianos, mas um, que sempre me intrigou, foi o principal para mim.

É curioso que um escritor onívoro como Borges tenha deixado de lado toda uma tradição literária importante, como é inegavelmente a russa. Não há em seus comentários quase nenhuma citação a Dostoiévski. Nunca li nada dele sobre Tolstói, ou mesmo Tchekhov - outro contista como Borges.

"No conjunto de livros de Borges que está na Biblioteca Nacional da Argentina", contou Beatriz, "Só há um livro de Dostoiévski, com poucas anotações, e um de Tolstói, com nenhuma marcação. Nada de Tcheckhov", diz ela, lembrando que Borges gostava de escrever, com a sua letra miúda, nos livros que lia.

Sempre interpretei essa aversão de Borges pelos russos - aversão que me influenciou bastante - como uma diferença de temperamento. Borges, muito influenciado pelos pragmáticos e aventureiros anglo-saxões, não teria muita paciência com os sofredores e profundos eslavos. Era uma questão de gosto, simplesmente. Beatriz confirmou.

"Alguns contos de Dostoiévski, porém, eu acredito que ele poderia gostar, se tivesse lido", explicou ela, deixando claro que eram contos específicos. "Mas eles não estavam traduzidos quando ele estava vivo ainda." E foi então que ela contou algo que eu senti com bastante similaridade: a tradução antiga para o espanhol, via o francês, era horrível. Pomposa, exageradamente barroca. Açucarava o que não precisava de doçura. Mais ou menos o que havia no Brasil, antes da razoavelmente recente onda de traduções direta do russo aqui.

Beatriz contou que ela mesma só entendeu Dostoiévski quando leu uma tradução feita por uma russa-alemã que nasceu na pátria de Fiódor e cresceu na de Goethe e que, segundo ela, é excelente. Borges, que lia em alemão, também não teve a sorte de ter essas traduções. Dei mole e não anotei o nome da senhora tradutora que fez o milagre, mas segundo Beatriz, que aprendeu o alemão com quase 60 anos, vale a pena encarar mais uma língua, e logo que língua!, para ler essas traduções.

Ano que vem, Beatriz, ano que vem.

sexta-feira, 13 de setembro de 2013

Borges: o 'prêmio de loteria que a Argentina ganhou'

A sociologia vem depois. Creio que as causalidades e as coincidências são as coisas mais interessantes que existem no plano da cultura. Porque, seguramente, a deusa Fortuna observou com um olho onde estava deixando cair esse personagem. Mas ele poderia ter nascido no México, por que não? Borges caracteriza-se por incorporar a tensão entre o local e o universal; no México há escritores como Octavio Paz que têm esse mesmo traço. Borges poderia ter sido mexicano, mas, provavelmente, não poderia ter sido de outra nacionalidade. Talvez brasileiro, mas o Brasil já tinha a sua tradição literária. A primeira condição necessária para esses lugares possíveis seria a existência de um campo cultural já complexo, atravessado por uma modernidade triunfante, como pode ter sido o campo em que Borges se inseriu ao voltar da Europa em 1920, no qual as revistas literárias e a vida cultural haviam sido capturadas pela modernidade. Já não era a literatura do século XIX, isso me parece importante. A segunda, uma grande cidade. Entre o que teorizou Simmel e depois Benjamin, existe algo que a grande cidade produz e que está presente em Borges. Não apenas o flâneur, mas o princípio da indeterminação cultural. A mescla de culturas seria a terceira condição. Não me refiro à mescla de culturas autóctones e hispano-americanas, como se vê em Arguedas, caso em que há uma mescla mas não se produz Borges, nem à mescla submetida a uma busca pessoal, do invento ou do capricho, mas sim a algo já dado na sociedade da qual o escritor emerge. Finalmente, uma sociedade muito alfabetizada, porque alguém poderia perguntar: por que não em uma cidade asiática ou africana? Mas aí aparece de novo a questão da modernidade. A sociedade portenha era muito alfabetizada, havia pequenas e grandes editoras, havia jornais. Esses textos que Borges publicava em Crítica, por exemplo, quem podia ler? De todo modo, havia um jornal que considerava importante que Borges estivesse publicando ali. Eram diários modernos, como Crítica ou El Mundo. Isso só poderia ocorrer em sociedades com alfabetização e com público leitor. Essas seriam as condições que propiciaram o seu surgimento, apesar de Borges ser o prêmio de loteria que a Argentina ganhou.
- Beatriz Sarlo, aqui.

sexta-feira, 1 de março de 2013

A memória e a memória de Funes

[Tenho um grupo de estudos com amigos do trabalho sobre assuntos que nos interessam. O foco do grupo poderia ser, resumidamente, descrito da seguinte forma: como a História é uma forma de literatura. Eu sugeri um texto essa semana, que foi aceito: "Funes, el memorioso", de Borges. Repasso abaixo as minhas considerações ao livro, enquanto o relia.]

- No prefácio de "Artifícios", segundo volume das "Ficções", Borges anota uma frase curta: "['Funes...'] és una larga metáfora del insomnio". O autor argentino enfrentava o problema a essa época. E lembra a citação - talvez no sentido inverso - de Nietzsche.

- Já na primeira linha do conto, as palavras iniciais já dão o tom e o norte do que será o conto, apesar do neófito não ter muita informação para desvendar a referência: "Lo recuerdo...", escreve o narrador. Recordar, lembrar-se, conseguir resgatar algo dentro desse armazém empoeirado que é a memória. O narrador lembra-se dele, de Funes. Mas logo ele quase se arrepende de ter usado a expressão, exatamente porque a memória desse tipo parece ínfima, pequena demais ante o personagem que será mostrado. O narrador, imagino que para manter o suspense, não fala quem é o homem, o único homem que teria direito de usar, verdadeiramente, o verbo "recordar".

- Entre os sinônimos imperfeitos, como "rememorar" ou "acordarse", Borges escolhe "recordar". É interessante uma segunda interpretação para o verbo, como o de gravar, de registrar, principalmente se considerarmos que Borges falava inglês fluentemente desde muito pequeno.

- Quando Funes olha para a "passionaria", ele a observa durante todo o dia, porque a cada instante a flor é outra, diferente da anterior. O tempo modifica a matéria. Não há dois momentos iguais, não dá para mergulhar duas vezes no mesmo rio.

- Em certos momentos, o narrador se lembra de Funes, mas já duvida da própria memória e acrescenta um "creo".

- O narrador se mostra feliz com o projeto de escreverem sobre Funes - descobrimos que a conto-minibiografia faz parte de uma coletânea. Toda coletânea tenta abarcar o máximo possível, ou desejado, o objeto escolhido. Sejam escritores fantásticos, poemas brasileiros do século xx, ou músicas de uma banda. No caso de Funes. Uma coletânea é uma reunião de memória e interpretações sobre um assunto. Mas o que acontece quando o assunto, por ter a memória mais ampla que existe ou existiu, seria o único candidato capaz, ou ao menos indicado, ou melhor, sugerido, a tentar a tarefa inglória de descrever o absoluto, o todo de algum assunto? Só quem se lembra de tudo poderia, em tese, fazer isso.

- Talvez até faltasse capacidade de enxergar o todo, porque uma memória geral não quer dizer obrigatoriamente que se é capaz de captar o todo, mas apenas que o captado não é esquecido, mas haveria espaço para armazenar informações.

- Uma coletânea sempre é falível. Como qualquer lista. Sempre haverá omissões.

- O narrador se diz parcial. Mesmo que se proponha a um relato objetivo, como faz, ele vai se esquecer de algo.

- Então, antes mesmo da segunda página do conto, já temos ao menos três aspectos ligados à memória e ao tempo:
-- Como o tempo afeta a percepção dos objetos e os próprios objetos, sem falar na memória.
-- Como só uma memória infalível poderia conceber uma história total.
-- Só uma memória infalível poderia se propor a ser imparcial [o que não seria garantido].

- O narrador compara Funes ao super-homem nietzscheano. Funes é, de uma maneira até anedótica, o inverso do homem supra-histórico. Se no texto de Nietzsche, o alemão se refere a uma questão ética, do homem que não fica acorrentado a um passado, o super-homem borgeano difere minuto a minuto a contagem do tempo, por apreender tudo. Conhece todos os detalhes, todos os que lhe são depositados.

- No primeiro encontro, ele parece "normal". Vai adoecendo. Sua voz, no início, é aguda e burlona. No fim, fica nasal.

- A memória serve para as línguas!

- A citação de Plínio, o velho, da "Naturalis historia", "ut nihil non iisdem verbis redderetur audítum", quer dizer: "Nada que é ouvido pode ser contada da mesma forma".

- Logo em seguida, o narrador pede desculpas porque a história, o trecho que ele narrará já passa de meio século. A memória enfraqueceu com o tempo.

- Casos de memórias excepcionais na obra de Plínio:
Ciro, rey de los persas, que sabía llamar por su nombre a todos los soldados de sus ejércitos; Mitrídates Eupator, que administraba la justicia en los veintidós idiomas de su imperio; Simónides, inventor de la mnemotecnia; Metrodoro, que profesaba el arte de repetir con fidelidad lo escuchado una sola vez.
- A leitura de Plínio desperta em Funes, como numa epifania, seu "poder", sua memória. Mas não somente. Além da memória, sua percepção era agora "infalible". Como ter memória sem percepção?

- Para se reconstruir um dia inteiro se requer um dia inteiro. [Borges volta a essa metáfora em "El hacedor", quando fala de um mapa perfeito.]

- O narrador levanta a hipótese de que um homem imortal saber, um dia, tudo. É a metáfora dos macacos escritores, virada ao avesso. A teoria desconsidera, porém, a capacidade de parar de aprender, por exemplo. Ou de simplesmente repetir o aprendizado.

- O sistema de numeração: é um dos recursos mais famosos da memorização. Ao fazer ligações entre assuntos diversos, a memória é ativada.

- Os projetos de Funes revelam, segundo o narrador, grandeza. Daí, talvez, a ligação com o super-homem de Nietzsche. Uma das condições do alemão é exatamente deixar sua marca registrada na História.

- A parte mais interessante fica para o final: quando o narrador diz que Funes era "casi incapaz" de ideias gerais, platônicas, e dá o exemplo do "perro". O símbolo, para alguém com essa memória super-humana, não consegue identificar nenhum grupo, quiçá o indivíduo, já que ele se modifica com o tempo e o espaço. "Era el solitario y lúcido espectador de un mundo multiforme, instantáneo y casi intolerablemente preciso".

- Novamente a metáfora da insônia: o narrador diz que Funes quase não dormia porque "Dormir es distraerse del mundo".

- Sobre a incapacidade de generalização, o narrador expõe uma suspeita: "no era muy capaz de pensar", diz um pouco com vergonha, e explica o que entende por pensar: "es olvidar diferencias, es generalizar, abstraer". No mundo de Funes, só há "detalhes".

- Funes, apesar de ter apenas 19 anos, parece gasto, velho. Como se houvesse vivido mais que os outros. Como se o tempo houvesse corrido mais rapidamente para ele. Ou ele tivesse alongado o tempo, saboreado cada um dos seus segundos.

- Ao fim, ele morre com 21 anos, de uma morte cotidiana, talvez para humanizá-lo, retirar o caráter supra-humano dele. Talvez para mostrar que à morte, todos somos iguais.

sexta-feira, 23 de novembro de 2012

A mágica da literatura, segundo Borges e Manguel

Sou um leitor apaixonado por escritores enciclopédicos. Gente que esconde significados ocultos e eu vou atrás, que nem em um jogo de esconde-esconde, tentando achar as pistas para o Graal. Outros que fazem referências a conhecimentos que não são do saber geral - quanto mais obscuro e antigo, melhor. Gente que simplesmente descreve assuntos completamente inúteis, mas com uma quantidade de informação e detalhes que inunda o outro lado da página. Textos que transbordam conhecimento. Autores que se entendem como leitores antes de serem escritores. Não preciso dizer que Borges é o meu autor favorito, né?

Alberto Manguel é outro desses escritores para quem a leitura é mais importante que a escrita. Anteontem, em sua palestra na biblioteca de Botafogo, pudemos ver um autor tranquilo, engraçado, com uma cultura bem acima da média, mesmo entre os escritores, que falou durante quase duas horas basicamente sobre o simples e cada vez mais raro ato de ler.

Manguel, em sua biblioteca que, hoje, tem 40 mil volumes. Na palestra, Manguel
lembrou que Borges era um leitor que não se importava com a fisicalidade dos
livros. Estaria bem adaptado, acredito, aos e-books.
Ele começou fazendo uma justificativa de nossa tradição cultural - no sentido de não ser algo da nossa parte animalesca, mas aprendido - de se ler. Ele explicou que a imaginação é uma das características do humano, que consegue antever ou projetar uma situação que ainda não foi dada ou vivida.

"Para construir a imaginação", ele argumenta, "nós contamos histórias, contos, usando as palavras como raiz, forma para poder passar a experiência para que outra pessoa possa entender", diz ele, o que me fez lembrar que a acepção da palavra "cuento" no espanhol é maior que a que comumente usamos no português-brasileiro. "Cuento" é qualquer história que se conta, mesmo oral ou informalmente.

Mais ou menos por isso que Borges - novamente ele, e ele ainda vai aparecer bastante aqui por vários motivos - acreditava que o "cuento" era a forma original da literatura e, por isso, a que tinha mais chance de sobreviver ao longo dos anos. Ele dizia que podia até ver o romance ou a novela [que são diferentes] acabando, já o conto, não.

Entre muitos momentos incríveis da palestra de Manguel, o que mais me chamou a atenção foi aquele em que ele lembrou da mágica que há na literatura. Uma mágica que cria suas próprias características a partir do universo que o próprio autor, caso tenha essa capacidade, consiga criar. A mágica da ambiguidade, que, ao invés de dificultar a nossa compressão das coisas, alarga o nosso conhecimento, nos faz "entender mais", como Manguel argumentou. Ele citou Borges - outra vez - e o seu ensaio "O falso problema de Ugolino", um de seus "Nove ensaios dantescos" para exemplificar.

Manguel, citando Borges, contextualizou a passagem do canto penúltimo de "A divina comédia": no Inferno, Ugolino de Pisa rói a nuca do arcebispo traidor Ruggieri degli Ubaldini, que o havia encarcerado com os seus filhos. "Ugolino", escreve Borges, "movido pela dor, morde-se as mãos; os filhos creem que o faz pela fome e lhe oferecem a própria carne" com as seguintes palavras:
... tu ne vestistiqueste misere carni, e tu le spoglia 
[na tradução publicada no ensaio:
"Que desta carne, de que nos vestiste,
comesses, que ela à origem voltaria!"]
Segundo Borges, há uma "inutile controversia" para se saber se Ugolino cometeu canibalismo, e, agravante, servindo-se dos próprios filhos, já que Dante é ambíguo nesse sentido. Borges sugere uma resposta: "Dante não quis que pensássemos, mas que suspeitássemos. A incerteza é parte do seu desígnio". Ele supõe ainda que, diferentemente do que se pensa dos autores como os grandes criadores de universos perfeitos e irretocáveis, provavelmente o escritor italiano "não soube mais de Ugolino além do que os seus terceto relatam" [O que me lembra a citação que Manguel diz ter escutado de Borges: "la gran diferencia entre escritores y lectores es que el escritor escribe lo que puede, mientras que el lector lee lo que quiere"]:
No tempo real, na história, cada vez que se depara com diversas alternativas, o homem deve optar por uma e elimina ou perde as outras; mas não no ambíguo tempo da arte, que se parece ao da esperança e ao do esquecimento. Hamlet, nesse tempo, é são e é louco. Na treva de sua Torre da Fome, Ugolino devora e não devora os amados cadáveres, e essa ondulante imprecisão, essa incerteza, é a estranha matéria do que é feito. Assim, com duas possíveis agonias, sonhou-o Dante e assim sonharão as gerações.
Dito isso, fica decretado que Capitu traiu e não traiu Bentinho.

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

A arte morreu, vida longa à arte

Algumas pessoas, como esse Monroe Beardsley aí embaixo, acreditam que hoje em dia faz mais sentido falar sobre uma experiência estética que sobre arte. Claro que essa afirmação não passa incólume e outras pessoas, como o citado abaixo George Dickie, dizem que nunca conseguimos fugir do objeto artístico em si, que as experiências são geralmente provenientes das obras de arte e o que fica na nossa memória não é a experiência, mas a arte.

Tendo a gostar mais da ideia de experiência estética, que é menos limitadora. Pode alcançar qualquer objeto ou pensamento no mundo, não necessariamente algo artístico. É, na minha interpretação, mais ou menos o que Borges quis dizer com a expressão "hecho estético":
"Pater, en 1877, afirmó que todas las artes aspiran a la condición de la música, que no es otra cosa que forma. La música, los estados de la felicidad, la mitología, las caras trabajadas por el tiempo, ciertos crepúsculos y ciertos lugares, quieren decirnos algo, o algo dijeron que no hubiéramos debido perder, o están por decir algo; esta inminencia de una revelación, que no se produce, es, quizá, el hecho estético." Jorge Luis Borges. [La Muralla y los Libros]
Ou:
El sabor de la manzana [declara Berkeley] está en el contacto de la fruta con el paladar, no en la fruta misma; análogamente [diría yo] la poesía está en el comercio del poema con el lector, no en la serie de símbolos que registran las páginas de un libro. Lo esencial es el hecho estético, el thrill, la modificación física que suscita cada lectura. Esto acaso no es nueno, pero a mis años las novedades importan menos que la verdad [Borges, 1972:11]
Curiosamente, não se pode falar sobre essa experiência em termos diretos. Deve-se usar metáforas / alegorias para alcançá-lo - o que, por si, só, já demonstra a força da arte que é o de comunicar usando símbolos diversos algo qualquer. Sobre a experiência estética se diz que é uma "revelação". Que é uma "experiência". Que é uma suspensão do tempo. Que é o encontro da eternidade. Que é o resvale no absoluto. Que é a experiência mesmo que quase instantânea do todo. Que é o mais próximo que se chega da religião. Que é o mais próximo que se chega do gozo sexual. Que é o mais próximo que se chega da morte e da imortalidade, ao mesmo tempo. Que se é inundado de uma felicidade sem tamanho. Que é aberto um portão a uma outra forma de vida. Que se conhece o desconhecido. Que vira um chave no nosso cérebro. Que é uma transformação, uma metamorfose. Uma catarse...

Talvez seja melhor deixar a descrição do próprio Borges sobre o seu Aleph, provavelmente uma alegoria para a obra de arte definitiva:
En la parte inferior del escalón, hacia la derecha, vi una pequeña esfera tornasolada, de casi intolerable fulgor. Al principio la creí giratoria; luego comprendí que ese movimiento era una ilusión producida por los vertiginosos espectáculos que encerraba. El diámetro del Aleph sería de dos o tres centímetros, pero el espacio cósmico estaba ahí, sin disminución de tamaño. Cada cosa (la luna del espejo, digamos) era infinitas cosas, porque yo claramente la veía desde todos los puntos del universo. Vi el populoso mar, vi el alba y la tarde, vi las muchedumbres de América, vi una plateada telaraña en el centro de una negra pirámide, vi un laberinto roto (era Londres), vi interminables ojos inmediatos escrutándose en mí como en un espejo, vi todos los espejos del planeta y ninguno me reflejó, vi en un traspatio de la calle Soler las mismas baldosas que hace treinta años vi en el zaguán de una casa en Frey Bentos, vi racimos, nieve, tabaco, vetas de metal, vapor de agua, vi convexos desiertos ecuatoriales y cada uno de sus granos de arena, vi en Inverness a una mujer que no olvidaré, vi la violenta cabellera, el altivo cuerpo, vi un cáncer de pecho, vi un círculo de tierra seca en una vereda, donde antes hubo un árbol, vi una quinta de Adrogué, un ejemplar de la primera versión inglesa de Plinio, la de Philemont Holland, vi a un tiempo cada letra de cada página (de chico yo solía maravillarme de que las letras de un volumen cerrado no se mezclaran y perdieran en el decurso de la noche), vi la noche y el día contemporáneo, vi un poniente en Querétaro que parecía reflejar el color de una rosa en Bengala, vi mi dormitorio sin nadie, vi en un gabinete de Alkmaar un globo terráqueo entre dos espejos que lo multiplicaban sin fin, vi caballos de crin arremolinada, en una playa del Mar Caspio en el alba, vi la delicada osadura de una mano, vi a los sobrevivientes de una batalla, enviando tarjetas postales, vi en un escaparate de Mirzapur una baraja española, vi las sombras oblicuas de unos helechos en el suelo de un invernáculo, vi tigres, émbolos, bisontes, marejadas y ejércitos, vi todas las hormigas que hay en la tierra, vi un astrolabio persa, vi en un cajón del escritorio (y la letra me hizo temblar) cartas obscenas, increíbles, precisas, que Beatriz había dirigido a Carlos Argentino, vi un adorado monumento en la Chacarita, vi la reliquia atroz de lo que deliciosamente había sido Beatriz Viterbo, vi la circulación de mi propia sangre, vi el engranaje del amor y la modificación de la muerte, vi el Aleph, desde todos los puntos, vi en el Aleph la tierra, vi mi cara y mis vísceras, vi tu cara, y sentí vértigo y lloré, porque mis ojos habían visto ese objeto secreto y conjetural, cuyo nombre usurpan los hombres, pero que ningún hombre ha mirado: el inconcebible universo.
Sentí infinita veneración, infinita lástima. [todo o conto aqui.]
ps. George Dickie enumera, em outro artigo chamado "What is art? An institutional analysis", as condições para sabermos se tal objeto é ou não é arte. Entre diversos requisitos - entre eles, a intenção e a participação humana - uma me chamou mais a atenção. Ele diz que algo para ser arte deve ser considerado assim pelo que ele chama de integrantes do "artworld". Esses integrantes seriam os críticos, os artistas, o público, e todo mundo que se autointitulasse parte do mundo da arte. Eu tendo a discordar sutilmente dele nesse aspecto [em outros também, mas nesse em específico]. Não que eu ache que ele dê demasiado poder para esse grupo de pessoas, mas porque eu acho que ele dá esse poder apenas para um grupo de pessoas. Arte, diferentemente de Engenharia ou Odontologia, não se aprende. Portanto, qualquer um pode ter contato com um objeto e ter - daí, talvez, nos diferenciemos - a experiência estética. E pode dizer que tal objeto - mesmo um inocente pôr-do-sol - é um obra de arte.

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

Enciclopédias e dicionários

Eu adoro enciclopédias e dicionários. Gosto da ideia de reunir em um só lugar o máximo de conhecimento possível - daí sou fã da internet em si e da Wikipedia, em específico, e fiquei me sentindo órfão quando eles ficaram um dia fora do ar. Junte a isso que eu já comprei uma edição inteira da Encyclopaedia Britânica, os 27 volumes, de um camelô-lixeiro por R$ 50. Não tenho qualquer preconceito com as coisas jogadas fora. Foi assim que eu encontrei aqui um "The Oxford Companion to English Literature" na bin aqui do condomínimo e resolvi ficar para mim. Um trechinho, quase aleatório, sobre um assunto que estou estudando agora:
A term coined by Franz Roh [Nach-expressionismus, magischer realismus: probleme der neuesten europäischer Malerei, 1925], to describe tendencies in the work of certain German artists of the neue Sachlichkeit [new objectivity], characterized by clear, cool, static, thinly-painted, sharp-focus images, frequently portraying the imaginary, the improbable, or the fantastic in a realistic or rational manner. The term was adopted in the United States with the 1943 exhibition [containing works by Charles Sheeler, 1883-1965, and Edward Hooper, 1882-1967] at the New York Museum of Modern Art, entitled "American Realists and Magic Realists". The term has subsequently been used to describe the works of such Latin American authors as Borges, García Márquez, and Alejo Carpentier (1904- ), and elements of it have been noted in Grass, Calvino, Fowles, and other European writers. In the 1970s and 1980s, it was adopted in Britain by several of the most original of younger fiction writers, including notably, Emma Tennant, Angela Carter, and Salman Rushdie. Magic realist novels and stories have, typically, a strong narrative drive, in which the recognizably realistic mingle with the unexpected and the inexplicable, and in which elements of dream, fairy-story, or mythology combine with the everyday, often in a mosaic or kaleidoscopic pattern of refraction and recurrence. English Magic Realism also has some affinity with the neo-Gothic.

domingo, 22 de janeiro de 2012

David Hume: 'On the Standard of Taste'

According to James Shelley (Shelley, J., in Gaut and Lopes, 2005: 44), Hume quotes a Lockean thesis when he states that “beauty is no quality in things themselves,” but a “sentiment” in “the mind that contemplates them”. In sum: “each mind perceives a different beauty” (Hume, D., in Cahn and Meskin, 2008: 104).

This is very similar to what Borges wrote on the prologue of his “Obra poética”, in 1964, when he affirms that “the taste of the apple (states Berkeley) lies in the contact of the fruit with the palate, not in the fruit itself; analogously (I would say) poetry lies in the commerce of the poem with the reader, not in the series of symbols registered on the pages of a book.”

Both means taste and beauty would not exist apart from an observer, which will have his/her sentiment affect by the taste and the beauty. There would be, thus, “thousand different opinions” in the world, which could be impossible to unify. These sentiments vary from man to man, even when they have similar opinions about the issue (Hume, D., in Cahn and Meskin, 2008: 103).

However, the sentiment does not represent “what is really in the object”, say Hume, as there must have a connection among the object and the “organs of the faculty”.

Hume searched for a standard of taste to “reconcile” the “sentiments of men”. He wanted to find what the real beauty was, despite the men’s differences. He wishes to establish one pattern, which will not be affected by neither internal nor external influences. What can be confirmed, and what can be condemned. In James Shelley’s opinion, “Hume believes that we have a standard for preferring some tastes above others because we have a standard for preferring some perceptions above others” (Shelley, J., in Gaut and Lopes 2005: 44).

For Hume, there were “general principles of approbation or blame” (Hume, D., in Cahn and Meskin, 2008: 106), which are: the forms of qualities and the capacity to please. The thinker advices that this rule will not be achieve in every occasion. On the contrary, it is required “many favourable circumstances”, when no disorder or disturbs can affect the process. He enumerates some features that observers must have to reach this standard: “a perfect serenity of mind, a recollection of thought, a due attention to the object” (ibid: 105). However, only few men are qualified to reach this norm, he assumes.

He remembers that the true object of beauty must surpass time and space, and cite Homer as an example. “Strong sense, united to delicate sentiment, improved by practice, perfected by comparison, and cleared of all prejudice, can alone entitle critics to this valuable character”, Hume writes: “and the joint verdict of such, wherever they are to be found” (ibid: 109).

sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

Metafísica fantástica en Borges

Los metafísicos de Tlön no buscan la verdad ni siquiera la verosimilitud: buscan el asombro. Juzgan que la metafísica es una rama de la literatura fantástica. Saben que un sistema no es otra cosa que la subordinación de todos los aspectos del universo a uno cualquiera de ellos.
Borges, em "Tlön, Uqbar, Orbis Tertius", porque sempre é bom citá-lo.

E ele continua:
Hasta la frase "todos los aspectos" es rechazable, porque supone la imposible adición del instante presente y de los pretéritos. Tampoco es lícito el plural "los pretéritos", porque supone otra operación imposible... Una de las escuelas de Tlön llega a negar el tiempo: razona que el presente es indefinido, que el futuro no tiene realidad sino como esperanza presente, que el pasado no tiene realidad sino como recuerdo presente.
Todo o conto, aqui

quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

Against all the systems

... all philosophers, in their millenarian love of truth, sooner or later become prey to an arrogant illusion of mastery, and that the sheer thrill of happiness, of enjoyment, or of pleasure, though perhaps no less inaccessible to us mere mortals, nonetheless is a worthier object of pursuit than the ever-elusive line of demarcation between opinion and truth that completely seems to absorb the philosopher since at least Plato.
Bruno Bosteels, from here.

terça-feira, 1 de novembro de 2011

Biografia - Schopenhauer

Nunca fui muito fã de biografias, por puro preconceito. Todas as que eu li, ou as que eu lembro ter lido, foram boas.  Sempre imaginei que a vida da pessoa não mostrava nada do que ele – ou ela – escreveu, produziu, criou. Claro que há um espelhamento aí, mas há tanta reflexão entre a vida e a obra final, que a vida pode simplesmente ser desimportante para analisar a obra em si. Ou seja, é possível até enxergar a vida desse criador na obra, mas ela é indiferente para a sua interpretação.

Também, talvez pelo mesmo motivo, sempre não gostei do que eu apelidei de literatura de personagem – em contraposição à de trama. A de personagem geralmente é centrada em um protagonista central, e narra a vida – toda ou um trecho – dessa pessoa. A de trama é focada na ação, ou no que está acontecendo. Novamente, voltamos a discussão sobre chatice, mas em outro formato. Geralmente, a de personagem é “psicológica”, interior – o que não é, para mim, em princípio, um problema. Porém, como regra, os autores tendem a valorizar os sentimentos sofríveis e/ou de sofrimento, em vez de mostrar raciocínios intrincados, ou mesmo humor. Por exemplo, Machado de Assis só narra por meio de seu “autor-defunto”, ou melhor, “defunto-autor” as “Memórias póstumas...”, mas nem por isso torna o ritmo mais lento. Ritmo, alguns livros carecem de ritmo. Ou melhor, tocam um ritmo que não me agrada – para continuar na metáfora musical, que, acho, funciona bem aqui. Assim como não gosto de samba de fossa, não gosto de gente que sente pena de si mesmo, ou uma narração enorme que mostra como certo personagem sofreu horrores porque matou uma mulher que considerava cruel. Não falemos mais mal dos russos, por favor, antes que tenhamos um problema diplomático.

Hum, acabei de me lembrar de um caso exemplar em relação às biografias. Dois títulos de um mesmo autor, brasileiro, erudito, conhecido, sucesso, que  tiveram recepções bem diferentes por mim – e eu imagino o porquê: “O anjo pornográfico” e “Estrela solitária”, ambos do Ruy Castro. A pesquisa de ambos é impecável – e se não fosse, pouco me importaria, já que eu não estou procurando a verdade quando leio uma biografia, mas uma verdade – e a escrita, incrível, como se lêssemos um romance, como se Nelson Rodrigues ou o Mané fossem invenções da cabeça de Ruy – curiosamente, também li a única obra de ficção dele, “Olhai estrelas”, que peca pelo vício da grande pesquisa, atravancando a narração. Todavia, acho o “... anjo...” uma obra-prima, que serviu para me tornar fã de Nelson Rodrigues, enquanto o sobre o pernas-tortas me distanciou do jogador. São vidas diferentes a ponto de as suas particularidades terem influenciado no meu julgamento? Sim e não.

No “...anjo...”, Ruy, além de descrever a trágica vida de Nelson, que sozinho daria um romance bem dramático, também não se furta a tecer seus comentários sobre as obras rodrigueanas. Ele mesmo diz que não é um Sábato Magaldi, mas que iria se permitir um hábito que os jornalistas – por medo, por descostume, por precaução – evitam: opinar. Assim, você tem uma primeira visão crítica da obra de Nelson, um apanhado, não tão profundo, mas jamais raso, de cada uma das peças e livros que o dramaturgo, que dizia que era necessário sorte até para chupar um chicabon, escreveu. Há uma vivência desse lado “alto” da vida Nelson com intensidade, sabemos de seus sucessos e, até nos seus fracassos, percebemos um gênio – no sentido de produtor – criativo atuando. Mesmo quando Castro fala sobre as peças mais açucaradas, os contos mais bobos, mesmo assim, percebemos alguém produzindo, agindo, saindo do lugar. Quando chega a velhice e a sequência de problemas – de ordem moral [o que podemos desprezar um pouco] e de saúde –, já estamos descendo a ladeira, já passamos pelo ápice da obra, e estamos esperando apenas o livro voltar ao início, ao chão, à planície. Como se os problemas não tivessem ocupado um espaço [temporal] grande na biografia [com duplo sentido] de Nelson.

Já a sobre Garrincha, talvez por respeitar o mesmo procedimento cronológico - comum a inúmeras biografias, mas não uma regra intransponível -, mostra pouco do homem que foi apelidado a alegria do povo e bastante sobre o seu fim lastimável. Fica-se com a impressão, ao final, de que o jogador quase não existiu, de que ele passou semidespercebido pela vida, que ele teve uma importância apenas mediana, ao se comparar o espaço dado ao sofrimento que foi o término da sua vida. Aquele Garrincha que aparece nas imagens driblando os zagueiros, com o seu jogo de corpo, indo e voltando, perdeu o viço, acabou escurecido e se transformando numa sombra do homem que era internado, dia sim, dia não, no hospital por conta da bebida. Nem a sugestão de justificativa que Castro faz sobre a razão do alcoolismo de Garrincha – que ele teria sido viciado ainda criança, num costume bizarro [para nossos olhos “civilizados”] dos seus pais de dar bebida para os filhos – melhora a vida dele. No fim, em vez de um ídolo humanizado, ele se torna um coitado, alguém que não merece outro sentimento além da pena.

Castro deveria ter omitido as “derrotas” de Garrincha? Jamais. Aliás, não sei exatamente o que fazer – ou como resolver esse problema. Estou apenas descrevendo o sentimento que duas obras de um mesmo autor, sobre personagens diferentes me trazem. Isso porque queria falar sobre uma outra biografia, que também ultrapassa o simples narrar de fatos, para fazer uma interpretação, ou um releitura, ou um comentário sobre a obra do biografado. Chama-se “Schopenhauer – e os anos mais selvagens da filosofia” – num subtítulo estranho – de um alemão, que já havia escrito livros sobre Nietzsche e Heidegger, chamado Rüdiger Safranski.

Antes, acho interessante – hum, não – necessário – hum, talvez – importante – hum, só se for no sentido de contextualização – explicar o que, ou quem representa Schopenhauer na minha vida. Meu pai morreu quando eu era pequeno – tinha 11 anos. Não tive muito contato com ele, não me lembro bem de sua fisionomia, e o que eu lembro dele é uma gargalhada que não combina bem com o que dizem dele para mim – sempre descrito como um homem taciturno, que jamais dava um sorriso para um desconhecido e que era rígido ao extremo. O fim de sua vida foi, como todo fim de vida, dramático e cheio de significados para todos da família, inclusive para mim – mas não é o caso de escrever sobre isso, ou, pelo menos, não agora.

O fato é que, assim que ele morreu – odiava essa palavra, porque era banal;  gostava de relacionar a morte do meu pai com a palavra “falecer”, que, para mim, parecia mais nobre; era meu pai, não? Merecia toda a nobreza, a exclusividade, o sentimento de ser o único do mundo – assim que ele morreu, passamos pelo processo doloroso e comum a todas as mortes de ter que nos desfazer das suas coisas. Mesmo pequeno, era bastante “adulto” para a minha idade e minha mãe me deixou ajudá-la com os procedimentos mais simples – e menos emotivos. Como, por exemplo, esvaziar as caixas e malas em que ele guardava papéis velhos. Documentos antigos sem valor, papéis do seu trabalho que já tinham caducado, maços de desimportância generalizada. Em uma das maletas, encontrei uma surpresa, porém, que, posso dizer, hoje, depois de anos, moldou um pouco a minha vida. Ou muito. Fez ser o que eu sou, hoje. Trabalhar onde trabalho, ter estudado o que eu estudei, escrever o que eu escrevo. Iniciou um caminho de onde não saí mais. Encontrei recortes de jornal com inúmeras crônicas e desenhos do Luis Fernando Verissimo.  Pode parecer bobo, sem importância, reles, mas aqueles pequenos textos, recheados de – humor [sempre] e – inteligência foram um tipo de substituto para o meu pai. Talvez ele não me desse todos os conselhos que eu buscaria com o meu pai, mas saber como ele pensava, como se comportava, como ele criava os filhos, me dava um parâmetro para eu me apoiar e saber para onde estava indo. Claro que não fiquei apenas nos recortes. Assim que tive idade e dinheiro, comprei tudo o que encontrei do autor gaúcho filho de um dos nossos ícones literários. Mesmo sem tê-lo conhecido, e o tendo visto pouquíssimas vezes, eu o sinto como um pai para mim, alguém que estaria ali quando eu precisasse.

Verissimo, por sua vez, também tinha os seus ícones e, por meio de uma de suas obras, encontrei o meu “avô”, digamos assim: Jorge Luis Borges [se eu tivesse um filho, ele se chamaria “Luis”]. Foi em uma obra com título meio bobo [“Borges e os orangotangos eternos”] e em uma crônica maior que o normal chamada “Borgeanas” que “ouvi” pela primeira vez o nome desse argentino de Buenos Aires – não é coincidência que a minha primeira viagem internacional tenha sido para a Argentina. Num ímpeto de coragem, e sem-noçãozismo, antes de ler qualquer coisa dele, comprei o primeiro volume de suas obras completas. Penei para passar pelos primeiros livros de poesia, sofri na obra sobre “Evaristo Carriego”, mas esse caminho me preparou para o ápice, que começaria em “Ficções”, logo após “História universal da infâmia”. Borges me confirmou a trilha de Verissimo, me embaçou as fronteiras entre o vivido e o lido, entre a arte e a realidade, entre a verdade e as verdades. Criou uma literatura que era, ao mesmo tempo, interrogativa e filosófica. Era um jogo que nós aceitávamos participar ao ler a primeira linha e que nos puxava como um elástico até o fim, mesmo que passássemos sem absorver tudo. Porque reler Borges era ainda melhor que lê-lo. Já perdi as contas de quantas vezes passei pelas suas “Ficções” e pelo seu “Aleph”, além de inúmeros dos seus outros textos [pensei em escrever “não-ficcionais”, mas achei que seria uma injustiça]. E foi Borges quem, seguindo essa tradição familiar, me apresentou meu bisavô, com uma frase em que dizia que ele, meu “bisavô”, talvez, tenha explicado o mundo: Arthur Schopenhauer.

Por ser uma leitura mais complexa – tanto no sentido de ser mais difícil de ser encontrada, quanto na ausência de proposta de entretenimento – tenho que dizer que, de toda a minha família, sou / estou menos familiarizada com “bivô” Schopenhauer. Daí a vontade de ler essa biografia que, como já disse, vai além de narrar os episódios da vida do alemão que nasceu em uma cidade que hoje fica na Polônia, mas que quase veio ao mundo na Inglaterra. Fiz umas anotações em determinado momento dessa sua biografia, que vou reproduzir abaixo. Já peço desculpas adiantadas se se tornar deveras chato:
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Rüdiger Safranski , além de lembrar a ligação de Schopenhauer com o brahmanismo [ele chega a fazer uma piada citando “O mundo como Brahma e Maya”, fazendo referência à obra principal do alemão “O mundo como Vontade e Representação”], sugere que o sistema schopenhaureano não tinha como intenção “explicar” um sistema filosófico novo, mas compreendê-lo. Explicar, como Safranski mesmo diz com outras palavras, envolveria a “representação” da “representação”, ou em outros termos, a cristalização dos conceitos, a transformação do sentimento em um código que pode ser identificado por outros. Já compreender/entender, é sentir. É trazer esse raciocínio, repeti-lo e tentar fazer com que cada pessoa o vivencie, já que a vontade é única, pessoal, mas comum a todas as pessoas.
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“A vontade é um impulso primário e vital e um movimento que pode tomar consciência de si mesmo somente em um caso limite; e só então a consciência assume um alvo, um propósito ou um objetivo”. [375]
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“Spinoza disse que uma pedra movida por um impulso qualquer, caso dispusesse de consciência, acreditaria que se movia por sua própria vontade. Pois aqui eu acrescento que essa pedra teria razão” – Schopenhauer, tirado da página 376.

E novamente voltamos a Spinoza o filósofo que parece sobreviver ao tempo praticamente incólume – ou que na média sai na vantagem – ou que foi citado tanto por Schopenhauer como Nietzsche [marginais da tradição filosófica].

Se Schopenhauer comparava a sua “Vontade” com o conceito de Brahma, em que seria o ponto central [não-geográfico] do nosso ser, naquele momento em que não somos representação, e nesse sentido, seríamos iguais a todos, como pequenos retalhos de uma grande e única colcha de retalhos, Spinoza dizia que tudo fazia parte da mesma essência, ou Deus, ou natureza.
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“A vontade, que se encontra na base de tudo, não é absolutamente um espírito em processo de autorrealização, porém um impulso cego incessante, sem meta e devorador de si mesmo, sem deixar transparecer através de si nenhum impulso diretor, nenhum pensamento deliberado, sem sequer apresentar o menor sentido.” [379]
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Melhor consciência – negação da vontade. Para Rüdiger Safranski, as duas ideias são a mesma, apenas com nomes diferentes. Porém, essas alcunhas não deixam de passar um certo raciocínio que não pode deixar de ser levado em conta. A “melhor consciência” nasce da época em que Arthur faz grandes caminhadas a montanhas – ela é o resultado de uma mente livre e desapegada. Parece a conclusão de um processo, enquanto a “negação da vontade” é o caminho a ser trilhado. Como se somente por meio da “negação da vontade” – no sentido dado por Schopenhauer – se pudesse alcançar a “melhor consciência”.
Isso é apenas uma suposição. De qualquer maneira, há uma ligação direta com Nietzsche quando ele diz que Schopenhauer era um pessimista por negar essa força – ou potência, em suas palavras – que sua vontade lhe proporcionava. Há aí um racha entre os dois filósofos. Ambos identificam a Vontade e a sua força /potência – mas um a nega enquanto o outro a afirma.
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Outro fato que separa Nietzsche e Schopenhauer é a crença-sugestão deste na Vontade como aquilo que existe além das representações, o que pode ser interpretado como uma espécie de “essência”. Nietzsche, por sua vez, jamais aceitaria que existe algo além das “aparências” [seria a sua “representação”?], desdenhando do conceito “ideal” platônico, que, numa interpretação poética, veio a dar na coisa-em-si kantiana.
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Para Schopenhauer, a Vontade cumpria, ao menos, duas funções: uma de caráter “essencial”, de essência; outro de “impulsividade”, de força. A primeira, Nietzsche desdenha, a segunda, abraça.
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Um segundo problema encontrado no sistema schopenhaureano mostra que todas as vontades dos seres são a mesma vontade – como o conceito poético brahmânico. Mas além de fazer refência ao Brahmanismo, e à coisa-em-si kantiana, não está claro o motivo dessa igualdade. Por que não se poderia ter vontades individuais, singulares? Ou o simples fato de cada um dos elementos possuir esse elemento impulsivo-seminal já é possível para torná-los, em algum grau, iguais?
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Schopenhauer dá exemplos de como as coisas, abandonadas, são impelidas a fazerem o que elas fariam “normal” e “naturalmente”, para demonstrar que as vontades seriam essas “vontades de viver” – sendo tautológico [ele mesmo admite o problema]. E aí a crítica de Nietzsche faz sentido: por que negar essa vontade? Por que negar a vontade de viver?
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Ainda não terminei de ler a biografia, mas o melhor momento para se escrever sobre um livro é no meio dele, em seu ápice, na parte que sua energia criativa está no auge e que não sobra tempo para você pensar sobre outra coisa. 

quarta-feira, 15 de junho de 2011

Vinte e cinco anos sem Borges


BORGES, JOSÉ FRANCISCO ISIDORO LUIS: Autor y autodidacta, nacido en la ciudad de Buenos Aires, a la sazón capital de la Argentina, en 1899. La fecha de su muerte se ignora, ya que los periódicos, género literario de la época, desaparecieron durante los magnos conflictos que los historiadores locales ahora compendían. Su padre era profesor de psicología. Fue hermano de Norah Borges (q. v.). Sus preferencias fueron la literatura, la filosofía y la ética. Prueba de lo primero es lo que nos ha llegado de su labor, que sin embargo deja entrever ciertas incurables limitaciones. Por ejemplo, no acabó nunca de gustar de las letras hispánicas, pese al hábito de Quevedo. Fue partidario de la tesis de su amigo Luis Rosales, que argüía que el autor de los inexplicables Trabajos de Persiles y Segismunda no pudo haber escrito el Quijote. Esta novela, por lo demás, fue una de las pocas que merecieron la indulgencia de Borges; otras fueron las de Voltaire, las de Stevenson, las de Conrad y las de Eça de Queiroz. Se complacía en los cuentos, rasgo que no recuerda el fallo de Poe, “There is no such thing as a long poem”, que confirman los usos de la poesía de ciertas naciones orientales. En lo que se refiere a la metafísica, bástenos recordar cierta Clave de Baruch Spinoza, 1975. Dictó cátedras en las universidades de Buenos Aires, de Texas y de Harvard, sin otro título oficial que un vago bachillerato ginebrino que la crítica sigue pesquisando. Fue doctor honoris causa de Cuyo y de Oxford. Una tradición repite que en los exámenes no formuló jamás una pregunta y que invitaba a los alumnos a elegir y considerar un aspecto cualquiera del tema. No exigía fecha, alegando que él mismo las ignoraba. Abominaba de la bibliografía, que aleja de las fuentes al estudiante.
“Le agradaba pertenecer a la burguesía, atestiguada por su nombre. La plebe y la aristocracia, devotas del dinero, del juego, de los deportes, del nacionalismo, del éxito y de la publicidad, le parecían casi idénticas. Hacia 1960 se afilió al Partido Conservador, por que (decía) ‘es indudablemente el único que no puede suscitar fanatismos’. “El renombre de que Borges gozó durante su vida, documentado por un cúmulo de monografías y de polémicas, no deja de asombrarnos ahora. Nos consta que el primer asombrado fue él y que siempre temió que lo declararan un impostor o un chapucero o una singular mezcla de ambos. Indagaremos las razones de ese renombre, que hoy nos resulta misterioso…

O Ariel Palacios fez um apanhado de várias histórias e causos sobre Borges, no dia em que se lembra os 25 anos de sua morte. Gostei de várias partes, mas essa parte da enciclopédia é ótima: é autobiográfica, apócrifa e contém erros [como o próprio nome], cheios de ironia. Porque ele poderia ser o inventor da "literatura ao quadrado", como se referiu a ele Ítalo Calvino, mas jamais deixou de perder o humor. O melhor ingrediente que a literatura pode ter.

quarta-feira, 27 de outubro de 2010

Desconstruindo mitos

- É muito interessante, para mim, quando revejo filmes que me marcaram há dez, 11 anos, como é o caso de "Desconstruindo Harry", e percebo que consigo reconhecer os motivos pelos quais gostei do longa, além de ter a grande satisfação que ainda gosto dele, mas agora por outros motivos. Foi como se olhasse para uma paixão adolescente e, mesmo sem a paixão, conseguisse ver o quanto foi - e é - importante para mim. Foi emocionante.

- Borges dizia que, no início de sua carreira literária, ele se aliou ao ultraísmo porque queria parecer antenado com o seu tempo de tantos ismos e necessidades de vanguarda. Dizia ele que tentava ser moderno porque havia se esquecido que era impossível não pertencer ao seu próprio tempo. De maneira inversa - exatamente porque gosto muito de Borges - tentei me isolar de meu tempo e espaço, para, primeiro, fugir à sina que ele tanto imaginava como impossível de se escapar, segundo porque queria imitá-lo, porque na minha interpretação mais primária, não via o quanto o século xx de Buenos Aires estava em todas as suas criações.

sábado, 14 de agosto de 2010

Filosofia parcial

Desde que li em um desses três livros que a Hedras publicou com diálogos de Borges que o escritor argentino tinha um livro preferido, comecei a correr atrás dele. [Ou será que estou inventando essa informação? Mas o que importa a verdade, nesse caso? O fato é que, fiquei atrás de um livro que foi citado por Borges.]

O livro, ou melhor, os livros, porque são quatro tomos, são "A história da filosofia ocidental", de Bertrand Russel. Consegui comprá-los num sebo em Botafogo, por um preço que, aparentemente, se mostrou uma pechincha.

Bem à maneira borgeana, "A história..." é uma espécie de enciclopédia que, por mais de 400 páginas, passeia na história do pensamento do lado de cá do planeta. Só que, também à maneira de Borges, o autor, um dos principais filósofos da virada do século xix para o xx, antecessor de Wittgenstein, é um escritor que coloca bastante de suas convicções no texto. A primeira pessoa, diferentemente de um tratado de história tradicional, aparece sem problemas em vários momentos. Comparações esdrúxulas e encontros improbabilíssimos acontecem comumente.

Como por exemplo no verbete sobre Nietzsche, de quem Russel tem sérias e profundas desavenças. Para demonstrar a [a seu ver] completa insensibilidade do filósofo alemão para com o ser humano, ele imagina um embate entre Nietzsche e Buda (!) diante de Deus (!!), com direito a um diálogo (!!!).

Independentemente do resultado ou da ideologia envolvida, o texto é bom e a quantidade de conhecimento distribuída, imensa. No fundo é melhor ser claro sobre suas crenças que falseá-las debaixo de uma pretensa e mentirosa imparcialidade.

No fundo, Russel estava apenas confirmando a tese borgeana, de maneira inversa, de que a metafísica é apenas um dos ramos da literatura fantástica. No caso de Russel, toda a filosofia é apenas uma das formas da literatura. E vice-versa: toda a literatura é uma das formas da filosofia.

segunda-feira, 1 de março de 2010

Verissimo e o exílio

Há muito tempo não lia uma coluna do Verissimo tão boa. Une cultura, história e ironia - suas melhores ferramentas - em doses alopáticas. Trechinhos:

Para começar, (Bechet) tocava saxofone soprano, um instrumento raro no jazz ainda hoje. (Por favor, se você lembrou do Kenny G, pare de ler imediatamente.)
(...)

Muitos exilados em Paris eram isso, combatentes longe da ação. Viviam no centro do mundo com a sensação de que sua vida devia estar acontecendo em outro lugar. O próprio Bechet se livrou da síndrome porque era tão vaidoso, dizem, que achava que era, pessoalmente, o centro do mundo.

(...)

Em Paris há uma academia de música russa cujo refeitório é aberto ao público. Comida previsível - o estrogonofe, fica-se sabendo, não foi uma invenção de anfitriãs brasileiras nos anos 50, é russo mesmo - mas boa e barata.

(...)

O exílio foi o fato intelectual do século 20, provocou ou inspirou os artistas que não diminuiu. Mas ô século desgraçado.
Verissimo, ele mesmo, foi um exilado, de certa forma. Não me estranha que no hall de seus escritores favoritos estejam Borges, Nabokov e Conrad.

domingo, 18 de julho de 2004

A Máquina Fantástica

A história desse livro ("A Invenção de Morel" no original - título com muito mais significância que esse genérico e ridículo dado para essa edição), de como ele veio parar na minha mão serve bem de introdução ao próprio livro. Sugerirei informações soltas: junte-as e tire suas próprias conclusões.
 
a) Queria comprar um presente para meu camarada e vizinho Edu.
 
b) Sabia da existência de um bom sebo na Buarque de Macedo, no Catete, onde poderia encontrar livros até de Borges (é dificílimo encontrar qualquer velharia deste argentino).
 
c) Tinha me programado para almoçar num rodízio de crepes por dez e noventa, na marquês de Abrantes (o nome do lugar é Abrantes, simplesmente), mas só serviam (inexplicavelmente) após às 15 horas. Eram 14 ainda.
 
d) achei esse "máquina fantástica", junto com o "livro dos sonhos" de Borges (e vários de Cortázar, do próprio Bioy Casares...). O preço de capa de ambos era 27, pedi para baixar para 25, e o cara me responde: "25? essas velharias? Não, no máximo 20".
 
e) Escrevi uma dedicatória para o Edu, já pedindo-o emprestado, já que me parecia um ótimo livro. (Ainda não sabia que este era La Invención...)
 
f) Li o prólogo de Borges.
 
g) Fiquei para mim.
 
Continua no próximo post. Acima, claro.
 
em tempo, comprei um outro livro para o Edu, de autor desconhecido e iugoslavo, que dizia, na apresentação: "aqueles que leram esse livro, há alguns séculos atrás, morreram todos...". Achei perfeito como presente de aniversário.