Mostrando postagens com marcador viagem. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador viagem. Mostrar todas as postagens

quarta-feira, 4 de março de 2015

Para lá e para cá de Marrakesh

Andar pelas ruas da Medina de Marrakesh assusta às primeiras passadas de um turista acostumado com a organização das cidades europeias contemporâneas. A melhor e a mais simples definição é a de um labirinto, "maze" em inglês, que faz lembrar a origem da palavra "amazing". Um espanto. São ruelas, e ruelíssimas, que levam a lugar nenhum, ou a casas de pessoas que vivem suas vidas como viviam seus antepassados há dezenas de dezenas de anos. São pequenas vias onde passam burros, motonetas e até carros de pequeno porte. Onde os verdureiros dividem espaço com o senhor que só fala berber e vende arruda e alecrim murchos que parecem ter sido colhidos há dias em sua própria horta. São lojinhas de quinquilharias em que os atendentes não lembravam como se chamava fósforo em francês. Vendinhas de frutas onde pode-se encontrar uma criança de 9, 10 anos carregando uma faca com um papelão fazendo as vezes de punho, para cortar um cacho de bananas que será devida ou indevidamente, não se sabe, pesado numa balança antiga que ele mesmo segura. E há os souks, os mercados intrincados, em zigue-zague, com vários boxes, onde se encontra todos os produtos tradicionais do norte da África: chá, temperos, tecidos, couro, artesanatos, pinturas, açougue, etc. Perder-se na Medina é uma regra e, após o costume, uma regra bem-vinda.

A Medina é como um bairro histórico, preservada à maneira marroquina, dentro da grande cidade que é Marrakesh. Do lado de fora dos seus muros, parece uma urbe qualquer. Ocidentalizada, europeizada, americanizada. A Globalização é uma troca desigual de forças. Sair da Medina faz lembrar "A vila", o filme de Shyamalan. Pulamos alguns séculos de um instante para o outro.

Essa região cresceu em volta da Jemaa el-Fna, a praça central que por séculos reúne todo o tipo de gente do Marrocos e além. Sempre um lugar de concentração. O coração da cidade. No final do século XIX, parece, tentaram transformar o lugar para um estacionamento. Não deu certo e as pessoas continuaram a frequentá-la. De dia, vendedores de suco de laranja, frutas secas, encantadores de serpentes, malabaristas, videntes, poetas e contadores de história que repetem os relatos ouvidos há gerações. De noite, restaurantes que vendem os tradicionais tajine e cuscuz, mas também frituras de frutos do mar, espetos de todos os animais, cabeças inteiras de novilho - onde as famílias marroquinas se reúnem nos fins de semana para apreciar a iguaria, como se num estrela Michelin, e quase ninguém fala francês (uma exceção no lugar em que quase todos os atendentes conseguem arranhar ao menos algumas palavras em muitas línguas).

O preparo da cabeça do novilho, à vista de todos, é de espantar. Coloca-se inteira dentro de um panelão, onde será cozido, num caldo feito com os ossos de outras cabeças e especiarias. Após, corta-se ao meio, em sentido meridional, arranca o couro, e se retira todas as carnes moles: bochecha, língua, cérebro. Corta-se até o triturar e joga-se tudo dentro de uma panela com um caldo para refogar. Na versão "mixture", come-se com pão e sem talheres. Aconselha-se estar com a mão, direita, limpa. O guardanapo parece os papéis de refugo dos jornais que cobrem mesas dos bares mais tradicionais do Rio. Espalha em vez de absorver a gordura. O prato não surpreende: é excepcional.

Marrakesh é a última cidade importante do Marrocos (é uma das cidades imperiais) antes da chegada ao Saara. Para lá de Marrakesh, o deserto-mor. Para lá de Marrakesh, a África negra, o coração das trevas. Os europeus, pode-se suspeitar, tinham receio de ultrapassar essa fronteira - mais um motivo para nos espantarmos com a coragem dos portugueses, que iniciaram a circunavegação da África nos primórdios do século XV, quase como uma continuação das guerras de reconquistas. Parece que se empolgaram.

Andar por esses becos e travessas é uma afronta ao pensamento único ocidental. Tão próximos da Europa, e ao mesmo tempo tão distantes. As ruas tortuosas que funcionam de um jeito menos organizado se os mirarmos pelos nossos olhos cartesianos, limpinhos e assépticos, são metáforas imperfeitas, como todas as metáforas. Lembram favelas. Lembram a área de Londres anterior ao incêndio de 1666, o que faz pensar o quanto esse grande fogo não teria sido proposital para fazer uma "higiene social". Lembram um mundo antes das revoluções, principalmente antes da revolução científica, que tudo calcula, tudo metrifica. É uma organização orgânica, que cresce à medida que a necessidade exige. Não há planejamento. Há sobrevivência. Há uma inteligência que se pode encontrar, em menor ou maior grau, em lugares pobres: ginga, malandragem, balanço. Um raciocínio mais intuitivo, mais ligado à corporalidade.

Isso não quer dizer que a Medina de Marrakesh é o melhor lugar para se morar - porque não é. Nem próximo. É, isso sim, um desafio a uma imposição de se comportar, e pensar, de uma única e exclusiva maneira ao redor de todo o globo. É um grito para dizer que não devemos seguir as mesmas regras, que não devemos respeitar o mesmo tempo, que o Ocidente, a Europa, os EUA não dão conta - nunca deram - de todo o mundo. É a tentativa de mostrar que outras formas de viver são mais que possíveis, são necessárias.

O projeto hegemônico ocidental-europeu-norte-americano chegou, ou, ao menos, deveria ter chegado, ao seu fim.

segunda-feira, 3 de junho de 2013

Istanbul right now

They came from all different backgrounds, different ideologies, different religions. They all gathered to prevent the demolition of something bigger than the park:
The right to live as honorable citizens of this country.
More here about what is happening in Istanbul right now. And here. And here.

quinta-feira, 27 de outubro de 2011

Westvleteren 12

Todo ramo do conhecimento tem seus ícones. Entre as cervejas, é a Westvleteren 12.

Imagine uma cerveja que sempre é eleita nos sites de votação popular na internet como a melhor cerveja e, mesmo assim, - ou por causa disso - é complicadíssima de ser encontrada. "Por causa disso", na frase anterior, tem dois sentidos. O primeiro, óbvio, é: se é a melhor cerveja do mundo, será bastante procurada, logo, difícil de ser encontrada, por ser escassa. Entretanto, há também o caso de, por ser difícil encontrá-la - como é o caso da Westvleteren 12, por motivos que serão explicados mais à frente - quem a toma, tende a valorizá-la acima das demais.

A Westvleteren 12 é uma das sete trapistas - o que, por si só, já lhe traz uma certa aura de exclusividade. A única, porém, que não é vendida em larga escala. Os monges que a produzem já disseram que "we make the beer to live but we do not live for beer". Eles restringem a produção a pouquíssimas [comparativamente] garrafas por ano e fazem os compradores assinar um termo impedindo que as garrafas compradas - só podem ser adquiridas no máximo uma caixa com 24 a cada mês, por pessoa - sejam revendidas. Como são católicos, não visam o lucro e essas garrafas são comercializadas com preços incrivelmente baixos, para qualquer tamanho de cervejaria. Como vivem num mundo que ignora regras, essas mesmas garrafas que saem por um pouco mais de 2 euros lá na abadia, chegam ao Brasil por mais de R$ 100. Na Bélgica, é complicadíssimo encontrá-las fora de Westvleteren. Não impossível.

Desistimos de ir para a cidade de Vleteren, onde ficam os monges, porque o aluguel do carro era caríssimo - algo como três vezes mais que foi alugar um carro em Oxford. Além disso, tínhamos apenas um dia, que já estava tarde na hora que decidimos sair, para ir à abadia, porque os monges fechariam as portas para o descanso de domingo. Por fim, não tínhamos reservado nossa cota e só teríamos acesso a uma porção menor vendida do lado de fora, na lojinha - uma porção extra, feita apenas com o intuito de reformar o monastério. Não deu.

A partir de então, buscamos em todos os lugares que visitávamos - Bruxelas, Bruges, Antuérpia - o santo graal das cervejas.

Em Bruxelas, em um bar que dizia ter centenas de cervejas belgas, conseguimos comprar garrafinhas da Blonde e da 8 - mas nada de 12. Mesmo a 8, compramos as últimas unidades. Cada garrafa, a 9 euros. Em nenhum outro lugar, de Bruxelas a Bruges, encontrávamos a 12. Em Bruges, ainda fomos numa espécie de museu da cerveja, que dizia ter todas as cervejas belgas existentes em exposição, e ainda diversas para vender - mas nada de 12, o ápice.

Na Antuérpia, já tínhamos desistido de procurá-la, me contentando com uma futura visita a Westvleteren para, aí sim, comprar a caixa com tudo o que tem direito. Eis que entramos numa loja pequena, com o intuito único de comprar uma garrafa de Mongozo - a cerveja que tem gosto de leite de coco - e, para comprovar como era complicado encontrar a Westvleteren, perguntamos por ela. A atendente, uma garota de olhos puxados, se abaixou atrás do balcão, como se fosse num lugar não exposto, escondido, reservado para produtos proibidos e se levantou com diversas. Ecce homo. Estava ali, diante da gente, a 9 euros novamente. Compramos. Agora acho que não vamos para o céu.

Trouxe para casa para ter a experiência completa, com um copo digno, em um dia especial. Dizem que quanto mais tempo você a deixa na garrafa, mais ela fica gostosa. A ver. Ou melhor, a provar.