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segunda-feira, 11 de março de 2013

Madame Artois

"[...] Stella was the one with the reputation for quality and worth in the UK which the others could only dream of. Because of its consistency, if was seen as the most genuine brand, exactly what new premium draught lager drinker was looking for." [page 327.]

"At the dawn of the new millennium Stella was in double digit growth and was having its cake, eating it, and keeping the money it bought the cake with into the bargain. It was seen as a discerning, individualistic choice by millions of drinker, each of whom thought they were being classier than the other millions around them who were drinking exactly the same thing. It walked a brilliant tightrope between ubiquity and specialness. And then it fell off, headfirst, into a particularly deep and smelly pool of ubiquity.

"The bran's owners, Interbrew, went on a global buying spree and became Inbev, a massive brewing conglomerate that was desperate for cash and thought this would be an excellent time to star cutting costs on the brand. The recipe was cut with maize, a cheaper grain than barley, which produces less flavour, and what had once been seen as a challenging, full-flavoured beer became strong, but bland. By 2008, this 'quality' lager had either watered down or completely thrown out every single one of the product or the process points discussed in a beautifully written 1980s press ad about what made it so special. The ABV was reduced. The beautiful embossed can was replaced by a bog-standard can. The supermarket bottle quietly shrunk in size. And the supermarket price war became frenzied. Inbev would later protest that other brands were price cutting way more than Stella did, which was true - but not one of those other brands had built their popularity on the back of a long-running 'Reassuringly Expensive' message.

"Stella's higher alcohol strength, coupled with its ubiquity, started to earn it the unpleasant nickname 'wifebeater', and it became seen as the drink of choice by people who wearing as much Burberry tartan as possible was a really good idea. Double-digit growth promptly flipped into equally dizzying decline. New variants were launched and quickly withdrawn. The advertising stopped being subtle and rewarding in favour of simple and browbeating. In a final attempt to shake Stella's headbanging image, Inbev launched a 4 per cent version - a curious move given that they had also just  launched a 4 per cent version of Becks [which by now had, bizarrely, more flavour than the full 5 per cent Stella] and used the success of the lower strength version to mask the continuing decline of its once-great parent. At the time of writing, Stella's owners have announced brewery closures and swingeing job cuts, claiming no one is drinking beer any more.

"Stella is still market leader in premium lager, but where lager itself had once seemed cool and stylish, it increasingly became dull, bland and commoditised." [page 340, BROWN, Pete, Man walks into a pub, Essex: Pan Books, 2004]

segunda-feira, 17 de dezembro de 2012

Cervejochatos

Parece que é oficial: estamos vivendo entre cervejochatos, também conhecidos como cervochatos. Em comum, como pode-se perceber, a chatice. E o ar pernóstico, de quem sabe mais que os outros e quer enfiar esse saber garganta à dentro dos pobres mortais que apenas querem tomar uma cervejinha no fim do dia.

Cláudia Amorim explica:
... o site americano www.beerandwhiskeybros.com listou “os dez mandamentos da beerchatice”. Estão catalogados ali comportamentos como não aceitar beber uma cerveja se não for servida no copo correto. Ou metáforas como insistir em permanecer num quarto escuro, sozinho, na hora de degustar uma nova cerveja especial. Pior: o cervochato, segundo a tábua dos mandamentos, dá opinião onde não é chamado, inclusive no supermercado — isso quando não critica as escolhas feitas pelo comprador ao lado. Nesse inventário, sobra para os amigos: não adianta o camarada levar umas cervejinhas para a casa desse ser exigente tentando ser simpático, pois o cervochato só serve aqueles exemplares que passaram por sua seleção superior. Outro tipo de comportamento — mas desta vez comum a chatos de todas as áreas, de samba até literatura, passando por cinema e o que mais houver — é o do beer snob, que faz exibicionismo de conhecimento, inclusive com citações em alemão.
Edu Passarelli completa:
Existem também as variações digitais dos cervejochatos. Eles passam o dia em redes sociais, comentando os passos de pessoas do meio cervejeiro ou analisando lançamentos e postando suas fotos, principalmente daquelas cervejas que causam inveja ao bebedor mais comum. Frequentam fóruns, mantêm blogs e, por trás dos teclados, são valentes como poucos.
É sempre útil repetir que a
Westvleteren, a cerveja mais
incrível do mundo, nem tem rótulo
Agora, temos que fazer uma distinção bem clara. Ser chato não é uma característica associada à cerveja, ou ao vinho, mas ao fulano que o toma - sempre. Existem chatos abstêmios, e eu nunca vi uma cerveja chata - no máximo, choca. Portanto, afirmar que todo mundo que bebe cerveja de verdade é um cervechato cai na categoria das generalizações simplistas que, vez por outra, encontramos geralmente feita pelos sujeitos mais preconceituosos e de mente mais rasa. Pode acontecer com música, time de futebol, partido político, religião e todo grupo que envolve emoções à flor da pele.

Na minha opinião de muito envolvido no assunto, não é o cara que quer tomar apenas cervejas de verdade que é um chato. Cada um tem todo o direito de consumir o que quiser, do lixo ao luxo. Para identificar um desses cevejochatos, sugiro procurar por proselitismo. Ou quem não se aguenta com tanta cultura, tanta informação e diminui os demais por não serem iguais a ele.

A esses, seria bom lembrar que grande parte da cultura cerveja se deve aos monges, muitos deles bem humildes. Para esses religiosos, a vaidade é um pecado capetal.

domingo, 28 de outubro de 2012

As cervejas de trigo, e de outros cereais

Costumo dizer, por minha pequeníssima experiência acumulada, que a primeira cerveja que as pessoas tomam, a primeira cerveja verdadeira, mesmo, aqui, no Brasil, é uma Weiss. Geralmente, era uma Paulaner ou uma Erdinger, as alemães, já que associamos mais facilmente a cultura alemã com o costume de beber cerveja. Hoje em dia, até já vi tomando similares de nível alto, mas brasileiras. Mas é curioso a opção por essa cerveja.

A brauerei [cervejaria] da Paulaner
Uma outra razão para essa opção, a meu ver, é o fato de as outras duas grandes escolas cervejísticas, a belga e a inglesa, não terem tanta tradição no Brasil. O que não deixa de ser curioso, em se conhecendo a influência que os ingleses tiveram aqui. Talvez, porém, a participação alemã tenha sido mais espraiada, menos imposta, e, por isso, tenha acontecido mais naturalmente. Talvez, tenha havido um gap muito grande entre a verdadeira influência direta inglesa no Brasil e o hábito massificado de se tomar cerveja. Talvez as cervejas inglesas não sejam nada apropriadas para o nosso clima. Tudo isso é especulação.

O fato é que, pelo que eu tenho visto, reparado, quando as pessoas se permitem, pela primeira vez, a tomar uma cerveja diferente, elas optam pela cerveja Weiss. Weiss, branco em alemão, se refere ao tamanho do colarinho, da espuma feita por esse tipo de cerveja, que, como todo mundo sabe, é feita de trigo, ou Weizen, como, aliás, algumas cervejas de trigo são igualmente conhecidas.

Isso também ajuda ao bebedor iniciante. Ela vai saber, de cara, de memória, de vista, que ele bebeu algo diferente. É fácil identificar as diferenças. A weiss é mais turva, por exemplo. Além disso, também colabora o fato de a weiss ser bem mais doce. O paladar menos acostumado vai perceber no primeiro gole essa diferença. Se tiver um pouquinho mais de paciência e curiosidade, já pode, na primeira cerveja da vida, perceber os gostos mais associados ao estilo, que é banana e ameixa. Ou seja, é uma experiência fácil, rápida, e que pode ser completa. Não tem como dar errado.

A weiss é bem diferente em diversos aspectos da cerveja de grande circulação, como já vimos, e a sua fabricação também segue uma outra receita, com fermentos e fermentação respeitando outras regras. Mas o principal, o que realmente marca a diferença entre a weiss e as demais cervejas que conhecemos é, a meu ver, o ingrediente principal. Enquanto a maioria das cervejas usa apenas maltes de cevadas [inúmeros tipos, é verdade, mas ainda assim apenas um produto da cevada], na weiss se coloca também o malte de trigo, que apesar de diversas similaridades com a cevada não é igual. Ou seja, a mudança do ingrediente principal faz com que o resultado final seja completamente outro. Não podia ser diferente.

O que demonstra como uma cerveja feita de arroz ou milho é, da mesma maneira, completamente distante das feitas com maltes de cevada. Mas isso nem precisaria ser dito.

quinta-feira, 18 de outubro de 2012

Cerveja ruim: o mal que entra pela boca

Amigos e conhecidos vieram me avisar na minha volta que havia uma "contra-reforma" em ação no Rio [não sei se em outros lugares]. Após o crescimento do interesse há uns anos por cervejas-cervejas, aquelas cujos ingredientes são decentes, não milho, no último ano, houve um processo inverso: a tentativa de "desburocratizar" o sagrado ato de tomar despreocupadamente a cervejinha.

"Deixe a frescura dos copos com os vinhos", me disse um. "Cuidado com o que você fala por aí", me falou outra. "Eu quero apenas tomar um chope", lembrou um terceiro.

Um dos fatores que sempre me interessou em cerveja foi exatamente essa aparente sem-cerimonice. Qualquer um pode tomar uma cerveja em qualquer lugar, de qualquer jeito, despreocupadamente. Havia uma informalidade brasileira nesse aspecto que era mais agradável que o esnobismo francês importado e associado ao vinho.

Todavia, a cerimônia existe, se você reparar bem. Até para uma questão de sobrevivência do tipo mais vendido desse refrigerante-alcoólico-sabor-cerveja. Há o boteco. A mesa de ferro. O copo-americano. A camisinha. E se alguém vender uma dessas marcas mais conhecidas a mais de dois graus centígrados, o bebedor reclama. Reclama porque está quente. Porque quente é ruim - o gosto das cervejas-água é horrível. Horrível porque os ingredientes usados são de péssima qualidade.

E isso é o que me choca. Reclama-se das músicas tocadas, dos filmes vistos, dos livros publicados, mas quando o assunto é o paladar, esse outro sentido, não se pode falar nada. Deve-se aceitar o gosto ruim das cervejas-águas sem nem pestanejar. E não conheço nenhum caso de alguém que tenha provado uma cerveja-cerveja e ficado incólume. A primeira reação é quase sempre a mesma. Admite que foi enganado até aquele momento.

Na Inglaterra, com uma oferta boa de cervejas-cervejas, raramente há uma discussão sobre o tema, apesar do crescimento do que eles chamam de "continental lagers" num país onde a tradição das "real ales" é quase uma obrigação. Ou seja, cada um toma o que quiser, sem qualquer pressão, sem qualquer intimação.

O que proponho não é "enfrescurar" o ato de beber cerveja. Beba-a do jeito que quiser, à temperatura que quiser, com o copo que quiser. Mas alocar uma preocupação semelhante dada a outros aspectos da vida àquilo que entra pela boca, que passa pelo "gosto". Em relação à cerveja eu sou radical.

sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

Pubs preferidos

"Saving pubs is now a policy in my 2012 mayoral campaign. 
In the 1960s, if you wanted to drink you went to the pub. People didn't used to have booze in the house back then and there seemed to be a pub on every block."
Ken Livingstone, candidato trabalhista para a prefeitura de Londres nas eleições do ano que vem.
O "Guardian" fez uma homenagem a George Orwell - que, além de ser autor de clássicos como "1984", trabalhou na BBC e foi colunista do "London Evening Standard" [!!!], onde escreveu um texto intitulado "The Moon Under Water", em que imaginava como era o pub perfeito, e que, por sua vez, inspirou um livro recém-lançado chamado exatamente "The search for the perfect pub: looking for the Moon Under Water" - e perguntou a figuras de renome qual era o pub preferido deles. Coincidência o primeiro nome ser o do moço aí em cima e o jornal ser de tendência liberal. Fora ele, só há músicos. É uma ótima oportunidade para os groupies de plantão saber onde encontrar gente como Carl Barat {Libertines], James Dean Bradfield [Manic Street Preachers], Guy Garver [Elbow], Liela Moss [Duke Spirit].

terça-feira, 6 de dezembro de 2011

As escolas cervejeiras

Foi apenas uma coincidência nós termos visitado apenas países que têm uma tradição em comum muito particular: Inglaterra, Bélgica e Alemanha são conhecidas como as grandes escolas de cerveja do mundo. Foi uma coincidência, mas uma boa coincidência.

Após a passagem - relâmpago, no caso da Alemanha, mas bastante intensa - por todos esses destinos cervejísticos, dá para pinçar algumas curiosidades, que dizem bastante sobre a cultura desses países, não apenas no ramo da cerveja.

Começamos, sem muito motivo, pela Inglaterra. Lugar da cerveja quente, amarga e sem gás. Onde se bebe, quase que exclusivamente, no pub, que originalmente queria dizer "public house", onde se faz amizades instantâneas, onde é impossível ficar sozinho. Os pubs vendem, via de regra, as real ales, ou cask ales, e, agora, o que eles chamam de "continental lagers" - além de cidras, que já me pregaram três peças. Nos últimos anos, os mais jovens - aqueles com paladares menos exigentes, ou que ainda estão acostumados com alimentos mais doces, ou que não querem passar por privações, ou que preferem sabores mais simples... enfim -  têm preferido marcas importadas da Alemanha [Beck], França [Kronenbourg], Bélgica [Stella Artois] e até Jamaica [Red Stripes]. Realmente, a ale é uma cerveja difícil, talvez a mais difícil de todas as escolas. Fora da ilha de Albion, não estamos acostumados às suas principais características. Por isso, há uma associação que tenta defendê-las, que incentiva seu consumo e sua produção. É comum que as pessoas torçam o nariz para ela, no primeiro gole e, depois, ao se acostumarem com sua maneira única de refrescar, tenham dificuldades de encarar as outras escolas.

Na Bélgica, por outro lado, há todas as experimentações possíveis e imagináveis. Cerveja com coco, com limão, cerveja em que não se coloca fermento, cerveja com fermentação natural. Dizer apenas "cerveja belga" é limitar a quantidade de possibilidades que eles produzem, e não dizer muita coisa - já que não dá para passar uma informação muito clara sobre o que seria isso. Não é o lugar onde se têm mais cervejarias - essa posição, pelo que escutei, fica com a Alemanha -, mas certamente é a que tem mais variedade. Principalmente porque os alemães respeitam, e muito, a Reinheitsgebot - a famosa lei de pureza alemã, que só permite a produção da cerveja com os ingredientes "originais": malte, água, lúpulo - e, depois, fermento. Os belgas experimentam, erram, e, não por acaso, têm a Westvleteren 12, a cerveja sempre votada como a melhor do mundo, e seis das sete trapistas. Se é por uma questão de dificuldade de acesso, se é porque há todo uma lenda em volta da cerveja, se é porque há um mistério envolvido, ou se é porque a Westvleteren é realmente boa, depende de cada paladar aprovar.

Os alemães, certamente, não concordarão. Vão achar que é muito doce. Se há uma coisa que eles evitam é a cerveja mais maltada. Geralmente tomam weiss, bock ou até mesmo döppelbock acompanhadas de alguma comida, para compensar o açúcar. E, se a pils é uma invenção tcheca, da cidade de Pilzen, temos que lembrar que todo o leste europeu foi e é ainda muito influenciado pelos alemães, principalmente por conta do Sacro Império Germânico, que dominou áreas grandes da região. Só lembrar que Kafka, tcheco, escrevia em alemão, ainda no século XX. Que Schopenhauer, filósofo que se considerava alemão, nasceu na cidade de Dantzig, que hoje pertence à Polônia, sob o nome de  Gdańsk. E que Kant, que ninguém imagina ser outra coisa que não alemão, nasceu e viveu toda a vida na pacata Königsberg, que hoje pertence à Rússia.

A cerveja alemã é infinitamente mais barata que em qualquer outro lugar que já estive. Como se informasse por meio de seu preço que todo mundo tem direito à cerveja. Como se mostrasse que cerveja faz parte da dieta básica de qualquer ser-humano - ou, ao menos, de qualquer alemão. Uma garrafa de 500 ml em uma supermercado não passa de 50 centavos de euro - para efeito de comparação, mesmo as latas mais baratas da Inglaterra esbarram no £ 1. Por outro lado, eles não têm tanta variedade. Todos têm direito à cerveja, mas para que todos tenham direito, não é possível fazer grandes apostas. É preciso baratear os custos. A Alemanha é o país do "carro do povo" - lembremos. É o país que, mesmo com uma população de mais de 80 milhões de habitantes, ainda tem um índice de Gini - que mede a desigualdade social dos países - quase igual ao da Suécia, a campeã. É o país onde não há uma grande empresa entre as maiores do mundo, mas há inúmeras no segundo escalão - como se mostrasse que eles não querem ter apenas uma companhia em que dependessem toda a sua economia, mas diversas. É o país que não tem uma metrópole, com uma população gigantesca, mas que há diversos centros urbanos ricos, com os seus entornos igualmente ricos, que são conectados por trens inigualáveis de bons e por autobahns, onde não há qualquer limite de velocidade.

Não tenho - nem quero ter - uma escola preferida. Para que decidir por uma melhor cerveja do mundo, para sempre, se é possível mudar sempre, dependendo do humor?

quinta-feira, 27 de outubro de 2011

Westvleteren 12

Todo ramo do conhecimento tem seus ícones. Entre as cervejas, é a Westvleteren 12.

Imagine uma cerveja que sempre é eleita nos sites de votação popular na internet como a melhor cerveja e, mesmo assim, - ou por causa disso - é complicadíssima de ser encontrada. "Por causa disso", na frase anterior, tem dois sentidos. O primeiro, óbvio, é: se é a melhor cerveja do mundo, será bastante procurada, logo, difícil de ser encontrada, por ser escassa. Entretanto, há também o caso de, por ser difícil encontrá-la - como é o caso da Westvleteren 12, por motivos que serão explicados mais à frente - quem a toma, tende a valorizá-la acima das demais.

A Westvleteren 12 é uma das sete trapistas - o que, por si só, já lhe traz uma certa aura de exclusividade. A única, porém, que não é vendida em larga escala. Os monges que a produzem já disseram que "we make the beer to live but we do not live for beer". Eles restringem a produção a pouquíssimas [comparativamente] garrafas por ano e fazem os compradores assinar um termo impedindo que as garrafas compradas - só podem ser adquiridas no máximo uma caixa com 24 a cada mês, por pessoa - sejam revendidas. Como são católicos, não visam o lucro e essas garrafas são comercializadas com preços incrivelmente baixos, para qualquer tamanho de cervejaria. Como vivem num mundo que ignora regras, essas mesmas garrafas que saem por um pouco mais de 2 euros lá na abadia, chegam ao Brasil por mais de R$ 100. Na Bélgica, é complicadíssimo encontrá-las fora de Westvleteren. Não impossível.

Desistimos de ir para a cidade de Vleteren, onde ficam os monges, porque o aluguel do carro era caríssimo - algo como três vezes mais que foi alugar um carro em Oxford. Além disso, tínhamos apenas um dia, que já estava tarde na hora que decidimos sair, para ir à abadia, porque os monges fechariam as portas para o descanso de domingo. Por fim, não tínhamos reservado nossa cota e só teríamos acesso a uma porção menor vendida do lado de fora, na lojinha - uma porção extra, feita apenas com o intuito de reformar o monastério. Não deu.

A partir de então, buscamos em todos os lugares que visitávamos - Bruxelas, Bruges, Antuérpia - o santo graal das cervejas.

Em Bruxelas, em um bar que dizia ter centenas de cervejas belgas, conseguimos comprar garrafinhas da Blonde e da 8 - mas nada de 12. Mesmo a 8, compramos as últimas unidades. Cada garrafa, a 9 euros. Em nenhum outro lugar, de Bruxelas a Bruges, encontrávamos a 12. Em Bruges, ainda fomos numa espécie de museu da cerveja, que dizia ter todas as cervejas belgas existentes em exposição, e ainda diversas para vender - mas nada de 12, o ápice.

Na Antuérpia, já tínhamos desistido de procurá-la, me contentando com uma futura visita a Westvleteren para, aí sim, comprar a caixa com tudo o que tem direito. Eis que entramos numa loja pequena, com o intuito único de comprar uma garrafa de Mongozo - a cerveja que tem gosto de leite de coco - e, para comprovar como era complicado encontrar a Westvleteren, perguntamos por ela. A atendente, uma garota de olhos puxados, se abaixou atrás do balcão, como se fosse num lugar não exposto, escondido, reservado para produtos proibidos e se levantou com diversas. Ecce homo. Estava ali, diante da gente, a 9 euros novamente. Compramos. Agora acho que não vamos para o céu.

Trouxe para casa para ter a experiência completa, com um copo digno, em um dia especial. Dizem que quanto mais tempo você a deixa na garrafa, mais ela fica gostosa. A ver. Ou melhor, a provar.

sábado, 10 de setembro de 2011

Pints & pubs

Segundo dia

Você descobre que está em Londres não pela quantidade de indianos e jamaicanos e coreanos andando nas ruas, falando dialetos e línguas nacionais. Nem pelo clima - supposed to be - frio, chuvoso, escuro [não está frio, garoou e está um nublado branco]. Nem mesmo pelos "cheers, mate" ou pelos "lovely lady" onipresentes. Mas pela cerveja. Amarga, quente, com baixa carbonatação. E excelente.

Ontem, cometi o meu mais grave erro: me senti em casa de cara. E, como sempre, optei pelas cervejas das quais nunca tinha ouvido falar. O que - nada a ver com falsa modéstia, mas com a globalização das marcas - foi razoavelmente difícil, e me levou a cometer o outro erro de sempre, comprar gato por lebre. Mas chegamos lá.

Uma das tradições que sempre ouvi falar sobre Londres é a dos pubs que, além de fabricar a própria cerveja, tiram o líquido sagrado dos seus barris sem usar gás carbônico e sem máquina de pressão . É tudo no muque. A pessoa do outro lado do balcão - pode ser um japa com mais tatuagens que João Gordo, ou uma loura saída de um comercial da Volvo, if you know what I mean - tem que fazer força para tirar sua ale de dentro das câmeras onde é armazenada. Claro que não há refrigeração - a temperatura é perfeita lá fora. E o amargor, bem, quem sou eu para negar a tradição de atração pelo lúpulo?

O problema desse tipo de estratagema é - imagine - esquecer de todos os tipos que você tomou ontem. E nem foram tantos pints assim. Porém, seguindo também outra das tradições londrinas, fomos em uns quatro pubs e em cada um deles, tomamos um pint. No penúltimo, já sem opção, pedi aquela marca verde que era a que se repetia em todos os lugares e eu não conhecia. De cara, vi que algo estava errado. Havia muitas borbulhas. Provei, doce demais. Depois de eu muito pensar, meu camarada Roy chegou a conclusão de cara: era cidra. A inglesa do meu lado, ao escutar toda a conversa, não se furtou de comentar: "Fail". Roy, polite como um gentleman indiano, falou que tomaria para me ajudar. Então, para manter a tradição que eu acabara de inventar - ei, estamos em Londres, não? -, terminei a noite com uma Guinness. Acho que deveria ser a lei. Todas as noites abaixo de 20 graus célsius devem terminar com uma porter desse porte. E antes de ir para casa, comer um kebab!

domingo, 21 de agosto de 2011

Design inteligente da cerveja

Relutei muito em começar a escrever sobre design inteligente. Primeiro porque não sou um especialista no caso, segundo porque, bem, dá preguiça argumentar contra a fé. O que me levou a mudar de ideia foi uma série de textos lidos em diferentes lugares, sob diferentes formatos, concomitantemente falando sobre o mesmo assunto: como há uma espécie de arquiteto maior [são todos da maçonaria?] que criou a possibilidade de vida e planejou nossas evoluções até o nosso formato atual.

Aparentemente o "design inteligente" e o argumento do "ajuste fino" servem de consolo para quem está cansado da ciência, e ainda procura respostas às questões que não contêm respostas. Tipo: "ok, aceito o big bang, mas e antes? O que havia?"

É um argumento muito mais inteligente que o simplesmente "criacionista" - que, por mais absurdo que se possa imaginar, continua a florescer grandemente em organizações como o Tea Party americano -, mas ainda assim peca por um excesso de "humanização", ou, em outros termos, de "vaidade".

Primeiro porque não aceita o aleatório. O aleatório talvez nem exista, como já disse. Talvez seja apenas a ponta de um grande sistema que nós não conseguimos ver absolutamente nada e por isso não entendemos. Mas mesmo esse raciocínio se baseia numa... crença vaidosa: acredita-se que poderemos - nós, humanos, inteligentes, dotados do polegar opositor, etc. - desvendar, um dia, esse misterioso componente aleatório.

De qualquer forma, agora, nesse momento, o aleatório continua a existir [na minha humilíssima opinião, sempre existirá o "aleatório", o "não-explicado", o "absurdo", que é para onde nossa curiosidade - científica ou banal - se moverá]. E, se não podemos entendê-lo, podemos: 1/ aceitar nossa ignorância, nossa pequeneza, nossa completa insignificância e dizer simplesmente: não sei. Não sei o que havia antes do big bang. Ou 2/ podemos dizer que, já que não temos uma explicação sobre a origem da vida, e que é tudo tão perfeito, não pode ser à toa. Isso, claro, foi obra de uma mente, ou de um ser superior, que vive no caráter do eterno [portanto mito?], que manipulou, que criou as coisas como se fossem parte integrante de um jogo de tabuleiro em que cada dado tivesse sua função devidamente inventada e aceita.

Um dos argumentos mais bizarros - não pelo exemplo em si, como se verá - que eu li foi em um livro chamado "Cerveja & filosofia". O professor assistente de filosofia da Universidade de Mississipi Neil Manson, que já escreveu sobre teologia filosófica - como aponta seu perfil no livro - afirma que nós não poderíamos apreciar a cerveja fora do esquema do "design inteligente" + "ajuste fino", porque, se formos criados - nós, Homo sapiens sapiens - há centenas de milhares de anos, a capacidade de apreciação de cerveja não teria resistido à evolução da humanidade tanto tempo até pouco mais de 8 mil anos, quando há os primeiros relatos da fabricação de cerveja, porque ela não teria razão de ser/existir até então.

Como disse, o exemplo em si não importa. Pode-se pegar qualquer outro argumento, qualquer outro caso, e ele dá um ainda mais esdrúxulo. Mas pensemos nessa questão. Pelo ponto de vista de Manson, que, no caso, representa, ou diz representar, o raciocínio do "design inteligente", a evolução eliminaria todas as nossas capacidades não utilizadas. E determinadas características seriam imanentes do homem, ou no homem.

Bem, é melhor ele dizer isso para os meus sisos, que insistiram em nascer, mesmo gerações e gerações após o fim do seu uso. Ou para as milhares de pessoas que fazem operação de apendicite. Ou para o meu dedo mindinho, que já me deu tanta dor.

Um raciocínio interessante é imaginar como a natureza [que, coincidentemente, é um dos nomes de Deus para  Spinoza, que, também coincidentemente, é um dos filósofos favoritos de Einstein] exagera em vários de seus atos. O que sempre uso de exemplo é a questão da semente. De árvores a humanos, há um "desperdício" de sementes para a tentativa de procriação. Joga-se muitas para que uma, quase em caráter aleatório, germine. A quantidade exagerada é para a probabilidade aumentar. E probabilidade é apenas uma tentativa de enquadrar o aleatório.

terça-feira, 12 de abril de 2011

Cardápio de cerveja

[Há muito tempo, me pediram para escrever um texto sobre cervejas para um cardápio, que nunca saiu. O texto é fraco, mas engraçadinho. Como é inédito, publico aqui:]


Dizem que os primeiros registros sobre cerveja apareceram onde hoje é o Iraque, há mais ou menos 6 mil anos. Mas o país não foi invadido por isso. Os sumérios, que viviam à época na região inventando a roda, a escrita e outras insignificâncias, tinham até uma deusa para homenagear a cerveja: Ninkasi.

Diz a lenda que a loura (que só amarelou realmente no século XVI), nasceu quando um desavisado deixou um pão ao relento. O naco tomou chuva e, com os fungos presentes no ar, fermentou e se transformou miraculosamente em cerveja. Ah, os desavisados. Por muito menos inventaram a penicilina, mas isso é papo para outro dia.

O certo é que a cerveja era bem diferente do que ela é agora, claro. A começar pela cor. A cerveja pilsen, a que a grande maioria está acostumada a beber, só nasceu quando descobriram que se podia fazer cerveja de baixa fermentação, as chamadas Lagers. Para isso, precisavam de baixas temperaturas, o que aconteceu, novamente, sem querer. Mas não entremos em detalhes.

A questão é: existem muito mais tipos de cerveja que imagina a nossa vã filosofia. Dentro da própria categoria pilsen (que ao contrário do que se pode imaginar não tem origem alemã, quiçá belga, muito menos inglesa - as grandes escolas da cerveja - mas tcheca), pode-se explorar mais o gosto de um ou outro ingrediente básico da composição.

Aliás, em 1516, o duque da Baviera, região onde fica Munique, decretou uma lei de pureza para determinar os ingredientes que poderiam fazer parte de uma cerveja: água, malte de cevada (resumidamente, grãos do cereal processados e torrados), lúpulo (uma planta da família de uma tal de Cannabis sativa) e só. A levedura nem era conhecida na época, mas foi acrescentada depois. Depois a descobrirem, e até inventaram a penicilina. Mas isso é outra história.

É claro que os quase vizinhos da Bélgica ignoraram completamente isso e continuaram fazendo com os ingredientes que tinham as suas cervejas magistralmente. O mesmo aconteceu na Inglaterra e por aí vai. Até os alemães abriram algumas exceções com o passar do tempo e tivemos contato com a cerveja de trigo (também conhecida como hefe-weizen ou weissbier), por exemplo.

Isso nos dá uma gama imensa de cervejas. Ficar preso a uma só é não querer experimentar a liberdade da escolha. Cada cerveja vai bem com um tipo de comida, com um tipo de paladar, com um tipo de humor, com um tipo de clima. A melhor maneira de conhecer é beber. Por isso, mãos e goelas à obra.

terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

Deus e os diabos na terra das cervejas

Quando alguém - que já conhece um pouquinho sobre cervejas - quer dizer que viu uma marca cara no supermercado, sempre fala dela. Ou melhor, Dela: DeuS. É a mais conhecida cerveja muito-cara no mercado. Normalmente seu preço passa dos R$ 200, com o argumento de que ela é uma cerveja especial, única, feita no método champenoise, garrafa a garrafa, um fulaninho fica lá na cave em Champagne, girando o vasilhame de tempos em tempos para não acumular o sedimento, blablablá. Blá. Nunca tomei e, claro, tomaria, se alguém ma oferecesse; mas será difícil tirar esse dinheiro todo do bolso por conta de uma única garrafa - mesmo de 75 cl - de um estilo que nem é o meu preferido.

[Pausa para dizer que na última e única vez que fui lá no Belgian Beer Paradise, em Ipanema, enquanto tomávamos belas cervejas - cujos nomes já me foram apagados da memória por esse problema que envolve o consumo de belas cervejas -, escutávamos o grupo de dentro da loja abrindo, de dez em dez minutos uma garrafa de DeuS. Deus não é justo, mesmo.]

Pouca gente repara, entretanto, que há uma espécie de disputa entre o céu e a terra pelo paladar mais aguçado dos bebedores de cerveja. Basta lembrar [e salivar] das trapistas, feitas em monastérios dessa ordem [um dia falarei mais só sobre isso]. Além disso, monges de outras ordens também são conhecidos produtores de cerveja e um estilo heterogêneo chamado "cerveja de abadia", que uma certa [ou seria errada?] cervejaria diz fazer a sua, é encontrado em cervejas extremamente comuns, como a Leffe, por exemplo

Além disso, Michael Jackson, um dos maiores conhecedores de cerveja [não o cantor, por favor] sempre citava a história de que na versão "original" da bíblia, em vez de "vinho", na hora da famosa ceia, aparecia uma expressão que pode ser traduzida por "bebida alcóolica". Ele argumenta, meio de troça [claro, porque isso não tem qualquer importância] que a tal beberagem seria cerveja, que tinha sido "descoberta" [um dia também falo só sobre isso] na Mesopotâmia, ali do lado de onde Jesus viveu e morreu. É muito mais provável que ele tivesse tomado uma "bebida alcóolica" de cereais fermentados que vinho, comum na Grécia, onde aparece a primeira tradução fora do aramaico.

Do outro lado do ringue, não podemos esquecer a atração que a cerveja - e todas as bebidas alcoólicas - exercem sobre o nosso lado mais... demoníaco [no melhor sentido possível, que repete à sua acepção grega]. Se pensarmos em Dionísio e em suas festas-que-não-acabavam-nunca regadas a vinho, já é um caminho para dizer que o álcool, mais que um facilitador, ele é totalmente partidário do libera-geral. Mas não precisamos ir tão longe no tempo. Se você se lembra - se você conseguir se lembrar - de certas beberagens excessivas da sua própria vida, aquelas que geralmente você tem, além da tradicional ressaca, uma segunda, de cunho moral, você já sabe o que quero dizer com esse lado demoníaco.

Os fabricantes de cerveja perceberam essa associação diabólica e não fizeram por menos. Não tenho números comparativos, mas chutaria que há mais rótulos dedicados ao coisa-ruim que ao cara-lá-de-cima. Numa olhada rápida no livro "Beers of the world", só na seção belga [microcosmo perfeito, não?] contei 14 citações ao onipotente, onipresente e onisciente - entre cervejas trapistas e feitas em outros monastérios - e [apenas] quatro honrando o esquerdo-mor. Tudo bem, perdemos, mas sabemos nos divertir mais. De qualquer forma, cervejas como Duvel [segundo consta: "diabo" em flamengo -, a língua, não o time, por favor] e Lucifer [com esse nome já vi várias] levantam a moral do time do enxofre. Claro que não dá para bater o dreamteam formado pelas trapistas e suas companheiras - provavelmente as melhores cervejas já feitas. Mas quem disse que precisamos ganhar alguma coisa?

De qualquer forma, fiquei com uma dúvida na minha pesquisa: para que lado deveria eu ter contabilizado o voto para a cerveja Judas?

terça-feira, 25 de janeiro de 2011

Cerveja e suas metáforas

Quando os modernistas disseram que a poesia estava no cotidiano, não poderiam imaginar que problema estavam criando. Além de descobrir a pedra no meio do caminho, os nossos avôs possibilitaram com essa constatação que era possível fazer paralelos entre assuntos ditos sérios e as coisas mais simples [no sentido de comuns, nunca de simplórias] da vida, como uma cerveja. Ou seja, esculhambamos a herança herdada, como qualquer neto de magnata.

Antes de continuar, quero deixar claro que estamos falando de cerveja. Não de bebida gaseificada com álcool, que se vende com rótulos de Brahma, Skol, Antarctica e Bohemia [só para ficar na ABInbev]. Cerveja tem que ter malte - mas não necessariamente apenas malte, como sabe qualquer belga. E não pode ter frescura. Cerveja, apesar da tradição e da sua antiguidade, é a bebida mais comum do mundo. Bebe-se entre os ricos e os pobres. Bebe-se na grande maioria do mundo. Bebe-se e não se olha a quem.

Quando um simples bebedor dessas bebidas gaseificadas percebe o engano a que ele é submetido, goela abaixo, ele tende a - se ainda lhe restar papilas gustativas - largar de mão as trapaças para ir em direção à verdade, ou às verdadeiras cervejas. E é um caminho sem volta. E com um bilhete bem caro, para quem ganha em real e paga em euro.

O primeiro passo - já presenciei em vários camaradas - é a cerveja de trigo, weiss ou hefeweizen, para os íntimos, no caso, os alemães. Fácil de beber, docinha, gosto de fruta fácil de identificar [as pessoas adoram falar da banana e da ameixa], encorpada: é difícil alguém desgostar delas de primeira. Só se for ruim da cabeça ou doente da língua.

A partir de então, as veredas se polifurcam. Há a possibilidade de seguir as linhas da weiss, ou se aprofundar na escola alemã de cervejas com gosto de biscoito e pão; querendo algo mais... amargo, atravessam o Canal da Mancha, atrás das [por favor, sotaque de Oxford] ales, das ilhas britânicas; ou, ficar no doce deleite do fermento belga e suas praticamente infinitas variações. Hoje, há ainda quem preze pelas inovações sem parâmetros dos americanos; quem quer a original pilzen tcheca ou quem acha que cerveja deve ser feita como o vinho, como os italianos. E todos, por uma questão de pobreza, sempre valorizamos o produto nacional, que está cada vez melhor.

O normal é que, como todo neófito, no início, o renascido fora da matrix cervejística se sinta perdido, não consiga se decidir. Fica zanzando de um escola para outra, ora com uma ora com duas, sem parar em um bar específico.

Acredito, porém, que chega um momento na vida do homem - e da mulher também - que você tem que se decidir, entender seus limites, enxergar os seus [muitos] defeitos e suas [poucas] qualidades. Chega uma hora que você percebe que há uma natureza dentro de você e não há nada que você possa fazer contra ela: ela vai ganhar de você. Postergar essa derrota é aumentar o sofrimento. Você tem que se admitir qual cerveja é o seu objetivo.

Eu descobri que não vou tomar todas as cervejas do mundo. Nem todas as cervejas que quero tomar no mundo. Há um limite e ele é o tamanho da minha barriga [razoavelmente grande] e da minha conta bancária [visivelmente pequena].

A vantagem é que escolher uma cerveja para ser sua é uma decisão forte mas, felizmente, mutável. Se você, por acaso, sem querer, esbarrar e descobrir outra melhor, nada impede de você trocar de preferida.

quinta-feira, 11 de novembro de 2010

Meu salário em cerveja

As meninas d'As viajantes republicaram um post aqui comparando as duas Oktoberfest. Para quem quiser ver, basta clicar aqui.

ps. para quem quiser tirar um gostinho do que é uma oktoberfest, mas não quer esperar até outubro, Blumenau também sediará o segundo Festival Brasileiro de Cerveja. Mais infos aqui.

quinta-feira, 28 de outubro de 2010

Drinkability literário

Estava eu com um amigo tomando cerveja quando ele elogiou o Hemingway, por conta da sua facilidade de leitura. Levantei a hipótese de que a facilidade (ou dificuldade) de leitura não deve ser o único critério para se avaliar um livro. Jornalistas que somos, um texto fluido e fácil de se ler é sempre desejado. Mas na literatura não é uma regra.

Para usar uma expressão do ambiente em que nos encontrávamos comentei sobre o drinkability da cerveja, que designa a facilidade (ou dificuldade) de beber uma cerveja. As pilsens, por exemplo, têm alto drinkability. Mas dizer que elas são melhores que as dubbels é no mínimo apressado. Mas o estilo belga é difícil. Tomar várias garrafas é tarefa complicada. Ou seja, tem baixo drinkability. Num dia quente, prefiro uma pilsen.

E o mesmo se aplica à literatura. Há livros que são lentos, mas nem por isso piores. Penso em Fernando Pessoa. Não consigo ler muitas páginas, mas saboreio cada uma das palavras que sorvo.

sábado, 23 de outubro de 2010

Diferenças e semelhanças entre as Oktoberfests

Estive, por coincidência, em Blumenau, durante a época em que acontece a Oktoberfest brasileira. Como já estive – dessa vez, sem qualquer coincidência – em Munique [doravante München], durante a mais famosa festa alemã para a cerveja, resolvi fazer um texto comparativo entre as duas experiências, mostrando suas diferenças e semelhanças.

                       
München
Blumenau
Chegue cedo. Mesmo que a abertura da festa esteja marcada para o meio-dia, os alemães vão para os pavilhões às 7h, para conseguir um lugar onde se sentar. Chegamos às 11h, pensando que estávamos bem, que arranjaríamos um espaço, mas penamos por duas horas até que um grupo de alemães adolescentes se sensibilizaram conosco e nos deixaram dividir o mesão com eles.
Chegue tarde. Vacinado pela festa alemã, corri para os pavilhões assim que aportei na cidade e adentrei o local às 18h. Não tinha ninguém. Todos os três pavilhões estavam completamente vazios e algumas barraquinhas se davam ao luxo de estarem fechadas. Ao conversar com moradores, eles até riram, quando disse a hora que cheguei. A organização da cidade me fez esquecer que estava no Brasil. 
Cerveja, só sentado: a razão por que os alemães chegam cedo à festa é que só se serve cerveja para quem está sentado a uma das mesonas. Isso quer dizer que, mesmo nos pavilhões, você pode passar horas de bico seco. Não quer dizer, porém, que não exista o “jeitinho alemão”: quando alguém se levanta para ir ao banheiro, há sempre um esperto que se senta só para pedir a cerveja e depois se levanta. Como se diz “malandragem” em alemão?
Cerveja em qualquer lugar: o esquema é igual a de qualquer outra grande festa brasileira a que eu já fui: você compra um tíquete nos caixas e escolhe entre as possibilidades a que você tem direito. Como estava vazio na hora que cheguei, a tranquilidade imperava. Mas, ao sair, já comecei a perceber certas filas se formando para comprar os tíquetes. E, dizem, à noite, quando a festa fica realmente cheia, fica insuportável. É fila para tudo.
Uma cerveja e várias cervejarias: É tradição entre os alemães produzirem um tipo de cerveja apenas para a Oktoberfest. Elas são mais alcoólicas [em torno de 8%, uma porrada para quem não está acostumado] e são servidas naquelas canecas enormes de um litro, chamadas Maß, que também é a maneira como se chama o tipo de cerveja, um lager mais encorpada que a tradicional german pilsen. Você pode escolher beber nos pavilhões das cervejarias locais de München, como Späten, Lowenbrau, Paulaner, etc. Nada mal, hein?
Várias cervejas e algumas cervejarias: a festa é geralmente patrocinada por uma grande marca, como a Brahma, este ano [eca], que banca toda a programação de dois dos três pavilhões. Já no terceiro, maravilha das maravilhas: encontramos as marcas menores, locais, de cervejas artesanais. São tão pequenas que, comparativamente, a Eisenbahn, que é de Blumenau, parece uma gigante. Há ainda a Wunder, também da cidade, e a Opa, de Joinville, entre diversas. Eles levam muitos tipos de chopes, como o Pale Ale, Porter e um Brown ale que tomei, excelente. Não fazemos nada feio em comparação.
Não pague para entrar, reze para beber: A festa bávara acontece em um campo aberto, com todo mundo tendo direito à entrada e à circulação. Se você for um abstêmio – pecado dos pecados – é capaz de voltar sem gastar um centavo. O problema é o preço das Maß: algo em torno de 8 euros. OK, é um litrão, ou seja, bem servido, e ainda mais alcoólico que o normal, portanto, é capaz de você não beber tanto. Mas, se você se atrever a converter, vai pensar duas vezes. Eu nem gosto de me lembrar de quanto gastei...
Entradas caras, bebidas, ok: Em Blumenau, se paga para entrar no parque onde ficam os pavilhões. Em dia de semana, o meu caso, nem é um acinte: paga-se R$ 6. Mas na sexta, o preço já sobe para R$ 15. No fim de semana, o valor da entrada sobe para exorbitantes R$ 30. Para melhorar, aceita-se carteirinha de estudante – há muito campo de estudo – e quem for vestido com as roupas típicas dos bávaros não paga a entrada. Mas o melhor é o preço dos chopes: todos saem por R$ 4,25. Quem comprar Brahma não sabe o que está perdendo...
Comes: Se eu já tinha gasto os tubos com a cerveja, economizei na comida. A única coisa que comi lá foi um lanche junto com os adolescentes alemães –  eles foram extremamente simpáticos – que consistia numa espécie de pretzel feito em casa e mais com cara de pão e uma pasta com mostarda e um tipo de embutido, que não me lembro – foram MUITAS Maß, posso assegurar.
Além do “bebes”: Cheguei faminto e aproveitei que o lugar estava vazio para comer uns pratos exóticos. Ou alguém já comeu codorna recheada assada? O recheio era – novamente – um tipo de embutido e a codorna era pequena o suficiente para não matar quem me matava. Por isso, recorri ao x-alemão. Um sanduíche, sem queijo – a mania de colocar “x” na frente dos sanduíches é gaúcha, como o tradicional x-coração – em que se mistura frango, linguíça, carne de boi e molho vinagrete, na chapa e coloca tudo num pão. Excelente.
Turistas: fuja do fim de semana dos italianos, o primeiro das duas semanas da festa. Os adolescentes alemães disseram que eles arrumam muita confusão e não são sociáveis com os demais. Posso acreditar. Eles me pediram, em certo momento, para pedir a um grupo esporrento ao nosso lado para fazer menos barulho. Fiquei numa situação...
Locais: indo numa quinta-feira, e mais cedo que o normal, não encontrei ninguém que não fosse de Blumenau. Mas dizem que há também uma enxurrada de cariocas, gaúchos, paulistas nos fins de semana, principalmente o primeiro, que também é, normalmente, o do feriado de 12 de outubro.
Fora do tempo: por mais incrível que possa parecer, a Oktoberfest de München acontece em... setembro. Há uma explicação, mas, bem, esqueci. Foram muitas Maß...
Outubro. A data varia, mas geralmente são três semanas. Neste ano, termina neste domingo. Se você não for multimilionário para poder viajar para Blumenau, vai ficar para o ano que vem sua primeira participação.