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domingo, 8 de abril de 2012

Oxford x Cambridge: quem ganhou?

"Foi uma das corridas mais cheias de acontecimentos da História". Diz assim o site oficial de uma das "mais antigas e prestigiosas competições esportiva" da Inglaterra, a disputa entre Cambridge e Oxford no remo, sobre o evento de ontem.

Se ninguém quer bater o martelo, lá vou eu, do alto da minha experiência de ter assistido a apenas uma dos 158 embates: foi a mais emocionante. Vendo o histórico de controvérsias, lendo as reportagens sobre o assunto, é possível chutar que nunca houve nada parecido com o que aconteceu na tarde de sábado.

E passaram por nós. Oxford estava liderando

Não, não havia ninguém da família Laurie competindo por Cambridge, como aconteceu com Hugh, o futuramente famoso doutor House, que perdeu em 1980, ou o seu pai, Ran, que ganhou, também por Cambridge, entre 1934 e 1936 -e depois foi medalha de ouro nas Olimpíadas de 1948, em Londres.

E, sim, já havia ocorrido o choque entre os remos das duas agremiações, como aconteceu neste ano. E, também, a corrida já tinha sido interrompida em outras oportunidades.

Porém, nunca, jamais, em tempo algum, houve um evento em que um sujeito tentou fazer um protesto contra o comportamento das elites britânicas, nadando no meio do Tâmisa e bloqueando a competição. E eu não vi registro de nenhum caso que o remador, exausto, tenha desmaiado ao passar pela linha de chegada e tenha sido levado a um hospital. Cronologicamente portanto:

Hugh Laurie, treinando com os seus
companheiros, em 1980
Uma multidão se posicionava desde cedo na margem do rio em Putney, para assistir à partida da competição, marcada para as 14h. Todo mundo bebia cerveja e fazia o mais próximo de carnaval que os ingleses-mais-ingleses-possível conseguem fazer.

No horário marcado, após um juiz conferir que os dois barcos estavam exatamente na mesma posição, eles largaram. Passaram por Putney muito rapidamente, quando pudemos perceber que Oxford tinha uma pequena vantagem.

Logo em seguida, as pessoas começam a sair, ir embora, clima de "já acabou". Porque tínhamos mais cerveja para beber, resolvemos conferir quem tinha ganho de lá mesmo -a competição dura menos que 20 minutos.

Descobrimos, então, que um  manifestante de 35 anos quis interromper o embate para demonstrar todo o seu desgosto pelo lado elitista da sociedade inglesa. Porque, segundo Trenton Oldfield [o nome do rapaz], o elitismo leva à tirania. Acho que ele deveria passar um tempo no Brasil.

De toda forma, a prova parou e decidimos conferir o final em casa. Quando ela recomeçou, novamente Oxford estava à frente, mas, em uma manobra polêmica [mais uma], talvez da timoneira de Oxford, querendo aproveitar melhor as correntes, talvez do de Cambridge, com a mesma intenção, ou até num processo mais camicaze do pessoal de Cambridge, os dois barcos se aproximaram e os remos se chocaram. Um dos oito remos de Oxford quebrou e ficou pelo caminho, o que deu uma vantagem enorme para Cambridge, e motivou uma opinião do locutor da BBC que me fez lembrar certos comentaristas no Brasil: "o remo não é igual a futebol...". É verdade, comentou um dos presentes, ninguém, no futebol, interrompe a partida nadando.
As pessoas aproveitam para toma uma cervejinha

A partir daí, Cambridge remou para a vitória tranquila, com o grupo de sete remadores e um passageiro de Oxford se esgoelando para tentar acompanhar - o que, provavelmente, causou o teto-preto de um deles, ao cruzar a linha. O que, por sua vez, também providenciou outro comentário, digamos, espirituoso do moço da BBC: "ele precisa de oxigênio". Que triste -deve ser- precisar de oxigênio.

A polêmica ficou por conta da não-interrupção, novamente, da corrida, após o choque dos remos. Essa não foi a primeira vez que a competição foi parada. A última, inclusive, foi exatamente por conta de um choque assim, que causou a perda de remos de Cambridge, há 11 anos -se minhas contas estão certas. Desde então, foi instituída uma autoridade que toma as decisões de parar ou continuar. Isso me levou a crer que o juiz ou não queria interromper a prova mais uma vez [porque aí seria demais], ou, pior, quis beneficiar Cambridge.

Óquisfor para sempre poderá dizer que foi roubada. Cambridge, que esse é um choro de perdedor. Mas eu duvido que isso aconteça. O primeiro comentário após sair da água dos rapazes de Cambridge perguntavam sobre a saúde do remador de Oxford levado para o hospital. E eles só comemoraram quando souberam que estava tudo ok com ele. "Comemoraram" não é bem uma boa palavra, vocês podem imaginar. E olha que dos 18 atletas na água, 11 [cinco americanos, um holandês, dois australianos, dois alemães e um neozelandês] eram estrangeiros. Mas, competindo, eles não têm nacionalidades. São de Oxford e Cambridge.

sexta-feira, 30 de março de 2012

Restaurantes secretos em Londres

[Reportagem publicada no caderno "Ela", d'"O Globo", no fim do ano passado.]

A descoberta dos restaurante secretos

Pouco antes das 20h de uma sexta-feira, um grupo de pessoas vestindo roupas espalhafatosas, perucas, trajes judeus e carregando bebidas à tira-colo se dirige em sigilo para uma casa aparentemente comum de uma pacata rua de Kilburn, no noroeste de Londres. Tocam a campainha e são recebidos por um senhor usando quipá, e carregando nos braços uma criança. Estão indo celebrar o shabat, mas um shabat diferente, na versão Barbra Streisand, do Underground Restaurant.

Misture a experiência de ir a um restaurante, e todo o requinte de pratos sofisticados, com o conforto e a informalidade de um jantar na casa de conhecidos. Por fim, acrescente uma pitada de mistério – só recebe as coordenadas de como chegar lá quem comprar os ingressos, no valor de £50, pela internet – e você pode ter um pouco do sabor do que é o Underground. Mas todo esse processo não afasta os convivas, pelo contrário. Na noite em questão, em pouco tempo os desconhecidos se tornaram melhores amigos, tirando fotos juntos, bebendo dos vinhos uns dos outros, cantando junto as músicas de Streisand. O clima é de festa. 

Rodgers, no salão de sua casa, recebendo
estranhos que viram amigos em instantes

"A coisa que mais me surpreendeu quando eu comecei foi que as pessoas queriam conhecer outras pessoas. Então, eu comecei a fazer grandes mesas misturadas. Você não pode reservar uma mesa para dois, por exemplo", conta Kerstin Rodgers, que comanda a cozinha, a casa, e todos os eventos sob a marca Underground, além de ser uma grande incentivadora desse tipo de restaurante.

Nessa oportunidade, o menu incluía bastante da culinária judia nova-iorquina com influência eslava. Começou com vinho kidush e chalá, e a benção do rabino. Passou pela entrada com salmão defumado, rollmops, vários tipos de picles e bagels, além de borche para os vegetarianos. Adentrou o principal com tcholent e ovos hamine. Teve fôlego para a sobremesa com cheesecake de Nova York, quíguel de canela, matzá de chocolate branco, e terminou com a reclamação do vizinho pelo altos brados dos convidados que imitavam a diva.

Com uma frequência incerta, mas em torno de dois eventos por mês, ela recebe desconhecidos na sala de sua casa vitoriana, e os alimenta com cinco a seis cursos diferentes de um jantar temático e muito bom-humor. Já houve homenagens a Elvis Presley, um evento começando a meia-noite só com alimentos que fossem pretos, uma noite temática das arábias, e outro com um menu só pratos que tivessem flores. 

A origem do apelido de Rogers
Fora os jantares, Rodgers também organiza chás, o secret garden clubs – onde há workshops culináros – e, mais esporadicamente, o Underground Market. Neste é possível encontrar alimentos direto de pequenos fazendeiros, produtos artesanais e barracas de comidas que fogem do lugar-comum de outras feirinhas tradicionais, além de ser a oportunidade para escutar música intimista, em um lugar completamente diferente dos endereços dos mercados mais conhecidos. Tudo mantendo a mesma aura de mistério e quase sociedade secreta. 

Nenhum desses eventos, contudo, é exatamente legal. Apesar de Rodgers se preocupar constantemente com higiene, segurança e não vender álcool – que é bastante controlado pela legislação inglesa – ela não tem qualquer licença para funcionar. Em seu livro “SupperClub, recipes and notes from the Underground Restaurant” [algo como “Clube da refeição, receitas e notas do restaurante Underground”], ela conta que instrui as pessoas a cantar parabéns caso sejam interceptadas pela polícia no meio da noite. De qualquer forma, ela diz já ter recebido agentes da lei entre os seus convidados, sem qualquer sobressalto. Os maiores problemas foram com o metrô de Londres, conhecido também como Underground, que quis processá-la por usar tal palavra na sua marca. Ou com a Warner Bros, que a ameaçou por conta de uma noite temática sobre Harry Potter.

Mais conhecida na internet como Ms. Marmitelover, ela começou a trabalhar como fotógrafa para publicações como a “NME”, mas afirma que sempre se via cozinhando onde quer que estivesse, para quantas pessoas fossem. Inclusive em manifestações antiglobalização nas reuniões do antigo G-8, cafés vegan cooperativos, e até em uma conferência em Belgrado onde ela diz ter servido 450 “sindicalistas sérvios, punks alemães e filósofos franceses”. 

Convidados vestidos a caráter para a homenagem à diva

Ela abriu o seu restaurante-secreto em 2009, no período de crise da Europa, após ter experimentado os “paladares”, em Cuba – que seguem um esquema parecido – e ouvir sobre as experiências com os “supperclubs” norte-americanos e os de Buenos Aires. Quase três anos depois do início do seu empreendimento, essa senhora que ama Marmite (uma pasta salgada à base de extrato de levedura de cerveja, muito usado na Inglaterra no pão do café-da-manhã) foi escolhida como uma das personalidades mais importantes de Londres por um jornal local.

Rodgers talvez seja a mais conhecida das chefs caseiras, mas não é a única, nem mesmo foi a pioneira dessa onda em Londres. Este posto cabe a Horton Jupiter, com o seu Secret Ingredient, que abriu três semanas antes do dela, em janeiro de 2009, com Rodgers presente e já anunciando o seu empreendimento. Além deles, há ainda vários casos e formatos de restaurantes secretos. Desde o chique e caro comandado por Jo Wood, ex-mulher do Rolling Stone Ron Wood, até o de grandes nomes da cozinha, como o português Nuno Mendes, que já trabalhou com Ferran Adrià no El Bulli, e hoje testa suas invenções no Loft, para aplicar em seu estrelado restaurante, o Viajante. A tradição teria começado ainda na década de 1930, onde se conta sobre casos de clubes de jantares experimentais em Londres no prédio modernista Isokon, onde a escritora Agatha Christie e o escultor Henry Moore seriam frequentes.

Aliás, o Brasil faz parte do passado em comum dos dois pioneiros dessa nova onda de restaurantes secretos. Eles se conheceram em uma “banda de samba” – como ela denomina – chamada Rythyms of resistance. Rodgers conta que adora música brasileira, já visitou o país, e ficou encantada com o carnaval do Rio, de Ouro Preto, e com as frutas tropicais. Já a o nosso mais típico prato...

“Comida brasileira? Hum, não gostei. Especialmente para uma pessoa que não come carne. Feijoada e aquela farinha que quebra seus dentes não são para mim.”

quarta-feira, 28 de março de 2012

Clubes privados em Londres

A Inglaterra - e Londres não poderia ser diferente - é um país baseado em uma aristocracia. Algumas pessoas são mais que outras, em algum aspecto, simplesmente porque nasceram em determinada família. Isso não quer dizer, porém, que a monarquia, em si, seja menos democrática que a república. Como já bem disse um amigo meu -dos que são mais inteligentes que eu- se pegarmos os países europeus que ainda são monarquias e compararmos com o restante do planeta, eles vão parecer infinitamente mais democráticos. Pense apenas que a maioria das monarquias aqui por esses lados fica ali no lado nórdico.

De toda forma, o monarca nesses países -ou ao menos aqui no Reino Unido-, apesar de toda a pompa, sempre se comporta como um servo dos seus súditos -como, aliás, deveria se comportar qualquer autoridade pública, que ganha o dinheiro do cidadão comum. Aqui na Inglaterra, ainda há a diferença que, segundo ouvi, a família real não recebe um real dos cofres públicos. É autossustentável. Ou seja, é só bônus sem ônus [generalizado, ok, generalizando...].

De qualquer forma, essa tradição elitista é sim bastante comum na Inglaterra -mesmo na cosmopolita Londres. Acho que a tal "fleugma" inglesa, tão propagada, tem uma de suas possíveis origens daí. O inglês se acha tão superior que não precisa se misturar com a plebe. E, quando se mistura, tem a certeza absoluta de que, por conta de sua superioridade nata, não vai ser contaminado.

Mesmo assim, é melhor evitar. Sabe como é, né. Vai que... Assim, Londres -e, eu imagino, toda a Inglaterra, e também, por consequência, os países colonizados por ingleses*- é lotada de clubes privados. "Clubes privados", a expressão, me lembra apenas uma coisa: "Eyes wide shut" e o seu baile de máscaras.

Porém, os clubes privados não são iguais entre si, nem necessariamente iguais à sequência final do derradeiro filme de Kubrick. Ou não são apenas. Aqui na minha esquina, há um, o Lyndhurst club, que se autointitula, "The Largest Japanese Gentleman's Nightclub in London" onde é possível tomar um uísque Macallan 25 anos por apenas £ 450. Ok, é caro. Melhor ficar mesmo com Jack Daniels, por £ 100. É melhor deixar claro, todavia, que eu nunca vi ninguém usando máscara nas ruas. Eles anunciam, contudo, karaokês lá dentro, com mulheres "selecionadas" [se o googletranslate funcionou direito], claro.

Outro exemplo: está rolando uma exposição com as fotos do clube da Playboy, aqui de Londres, que se vende como um espaço para se relaxar, tomar uma bebida, comer algo, conversar com os amigos, fumar um charuto e jogar. Ou seja, nada diferente até o fato de as crupiês serem coelhinhas da Playboy vestidas a caráter [veja acima].

A foto de divulgação da exposição, como se vê abaixo, é a dos Beatles com o Maharishi Mahesh Yogi e um grupo de pessoas apenas conversando. Além desse grupinho intrépido, a exposição chamada apropriadamente de "Sorry You Missed the 60’s" conta com fotos de Grace Kelly [não é um espaço só para meninos, veja só], Winston Churchill e o escritor Somerset Maugham [que devia estar bem velhinho, porque morreu aos 91 anos em 1965].

Confere o parágrafo anterior, por favor, para saber o que acontece na foto
Fora isso, "The London Magazine", que, por algum acaso, nós recebemos de graça, vem com uma reportagem de capa sobre os novos clubes só para sócios de Londres. Descreve oito diferentes espaços que podem custar de meros £ 40 por mês, no caso do Hub King's Cross, que é quase um lugar para se trabalhar, à bagatela de £ 20.000, de joias, mais a anuidade de £ 1.000, no 5 Hertford Street, que fica atrás da embaixada da Arábia Saudita [não deve ser uma coincidência] e promete privacidade com P maiúsculo. Não deve ser, mesmo, uma coincidência.

Um dos mais... hum... interessantes é "The Arts Club", que diz ter sido fundado em 1863, e ter tido entre os seus participantes gente como Charles Dickens e Rodin, além de hoje em dia ter como convivas Gwyneth Paltrow, Stella McCartney e, como DJ, Mark Ronson. Fazer parte é mole. Basta pagar £ 1,5 mil, para se juntar, depois, £ 1,5 mil por ano. Ah, e esperar a fila, que demora hoje cerca de dois anos.

Eu, seguidor da única vertente do Marxismo possível, o groucho-marxismo, costumo torcer um pouco o meu nariz para esses clubes privados, exatamente por serem privados, portanto, de certa forma, aristocráticos, se dando ao direito de não permitir algumas pessoas de entrar e outras sim, baseadas em critérios para lá de controversos. Sigo a máxima do sábio Groucho de que "I don't care to belong to a club that accepts people like me as members". Mas a História, essa senhora irônica, fez mais uma das suas. É possível ser sócio do Groucho Club, especializado em gente de mídia, no Soho.

* No "Midnight's Children", Rushdie inventa um clube em Mumbai onde os indianos poderiam se comportar luxuriamente como ocidentais, em completo sigilo e escuridão. Porém, a cada semana, um dos participantes seria escolhido por uma roleta e revelado para os demais, com o intuito de aumentar o sentimento de aventura dos participantes.  

quarta-feira, 21 de março de 2012

Natural e sedutoramente colonizadores

Ontem, a rainha Elizabeth II, ou Mrs.Windsor para os republicanos de plantão, falou no Parlamento inglês. Ela continua a comemoração do seu jubileu de diamante, pelos seus 60 anos no "poder" - acho que é a segunda monarca mais longeva na posição, só perdendo para o rei da Tailândia, que também é o mais rico da classe.

Cerimônia rápida - ela já não é mais uma mocinha, e seu marido tem quase 100 anos - mas duas passagens me chamaram a atenção. Primeiro: o discurso do porta-voz do parlamento, o conservador John Bercow, citou Gandhi, chamou mrs. Windsor de "Rainha caleidoscópica" e falou, segundo as anotações do blog do "Guardian", uma passagem controversa: "In many ways Britain is "bigger, brigher and better". People are equal under the law, regardless of how they look, how they live and how they love." Eu me lembro bem desse momento porque fiquei pensando: será que a tradicionalíssima rainha sabia que ela ia ser citada como símbolo do movimento gay? O jornalista do "Guardian" responde: "Not sure. She's still got her inscrutable expression on, so heaven knows what she makes of it".

O cartunista do "Guardian", Steve Bell, mostrou a sua versão do
presente que o parlamento deu para a rainha. 
Além disso, ela, a rainha, também falou e se dirigiu a toda Commonwealth, onde ela é a chefe - e aí, me assustei quando ela disse que a população da Commonwealth é cerca de um terço de toda a Terra. [Mrs. Windsor é monarca, além da Grã-Bretanha, de 18 outras nações, do Canadá, passando por Austrália e Nova Zelândia, até África do Sul, Paquistão [Paquistão!?] e Antigua e Barbuda.] Mas, voltando, um terço da população do globo terrestre? Quem disse que o império inglês terminou no século XIX? Claro que a função dela, como todo mundo sabe, é decorativa. Mas ela decora a imaginação de um terço das pessoas do mundo - e esse tipo de decoração é única.

Segundo o meu amigo wikipedia, o Commonwealth não é uma relação política, mas um tratado em que as nações assinam declarando respeitar certas regras e comportamentos, em relação a direitos humanos, democracia, multilateralismo, igualdade e... livre mercado. Ah, sim. Boas intenções. [Se tiver interesse em saber a lista dos "envolvidos", clique aqui.]

É perceptível como os ingleses têm uma vontade, às vezes paternal, às vezes ditatorial, de ser responsável pelo que acontece no mundo. São, como disse, natural e sedutoramente colonizadores. Não é à toa que as universidades aqui estão lotadas [eu chutaria uma porcentagem entre 30 e 40% das vagas] de chineses. Eles devem querer implantar o jeito inglês de tomar chá na China. Deve ser.

terça-feira, 20 de março de 2012

Hiperrealismo

"Scottish landscapes", de Paul Cadden [84 x 58.5 cm]
O artista escocês Paul Cadden tem obras expostas na galeria Plus One Gallery, especializada em obras de hiperrealismo, numa área chique de Londres [tipo o Leblon]. O maior espanto ao se ter contato com as obras dele é saber o material que ele utilizou: apenas um lápis e papel reciclado.

Normalmente o termo hiperrealismo é usado para obras que tem a característica de dar detalhes tão pequenos da realidade que o olho humano jamais teria capacidade de captar, sozinho. Elas vão mais fundo na captação da realidade, mostrando uma realidade aumentada, que não é a que estamos acostumados. Por um lado, não são realistas, nesse sentindo, demonstrando que mesmo a realidade, o realismo, é um conceito que aceitamos, uma construção que depende de respeitarmos determinadas regras, como, no caso, distância do objeto retratado.

No caso de Cadden, ele muda um pouco o conceito mostrando como a realidade pode ser captada por materiais mais simples, como um lápis e papel, como se dissesse que está ao alcance de todo mundo [ele usa outros materiais também]. Essa simplificação faz parte do mote principal do artista que, segundo seu site, é "intensificar o normal". Suas obras mais comuns, pelo que me pareceu, são retratos ou paisagens urbanas.

Essa "Scottish landscapes", que eu escolhi, tem outra característica e mostra como até mesmo o lixo pode ser um tema a ser explorado. Ficamos curioso em saber o que ele retratou, quais são os objetos mostrados, como ele fez, que tipo de lixo é esse que as pessoas descartam e, principalmente, porque ele chamou o lixo de paisagem escocesa. Sua obra, como se vê, não descarta a crítica.

segunda-feira, 19 de março de 2012

Irlandeses e eleição em Londres

Domingo, Trafalgar Square [uma espécie de Cinelândia londrina], de tarde. Hordas de pessoas vestindo verde, tomando cerveja preta e ostentando a maior concentração de ruivos por metro quadrado da face da Terra. Estava claro desde o início: era o segundo dia de comemoração do St. Patrick's day em Londres.

Na entrada, descobrimos que era um evento político. Em ano eleitoral, os shows foram organizados pelo mayor of London, o tory Boris Johnson, que tenta a reeleição. Do lado de fora, o labour e ex-prefeito Ken Livingston tem representantes que distribuem panfletos com a última declaração polêmica de Boris - um louro de cabelos escorridos, acima do peso, nascido nos EUA, que sempre aparece nas fotos de maneira bem estranha, e tem o hábito de cometer gafes em todos os eventos públicos que participa. A questão do momento foi uma declaração do mayor num evento chique bancado pela comunidade irlandesa de Londres para celebrar exatamente o St. Patrick's. Boris mandou, sem pensar: "I'll tell you what makes me angry... spending £20,000 on a dinner at the Dorchester [hotel] for Sinn Féin".

Boris fazendo a festa de fotógrafos e cuidando de seu cabelo. Detalhe, uma dessas
fotos é a de seu perfil no wikipedia.
Quem não ligou o nome ao partido, basta saber que o Sinn Féin é um partido irlandês de esquerda -nas duas Irlandas- e que ficou associado com o IRA, que por sua vez era um grupo paramilitar, que se autointitulava provisório, e lutava, às vezes com meios, hum, heterodoxos, pela independência da Irlanda do Norte -a outra, a de Dublin, Guinness e U2, já é devidamente independente da rainha e seu séquito. Não pegou bem nem entre os partidários conservadores de Johnson, quiçá entre os irlandeses. [Um parêntese rápido: o IRA é chamado de grupo terrorista no Reino Unido e no mundo, menos na superliberal Escandinávia, pelo que eu ouvi, que os chamam de guerreiros pela independência. Deve querer dizer alguma coisa.]

A eleição, realmente, já começou, e aqui os jornais se posicionam, com o "Guardian" a favor dos trabalhistas e o "Evening Standard", dos conservadores, para ficar nos exemplos dos jornais que eu normalmente leio. Um dia caí na bobeira de retuitar um artigo do Guardian intitulado "What has Boris Johnson actually done for London?" e fui bombardeado por seguidores de Boris na rede - como se eu estivesse fazendo essa pergunta a eles [não clicar em links, como você pode ver, não é um privilégio de brasileiros].

Mas falávamos de coisas mais amenas, como St. Patrick's e devemos voltar para ele. Boris bancou uma publicação de uma revistinha sobre o santo padroeiro da Irlanda, que foi responsável por catequizar a ilha -e, de certa forma, se pensarmos, o responsável pela católica Irlanda querer se separar da protestante Inglaterra, não?- e, ainda mais importante, segundo a publicação, por expulsar todas as cobras da ilha -ainda de acordo com a revistinha, somente Nova Zelândia e Islândia dividem o privilégio de não terem qualquer réptil rastejante que desde o Gênesis é mal vista pelos cristãos.

No palco, música e dança folclórica. E então eu pensei como conhecemos mais da cultura da Irlanda que de qualquer outro país aqui da região. O que sabemos da Escócia? Uísque, gaita de fole, kilt, Mogwai, Franz Ferdinand, Highlander...? A Irlanda tem George Bernard Shaw, William Butler Yeats, Samuel Beckett e Seamus Heaney, só para ficar nos prêmios Nobels de literatura, o mesmo número de russos e poloneses, por exemplo. Isso sem contar com James Joyce, que foi esquecido pelo Nobel, e, antes do prêmio existir, os irlandeses de nascimento, mas quase-ingleses por adoção, Laurence Sterne e Oscar Wilde -só para ficar no que a minha memória alcança. Na música, os irlandeses são conhecidos pela sua utilização de violões e todas as formas de cordas - pensar no filme "Once", por favor.

Ontem, comprovando essa tradição e essa atração por cordas conhecemos uma menina que, ao vivo, mostrou que consegue encarar uma plateia desatenta e cheia de cerveja na cabeça. Chama-se Gemma Hayes e, segundo o papelzinho distribuído, foi recentemente indicada ao Mercury prize [em 2002, me atualiza o wikipedia]. É uma menina de 34 anos, que repete a história de muitos outros músicos: nasceu numa família grande [era a oitava filha], que adorava música e optou por seguir a carreira tortuosa, largando faculdade já iniciada. Lançou quatro álbuns e suas músicas estão um tom mais agitado que o folk, de voz e violão, e o rockinho, aquele de guitarra-baixo-bateria [é uma escala clara, como se pode ver]. Ela usa violão e guitarra e é acompanhada por um baixista, um baterista e uma tecladista. Suas músicas são o que as meninas costumam chamar de fofas e os meninos fingem não gostar, mas sempre se permitem ouvir mais uma vez para não contrariá-las. Bem, melhor que descrevê-la, como sempre dizem sobre a literatura, é mostrá-la.



domingo, 18 de março de 2012

O inglês típico

Ontem fomos numa região que não parecia Londres. Tinha muito britânico. Isso, britânico, aquele povo branco, desajeitado, de bochechas rosas, que gosta de chá e fala "lovely dear" para qualquer assunto, e que costumávamos associar com a ilha e que hoje, apesar de estatisticamente ainda ser maioria, parece desaparecer no meio de tantas cores diferentes que vemos nas ruas. Londres, hoje, parece a escala pantone.

Com'on / Fulham [os de branco]
Havíamos recebido um convite de nosso único casal inglês-londrino há dois meses para assistir a um jogo de verdadeiro futebol - não essa coleção de superestrelas que lotam times como o Manchester United ou o Chelsea - o time dos ricos aqui [aliás cometi uma gafe certa vez ao criticar o Chelsea para, sem saber, um torcedor do time, que, com toda fleuma inglesa -adoro a palavra fleuma, mas acho melhor com "g", "fleugma"-, simplesmente desconsiderou meus comentários preconceituosos sobre Chelsea, ricos, partido conservador, enfim, essas coisas afins].

Antes de continuar, tenho que afirmar que quando digo que o convite chegou "há dois meses" não estou exagerando. Tenho o sms para comprovar. Como todos os ingleses -ou como aqueles ingleses que associamos com organização e estar sempre on time- eles nos perguntaram se queríamos ir ver um jogo de futebol há muito, muito tempo. Ajuda à organização deles o fato de terem uma bebezinha pequena -Rosie-, de menos de dois anos. Então, eles devem mesmo ter algum tipo de planejamento. E o fato de Rob trabalhar com cinema -ele fez o sound design de "Harry Potter", por exemplo- e, assim como nos piores empregos de jornalismo, ficar três semanas sem um dia de folga, para cumprir prazos.

Tá vendo a baleia?
Além disso, tenho que acrescentar que quando disse que eles eram os únicos ingleses-ingleses que conhecíamos, eles riram e ironicamente responderam: não somos. Porque -usaram como argumento- a mãe de Rob é sueca e o pai de Lou, espanhol. De toda forma, quem nasce e é criado na Inglaterra é inglês -assim que a constituição os trata, assim que eles se sentem.

Portanto, fomos a Putney, no sudoeste londrino, ao lado de Fulham [por algum motivo que me é estranho, não se pronuncia o "h" como "r"], mesmo nome do time por quem fomos torcer contra a potência [not] galesa do Swansea.

Essa região é tão tradicional que é onde  começa o famoso desafio Oxford x Cambridge de remo [Vamos Óquisfor!], em que as duas mais tradicionais universidades do país [do mundo?] competem há mais de 150 anos para saber quem é a melhor na água [no ensino, todo mundo sabe, é Óquisfor, mesmo que Cambridge tenha mais Nobels, tenha sido melhor representada em rankings dos últimos tempos. Quem se importa com esses critérios mundanos quando se tem certezas absolutas?]. Esse ano, o desafio é no início de abril. Voltaremos.

Chegando lá, encontramos uma outra competição no Thames -ah, sim, é no Thames que isso acontece, no "mais limpo rio em uma cidade no mundo", "no rio onde uma baleia encalhou e morreu em 2006", como me disse Rob, que, porém, não colocaria sua Rosie na água, "jamais". Vários barquinhos [por volta de 400, para ser mais... preciso] de todo o mundo na água competindo no Head on the River, que foi vencida por um barco tcheco, se eu entendi bem.

Hei, era St. Patrick's day!
Depois, brunch com um café-da-manhã quase inglês [ovos mexidos, salsicha, cogumelos, bacon, torrada, faltou só o feijão], depois Guinness [com'on, era St. Patrick's Day!] e, depois, estádio. Aí, vimos o que é, realmente, fleugma inglesa.

Enquanto os galeses do Swansea se esgoelavam torcendo pelo time deles, os ingleses-ao-cubo do Fulham muito raramente soltavam um "Come on / Ful - ham / Come on / Ful - ham", mas era tão raro, mas tão raro, que eu me senti em casa -lembrai, sou do time tantas vezes campeão que, talvez por isso, por estar tão acostumado às vitórias, não comemora nem título de brasileiro. Aliás, outro detalhe que lembra o Fluminense é a logo [repare na primeira do tricolor] e a sigla FFC - somos, os dois times, Football Club [curiosidade inútil: outros significados para o acrônimo FFC]. Eram palmas isoladas para os ainda mais raros lances bons, e um grito de "wake up, Fulham", do senhor atrás de mim, quando a vaca já chafurdava no brejo. Resultado final: 3 a 0 para Swansea. Nunca fui mesmo sortudo acompanhando o meu time no estádio, não fui quando acompanhei o Buffalo Sabres, em um jogo de hockey, não seria agora que a história, essa senhora tradicional, mudaria.

Ao fim, nenhuma reclamação pública, como cabe a um gentleman. Rob, porém, acrescentou que essa pose acaba quando o gentleman entra em casa e reclama como se fosse um bebê que perdeu o seu brinquedo favorito.

WTF?
Estava no estádio me sentindo em um pedaço da Inglaterra -ou, ao menos, de Londres- que eu não conhecia, jamais tinha passado quando, oh wait!, o que é que aquela estátua do Michael Jackson está fazendo ali no canto? Sim, isso, dentro do estádio do inglesíssimo Fulham tem uma estátua de Jacko -uma estátua feia de doer, aliás. O que ela está fazendo ali, como assim, quem foi que...? Novamente, com a palavra, Rob:

O Fulham pertence ao egípcio Mohamed Al-Fayed, sim, ele mesmo, pai do Dodi, aquele que se envolveu com a então-ex-princesa Diana, e que morreu no fatídico acidente de carro, em Paris. Ele, o dono da bola, era amigo de Michael e quis prestar uma homenagem para o cantor, que, aliás, não foi lá muito bem recebida pelos torcedores do Fulham. A família Al-Fayed, entre outros empreendimentos, é também dona da mais-que-tradicional loja da Harrods -onde há uma homenagem brega a Dodi e Diana.

Ou seja, mesmo onde procuramos o inglês típico, percebemos que estamos, desde sempre, todos misturados. Ainda bem.

sábado, 17 de março de 2012

Frases feitas, respostas nem tanto

Os ingleses têm uma palavra para aquela sensação tão comum de ter a resposta certa, mas somente duas horas depois do momento que você precisava usar. Quando eu lembrar dela, in a couple of hours, eu volto aqui e a acrescento. Até lá, vou tentar ajudar os amigos-tudo caso um dia precisarem responder frases feitas -o que eu até hoje não consigo.

Quer me quebrar é me perguntar: "How are you doing?" Acostumado com o fato de no Brasil essa pergunta ser retórica - ninguém quer mesmo saber se está tudo bem com você, apenas é uma forma diferente de se dizer oi - eu geralmente respondo com "How are you doing?" e aí rola aqueles segundos constrangedores de ninguém falar nada, os dois interlocutores um olhando para a cara do outro, eu pensando que fiz merda, o outro não sabendo se deve responder ou continuar a conversa. Já fiz atendente de telemarketing quase chorar por quebrar o protocolo.

Já foi pior. Lembro uma vez, nos EUA, um garoto me perguntando: "What's up, man?" e eu: "Sorry...?" e ele repetindo: "What's up?", e eu: "Hum... [olhando para cima] Nothing?".

A resposta que os ingleses dão é, aliás, demonstrativa de como eles se veem, ou como vemos eles, ou como eles querem que a gente os veja: sempre cool. "Not so bad", é o mais comum de se ouvir. Porque dizer que está "Good" é esbanjar felicidade, né? Esse sentimento estranho para um londrino, tão cool, tão "why does it always rain on me?" - ok, o Travis é escocês, mas vocês pegaram o ponto.

[Não, escoceses e ingleses não são a mesma coisa. Nem mesmo galeses e ingleses se misturam. Aliás, os galeses falam além do inglês, o galês -que não tem NADA a ver. Aliás2, os escoceses vão votar em 2014 se querem continuar parte da UK ou não. O tema, claro, é quente aqui, por conta dos irlandeses, do norte e do sul - aliás3, hoje é dia de St. Patrick...]

Para se despedir, usa-se o tradicional "See you later", mas, diferentemente dos americanos - que nos influenciam com o sotaque hollywoodiano e troca o "t" por um "r" - os ingleses ou falam bem fortemente o "t" de "later" ou não o falam absolutamente nada - depende da classe, da idade, da escolaridade, etc. Mas isso se aplica a qualquer palavra. "Water" vira "Uá-er", "later", "lêi-er", "matter", "má-er" - o "t" não some sempre, como já sabiam Ella Fitzgerald e Louis Armstrong na disputa por quem fala certo "tomato" [abaixo].

Por fim e, para mim, o mais complexo: como responder a "thank you"? Antes, um parêntese rápido de que eu descobri lendo a tradução inglesa de "Kafka on the shore", do Murakami, que é possível falar "much obliged" - ou seja, cada vez mais eu acho que é só colocar um "tion" no final de algumas palavras e tascar um sotaque carregado - sotaque é o mais importante - para afirmar que se sabe falar inglês.

Voltando ao "thank you". Tenho o costume de dizer: "no problem", talvez pela dúzia de vezes que vi "Terminator 2" [que falava, na verdade, "no problemO", mas que para um adolescente parecia só "problem"]. Aqui, porém, se o lugar for um tiquinho mais calça-de-linho-e-terno, o tradicional "you're welcome", que se aprende nas escolinhas, é o mais indicado. Agora, na rua, o que o povo fala mesmo é "no worries". Se eu tivesse que traduzir, seria o nosso - carioquíssimo - "tranqs". Serve também como resposta para um "sorry" quando alguém pisa sem querer no seu pé na saída do metrô lotado.

Como se vê, não é só o Japão que tem hábitos em comum com a Inglaterra. 

sexta-feira, 16 de março de 2012

Mitos e verdades sobre Londres - uma opinião

Claro que não é possível dizer o que é mito nem o que é verdade sobre qualquer país, assim, num texto de blog. Talvez nem em uma tese de doutorado. O que vou fazer aqui é comparar as minhas expectativas com o que eu encontrei até agora. Pode ser coincidência ou outro nome que queiram dar. Mas o critério é claro: a minha memória confrontando a minha memória.

"Bloody" - Parece que é uma forma de eufemismo com palavrões de verdade - tipo o que os puritanos americanos fazem com o "Gosh" - *arrepios*. Ou eu não encontrei pessoas eufêmicas ou os londrinos não falam "bloody" normalmente.

O "Daily mail" fez um trocadilho ["pun", sim, eles realmente
 fazem trocadilhos a todo o momento nos jornais] chamando
 essa montagem de Londres, de ontem, de "A tale of two cities". 
"Fog" - antes de vir, escutei que só havia a famosa neblina imortalizada nos livros do fim da era vitoriana [Dickens, Conan Doyle etc.] era resultado da queima de carvão para a produção de energia. Ou seja, seria um efeito colateral da revolução industrial, ainda na sua primeira fase [lembrai que ela começou aqui, em Manchester], e não seria natural, portanto. Bem, ela existe. Talvez porque ainda não deixamos de usar combustível fóssil, apesar de tanta campanha contra o aquecimento global. O fato é que ainda encontramos, vez por outra, essa neblina densa, que apaga o outro lado da rua. Parece, para mim, leigo, entretanto, apenas vapor d'água.

"Indeed" - Se fala, claro, mas não a todo momento. São muito mais criteriosos que o senso comum aplica. Ouvi pouco. Há um caso, porém, que vale o registro. É fácil escutar as pessoas falarem "thank you very much indeed" - como se quisessem deixar claro que querem agradecer. A minha teoria é que "thank you" sozinho ficou tão banalizado, se fala a todo momento, que acabou perdendo a sua verdadeira vocação de agradecer. Daí se colocou o "very much" para dar uma entonação de, agora é de verdade, porém, ele também caiu no uso comum e perdeu toda a força que tinha. Daí, agora as pessoas tascam o "indeed" para deixar claro que se ela falou isso tudo ele realmente quer agradecer. Acho que o processo é o mesmo que aconteceu com o espanhol "chiquitito".

"Mate" & "fellow" - Fala-se, a toda hora. "Fellow" é uma espécie de terceira pessoa do singular não oficial. Quando quer falar sobre alguém ausente, ele é "fellow". Já "mate", é a segunda pessoa, com quem se está falando.

"Cheers" - Esse, então... Já está totalmente no sangue. Para qualquer, mas qualquer coisa mesmo, como sinônimo de agradecimento informal, como no famoso "cheers, mate", dito para o garçom do pub que acabou de te servir uma "ale". Acho que é o mesmo processo que aconteceu com "valeu", no português do Rio. Usa-se a todo momento. E, igual a "valeu", quando queremos agradecer verdadeiramente à pessoa, acrescentamos um "thanks" em seguida.

"Excuse me" & "sorry" - acho que se uma pessoa vier para Londres só sabendo falar essas duas palavras e "thank you", consegue viver um bom tempo sem nem perceber que precisava de inglês. Fala-se tanto e a toda hora que às vezes a pessoa junta as duas para pedir licença e desembarcar do metrô lotado do rush.

Imigrantes - dizem que Londres é a cidade com o maior número de línguas - segundo matéria que li do "Guardian", eram 300 diferentes. Além disso, 30% da população não nasceu aqui. Em alguns lugares, você se esquece que está na Inglaterra. Já falei que em Wembley há anúncios para as pessoas não cuspirem no chão - um costume dos indianos que mascam o paan [um enrolado de diversas sementes e sabores para mastigar e sentir o gosto, mais ou menos como se fazia com o fumo de rolo.] Em Brixton, os cabeleireiros são todos especializados em penteados afros. Londres é incrível exatamente porque você pode conhecer o mundo, sem sair da sua cidade. E, aparentemente, os ingleses-ingleses, aqueles de pele branca e bochecha rosada, gostam disso também.

Mesmo que pareça apetitoso, aconselho: evite fish and chips.
"Fish and chips" - A comida inglesa-inglesa é difícil de se encontrar, mas, quando se acha algo verdadeiramente inglês, e bem feito, é incrível. Esqueça, por favor, o "fish and chips", que só os ingleses-ingleses comem. Opte, por favor, pelo "roast" de domingo - servido em qualquer pub que se preze. Em vez do fish and chips, faça como o resto da Europa, coma um kebab.

Island and Continent - sim, há claramente uma divisão entre a UK e o resto da Europa. Primeiro porque a UK é uma ilha. Depois, por causa do dinheiro [pounds x euros]. Mas, principalmente, porque os ingleses podem até ser agregadores, mas eles gostam mesmo é de fazer as coisas sozinhos. Sempre, como exemplo, podemos citar o anúncio de quase todos os pubs que dizem que têm "real ales" e "continental lagers". Faz todo o sentido.

terça-feira, 6 de dezembro de 2011

Entendendo os riots

"[...] Em vez de achar que é o fim do mundo, as pessoas deveriam achar que essa é a uma ótima oportunidade para se pensar os problemas da sociedade inglesa." Assim, eu deixava uma sugestão singela, ainda no calor dos riots, sobre o que se devia fazer para entender o acontecimento e, por consequência, o seu entorno - isto é, a Inglaterra.

Parece que eu não fui o único a pensar isso. O "Guardian" começou a publicar uma série de reportagens sobre o evento que aconteceu no verão e assustou a tão resguardada sociedade inglesa. Junto com um laboratório de jornalismo de uma universidade local, eles entrevistaram um grupo de pessoas que participou da série de quebra-quebras e protestos e chegaram a conclusões diferentes das publicadas na época.


Para começar, eles não concluíram que houve um motivo, mas vários. Entre eles o horror à polícia - eles alegam que há uma perseguição -, incerteza sobre o futuro, grande marasmo, falta do que fazer, e até a simples vontade de roubar, de ter certos produtos que eles não teriam grana para comprar. São explicações bem genéricas, porém bem longe das conclusões de que os riots eram coisas de gangues, como se chegou a ser dito. Ou que eram coisas de gente pobre, adolescente, sem instrução, da população negra. Eles até são pobres, adolescentes, sem instrução e negros, na sua maioria, mas em nenhum momento usam isso como justificativa para os ataques. Enfim. Bela reportagem.

quinta-feira, 24 de novembro de 2011

Contra o porte de armas

Como se sabe, a polícia inglesa não usa armas - só em situações muito, muito raras. Há até uma reclamação da falta de energia no combate à criminalidade em episódios como os riots, em que os policiais só foram autorizados a usar balas de borracha depois de dias de confusões, o que foi tido como pouco efetivo.

Essa semana, os jornais começaram a falar sobre o pedido do chefe da polícia para que todos os agentes metropolitanos usem uma arma que dispara dardos que dão choque. A razão para tal seria o fato de alguns policiais terem se ferido gravemente na tentativa de parar um suspeito armado com uma faca de açougueiro. Outros meios de comunicação, por outro lado, disseram que tal proposta recebeu críticas de ONGs, como a Anistia internacional.

Mesmo sabendo dessa tradição de não ter armas, esse cenário é curioso para quem veio de um país onde todos soldados PMs podem ter qualquer arma - e geralmente usam dessa prerrogativa para ter logo rifles de guerra, para "combater", nas palavras mais comuns, os "soldados do tráfico". Realidades diferentes, me dirão. Eu, que ignoro a realidade, prefiro falar, agora, sobre os frios números, que provam o que nós quisermos provar. Vou provar, então, que menos armas querem dizer menos homicídios.

Não pode ser coincidência que a Inglaterra tenha uma das menores taxas de homicídio por arma de fogo no mundo. Em 2000, ficava em 0,12 para cada 100.000 pessoas. Para efeito de comparação, o Canadá tem 0,54, a Finlândia tem 0,43, a Dinamarca, 0,26. Do outro lado da tabela, a Colômbia fica com 51.77. O nosso Brasil brasileiro fica com 18,2, nesse mesmo período - até 2008, a conta não tinha mudado muito. Se juntarmos outras formas de homicídio, a taxa inglesa sobe para 1,45, ainda abaixo do Canadá, por exemplo [1,58].

No mesmo ano de 2000, o Brasil apresentava taxa de 26,7 [a atual é um pouco menor: 25,6]. Se dividirmos por estados, e pegarmos o Rio como exemplo - porque está mais à mão - ficaremos impressionados que, em 2000, a taxa de homicídios só por armas de fogo era de 42,6. Nos últimos anos, tem melhorado e o número de 2008 foi 23,9 - mas, ainda assim, altíssimo. De todos os homicídios em 2008, 81,4% eram cometidos por armas de fogo - o segundo maior número do Brasil. Voltando ao exemplo inglês, essa taxa fica em 8%.

Nos últimos anos, em números absolutos, as taxas de homicídio no Brasil só tiveram queda em 2004. Caíram de novo em 2005 e depois voltaram a crescer em 2006, caíram novamente em 2007 e subiram em 2008.

Vou me permitir interpretar esses números, do meu jeito. Vou afirmar que a queda de 2004 foi exatamente no ano seguinte ao da promulgação da nova lei do desarmamento. E que a subida de 2006 foi logo após o plebiscito que propunha acabar com a venda de armas do Brasil, mas que foi encampada por setores da imprensa como uma forma de interferir nas liberdades pessoais.

Lembro da minha mãe falando que a polícia inglesa era a melhor do mundo e não precisava usar armas para isso. Usava a inteligência. Mesmo que o mundo não seja tão mais inocente desse jeito - e casos como o de Jean Charles nos dão provas disso - continuo achando que um mundo sem armas seria melhor.

Tive três parentes de primeiro grau que foram mortos por armas de fogo - todos pobres, todos moradores da periferia, mesmo que uma periferia no meio dos centros mais ricos. Dois deles [um tio, irmão da minha mãe, e um primo, filho de uma irmã de minha mãe] não eram próximos, eu pouco tinha contato. O terceiro [também um primo, também filho de outra irmã da minha mãe] era bem próximo, talvez o meu primo mais próximo. Poderia estar usando esses casos para fazer proselitismo. Mas não é o caso. Estou usando apenas a matemática.

terça-feira, 22 de novembro de 2011

A grande farsa do aquecimento global




Fé tipo exportação

Não tenho nenhuma conclusão sobre o assunto, nem mesmo uma teoria. Todavia, não deve ser apenas coincidência que eu já tenha encontrado uma Igreja da Nova Vida [em Kensal Rise], uma Assembleia de Deus [perto de Paddington] e uma Igreja Universal do Reino de Deus [em Kilburn] aqui. O sistema de franquias da religião está expandindo para a velha Albion.

Uma curiosidade: todas essas igrejas ficam em áreas menos abastadas.

domingo, 20 de novembro de 2011

Leste europeu

Ontem, fomos ao "London Jazz festival", para ver uma banda que não tem nada de jazz: Emir Kusturica [descobri que se pronuncia "kusturitza"] & No Smoking Orchestra. Resumindo em uma linha: é tudo o que o Gogol Bordello queria ser, mas nunca teve suavidade para tal. Não quer dizer que eles sejam "suaves" no palco - não, usam do esquema balcãs + ciganos + punk + danças estilizadas + recursos pirotécnicos + um vocalista elétrico + interação com o público + músicas incidentais. Porém, usam de mais delicadeza, de mais inteligência, para tratar desses... temas, desses assuntos. Talvez porque contam com o moço que dá nome para metade da banda, o tal Emir Kusturica, que, para quem não sabe, é duas vezes ganhador da palma de ouro de Cannes [só vi dele "Underground", que é de uma loucura muito saudável].

De qualquer forma, como dizem aqui, não é o meu "cup of tea". Não me empolga. É um show animado, em que as pessoas sobem ao palco, que o violinista toca seu instrumento usando a boca, que o guitarrista faz um truque com a guitarra... mas, ao fim, pensamos mais nesses recursos que na música em si. O bielorusso que estava conosco ficou revoltado porque, em tom de galhofa, esses sérvios, ex-iugoslavos, que sacaneavam o marechal Tito em Belgrado, tocaram o hino da União Soviética. A russa nem reparou, assim como o búlgaro - que fazia aniversário de 23 anos - e a romena, que tem 22. Imagino que eram muito novos para saber o que foi viver sob a cortina.

Todo o ingresso, contudo, já tinha valido a pena na banda de abertura. Com o péssimo nome de Gabby Young and other Animals [Gabby é a vocalista, uma branquela, com cabelos ruivos de comercial de tintura, que domina completamente o palco, desde o primeiro instante], eles também misturam a tradição do leste europeu, mas muito mais vezes passada pelo filtro de ingleses que vivem numa Londres multicultural, sim, mas que tem uma fortíssima tradição na música pop. É simplesmente incrível. O mesmo bielorusso disse que foi a melhor banda de abertura que ele já tinha visto na vida. As pessoas, no intervalo, ficavam cantando o refrão da última música ["Whose house", incrível]. Melhor que ler sobre, é ouvir.



ps. semana que vem temos uma festa "gipsy". Já sei como importunar o DJ.

quarta-feira, 16 de novembro de 2011

Roda

"É isso, então. A partir de agora, esse é o meu trabalho, é o meu foco, é onde eu mais vou depositar forças. Esses livros, esse esforço, isso. Essas setenta e poucas páginas que eu vinha rascunhando até agora despreocupadamente, sem qualquer pretensão além de passar o tempo, de criar algo que não fosse melancólico. Isso. É onde eu passarei mais tempo. Onde eu vou pensar quando estiver em outros lugares, o que eu vou acordar para fazer.  Vou me esforçar para fazer os melhores livros que eu puder. E vou me considerar uma escritora – não sei se boa, ou ruim, isso depende de como vou ser avaliada. Se as pessoas todas podem escrever, todas poderiam ser escritoras, assim como todo mundo que sabe matemática poderia entrar numa faculdade e ser engenheiro. Claro que estou generalizando, aproximando situações aparentemente distantes demais. Escritor não precisa passar por qualquer faculdade, estudar qualquer coisa, para ser. Apenas precisa escrever. E por que as demais pessoas não escrevem? Porque não querem. Porque ninguém produz conteúdo. Hoje, só se compartilha, se passa. Ninguém absorve, apenas é uma corrente, um impulso para que a roda que não pode parar continue a girar. A roda que esmaga quem não corre mais rápido que ela. A roda que vem atrás perseguindo. E quanto mais rápido se corre, mais rápido ela gira, e mais rápido ela se aproxima e aí você tem que correr mais rápido. É cada vez mais assim. Eu quero sair da roda, quero ficar ao lado, deixá-la passar. E se perdê-la de vista, dar de ombros. Não me importo com ela. Ela é o cão correndo atrás do rabo: nunca se chegará a nada. É a certeza de que, sem ela, a vida fica sem sentido para o mundo, perigosamente sem sentido. Corre-se porque não há outra alternativa, porque “sim”, porque não sabe o que seria se parasse, porque tem-se medo, porque a causa vira consequência, porque se parar, é amassado, fica para trás. Porque se parar, perde-se o emprego, fica-se isolada, perdida. São os fantasmas que rondam a roda. Eu quero sair, sentir o meu pulso, conhecer a minha velocidade, sem ter nada imposto de fora para dentro. Quero aproveitar a minha vida do meu jeito, sem nada nem ninguém dizendo o que eu devo estudar ou ler, ou no que devo trabalhar."

sábado, 12 de novembro de 2011

A última ceia, de Leonardo

Na exposição da National Gallery sobre o Da Vinci, a maior exibição da história sobre o renascentista, há uma ausência clara. Não é a "Mona Lisa", que não foi produzida no período em foco - quando Leonardo vai para  Milão, sob o comando de Sforza. Mas a "Última ceia". Por motivos óbvios, não foi possível transladar uma das paredes do convento onde o artista pintou diretamente sua obra. De qualquer forma, há duas maneiras, entre diversas, de ter contato com "Il cenacolo", como os italianos a chamam [italiano, para demonstrar uma espécie de posse pela tradição, de familiaridade com as produções de seus conterrâneos, tende a chamar certas obras por outros nomes que não os mundialmente conhecidos, como é o caso de "La Gioconda"].

Além de diversos desenhos de estudos para se chegar às expressões diferentes de cada um dos apóstolos e de Jesus, há uma cópia do original, impressa na parede de entrada que [se a original já está bastante degradada] está bastante esmaecida. E uma cópia produzida por um dos seus discípulos, feita logo depois da obra começar a se deteriorar. Nessa segunda versão, de Giampetrino, porém, falta toda a graça natural que emana da obra de Da Vinci. Os personagens são quase grosseiros, os movimentos são bruscos, tudo parece talhado em madeira.


De qualquer forma, é muitíssimo impressionante comparar - e imaginar - as reações de cada um dos apóstolos ao escutar que um deles iria trair o salvador. Em Mateus 14:18-20, há a famosa passagem:
"E, quando estavam assentados a comer, disse Jesus: Em verdade vos digo que um de vós, que comigo come, há de trair-me. E eles começaram a entristecer-se e a dizer-lhe um após outro: Sou eu? E outro disse: Sou eu? Mas ele, respondendo, disse-lhes: É um dos doze, que põe comigo a mão no prato." 
Gosto dessa porque há a indicação de que os apóstolos ficaram tão assustados que começaram a se perguntar - e a perguntar a Jesus quem seria o traidor. E é possível ver essa reação em alguns personagens, principalmente em André - o terceiro, da esquerda para a direita, ou Filipe, o quarto, da direita para a esquerda.

Aliás, fiz uma ligeira pesquisa para saber se as reações refletiriam o comportamento, a psiquê dos apóstolos e descobri que a Bíblia não traz muitas informações sobre a maioria - coincidentemente, ou não, os que estão mais nos cantos da tela. O que se sabe, baseia-se em lendas, ou em informações posteriores. Pela fonte que eu consultei, também há uma informação de que há poucas referências ao número de "12" apóstolos - mas há textualmente o nome de cada um deles, em certas passagens bíblicas. Isso me levou a imaginar que "12" poderia ser um número para "nem muito nem pouco", assim como, no inglês, existe o "couple", que pode ser um "par", mas também "um pouco". De qualquer forma, temos sempre que lembrar que a Bíblia não foi escrita nos anos seguintes à morte de Jesus - se esse personagem existiu, mesmo - e pode-se ter sido usada a informação que se queria.

O que podemos nos assegurar é que havia um livro, um livro famoso, muito lido, onde Da Vinci poderia se basear e nesse livro não havia muitas informações sobre os personagens secundários. O artista teve que imaginar como seriam aqueles homens de biografia obscura, de personalidade desconhecida. Olhando para a cópia sem-graça de Giampetrino, fiz um outro exercício: imaginar o que cada um estava pensando. A ordem será da esquerda para a direita, da posição da cabeça, não do corpo na mesa.

O primeiro é Bartolomeu. Soube que seu nome pode ser apenas uma corruptela de Bar + Ptolomeu, sendo "bar" a expressão usada por hebreus para designar o "filho de", e "Ptolomeu", portanto, o nome de seu pai. Não é de se estranhar que ele tenha um pai com nome grego no meio da Judeia - as cidades da Grécia ainda tinham bastante influencia sobre a região, e era comum adotar um nome grego - imagino é parecido com a atual influência americana no Brasil, e a francesa, no início do século xx. Bartolomeu se levanta, revoltado, perguntando "o quê?", como isso poderia ter acontecido, querendo tomar satisfação.

Tiago, o pequeno, um dos mais obscuros, está boquiaberto. Aparentando ser bem novo [não era o mais novo, este era João, do lado direito de Jesus] parece querer chamar Pedro, o mais velho, como se pedisse conforto de uma voz mais experiente, que lhe disse que tudo não era verdade, como um filho que busca o pai quando tem um pesadelo.

Em seguida, André, irmão de Pedro - que está ao seu lado. Levanta as mãos, como em sinal de defesa, como se quisesse afirmar que não tinha sido ele, mas vira o rosto em contradição: "agora chega, acabou". Os dois tinham uma empresa de pesca, em que alugavam barcos, e trabalhavam com João e Thiago, o maior, também pescadores.

Depois, Judas. O único que não está de frente para o espectador. Sua expressão é vista de soslaio. Dizem - mas não é possível ver nas cópias - que sua musculatura está tesa, demonstrando tensão. No pouco rosto que podemos ver, está nervoso, como se tivesse sido descoberto, mas também surpreso. Na cópia de Giampetrino, segura um saco de sal - supõe-se -, como se fosse a única coisa sólida a se apoiar, ou como referência ao dinheiro que receberia para delatar Jesus.

Pedro, cujo nome original é Simão, mas que Jesus lhe rebatizou, para fazer um trocadilho, ao afirmar que sobre Pedro [petrus é pedra, rocha, tanto em latim como em grego] ele iria erguer sua igreja, parece puxar João para perto dele, como se lhe quisesse lhe dar um sermão. Ou Pedro usa o ombro de João para tentar chegar perto de Jesus e o proteger. É considerado o mais temperamental, mais enérgico. Pedro, João e Thiago, o maior, são visto como os apóstolos mais queridos de Jesus. Os que, quando Jesus queria se dirigir a poucas pessoas, eram escolhidos. Pedro vai ser o fundador da Igreja Católica, mesmo sem ter conseguido fugir da profecia de que iria renegar Jesus três vezes antes do galo cantar duas; João, apóstolo evangelista, como Mateus, e Thiago terá a lenda de Compostela para ornar sua biografia futura.

João, por sua vez, parece escutar placidamente o que Pedro tem a lhe dizer. Ou parece desfalecer - é o mais novo, estaria menos preparado para as artimanhas dos seres humanos. Ou parece meditar sobre a informação que acabam de lhe passar, como as mãos cruzadas à sua frente sugerem.

Tomé - ou Tomás - é o que só acreditava vendo, que, depois, só reconheceu Jesus quando tocou em suas chagas. Ao contrário de sua versão materialista, ele aponta o céu, como se dissesse que Deus não permitiria tal coisa, ou como se estivesse esbravejando contra esse traidor, que ainda nem tinha traído.

Thiago, o grande, é, para mim, a melhor figura: braços abertos, expansivo, enérgico, sanguíneo. Quer resolver o problema dele naquela hora. Quer que Jesus lhe diga quem é o traidor que ele vai ter uma conversinha com ele. Aparentemente, há uma passagem que ele já tinha se comportado com essa energia, na Bíblia - o que é curioso é saber que o seu irmão, que na pintura quase desfalece, teria também tomado essa atitude mais drástica no episódio pregresso relatado.

Filipe é outro que pergunta se será ele a trair Jesus, numa atitude até bastante defensiva, para não dizer covarde, como se se oferecesse para o martírio em seu lugar, como se já estivesse com vergonha da própria atitude, mesmo que não soubesse com certeza.

Mateus, o outro evangelista, que era um agiota, pergunta para Simão [o último] "como é possível que isso esteja acontecendo?" Tadeu também faz a mesma pergunta, mas, insinua alguma resposta, reflete sobre o que ouviu e Simão está completamente perdido.

E assim os apóstolos foram imortalizados.

Se a versão de Giampetrino funciona bem para termos acesso a detalhes sumidos - como os pés de Jesus, por exemplo - em comparação com a original, ou mesmo com a cópia fotográfica do original, podemos perceber como ela é menor. A de Leonardo, mantém um certo mistério, uma delicadeza que não se vê na sua versão.

Leonardo, o procrastinador

Dizem que Leonardo da Vinci era uma pessoa muito dispersiva. Começava um trabalho e logo era distraído para fazer outra coisa, e deixava inacabado o trabalho inicial. De seus quadros, quase todos não estão finalizados, em diferentes modos de acabamento. Há histórias de que ele teve que voltar quase uma década depois para acabar o quadro que iniciara e já tinha sido pago – o caso da segunda versão da “Virgem das rochas”, por exemplo. Em outros casos, era comum que ele desenvolvesse um material para ser usado na pintura que se conservasse fresco por um tempo maior, para que ele pudesse produzir suas obras na velocidade que ele quisesse. Poderia dar uma pincelada hoje e ir para casa. Passar uma semana fora, voltar, e apenas observar o que já tinha sido feito, refletindo sobre o próximo passo a dar. Retornar no dia seguinte e passar quatro dias pintando, sem se alimentar de nada. Afirmam que esse foi o caso da “Última ceia”, e, inclusive, o motivo da sua ruína: ter usado uma mistura de tinta a óleo com ovo que pereceu em poucos anos.

Leonardo é ainda hoje um personagem curioso. Se por um lado é visto como o grande nome do Renascimento, quase uma síntese desse movimento, um homem que trafegava por áreas de atuação das mais variadas possíveis, por outro, esquece-se que, até os 30 anos – já uma idade avançada, para a época, salvo em casos exemplares e exceções, como Michelangelo, que viveu mais de 90 anos – ele não tinha produzido nada realmente relevante no campo da pintura para ser considerado um gênio. Quando se oferece para o Sforza, o duque de Milão, se vende – no sentido de mostrar suas qualidades – como um engenheiro [segundo a maioria das versões que eu ouvi], como alguém que conseguia produzir equipamentos militares, armas que tornariam a cidade-estado mais poderosa.

Sforza era um homem que não estava na lista da sucessão do trono, mas que dá um golpe no seu sobrinho, de 7 anos, filho do seu irmão mais velho que acabara de falecer, e sobe ao poder. Era um homem educado nas artes militares, o que não era comum entre os príncipes distantes do verdadeiro comando. Eles geralmente estudavam apenas o clássico: artes, línguas, matemáticas. Por isso, talvez, ele aproveita o talento artístico de Leonardo para recriar, ou emular, a academia de Platão, com Da Vinci como chamariz principal, e principal nome. Foi o primeiro a descobrir a força dessa “marca” – e a partir de então, o mundo vem venerando.

terça-feira, 8 de novembro de 2011

Colective Hypnotic Brass Ensemble

Era a segunda vez que íamos ver o Hypnotic Brass Ensemble - a primeira tinha sido no Canecão, durante um PercPan, em que os oito irmãos dos sopros mais o baterista não fizeram muito sucesso. O motivo: eles tocaram pouco e fizeram muita gracinha para o público. Coisas do nível turma da Xuxa: “quem é o mais animado, o grupo da esquerda ou o da direita?” Ou, “vamos dar uma abaixadinha; agora levanta e toque o céu”. Ou, “acenda o seu celular porque a próxima música é lenta”. Cenas de constrangimento explícito, ou porque os brasileiros não os entendíamos direito, ou porque o público carioca desse tipo de evento / show é blasé demais para se imaginar numa micareta.

Os irmãos Cohran fazem a sua dança de desenho animado
Aqui, em Londres, ontem, no meio da principal rua de Camden, o bairro mais boêmio que conhecemos até agora, dentro de uma casa de shows intimista chamada Jazz Café, entretanto, foi completamente diferente. A plateia, que já estava devidamente aquecida pela Hackney Colliery Band, obedeceu a todos os comandos, para o delírio dos meninos [são todos muito novos] e nossa surpresa.

Era o último show da Cath Roberts, que toca aqui o saxofone barítono, igual
o da Lisa Simpson, ao lado de seu amigo Tom Ward
Assim como o Hypnotic, os garotos e o coroa de Hackney são nove músicos, mas com dois na percussão. São todos bem novos – assim como os meninos de Chicago – com a exceção do senhor que toca o sousaphone [um tipo de tuba usado por bandas de sopros, feito para locomoção], Jeff Miller, que era o mais animado de todos. Como eram razoavelmente desconhecidos, fizeram um show curto, de pouco mais de uma hora, optando por diversos covers, em versão sopro, como uma música do Kings of Leon. Fizeram bastante sucesso numa plateia que não estava ali para vê-los, a ponto de pedirem bis.

Logo em seguida, por volta das 21h30, subiram os nove americanos com cara de gangsta rappers. Cumprimentaram as pessoas da turma do gargarejo e, antes de começar a tocar, foram conversar com as pessoas. Nossas esperanças de que eles tocassem mais e falassem menos estavam fadadas ao fracasso. Todas as gracinhas do Brasil se repetiram, além de outras como uma competição de rima, uma discussão com a produção por conta da luz e do retorno, uma piada em relação aos pedidos recorrentes da plateia para tocarem seu principal hit [“Nós somos contra ‘War’, nós somos de paz”], e o pior momento de todos: quando vários irmãos decidiram tirar a camisa e mostrar seus músculos mirrados e suas tatuagens de presidiários americanos.

'Tira a camisa' [da esquerda para direita: Yoshi, Smoov, Hudah - nos trompetes - e
L.T. no sousaphone - vai dizer que você não chamava esse instrumento de tuba?]
Contudo, talvez por terem mais identificação com o público, suas brincadeiras acabaram na metade da apresentação. Na segunda parte, aí sim, eles mostraram por que são referência de um jazz que não é velho, que não é esnobe, que não é para “apreciar”, que é, como sempre foi no início dos tempos, para se dançar, para se largar, deixar o corpo enlouquecer com a metaleira. Se até o meio, a cada interrupção eu temia que o menino que tocava o sousaphone [L.T.] desplugasse o seu microfone – era a dica de que a falação iria começar –, do meio para o fim, eu me despreocupei: quase não houve parada. E, até as dancinhas que eles insinuaram nesse segundo capítulo foram simpáticas. Aliás, o jeito de eles tocarem, com movimentos sincronizados, de um lado para o outro, é quase uma marca registrada. Lembra aqueles desenhos animados da década de 1970 em que, por falta de frames, se repetiam uns dois, dando um ritmo com relação à música – o que é bem divertido.

[Acho que...] Rocco, em seu momento rapper
Uma hipótese que apareceu para explicar esse comportamento deles foi: eles têm uma influência forte do hip hop, em que os MCs são, como o nome em português sugere, mestres de cerimônia. São jazzistas mas queriam ser funqueiros. No fundo, sem saber, são a mesma coisa.

segunda-feira, 7 de novembro de 2011

Laurence Sterne's body snatcher

Laurence Sterne e o seu "Tristram Shandy" apareceram novamente na biografia de Schopenhauer - e apenas nessa segunda oportunidade houve uma nota de pé-de-página contextualizando quem era esse tal de Sterne - ou, apenas nessa segunda oportunidade a nota era tão esdrúxula que me chamou a atenção para ela a ponto de não me fazê-la esquecer. Dizia que o cadáver do escritor havia sido roubado e vendido para estudos, quando foi reconhecido, no momento da dissecação, pelo professor de anatomia da Universidade de Cambridge, que seria amigo de Sterne, e que providenciou um segundo enterro para ele. Típico caso que se pode aplicar o epiteto que serve de título para o "Quincas Berro D'Água": a morte e a morte de Sterne.

A questão é: por que o tradutor da obra decidiu que essa seria uma informação interessante para se ressaltar e tentar explicar quem era Sterne? Ele já tinha dito que o escritor também era um pastor, que tinha nascido em uma cidadezinha irlandesa, já tinha dado o ano de nascimento e morte - assim como ele tinha feito com diversos outros nomes aparentemente desconhecidos para mim - e resolveu acrescentar a informação sui generis sobre o destino de seu corpo. Por que ele fez isso?

Já tinha lido - até no "Lonely planet" - que os "body snatchers" eram um problema grave na Inglaterra até o século xix. Há diversos artigos na internet contando sobre esse episódio estranho da história inglesa - de como os mortos eram desenterrados e vendidos para as faculdades de medicina, para serem usados nas aulas de anatomia, e de como isso foi chocante quando se tornou público. Há, aliás, uma insinuação que o fato de terem descoberto Sterne teria motivado essa mudança de comportamento, criando até uma lei que proibia essa prática mórbida. Outros textos tentam - não justificar, mas - contemporizar afirmando que, por conta desses cadáveres roubados, a medicina progrediu bastante [não vamos entrar no mérito dos fins justificando os meios].

A questão de Sterne, apesar de descrita com bastante clareza na nota do livro, não aparece exatamente dessa maneira em seu verbete no "Guardian", que chama o fato de "lenda" e conta teria sido um aluno a reconhecê-lo, não um professor. De qualquer forma, seu "Tristram Shandy" já era um dos livros mais famosos em toda a Europa - não apenas na Inglaterra - no momento do lançamento. Sterne, portanto, não era alguém completamente desconhecido - talvez, não fosse um rosto comum, numa época em que a cultura de celebridade não era, assim, tão avançada, mas, no meio de um público escolarizado, como a faculdade de medicina, era possível que houvesse alguém que soubesse como era o seu rosto.

Uma suspeita para a responder à pergunta do motivo que levou o tradutor da obra de Rüdiger Safranski a comentar o caso em seu espaço: William Lagos achou curioso, curioso a ponto de querer dividir a história com outras pessoas. O nascimento da literatura, propriamente dito, tem essa conotação. O cara que achou que tal história era boa o suficiente para compartilhar com outras pessoas. Ele apenas cumpriu uma função de passar adiante o conto.

sexta-feira, 4 de novembro de 2011

Das vantagens de se ter uma TV

Desde que chegamos aqui, ouvimos diversas pessoas dizendo que os ingleses não trabalham tanto como os brasileiros ou os indianos. Tivemos um exemplo na hora de tentar instalar o combo da sky para tv, internet e telefone. A companhia terceirizada responsável pela televisão veio aqui duas vezes, mas arranjou desculpas em ambas para não resolver o problema. Conclusão: cancelamos a assinatura e optamos por uma tv de graça - precisamos apenas comprar uma caixa de decodificação do sinal para o digital [cara] e cabos hdmi [caríssimos], além de ter que montar nós mesmos o esquema. Internet e telefone, fomos para outra companhia, que marcou de começar o serviço no dia 18 de novembro...

De posse da tv, tivemos algumas surpresas, though. Por ser um país em que a televisão pública é forte, rica e razoavelmente independente, a programação não respeita apenas a diretriz da audiência. Anteontem, nosso primeiro dia com televisão em casa desde a nossa mudança, no horário nobre, enquanto a BBC1 passava um documentário sobre animais marinhos, a BBC2 mostrava como está o Paquistão, depois de tanto tempo sendo associado a um celeiro de terroristas. Não imagino nada parecido no Brasil - seja no âmbito de ter dois canais para poder passar o que quiser [na verdade, eles têm quatro], seja na escolha dos assuntos a serem transmitidos.

A melhor surpresa, porém, foi ver, ontem, também em horário nobre, o filme "Life in a day", do diretor [razoavelmente desconhecido] Kevin Macdonald. Razoavelmente, porque ele já fez, entre outros, "The last king of Scotland", que ganhou uma bela repercussão. O longa de uma hora e meia, mais ou menos, produzido pelo Ridley Scott [esse sim, grande nome] ficou famoso, antes mesmo de ser lançado, porque pedia a colaboração de internautas do mundo inteiro para sua produção. Quem quisesse, deveria se filmar, ou produzir algo de caráter pessoal, no dia 24 de julho de 2010 e enviar para eles. Segundo minha amiga Wikipedia [há, aliás, uma bela homenagem à enciclopédia no filme], foram enviados mais de 4,5 mil horas de filmagens, e 80 mil arquivos de 140 países. Estreou recentemente em Sundance e, a partir do último dia 31, estava disponível no youtube [vide abaixo]. Passar na TV aberta, com um gap de poucos dias para o lançamento na internet, com qualidade de imagem incrível, e no conforto do sofá, mostra que a TV pode ser, ainda, incrivelmente surpreendente.



Sobre o filme. A grande dúvida que tivemos era se foi utilizada alguma imagem de apoio. Os takes eram tão bonitos, tão bonitos, que duvidamos que as pessoas pudessem ter produzido um material tão incrível. Aparentemente, só usaram mesmo os vídeos enviados - o que me faz renovar a fé no ser humano, de certa forma.

A proposta dos produtores era mostrar um dia na vida da humanidade - um dia aleatório. O primeiro sábado após o fim da Copa do Mundo, como disse o editor Joe Walker para a "Wired". Por isso, se eles começam "cronologicamente", mostrando a noite, o nascer do sol, os diferentes e, ao mesmo tempo, similares hábitos matinais de cada canto do planeta, depois, eles tomam outros caminhos.

Os vídeos mais dramáticos são privilegiados, mas sem deixar de lado o humor e mesmo uma certa leveza, mesmo quando os assuntos mais carregados são mostrados - aparentemente há alguns temas centrais, ou vídeos que aparecem mais, para dar uma sustentação no todo, para criar uma espinha dorsal do projeto, como a família cuja mãe está enfrentando câncer, ou o coreano que está andando de bicicleta pelo mundo há seis anos.

O diretor optou por usar música externa, mas aproveitou quando os próprios personagens estão cantando ou fazendo uma música própria, como quando mostram mulheres africanas que, ao socar a farinha, cantam e batucam ritmadamente.

O filme também não fugiu do zeitgeist, pelo contrário. Quis mostrar quais eram as preocupações das pessoas nesse exato dia. Faz, por exemplo, uma comparação entre um fotógrafo que vive no Afeganistão, que tenta mostrar, apesar dos pesares, como a vida continua em Cabul, e uma mulher americana cujo marido está lutando em uma guerra fora do país. Ou mostra um cara que está sofrendo com a crise imobiliária americana, que até hoje reflete na economia mundial.

Esse esquema de "claro-escuro", em que se compara uma situação com o seu oposto é diversas vezes utilizado, como quando se coloca "lado a lado" uma família de dezenas pessoas que vivem em um cemitério, sem qualquer rendimento certo, e a opulência de países ricos, com um cara falando de sua Lamborghini.

O longa usa também bastante a proposta de capítulos divididos em temas. Três quartos de todo material foi recebido diretamente, sem qualquer intervenção. O restante foi recebido depois que a produção enviou câmeras para países pobres e pediu para eles cobrirem certos assuntos, como o que tinham no bolso ou do que tinham medo e o que amavam.

Sem qualquer medo de comparação, me lembrou "O homem com uma câmera", do Vertov. Junta imagens aparentemente sem nexo e criar, assim, uma conexão, um caminho, mesmo que não óbvio, nem, certamente, linear. Mesmo que o "Life in a day" caia na vala comum do esquecimento cibernético, aquele que o ontem se apagou, tamanha a quantidade de informações que temos de hoje, o filme já cumpriu o seu papel de registrar para quando os "escafandristas" vierem como era a humanidade nesse início de século xxi.

ps. BBC quer fazer um vídeo semelhante chamado "Britain in a day", que deve ser gravado agora, no dia 12 de novembro. A ver.