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quarta-feira, 28 de março de 2012

Clubes privados em Londres

A Inglaterra - e Londres não poderia ser diferente - é um país baseado em uma aristocracia. Algumas pessoas são mais que outras, em algum aspecto, simplesmente porque nasceram em determinada família. Isso não quer dizer, porém, que a monarquia, em si, seja menos democrática que a república. Como já bem disse um amigo meu -dos que são mais inteligentes que eu- se pegarmos os países europeus que ainda são monarquias e compararmos com o restante do planeta, eles vão parecer infinitamente mais democráticos. Pense apenas que a maioria das monarquias aqui por esses lados fica ali no lado nórdico.

De toda forma, o monarca nesses países -ou ao menos aqui no Reino Unido-, apesar de toda a pompa, sempre se comporta como um servo dos seus súditos -como, aliás, deveria se comportar qualquer autoridade pública, que ganha o dinheiro do cidadão comum. Aqui na Inglaterra, ainda há a diferença que, segundo ouvi, a família real não recebe um real dos cofres públicos. É autossustentável. Ou seja, é só bônus sem ônus [generalizado, ok, generalizando...].

De qualquer forma, essa tradição elitista é sim bastante comum na Inglaterra -mesmo na cosmopolita Londres. Acho que a tal "fleugma" inglesa, tão propagada, tem uma de suas possíveis origens daí. O inglês se acha tão superior que não precisa se misturar com a plebe. E, quando se mistura, tem a certeza absoluta de que, por conta de sua superioridade nata, não vai ser contaminado.

Mesmo assim, é melhor evitar. Sabe como é, né. Vai que... Assim, Londres -e, eu imagino, toda a Inglaterra, e também, por consequência, os países colonizados por ingleses*- é lotada de clubes privados. "Clubes privados", a expressão, me lembra apenas uma coisa: "Eyes wide shut" e o seu baile de máscaras.

Porém, os clubes privados não são iguais entre si, nem necessariamente iguais à sequência final do derradeiro filme de Kubrick. Ou não são apenas. Aqui na minha esquina, há um, o Lyndhurst club, que se autointitula, "The Largest Japanese Gentleman's Nightclub in London" onde é possível tomar um uísque Macallan 25 anos por apenas £ 450. Ok, é caro. Melhor ficar mesmo com Jack Daniels, por £ 100. É melhor deixar claro, todavia, que eu nunca vi ninguém usando máscara nas ruas. Eles anunciam, contudo, karaokês lá dentro, com mulheres "selecionadas" [se o googletranslate funcionou direito], claro.

Outro exemplo: está rolando uma exposição com as fotos do clube da Playboy, aqui de Londres, que se vende como um espaço para se relaxar, tomar uma bebida, comer algo, conversar com os amigos, fumar um charuto e jogar. Ou seja, nada diferente até o fato de as crupiês serem coelhinhas da Playboy vestidas a caráter [veja acima].

A foto de divulgação da exposição, como se vê abaixo, é a dos Beatles com o Maharishi Mahesh Yogi e um grupo de pessoas apenas conversando. Além desse grupinho intrépido, a exposição chamada apropriadamente de "Sorry You Missed the 60’s" conta com fotos de Grace Kelly [não é um espaço só para meninos, veja só], Winston Churchill e o escritor Somerset Maugham [que devia estar bem velhinho, porque morreu aos 91 anos em 1965].

Confere o parágrafo anterior, por favor, para saber o que acontece na foto
Fora isso, "The London Magazine", que, por algum acaso, nós recebemos de graça, vem com uma reportagem de capa sobre os novos clubes só para sócios de Londres. Descreve oito diferentes espaços que podem custar de meros £ 40 por mês, no caso do Hub King's Cross, que é quase um lugar para se trabalhar, à bagatela de £ 20.000, de joias, mais a anuidade de £ 1.000, no 5 Hertford Street, que fica atrás da embaixada da Arábia Saudita [não deve ser uma coincidência] e promete privacidade com P maiúsculo. Não deve ser, mesmo, uma coincidência.

Um dos mais... hum... interessantes é "The Arts Club", que diz ter sido fundado em 1863, e ter tido entre os seus participantes gente como Charles Dickens e Rodin, além de hoje em dia ter como convivas Gwyneth Paltrow, Stella McCartney e, como DJ, Mark Ronson. Fazer parte é mole. Basta pagar £ 1,5 mil, para se juntar, depois, £ 1,5 mil por ano. Ah, e esperar a fila, que demora hoje cerca de dois anos.

Eu, seguidor da única vertente do Marxismo possível, o groucho-marxismo, costumo torcer um pouco o meu nariz para esses clubes privados, exatamente por serem privados, portanto, de certa forma, aristocráticos, se dando ao direito de não permitir algumas pessoas de entrar e outras sim, baseadas em critérios para lá de controversos. Sigo a máxima do sábio Groucho de que "I don't care to belong to a club that accepts people like me as members". Mas a História, essa senhora irônica, fez mais uma das suas. É possível ser sócio do Groucho Club, especializado em gente de mídia, no Soho.

* No "Midnight's Children", Rushdie inventa um clube em Mumbai onde os indianos poderiam se comportar luxuriamente como ocidentais, em completo sigilo e escuridão. Porém, a cada semana, um dos participantes seria escolhido por uma roleta e revelado para os demais, com o intuito de aumentar o sentimento de aventura dos participantes.  

terça-feira, 27 de março de 2012

Igreja Universal tenta transformar cinema histórico de Londres em templo

O cinema EMD Walthamstow, no nordeste de Londres, tem um passado incomparável. Foi construído em Art déco em 1887, oito anos antes dos irmãos Lumière fazerem sua primeira projeção pública, para ser um espaço de dança, shows e peças. Depois de já transformado para os filmes, na década de 1930, foi o provável cinema preferido do adolescente Alfred Hitchcok, que crescia num bairro vizinho. Mais tarde, serviu de palco para bandas e cantores tão diferentes quanto relevantes como Beatles, Jerry Lee Lewis, Rolling Stones, Kinks, Little Richard, Who, Chuck Berry e Buddy Holly.

Já o seu presente, pode ser, sim, comparado com, ao menos, outros dois cinemas de Londres e inúmeros outros no Rio e no Brasil: pertence à Igreja Universal do Reino de Deus e periga virar o espaço para outro tipo de veneração. Desde 2003, quando a igreja, conhecida na Inglaterra pelo acrônimo em inglês UCKG, comprou o espaço, ela tenta mudar legalmente o uso do prédio e ter autorização para reformá-lo. Desde então, seus pedidos foram negados pelos representantes da prefeitura. Mais uma decisão está programada para sair em junho. Mas, caso perca, a igreja poderá iniciar novamente todo o processo.

Tapumes e andaimes escondem a fachada do cinema, que nos áureos tempos era assim.

- Como eles são os donos do imóvel, eles têm o direito de fazer quantos pedidos quiserem –, explica Gerri Ellis, um dos organizadores do movimento Save Walthamsow Cinema, que começou exatamente em 2003, para salvar o único cinema e impedir que Walthamsow continue com o terrível título de único bairro em Londres sem qualquer espaço para a projeção de filmes. – Nos primeiros anos, houve apenas uma pequena campanha, porém com o passar do tempo, e com esse prédio tristemente abandonado na rua principal, mas ainda assim lindo, as pessoas começaram a se perguntar por que alguma coisa não estava sendo feita.

A comunidade parece apoiar o grupo que quer salvar o cinema
A campanha ganhou o apoio de gente de renome, como Mick Jagger, o filósofo pop Alain de Botton e a deputada Stella Creasy. A parlamentar argumenta, por exemplo, que o prédio é o último cinema construído pelo designer russo Theodore Komisarjevsky em todo o Reino Unido que ainda não foi demolido ou transformado em bingo, supermercado ou academia. Mais recentemente o rapper Professor Green entrou na batalha ao dizer a um jornal local que Londres estava “perdendo muitos cinemas” e que esse específico era um dos mais bonitos. Entre essas perdas mencionadas por Green estão dois outros imóveis, também comprados pela Igreja Universal e transformados em templos, o Rainbow Theatre, no bairro vizinho de Finsbury Park, e The National, no noroeste de Londres, em Kilburn Park.

O imponente Rainbow, que na época da sua construção, nos anos 1930, era um dos maiores cinemas do mundo, é uma espécie de sede da Igreja Universal em Londres. Ficam lá os bispos e pastores que, por exemplo, tomam conta das obras de manutenção do Walthamstow. Confrontados pessoalmente sobre o assunto, eles disseram que se posicionariam por email. Mas apesar do contato com a relações públicas da instituição, as perguntas enviadas não foram respondidas.

Operário que quase não falou
 porque estava com medo
O prédio onde o jovem Hitchcock pode ter visto seus primeiros filmes vive hoje atrás de andaimes, ostenta uma árvore não planejada no telhado e tem um grupo de operários portugueses e romenos que tentam evitar o pior. Um desses operários, que não quis se identificar, porque, segundo ele, tinha sido instruído por pessoas da igreja a jamais conversar com jornalistas, falou que, quando recebeu encomendas dias antes e eles tiveram que abrir a garagem, o lugar ficou cheio de curiosos.

- Eu pedi às pessoas para saírem. O departamento de segurança de obras de Londres não deixa ninguém que não seja ligado diretamente à reforma ficar lá dentro – explicou, antes de insistir que não podia conversar muito porque tinha medo de perder o emprego. – Um dia, um senhor já idoso que mora por aqui veio me dizer que desde que inventaram a TV, esse cinema nunca mais foi o mesmo. Eu concordo com ele. Já não é mais possível existir cinemas desse estilo.

Não é o que o pessoal da campanha para salvar o espaço acha. No site criado para atualizar informações sobre a ação, eles enumeram diversos casos de ressurreição e sucesso de cinemas antigos, grandes e, aparentemente, obsoletos. Para que o EMD Walthamstow tenha esse destino, eles estão arrecadando dinheiro para tentar recomprar o cinema. Basta saber se a Igreja vai querer revender.

domingo, 11 de março de 2012

Taiko animated

One year after the earthquake, tsunami and the accident at
Fukushima, a sincere and simple tribute to Japan - Taiko by
 Kaijyo [in Bunka-sai event, in London]

domingo, 26 de fevereiro de 2012

The English gift of the rethoric

If there's something all foreigners will agree about the English people is that they know how to behaviour when they must speak in front a group of people [of course, not all of them; of course 2, not only them]. But I have seen one specific scene - repeated in two different versions - that can, not explain, but show how it works.

Before this, there are two others stories about the same issue, both told by foreigners. One Belarusian, other Spanish. The Belarusian, experienced journalist, was covering the European parliament, because one representative of his country, which is, according to the Western Europe countries, a dictatorship still nowadays, would speak. [Sorry, Andrei, I don't remember who was the guy...] After his long discourse, the English representative assume the position for its consideration and states: Now, we discover where is the Eden, so many times quoted on Bible. It is in Europe, right here, on the west of Russia, north of Ukraine, east of Poland. As Andrei told us, the English guy didn't need to say the name of Belarus or how he disagreed from the Belarusian representative. He made a joke, and everyone got the point, the exactly point of his speech.

The Spanish guy, who lives in London since before us, told us this particular characteristic of don't be straight could be a heritage from the Celtic [or Gaelic, I am not sure - again, I apologize, Borja]. In this language [which, you see, I don't remember] there would not be the world "no". So, to give a negative information, the speaker must go a round travel until come back to the point he wants. For instance: "Can I go to the toilet?" "It would be a pleasure, definitely, but you should wait a little bit more until the spot would be available for you, sir", instead of "No, you can't". They had to develop this skill to even communicate with each other, and this became a behaviour.

I don't know if it is true, but what I have seen at the TV on a specific day shows me that, at least, this is a country where the dialogue is completely open and free. And everyone who wants a public projection must have this gift, otherwise will be exterminated. I saw it on TV and watched the same scene at "Iron lady".

Every Wednesday - I will repeat - every Wednesday [not once in a while, not once in a year, or once in a month, but each week!] the Prime-minister - which, if I understood it correctly, is a Member of the Parliament him / herself, and the head of his/her party - go to the House of Commons [the low chamber] to answers the questions of the colleagues deputies. Every Wednesday. He/she must answer. Questions. He/she is bombed, attacked, hosed with no matter which issues, since the major themes of the country until specific questions in every opportunity, from the opposition. And try the support of his/her colleagues of the party. It is a kind of massacre. But it is fair. He/she must give information, in every each moment, about what happens in his/her government.

It is funny to compare to a country which the former president just gave his first collective interview after more than two years in the power. As you can see, my friend Andrei, there are some issues "democracy" and "dictatorships" are very similar.

ps. the interview was in my birthday.

sábado, 25 de fevereiro de 2012

'What about London?'

Last Thursday, a Spanish guy asked me: "And now, after almost six months, what about London?" I answered, without think: "It has a wonderful weather".

I am not sure if I can say that I know London - or any other city. And I am not talking about geography here - because it would be unfair. To know a city means, in my unimportant opinion, to predict in certain way how it would behave itself in front a specific situation. London, as a mystery character, always surprises me with a different angle for a not-even-imagine circumstance. Of course it is not a privilege of London, it also happens, in a different manner, to Rio, for instance. Rio has a tradition of reinvent itself, when confront to a no way out street. London invents newer ways to continue in the same road.

But, after almost six months, I can write one or two things about London without feel I am being frivolous. Yes, the weather is great, nothing compare to what we were waiting for. We knew that the temperature was not bad as in other cities in the regular Europe. It is very rare to see thermometer marking below zero - it just happened twice or thrice this winter -, but we know it would not be so freezing. We were afraid of the lack of light. And, despite of the December, when the sun was rising around 9 am and setting a little after 4 pm, we can not say we miss the sun [I, at least, don't].

But a city is not just it weather, or a city is besides the weather. And if I have said I would not talk about geography, I reconsider this right now. Because London has a particular way to divide the city. Mainly because, like other hundreds of cities in the world, there's a river splitting itself in two parts. Differently of Paris, it is not gauche or droit here, but North and South. The second division is historically. The old part of London, where there were walls and all the medieval stuffs existed, what is called the City of London, is in the Centre-East, but London grow up to the west, in direction -at least metaphorically- to the country side. Now, there is another part which the Londoners call "the Centre", and it is the West-End.

So the richest stays on the west. The oldest-nouveau-riche with their yet biggest tradition on the south, and the not-too-old-nouveau-riche [people like Paul McCartney, Madonna, Tim Burton...] in the north. The southwest has boroughs with royal names, but it is in the northwest where the queen herself lives, and you can find the parliament - this big English institution.

On the -hum- other hand, after a long time being forgotten, northeast had emerged again some years ago,  to be, nowadays, probably the coolest place in London. Where you can find what is the next thing about whatever you want. And the southeast... well, I don't have a strong opinion about this particular area - even had visited some times. Maybe that's why they have chosen this neighbourhood to the main competitions of the Olympics. They want to give it a remarkable personality.

Besides that, you can find Arab, Indian, Turkish, Jamaican neighbourhood here. And pubs everywhere. And also houses to bet. And off-licenses. In a certain way, the first impression still the same for a long time.

quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

Bourdain x Jamie Oliver

Anthony Bourdain, sobre Jamie Oliver, em 2001:

"Every time I watch his show, I want to go back in time and bully him at school."

Sobre Nigela, no mesmo artigo:

"While she may not look like too many cooks I know, she does seem to cook a lot of exuberantly cheesy, fatty, greasy stuff - not shying away from the butter and cream - which puts her on the side of the angels in my book. How many upper-crust widows do you know who say, "Fuck it! Let's eat what's good!" Not many. I like her."

O artigo todo, sensacional como sempre, aqui.

quarta-feira, 30 de novembro de 2011

Brazil of nowadays, an introduction

I decide to start an introduction about Brazil of nowadays for a foreigner. To interpret the country by a non-traditional Brazilian point of view.

First, I assume I could not escape from the usual beginnings of such a post. All of the general articles giving an overview about countries start with the same kind of sentence: "[Country's name] is a land of contrasts". For me, it is always a surprise to discover that countries so different like UK or India can have the description. We Brazilians are so used to use this sentence for our homeland that it sounds they are exaggerating. Like: They are talking about that because they don't know Brazil...

This epithet is so Brazilian mainly for one big and dishonourable reason: besides the recent boom, we still have one of the biggest difference between the richest and poorest in the world [see the Gini index]. Considering we are almost the sixth richest country in the world, it appears even worse.

Other way to start such a text is: "[Country's name] is not just one country, but many inside its borders". It's also a kind of natural thing, if you know Brazil is the fifth largest country in the world [like, more than the double of India], and the fifth in population [more than three times UK pop.]. It is fair to think we have particularities around our territory.

But foreigners normally summarize Brazil at its stereotype. What they know is a mix from the Southeast [more Rio, less São Paulo] with the North [the Amazon forest, which most of Brazilians have never visited], and a bit from the Northeast [the beaches].

Of course Brazil has beaches [the most famous Copacabana and Ipanema], samba, carnival, football, feijoada, caipirinha, mulatas, tiny bikinis and all the things you expected to find in Brazil. And one of the biggest homicide taxes in the world - but it has improved a lot last years, and the trend is to get better, in the next years, with the World Cup [the final will be in a polemic refurbished Maracanã, which is in Rio] and the 2016 Olympics.

Rio is the home of almost all last paragraph features, and main entrance of the country. But, starting the demystification, Rio is not just sand-sea-samba. The marvellous city ["cidade maravilhosa" is the way cariocas call Rio; "carioca" is who was born in Rio or who adopted the city as its home] is where companies such Petrobras and Vale, two of the biggest companies in the world, are situated.

Outside the country, these characteristics gives foreigner a very good view about Brazil. I have never known someone who dislike it. They just love Brazil even if they don't know the difference from Sugar Loaf and the Corcovado Mountains [the first has the cable car, the second, the Christ Redeemer]. I guess they think all Brazilians have the same state of mind, the same way of be, a synonym to joy, happiness, party, and coolness. Is that true? As true as the Germans only drink beer all day long. Or as the Parisians are rude with tourists. It's a generalization, not a whole true, but part of that.

Though, the recent national growth - mainly pushed by the trade of some commodities as soy and iron to China -, can affects this national behaviour. From a country where the only possibility to have a good life was to emigrate,  we can became the new land for Spanish, Portuguese, or other Latin-american people who want to have another opportunity to live and work. In São Paulo, there are Bolivian markets. In Rio, you can find Equatorians or Peruvians selling Andean products on the sidewalks of downtown. We are, so, at a crossroad. How Brazilians will treat this people, who are not just coming as tourists, but trying to compete for jobs and all this way of life? Are we going to follow the US tradition and avoid the immigrants, or to allow people their "human right to migrate", as I have recently read from the National Justice secretary? Will we still be cool or show a new façade of xenophobia? That's a question that will be answered only in the future.

segunda-feira, 7 de novembro de 2011

'Brave new world'

Claro que eu me confundi com a data e deixei passar a efeméride dos 400 anos da primeira exibição de "The tempest" - havia pensado que tinha sido no dia 6, quando fora no primeiro de novembro de 1611, dia de todos os santos, com a presença do King James, no seu Whitehall.

De qualquer forma, vale o registro. Vale o registro como efeméride para nós brasileiros porque mostra como, entre outras diversas possibilidades de leitura, Shakespeare anotou em sua obra o encontro do Novo Mundo.

"The tempest", segundo o comentário introdutório da minha edição da Royal Shakespeare Company, foi a última peça em que o bardo escreveu sozinho. Já era um autor reconhecido e que tinha relevância - mas ainda vivia em um estado absolutista e sabia que não podia desagradar o seu chefe-mor. Portanto, as referências a essa relação Velho-Novo Mundo são sutis ou, ao menos, inferidas. A bela introdução - não assinada - porém anota as diversas citações que não deixam muitas dúvidas sobra a vontade de Shakespeare tratar desse assunto. Numa tradução livre: "a chegada a uma ilhada inabitada por europeus, a fala sobre 'plantation', o encontro com um 'selvagem' em que o álcool é trocado por habilidades de sobrevivência, um processo de aprendizado da linguagem em que é claro quem é o mestre e quem é o escravo, o medo do escravo em engravidar a filha do mestre, o desejo de fazer o selvagem procurar a graça cristã [além também de proporem que ele deveria ser enviado para a Inglaterra para ser exibido e ganhar um dinheiro com isso], referências ao clima perigoso das Bermudas, e ao 'bravo novo mundo': em todos esses aspectos, 'A tempestade' conjura o espírito do colonialismo europeu".

A introdução segue tratando do papel de Caliban, o tal "selvagem", e de como ele representou para gerações de escritores caribenhos anglófilos uma forma de superar o que foi apelidado de "complexo de Caliban", que seria uma forma de subordinação - ou, traduzindo poeticamente para o português-brasileiro-pós-Nelson-Rodrigues, a síndrome de vira-lata. Como os habitantes dessas áreas sempre se sentiram inferiorizados, simplesmente por terem nascido fora dos grandes centros urbanos, e como isso influenciava sua produção. Conhecemos bem isso.

Eu me interesso, porém, pelas frases - versos - linhas que ficam marcadas, como se fossem tatuagem, na memória da humanidade, nas sentenças que as pessoas repetem sem saber de quem era, como se fosse um ditado que sempre existiu sem qualquer relação de autoria, que tivessem brotado simplesmente do nada, espontaneamente. Shakespeare é um craque nesse aspecto. Só nesse livro há três frases que vão ficar para sempre - ao menos, na minha memória.

A primeira é de Prospero - o protagonista da peça, aquele que comanda todas as ações - falando sobre a perenidade das coisas, num discurso analisado diversas vezes e bastante interpretado como uma autorreferência ao próprio teatro, sua intrínseca fantasia-vazia, e o fim de sua vida produtiva: "We are such stuff / As dreams are made on " - que não cabe uma tradução, sem perder a força dos versos originais, mas que diz que somos pueris, feitos da mesma substância que os sonhos são feitos - vagos, nebulosos, inexatos, obtusos.

A segunda é a frase de Miranda, filha de Prospero, que intitula esse post, e está sob o seguinte contexto: "O, wonder! / How many goodly creatures are there here! / How beauteous mankind is! O brave new world, / That has such people in't!". Já ao fim da peça, ela descobre outros habitantes - visitantes - na ilha onde ela cresceu apenas com o pai e Caliban. Portanto, o "brave new world" se referia, metaforicamente, a abertura de um novo mundo, mas não-diretamente à ilha em que ela vivia. Se relaciona ao conhecimento de coisas que ela não sabia que existia, de "tais pessoas" que vivem fora dela, da maravilha que é a espécie humana.

E a melhor frase, na minha humilíssima opinião, mas que, coincidentemente, também é a dos editores do livrinho, que a estamparam na capa, além de escreverem essa conclusão explicitamente na introdução, lembrando para o fato de ela ser dita, exatamente, por Caliban, o tal selvagem, numa referência à ilha, portanto, por associação, ao novo mundo mesmo, em si, como se mostrasse que apenas os que vivem aqui sabem como é a vida nessas bandas - nem melhor nem pior, apenas diferente: "Be not afeard; the isle is full of noises, Sounds and sweet airs, that give delight and hurt not." É o mundo do completo desconhecido, que dá medo, por não sabermos como é, ou o que é. O mundo dos novos barulhos, das novas formas de música, dos novos sabores, cheiros, dos novos extasiantes, de novas morais, e que, vivendo sem lutar contra, aceitando-o como é, não machuca.

ps. Como o texto foi apresentado em 1611, portanto, antes do início mais forte da colonização inglesa nas Américas - como a introdução, inclusive, deixa claro - fico imaginando o quanto de influência Shakespeare teve sobre o King James. Seríamos os mesmos sem que essa peça existisse?

pps. para ler, no original, a peça: aqui.