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segunda-feira, 24 de julho de 2017

Os melhores vinhos franceses

Os franceses, como todo mundo, gostam de falar sobre os assuntos mais pueris na falta de intimidade. Mas se você consegue - com muito esforço, ao menos com os parisienses - ultrapassar as primeiras barreiras de gelo, pode se arriscar a fazer a fatídica pergunta: Bordeaux ou Bourgogne, qual é o melhor vinho? As respostas são tão variadas quanto há estilos de vinho nas duas mais famosas regiões vinícolas do país que produz os mais famosos vinhos do mundo [que os italianos, espanhóis, portugueses etc. não leiam isso aqui].

Os châteux de Bordeaux são lindos
Como disse Roland Barthes em um despretensioso e saboroso texto sobre o tema no seu Mythologies: "o vinho é sentido pela nação francesa como um bem que lhe é próprio, do mesmo jeito que seus trezentos e sessenta espécies de queijo e sua cultura". Talvez o correspondente para o Brasil seja o futebol. E se o paralelo com o ludopédio [homenagem ao homenageado da Flip, Lima Barreto] funciona, a disputa entre Bordeaux e Bourgogne é o fla x flu deles. Fait divers, mes amis, fait divers.

Numa segunda olhada para essa disputa, porém, dá para ver além da borra da uva. Do alto da pretensão do turista que visitou em dois fins de semana seguidos cada principal cidade de ambas as áreas, vou tecer aqui alguns comentários aleatórios, que me ocorreram para explicar não somente os vinhos franceses, mas a própria França e, quem sabe, alumiar um pouco um certo país tropical.

A região bordelais - que abarca a cidade de Bordeaux e adjacências - fica perto da costa, numa área próxima ao Oceano Atlântico, posição estratégica do ponto de vista logístico. Seu vinho foi, desde mais ou menos a invasão das Américas por europeus, exportado para colônias deste ou do outro lado da grande poça atlântica. Até mesmo sua garrafa cilíndrica, que é o padrão mais comum em supermercados brasileiros, foi pensada para melhorar esse processo comercial - capaz de ser empilhada mais facilmente. Consequentemente, do ponto de vista capitalista, o vinho feito na área, chamado metonimicamente de Bordeaux, virou sinônimo de vinho de qualidade francês.

Os grandes empresários vinicultores bordelais fizeram muito dinheiro, construíram châteaux de boquiabrir até os menos impressionáveis, e criaram uma indústria do vinho que movimenta uma grana alta até hoje. Junto a isso, porém, eles também descuidaram da qualidade do produto com a certeza de que bastava se apresentar como um Bordeaux para que o vinho fosse aceito em qualquer mesa. Além disso, o negócio atraiu muitos aventureiros que também quiseram, para usar uma expressão bem marqueteira, surfar no sucesso da marca.

Para tentar regular um pouco o negócio, Napoleão III [aquele que Marx chamou de "farsa", aquele que veio depois da "tragédia" Napoleão Bonaparte] tratou de criar um selo para proteger os vinhos que já existiam na região em 1855. Isso só existiu por uma coincidência: ele queria exibir os vinhos num grande evento, a exposição mundial da capital francesa. Nascia assim o avô das denominações de origem controlada, exibidas hoje em todos produtos que necessitam provar seu terroir. Ao mesmo tempo, criou uma elite de vinhos que jamais pode ser mexida.

Pelo que se lê por aí, toda e qualquer tentativa de modificar esse ranking inicial não é bem aceita - e tudo por conta de questões que vão além da simples qualidade do vinho [que, aliás, de simples não tem nada; mas isso é uma outra questão]. Foram criadas outras tantas categorizações que hoje em dia, para os simples mortais, nós que não sabemos quase nada de vinho, é quase impossível saber qual é o vinho mais confiável apenas de olhar seu rótulo.

Dijon parece de mentira
Pode parecer um contrassenso para quem sempre escutou que não se deve comprar um livro pela capa, mas o rótulo, assim como o lacre da rolha, carregam trocentas informações que nos dariam pelo menos algum norte no meio do oceano de possibilidades. É o caso, por exemplo, de lacres que exibem "récoltant" ou apenas o "r", e/ou o rótulo que tem a frase "mise en bouteille au château (ou 'au domaine' ou 'à la propriété')", que confirmam que o vinho francês passou por todo o processo de engarrafamento na própria vinícola que ele foi fabricado, dando uma conotação mais artesanal a esse processo que se torna cada vez mais impessoal no mundo todo.

Para piorar o processo, escutei há alguns anos, uma anedota que, se non è vero, è ben trovato. Diz-se por aí que, com o crescimento econômico e a tentativa de os chineses se integrarem rapidamente às regras do mundo ocidental, eles estariam comprando quantidades chinesas de vinhos bordeaux, sem se importar muito com a qualidade do produto. A intenção é apenas exibir o vinho para os demais, como um apetrecho qualquer, como se fosse um celular Apple, uma calça Lee ou um carro Ferrari. O preço dos vinhos, assim, disparou. Pura lei da oferta e da procura. Para piorar a história, a anedota dizia ainda que, porque os chineses não estariam acostumados com o gosto do vinho ocidental, eles decidiram misturá-lo com outro produto tipicamente ocidental: a coca-cola. Como se diz ironia do destino em francês, mesmo?

De qualquer forma, se há uma consequência positiva dessa confusão toda nos bordelais é a mistura de cepas sem qualquer tipo de purismo. É extremamente comum que os vinhos dessa parte da França sejam feitos a partir de dois ou mais tipos uvas. O resultado é uma alquimia extremamente difícil de se acertar. Qual é, por exemplo, a quantidade exata de cabernet sauvignon e de merlot para se fazer um vinho bom? Por conta disso, em geral, os bons vinhos de Bordéus [como os portugueses chamam essa área] são encorpados, densos, licorosos, escuros, a ponto de aguentar acompanhar bem das carnes mais gordurosas aos queijos mais pesados - e fazer desaparecer os gostos mais sutis.

Já em Bourgogne... Bem, a Borgonha, como nós chamamos essa área do centro-oeste francês, é quase o oposto da confusão de Bordeaux. Se nas ruas da principal cidade da região rival, abundam turistas cafonas, restaurantes caça-níquel e pós-adolescentes de carro novo cantando pneu, Dijon, a capital da Borgonha, parece não se importar nem mesmo com aqueles grupos que seguem a guia de guarda-chuva em punho. É elegante e sóbria como o seu vinho. Opa, pera. É quase isso.

Uma área tão grande produz vinhos muito diferentes entre si, mas há, ao menos, três características que se mantêm praticamente inalteradas: 1/ as garrafas são mais arrendondadas, dando um aspecto mais, hum... charmoso. 2/ as cepas são únicas - e o pinot noir é o mais barato e comum de todos no norte [#cholamais]! 3/ há um controle fortíssimo da qualidade dos vinhos produzidos na região. Lá, antiguidade não é posto. É necessário o pessoal correr atrás do prejuízo a cada ano para manter suas denominações intactas. Se não...

Esses controles de qualidade não são uma certeza de que o vinho é bom ou ruim. Há infinitos motivos e outras infinitas razões para se gostar ou não de um vinho. Um vinho é uma líquido vivo [raramente se consegue, por exemplo, duas garrafas exatamente iguais] que foi influenciado por inúmeros fatores, como a condição do solo, a quantidade e a qualidade de sol no ano e, após as reticências e o et cætera, o grande e absurdo acaso. Saber como um vinho foi preparado não garante qualquer certeza sobre sua degustação, apenas que ele é o melhor que poderia ter sido preparado dentro de um mundo que não respeita qualquer CNTP.

Outro detalhe curioso é a presença mais marcante dos bourgognes na culinária. O boeuf bourguignon é onipresente em Dijon. Os ovos en sauce meurette, idem. O coq au vin não aparece sempre nos cardápios, mas também não é bem uma surpresa. É um vinho mais, hum, simples - no sentido de mais leve, mais tranquilo, que pode "compor" melhor, sem querer sobrepujar nada nem ninguém. É aqui que os adjetivos desaparecem para os só amadores do vinho.

O certo é que há um controle e uma organização na Borgonha para um vinho mais, hum, puro. Isso me leva a especular que o processo é uma boa metáfora para o capitalismo. Como se o processo de industrialização na área tivesse se desenvolvido ao custo de muito trabalho e investimento. Agora a intenção é aperfeiçoar o produto para se chegar no mais próximo da perfeição. Enquanto isso, na outra área - Bordeaux -, teria havido uma acumulação a partir da exploração do solo, com a criação de [praticamente] capitanias hereditárias, que se mantêm [praticamente] inalteradas depois de tantos anos. Bem, é isso, ou a minha vontade de ver sempre a nossa herança colonial em todos os lugares.

A "rivalidade" Bordeaux x Borgonha é, de alguma forma, a demonstração da divisão interna desse país que é atravessado por vontades tão conflitantes, tão opostas. São duas maneiras diferentes de produzir vinho, duas histórias quase opostas, e o resultado é claro: duas bebidas incomparáveis. Ou quase. Borgonha é Nova Inglaterra, Bordeaux, Sul dos EUA. Borgonha é Norte da Europa, Bordeaux, o Sul. Borgonha é Flu, Bordeaux, Fla. Apesar de minha preferência pelos gostos mais arrebatadores, não é surpresa, portanto, saber qual é o melhor vinho francês.

quinta-feira, 6 de julho de 2017

A casa [da mãe Joana] França-Brasil

D'accord, dou o braço a torcer. Agora, parece inegável que a relação Brasil-França (ou seria Rio-Paris?) é maior, ou pelo menos de outra natureza, mais íntima, mais profunda, que a do Brasil com outros países ricos. É claro que essa é uma percepção subjetiva, mas é a mesma impressão e método que usei para avaliar outros países. Como forma de contra-prova, ou prova dos 9, eu me defendo dizendo que estava até recentemente tentando evitar essa associação de todas as formas. Mas contra as coincidências quase cotidianas [a última foi a francesa que nasceu no Brasil, o pai é ex-diplomata no Rio e o irmão, produtor de cinema de "Cidade de Deus" e outros blockbusters nacionais] não há muitos argumentos.

Sempre me perguntei, para evitar uma aproximação exagerada entre Brasil e França, que falseasse o real: por que a França - e não outro país - teria essa ligação íntima com o Brasil? O que a França - ou Paris; ou Paris? - tem que outros lugares não têm? A questão é que não consegui fugir das questões com respostas satisfatórias e agora estou me esforçando para levantar alguns possibilidades de caminho.

Minha primeira tentativa é histórica. Os franceses tentaram, diversas vezes, colonizar não somente o Rio, como também outras áreas da costa do que veio a ser o Brasil. Discordando daqueles que reclamam do nosso passado português, imagino que para nós, que somos o resultado de uma colônia europeia com tráfico de escravos africanos tirados a força de suas casas dentro de um território manchado com o sangue do genocídio indígena, não haveria muita diferença. Vide o Haiti. Reze pelo Haiti. Todavia, para os franceses...

Para os franceses houve, suspeito, uma sentimento de perda, de queda de um espécie de paraíso na Terra. Uma terra em que, finalmente, eles cumpririam o destino deles: o de serem os donos da porra-toda. Em outras palavras, a Casa Grande numa terra grande.

[Pausa para dizer que se os jornais ainda poderiam ser usados como forma de entender uma parcela representativa da sociedade, o mais que insuspeito "Le Monde" demonstra como os franceses pensam sobre o restante do Monde. Todo e qualquer assunto internacional é, de uma maneira bem direta, parte das suas políticas internas. Eles devem, de alguma maneira, estar a par de todos os assuntos porque eles teriam, numa imaginação um pouco fantasiosa, influência direta nisso. Dias desses, por exemplo, a capa do site era sobre um drama na sucessão do trono na Arábia Saudita. Noves fora o peso estratégico do reino, o tema é, no mínimo, estranho para olhos brasileiros. Fim da pausa.]

Voltando à França, e à sua relação com o Brasil. Os gauleses, sem o Brasil para explorar, se sentiram naquela famosa relação de quem poderia ter sido e nunca foi. Uma promessa nunca cumprida. Um potencial não explorado, por motivos de: caminhos tomados estranhamente na vida - da vida. Seria possível, com pouco esforço, dizer o mesmo do Brasil, apelidado pelo Stefan Zweig de "O país do futuro". O mesmo Zweig, vale o comentário, que tem uma presença bem mais constante aqui em sebos e livrarias que em outros países que visitei [nunca fui à Áustria, no entanto].

Haveria, daí, uma segunda identificação entre o Brasil e França. Os dois se sentiriam parte do mesmo clube dos corações frustrados. França, como o irmão mais velho e rabugento, Brasil, como o mais novo e festivo. De onde nasce a terceira ligação.

Poder-se-ia [o presidente-intestino ficaria orgulhoso da mesóclise] supor que esse irmão mais velho e ranzinza quer, no fundo, cair na folia do mais novo. Haveria uma inveja... não, não: uma cobiça, uma vontade de ser desse modo descompromissado, desleixado, desse jeito de não se levar a sério, não conseguir se levar a sério - mesmo quando uma dose leve de seriedade seria indicada - do Brasil e dos brasileiros. [Esse modo que não é, claro, mais que uma caricatura em zoom out da maneira de ser que o Brasil exporta para si mesmo e para os outros.]

Isso lembra as maneiras atrapalhadas do franceses de não se deixarem ser tão desleixados, de não deixarem a cultura do jeitinho se espalhar indiscriminadamente: com uma mão pesada da burocracia. Não há ninguém que more aqui mais que um mês que não tenha ido aos correios, La Poste, aqui. Para ter um celular de conta, por exemplo, é necessário mandar uma carta de próprio punho assegurando que você não atrasará o pagamento. Sabe lidar com a sólida e inflexível estrutura de algumas instituições públicas brasileiras, que têm pouco ou nenhum jogo de cintura? Agora multiplique por três. Pronto.


Há, portanto, um aspecto cultural - no sentido mais amplo do termo - em comum entre Brasil e França e o território francês, com sua particularidade geográfica, só vem a confirmar isso. É banhado pelo Mediterrâneo, por baixo, e pelo golfo de Biscaia e pelo canal da Mancha, que é uma saída já do mar do Norte, por cima.

Existem diversas maneiras caricatas de dividir a Europa [ver ao lado], mas uma das mais comuns é entre o Norte [protestante, frio, funcional, moderno...] e o Sul [católico, caloroso, confuso, clássico...], que funciona "bem", até a página 3. No máximo. A França, como os mapas aí do lado mostram, carrega as cicatrizes dos dois lados da fronteira Norte-Sul. Há uma culpa por não ser tão eficiente, quanto os irmãos de cima, nem tão relaxados como os irmãos de baixo. Há sempre um sentimento de não estar confortável com o que se é. Um estar desalojado de si mesmo. Um sentido que o brasileiro e a brasileira de classe média levemente intelectualizada conhecem bem, apostaria.

Ao mesmo tempo, a França é ainda um país extremamente central na Europa, propagadora de vários dos elementos que compõem os alicerces das chamadas democracias liberais. Além disso, é uma das mais consolidadas metonímias da Europa, fruto de governos centralizadores, reis, imperadores e que tais. Essa sua posição histórica-geográfica obrigaria, nessa minha hipótese, a França a ter uma participação mais ativa na política internacional [vide as manchetes do "Le Monde"], quando, na verdade, ela só gostaria de estar relaxada numa praia tropical, tomando caipirinhas [onipresentes] ao som de samba [idem]. Voilá, uma contradição não-ambulante. Uma contradição bem brasileira.

Mas por que a França? Por que não outros países com mais vínculos com o Pa-tropi? Bem, porque Portugal ficou muito pequeno para o Brasil. Talvez eles tenham essa relação mais íntima com Angola e, quiçá, Moçambique, sabe-se lá. Espanha tem suas próprias ex-colônias para se preocupar - e invejar. A Inglaterra é fechada dentro da sua própria Commonwealth de influência, e muito cinza para se alegrar com sombra e água fresca. Alemanha tem a barreira da língua, quase intransponível num primeiro momento. Os EUA são abastecidos por tantos outros estrangeiros e influências externas, que a força brasileira se dilui completamente. A França reúne, talvez por coincidência, os elementos para adorar o Brasil, para ter esse diálogo quase paternalista. Não é responsável por suas mazelas, portanto não carrega uma culpa, e não recebe uma onda massiva de imigrantes. E, principalmente, valoriza os nossos clichês como a utopia a se alcançar. Vai entender.

É, ainda, na França que o emigrante brasileiro que não quer tentar a sorte nos EUA [por qualquer motivo que seja], e não sabe falar outra língua além do português-brasileiro com forte sotaque, se arrisca. É o irmão mais novo pedindo ajuda ao irmão mais velho. E tome bar baiano, restaurante com feijoada, roda de samba, forró misturado até com música dos balcãs [dizem que é divertido].

O La Fontaine é sempre citado nos cursinhos de francês com suas fábulas de moral nível He-Man explicando o episódio. Num de seus versinhos que não bebeu diretamente de Esopo, ele fala de uma formiguinha trabalhadora e acumuladora de capital, e de uma cigarra, que canta a vida, sem se preocupar muito com o dia de amanhã. Parece que de alguma maneira, Brasil e França são da mesma família: a das cigarras que são, no menor ou no maior grau, obrigadas a se comportarem como formigas. Talvez um dia consigamos simplesmente nos sentir bem em nossa própria pele.

quinta-feira, 5 de março de 2015

Rio 450 anos: o que temos para comemorar?

Em qualquer viagem, é inevitável fazer comparações com o seu país, seu estado, sua cidade. Você fica pensando, a cada curva no mapa, a cada estátua desvendada, o que é diferente da sua casa e o que é igual de todos endereços tão familiares. Tenta fazer uma brincadeira de espelho e encaixar a alameda da sua casa dentro da avenida do hotel. Colocar o boteco no pub. A Medina na favela. O Cristo na Torre. Lembra da dificuldade de tomar um ônibus na hora que enfrenta a dificuldade de tomar um trem. Percebe os tempos - longos, curtos, médios, ondulados. Os gostos. As temperaturas. Os cheiros que te remetem para as memórias mais longínquas, em cascatas. As pessoas andando nas ruas. Como se olham. Como se tocam. Como se vestem. Você compara, converte, mede com uma fita métrica do seu bairro, tenta falar com o mesmo alfabeto, léxico e gramática que você usa cotidianamente. É uma tentativa de tornar próximo aquilo que é, a cada momento, estrangeiro. Isso tudo acontece sempre, sempre que você toma um avião para sair do mesmo lugar de sempre. Mas uma viagem a Lisboa multiplica esse sentimento exponencialmente. São tantas familiaridades, tantos traços em comum, que às vezes o caminho é exatamente o oposto: o que temos de diferente?

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Quando Pessoa, travestido de Bernardo Soares - o heterônimo mais próximo do autor, segundo os entendidos -, diz que a sua "pátria é a língua portuguesa", percebo o quanto temos - portugueses e brasileiros - de diferente aí. O contexto da citação até pode não ser exatamente este, mas pode-se sugerir que há, aí, um elogio da literatura, da palavra escrita. Dessa tradição tão europeia de passar as suas histórias e a História ao longo do tempo por essa mídia chamada papel. Língua, literatura, cultura escrita, essa tradição tão vindo nas caravelas para o resto do mundo.

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Os brasileiros não podemos - no sentido de "deveríamos" - falar que compartilhamos a mesma pátria. Nossa pátria não é formada das mesmas letras, nem da mesma terra. Temos, sim, essa herança, o que é inegável  - e a capacidade de se emocionar ao ler o próprio Pessoa nos mostra o quanto deste passado está presente.

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Se pudesse sugerir onde fica nossa pátria, eu arriscaria: na música. É lá onde o povo-popular se encontra. Foi lá que o Brasil oficialmente desobedeceu os impostos ibéricos de maneira mais clara, e tal qual Édipo, começamos a caminhar, cegos e sozinhos (mas qual caminhar sozinho não é uma metáfora para a cegueira?).

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Não quer dizer que não tivemos Glauber, Machado [Machado!], Oiticica, todos grandes Macunaímas. Mas é na música que estabelecemos mais claramente nossas fronteiras sentimentais nacionais. E, de certa forma, é o que nos mantém unidos.

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Isso mostra como nós somos diferentes da tradição estritamente europeia. Todo país europeu tem o seu Cervantes, Goethe, Shakespeare. Nós, claro, temos Machado, temos Drummond, que as pessoas adoram tirar fotos e arrancar seus óculos, mas a representatividade da literatura em nosso cotidiano é irrisória. Pense, como um entre tantos exemplos, em nossas tiragens para lançamentos de um livro grande [sem ser um Paulo Coelho ou "50 tons de cinza" da vida] e compare com o que acontece em Portugal.

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Nossa tradição tem muito, mesmo que nós, brasileiros-preconceituosos, não queiramos, de índio e africano: somos muito mais corpo que alma. Muito mais rua que casa. Somos muito mais ginga, requebrado, rebolado. Samba, xaxado, afoxé. Mesmo o pessoal mais ao sul, mais ligado à Europa. [E, sim, estou generalizando para efeito de divagação.] Nosso pensamento não é cartesiano. Nosso tempo não respeita o horário. Nossas estações são diferentes. Não somos europeus em exílio, como disse Borges sobre sua Buenos Aires - e ele mesmo estava errado.

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Por isso não entendo a comemoração dos 450 anos do Rio. Quer dizer, entendo, mas não concordo. Comemorar o quê? Comemorar o início de uma cidade que tentava ser europeia? Comemorar o marco inicial da expulsão dos índios que aqui estavam? O genocídio? A destruição do sistema ecológico daqui? O maior porto de escravos das Américas? A elite que sempre governou para a própria elite?

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O pessoal do andar de baixo teve que se virar. A necessidade de sobrevivência fez com que eles criassem, inventassem, transformassem a massa que era entregue para eles em algo novo. Sem muito planejamento, sem muita visão do todo, sem pensar muito no amanhã. Era o que tinha para aquele hoje. Tinham que desviar das pedras e pedregulhos e montanhas no meio do caminho.

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O que ficou disso, o que é comemorado agora nos 450 anos? O folclórico, o vazio, o malandro sem malandragem, o sambista de panamá da Uruguaiana e camisa listrada azul pronto para se exibir para a câmera do turista gringo. Falta sangue nas veias. Mas não falta nas ruelas.

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Perto da minha casa, o filho do Andrei Bastos, que eu tive a honra de entrevistar certa vez, Alex Schomaker Bastos, foi assassinado por assaltantes. Os pais e amigos do menino fizeram uma homenagem a ele, com cartazes colados no ponto onde ele esperava o ônibus. Parece que os cartazes foram retirados, mas a família colou tudo de novo. Agora, há uma patrulhinha parada ao lado para dar mais "segurança" ao lugar. E o prefeito prometeu transformar o lugar e construir uma pracinha. No primeiro caso, uma medida paliativa que apenas empurra o problema da violência para alguns metros adiante ou para trás. No segundo caso, uma medida hipócrita.

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O que temos para comemorar? A Baía de Guanabara e as praias constantemente poluídas? Os ônibus caríssimos e ineficientes? As contas dos donos das empresas de ônibus na Suíça? A violência em crescimento vertiginoso nas áreas menos privilegiadas? A crise de abastecimento de água? O futebol e as escolas de samba caídos em descrença? O custo de vida estratosférico e subindo? O prefeito mentindo sobre as obras para as Olimpíadas? A inexistente herança da passagem da Copa do Mundo? O que temos para comemorar?

segunda-feira, 8 de novembro de 2010

Centro da cidade

O centro de uma cidade com mais de 6 milhões de habitantes, que é chamado pela maioria desses cidadãos simplesmente de cidade, em referência ao seu passado de centralizador de todas as atividades da região, é realmente incrível. Apesar de o Rio ser um dos únicos aglomerados urbanos cujo centro não tem forte presença de moradores, essa área é simplesmente imperdível. Seja por conta dos grandes figuras que se encontra; dos contrastes que se presencia; das oportunidades de ampliar os próprios horizontes; da perspectiva de conviver com os polos de nossa desigualdade social; seja porque se descobre aleatoriamente um sapateiro de rua que disse que cola a sola de um tênis meu, praticamente novo mas que de tão grande boca, a sola pediu para sair; ou porque após passar por três lojas para consertar meus óculos em Botafogo, consigo resolver na primeira que vou no Centro, com o atendente não entendendo o motivo do meu espanto quando eu agradeci tão efusivamente. O centro é incrível.

sábado, 23 de outubro de 2010

Diferenças e semelhanças entre as Oktoberfests

Estive, por coincidência, em Blumenau, durante a época em que acontece a Oktoberfest brasileira. Como já estive – dessa vez, sem qualquer coincidência – em Munique [doravante München], durante a mais famosa festa alemã para a cerveja, resolvi fazer um texto comparativo entre as duas experiências, mostrando suas diferenças e semelhanças.

                       
München
Blumenau
Chegue cedo. Mesmo que a abertura da festa esteja marcada para o meio-dia, os alemães vão para os pavilhões às 7h, para conseguir um lugar onde se sentar. Chegamos às 11h, pensando que estávamos bem, que arranjaríamos um espaço, mas penamos por duas horas até que um grupo de alemães adolescentes se sensibilizaram conosco e nos deixaram dividir o mesão com eles.
Chegue tarde. Vacinado pela festa alemã, corri para os pavilhões assim que aportei na cidade e adentrei o local às 18h. Não tinha ninguém. Todos os três pavilhões estavam completamente vazios e algumas barraquinhas se davam ao luxo de estarem fechadas. Ao conversar com moradores, eles até riram, quando disse a hora que cheguei. A organização da cidade me fez esquecer que estava no Brasil. 
Cerveja, só sentado: a razão por que os alemães chegam cedo à festa é que só se serve cerveja para quem está sentado a uma das mesonas. Isso quer dizer que, mesmo nos pavilhões, você pode passar horas de bico seco. Não quer dizer, porém, que não exista o “jeitinho alemão”: quando alguém se levanta para ir ao banheiro, há sempre um esperto que se senta só para pedir a cerveja e depois se levanta. Como se diz “malandragem” em alemão?
Cerveja em qualquer lugar: o esquema é igual a de qualquer outra grande festa brasileira a que eu já fui: você compra um tíquete nos caixas e escolhe entre as possibilidades a que você tem direito. Como estava vazio na hora que cheguei, a tranquilidade imperava. Mas, ao sair, já comecei a perceber certas filas se formando para comprar os tíquetes. E, dizem, à noite, quando a festa fica realmente cheia, fica insuportável. É fila para tudo.
Uma cerveja e várias cervejarias: É tradição entre os alemães produzirem um tipo de cerveja apenas para a Oktoberfest. Elas são mais alcoólicas [em torno de 8%, uma porrada para quem não está acostumado] e são servidas naquelas canecas enormes de um litro, chamadas Maß, que também é a maneira como se chama o tipo de cerveja, um lager mais encorpada que a tradicional german pilsen. Você pode escolher beber nos pavilhões das cervejarias locais de München, como Späten, Lowenbrau, Paulaner, etc. Nada mal, hein?
Várias cervejas e algumas cervejarias: a festa é geralmente patrocinada por uma grande marca, como a Brahma, este ano [eca], que banca toda a programação de dois dos três pavilhões. Já no terceiro, maravilha das maravilhas: encontramos as marcas menores, locais, de cervejas artesanais. São tão pequenas que, comparativamente, a Eisenbahn, que é de Blumenau, parece uma gigante. Há ainda a Wunder, também da cidade, e a Opa, de Joinville, entre diversas. Eles levam muitos tipos de chopes, como o Pale Ale, Porter e um Brown ale que tomei, excelente. Não fazemos nada feio em comparação.
Não pague para entrar, reze para beber: A festa bávara acontece em um campo aberto, com todo mundo tendo direito à entrada e à circulação. Se você for um abstêmio – pecado dos pecados – é capaz de voltar sem gastar um centavo. O problema é o preço das Maß: algo em torno de 8 euros. OK, é um litrão, ou seja, bem servido, e ainda mais alcoólico que o normal, portanto, é capaz de você não beber tanto. Mas, se você se atrever a converter, vai pensar duas vezes. Eu nem gosto de me lembrar de quanto gastei...
Entradas caras, bebidas, ok: Em Blumenau, se paga para entrar no parque onde ficam os pavilhões. Em dia de semana, o meu caso, nem é um acinte: paga-se R$ 6. Mas na sexta, o preço já sobe para R$ 15. No fim de semana, o valor da entrada sobe para exorbitantes R$ 30. Para melhorar, aceita-se carteirinha de estudante – há muito campo de estudo – e quem for vestido com as roupas típicas dos bávaros não paga a entrada. Mas o melhor é o preço dos chopes: todos saem por R$ 4,25. Quem comprar Brahma não sabe o que está perdendo...
Comes: Se eu já tinha gasto os tubos com a cerveja, economizei na comida. A única coisa que comi lá foi um lanche junto com os adolescentes alemães –  eles foram extremamente simpáticos – que consistia numa espécie de pretzel feito em casa e mais com cara de pão e uma pasta com mostarda e um tipo de embutido, que não me lembro – foram MUITAS Maß, posso assegurar.
Além do “bebes”: Cheguei faminto e aproveitei que o lugar estava vazio para comer uns pratos exóticos. Ou alguém já comeu codorna recheada assada? O recheio era – novamente – um tipo de embutido e a codorna era pequena o suficiente para não matar quem me matava. Por isso, recorri ao x-alemão. Um sanduíche, sem queijo – a mania de colocar “x” na frente dos sanduíches é gaúcha, como o tradicional x-coração – em que se mistura frango, linguíça, carne de boi e molho vinagrete, na chapa e coloca tudo num pão. Excelente.
Turistas: fuja do fim de semana dos italianos, o primeiro das duas semanas da festa. Os adolescentes alemães disseram que eles arrumam muita confusão e não são sociáveis com os demais. Posso acreditar. Eles me pediram, em certo momento, para pedir a um grupo esporrento ao nosso lado para fazer menos barulho. Fiquei numa situação...
Locais: indo numa quinta-feira, e mais cedo que o normal, não encontrei ninguém que não fosse de Blumenau. Mas dizem que há também uma enxurrada de cariocas, gaúchos, paulistas nos fins de semana, principalmente o primeiro, que também é, normalmente, o do feriado de 12 de outubro.
Fora do tempo: por mais incrível que possa parecer, a Oktoberfest de München acontece em... setembro. Há uma explicação, mas, bem, esqueci. Foram muitas Maß...
Outubro. A data varia, mas geralmente são três semanas. Neste ano, termina neste domingo. Se você não for multimilionário para poder viajar para Blumenau, vai ficar para o ano que vem sua primeira participação.



domingo, 4 de novembro de 2007

Psiu

Senti uma forte identificação no caso do ministro do STF que abriu um processo contra um jornalista da própria assessoria da corte que precisava falar com a vossa excelência. Claro que me identifiquei com o jornalista - não por ter a mesma profissão, óbvio. Mas por uma-dessas-coincidências-da-vida.

Em Berlim, levamos uns amigos para jantarmos perto do albergue onde estávamos instalados. Escolhemos a cozinha mais exótica - de Cingapura - e nos sentamos, na mesa mais distante do salão, na calçada, e pouco conforto. Com a demora no atendimento, resolvi, de maneira a agilizar o processo, chamar o garçom. Mas: como se chama alguém em alemão? Ou melhor, em malaio - língua falada em Cingapura? (Obrigado wikipedia por mais essa). Recorri ao tradicional assovio.

O garçom se aproximou e nos perguntou de onde éramos. Ao responder, ele não se deu por satisfeito e disse que brasileiros eram "not respect" e que ele não era cachorro. Decidimos, por nossa saúde, já que nunca tínhamos comido nada cingapuriano e poderia vir com algo inclassificável e fora do cardápio, irmos embora.

Conversando com um camarada meu, ex-dono de bar, ele disse que os garçons brasileiros também detestam ser tratados por um "psiu". Mas não consigo entender. Generalizar o chamamento como algo ruim não necessariamente faz sentido. Ou, em outras palavras: é possível que ao assoviar, não se esteja sendo desrespeitoso, apenas tentando travar uma comunicação.

É claro que qualquer pessoa deve escolher a maneira como é chamada. Mas a síndrome do assovio mais me parece insegurança e uma necessidade de auto-afirmação, principalmente quando o reclamante é um juiz do STF, recém-empossado.


***

Outra das-coincidências-da-vida aconteceu com o texto do Veríssimo, semana passada, sobre uma viagem à Europa. Copio o trecho inicial:

"Quem anda como eu andei há dias pelas ruas de uma cidade como Florença, cuidando para não ser carregado por uma das manadas de turistas que seguem afobadamente uma bandeirinha com terror de se perder do guia (e não era nem a alta temporada!), não pode deixar de ter um pensamento: — E quando chegarem os chineses? E os chineses virão."

Pensamos, para resolver problemas de concentração de pessoas em frente a determinados pontos turísticos, que deveríamos instituir o dia do turista japonês.