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sexta-feira, 26 de dezembro de 2014

Retrospectiva 2014: Gol da Alemanha

Fim do ano é o momento do balanço do que houve no último ciclo solar. E neste 2014, houve o fim da guerra fria para Cuba, com a canetada do Obama que deu a primeira picaretada no muro metafórico deles, exatos 25 anos depois da queda do outro, o alemão. Tivemos também uma eleição extremada em que fomos obrigados a escolher entre um playboy que carrega em sua biografia todos os cacoetes excludentes apresentados em mais de 500 anos da elite brasileira, e uma desenvolvimentista que parece seguir, quase que ironicamente, a linha econômica da ditadura que ela queria derrubar. Escolhemos a menos pior, mas que nos faz pensar que o fundo do poço, nesse caso, é um fundo falso. Houve ainda a descida da nave num asteroide, a prisão algo inédita de corruptores no Brasil, e até o grave problema de saúde da Andressa Urach - pobre coitada. Mas nada mexeu mais comigo, diretamente, que a Copa do Mundo e a goleada sofrida pela seleção brasileira para a Alemanha.



A Copa foi um evento sui generis. Talvez único, numa posição bastante distante dos seus pares, seja dentro da histórias das outras copas, seja na história brasileira na competição, ou até mesmo na relação de grandes fracassos brasileiros no esporte. Mesmo para fãs ocasionais do futebol, como eu, a Copa, e a participação brasileira nela, suscitou uma miríade de interpretações.

A começar, ou ainda antes do começo, houve o #nãovaitercopa. Ainda sob o reflexo das grandes manifestações do ano passado, muita gente tentou, senão impedir a realização da competição - já que seria pedir demais -, criar uma recepção crítica a um evento que não foi pedido por ninguém, nos foi empurrado goela [já ia escrever goleada...] abaixo, criou nada mais que estádios nas cidades-sede, que, em muitos casos, já se metamorfosearam em elefantes brancos. Os organizadores [políticos, homens de negócio, "gente de bem"], como sempre, priorizando o visitante em vez de pensar nas populações que diariamente enfrentam transportes ruins, cidades sujas, educação cada vez mais mecanizada, sentimento de insegurança [infundado ou não, não importa].

Apesar destes e de outros pesares, Dilma fez o discurso, tomou a vaia e o Brasil rolou a bola em São Paulo. A partir de então, vivemos diariamente durante todo o torneio o dilema remédio/veneno do que seria a maior característica do que se chama nossa identidade. Primeiro veio o remédio: Não houve problemas graves de organização nos estádios, aeroportos, ruas das cidades. Funcionando em escala de emergência, sem muitas opções extras, tudo deu razoavelmente certo. Graças, muitas vezes ouvimos isso, ao bom humor e a hospitalidade do brasileiro - esse sujeito que de Norte a Sul, Nordeste a Sudeste, gosta de receber e mostrar a casa para as visitas sempre com um sorriso estampado como troféu.

Essa emergência, porém, não funcionou dentro do campo. Sem prolongar em grandes explicações técnicas, porque não saberia fazer, ficou claro o quanto os jogadores brasileiros carregaram sobre os ombros, junto às mãos dos companheiros que eles levavam a campo, a responsabilidade de ganhar a competição. A obrigação de fazer o brasileiro feliz. A tentativa de salvar a pátria. Em vez de jogadores de futebol, eram candidatos a heróis. Não podia dar certo.

O que ficou demonstrado com a goleada para a Alemanha de 7 a 1 foi algo além disso, porém. Lembro que no dia seguinte, acordei muito cedo para ler tudo o que eu consegui encontrar na internet do mundo inteiro e tentar encontrar um cosmos no caos que tinha se instalado em mim. Algo era muito fora da minha normalidade, da minha expectativa, para que eu conseguisse, ao menos, entender. Era por demais distante da realidade, aquela que tradicionalmente estamos acostumados. Instaurou-se um novo mundo. Pensei que era um sentimento generalizado. Nem tanto.

Para muita gente, essa derrota não teve tanto impacto quanto as derrotas em 1950 ou 1982, porque não seria tão surpreendente assim. A goleada para a Alemanha seria uma consequência natural de uma seleção formada por jogadores do mesmo país do Santos, que também foi goleado pelo Barcelona numa final do mundial de clubes recente. Ou os sucessivos sacodes que os nossos times tinham levado dos times europeus. Seria apenas o passo seguinte. Nada tinha me preparado para o 7 a 1, entretanto. Nada.

A explicação faz sentido - concordo - mas só faz sentido após o evento. Esse é o retrato "veneno" de nossas características. Se somos hospitaleiros, solícitos, simpáticos, também tratamos todas as nossas riquezas como commodities. A elite sempre suga o que temos de melhor e exporta, fazendo com que apenas poucos e privilegiados lucrem com isso. Foi assim com o pau-brasil, com a cana-de-açúcar, com o café, com a borracha. Foi assim com os escravos, continua sendo com os índios. É assim com os nossos recursos hídricos, com os nossos minérios, com o nosso solo. Com o desmatamento para plantação de soja, para a criação de gado. Com o fim dos biomas Mata Atlântica e Cerrado. Com o genocídio em curso para a criação de Belo Monte e congêneres - cuja energia é necessária, segundo a opinião de muita gente boa, apenas para a produção de alumínio e outras indústrias primárias. É assim com os nossos jogadores de futebol.

Criamos verdadeiras indústrias de exportação de jogadores e, pior, os vendemos ainda "verde", para que "amadureçam" na Europa, pegando todos os trejeitos de lá. Nossos jogadores são produtos, nada além de produtos, cada vez menos valorizados no mercado internacional, para os cartolas, agentes, donos de empresas de marketing esportivo. Estamos vendendo todos, remexendo o solo, levando cada um que aparecer, com o simples intuito de lucrar o máximo e agora. Parece que vivemos sempre em esquema de contingência. Como se só soubéssemos funcionar em estado de emergência. Mas o rio só corre para um mesmo lado: novamente apenas alguns poucos ganham muito, enquanto a grande maioria só se alimenta de sonhos cada vez mais amargos.

Para piorar, após a maior vergonha da história do futebol - daquele time, lembra?, que iria nos dar mais um orgulho para estamparmos no peito - a empresa que controla o esporte no país, orgulhosa de ser privada, escolheu dois velhos nomes para coordenar nossa principal categoria. Sendo o auxiliar técnico um ex-agente de jogadores. Como demonstrando claramente qual o caminho que quer continuar a seguir. Se após a derrota de 1950, criou-se um incipiente profissionalismo que há gente que defenda que nos deu a geração de 1958 e 1962; se em 1982 houve uma mudança de mentalidade que acabou com o futebol-arte, para criar o futebol-brucutu, que também veio a dar numa conquista de copa, em 1994, a derrota deste ano provocou apenas um aumento da sangria, um alargamento da nossa ferida, um aprofundamento da nossa tragédia sempre anunciada.

O futebol, como já filosofou Nenê Prancha, é dos esportes mais surpreendentes que há. Mas eu não arregalaria nenhum olho caso o Brasil nunca mais ganhasse qualquer campeonato relevante. Se se transformasse num país do segundo escalão do esporte. Não é agouro. Não é torcida contra. É decepção. Tristeza. Impotência. Sei que qualquer previsão é um chute num estádio às escuras, mas arrisco dizer o seguinte: neste ano selamos a sete gols nosso destino futebolístico.

domingo, 15 de junho de 2014

Hinos de guerra no futebol

Se já há um saldo positivo desta Copa, além do gol do Van Persie e da subsequente goleada holandesa sobre a Espanha, é a invasão do Brasil por nossos amigos sul-americanos e a sua mais bonita, emocionante e arrasadora consequência: a moda de cantar os hinos de seus respectivos países a cappella. Começou com o Brasil, passou pelo Chile e chegou à Colômbia. Coincidência ou não, o único sul-americano que não usou desse subterfúgio [ou eu nem percebi], o Uruguai, perdeu.



Esse ato aparentemente simplório tem uma série de efeitos. Primeiro, os óbvios. O hino nacional se transforma num grito de guerra. É o momento que os jogadores se irmanam e percebem que fazem parte de um mesmo grupo, de uma mesma equipe, de um mesmo país. Eles têm características diferentes, mas objetivos comuns e vão lutar, juntos, para atingi-los.

Não precisa nem ter em suas letras refrões como "Aux armes, citoyens / Formez vos bataillons / Marchez, marchez! / Qu'un sang impur / Abreuve nos sillons!"; ou versos como "O Lord our God arise / Scatter her enemies, / And make them fall: / Confound their politics, / Frustrate their knavish tricks"; ou ser explícito como: "Son giunchi che piegano / Le spade vendute: / Già l'Aquila d'Austria / Le penne ha perdute. / Il sangue d'Italia / E il sangue Polacco / Bevé col Cosacco, / Ma il cor le bruciò" [aqui uma explicação da passagem], ou precisar saber muito de línguas estranhas para entender logo de cara quem é o maioral: "Deutschland, Deutschland über alles, / Über alles in der Welt". O hino é para dizer quem é amigo e quem é alemão.



Mesmo o brasileiro, que foca mais no tamanho ["Gigante pela própria natureza"] e das belezas do país ["Deitado eternamente em berço esplêndido / ao som do mar e à luz do céu profundo"], tenta elencar, logo de cara, muito sutilmente, quem é o nosso adversário: a ex-metrópole. O "brado retumbante" do "povo heroico" foi ouvido "às margens plácidas" do Ipiranga. Não há negociação, nem empate. É "independência ou morte", é vitória ou, em caso de qualquer outro resultado, derrota.

Salvo os exageros nas aproximações [tenho o defeito de enxergar mais as semelhanças que as diferenças], me lembrou a haka dos jogadores de rúgbi neozelandeses. Mas se não quisermos ir tão longe, me lembrou também a ladainha, o canto que antecede o jogo propriamente dito da capoeira, em que um solista faz uma lembrança dos seus antepassados, das suas origens, da sua história, portanto. Ou ainda aquela reunião que a galera de teatro faz logo antes das cortinas abrirem. Em todos os casos, é o momento em que todos presentes se juntam, como um só corpo, esquecem o mundo lá fora, e focam, juntos, no mesmo ponto.



Não é acaso que os times que cantaram o hino a cappella jogaram com uma vontade muito maior que a do adversário. Nem sei se o Brasil foi melhor que a Croácia - acho que não - mas entrou em campo querendo comer a bola. O mesmo pode ser dito para o Chile, que ainda deu uma bobeada contra a fraca Austrália, ou a Colômbia que, apesar da falta de Falcao García, não tomou conhecimento da Grécia, mesmo com Sócrates em campo.

Mas se todos esses argumentos não forem suficientes, basta lembrar que é uma maneira muito delicada de quebrar um protocolo da Fifa. A toda poderosa do futebol que não gosta de fazer nada fora das regras [com a exceção de algumas negociações envolvendo dinheiro] não tem poder para impedir que os jogadores simplesmente parem de cantar seus hinos. Claro que, para a Fifa, é o tipo de quebra de protocolo que é até bem vinda, já que não atrapalha seus interesses comerciais, ao contrário, mas enxergo esses atos como pequenos protestos muito barulhentos. Como se dissesse que a Fifa não manda em tudo.

terça-feira, 3 de junho de 2014

#nãovaitercopa x #vaitercopa



Essa discussão de #nãovaitercopa x #vaitercopa só me faz lembrar esse episódio antológico da "Comédia da vida privada". Revi novamente e, além de me arrepiar em diversos momentos, quase chorei em duas passagens.

No fim, o que o seriado defende é: temos que separar as nossas relações privadas das públicas [o que cada vez mais se torna difícil no dia-a-dia].

domingo, 25 de maio de 2014

Heidegger e o futebol

Com a chegada da Copa do Mundo em menos de três semanas, lembrei de uma história curiosa envolvendo o sujeito que tem tomado minha atenção nos últimos tempos e o grande evento. Apesar do famoso esquete do Monty Python, mostrando que a única coisa que filósofos fariam num campo de futebol seria pensar [apesar de eu ter dúvidas em relação a Marx...], há relatos de como Heidegger, no fim da vida se interessava pelo velho e violento esporte bretão.

Na década de 1960 até a seguinte, Heidegger, já retirado da vida pública, se torna um "ancião respeitável", nas palavras de Rüdiger Safranski, um de seus biógrafos. Abranda sua severidade e se torna menos rude, prestando a atenção às coisas frugais da vida, como o futebol. Copio o trecho aqui da biografia, na tradução de Lia Luft que, se não me engano, já tinha encarado outras biografias que Safranski escreveu [sobre Nietzsche e Schopenhauer]:
Heidegger era agora um ancião respeitável, mas aquilo que fora rude e severo abrandara-se. Foi à casa de vizinhos para assistir a grandes jogos de futebol europeus na televisão. No lendário jogo Hamburgo contra Barcelona em começo dos anos sessenta, de tanto nervosismo ele derrubou sua taça de chá. O ex-diretor do teatro de Freiburg encontrou-o certa vez no trem e quis falar com ele sobre literatura e palco, o que não conseguiu porque Heidegger, ainda sob a impressão recente de um jogo de futebol, preferiu falar de Franz Beckenbauer. Tinha grande admiração pela maneira sensível como este manejava a bola - e tentava explicar plasticamente ao espantado ouvinte os refinamentos de jogo dele. Chamava Beckenbauer de jogador genial louvava sua invulnerabilidade em embates a dois. Heidegger emitia juízos de especialista pois em Messkirch [sua cidade natal] não apenas tocara sinos mas também chutara muito bem como ponta esquerda.
Curioso ele ter admiração exatamente por Beckenbauer, que é a "arma secreta" do time alemão na esquete do Monty Python, e jogar exatamente na ponta-esquerda, que, se respeitando as antigas relações entre posições no campo e números na camisa, seria a sua no time alemão, com a 11.



ps. Wittgenstein é austríaco, mas será que isso importa para os britânicos - principalmente levando em conta que ele fez sua carreira acadêmica na Inglaterra? Ainda bem que ele foi logo substituído, para não causar problemas para o time.

sexta-feira, 16 de maio de 2014

O maior legado da Copa

Quando a presidenta pede pelo espírito hospitaleiro do brasileiro para recebermos bem os estrangeiros que virão para a Copa, ela dá mostras como os políticos tradicionais em geral não estão enxergando bem nesta mudança que acontece em nossas identidades. Desde junho do ano passado, estamos passando pelo processo - doloroso e tortuoso - do nascimento de novas formas de nos identificar como pertencentes a um mesmo grupo humano que atende pelo nome de brasileiros. Mas parece que muita gente não quer ou não consegue enxergar isso.

A gestação dessas novas identidades começou em um tempo indeterminado no passado. Uns dirão 12 anos; outros, 20 anos. Haverá aqueles que lembrarão seu 30º aniversário ano que vem. Não importa a data exata, assim como o nascimento, a gestação é um movimento contínuo. O próprio nascimento não tem data para acabar: 2014? 2015? 2016? 2018? 2022? Um dia vai acabar?

O que me parece inegável - e o que dá para sentir na pele - é que estamos trocando de roupagem. Não quer dizer que não vamos aproveitar adereços antigos, não é isso. Não deixaremos necessariamente de ser o país do futebol, por exemplo. Mas o movimento contra a Copa do Mundo deveria ser levado e muito em conta nessa nossa autoavaliação - inclusive, deveríamos relembrar sempre a nossa fracassada organização do esporte no Brasil.

Em uma palestra na Semana de Alunos da Filosofia da PUC-Rio, Bernardo Boelsums fez um paralelo bem criativo entre o nascimento do que seria esse país do futebol e a Copa de 1950. O pano de fundo era Heidegger, e a sua proposta de que, para se encontrar o ser de qualquer ente, ou seja, ter contato com a nossa existência máxima, mas apenas por um instante, em um quase lapso, termos que nos esvaziar por completo. Ou, numa expressão muito repetida de Heidegger "olhar o abismo".

Para Bernardo, a enorme euforia, o clima de já-ganhou, o oba-oba - quase justificáveis - que antecederam a derrota para o Uruguai no famoso episódio de Maracanã fizeram a nossa queda ser ainda mais esmagadora. Quanto maior a autoconfiança, maior o barulho ao estabacar-se. Ou, para citar uma frase original do futebol: só acaba quando termina.

O vazio que se seguiu, o silêncio que se ouviu após o gol de Ghiggia teria criado as condições para o país ser três vezes campeão em quase sequência [1958-1962-1970], com uma interrupção exatamente no momento em que o país novamente se achou acima do bem e do mal, em 1966. Clima, aliás, parecido com o que tivemos em 2006, com o tal quadrado mágico e a farra na Alemanha, por exemplo. O resultado de pouco trabalho e muita fama é sempre, mais ou menos, o mesmo.

Com essa Copa de 2014 e a ausência de empolgação genuína nas ruas - parece que só os meios de comunicação e os publicitários estão ligados na competição -, fica a suspeita de que pode até haver Copa, mas dá para imaginar que o Brasil, o país, que sairá desse corredor estreito será diferente daquele que entrará. Com ou sem o hexa.

Esses seguidos eventos de grandes proporções que acontecem no Brasil, além de um processo longo, mas ainda no início, de amadurecimento da própria nação, estão nos obrigando a refletir sobre o que é o país, o que é pertencer a essa nação, o que queremos e o que podemos fazer para alcançar o que queremos. Nas palavras de Heidegger, estamos pensando o que é o ser do Brasil - o que não fazíamos havia muito tempo. Esse é certamente o maior legado da Copa.

quinta-feira, 17 de outubro de 2013

Brasil x Uruguai: o nosso maior clássico

No primeiro - e excepcional - capítulo do novo livro de Sérgio Rodrigues, "O drible" (que será lançado na noite desta quinta-feira no Shopping Leblon), um dos personagens, que ainda não está totalmente exposto, fala sobre uma das cenas mais famosas da Copa de 1970, da Seleção, e, talvez, de toda a história do futebol: o não-gol de Pelé contra o goleiro uruguaio Mazurkiewicz, em que o nosso camisa 10 dá um drible da vaca, deixa passar a bola por um lado do guarda-balisa e chega nela pelo outro e chuta para a meta - mas erra, milimetricamente. Realmente é um lance impressionante [como se pode ver abaixo] - e a narração no livro desse lance não fica muito atrás de sua origem.


O personagem que narra o drible explica o seu fascínio por este momento específico: "Pelé desafiou Deus e perdeu. Imagine se não perdesse. Se não perdesse, nunca mais que a humanidade dormia tranquila. Pelé desafiou Deus e perdeu, mas que desafio soberbo. Esse gol que ele não fez não é só o maior momento da história do Pelé, é também o maior momento da história do futebol."

Ao ler essa frase, e todo o capítulo, fiquei pensando que, talvez, nosso maior adversário, nosso maior rival, não seja a Argentina. A Argentina talvez seja famosa hoje em dia porque teve Maradona, que os nossos vizinhos insistem em dizer que era maior que Pelé. Nossa questão com eles, tendo a sugerir, é mais de aversão, por conta do que nós consideramos como soberba. Todavia, não consigo lembrar um jogo tão importante que tenhamos disputado com eles. Já contra o Uruguai... Há, ao menos para a minha geração, três marcos históricos, três pontos que nós lembramos e somos lembrados sempre, como aqueles em que nós nos construímos. E em todos eles há ligação com o Uruguai.

O primeiro, e o mais óbvio, seria o Maracanazo. O maior estádio do mundo. Um time até então imbatível. Uma torcida de milhares de pessoas. Apenas a necessidade de um empate. E aí...


Esse primeiro momento marca o que foi chamado por Nelson Rodrigues de "complexo de vira-lata", nossa pré-história, aquele momento que nós éramos cidadãos de segunda-classe, nós não éramos nós mesmos. Ainda não tínhamos descoberto nossa brasilidade, nosso jeito de ser e agir. O Maracanazo é quase a demonstração prática de que "não vamos dar certo". Não adianta ser o melhor, temos que ganhar. O 2x1 para eles, de virada, foi, provavelmente, a maior humilhação que nossa seleção tomou.

Já o segundo momento seria exatamente esse jogo nas semifinais da Copa de 1970, o tal "maior momento da história do futebol", como descreve o personagem do Sérgio. É o ápice da superação desse complexo de inferioridade, o momento em que o futebol virou uma das nossas principais características, nossa principal afirmação, nossa identidade. O processo que tinha se iniciado em 1958, com a primeira conquista, chegava ao cume na melhor das copas, vencida pelo melhor dos times. Vencemos a partida contra o Uruguai por 3x1, em um jogo em que Pelé não marcou na copa do México. Não precisava. Já tinha se imortalizado.

Depois de 1970, o Brasil entrou num jejum de títulos mundiais que durou 24 anos. É uma fase de depressão, quase revisitando o momento "vira-lata". Era a ressaca de uma ditadura que aterrorizou os brasileiros de diversas maneiras por 21 anos. Não podíamos mais ser nós mesmos, porque isso era ser contra o que se determinou ser Brasil.

Já na década de 1990, após passar por Sarney e Collor, o Brasil começava a se reerguer. E, para ir para a Copa dos EUA, em 1994, teria que enfrentar, pela última rodada das eliminatórias exatamente ele, o nosso maior adversário, Uruguai, em uma outra oportunidade. Mas por que esse jogo deve figurar como um dos mais importantes do Brasil de todos os tempos? Talvez não seja exatamente um clássico no mesmo nível dos anteriores, já que, para começar, nem de Copa era. Mas para mim, para a minha geração, esse jogo representou exatamente a volta da esperança. Uma ideia de que podíamos, de novo, ganhar uma copa, não era mais algo tão inacreditável.


Além disso, esse jogo "final" foi aquele em que Romário, finalmente, tinha sido convocado para a seleção, após uma campanha imensa que só faltou o presidente Itamar Franco se meter. Foi o jogo que fez Parreira aceitar que Romário era imprescindível. Que ele era um supercraque indiscutível. E foi importante para ele, Romário, mostrar para o técnico que não era tão indisciplinado, como sua fama o anunciava.

A partida foi eletrizante. Para os brasileiros, principalmente. Foi o típico jogo de um time só. Era ataque contra defesa. Nossa superioridade, nossa vontade, não deixaram o drama de 43 anos antes se instalar novamente no Maracanã. Romário também contribuiu. Sempre foi um perigo, conseguindo meter uma bola no travessão logo de cara. Mas o gol, apesar da grande pressão brasileira, não saiu no primeiro tempo.

Na metade final, o gol ainda fez um pouco de doce. Mas era questão de tempo, mesmo. E saiu numa jogada que, apesar dos oficiais 1,68 m de Romário, acontecia com razoável frequência: um gol de cabeça do Baixinho. Por fim, para fechar o caixão, uma jogada que, por uma dessas coincidências que o Deus do futebol gosta de aprontar, lembra bastante o de Pelé, 23 anos antes.

Romário é lançado e sai correndo. Está cara a cara com o goleiro Siboldi, exatamente como Pelé estava com Mazurkiewicz no México. Romário joga o corpo para dar o drible da vaca, assim como Pelé havia feito, mas, 23 anos depois, o guarda-metas uruguaio já esperava essa reação e vai se encaminhando para, esquecendo a bola, fazer a falta no atacante brasileiro; Romário, por sua vez, também, já esperava a reação à sua ação, e consegue entortar o corpo para o lado oposto de onde tinha ameaçado primeiramente ir e, em vez de fazer o drible em que ele passa por um lado e a bola pelo outro do arqueiro, decide continuar seguindo a bola, driblando o goleiro pela obviedade. Assim, ele alcança a bola e, diferentemente de Pelé, faz o gol.

Poderíamos gastar páginas e mais páginas sobre a discussão do que é mais importante, o drible ou o gol. Se foi mais importante Romário ter feito um lance menos bonito, mas mais eficiente, ou a jogada Pelé foi tão perfeita que ele quase errou ao fim, só para dar um caráter de incompletude, mais ou menos como Michelangelo afirmava sobre suas esculturas que ele deixava sem terminar. Melhor que essa discussão quantitativa, é pensar como a história de um lance pôde enriquecer o outro e que, sem querer comparar os gênios da bola, estamos falando de jogadores fora-de-série, que conseguiam tomar decisões em milissegundos, "tão rápidas são essas operações mentais, chamamos de instinto", como escreve Sérgio, via seu personagem, no livro. Um privilégio para nós brasileiros que ambos tenham vestido a Canarinho.

Em nosso principal clássico, portanto, nos jogos mais marcantes - para mim - estamos vencendo. De 2 x 1. Nesse caso, porém, o juiz nunca vai apitar o fim da partida.

domingo, 7 de julho de 2013

A metáfora Anderson Silva

Entre tantos outros temas, MMA e UFC estão entre aqueles que eu menos conheço [ali junto da reforma política e de física quântica]. Mas a derrota do antes imbatível Anderson Silva pode, talvez, no ensinar algo - ou reensinar, em alguns casos [mas nunca é demais repetir um ensinamento]. O maior adversário de alguém é a sua exageradamente alta autoconfiança.

Sei lá se a luta foi comprada, sei lá se é mais emocionante ganhar na revanche, sei lá se todas as teorias da conspiração que se reproduzem pelas ruas e pela internet fazem qualquer sentido. O que se viu, o que pode ser visto nos vídeos com os nem dois rounds da luta, é um lutador tentando tirar onda com um outro, que está focado no seu objetivo. Um era o lutador moleque, audaz, cheio de ginga e manemolência. O outro, o seguro, adulto, claro no que ele queria. Aconteceu o que aconteceu.

Escreveu um amigo no FB: "Semana de queda dos invictos (domingo passado Espanha e nessa madrugada Anderson Silva) Então me lembrei do Bane falando pro Batman nesse ultimo filme da trilogia do Christopher Nolan. Ele falou que: 'A vitória contínua e constante enfraquece o espírito, a vitória te amoleceu.'"

Isso, claro, acontece em todas as áreas. Todas. Pense no PT e os seus dez anos deitados em berço esplêndido. Pense, antes, no PSDB e os seus oito anos ao som do mar e à luz do céu profundo. Pense no Neymar e como ele é criticado quando seu futebol se resume a firula, sem objetividade. Firula sem um fim é objeto de circo. Beleza pela beleza vira formato sem qualquer conteúdo e cansa, perde a conexão. Há a necessidade de um equilíbrio.

Um bom exemplo pode ser resgatado do próprio Neymar, e exatamente no seu gol contra a Espanha na semana passada. Para quem não viu ou não se lembra: o nosso atual camisa 10, recebe a bola na intermediária e passa rapidamente para o Oscar. Corre para dentro da grande área mas entra em posição de impedimento. Ao perceber isso, volta muito rapidamente para a linha dos zagueiros, a ponto de conseguir receber o passe de Oscar, que também muito inteligentemente o havia esperado, e que chegou na hora certa de ele apenas matar a bola e soltar um tiro na direção da meta espanhola.



Ali, o jogador que se apresentou era um atleta inteligente, que jogou se utilizando das regras ao seu favor, percebeu o seu entorno e fez o que dele se esperava: gol. Não apenas isso. Um golaço de um craque.

***

Um craque é aquele sabe usar as suas vantagens sem ficar cego por elas próprias. Um desafio constante.

***

É essa certeza de superioridade que atrapalha. O homem deve confiar em si, desconfiando. Saber, duvidando. Agir, pensando.

sexta-feira, 7 de dezembro de 2012

Pioneiro à la Bangu

[Fotos originais e primeira versão de uma reportagem publicada neste mês na "Piauí", após uma edição profunda que a tornou muito mais elegante.]

Estátua incompleta de Donohoe
Futebol, samba, moda, gatos e Bangu. Essas podem ser consideradas, sem ordem, as grandes paixões do artista Clécio Régis. Tudo em sua fábrica de cenografia no bairro da Zona Oeste carioca tem ligação com esses pilares. Um quadro no canto do escritório romantiza a fábrica de tecidos que, no final do século XIX, transformou aquela região de areal em uma espécie de república livre, quase independente do restante do Rio. Em todos os lugares gatos descansam ou passeiam à procura de um outro lugar para repousar. Sobre a mesa, a estátua de Nossa Senhora da Aparecida, protegida pelo escudo do Bangu Atlético Clube.

“O time de futebol é maior que religião. A minha maior emoção é ver o Bangu entrar em campo. Porque está 0 x 0. Depois, não sei”, conta ele que fez questão de emoldurar os ingressos das partidas a que assistiu na segunda divisão do campeonato carioca, após o time ter sido rebaixado no ano do seu centenário, em 2004. “O Bangu foi campeão do mundo em 1960”, tenta contrapor, fazendo menção à vitória no International soccer league.

Clécio é um homem de 53 que parece uns dez anos mais novo. É empolgado, vivo, inquieto, hiperativo. Seu raciocínio vai de um lado para outro, fazendo com que ele esqueça várias vezes o fio da meada. Diz que tentou estudar moda, artes plásticas, mas acabou virando “artista na prática”. Suas escolas foram a TV Globo, onde ainda presta serviços, e as de samba, para onde também faz trabalhos.

“Sou chamado de o artesão da Sapucaí”, conta, procurando a prova onde estaria o epiteto, sem sucesso.

O artista e empresário parece estar sempre em busca de um projeto para apoiar. Já produziu exposições sobre futebol e moda no shopping de Bangu, onde funcionava a fábrica. Ou o Grêmio Literário José Mauro de Vasconcellos, considerado como um museu do bairro, que homenageia o autor de “Meu pé de laranja lima”, nascido em Bangu.

A última iniciativa de Clécio [talvez quando este texto for publicado já será a penúltima] é a tentativa de homenagear o homem que é, na opinião dos banguenses, o responsável por trazer o futebol para o Brasil: Thomas Donohoe. De acordo com os pesquisadores locais, Donohoe chegou ao Brasil em 21 de maio de 1894, e botou a bola para rolar antes de Charles Miller, o “pai” oficial do futebol brasileiro. Clécio já construiu uma estátua de mais de quatro metros de Donohoe, com uniforme de época e feições em detalhes, e tem planos de colocá-la em um espaço público. O local já foi escolhido, será na praça Thomas Donohoe, em frente ao estádio do Bangu. Faltam agora os ajustes finais: a reconstrução do estádio e a recriação da praça.

“Tive essa ideia”, conta Benevenuto Rovere, o seu Beto, presidente do museu de Bangu, “quando estava assistindo à corrida de São Silvestre, como faço todos os anos, e o jornalista falou: 'os atletas passam agora em frente à praça Charles Miller, o pioneiro do futebol no Brasil'. As pessoas não sabem que o pioneiro é o seu Danau!”, exalta-se ele, lembrando da maneira carinhosa como Donohoe é chamado em Bangu. “No dia 2, eu me reuni com o Clécio e ele falou que iria fazer a estátua.”
Clécio e a sua criação

Os dois se baseiam na tradição oral de Bangu, que sempre deu a Donohoe o posto de primeiro homem a trazer o futebol para o Brasil, e nas pesquisas feitas pelo jornalista Carlos Molinari, outro torcedor doente do Bangu. No seu livro-bíblia “Nós é que somos banguenses”, ele se propôs a contar, ano a ano, a trajetória do seu time.

O primeiro capítulo da monumental obra começa antes da fundação do clube, em 1904, e é dedicado praticamente apenas a Donohoe. De acordo com o texto, o escocês, nascido a 25 de janeiro de 1863 na vila industrial de Busby, a 8 quilômetros de Glasgow, se casou em 1890 com Elizabeth Montague, e veio ao Brasil para trabalhar na fábrica de tecidos que estava sendo montada em Bangu. A esposa teria trazido a bola para o que seria a primeira partida organizada em solo nacional, em setembro de 1894. Antes, portanto, da primeira partida oficial de Charles Miller, em abril do outro ano:
No domingo pela manhã, já era possível ver o sr. Donohoe arrumando uma área livre (...), de preferência bem nivelada (...) e fincando quatro estacas, duas de cada lado da várzea, formando assim as traves. Quem passasse pelo local naquela manhã poderia imaginar que o escocês estivesse tentando construir alguma coisa. À tarde, porém, devem ter pensado que todos os técnicos britânicos enlouqueceram. Donohoe chamou de casa em casa todos os seus companheiros dos velhos tempos e um grupo composto de aproximadamente dez homens apareceu nas proximidades do terreno para estrearem a bola nova e matarem a saudade do tão salutar jogo que eles haviam deixado para trás na Inglaterra.
Como o texto não demonstra as suas fontes, fica a dúvida, porém: como é que Molinari sabe tantos e tamanhos detalhes da vida de Donohoe?

“Através dos livros do Bangu é possível determinar onde morava. A rua exata, o número. Onde seu filho foi morar depois de casado, a profissão do filho. Fora isso, temos rastros dele quando há alguma cerimônia na fábrica Bangu e ele é citado como um dos mestres de seção, participando dos almoços, das recepções que chefes de estado tinham quando iam até o estabelecimento fabril”, explicou por email Molinari, admitindo, porém, que deu uma “romanceada” na história. “Entrar na psicologia do personagem foi a fórmula que eu encontrei para que o texto ficasse atrativo aos leitores.”

Sem papel e sem testemunha, esse pioneirismo, claro, é contestado. Há relatos, mais ou menos nebulosos, de outros bate-bolas por todo o país pré-Miller. Marinheiros que aportavam nas costas brasileiras e aproveitavam a folga para jogar uma pelada nas praias. Ou um grupo de padre jesuítas no interior de São Paulo que ensinou a prática para os estudantes de um colégio.

“A brincadeira de chutar uma bola existe há mais de mil anos”, argumenta John Mills, biógrafo do atualmente aceito pioneiro do futebol. “Charles Miller foi o primeiro a trazer um livro de regras e organizar uma partida de 11 contra 11”, defende.

Segundo a opinião de Pedro Sotero, diretor do Museu do Futebol, e do sociólogo do esporte Ronaldo Helal, Miller teria institucionalizado a prática do esporte futebol. Helal sugere ainda um passo além. Ele considera que mais importante do que descobrirmos a data ou quem foi o pioneiro, é pensarmos como nos relacionamos com esses “mitos fundadores”.

Longe do mundo acadêmico, Clécio está mais perto é do refrão de um dos sambas mais famosos da Mocidade Independente de Padre Miguel, por acaso, a escola da região: “sonhar não custa nada / o meu sonho é tão real”.

segunda-feira, 26 de novembro de 2012

Mano de quem?

O maior mistério da atualidade, na minha humilíssima opinião, é essa saída de Mano Menezes. E, principalmente, a baixa repercussão que o assunto tem rendido. Não seria esse o cargo político mais importante do país? Não foi já dito [quem disse, aliás?] que o posto é tão importante que deveria ser escolhido via eleição popular? Como assim não houve manifestações, protestos em praça pública, passeatas de descontentamento para reclamar dessa saída muito pouco explicada do Mano e, principalmente, por nos deixar órfãos do verdadeiro salvador da pátria, até janeiro?

Na verdade, essa manobra esquisitíssima apenas reforça a imagem de uma confederação de futebol cada vez mais anacrônica. Para começar, a informação da saída de Mano, num momento em que todos os que assistem a futebol concordavam que a seleção dava sinais de ter finalmente encontrado um rumo para o time, um caminho, foi dada pelo André Sanchez, que eu ainda não entendi muito bem que papel tem na CBF - aparentemente, chefe de seleções, seja lá o que isso quer dizer na prática. O vice-presidente para assuntos gerais, Marco Polo Del Nero, só se pronunciou depois, dizendo que era tudo coisa do Marin. E José Maria Marin, presidente da CBF, falou muito mal sobre o assunto.

A história piora. Em vários lugares, saiu a informação de que Sanchez, que é filiado ao PT e amigo pessoal de Lula, seria o único interlocutor da CBF com a presidência da República. O motivo não é o fato de Marin roubar até medalhas da própria federação que presidia, mas o passado de Marin, que teria, supostamente, ligação com a tortura e morte de Vladimir Herzog [esse link ao menos explica, em parte, a pouca repercussão desse assunto, a meu ver]. Dilma não aceita esse passado de Marin.


E aí, você escolheria esse fulano para ser o
responsável pela Copa do Mundo no Brasil?

Repito para você, caso não tenha percebido: o presidente da CBF e do comitê organizador da Copa de 2014, um dos principais eventos esportivos do mundo, não tem relações com o poder executivo federal. Acho que não precisamos nem imaginar na Copa.

E o caso pode se tornar ainda mais assustador: Sanchez, numa manobra que para mim tem todas as cores da política, veio a público falar exatamente o que Marin não queria: que Felipão será o próximo treinador. E, antes que ele seja demitido por isso, já avisou que vai sair da CBF. Ou seja, fez questão de sujar tudo antes de fechar a porta.

Sanchez está num jogo de só ganhar: ou ele sai como vítima da situação, já que disse que foi voto vencido na saída de Mano, ou consegue impedir que Felipão, que não é a sua indicação, assuma. E caso permaneça na CBF, o que é muito difícil mas não impossível, será porque Marin teve que admitir a sua indispensabilidade - e aí ele se torna mais importante que o próprio presidente. Esse Sanchez puxou mesmo o seu padrinho político.

Ah, mas e o torcedor? Quem se importa com ele, né?

segunda-feira, 12 de novembro de 2012

Elegância tricolor

Pesquisando para uma pauta que envolve, de alguma forma, futebol, acabei me deparando com a informação de que todos os outros tricolores mais assíduos que eu já sabem: o Fluminense pode ser considerado, sim, campeão mundial. Basta levarmos em conta o mesmo critério dado a outros clubes. O Palmeiras, por exemplo. Em 2007, time paulista foi considerado campeão do mundo de 1951 pela Fifa, por ter vencido a Copa Rio. O Fluminense venceu esse mesmo campeonato no ano seguinte.

Na mesma reportagem, já havia a insinuação de que o time das Laranjeiras iria entrar com o processo na federação internacional para ter esse título justamente homologado. Também é dito que o recurso palmeirense demorou seis anos para ser julgado válido, o que nos leva a crer que, caso se continue nessa mesma velocidade, o Fluminense pode [e deve] ser bicampeão mundial em 2013.

Torcedores do Flu registraram o tetra nas
Laranjeiras (Foto: André Casado / Globoesporte.com)
Por que não se fala tanto disso? Tenho uma hipótese. Porque o Fluminense teve mais com o que se preocupar desde então. A partir de 2007, o Fluminense venceu a Copa do Brasil, ganhou dois campeonatos brasileiros e foi terceiro colocado no outro, foi vice na Libertadores, na Sul-Americanca, e ainda levou um carioca de lambuja. Não conseguiu se concentrar nos processos burocráticos extra-campo.

E é exatamente quando isso acontece, quando se preocupa apenas com o que acontece dentro das quatro linhas, que o Fluminense enche os tricolores das maiores glórias. Não é quando os dirigentes viram a mesa, quando estouram champanhe, quando evitam passar pela segunda divisão para voltar à primeira. Mesmo que os demais times também tenham máculas em suas histórias, o Fluminense não poderia ter se apequenado. Não o Fluminense. Não o Fluminense, que fascina pela sua disciplina.

Cair para uma divisão inferior acontece - pode acontecer - com qualquer clube. Faz parte das regras do futebol e, mesmo que isso eventualmente não tenha acontecido com todos, é uma questão de tempo, imagino, para que ocorra. Mas a virada de mesa foi uma vergonha para os tricolores.

Ser tricolor não me dá o direito de ser cego, de torcer pelo time sem considerar todos os seus problemas. Ser crítico faz parte do ato de ser Fluminense. Assim como faz parte, por exemplo, a elegância. Todo tricolor, mesmo o mais precário, o mais pobre, o mais sem dentes, tem essa característica. Se eu não me engano, Nelson já tinha falado sobre isso. Nelson, provavelmente o maior tricolor de todos os tempos.

Nossa elegância independe de qualquer origem e da classe social. Costumo dizer que o homem mais elegante que eu já vi foi negro, favelado, pobre e sambista: Cartola. Era um homem que mesmo sentado no chão de poeira mantinha uma fleugma, uma postura altiva. Que tinha uma fidalguia, mesmo sem ser filho de um ou outro sobrenome importante. Não por acaso, era tricolor. A lista dos elegantes tricolores pode continuar com Fernanda Montenegro, Chico Buarque, Gilberto Gil, e seguir muito adiante. Você vê em todos eles essa confiança em si, esse respirar fundo, essa certeza pessoal, essa calma, essa superioridade.

Mas não é um sentimento de superioridade em relação ao outro, é uma superioridade isolada, individual, sem precisar de uma outra pessoa para se medir. O tricolor seria superior, seria elegante mesmo numa ilha deserta. Não é algo que se aprende, nem um fru-fruzismo. Não é frescura. É requinte, distinção, esmero, graça. Ou você nasce com a elegância ou não.

Não é algo simples de se definir com palavras. É sempre ter a cabeça erguida, mesmo nos momentos mais duros, em paz, em harmonia. Elegância é saber lutar, quando a esperança, a esperança parece desaparecer, e saber que dali, do fundo do poço se pode encontrar as forças para fazer uma virada, mas não uma virada de mesa. É lutar com vigor, raça, com garra, descobrir um time de guerreiros, quando se tem ínfimas possibilidades de salvação, como aconteceu em 2009, e mudar a história de uma geração. Arrancar dali para uma série de títulos.

Elegância é ter orgulho de ser tricolor.

terça-feira, 7 de dezembro de 2010

Esperança, vigor e paz

Além de não ser bom em chute [vide aqui e aqui], torço para o futebol muito raramente. Sou um tricolor de final de campeonato, como ouvi dizer. Desde a queda tripla do Fluminense às divisões subterrâneas, desisti de perder o pouco tempo que tenho acompanhando o velho esporte bretão. Mas é inegável como a parte da paixão, do irracional, que envolve o esporte ainda me fascina. Lembra da mitologia que eu estava um dia sugerindo como necessária? O futebol tem de sobra.

Por isso, ontem, fiquei muito empolgado escrevendo um texto sobre a história do clube das Laranjeiras, que se confunde com a história do próprio futebol. Não fiz um estardalhaço, mas fiquei feliz com a vitória. Acredito que o time conseguiu agir de acordo com as máximas pregadas por seu hino: deu esperança, jogou com vigor, mas sem se esquecer da paz, jamais.

Aliás, vendo o hino do time, me peguei pensando como foi que eu me tornei Fluminense. Tudo bem que eu era um conservadorzinho, quando pequeno, mas frases como "quem espera sempre alcança", além de brega, é contra tudo o que eu imagino hoje em dia. Não acredito na inação, nem no destino [também não acredito no livre-arbítrio, mas isso é outra história].

Em um segundo momento do hino, canta Lamartine Babo, "Vence o Fluminense / Com sangue do encarnado." Sangue do encarnado? Já não chega cantarem "A benção João de Deus", para um Papa [a saber, João Paulo II]? Eu sei que é a cor se chama "encarnado" [descobri ontem, para dizer a verdade], mas não consigo me livrar do pensamento católico. Novamente, estou longe disso.

A única cor que se salva, portanto, é o branco, associado à paz e à harmonia. É possível conviver com isso.

Além disso, o time tem uma tradição elitista conservadora, o que me deixa com os dois pés atrás.

Estava eu a pensar nisso, por que eu me tornei Fluminense, recorrendo ao meu pai, na sua provável única grande influência em minha vida, quando me deparei com o maior craque o time já produziu: Nelson Rodrigues. Não há ninguém maior na História do Fluminense que o dramaturgo. Pelo menos, na minha humilíssima opinião. Foi ele quem me deu a resposta para a minha pergunta. Uma resposta literária, como a pergunta merecia. “Ser tricolor não é uma questão de gosto ou opção, mas um acontecimento de fundo metafísico, um arranjo cósmico ao qual não se pode – e nem se deseja – fugir”.

Ele também me deu uma boa resposta em relação ao meu adormecimento: “Nas situações de rotina, um 'pó-de-arroz' pode ficar em casa abanando-se com a Revista do Rádio. Mas quando o Fluminense precisa de número, acontece o suave milagre: os tricolores vivos, doentes e mortos aparecem. Os vivos saem de suas casas, os doentes de suas camas e os mortos de suas tumba”.

E, por último, demonstrou que o Fluminense não é exatamente um time só da elite, pelo contrário. “O mais exato seria dizer que ele é o clube de todas as classes”. Abaixo, copio uma crônica dele, de 1959, publicada pela primeira vez no "Jornal dos Sports", do seu irmão flamenguista Mário Filho, intitulada "A incomparável torcida tricolor", que eu tirei daqui.

Amigos, reparem: - há algo de patético na torcida do Fluminense. Nós, com a nossa crassa e ignara simplicidade, temos a mania de falar em “aristocrático clube das Laranjeiras”. E eu vos digo : - “aristocrático” em termos. Será aristocrático porque, no seu quadro social, falta tudo, menos grã-finos. Mas há algo mais no Fluminense, algo mais do que a aristocracia que lhe atribuem. Mais exato seria dizer que ele é o clube de todas as classes.
Sim, amigos : - há de tudo em Álvaro Chaves. Vocês querem tubarão? Afirmo-vos que os há de todos os tipos. Desde o tubarão de borracha, o tubarão de piscina, que as crianças cavalgam, até o tubarão mesmo, de insaciável voracidade. Costumamos desprezar o cartola. Mas vamos e venhamos: - com o seu charuto afrontoso e ultrajante, a conspurcar de cinza todos os tapetes, ele tem o seu charme. Sim, no Fluminense, há cartolas em penca. Vocês querem o príncipe? É o que não falta no Fluminense. Esse grã-finismo autêntico é meio gostoso de se ver.Há também a família da classe média, a mocinha linda, o pai, a mãe, com os seus escrúpulos severos.
Nada, porém, é tão impressionante como o pé-rapado do Tricolor. Amigos, o Fluminense, com toda a sua aristocracia, têm na sua torcida, uma plebe que eu chamaria de épica. É uma multidão que o acompanha, com ululante fidelidade. Jogue o Fluminense com o escrete húngaro ou com o Casca-Grossa F.C. e lá estarão esses heróis de pé descalço. Como são formidáveis ao empunhar a tocha do entusiasmo tricolor! Mas eu falei em pé-rapado. Para mim, não existe o pé-rapado, o borra-botas. O que existe é o homem, o ser humano, a levar nas costas, como o peixe da Emulsão de Scott, uma alma imortal. Um homem é sempre igual a outro homem.
Mas como eu ia dizendo: - chamemos convencionalmente a plebe tricolor de plebe mesmo. É uma gente gloriosa, que não larga o clube, chova ou faça sol. Com a nossa bandeira erguida aos ventos da vitória, lá vão os pés-descalços atrás do time. Eu acredito que esses mesmos homens, em encarnações passadas, fizeram a Revolução Francesa e derrubaram bastilhas. Amigos, eis a verdade: - os campeonatos e as revoluções vivem de paixão. Sem sentimento, não se derruba uma bastilha, nem se levanta um campeonato.
Eu acho profundamente cretina a expressão “plebe ignara”. Ignara coisa nenhuma. Nós é que somos os ignaros, os crassos. Falta-nos isso que sobra no suposto pé-rapado, ou seja, a capacidade de vibrar, de se apaixonar, de viver e morrer por uma paixão. A parte mais humilde da nossa torcida é capaz, sim, de perecer pelo time. Nós temos o escrúpulo, o pudor de pular no meio da rua como um índio de Carnaval. A nossa alegria é meio envergonhada, meio arrependida. Mas a chamada plebe se embriaga com o próprio fogo. A vitória sobe-lhe à cabeça. O tricolor popular, na sua pura euforia, é capaz de trocar as pernas e cair, rente ao meio-fio, com a cara enfiada no ralo. Sim, amigos, falta-nos, a nós outros, a capacidade de tão violenta embriaguez clubística.
Na semana do jogo com o Bangu, eu penso nos pés-descalços da nossa torcida. Eu disse, aqui mesmo, outro dia, que o torcedor, qualquer que seja ele, deve ser tratado, cultivado, como uma orquídea rara. É a pura verdade. Cabe, porém, observar: - o torcedor é tanto mais vibrante quanto mais humilde socialmente. O pó-de-arroz plebeu dá tudo na sua torcida. Põe todo o seu ser, toda a sua alma, toda a sua paixão no berro do gol. Um jogo, para ele, não representa apenas um passatempo inconseqüente, mas uma decisiva experiência vital. A derrota passa a ter um sentido transcendente. E a vitória significa apenas isto: - a Ressurreição e a Vida.
Um campeonato constitui uma soma de fatos. Um deles, e dos mais importantes, é a torcida. Um time precisa sentir, atrás de si, o berro da torcida. A ausência dessa torcida representa a solidão. Nada mais triste do que um time sem ninguém. Acresce o seguinte: - ninguém faz justiça à torcida tricolor. Exalta-se a do Vasco, a do Flamengo. E querem esquecer a nossa. Mas eu vos digo: - tem razão o Benício Ferreira Filho: - a grande torcida é a do Fluminense. Nada se compara à sua flama e à sua fidelidade. Outras podem ser mais numerosas. Uma torcida, porém, não vale a pena pela sua expressão numérica. Ela vive e influi no destino das batalhas pela força do sentimento. E a torcida leva um imperecível estandarte de paixão.

segunda-feira, 15 de novembro de 2010

Fluminense vai perder

Tudo bem que eu não sou bom de adivinhação. Mas achava que a rodada desse fim de semana era fatal para decidir quem será o campeão do Brasileiro este ano. E, com a combinação de resultados, imagino que o Fluminense deva perder o título e o Corinthians será o campeão - infelizmente, por vários lados.

Primeiro, o óbvio: Fluminense é o meu time. E mesmo que eu não seja um freak do futebol, quiçá um fulano que assiste às partidas regularmente, fico mais feliz com o Fluminense ganhando que com ele perdendo. É inerente à minha constituição pessoal.

Segundo porque o Corinthians me desperta os meus pensamentos mais... serristas*. Como um time com um gordo como atacante pode ganhar um campeonato como o Brasileiro? Como um time com o Roberto Carlos Meião pode ter torcedores fiéis? [Eu sei que esses dois argumentos meus só demonstram o quanto o Brasileiro é nivelado por baixo; quando joga um atacante fora-de-série, mesmo fora-do-peso, ele se destaca no meio de tanto joio. E temos tão poucos ídolos que mesmo um fulano que se acha a última bala-juquinha-do-pacote e hoje em dia está mais para cocô-de-rato-de-cormedamião é visto como a salvação e o caminho.]

Sei que o futebol, ainda menos que a política, é uma ciência inexata. Todas as vezes que vejo / ouço / leio o matemático Oswald de Souza ou o Tristão de não-sei-o-quê, tenho pequenas convulsões pelo corpo. Não existe qualquer lógica nas previsões e probabilidade no velho esporte bretão vale tanto tabus e história - talvez menos, até. Por isso, mesmo, qualquer previsão é fadada ao fracasso - e, mais que em qualquer outra oportunidade, quero que essa minha naufrague e eu me sinta a versão masculina da mãe Dinah.

A questão é: o Corinthians - quer eu goste, quer eu desgoste, é um time de chegada - como se diz dos clubes que crescem com o passar do campeonato. Chegar às últimas três rodadas com um ponto de vantagem é muito perigoso - para o Flu. Fora que há uma tendência de marcar pênaltis que beneficiem o Timão, mas isso é a subjetividade da subjetividade, nem dá para entrar nesse pormenor.

O Flu enfrenta dois grandes times de São Paulo: São Paulo e Palmeiras, fora de casa, além do Guarani, no Engenhão - praticamente fora de casa também. Corinthians: Vasco, Vitória e Goiás. Os adversários do clube paulista são, na teoria, muito mais fáceis que os do tricolor. Dizem que os times de lá vão facilitar para o Flu, mas, por mais que eu quisesse, não acredito nisso. Se fosse assim, também teríamos problemas com o Vasco. Dizem que o Palmeiras vai jogar com time misto, e acredito que será mais difícil para o Fluminense vencer a obrigação de ganhar. Ou seja, estou pessimista.

 Fora isso, o Muricy, após vencer trocentos títulos com o São Paulo, se esqueceu no passado de como é vencer, deixando o Palmeiras, após mais da metade do campeonato liderando, fora dos quatro primeiros. Pelo menos estamos garantidos na Libertadores.

* O pobre do Serra não tem nada a ver com isso. Acho até que ele é um progressista. Mas ao se associar com as mais retrógradas forças e fazer campanha em prol de agendas ultrapassadas, o seu adjetivo, "serrista" se transformou em um sinônimo de preconceituoso na minha cabeça.

sexta-feira, 25 de junho de 2010

Primeira fase da Copa 2010: Zebras? Nem tanto

Com a eliminação da sempre temida (para os brasileiros) França e da tetracampeã Itália, com a derrota da outrora assombrosa Espanha para Suíça, e a decepção da empolgante Alemanha após um início arrebatador além da Inglaterra sendo apenas a Inglaterra de sempre, pode parecer para o incauto que essa Copa está cheia de zebras. Por mais que seja tentador, eu tenho que discordar um pouco.

Mesmo sendo um torcedor quatrienal, já que o meu Fluminense não empolga tanto assim no ínterim, me considero um conhecedor modesto da tradição do velho-esporte-bretão na sua vertente Copa do Mundo. Sei todos os vencedores até hoje, onde foram disputados os mundiais, a partir de 1950 (antes era a pré-história), lembro de jogos memoráveis, e outros nem tanto, esqueço propositalmente de decepções e, principalmente, experimento a sensação de torcer descontroladamente por um time de futebol, mesmo que não seja o Brasil. Após apresentar as minhas credenciais, posso dizer que acredito ser possível enxergar algumas situações constantes, que se repetem sempre nos campeonatos mundiais, principalmente nos mais recentes.

Não é coincidência, portanto, que os europeus estejam indo mal, a grosso modo. Via de regra, os grandes - aqueles que já chegaram em finais - tremem quando precisam atravessar o Atlântico, o Mediterrâneo, ou simplesmente ir para o fim do mundo (para eles). Um dos argumentos mais fortes quanto a isso é: o Brasil foi o único país que venceu fora do seu continente (em 1958 e 2002). Mas se você ainda não se deu por satisfeito, basta lembrar da Copa da Coreia-Japão do fiasco dos Bleus e da Azurra para ter exemplos à mão.

Se ainda não se convenceu, recordai de 1994. Os semifinalistas foram: Bulgária, de Hristo Stoichkov, companheiro à época de Romário no Barcelona, a Suécia (ok, já chegou a uma final, em 1958, mas não é exatamente um grande, concorda?), a Itália (sempre há uma exceção) e o Brasil. O fim é lembrado por todos, naquele abraço mais-que-fraternal entre Pelé e Galvão ao som das clássicas palavras: "é tetra, é tetra, é tetra".

Em 2002, não foi diferente: o quarto lugar foi para Coreia do Sul (!), o terceiro para a Turquia (alguém se lembra deles?), o vice ficou para Alemanha, naquele frango do Kahn, e o Brasil, o campeão.

Reparem que não é uma superstição - apesar de parecer uma. Superstição seria: todas as vezes que o Brasil joga a semifinal com um time que havia enfrentado na primeira fase (Suécia e Turquia, por exemplo), ganha a Copa. No caso, mesmo pegando poucos exemplos, é a demonstração de como as grandes seleções europeias simplesmente não jogam fora de casa.

OK, voltemos um pouco mais, à 1986: Bélgica, França, Alemanha e Argentina foram os primeiros colocados. Mas a França, apesar do Platini, não poderia, à essa época, ser considerada uma grande seleção. Nunca tinha conseguido nenhum resultado expressivo (jamais chegara à final na História das Copas), por exemplo. Nem falemos, portanto, na Bélgica. E está bom de exemplos.

Outro fator bastante comum, e que foi visto como uma novidade nessa copa, são os resultados completamente adversos. Se for na primeira rodada, então, quando os times ainda estão nervosos com a estreia, é pule de dez. Nunca vou esquecer o nome do camaronês autor do gol contra a Argentina na partida inicial da Copa de 1990: François Omam Biyik (digitei sem conferir a grafia e, quando a fiz, só tinha errado o jeito de escrever o seu "Omam"). Biyik pode ter ficado esquecido numa copa em que Roger Milla deslanchou, mas o meu canário amarelo foi batizado naquele dia com seu nome.

(Como era difícil pronunciar o seu sobrenome, Biyik, - três fonemas iguais em sequência - e nem havia necessidade de "chamar" o pássaro, eu parcamente usava sua alcunha. Mas o bicho pode dizer que não morreu, anos depois, incógnito.)

A vitória da Alemanha em 1994 por magros 1x0 para a Bolívia, fora da altitude de La Paz que tinha feito o Brasil de vítima nas eliminatórias, foi quase uma derrota. E o que falar da França (novamente) que perdeu vergonhosamente para o Senegal em 2002?

Isso para mostrar que também é comum que a atual campeã jogue mal o campeonato seguinte. Com a exceção da Itália (ainda na pré-História, em 1934 e 1938) e do Brasil (em 1958 e 1962), nunca houve um bicampeonato. Argentina (em 1986 e 1990) e Brasil (1994 e 1998) foram campeões e chegaram às finais no campeonato seguinte. E Alemanha (1986 e 1990) e Brasil, novamente (1998 e 2002) foram vice e, quatro anos depois, campeães. Há ainda o caso da Holanda, que em 1974 e 1978 foi duas vezes - e injustamente - vice.

(Mas quem disse que o futebol é justo? Se começarmos a lembrar dos casos conhecidos, temos que falar do Brasil de 1950, da Hungria de 1954 e novamente do Brasil de 1982, para ficar nos mais conhecidos.)

Ir mal na primeira fase também não quer dizer nada. Argentina começou horrivelmente a Copa de 1990, se classificando em terceiro no seu grupo (na época, por serem "apenas" 24 seleções, os melhores terceiros passavam à frente) e enfrentando o Brasil nas oitavas. Todo mundo se lembra do resultado e do nome de Claudio Canniggia. (Tive pesadelo por dias...)

E claro, do clássico caso italiano, de 1982, e o também inesquecível (para nós) Paolo Rossi. (Outra superstição daria conta de que o time que começa mal e vence o Brasil acaba ganhando a Copa. Mas isso talvez não seja superstição, também, apenas a demonstração da importância do país quando o assunto é bola no pé. Mas, de qualquer forma, é melhor não ter pego, agora, a Espanha. Just in case.) A Itália, aliás, é conhecida por engrenar - se é que engrena aos poucos.

Por último: em copas sempre há uma zebra. Sempre. Um time que ninguém dava nada e que vai longe, ou que empolga, sem ninguém lembrar deles quatro anos depois. Já citei aí em cima a Coreia do Sul em 2002. E também Camarões em 1990. E a Bulgária, de 1994. Em 1998, foi a vez da Nigéria (lembro até hoje da comemoração do fulano, agarrado às redes do gol, com uma felicidade "amadora". Foi bonito. Mas foi mesmo em 1998?). E em 2006, bem, 2006 foi a copa mais sem graça desde... 1990. A zebra, talvez, tenha sido a França, mas quem tem Zidane, nunca deixa de ser favorito.

Isso quer dizer que, mesmo com os resultados aparentemente estranhos, são todos, no fundo, previsíveis.