sexta-feira, 5 de agosto de 2016

CHINANEWS: A comida

Uma das forças culturais da China é, inegavelmente, sua comida. É tão presente que a tradução literal para o cumprimento igual a “Como vai você?” é algo como “Já fez sua refeição?” ou “Já comeu?”. Ontem fiquei treinando a pronúncia com os chineses do escritório na hora do jantar. É algo como “ni chi le ma?”, ou"你吃了吗?", se eu entendi direito.

algodão doce deve ser uma invenção chinesa


Ligeira interrupção para dizer que a entonação das vogais em mandarim engana muito: são quatro possibilidades diferentes. O exemplo clássico que é dado é o do Ma. Má, em que o som do “a” cresce, quer dizer cânhamo. Já mà, em que ele decai abruptamente, ralhar. Por sua vez, mă, em que há um balanço, começando alto, descendo e depois subindo novamente, quer dizer “cavalo”. Por fim, mā, em que o som permanece alto sempre, é mãe. O último "ma", como se vê no parágrafo anterior, é uma partícula interrogativa. Cuidado, então, para não pedir, sem querer, para fumar ou cavalgar uma mãe.

Voltando à comida. Segundo o "Lonely planet", há quatro grandes “cozinhas” na China, que representam os quatro pontos cardeais do país. Cada um com suas especiarias, seus pratos principais, suas carnes prediletas. Em Beijing, predomina a culinária do norte. E o seu prato principal é, inegavelmente, o pato laqueado.

Claro que, após quase uma semana aqui, eu já comi uma vez o pato, mas não é sobre a pobre ave que fica horas no forno especial para ficar com a casca que lembra a nossa pururuca que eu quero focar aqui. Deixo isso para quando for visitar o famoso pato de 1406: o restaurante que faz a mesma receita desde o ano em questão.

Nem mesmo sobre os Dim Sum do Duyichu, um restaurante que fica numa área completamente turística [me disseram que parece a Epcot Center – e parece mesmo], mas que faz dumplings [pequenas massas de trigo com recheios variados que são fervidos dentro de caixas de bambu em vapor] tão maravilhosos e variados que, reza a lenda, o imperador Qianlong, da dinastia Qing, no século XVIII, se disfarçava de plebeu para poder provar suas maravilhas. São ótimas, as bolinhas, mesmo, mas não vou tentar aqui ser crítico culinário. Hoje, não.

Queria falar – ou tentar falar – sobre o que representa a comida para os chineses. Claro que eles têm McDonalds e Burguer King. É certo que eles comem comida tailandesa e italiana. Você pode ver gente tomando café ou bebendo coca-cola. Mas é inegável a ligação dos chineses com a sua comida. É mais que um patrimônio. É um laço invisível – e delicioso.

Ir jantar com chineses é certeza de se esbaldar. A quantidade e a diversidade de pratos que se pede impressiona até os maiores comilões, como eu. A mesa mais característica é aquela com um tampo de vidro no meio, em que você pode rodar os pratos por cima. Aí, vale tudo: língua de pato, pata de rã, orelha de porco. Ou pratos menos exóticos, a princípio: como um peixe com um molho que deixa a língua dormente que nem jambu. Ou o frango que parecia xadrez, mas era picante e ligeiramente doce. Ou bambu, que lembrou o gosto de palmito. Ou diferentes tipos de preparo de tofu. Você roda e vai provando e repetindo de tudo.

Algo que se percebe rápido: além de gosto, comida é costume, hábito. Por que os americanos almoçam um sanduíche e jantam cedo? Por que cariocas gostam das feijoadas às sextas e paulistas às quartas [é quarta, né?]? Por que chineses não tem nojo de nenhuma parte dos animais e comem até as coisas mais impensáveis – para nós? Todas essas questões podem ter tido uma explicação inicial [os americanos não querem perder tempo no almoço, os cariocas já emendam o almoço da sexta, os chineses passaram por muitas privações, etc.], e que muitas vezes não fazem mais tanto sentido – acho difícil um carioca normal conseguir emendar todas as sextas, por exemplo – mas o hábito já está entranhado.

Mas mesmo os hábitos mais entranhados podem passar por uma certa padronização - para não usar a palavra da moda, goumertização. Hoje, o carioca [e aposto que o paulista também] quase nunca encara uma comida um pouco mais pesada, fora dos padrões ditos saudáveis. A feijoada quase sempre é magra. Ninguém mais come pé ou rabo de porco na feijoada. Rabada virou prato exótico. Buchada, então...

A comida fica cada vez mais padronizada, igual. Não há muito mais diferença entre os lugares. Há uma pasteurização, uma tentativa de higienização. Mesmo assim, é de se notar que, como nação, só engordamos nos últimos anos.

Na China, porém, ao menos na comida, eles não se renderam - ainda. Mesmo nessa área completamente ocidentalizada, a quantidade de restaurantes chineses em que os menus só têm informação em mandarim e em que os atendentes também não falam nada além da nobre língua da etnia han é enorme. E dá-lhe barriga de porco, gorduras variadas, peles crocantes. Tudo bem pesado. Coincidência, ou não, ainda não vi ninguém obeso aqui.

Talvez seja o metabolismo. Talvez seja as práticas de atividade física. Seja genótipo ou fenótipo, suspeito que em poucas décadas, essa China esbelta vai ficar para trás. Quando o Ocidente mostra as suas armas cada vez mais pesadas [sedentarismo, estresse, trabalho excessivo], não sei se há como resistir totalmente intacto.

terça-feira, 2 de agosto de 2016

CHINANEWS: No topo de Pequim

Lembram quando eu falei que este bairro aqui era chique para padrões ocidentais, mas que tinha ainda lojas que eram consideradas populares em outros lugares do mundo? Já tenho outra teoria.

Ontem fomos a um bar no topo do prédio que, se eu entendi bem, é o mais alto de Pequim, com 80 andares. O lugar era chique para qualquer padrão do mundo. O nível de frescura era alto. Só não era mais alto que os seus preços. Para dar o tom: havia uma seleção de uísques escoceses de edições especiais cujos preços passavam dos R$ 5 mil. A Coca-cola custava algo como R$ 25. Uma dose do single malte mais barata: R$ 40. A Duvel, curiosa e comparativamente, estava barata para os [altos] padrões brasileiros: R$ 37. E não é porque eles têm uma boa relação com a Bélgica ou com o fabricante da cerveja: a Heineken estava R$ 30. É porque pagamos muito caro, muito caro, pela endiabrada loura no Brasil. [Mas antes de acharem que eu ganhei na mega-sena: não, eu não tomei nem água da bica no lugar.]

Essa era a porta da entrada do hotel que serve de apoio para o bar
No caminho para o lugar, quase fomos atropelados por um Ferrari e pude comprar cinco bombadas bananas e uma pêra vitaminada por 20 yuan, ou cerca de R$10, na rua, numa versão local da carrocinha de cachorro-quente [quando eu entreguei as duas notas de 1 yuan, mal interpretando o “v” dos dedos da vendedora, ela não fez nada além de rir de mim]; também vimos hotéis com inumeráveis estrelas e lustres pesadíssimos, ao lado de jovens executivos agachados de cócoras [depois escrevo minha teoria sobre essa posição]; ou ainda uma jovem da área de tecnologia vindo de rickshaw guiado por um típico malandro da Lapa versão pequinesa. Isto é: o confronto entre as múltiplas Chinas acontece, e muito, mesmo na ilha da fantasia.

O caso das marcas populares se poderia explicar assim. Prossigo.

Como todo mundo sabe, fui criado na aprazível e clima-de-montanha localidade de Nova Iguaçu. Quando nasci tal benevolente cidade ainda vivia longe das [pigarro para limpar a garganta] benesses da modernidade. Em resumo: não tinha shopping. Em outras palavras: Não tinha qualquer elemento que pudesse identificar a cidade com o Ocidente mais capitalista. Em mais outras palavras: não tinha sequer um McDonald’s.

Quando a loja do McDonald’s do primeiro shopping da cidade foi inaugurada, aconteceu o esperado: a procura foi tão grande que o pão acabou. As pessoas faziam filas imensas para pedir o dois-hambúrgueres-alface-queijo-molho-especial-cebola-e-picles-num-pão-de-gergelim. Comer o Big Mac era a certeza de entrar num mundo de privilegiados. Fazer parte de um grupo “diferenciado”. Era ser um tipo de elite. Era, enfim, ser moderno.

O McDonald’s, entretanto, é uma lanchonete extremamente popular em qualquer país que dita as regras para o restante do planeta do que é moderno ou não. Mesmo no Brasil, esse afã pela “novidade” do fast food diminuiu consideravelmente, em cidades maiores. Mesmo Nova Iguaçu já se tornou demasiadamente “moderna”.

O resultado disso é claro. Lá, engarrafamentos bizarros que travam a cidade e transformam o pedestre em um alienígena. Aqui, uma geração de chineses de garotos e garotas que trabalha até 20 horas por dia, dorme muitas vezes nos seus próprios postos, e nem tem tempo de gastar o [comparativamente com os países que ditam as regras] parco salário que recebem, quiçá ter alguma vida.

O Ocidente repete seus símbolos: carro, Coca-Cola, trabalho.

CHINA NEWS: Ficção científica

Quando se pensa em China qual é a imagem que vem logo à cabeça?

(a) A Grande Muralha
(b) Mao Tsé-Tung
(c) Agricultores de arroz com chapéu cônico 
(d) um cenário de "Blade Runner"
(e) Todas as alternativas acima

A resposta para o distrito de Chayang, onde estamos alocados, é certamente a letra "D". Prédios imensos, totalmente espelhados, ruas milimetricamente planejadas, lojas ocidentais em todas as esquinas, uma névoa constante que à noite deixa um ar translúcido e com uma luz opaca, carros [de brinquedo] que parecem flutuar e, principalmente, PRINCIPALMENTE: telas. Telinhas, telonas, telas. Celulares e tabletes são itens de primeira necessidade. Os habitantes vivem com a cabeça em ângulo quase reto com o corpo em constante torcicolo. Mas o mais assustador é o teto do shopping aqui do lado.

Diz aí que eu não sou um péssimo fotógrafo?

No céu artificial do centro comercial - onde o supermercado inglês Marks Spencer [ou seria "Marks expensive"?] me cobrou cerca de R$ 50 para um saco de granola e uma garrafa de suco de laranja - um telão de quase 100 metros por 20 de largura [você não leu errado] fica ligado non-stop [ao menos de noite] passando imagens completamente surreais para os nossos padrões.

Na primeira vez que o vimos, ele projetava imagens de candidatos a um relacionamento sério. Como disseram aqui, é uma espécie de Tinder - só que bem mais público. Tenho amigos que iriam se esbaldar com a proposta.

Imagine: aparece a cara de um sujeito em um vídeo em que ele ri para a câmera tentando mostrar toda a sua simpatia, e ao seu lado suas características principais - como um jogo de videogame. Força: 8. Carinho: 7. Amizade: 9. [Não era exatamente assim, mas não me assustaria, agora, se fosse.] Do lado, o telefone para entrar em contato. Match.

Chayang parece, inegavelmente, um cenário de "Blade Runner". Mas, às vezes, percebo que é uma obra feita pelo prefeito do Rio de Janeiro, padrão Olimpíadas 2016. Sempre se percebe que rolou um jeitinho, um cuspe para colar o último azulejo do banheiro. Como um bom símbolo de que nem sempre a velocidade de crescimento segue o cuidado com a execução do projeto. O exemplo mais óbvio disso que encontrei até agora foi a maneira como consertaram o olho mágico do meu quarto. 

Com a exceção do mau gosto na tentativa de parecer ocidental, como o lustre que imita cristal ou a cama rosa e redonda, típica de motéis [mais uma prova de que a tentativa acelerada para entrar na modernidade tem efeitos colaterais visíveis], o quarto pode ser considerado de luxo. Impressiona todas as vezes que ele é mais "oriental" que "ocidental" - como nas madeiras escuras, na cadeira de vime de balanço onde estou sentado agora. Tudo pelo menos em ordem - razoavelmente, ao menos. Menos no olho mágico. 

Provavelmente devem ter descoberto que o vidro permitia que se visse o interior dos quartos desde o lado de fora. Qual foi a peneira usada para tapar o sol? Papel. Higiênico. Isso mesmo.

Devem ter deixado para eu não sentir falta das Olimpíadas. Só pode ser.

segunda-feira, 1 de agosto de 2016

CHINA NEWS: Perdido na tradução

Cansado e suado, depois de mais de 24 horas de viagem e algumas horas de passeios instantâneos debaixo de um sol do fim de verão pequinês que não deve nada ao carioca [com direito a uma umidade sem humildade]. Foi assim que cheguei ao imponente 23º andar de um prédio totalmente espelhado numa rua recém-construída do bairro chiquerérrimo [para padrões ocidentais]. Chiquerérrimo, mas em cuja esquina fica a loja da Adidas ao lado da do Burguer King [Nike e McDonald's são tão século XX...]. Não é, ainda, padrão Gucci ou Prada. Mas vai ser em breve, suspeito, pela quantidade de Porsches e SUVs na rua.

Muralha da China é ruim de invadir...
Foi lá que fomos recebidos por uma espécie de gerente desse tipo de apart-hotel de luxo em que fomos instalados. O sujeito chegou atrasado, vindo, ao que parece, diretamente da academia, com um short estilo adidas índio de novela [ah, a ocidentalização...] e se apresentou... por meio do celular. Ele não falava nada, absolutamente nada, de inglês. Nem "yes" ou "no". Nada.

Falava com o celular, olhava para a tela e em seguida nos mostrava. Muitas vezes, a frase não fazia qualquer sentido e olhávamos para ele com cara de quem estava escutando chinês. Mal traduzido. Pelo que entendemos, nossa reserva teve que ser mudada. Duas vezes, ao menos. Nada do que esperávamos se concretizou. E ele ficava falando lá no telefone e nos mostrando. Quando alguma frase funcionava - ou parecia funcionar - tentávamos responder na mesma "língua": apertávamos o botão e tascávamos nossa melhor entonação do Fisk nosso de cada dia, para depois perceber que o celular não tinha entendido nada. Ou, quando entendia, era a vez do gerente-malhador nos olhar com cara de que estava perdido.

Citar a barreira linguística, de como é difícil qualquer tipo de comunicação, de como se fica perdido na tradução, é a repetição do principal clichê quando se fala em China. Mas esse talvez seja o primeiro sentimento ao se chegar do outro lado do mundo. Ou melhor, o sentimento mais constante, que não nos abandona nem quando vamos ao banheiro - agachado ou sentado. Se a minha pátria é a minha língua, ou se o ser se dá na linguagem, para usar duas das frases mais batidas sobre o assunto, estamos completamente isolados dos outros.

O sentimento aumenta e se transforma em metáfora quando percebemos as barreiras que os chineses impõem [o pacote Google é bloqueado! - salvem a VPN!] e sempre impuseram ao outro - ao estrangeiro. Uma nação que foi constantemente invadida, saqueada, destruída, vilipendiada e que muito rapidamente, nos últimos anos, se transformou num dínamo que está arrastando - para o bem ou para o mal - o resto do mundo. É um tipo diferente de proteção. Parece. Tudo aqui só parece.

Talvez a língua seja a última barreira, a muralha que o Ocidente não vai conseguir ultrapassar tão facilmente. Podem invadir suas ruas, podem vestir e mudar seus hábitos. Podem criar o maior êxodo rural da história - com mais de meio bilhão de pessoas saindo do campo para as inchadas cidades, para se "modernizarem". Podem criar ou agudizar antagonismos, mas jamais vão tirar a proximidade entre os chineses que dividem, ao menos, a mesma língua. Que podem morar nessa mesma linguagem e serem os mesmos, iguais, de alguma maneira, aí.

Somos e seremos sempre estrangeiros.

ps. Vou tentar escrever sempre sobre esse período aqui.

sábado, 30 de julho de 2016

Desautomatizar

Dias desses, decidi começar a escovar os dentes com a mão esquerda. Sem perceber - ou apenas inconscientemente sabendo o que estava fazendo - mexi num desses hábitos tão enraizados que você normalmente pratica enquanto faz outras coisas. Ou você não escova o dente e penteia o cabelo? Escova os dentes e calça os sapatos? E veste a calça. E paga conta no celular. E... Nunca é só escovar os dentes. Basta trocar de mão, porém, e tudo muda. A mão parece sem precisão, como uma faca que quer ficar cega. Parece indestra ou adestra - o oposto de destra, que não é "canhoto". Bamba, estranha, bêbada, fluida, líquida.

É necessário colocar todo o foco nessa outrora simples ação para que ela saia razoavelmente bem. Para que as escovadas acertem os caninos, esfreguem os incisivos, espanem aquele vizinho do ciso que mastiga até a mais dura casca da cenoura crua. É necessário reaprender o básico, o início, como se tivesse revisitando a infância, mas somente pelo lado motor, já que o psico já está muito acostumado com a vida adulta e interromper esse processo é complicado. Mas é preciso.

Tem que desconectar a cabeça do mundo lá fora e pensar só nas idas e vindas, vindas e idas, da escova com suas cerdas macias sobre os fixos dentes. E como a boca espuma mais quando você só presta a atenção nela. E tenho que cuspir a toda hora. E fecha a água. E o desperdício de água. E os problemas relacionados a... E a cabeça já voou para longe. Puxa de volta, mira nos dentes, prende o fecho de luz em direção à boca, amarra a concentração aí, e somente aí.

Mais recentemente, outra experiência parecida também se apresentou para mim, dessa vez de maneira completamente alheia à minha exótica vontade. Uma dor lancinante nas costas me levou a um fisioterapeuta e acupunturista que vaticinou: você pisa errado. Isso, eu ando de maneira errada. Eu, que nem sabia que existia um jeito "certo" de caminhar, fiquei me entreolhando no meio do caminho sem saber como "consertar" o "erro".

Segundo ele, o "correto" é colocar primeiro o peito do pé no chão, de maneira delicada, sem deixá-lo simplesmente cair, sem abandonar a perna como se ela devesse desabar. Em seguida, fazer uma flexão com o centro do pé e empurrar o solo com o calcanhar. É exatamente o oposto - em tudo - do que eu fazia. Meu pé caía como uma tora de madeira no chão que fazia as janelas do apartamento tremer, bem sobre o calcanhar, para depois movimentar para "frente" e empurrar o corpo com o pé. Aparentemente é assim que a grande maioria das pessoas faz - com maior ou menor violência no contato corpo humano-chão. Ou você caminha diferente?

Pois bem. Lá fui eu reparar em cada um dos passos que dou. Atentar para que o pé toque delicadamente o solo com a parte da frente, evitar parecer que estou com algum tipo de paralisia ou imitando o Michael Jackson em seu "Moonwalk", fazer o movimento calmamente de torção para a parte traseira do pé até que eu empurre o corpo em direção à frente. Primeiro resultado: um trajeto que normalmente eu percorria em dez minutos se transformou em uma vagarosa caminhada de 20. Quase um flâneur. Segundo resultado: foi uma diminuição instantânea da velocidade e um embate interno com a ansiedade de ter que resolver tudo o mais rapidamente possível e para ontem. Terceiro: a dor nas costas diminuiu consideravelmente.

Aparentemente, quando pisamos com o calcanhar primeiro, os músculos dorsais são exigidos quase que sozinhos para manter o corpo ereto, em luta com a grave gravidade. Logo ficam sobrecarregados. Ao pisar com o peito-do-pé, além de dividirmos melhor o peso, fazemos com que nosso abdômen trabalhe nesse movimento. Já vislumbro um tanquinho no verão 2017.

Ao mudar completamente uma ação que fazemos em ato reflexo interrompemos o processo involuntário. Criamos um movimento de desautomatização, que nos torna mais atentos ao nosso redor.

Uma crítica a essa interrupção de ações quase instintivas poderia ser: num mundo cada vez mais duro e frio, temos que parar de pensar e agir mais impulsivamente. Penso que acontece o oposto, porém. Sempre estaremos focando nossa mente em direção a algum ponto. Ao reparar nas coisas mais comezinhas, talvez estejamos prestando atenção no nosso próprio corpo, nas suas camadas, no nosso entorno mais próximo. Em vez de pensar em pagar as contas do celular, descobrir todos os dentes da boca. Em vez de correr para chegar cedo no ponto de ônibus, descobrir toda a rede de conexões musculares, que sustenta nosso corpo. Em vez de olhar para o mundo inteiro, do lado de fora, olhar para o mundo inteiro, do lado de dentro.

Isso me lembra um famoso koan - essas pequenas narrativas do budismo zen:
Antes de entendermos o Zen, as montanhas são montanhas e os rios são rios; Ao nos esforçarmos para entender o Zen, as montanhas deixam de ser montanhas e os rios deixam de ser rios; Quando finalmente entendemos o Zen, as montanhas voltam a ser montanhas e os rios voltam a ser rios.
É com esse pensamento em mente que eu viajo para passar dois meses na China, em Beijing. Sabendo que o Rio deixará de ser Rio.