quarta-feira, 3 de fevereiro de 2021

Variações de sarrafos (ficção)

Batemos tambores, eles panela
Rincón Sapiência

 

Tema

As canelas esbranquiçadas combinam com a roupa, mas contrastam com o corpo retinto. Ele é mais forte que eu, por isso passo cuidadosamente por trás, sem que me note. Pego rapidamente o sarrafo no chão e dou bem na nuca, igual meu pai me ensinou. Ele nem percebe de onde vem, cai só para levantar mais poeira. Em seguida, grito para o seu Severino: Leva para o hospital e resolve tudo. Sem perder mais tempo, vou para o carro e saio fora.

1ª variação

Minha garganta trava e começo a chorar assim que saio com o carro. Meu pai não pode desconfiar disso. Eu tenho que saber me impor.

Rodo de carro até a gasolina quase acabar. Fico umas noites sem dormir direito. Ele podia ter morrido! Tentando ser discreto, pergunto ao seu Severino: e o Josenildo lá? Ele me responde: tá na mesma, patrão.

Chego a ir ao hospital, mas não subo. Sorte que a madeira quebrou. Parece que ele ficou capengando, mas depois vai melhorar, tenho certeza. É forte pra burro, o bicho.

Na obra, ele ficava me olhando de um jeito. O corpo com suor peguento, sempre sem camisa. Achava meio estranho ficar sempre assim, sem camisa. Os outros não faziam aquilo. Eram peões, mas eram limpos. Josenildo, não. Eu só queria parar com aquilo, com aquele jeito d’ele me olhar. Eu não sou disso. Eu não sou disso! Não pode! Com quem ele pensa que tá lidando? Eu precisava fazer alguma coisa para mostrar quem é que manda, para saber me impor. Meu pai repetia: você que é o patrão, o resto é peão. Não podia deixar passar em branco.

Fiquei dias planejando tudo em detalhes: o que eu faria, por onde passaria, o que diria. Imaginei como iria andar, o tipo de olhar, o tom da minha voz. Eu que mando nessa porra!

Na sexta, houve a conjunção de fatores favoráveis. Cheguei até a sorrir. No momento em que ele deu mole, parti para cima.

 

2ª variação

Nunca tinha feito isso. Nada disso. Eu não queria, mas me deu uma coisa que eu não soube controlar. Josenildo sempre foi meio bicho do mato. Quando eu ia para o vestiário, ele se escondia. Eu ia conversar com todo mundo, pô. Pegava com frequência Nildo ainda sem camisa. Corpo de um brilho apagado do pó da obra, suor colado, peguento, cara de cansaço, se arrumando pra ir embora. Os músculos empurrando a pele, como se quisessem se expandir para fora do corpo. O abdômen trincado. Perguntei o que ele fazia para ficar assim. Assim como? Assim, sarado. Ele respondeu que bastava carregar dois sacos de cimento na cabeça, todo dia. Rimos, ou pelo menos eu ri. Falei para ele que eu iria começar a malhar assim também. Foi a vez d’ele rir.

Ele não era envergonhado, mas comigo, não sei. Um dia ele pediu para eu parar, e eu perguntei parar o quê? – eu não tinha feito nada. Ele falou que estava com medo de perder o emprego. Tinha a mãe para ajudar. Eu disse que nunca iria mandar ele embora.

Começou a ficar sempre junto dos outros. Eu ficava olhando de longe, não tinha nada a ver, estava só olhando. Olhar não tira pedaço. Ele evitava ir ao banheiro, sei lá por quê. Devia achar que alguém iria agarrar ele. É cada uma...

Perdi a cabeça quando o seu Severino veio falar comigo:

Patrão, o pessoal tá comentando.
Comentando o que, Severino?
Você e o Josenildo...
Como assim, Severino?
Dizendo que você tá cheio de intimidade com ele...
Severino, me respeita, me respeita que eu sou teu patrão e posso te mandar embora agora!
Que isso, patrão, que isso. Eu nunca acreditei nessa fofocaiada. Conheço o senhor desde pequenininho, quando seu pai te trazia pras obras. Eu trabalho pro seu pai há mais de 20 anos, nunca ia desconfiar de nada...

Nessa hora eu olhei para fora e Josenildo tava mijando atrás da brita. Não pensei duas vezes. Tinha que acabar com essa história. Onde já se viu?

 

3ª variação

Quem esse crioulo pensa que é? Bem que meu pai falou: nunca confia em preto. Se meu pai não fosse amigo do juiz, eu tava ferrado. Imagina, ser preso por conta de um crioulo desse? E ele ainda viveu sem sequela nenhuma, parece. Nunca mais vi na minha vida. Deve estar morto. Não duvido nada ter virado bandido. Já não era flor que se cheira. Ou tá cheio de filho, fodido. Tem uma coisa que pobre gosta é de ter filho. Por mim, esterilizava tudo. Sem nem pedir. Nascia, já cortava tudo fora. Ia acabar com a violência rapidinho.

Esse aí chegava sempre bêbado na obra. Não queria nada com a hora do Brasil. Eu tentei ajudar. Severino, aquele cabeça-chata, veio pedir por ele da última vez: ele não vai mais faltar, tem que ajudar mais gente. O pai sumiu, a mãe é velha. Eu pensei, mas não falei: a mesma história de sempre... Sou bom, mas sou ainda mais é justo. Se eu não mostro quem manda, to ferrado. Ninguém ia me obedecer na obra. Aí eu lembrava do que meu pai dizia: tem que deixar claro para todo mundo que você que é o patrão e o resto é peão. Eu já tava escutando uns risinhos pela obra. Meu pai também dizia: se não dá para ganhar na igualdade, vai na covardia.

Para piorar, começou a usar branco na sexta. Só faltava essa. Esse crioulo ainda ia costurar meu nome na boca do sapo. Um dia, encontrei uma garrafa de cana na frente da obra. Não sabia se era despacho ou se ele que tinha entornado.

No dia, estavam fazendo um pagode na esquina, no meio da rua, comprando cerveja no cara que vendia churrasquinho. Ele veio na obra só para mijar. Foi para trás das britas, tirou a rola, dois palmos de jeba, e ficou rodando na minha direção. Aí o sangue me subiu.

 

4ª variação

Quando comecei a trabalhar na obra, não sabia como fazer para eles me respeitarem como eu sou, não por ter o pai que tenho. Não queria usar do argumento de autoridade, sempre achei que esse era o último degrau. Se tivesse que ser na base da violência, eu já tinha perdido o argumento. Nunca nem falava alto. Para mim, não precisava. Agora, também não dava qualquer abertura, nenhuma possibilidade. Os outros todos me respeitavam. E não é porque meu pai era quem era. Eu tratava todo mundo de igual para igual, mas quando precisava chegar junto, eu sempre chegava. Funcionava com todo mundo, menos com esse Josenildo.

Ele sempre ficava me olhando como se eu fosse um pedaço de carne. Quando eu reparava, ele estava com um risinho no canto da boca. Se eu estivesse por perto, soltava uma piadinha de duplo sentido. Todas as vezes que passava por mim, fazia questão de esbarrar em mim. Podia ter um espação, não tinha necessidade, mas lá vinha ele e triscava em mim, mesmo que de leve. Uma vez, senti um troço, um vento nas costas, quando virei, vi que ele tava pertinho, como que respirando, aqui ó, a um palmo do meu cabelo.

Eu estava muito desconfiada, mas é complicado acusar alguém assim. Não dava para conversar com seu Severino, que meio que me adotou. Ele sempre poderia dizer que eu tava vendo coisas. Que Josenildo era assim mesmo. Mas comecei a ficar com medo. Se ele tentasse alguma coisa comigo? O pior é que eu não podia falar nem com meu pai. Ele me disse que se eu quisesse tomar conta de obra, tinha que ser que nem homem. O único conselho que ele me deu foi: na briga, vai na covardia. Pega desprevenido.

O sol está forte esquentando a cabeça debaixo do capacete, o suor colando meu macacão no corpo. Sempre ia com uma roupa muito larga, para não marcar nada, mas hoje não adiantou muito. Ele chega atrás da brita e vai mijar. Tem um banheiro químico – não há qualquer necessidade disso. A única explicação é que a brita fica bem em frente à minha janela. Depois que acabou fica rodando a rola, olhando na minha direção, com aquele sorrisinho repugnante que eu já conheço, embaixo de um bigodinho fino dos mais canastras. Aquilo me dá uma raiva que eu nunca tive na vida. Um horror, um nojo. Sinto minha pressão cair. Me lembro do meu pai: pega desprevenido. Vai na covardia. Eu não precisava chegar de mãos vazias. Tentei levantar uma marreta, mas não consegui. Olhei para fora e, bem lado do Josenildo, vi um sarrafo.

 

Versão deslocada da 4ª variação

Todos os dias ele vem na minha baia. Me olha sempre de cima da divisória, com um olhar como se ele fosse irresistível. Eu sou estagiária, estou com pouco tempo de empresa, ele é um executivo júnior, com a conta da Antarctica. Dá palestra na Feira Nacional de Retailers e tem 32 mil seguidores no LinkedIn. Apareceu na matéria da Negócios do mês passado como jovem negro promissor da publicidade. Um ótimo case.

Fui uma vez só com um decote maior – para nunca mais. Eu tento responder sempre quando ele puxa conversa, não quero parecer antipática, mas tenho muito medo de ser mal interpretada. Fico me dizendo que não é possível, que ele não está fazendo isso que ele parece estar fazendo. Quando eu vou pegar café ou água, é um aperto. Ele sempre brota e dá uma desculpa para pegar no meu cabelo ou se aproximar para adivinhar qual fragrância eu estou usando. Cortei o cabelo curto e parei de usar qualquer perfume! Aí, ele elogia o novo corte – e eu me sinto sem conseguir escapar, rindo nervosamente, com medo. Agora evito ir pegar café. Peço sempre para alguém – e me apelidam de preguiçosa. Eu, que sempre faço hora extra.

Rola almoço coletivo da firma e ele insiste em sentar exatamente no meu lado, com a perna colada na minha – e eu, sentando quase de lado, para evitar o contato. Um dia minha chefe me pergunta por que eu estava toda torta. Tive que inventar uma desculpa qualquer: to com uma dor na coluna incrível. Tão nova, diz o membro da outra equipe, um gordo, que também é peguento. Já ele, ele fala: quer que eu faça uma massagem? E sorri, aquele sorrisinho no canto de boca que me embrulha o estômago.

Na festa de fim de ano, eu colo na minha chefe. Onde ela vai, eu vou atrás. Sempre fui expansiva, mas me sinto profundamente acossada. Em certo momento, minha chefe pede para buscar uma taça de prosecco para nós duas, eu faço cara de que não quero – ela fala que eu tenho que deixar a vergonha de lado. Constrangida e contrariada, vou. Ele me intercepta no meio do salão e, sem que eu consiga me defender, me reboca para um canto escuro. A primeira coisa que ele faz é tentar me beijar, eu viro o rosto na hora, a segunda, é colocar a minha mão no pau dele.

Consigo me desvencilhar e volto correndo, sem a bebida. Estou com um medo gritante que deveria dar para enxergar na minha cara – minha chefe percebe e me puxa para um lado. Quando estamos razoavelmente sozinhas, desabo. Minha chefe escuta tudo e diz que nunca percebeu nada, mas que não se espanta. Ele está claramente se achando demais.

No dia seguinte, a ressaca é agravada por um entra e sai da sala de reunião. Primeiro a minha chefe chama o chefe dele. Depois de muito tempo, eu vejo o meu assediador entrar. Passa mais uma meia hora e ele sai. O meu telefone toca e eu tremo.

Estou apavorada, mas lembro do meu pai: eu tenho que tratar o mundo de igual para igual. Ninguém é melhor ou pior que eu. Engulo o choro que quase engasga na garganta, e vou para a sala. Minha chefe e o chefe dele estão um ao lado do outro, como advogados de defesa e acusação. Ela me pede para contar a história toda, e eu tento fazer com a maior precisão e concisão possível. O chefe dele, um ex-surfista que finge que o tempo não passou, me pergunta se eu nunca dei qualquer abertura, uma resposta dúbia qualquer, demonstrei qualquer simpatia a mais. Eu nego, quase ofendida, mas na verdade fico com algumas dúvidas lá no fundo. Ele se recosta no espaldar e bufa baixinho.

Ele é demitido. Sai da empresa gritando que estava sendo discriminado. Só porque sou preto, porque não me comporto como submisso, porque faço sucesso... Berra, até para quem não quisesse ouvir. E eu revisito algumas cenas para saber se eu tinha dado alguma abertura para ele. Nunca imaginei que ele seria demitido. Também me surpreende a reação dele, tão violenta. Mas me assusta mais o fato de ele ser negro. Estava sendo racista? Eu me pergunto com medo de encontrar uma resposta que confirme a minha suspeita.

 

5ª variação

Josenildo fica lá, no fundo da obra, conversando baixinho com os outros peões. Quando eu chego perto, o papo some aos poucos e as pessoas voltam a trabalhar, como se nada tivesse acontecido. Desconfiado, eu interpelo o peão: “O que vocês tanto conversam?” “É papo de preto”, ele me responde, sem querer se alongar. Arregalo os olhos – não esperava esse tipo de consciência ali. Tento dar mais corda: “Como assim, Josenildo?” “A gente tem que se organizar, doutor, nenhum branco vai cuidar da gente, não”. Fico automaticamente empolgado. Quando eu contar para o pessoal do coletivo, ninguém vai acreditar. Seu Severino chega próximo e tenta interpelar: “Deixa de frescura, Josenildo, vocês têm que trabalhar, isso sim, aproveitar a oportunidade que o patrão tá dando”. “Por isso que os pretos são melhores que os brancos de todas as cores”, Josenildo responde de primeira, olhos fixos e aquele bigodinho que parece saído da década de 1940. “Também acho” – me meto onde não era chamado, empolgado.

“Não acho certo”, vem depois me dizer Severino, “todo mundo aqui é igual. Não tem esse negócio de branco ou preto, todo mundo é trabalhador, todo mundo é peão”. Ele me olha, um pouco constrangido, e completa: “Menos o patrão”. Dá uma pausa, e continua: “Quem não quiser trabalhar, que deixe o posto para quem quer, tá cheio de gente lá fora querendo um espaço”. “Deixa eles, seu Severino”, contesto, “deixa eles”.

Aos poucos, tento me aproximar do Josenildo. Ele é uma figura com clara ascendência sobre os demais peões. Há dois mais velhos, um alto, silencioso e muito bom na elétrica, outro com a cabeça branquinha, cara de sábio e troncudo, que ainda consegue carregar dois sacos de 50. Josenildo conversa com eles, depois fala com os outros. “Bora trabalhar aí”, grita de longe seu Severino. Josenildo olha para Severino e em seguida para mim, como ignorando o capataz, e eu sorrio de volta, tentando mostrar solidariedade, como nós éramos iguais. Quero de alguma forma ajudá-lo, estar próximo dele, aprender com ele. Não sei. Fico empolgado só por saber que ele estaria ali, na obra, e eu teria a chance de encontrá-lo.

“Não tá certo, isso não tá certo, patrãozinho”, me fala, um dia, na minha salinha, seu Severino. “O senhor tem um coração muito bom, não pode dar espaço para esses aí. Eles vão acabar tomando conta de tudo”. Eu tenho que me impor, penso na hora, não posso perder a autoridade sobre os peões: “Muito obrigado, Severino, mas ainda não preciso dos seus conselhos”. Quando ele sai pisando pesado, reflito que talvez eu tenha sido duro demais. Mas não tem como voltar atrás. Me desculpar certamente é bem pior.

Quando meu pai vai visitar a obra, flagro ele conversando com o Severino na sala. “Que bom que você chegou”, ele me diz, apontando a cadeira, enquanto Severino sai. Assim que ficamos sozinhos, não perde tempo: “Você não pode tratar os pretos assim”, diz. “Mas, pai”, tento, “você tá parecendo um...”, e ele espalma a mão à frente, me congelando. Em seguida, continua: “Seu avô construiu essa empresa sendo justo com quem quisesse trabalhar. Severino te viu criança, está aqui há 20 anos, carregou muito saco de cimento na cabeça, mas agora tá trabalhando no ar-condicionado. Não pode dar liberdade demais para os peões, meu filho, se não eles não vão te respeitar”.

Aquilo me deixa com um nó nas entranhas. Meu pai era um coronel de literatura clichê sobre o século XIX. Como ele pode ser tão preconceituoso? As pessoas não precisam ser tratadas como máquinas que reproduzem movimentos e obedecem mudamente a ordens: elas têm suas próprias vontades. Elas são livres. Josenildo poderia organizar o grupo para uma relação melhor entre os trabalhadores e a empresa. Ele deve ter mais ou menos a minha idade e já tem tanta certeza, força, independência...

“E ainda tem o problema do prazo” – continua meu pai, eu arregalo os olhos. “Quanto mais a casa demorar a ser construída, mais diárias temos que pagar, e menos dividendos sobra para a gente. Já estamos, agora, atrasados. Com essa morosidade, vamos acabar tendo que trabalhar para pagar os custos dessas liberdades todas”.

Meu pai vai embora, não sem antes dar uma volta pela obra e falar com Josenildo, que o escuta quieto, com o semblante duro, mas sem desviar o olhar. Quando ele passa por mim, perguntei o que ele conversou com Josenildo e ele diz que não precisa me dar satisfação. Vou a Josenildo e o questiono. “Nada”, ele me responde, “só perguntou se estava satisfeito com o trabalho”. Não sei se ele está falando a verdade. Fico vendido, como um príncipe de uma monarquia abandonada.

Pouco mais de uma semana depois, numa quinta-feira, o peão de cabeça branca se envolve num acidente: deixa um balde cheio de brita cair de uma altura de uns cinco metros. Não pega em ninguém, mas o balde de plástico se espatifa e as pedras se espalham por até quase minha sala. Severino chega perto para dar uma dura. Josenildo também se aproxima e começa a defender o mais velho. Severino engrossa o tom, Josenildo responde à altura. “Vou chamar o patrão!”, grita Severino tão alto a ponto de eu, que estou do outro lado da obra correndo para lá, escutar. “Esse aí não manda em ninguém”, diz alguém. “Estou falando do pai, não do filho”, complementa Severino, saindo, na hora que eu chego. “O que foi?” Tento perguntar, Severino passa por mim: “Nada, patrãozinho, nada, não precisa se preocupar”. Eu pergunto o que aconteceu e ninguém me responde nada. Estou transparente. As pessoas não me enxergam. Eu olho para o Josenildo na busca por auxílio: “Aconteceu que os brancos sempre se ajudam para ferrar os pretos”. Eu fico rodando de um lado para o outro, perdido. Tento aumentar o tom, mas fico com medo de chorar ali, na frente de todo mundo. Aos poucos as pessoas começam a me explicar. Quando acabam, eu volto para a sala à espera do meu pai.

Ele não demora – e diz de cara que eu não preciso me meter, ele lidaria com o problema. Chega perto do Josenildo e eu vejo o peão sair de perto, pegar suas coisas e ir embora. Tento ainda interpelar o meu pai, mas ele espalma a mão e eu não sei o que fazer então.

O clima da obra fica nublado. Ninguém quer trabalhar depois da demissão de Josenildo. Severino insiste, grita, diz que quem não trabalhar não vai ganhar nada. Eu fico na sala, engolindo o choro que me corrompe para sair, cozinhando o meu estômago no próprio ácido.

No dia seguinte, chego cedo e encontro uma garrafa de cachaça pela metade junto a velas acesas e um prato de barro cheio de farofa. Entro na obra arrepiado. Todos os peões estão lá, mas parados, vestidos à paisana. Severino vem falar comigo: “Já falei com o seu pai. Eles não querem trabalhar sem o Josenildo”. Chego perto deles: “Vocês estão malucos!?” Eles nunca tinham me visto gritar assim. Estou descontrolado, desesperado. “Vão trabalhar!” Empurro cada um deles, um por um, mas eles me ignoram, como se eu fosse feito de vazios. “Vai trabalhar, vai trabalhar!”. Saio de perto e vou para sala, rugir como um leão impotente.

Meu pai entra sem bater à porta: “Vou resolver tudo”, ele me fala, e eu tenho vontade de dar um murro na cara dele. Nessa hora, vejo Josenildo entrar, todo vestido de branco, bermuda e camisa nova. Parece meio cambaleante. Deve estar bêbado. Mexe no chão, sobe uma poeira, como se trabalhando ou fazendo macumba, ou sei lá.

Se eu não tenho mais o que fazer ali, decido pegar o carro e ir embora. Bato a porta com violência. Dou uma última olhada em Josenildo e mudo de ideia. As canelas esbranquiçadas combinam com a roupa, mas contrastam com o corpo retinto. Ele é mais forte que eu, por isso passo cuidadosamente por trás, sem que me note. Pego rapidamente o sarrafo no chão e dou bem na nuca, igual meu pai me ensinou. Ele nem percebe de onde vem, cai só para levantar mais poeira. Em seguida, grito para o seu Severino: Leva para o hospital e resolve tudo. Sem perder mais tempo, vou para o carro e saio fora.

 

Variação histórica do tema

As canelas sujas com barro branco chamavam atenção naquele corpo preto e forte. Passei do lado dele com cuidado, para ele não me notar. Abaixei rapidamente para pegar no chão um pedaço de madeira grande e fui dar na nuca, por trás, igual meu pai tinha me ensinado. Ele percebeu de onde veio: gingou para o lado, o pau passou no vazio, e no balanço deu um rabo de arraia na minha cara. Caí no chão úmido. Ele aproveitou a deixa e saiu correndo mato adentro. O capitão ainda tentou ir atrás, mas logo outro preto deu uma rasteira, e ele também se estabacou. Os escravos todos aproveitaram para fugir, enquanto meu pai chegava de cavalo, dando tiro no vazio.

 

sábado, 23 de janeiro de 2021

A prisão de um amigo

Eu nunca fui um jornalista-jornalista, desses que têm curiosidade instantânea com os assuntos, portam no bolso uma coleção de duas ou três perguntas para qualquer entrevistado, sabem num lance de olhos onde está a notícia. Sou lento demais, pacato demais, introvertido demais. Mas já andei com jornalistas que possuíam todas essas qualidades e mais algumas mais. Um deles é o Andrei, Andrei Aliaksandrau, seu nome todo, mas nunca consegui lembrar desse sobrenome dele, assim, facilmente. Pudera.

Ele é da Belarus, e quando eu lhe contei o que "bela" quer dizer em português, ele ficou muito feliz: é um sujeito absolutamente apaixonado pelo próprio país. Ou pelo menos por uma noção do próprio país que não condiz com a realidade atual.

Desde o fim da União Soviética, a Belarus [antigamente era chamada de Bielorrússia] tem o mesmo governante: Alexander Lukashenko. O sujeito é reeleito, indefinidamente, em pleitos que dão inveja ao país vizinho, a Rússia. Na verdade, não dão inveja. Segundo consta, Lukashenko é uma marionete do governo Putin e de toda a máfia que ele representa. Os interesses russos são a prioridade para o presidente bielorrusso. 

Nesses 30 anos que se passaram desde a queda da URSS, os fracos e incipientes sinais de democracia da Belarus foram se desgastando a ponto de, na última eleição, já não parecer que precisavam disfarçar mais nada. Os dissidentes do regime de Lukashenko foram presos a mancheia. Andrei rodou dia 12 de janeiro, junto com a companheira dele, Irina Zlobina.

***

Eu o conheci em Londres, quando minha ex-mulher estava fazendo o mestrado dela. Os dois eram da mesma turma. Ele era o mais velho do grupo, mais velho, inclusive, que a gente, que já destoava de todos os demais dali, todos mal completados os 20 anos, como é natural nas turmas dos mestrados na Europa. Seu jeito de organizar as coisas, sua cabeça de liderança, e até mesmo o fato de ser o mais sênior da galera, lhe rendeu um apelido curioso: mr. president. Bem colocado.

Nunca vi ninguém beber tanto quanto ele. Numa oportunidade tentamos fazer um pub crawling por 30 pubs - e ele foi o único a beber um pint em cada. Ao fim estava wasted, como dizem por lá.

Era também fascinado por futebol. E, por uma dessas coincidências do mundo, houve um Brasil x Belarus nas Olimpíadas de Londres, em 2012, em Manchester. Fomos junto com o grupo dele, cheio de bielorrussos. Eu notei, de cara, um detalhe, que não era pequeno. Ele, e todos os amigos, estavam com uma bandeira branca com uma cruz vermelha, diferente daquela que eu considerava como a "verdadeira", predominantemente verde e vermelha. 

Ele me disse que a bandeira rubro-esverdeada era mais uma das imposições de Lukashenko; por isso eles usavam a anterior, que tinha sido apagada na tomada de poder pelo ditador. Era, aliás, assim que ele chamava Lukashenko. Insistia sempre: era a última ditadura da Europa. Os fatos, infelizmente, sustentam a afirmação dele.

***

Quando voltei para o Brasil, fim de 2012, ele me perguntou se eu não queria cobrir alguns temas para a ONG em que ele trabalhava, a Index for censorship. Claro que eu aceitei: fiz dois ou três textos para lá, inclusive um sobre junho de 2013, se eu não me engano [já faz tanto tempo...]. Andrei tinha a liberdade de expressão como um dos seus temas fundamentais. Havia crescido ainda dentro de uma ditadura [os pais tinham trabalhado para a KGB como farmacêuticos, e ainda guardavam a carteirinha para comprovar] e sabia o quanto era difícil ter voz própria em lugares onde a democracia não é respeitada. Não adiantou muito.

***

Um amigo dele mandou mensagem ontem avisando da prisão do Andrei e fiquei pensando seriamente nisso. Me pegou muito errado, num momento que quase tudo entra atravessado. Na época em que convivemos, o Brasil era o Cristo Redentor subindo aos céus da revista Economist. Éramos a próxima sede das Olimpíadas. Estávamos confiantes e tínhamos futuro. Brasil e Belarus pareciam tão distantes e diferentes...

***

O amigo contou que quando a Rússia invadiu a Crimeia, Andrei largou o emprego em Londres e foi fazer um documentário sobre a guerra, in loco. Depois, recebeu uma proposta de assumir a única agência de notícias bielorrussa independente, após o fundador ter desaparecido em circunstâncias misteriosas. Era onde ele estava trabalhando atualmente.

***

Há muito tempo nós não nos falávamos. Coisas da vida. Mas sempre que apareciam imagens da Belarus, geralmente manifestantes sendo presos, agredidos, encurralados, em paisagens frias, com neve no chão, prédios quadrados e cinzas, horizontes vazios, gritos de desespero, eu olhava para ver se não era Andrei sendo levado. Era um país tão distante que se transformou em próximo por conta do Andrei, por conta das circunstâncias da vida.

***

Apesar de todas as tentativas do atual ocupante da presidência brasileira, ainda não somos uma ditadura, no sentido mais formal do termo. Perdemos muitas garantias democráticas, percebemos as nossas instituições republicanas derretendo dia a dia, e vemos muita gente imaginando que é melhor uma cleptocracia, desde que eles possam continuar a lucrar, que viver em um governo que tente, pela primeira vez na história, pensar em governar pensando no outro polo da sociedade. 

Muitas vezes eu não entendia todo o ódio que Andrei sentia pelo ditador que manda na Belarus. Achava que ele falava demais sobre política, que havia outras coisas para prestar atenção no mundo. Não percebia como importante a sua preocupação com a democracia - talvez por me enganar que vivia em uma plena. Agora, infelizmente, eu entendo. 

Qualquer escorregão nosso, na nossa atual situação, e vamos ter outros amigos presos. Agora, com o Cristo Redentor de fundo.


Andrei, vestido com as cores da bandeira que ele defende, e eu, 
antes do jogo em 2012

  

terça-feira, 6 de outubro de 2020

Nietzsche, "Gaia ciência", par. 344

Em que medida também nós ainda somos devotos. — Na ciência as convicções não têm direito de cidadania, é o que se diz com boas razões: apenas quando elas decidem rebaixar-se à modéstia de uma hipótese, de um ponto de vista experimental e provisório, de uma ficção reguladora, pode lhes ser concedida a entrada e até mesmo um certo valor no reino do conhecimento — embora ainda com a restrição de que permaneçam sob vigilância policial, a vigilância da suspeita. — Mas isso não quer dizer, examinando mais precisamente, que a convicção pode obter admissão na ciência apenas quando deixa de ser convicção? A disciplina do espírito científico não começa quando ele não mais se permite convicções?... É assim, provavelmente; resta apenas perguntar se, para que possa começar tal disciplina, não é preciso haver já uma convicção, e aliás tão imperiosa e absoluta, que sacrifica a si mesma todas as demais convicções. Vê-se que também a ciência repousa numa crença, que não existe ciência “sem pressupostos”. A questão de a verdade ser ou não necessária tem de ser antes respondida afirmativamente, e a tal ponto que a resposta exprima a crença, o princípio, a convicção de que “nada é mais necessário do que a verdade, e em relação a ela tudo o mais é de valor secundário”. — Esta absoluta vontade de verdade: o que será ela? Será a verdade de não se deixar enganar? Será a vontade de não enganar? Pois também desta maneira se pode interpretar a vontade de verdade; desde que na generalização “Não quero enganar” também se inclua o caso particular “Não quero enganar a mim mesmo”. Mas por que não enganar? E por que não se deixar enganar? — Note-se que as razões para o primeiro caso se acham numa esfera inteiramente diversa das do segundo: a pessoa não quer se deixar enganar supondo que é prejudicial, perigoso, funesto deixar-se enganar — neste sentido a ciência seria uma prolongada esperteza, uma precaução, uma utilidade, à qual se poderia, com justiça, objetar: Como? Não querer deixar-se enganar é de fato menos prejudicial, perigoso, funesto? Que sabem vocês de antemão sobre o caráter da existência, para poder decidir se a vantagem maior está do lado de quem desconfia ou de quem confia incondicionalmente? E se as duas coisas forem necessárias, muita confiança e muita desconfiança: de onde poderá a ciência retirar a sua crença incondicional, a convicção na qual repousa, de que a verdade é mais importante que qualquer outra coisa, também que qualquer convicção? Justamente esta convicção não poderia surgir, se a verdade e a inverdade continuamente se mostrassem úteis: como é o caso. Portanto — a crença na ciência, que inegavelmente existe, não pode ter se originado de semelhante cálculo de utilidade, mas sim apesar de continuamente lhe ser demonstrado o caráter inútil e perigoso da “vontade de verdade”, da “verdade a todo custo”. “A todo custo”: oh, nós compreendemos isso muito bem, depois que ofertamos e abatemos uma crença após a outra nesse altar! — Por conseguinte, “vontade de verdade” não significa “Não quero me deixar enganar”, mas — não há alternativa — “Não quero enganar, nem sequer a mim mesmo”: — e com isso estamos no terreno da moral. Pois perguntemo-nos cuidadosamente: “Por que você não quer enganar?”, sobretudo quando parecesse — e parece! — que a vida é composta de aparência, quero dizer, de erro, embuste, simulação, cegamento, autocegamento, e quando a forma grande da vida, por outro lado, sempre se mostrou realmente do lado dos mais inescrupulosos πολύτροποι [homens de muitos expedientes]. Um tal desígnio talvez fosse, interpretando-o de modo gentil, um quixotismo, um ligeiro e exaltado desvario; mas também poderia ser algo pior, isto é, um princípio destruidor, inimigo da vida... “Vontade de verdade” — poderia ser uma oculta vontade de morte. — Assim, a questão: “Por que ciência?”, leva de volta ao problema moral: para que moral, quando vida, natureza e história são “imorais”? Não há dúvida, o homem veraz, no ousado e derradeiro sentido que a fé na ciência pressupõe, afirma um outro mundo que não o da vida, da natureza e da história; e, na medida em que afirma esse “outro mundo” — não precisa então negar a sua contrapartida, este mundo, nosso mundo?... Mas já terão compreendido aonde quero chegar, isto é, que a nossa fé na ciência repousa ainda numa crença metafísica — que também nós, que hoje buscamos o conhecimento, nós, ateus e antimetafísicos, ainda tiramos nossa flama daquele fogo que uma fé milenar acendeu, aquela crença cristã, que era também de Platão, de que Deus é a verdade, de que a verdade é divina... Mas como, se precisamente isto se torna cada vez menos digno de crédito, se nada mais se revela divino, com a possível exceção do erro, da cegueira, da mentira — se o próprio Deus se revela como a nossa mais longa mentira?

quarta-feira, 23 de setembro de 2020

COLATERALIDADES (ficção)

Sol, a culpa deve ser do sol
Chico Buarque 

Amanhecia e Paula quase não tinha dormido. Olhos arranhados com areia fina, nervuras vermelhas expostas, cutículas devidamente arrancadas com os dentes, dedos pulsando. Permanecera quase todo o tempo à janela, fumando e observando o nada lá fora: galhos balançando com as brisas, pássaros gorjeando preguiçosamente, o sol nascendo atrás do morro e avermelhando o céu, os primeiros corredores mascarados, motos com escapamento aberto que fazem pega pela avenida longa e vazia, o marido – ou deveria chamá-lo de ex-marido? – apagado no sofá da sala, babando na almofada. Celular jogado perto da mão, copo com cerveja pela metade em cima da mesa de centro, farelos de pão pelo chão, potinhos plásticos de supermercado vazios e engordurados, atraindo mosquinhas. Estava gordo, todos estávamos gordos, ela pensou. Mas Mário estava ainda mais gordo.

Como conseguia dormir?, ela pensou. Ele tinha assistido a uma das muitas transmissões ao vivo pela internet, que vieram substituir todos os outros entretenimentos de antes do confinamento, bebendo, como sempre, como se competisse com o cantor que também estava bêbado, como sempre. Vivíamos bêbados nessa eterna quarentena (“quarenterna”, Mário tentava um dos seus péssimos trocadilhos), mas ele sempre estava mais bêbado. Dormiu no meio do show e eu continuei aqui, na janela, tentando sentir um pouco o vento que parou de soprar há tanto tempo.

Abriu o seu computador, onipresentemente ao alcance das mãos, e pensou em começar a trabalhar. Depois das demissões, com a equipe deficiente, ela sempre tinha algo a fazer, estava sempre atrasada, devendo, sem concentração, cansada. Traduzir era uma maneira de transformar um pouco da ansiedade sem nome e sem previsão de fim em algo produtivo, ou uma forma de adiar esse tédio, um tédio estranho porque não é a falta do que fazer, que se acumula pelos cantos do apartamento junto à poeira.

Olhou para o lado e viu um tufo de cabelos. A casa pertence à sujeira. Certamente a pessoa de quem ela mais sentia saudade era dona Memê. Não importa o quanto eu me dedique, ela pensou, o chão sempre está com uma grossa mistura de fuligem, tecido epitelial morto, gorduras corporais escamadas, farelo rançoso de comida. A pia, cheia de louça, o lixo, entupido de embalagens, de sacos plásticos, de vidros quebrados na pressa, de garrafas vazias. Só a roupa não empilhava mais: havia abdicado primeiro de roupas para sair de casa, depois do sutiã, por fim, pensou em ficar 24 horas por dia pelada, mas ter captado um olhar de soslaio de Mário para os seus peitos a fez mudar de ideia. Voltou com o sutiã.

Aquela casa não era mais dela e talvez nunca tenha sido, mas Paula tinha se esquecido desse detalhe por um tempo. No projeto família feliz, ela se deixou levar sem muita reflexão. Namoro, viagens, morar junto, mobílias compradas nos fins de semana, casamento, festa, tio bêbado, primo vomitando, amigos suados na pista de dança, tocava a música deles e ela com a maquiagem totalmente borrada, ele com um olhar de completude. Isso aconteceu nessa vida? Ela percebeu a arapuca em que havia se metido antes ainda do confinamento. No dia em que ele chegou do trabalho e pediu para conversar. Mário sempre foi muito comunicativo, mas jamais preparou uma cena. Tentei antecipar todas as variáveis: amante, doença, desemprego. Não consegui imaginar algo positivo. Ele me surpreendeu, incomumente: queria ter um filho, e sorriu de um jeito infantil que, nos nossos sete anos juntos, não havia visto, e não iria ver mais.

Parece estranho, tudo parece tão estranho agora, mas se ele soubesse dessa vida merda que a gente leva agora, ele ainda teria tido vontade de ter filho? Se eu soubesse que uma das consequências desse vírus seria a infertilidade, eu teria negado para ele?

***

Como todos os dias, Sandro estava atrasado. Acelerava a moto usando todas as suas 125 cilindradas, e escutava o pedido de socorro da máquina. Sem o trânsito pendular, tão comum naquele antigamente, chegava em até meia hora no hospital, bem diferente do recorde de três horas estabelecido no seu aniversário de dois anos atrás. No dia, não aguentou, cumprimentou a avó o mais rápido que pôde, a avó que tinha ficado acordada só para lhe dar parabéns, e foi chorar de raiva no banho. A avó percebeu, perguntou o que tinha acontecido, mas ele não conseguia fazer nada além de soluçar.

Agora era diferente – como todas as demais coisas, mas de uma maneira diferente. Ao menos, ele se sentia valorizado. Um pouco, ao menos. Sempre foi considerado de segundo escalão. Enfermeiro nem era gente, ele ouvia dos médicos como uma dessas piadas em que só um lado ri. Ironicamente, o vírus tinha diminuído a distância. Não porque Sandro tinha subido algum degrau da escada social, mas porque a vida dos “doutores” tinha ficado pior. Finalmente os médicos estavam fazendo um pouco mais de jus aos vencimentos, trabalhando infinitas horas, de maneira quase ininterrupta. Alguns não sabem nem intubar os pacientes, menos ainda operar um respirador, eu tenho que ensinar tudo, mas pelo menos não escuto mais as piadinhas.

O trajeto é rápido e em geral vazio, menos debaixo dos viadutos da Avenida Brasil em frente à favela da Maré. Antes do viaduto, fica a passarela improvisada com tábuas de madeira, tapumes estragados pela chuva e andaimes enferrujados, erguida após destruírem a anterior, feita de concreto. Do outro lado, as ruínas da construção do ponto do ônibus articulado, eternamente inacabado. Tudo plano para os grandes eventos, que passaram num passado tão outro que parecia então que havia até futuro. No meio, o viaduto, sob o qual os usuários de crack tentam viver, após terem sido expulsos da favela pelos traficantes, se instalando sobre e entre as pedras paralelepídicas concretadas ao chão só para dificultar a vida. Mas eles sempre dão um jeito, sempre dão.

Sandro sente o cheiro característico, uma espécie de solvente sendo queimado aos poucos, misturado com as latrinas abertas. Vê os farrapos esvoaçantes, os colchões esburacados, as cabanas improvisadas, os papelões espalhados, os plásticos, os copinhos transformados em cachimbos, as latinhas, as lâmpadas quebradas, as pessoas invadindo as pistas, cada vez mais desconectadas, flutuando, ele tendo que desviar, receoso, não podia atropelar ninguém, e como eles conseguem dinheiro hoje em dia para comprar as pedras?

Esse era o seu primeiro medo do dia. O segundo era o da contaminação. O hospital onde trabalhava, no Centro da capital, não era referência no tratamento da doença, mas, nessa altura, isso não existia mais. Tudo estava lotado. Os doentes ficam pulando de emergência em emergência na esperança que alguém tenha morrido recentemente e liberado um leito.

Por ter feito alguns cursos de pneumo, ele foi escalado para atuar na UTI. Os plantões se acumulavam. Trabalhava em escala de um para três, depois, um para dois e já tinham sugerido que ele fizesse um para um. Ele só pensava na sua avó, que conseguiu, como diarista, bancar os seus estudos. Desde pequeno quis ser médico, mas sempre imaginou que era impossível entrar na faculdade. O que ela pensaria dele, caso ele não trabalhasse, nessa hora que mais precisam dele? Ao mesmo tempo também pensava: ela já tem mais de 60 anos, é diabética, obesa... Se ele a contaminasse...

“Acabou”, disseram assim que ele chegou, antes mesmo de ele trocar de roupa, ainda segurando o capacete. “O quê? Hum?” “O material de proteção, o EPI acabou...”

***

A parada é o seguinte: a gente se junta pra atacar e depois se espalha, cada um pra um lado. Ainda tem uns maluco passando, aí a gente aproveita e pã, dá o bote, pega tudo e corre. Os verme vêm atrás, mas não dá pra pegar todo mundo. Escolhem um e corre atrás. Pegaram o Mindinho e o Mais-gordo. Já deram uns tiro em mim, mas eu sou malandro, não dou mole.

A gente dorme onde dá, mas nunca junto. Vim pra cá porque é melhor, tem mais gente. Agora tá foda. Tudo fechado. Eu ficava ali na lanchonete da esquina, o China sempre me dava caldo de cana e pastel. Era pastel de vento, mas melhor que nada. O China até tentou abrir, mas ninguém ia, aí ele fechou.

De vez em quando chega umas mulher, umas mulher aí com carro e distribui quentinha. Elas vão ali pra Carioca, e fica lotado, mas sempre dá pra comer. Tem gente que não sai mais da Carioca, pra se proteger. Eu prefiro andar por aí, não ficar preso em lugar nenhum.

Elas tão sempre de máscara, a gente deve tá fedendo muito. O Mosquito disse que é essa parada aí, o vírus, eu não entendi. Parece que tá todo mundo morrendo. Será que é o fim do mundo? O Mosquito que fala que é crente falou que é. E aí, o que acontece quando o mundo acabar? A gente morre também? E aí? O Mosquito fica falando essas parada aí, de paraíso, de inferno. Mó mala. Se tiver essas parada, to fudido. Vou direto pros braço do capeta, e aí ele vai ter que me aguentar. Hehehe.

Às vez fico pensando como deve ser essa parada de inferno. Não deve ser mais quente que o asfalto no meio do verão. Já vi aquela parada, como é?, termômetro, essas parada aí marcando 50 graus. Mermão! 50 graus! E tu lá, com a cara no asfalto, e o asfalto balançando, dançando, rebolando pra tu. Duvido que o inferno seja mais quente que asfalto em dia de verão. Aí eu fico pensando: como é que cê passa o dia no inferno? Tem comida no inferno? Tem loló no inferno? Tem mulherzinha no inferno?

Essa parada aí de inferno deve ser mó chatão. Todo dia a mesma merda, sem porra nenhuma pra fazer. Pior que o inferno só mesmo o paraíso. Aí que eu morro de chatice. Morro de novo, né, porque eu já vou tá morto! Hehehe. Fora que não vou conhecer ninguém lá! Hahahaha. Mó solidão da porra, e eu lá, andando no gramadão verde! Mas desse mal eu não vou sofrer. Eu vou pro inferno.

Que merda. Acho essas parada tudo bizarro. Eu falei pro Mosquito: Não acredito nessas parada aí, não. Ele falou que eu vou pro inferno. Eu falei: de novo? Quantas vezes eu vou pro inferno? Acreditar ou não acreditar não muda porra nenhuma, eu disse pra ele. Prefiro não acreditar. Sei lá, nem me importar com essas parada.

Minha vida é uma merda, mas é minha. Tu acha que eu gosto de dormir com a cara no papelão, no meio da sujeira? Porra nenhuma. Os verme vêm e dá porrada na gente também, mó merda. Um dia um cara tentou na madrugada, eu tava dormindo, ele tentou me enrabar, porra! Eu bati tanto nele, tanto, eu bati de quebrar o pau. Depois eu ouvi que ele morreu, mas foda-se, vai se fuder, rapá, vai querer me comer, vai tomar no cu, vai morrer, porra!

É uma merda a minha vida, com esse corpo ainda, uma merda, mas eu não tenho outra, e, porra, não quero viver no inferno. Aqui, pelo menos, eu posso fazer o que eu quiser. Quando dá.

***

Eu não tinha ideia de que era a última festa que eu iria. Ninguém ali, acho, tinha. A gente ficou fazendo piada: Aqui, o vírus tem que entrar na fila dos problemas. Não entra nem no top 10. A dengue e a zica vão cuidar do vírus, podeixar. Os risos que a gente dava eram nervosos, entretanto. Como se tentando conjurar um futuro que ninguém sabia ao certo como seria, se seria. Será que, então, a gente pressentia, já naquela época, o que aconteceria na pandemia, como animais fugindo antes do tsunami?

Eu fui sozinho, Paula não quis ir. Já tínhamos decidido a separação, mas um divórcio não ocorre tão rapidamente como desejamos, é preciso alugar uma casa nova, decidir quem fica com o sofá, separar as contas conjuntas. Há uma preguiça misturada a uma impotência a uma fraqueza a uma tentativa de evitar olhar de frente o problema. Se ela soubesse que no dia seguinte já começaria a quarentena, ela talvez tivesse ido. Ou talvez tivesse ido embora.

Na festa, a única pessoa que parecia não-ironicamente preocupada com o vírus era o Leandro. Biólogo, trabalhando em laboratório, sempre pensando em ciência, um pouco apocalíptico demais, mas sempre agradável conversa, ele não quis apertar a mão de ninguém quando chegou. A gente logo rodou os olhos e pensou: “é o Leandro, né?”. Em seguida, ele se manteve a uma distância razoável das pessoas, meio que isolado. “Por que ele veio, então?”, alguém atrás de mim falou.

As dinâmicas de festa são imprevisíveis e, pouco depois, eu acabei próximo a Leandro, num canto da festa. “Curioso o nome que deram para essa doença, né?”, tentei ser simpático. “Como assim?”, ele saiu dos próprios pensamentos no meio da frase. “Ah, é uma sigla. Achei bem a cara do nosso tempo, em que as pessoas riem escrevendo LOL, hahahaha ou rs.” Ele pareceu se interessar e se aproximou, mas parou a tempo de assegurar a distância. “Será que daria para fazer um estudo sobre os nomes das doenças e o que elas representam às suas épocas?”, ele disse se empolgando, “‘Peste negra’ é um nome bem dramático, digno de uma época em que as pessoas morriam de amor, lutavam por honra, respeitavam reis e o papa.” Sorri e tentei contribuir: “Influenza deve ter alguma coisa a ver com as navegações espanholas.” Ele catou o celular e me corrigiu: “Na verdade, vem do italiano, e, por sua vez, do latim. Foi usada pela primeira vez por um médico italiano para reforçar a relação astrológica com os estados de espírito e as doenças.” “Que loucura!” “Quer dizer que você não acredita em astrologia?” “Você acredita?” “Claro que não! Mas achei curioso você não acreditar. Hoje em dia, todo mundo acredita.” “Eu só acredito profissionalmente: tenho que me manter antenado no que as pessoas gostam, querem, precisam...” “Publicitários...” “Alguém tem que vender aquilo que ninguém compraria caso ninguém vendesse!” Os dois rimos e percebemos que estávamos muito mais próximos que a distância segura apregoava. Na verdade, estávamos nos encostando. Ficamos um pouco sérios, o que no caso do Leandro ressaltava ainda mais seu maxilar quadrado e o queixo pontudo, uma versão com acabamento pouco delicado do super-homem dos quadrinhos.

Naquele momento, alguma coisa aconteceu em mim e eu não sei bem explicar a razão. Talvez o gin, talvez a proibição da proximidade, talvez a minha separação estivesse batendo diferentemente. Eu fiz um carinho no rosto dele. Passei os dedos da minha mão pela testa, depois fronte, depois bochecha, maxilar e queixo. Ele deixou. Foi estranho. No momento em que eu o toquei, vários sentimentos me preencheram, muitas vezes conflitantes, mas ele mordeu mais forte e vi um músculo do rosto se retesar, aí olhei para o pescoço e percebi outro músculo que estava tenso, teso. “Vamos para o banheiro?” Tenho certeza de que não fui eu a convidar, mas ele também não tinha falado nada. Eu devo ter dito sem nem perceber – o gin estava fazendo mais efeito que eu poderia controlar.

Nos agarramos de verdade no banheiro, com uma violência que nenhuma mulher que eu conheci já tinha colocado em ato, e em seguida, um apagão da minha memória. Amnésia etílica, suspeito. Não lembro muito bem até onde fomos, só sei que assim que saímos de lá, eu resolvi ir embora, sem me despedir de ninguém, sem falar nada. Tropeçando escada abaixo, peguei o primeiro táxi que passou, e, ao chegar em casa, me joguei na cama, ainda de roupa e sapato.

Não me considero gay, ele também não, tenho certeza – eu conheci até a última namorada dele! –, mas, desde que a quarentena começou, tenho sonhado com frequência com o que aconteceu ou poderia ter acontecido naquele banheiro e invariavelmente acordo excitado. Estou bastante confuso e sem ninguém com quem conversar. A gente nunca mais se falou e não saberia o que dizer para ele – desculpa? Saudade? Que pena? Que bom que foi? Não me lembro de nada? – mas confesso que bebo todos os dias para me derrubar.

***

Deitada no chão frio e sem camisa, dona Memê tentava aplacar o calor que não tinha sumido com o vírus, enquanto escutava a pregação do rádio do lado da cama. Quando o pastor começou a dizer que Jesus iria curar a pandemia, ela se levantou e desligou o aparelho. Não ia à igreja há quatro semanas, e, nesse período, descobrira um buraco que só aumentava dentro dela.

Saiu de casa uma única vez, nesse período: para tentar pegar o dinheiro a que tinha direito, da renda básica, mas antes de conseguir sacar o valor, teve um pequeno ataque de pânico dentro da agência lotada. Na volta para casa, viu uma cena que a deixou ainda mais assustada: um grupo de crentes da sua igreja ajoelhados nas calçadas do seu bairro, orando para acabar com a pandemia. Chegou em casa ofegante.

Teve que se virar com as diárias que algumas patroas ainda depositavam para ela, na conta do neto. A madame do Leblon foi a única que condicionou o pagamento a ida de dona Memê para trabalhar, porque ela não queria dar “esmola” – foi a palavra usada.

Hermengarda de Souza Lemos morava nesse prédio em Queimados desde sua construção. Era um desses projetos de habitação popular que, a cada retorno de Saturno, abre oportunidades para quem tem pouco ou quase nenhum dinheiro guardado. No meio dessas voltas, outra das características era o abandono progressivo das construções. Nas últimas décadas, esse abandono foi associado também ao crescimento das invasões por homens armados cobrando taxas para que as pessoas não precisem pagar taxas para as empresas de energia, de gás, de água. Dona Memê não pagava essas taxas para esses homens e era mal vista por eles.

Fazia um café ralo e enchia de açúcar, mesmo sendo diabética, para a contrariedade do neto, que ela criou, já que a filha, mãe do neto, tinha fugido com um homem e deixado o moleque para trás. Não era a única maneira de contrariar o neto. Ela também não respeitava todos os limites que ele tinha imposto na casa. Agora, ele tinha feito um acordo no hospital para trabalhar diariamente, em plantões de 12 horas, sem descanso nos fins de semana. Folga, só de duas em duas semanas. Ele chegava em casa só para dormir: ficava no quarto e não saía para nada. Tomava banho e comia no hospital. Só não dormia lá porque não tinha espaço. Ela entrava no quarto dele e deixava uma bananada sobre a cama. Ao chegar de noite, ele reclamava, de longe: “Vó! Não é para a senhora entrar aqui! É perigoso!” Ela sentia o buraco crescer um pouco mais.

Depois de tomar o café, dona Memê não tinha muita coisa para fazer. Não conseguia ler a bíblia, porque os olhos estavam falhando. Se sentava diante da TV, ligava nos televangelhos e ficava assistindo até que o pastor falasse algo sobre a proteção divina contra o vírus – aí, ela não aguentava e desligava o aparelho. Não que ela duvidasse do poder do sangue de Jesus, nem sobre o fato de a humanidade estar recebendo o troco dos pecados que praticava, mas não achava que Deus iria resolver todos os problemas sozinho. Para ela, o sopro divino nos dava ânimo para completar nossas missões. Os milagres eram feitos por homens e mulheres como... como... como Sandro. A campainha tocou.

“Dona Memê, quanto tempo!” Era Anselmo, cabo da polícia militar nas horas vagas, que fazia sua ronda, falando entre perdigotos. “O que você quer, seu Anselmo?”, responde dona Memê limpando uma gotícula que acertou sua bochecha. “O que é isso, dona Memê? Eu estava passando aqui e senti um cheiro de café e pensei se a senhora ainda teria um...” “Acabou.” “Que pena, que pena. Dona Memê, mesmo que a senhora não goste de colaborar com a gente, eu to passando aqui para dizer que a gente vai reabrir o comércio aqui da vizinhança porque o Brasil não pode parar, não é mesmo? Tem muita gente que exagera e...” “Sandro não exagera.” “Como assim, dona Memê?” “Sandro diz que esse vírus é traiçoeiro. Uma praga.” “Ah, dona Memê... acho que o seu filho...” “Neto.” “Neto está desinformado. Desatualizado, vamos deixar assim.” “Ele vai trabalhar todos os dias, de manhã cedinho, no hospital, ele não está...” “A gente vê ele saindo de moto. Aliás, ele sempre sai muito avoado. Pode acontecer alguma coisa com ele... É melhor ele tomar cuidado...” Ela gela, mas não deixa transparecer. “É só isso, seu Anselmo?” “Vou deixar aqui meu telefone, para o caso de a senhora precisar de alguma coisa.” “Sandro falou para não pegar em nada que tenha sido tocado por outra pessoa.” “Bobagem”, ele diz e mantém o braço estendido com o papelzinho, ela permanece imóvel. Ele dá uma tossida forte, protege a boca com o dorso da mão que segurava o papel, e continua: “Bem, vou deixar aqui no chão, então. O que precisar, pode falar conosco.” Ela bate a porta com mais violência que o necessário e deixa o papel do lado de fora.

***

Os prédios autorizaram as construções de puxadinhos nas janelas onde os drones poderiam pousar para fazer entregas. Paula recebe um pacote da farmácia com remédios de tarja preta para se acalmar e dormir. “Obrigada”, ela diz para aquele bicho metálico com quatro hélices em paralelo, que responde levantando voo em silêncio. Passando displicentemente as mãos pelas paredes esverdeadas de infiltrações, Paula leva o pacote para a cozinha. Pega um copo com água e vira dois comprimidos na boca. Volta à janela, onde ela passa o máximo de tempo, observando, observando. No horizonte, o grande morro, que tapa o sol ao nascer, totalmente careca, amarelo-avermelhado, sem árvores, arbustos, gramíneas, seco. Alguma coisa lhe chama a atenção. É um outro bicho voador, um inseto, mas não uma mosca ou mosquito, que ela identificasse de primeira. Logo vê outro e mais outro, todos iguais, voando na direção do seu vizinho. Mete a cabeça para fora e olha para o lado: um imenso vespeiro feito de barro e terra cobrindo quase toda a janela da sala, que dá o aspecto de uma caverna paleolítica para o apartamento quando visto de fora. Sua primeira reação é colocar a cabeça para dentro de novo. Depois, volta e tenta ver se elas tinham feito ninho em outro lugar, na sua casa, nas outras construções, nos carros e fica focada nessa busca até ser despertada por uma sirene. Diferentemente dela, as vespas ignoram a chegada de uma ambulância e de um rabecão, bem no seu prédio. Os homens paramentados com roupas que ela só tinha visto em filmes entram correndo portaria adentro e Paula fica imaginando em qual andar jaz o morto da vez. Em menos de meia hora, eles voltam com uma pessoa dentro de um saco preto. Ela busca pela janela o vizinho que tinha sofrido a perda e encontra umas mãozinhas bem pequenininhas do lado de fora dando tchau para o corpo sendo levado. Começa a hiperventilar e tem que se sentar na cadeira. Cruza as mãos sobre o ventre, como um cinto de segurança abdominal. De alguma forma que ela não procura entender, ela vê os próprios genes sofrendo uma mutação, os genes de todas as pessoas tinham mudado, e agora ela só é capaz de procriar com uma única pessoa, aquela com quem esteja passando toda essa quarentena. Mário. Ela não quer procriar com Mário. Não quer deixar mãozinhas pequenas dando tchau pela janela – principalmente sendo Mário a segurar essas mãos. Se vê como pertencendo a uma raça diferente da raça do vizinho, dos amigos, de todas as outras pessoas com quem ela conviveu na vida. Corpo mais azulado, menos denso, mais aquoso, olhos arredondados e maiores. Pensa que quando acabasse o confinamento ela não seria capaz de encontrar mais ninguém compatível com ela. O fruto de cruzamento de raças diferentes seria filhotes com defeitos genéticos, filhotes estéreis, uma raça inferior. A espécie inteira teria se degradado e diversas outras aparecido. O contato que sobrou para ela é Mário. Fica nervosíssima e sai correndo em direção à saída do apartamento, mas no lugar onde havia a porta, agora só encontra uma parede. Bate e bate na parede, desesperada, tentando quebrar os tijolos e fugir, bate e bate, com força, de machucar as mãos, mas ignora a dor e continua a bater até que desperta.

Se apoiando nas paredes, ainda zonza, suada, rosto inchado, vai para o outro quarto ver Mário, como ele está. Encontra o marido dormindo, mas excitado, com o pau mais duro que ela já tinha visto na vida nele. Ele passando a mão, como se fosse sem intenção, mas aparentando gostar. Ela não para um segundo para pensar. Parte para cima. Arranca as calças compridas dele, despertando Mário, e sem qualquer aviso senta sobre o marido. Mário fica um pouco assustado, não espera essa reação da mulher, mas decide interagir com Paula, que cavalga, primeiro vagarosamente e aproveitando toda a extensão do marido, subindo e descendo, quase perdendo o contato na subida, mas habilmente abocanhando na volta, na descida, gemendo no ritmo do movimento, percebendo o corpo sendo tomado por um calor incontrolável, uma manta líquida quente e invisível, que dá ignições, ligeiras chamas tomando conta das exterioridades do corpo, sendo absorvidas pela pele, incêndio submergindo em brasa viva, em seguida, já embebida nesse líquido-inflamável, inflamado, começa a aumentar a força na cavalgada, rapidamente atinge a violência pura, fogo se alastrando, quase pulando com o corpo sobre Mário, incêndio descontrolado, agarra com as unhas os ombros dele, arranhando a pele, sangrando, ele começa a gritar também entre a dor e o prazer, percebendo o fogo também nele, pega nas pernas de Paula, para mantê-la presa, percebendo a cabeça do seu pau sendo maltratada, triturada, ela batendo o ilíaco no seu baixo ventre, como que incentivando a produção ritmadamente, percebendo as ondas de prazer subindo e descendo à velocidade da cavalgada violenta de Paula, que muda para uma terceira velocidade, agora mais rápida ainda, com menor extensão, idas e vindas descontroladamente controladas, deixa o tronco em paralelo sobre o dele, os olhos fechados, os dois respirando ao mesmo tempo, grunhindo juntos, gritando juntos, os corpos queimados, incendiados, unidos, até que explodem ao mesmo tempo.

Rosto enfiado no travesseiro, Paula tinha acabado de desabar de bruços sobre o curto espaço da cama de solteiro à mostra. Ela permanece alguns segundos desmaiada, sem respirar. Por sua vez, Mário cai num leve sono em que pedaços do sonho que ele estava vivendo voltam para se misturarem com o ataque sofrido na vigília. Nessa mescla, Mário não estava com Paula, mas com Leandro, Leandro que o tinha atacado. De supetão, sem conseguir respirar, Paula levanta a cabeça assustada, buscando ar. Olha para baixo de si e vê Mário que a observa também despertado com olhos bem arregalados. Ela fica alguns instantes em silêncio, antes de desmontar de Mário. Trôpega, caminha para fora do quarto, mas para à porta, sentindo um gosto estranho, um peso dos mais pesados, como se a gravidade estivesse mais grave apenas sobre ela, e começa a gritar: “Eu quero que você vá embora, Mário, hoje, agora, já! Eu nunca mais quero te ver na vida!”

***

Nos últimos dias, Sandro havia reparado em um detalhe novo quando passava diante da Maré: além dos cheiros característicos, do visual degradante, ele estava também escutando uma bateria desafinada de tosses e respirações em falso, gente tentando inspirar, mas sem força o suficiente para capturar o ar para dentro dos pulmões. Mesmo atrasado, ele para na frente do amontoado de pessoas. Havia grupos diferentes, espalhados, como pequeníssimos clãs, com regras próprias. Olhava para os farrapos e só conseguia pensar: queria que eles morressem rapidamente, o mais rapidamente possível.

***

Antes mesmo de comer qualquer coisa, Mário sai para a rua. Veste uma bermuda, coloca uma camisa qualquer, calça os chinelos e sai, sem pentear o cabelo, lavar o rosto, sem qualquer máscara ou proteção. Sai do prédio, sob os olhos reprovadores do porteiro, que se lembra que o prédio tinha vários senhores de idade, e Mário está expondo a todos, mas Mário não consegue pensar nisso. Ele só pensa em como se sente injustiçado, em como ele quer continuar casado com Paula, construir uma família, e como ela é insensível em relação ao que eles construíram juntos.

***

Mosquito começou a tossir. Aí é foda. Essa porra vai dar merda. Vai matar geral. Essa porra é porque o homem vai lá e fode a natureza. Fica destruindo a porra toda e não sobra nada. É burro, tudo burro. E pra quê? Quero ver comer dinheiro! A gente às vezes consegue uns dinheiro de uns ganho aqui mas não tem lugar pra comprar nada. Que que adianta ter esses notão? Onça, garoupa, essas porra serve de porra nenhuma quando não tem comida! O pessoal vai morrer geral. Ouvi que o Cabeça tentou ir pro hospital ali perto da Central, mas não tinha vaga. Morreu ruim, na rua, o viado. O bando todo tá fudido, se morre um, morre todo mundo, como quando voa os pombo. Agora vai cair geral. Mas alguém vai sobreviver nessa porra, alguém com muita sorte.

***

Tinha um peso sobre o peito e um cansaço enorme rondando Dona Memê. O corpo doía e ela estava com dificuldade de locomoção. Virou o corpo para o lado para se levantar da cama, mas quase caiu de novo com a tosse seca, forte, uma turbina. Ela não podia se abater, tinha que fazer comida e deixar pronta para o neto – mesmo que ele não comesse. Pensava em Sandro e sentia uma saudade imensa do menino – apesar de morarem na mesma casa, parecia que estavam há quilômetros de distância. Queria só mais uma vez, só mais uma vez abraçá-lo. Gostava do jeito que ele colocava a cabeça no ombro dela, ele fazia isso desde pequenininho e nunca mudou, mesmo tendo virado um homão de quase dois metros. Ele estava combatendo o vírus, o vírus que ele dizia que era o pior problema que o mundo já enfrentou. Acho que ele quer me assustar, ela pensa. Dona Memê passa um café e se serve. Pega o saco de açúcar para ver se tinha algum problema e coloca mais uma colher na xícara, já que não está sentindo o doce.

***

Um rapaz da sua idade para na frente de Sandro enquanto ele observava os crackudos deitados. Sandro fica impressionado em como o garoto se parecia com ele próprio, apenas bem mais magro, os olhos mais fundos, sem camisa, a bermuda caindo de larga. O garoto é uma versão sua, Sandro pensa, uma versão sua do outro lado do espelho, de outra dimensão. O garoto começa a se aproximar dele, com os braços estendidos e Sandro só tem tempo de acelerar e fugir.

***

Por onde andava, as pessoas olhavam para um desmascarado Mário, alguns com reprovação, cochichando ao fundo, ou xingando em voz alta, outros apenas curiosos, sem entender por que ele estava se arriscando assim. Ele continuava atravessando os bairros sem prestar atenção em onde andava. Se ele soubesse exatamente o endereço de Leandro, ele iria para a casa do amigo. Leandro o receberia, de um jeito que Paula é incapaz. Não conseguia entender a reação da mulher... Por que não é ela a se mudar, já que ela quer tanto se separar...?

***

A galera tá marcando de ir lá pra perto do hospital, ali na Central. O Buiú chegou e falou: “Aí, Pixota, geral vai ficar por ali porque tem coisa acontecendo lá. Tem gente, tem comida e qualquer coisa dá para subir pra Providência”. Duvido que os verme tem coragem de subir a Providência, falei pra ele. Aí, neguim, aí tu vê que eles são frouxo, frouxo mesmo. Buiú se engraçou: “tu é mulher, mas tu é sinistra”, dei um tapa na cara dele e só parei porque me seguraram. Que mulher o caralho, mulher, mulher... Só nasci com esse corpo, mas não sou mulher porra nenhuma.

***

Sem conseguir parar de chorar, Paula acompanhava a culpa se alastrar por onde antes o fogo tinha preenchido o seu corpo. O que de mal tinha Mário? Ela pega um comprimido e joga na garganta. Pega o segundo. Observa o frasco e aperta o vidro entre os dedos. Afasta. Aproxima. Pega mais um. E outro. E mais outro. Tenta engolir, mas começa a tossir sem conseguir parar e os comprimidos voam da sua boca. Só para já sem fôlego. Abaixa a cabeça, segurando-a com as mãos espalmadas.

***

Deitada no sofá da sala, dona Memê está com o cartão de Anselmo. Não podia atrapalhar o neto, ele estava salvando vidas, mas precisava ir para um hospital. Olha para os números e o nome de Anselmo escrito com caneta preta.

***

Exausto, Mário chega ao Campo de Santana, fechado por conta da pandemia, e segura nas grades, olhando para dentro e vendo as cutias correndo entre os pavões, os gansos, os patos, os gambás.

***

Ali, aquele ali, tá dando mole.

***

Paula pega o telefone e disca um número.

Ao desligar, começa a arrumar as malas. Ao terminar, ela veste uma máscara, dá uma última olhada para o apartamento que nunca foi seu, e sai de casa.

***

Sandro entra com a moto na rua do hospital, colado ao Campo de Santana.

***

Dona Memê amassa o papel com o nome de Anselmo e joga longe. Pega o telefone.

***

Os moleques vão em direção a Mário e o cercam. Ele está avoado e não entende o que acontece. Os garotos o derrubam e Pixota mete as mãos nos bolsos dele. Arranca o celular e acha a chave de casa, arremessa longe. Não tem mais nada. “Cadê a grana, o comédia?! Cadê!?” Mário tenta se desvencilhar, se arrastando para a grade do Campo de Santana. Os moleques começam a chutar Mário com força. Quebram um dente, sangram o seu nariz, incham seu olho.

De longe, Sandro observa o ataque e acelera em direção aos moleques que se levantam e se espalham, sumindo em segundos. Sandro para ao lado de Mário: “Tudo bem?” Mário só consegue balançar vagarosamente a cabeça.

Dona Memê liga para Sandro.

O telefone de Sandro começa a tocar. Ele tira o capacete para atender e se afasta um pouco da moto. “Volto já, um segundo...”

Dois policiais entram correndo na rua, com as armas em punho e olham Mário, branco, deitado, ensanguentado, e Sandro, negro, cabelo crespo, de pé, telefone em punho, moto ligada, e começam a atirar.

A primeira bala acerta o pescoço de Sandro que cai no chão como que desmontando.

No visor do celular está escrito: “Vó” e os botões de atender ou desligar.