quarta-feira, 7 de novembro de 2018

Imprevisão

Ensaio feito para a Revista Pessoa, a pedido da Mirna Queiroz, que tentou coadunar os 50 anos de AI-5 aos fortes ventos vindo da extrema-direita e à literatura produzida nos dias de hoje sobre a ditadura civil-militar.

O texto contou com a colaboração de Maria Valéria Rezende, Adriana Lisboa, Ivone Benedetti, Guiomar de Grammont, Euridice Figueiredo, Bernardo Kucinski e grande elenco de leitura.

Um trechinho abaixo

"Talvez seja melhor escrever sobre os nossos fantasmas que tentar esquecê-los, não enfrentá-los. De outra forma, talvez se escreva para produzir uma outra memória (coletiva?), que equilibre as forças e permita aos fantasmas sossegar, em vez de, mesmo que involuntariamente, colaborar para escondê-los, corroborando sem intenção com uma pseudo-conciliação, uma abertura unilateral, em que um dos termos vive sossegadamente apesar das barbaridades que cometeu, e o outro paga por todos os pecados sozinho – como aconteceu com a anistia em 1979, quando torturadores e assassinos não foram julgados, corpos de guerrilheiros desaparecidos, nunca retornados. Talvez se escreva para dar materialidade e concretude às palavras, mesmo as mais duras, como desaparecimento, tortura, morte. É importante enfrentarmos a dor, juntos, em vez de evitá-la. É melhor fazer com que esses fantasmas sejam ouvidos – dar voz a eles, isto é, escrever junto com eles, em consonância. “Fantasmas”, aqui, não são espectros que assustam apenas indivíduos. O escritor é um meio que amplifica a voz de uma coletividade, de uma temporalidade, que infiltra histórias na História grande, oficial, para desestabilizar a versão dos vencedores."

Para ler tudo, aqui.

quarta-feira, 3 de outubro de 2018

Monólogo final de "O ovo da serpente" (de I. Bergman)

Em um ou dois dias,
talvez amanhã de manhã,

o exército da Alemanha do Sul
começará uma revolta,

comandados por um demente
chamado Adolf Hitler.

Será um fiasco descomunal.

Herr Hitler carece de capacidade
intelectual e de técnica.

e não sabe as
forças tremendas

com as que se enfrentará.

Será arrasado como
um grande fiasco

no dia em que desatar
esta tormenta.

Observe esta imagem.

Observe toda esta gente.

São incapazes
de uma revolução.

Estão muito humilhados,

muito temerosos,
muito oprimidos.

Mas em dez anos...

Para então...

os de 10 anos terão 20,

os de 15 anos terão 25.

Eles terão herdado
o ódio de seus pais,

mas com a adição de seu
idealismo e impaciência.

Alguém se adiantará e colocará
seus sentimentos sem palavras.

Alguém prometerá um futuro.

Alguém fará suas exigências.

Alguém falará
de grandeza e sacrificio.

Os jovens e inexperientes
brindarão seu valor e sua fé

aos cansados e indecisos.

E então haverá
uma revolução,

e nosso mundo se fundirá
em sangue e fogo.

Em dez anos, não mais,

eles criarão uma sociedade
sem igual na historia mundial.

A antiga sociedade se baseava
em ideias muito românticas

sobre a bondade do homem.

Muito complicado, já que as ideias
não concordam com a realidade.

A nova sociedade
se baseará em um juízo real

dos potenciais
e limitações do homem.

O homem é uma deformidade,
uma perversão da natureza.

Então nossos
experimentos tomam lugar.

Lidamos com a forma básica
e logo a moldamos.

Liberamos as forças produtivas
e controlamos as destrutivas

Exterminamos o inferior
e aumentamos o útil.

segunda-feira, 1 de outubro de 2018

'anódino' (Ficção): capítulo 0

[Recentemente a Amazon começou um concurso para livros de ficção inéditos. Participando de outros concursos com o meu mais recente inédito - portanto não podendo repetir -, fui buscar na gaveta se havia algo perdido. Qual não foi a minha surpresa quando encontrei uma novelinha de dez anos de idade chamada anódino, que o Ronaldo de 2018 leu novamente e disse, boquiaberto de feliz: quem escreveu isso aqui? O livro propõe uma possível gênese de um pensamento autoritário, violento e até do ressurgimento de boatos como fonte de notícias, que hoje circulam comumente pela internet. A coincidência com os tempos atuais é absurda de tão próxima. Publico aqui o que eu chamo capítulo 0, para dar um gostinho, o tom; e o link para a Amazon; aqui, o link para o textinho que antecede o livro. Quem quiser a obra, mas não quiser comprar na Amazon, pode falar comigo por email, que damos um jeito. A intenção é circular o máximo possível.]

0

Eu matei um menino hoje. Matei um menino, matei... Era um menino pequeno... Não esqueço o som do corpo, daquele corpo pequeno – quantos anos ele tinha? – batendo contra a frente do ônibus. Plac, pum, toc. O som, o som, o barulho... Nossa... o barulho foi assustador. Um esporro. Foi rápido, a cena foi rápida, quase instantânea. Menino na frente do ônibus, corpo no chão, ônibus por cima. Mas o barulho, eu me lembro do barulho. Não me esqueço. Eu me lembro, sim, eu me lembro. Eu arremessei aquele menino, aquele menino que vivia aqui na rua, aqui perto de casa... Eu nunca tinha visto esse menino na vida. Nunca. Era um fantasma, um espectro, que devia passar por dentro de mim, e que de repente apareceu, na hora mais imprópria, da pior maneira possível, e eu o arremessei. O arremessei na frente de um ônibus e o ônibus, plac, pum, toc. Um esporro. Fui eu o responsável, fui eu, só eu, ninguém além de mim. Sozinho, só eu. Só eu quem o matou, que o matei. Agi sem pensar, impulsivamente e as cenas agora se repetem, uma e outra e outra e logo outra, um trecho em looping, até eu perceber o óbvio. Quem mata alguém é assassino. Eu sou um assassino. Assassino. Tudo aconteceu ali, perto do túnel, ao lado do cemitério, embaixo de uma favela, na zona dos esquecidos, onde ninguém sabe nada e jamais alguém vê coisa com coisa. Ele era um personagem desse filme mudo e sem imagens. Um dos protagonistas, junto com todas as outras pessoas. O ônibus não parou, o motorista nem percebeu. Um esporro. Depois vai ver que atropelou alguma coisa e dar de ombros. Ossos do ofício. Ossos quebrados.

Esmigalhados. O corpo do menino estendido na rua, no chão, na sarjeta. Os carros passando por cima dele, zum, zum, zum – nenhum parou. Aos poucos, o menino foi diluindo, se transformando em asfalto, sumindo novamente dos olhos de quem passa por ali. Voltou a ser fantasma, espectro, transparente. Ninguém parou. Ninguém se arriscaria nessa vizinhança, na minha vizinhança. O garoto que nunca existiu voltou para onde não deveria ter saído. Eu fui embora, correndo, logo após jogar o menino. Estava com medo. Estava apavorado. E se me pegassem? E se me vissem? Não acompanhei o garoto sumir, desaparecer, se desmilinguir. Não escutei os motoristas reclamarem sobre o buraco novo, o paralelepípedo fora do lugar, o quebra-mola de ossos e carne e órgãos e sangue, sangue que se esparrama pelo asfalto e se enegrece. Não assisti ao espetáculo deprimente da sua desgraça. Em casa, fechei a porta atrás de mim e pude respirar. Sentia o meu peito arfando, subindo e descendo, subindo e descendo, como se tivesse fugido. Eu tinha fugido. Eu estava morto de medo. A chuva começava lá fora e eu continuava a olhar a parede branca que servia de tela para o mesmo filme, o mesmo filme que passava na minha cabeça. Plac, pum, tom. Pela primeira vez consegui parar. Respirei fundo uma, duas vezes e foi então que aconteceu. Como um estalo que não se escuta, como um pisca que não se vê, como uma dor que não se sente. De repente, como quem recebe uma notícia aleatória, mas contagiante como uma revelação fantástica. Sem perceber ou esperar, senti um prazer narcotizante aproveitar toda a minha capilaridade e subir pelas minhas extremidades, pés, batatas, coxas, sexo, barriga, peito, cabeça. Minha vista se enubleceu e o corpo ficou mole. A chuva caía lá fora na forma de um temporal, escutava os pingos grossos limpando a carga que trazia sobre os meus ombros, e percebi que, em poucos instantes, eu não tinha peso algum. Pelo contrário. Estava leve, totalmente liberto. E senti algo que foi difícil, a princípio, admitir. Gostei. Estava, naquele momento, sentindo um prazer inenarrável, experimentando uma sensação divina, única, empolgante, eterna. Após o medo, senti o meu corpo se encher de alguma substância química e tinha que admitir: foi bom, foi ótimo. Foi ótimo o que eu fiz. Estava me sentindo pleno. Sem perceber, um sorriso brotou no meu rosto, no meio da minha cara, dessa cara que eu tenho, a única, que não posso esconder. Parado, de frente para a parede, tive a certeza de que queria fazer isso de novo, que queria sentir isso novamente. Pela primeira vez, depois de muito tempo, estava feliz.

'anódino' (Ficção): Nota introdutória

[Recentemente a Amazon começou um concurso para livros de ficção inéditos. Participando de outros concursos com o meu mais recente inédito - portanto não podendo repetir -, fui buscar na gaveta se havia algo perdido. Qual não foi a minha surpresa quando encontrei uma novelinha de dez anos de idade chamada anódino, que o Ronaldo de 2018 leu novamente e disse, boquiaberto de feliz: quem escreveu isso aqui? O livro propõe uma possível gênese de um pensamento autoritário, violento e até do ressurgimento de boatos como fonte de notícias, que hoje circulam comumente pela internet. A coincidência com os tempos atuais é absurda de tão próxima. Publico aqui o textinho que antecede o livro; e o link para a Amazon; aqui, o link para o que eu chamo capítulo 0, para dar um gostinho, o tom. Quem quiser a obra, mas não quiser comprar na Amazon, pode falar comigo por email, que damos um jeito. A intenção é circular o máximo possível.]

Nota à guisa de introdução e para fornecer algum contexto histórico:

Em 2006, quando Sérgio Cabral Filho foi eleito governador do Rio de Janeiro, eu trabalhava em uma redação de um grande portal jornalístico de internet. Uma das propostas do então queridinho dos principais grupos de comunicação do estado era promover uma limpeza étnica nas favelas e periferias da capital, seguindo sua promessa de engrossar o tom das respostas contra os grupos organizados fora da lei. Ele, junto com o seu primeiro-tenente, José Mariano Beltrame, queria “recuperar os territórios” (termos usados com frequência) das mãos dos traficantes (essa alcunha genérica que se usa exageradamente como sinônimo de criminoso), para montar Unidades de Polícia Pacificadoras (sic), e proteger a maravilhosa cidade para os eventos que ocorreriam aqui (do Pan, em 2007, passando pela Copa do Mundo, em 2014, até as Olimpíadas, em 2016).

Uma das táticas da polícia sob o comando de Cabral (mas sem ser invenção dele) foi fazer incursões cotidianas em favelas de diferentes tamanhos. O resultado era um dia a dia de mortes no varejo e, frequentemente, nada menos que chacinas patrocinadas por quem deveria evitá-las: o Estado. Todos os dias, eu, como um dos primeiros filtros do site, recebia informações do assassinato de dois, três homens – sempre suspeitos, sempre armados, invariavelmente pretos – em uma operação policial. Eu tinha que decidir se essas mortes de homens de pele escura, pobres e favelados, em confronto com agentes da (in)segurança, eram passíveis de virar notícia, e entrar numa montanha de informação bastante caótica; ou não: deveríamos ignorar sua história e nem mesmo relegá-los a se tornar letras virtuais num ambiente igualmente imaterial. Opções, ambas, excepcionalmente destrutivas, para mim.

Era um exercício diário de morte, de um outro tipo de morte, que me matava aos poucos, com a desculpa de que me fornecia as possibilidades para poder sobreviver. Até que não mais.

Esse livro, escrito entre os anos de 2007 e 2008, foi a tentativa de imaginar – de um modo que, à época, pensava ser caricatural – as possíveis implicações, ou últimas consequências, da euforia coletiva em relação às decisões da política institucional, euforia que se mostrava profundamente insensível com a situação daqueles sobre quem tal política brutalmente incidia. A história descreve a gênese de uma moral perversa, psicopata, fascista até, que está sempre à espreita, principalmente quando optamos por soluções aparentemente fáceis e, por isso, inexoravelmente violentas.

quarta-feira, 19 de setembro de 2018

Futurologia

Podemos brincar (ainda é autorizado) com os cenários que se desenham, a partir dessa última pesquisa Ibope, e imaginar o futuro, após o segundo turno:
cenários 1 e 2 são meio sem graça, mas, infelizmente, os mais prováveis:
no 1, Haddad vence, isolado, com dificuldades de fazer alianças. tomamos um golpe, clássico, raiz, para ninguém reclamar. (e a gente aguenta, verga e aguenta, que a nossa história foi escrita por um negro pobre e sabido com a pena da melancolia, sim, mas com a tinta da galhofa.)
no 2, Bolsonaro (anagrama de Solnorabo) vence e isso já é o golpe; se não rolar diretamente, eles já prometeram o autogolpe, porque não vão dar chance para outro dar golpe, já que golpe está na moda desde... E aí, é aquilo: alguns anos sem votar, mais violência, principalmente para os mais pobres, perseguição a todo mundo que é de esquerda, que é gay, negro, mulher. E se você for tudo isso ao mesmo tempo, amigx... sal grosso. E estoque comida. Enfim, aquele pacote completo. Mas, bem, não deve sair barato - ninguém vai querer perder direitos conquistados.
Já a partir do 3, a coisa fica mais divertida (já o coiso nunca fica):

no 3, Haddad recebe apoio de Alckmin, do PSDB, da Globo, da direita menos antidemocrática. Claro, ele precisa perder alguns anéis, para manter, pelo menos, nove dedos. Isso quer dizer: política econômica de austeridade, vender algumas estatais, cobrar algumas mensalidades de universidades, apertar o torniquete nos gastos. Desagrada o andar de baixo, para tentar agradar o andar de cima. Acho que podemos chamar essa versão de Dilma 3.0, a volta dos que não foram - mas deveriam ter ido.

no 4, Haddad recebe apoio de PSDB, da Globo etc. etc., mas não combina programas, tipo Mário Covas abraçando Marta Suplicy (quando ela era ainda de esquerda) contra o mal maior, naquela época encarnado em Paulo Maluf. (Aliás, o então vice de Covas se chamava Geraldo. Coincidência?) Aí eu acordei e lembrei que isso aconteceu em 2000, antes de toda a confusão do século XXI.
no 5, Alckmin, PSDB, Globo e toda a direita vai ainda mais para o dark side of the force, apoiando o Darth Vader da vez, e aí é uma hecatombe, nível fim do "Império contra ataca". A vantagem: é o fim do PSDB e a Globo se despedaça, no médio prazo. A desvantagem: vamos sentir saudades do PSDB e da Globo.
no 6, Boulos ganha e faz a revolução, com distribuição de renda, justiça e igualdade; com uma política de valorização dos diversos mundos que compõem o Brasil, pensando tanto nas cidades, como nas florestas ou no campo; taxando os ricos e aliviando os pobres, e libertando a classe média de todos os estigmas; incentivando produções culturais regionais, e os artistas independentes; dando ainda mais autonomia para as universidades, e recursos para as escolas de todos o país; priorizando os pequenos agricultores, os pequenos empresários, as pequenas iniciativas, esquecendo esse blablablá de país grande, pensando pequeno, no menor; criando convergências entre os diferentes; acabando com os preconceitos entranhados nas almas por quase 500 anos num literal passe de mágica. É... Parece verídico esse billete.

no 7, Bolsonero se elege e aí percebemos que era tudo golpe, no golpe: ele, na verdade, foi bancado por George Soros, é um agente infiltrado do Fórum de São Paulo, dá um golpe, outro golpe, só para não perder o costume, e aprofunda o nosso processo de venezuelização, aumentando o número de ministros no STF, colocando o Frota para ser ministro e ferrar [cof, cof] a cultura, o Paulo Guedes diz que vai continuar a política de Temer, que é em direção ao Estado Mínimo, mas o Estado Mínimo da anarquia e... Tá bom, tá bom. Vou parar.
ps. algum outro cenário em vista por aí?