sexta-feira, 13 de outubro de 2017

O bizarro Cosme & Damião tardio da Barra

Ontem, fui à Barra, esse bairro nascido à força que rasgou a história geomorfológica carioca para receber os filhos de uma então nova classe do capitalismo-tardio-periférico-feudal brasileiro. Sempre me surpreendo com um bairro criado para os carros, eu que nem sei dirigir, e ter passado muito tempo sem voltar lá nessa ilha da fantasia wannabe (me lembra a San Angeles, de "O demolidor" - aquele com Stallone e Wesley Snipes, sabe?) não ajudou em nada minha estranheza. Para piorar, uma cena parecida saída de uma distopia (essa palavra na moda) invadiu ainda mais a minha percepção.

Numa das áreas mais ricas do riquíssimo bairro, havia uma multidão de crianças - algo como uns 100, 200, sem exagero - todos muito pobres, nas margens da Avenida das Américas, tentando se entreter subindo nas árvores, brincando de pique, agindo, enfim, como crianças ~analógicas~, enquanto suas mães se sentavam em cadeiras de praia tentando também matar a espera. Mas espera de quê?

Como os sinais da Barra sempre foram lotados de crianças fazendo malabarismos ou pedindo dinheiro, minha primeira reação foi achar que o enorme grupo era efeito dos momentos atuais, de crise de perspectivas e de horizontes cada vez mais curtos. Estava certo e errado ao mesmo tempo. Era possível tanta gente viver das migalhas dos mais ricos? Depois, me explicaram: isso só acontece no dia de Cosme e Damião e no dia das crianças - ontem.

Mulheres moradoras de áreas periféricas levam suas crianças para a Barra nessas datas para receber doces (no dia 27 de setembro) e brinquedos (no dia 12 de outubro). Alguma coisa ali nessa cena me incomodava e me incomodou muito.

Talvez, primeiro, mostrar à força o contraste entre estratos sociais tão distantes. Eles não "pertenciam" àquela área, destoavam como se fosse um "erro" na programação de um bairro planejado para evitar pobres - ou, ao menos, pobres à vista. Uma infiltração, que não se conseguiu prever.

Eles me forçavam encarar de frente a verdade de que enquanto há um mar de mansões e apartamentos de frente para a praia, há um oceano de crianças carentes até do mais simples. Enquanto há meninos de classe-média que ganham tantos brinquedos que nem conseguem abrir todos os pacotes, há garotos que se sujeitam - ou são sujeitados - a mendigar por migalhas.

Mas não foi só esse componente moralista-social (que, claro, importa) que atravessou minha garganta. Havia alguma coisa além que me incomodava ainda mais profundamente. O que era, fiquei me perguntando, o que era?

Sempre fui uma criança estranha (fui?). Entre tantas estranhezas, nunca gostei de doces - portanto o Corme&Damião nunca foi um dia especialmente importante. Jamais corri atrás dos saquinhos e quando os ganhava, eles ficavam literalmente meses na minha casa sem serem tocados - até que eram provavelmente jogados fora.

Há, contudo, um elemento na busca pelos saquinhos que cada vez mais me interessa, por misturar um processo ativo a uma atitude lúdica. Meninas e meninos saem pelas ruas da cidade numa busca pelo(s) tesouro(s), sem usar qualquer tipo de mapa pré-determinado. As suas caminhadas são a própria forma de criar trajetórias, quase como arcos narrativos, da própria cidade - dessa geografia afetiva que nasce a partir das corridas. É um descobrir e se apropriar dos lugares, sem se tornar dono ou proprietário. Aquele por-do-sol é seu, mas é também de quem mais olhar. É uma espécie de atualização da proposta do flâneur, mas com pitadas de ginga e uma alegria que não constavam no original. É um se deixar afetar, mas ativamente. É um estar aberto para o que acontece, à medida que se caminha, sem ficar parado.

Exatamente o inverso da proposta daqueles pobres meninos e meninas pobres que coloriam as margens da Avenida das Américas, ontem. Os meninos e as meninas na Barra estavam sendo usados por madames para expiar suas culpas. Não pode ser coincidência o dia de ontem também ser o da padroeira desse que é o maior país católico do mundo. Os meninos e as meninas eram meros bonecos despersonalizados, sujeitados pela vontade dos outros. Mesmo que eles possam aproveitar os brinquedos, mesmo que seja melhor que eles tenham algo para brincar, mesmo que seja melhor que as madames doem os brinquedos extras de seus filhos a deixá-los estragando dentro de casa, esse encontro só reforça o desencontro. Os meninos são objetos de decoração que apenas reforçam a dignidade "altruísta", "caridosa" e "filantrópica" da nossa elite de casa grande. Não preciso dizer a cor da pele de todas- TODAS - as crianças nas margens da grande avenida, né?

Lembro de uma história de madames de Ipanema que pediram para deixar os mendigos na porta da igreja de Nossa Senhora da Paz para que elas pudessem lhes dar esmolas ao sair das missas aos domingos - e foram atendidas. Os meninos e as meninas estão sendo treinadas para serem os próximos pedintes.

domingo, 24 de setembro de 2017

Woody Allen e a crise do nosso tempo

Se for para ser direto: não, Crisis in six scenes não é uma boa série. Woody Allen não entendeu [ou não deve ter acompanhado] nada do que aconteceu nas produções para a TV, internet e - no caso dele - uma empresa que vende qualquer coisa na rede, nos últimos anos. Sua produção não pode ser caracterizada nem como tradicional ou conservadora, mas um engano do formato: ele simplesmente fez um longa-metragem, com qualidade de TV, deixou as gorduras, e o cortou em seis episódios de 20 minutos, com um facão. Portanto é possível ver tudo de uma só vez, sem muito esforço. Entretanto...



O octogenário diretor captou, do seu jeito neurótico e com a leveza que a idade lhe proporcionou, um dos traços fundamentais do que acontece hoje em dia não somente nos EUA, mas talvez em todo mundo Ocidental, incluindo aí sua periferia - isto é, nós aqui no Brazilquistão. Um dos espíritos do nosso tempo que pode ser resumida numa frase muito simples: o que é que nós podemos fazer?

O esqueleto da série é o mesmo de Manhattan murder mystery, filme de 1993, que Allen rodou com Diane Keaton, depois de toda a primeira - e mais dura - fase da separação com Mia Farrow. Diane Keaton, ex-mulher de Allen, estrela do clássico Annie Hall, aceitou voltar a trabalhar com ele em um dos momentos mais conturbados da vida do cineasta - o que pode colaborar para a ideia de que ele não é, assim, um monstro como se pinta.

No longa como na série, Allen interpreta um sujeito medroso que aceita passar por situações de perigo convencido pela esposa [na série, interpretada pela veterana Elaine May]. No filme, investigar um misterioso assassinato em Manhattan, como diz o título do filme; na série, passada na década de 1960, o escritor de segundo escalão que quer ser um J. D. Salinger tem que receber em casa uma guerrilheira americana interpretada por Miley Cyrus que luta por igualdade, justiça, e o fim do capitalismo.

É nesse momento que aparece a sutil e genial sacada do artista. Todos na série são esquerdistas para os padrões americanos. São contra a guerra do Vietnã, a favor da igualdade racial, votam nos democratas, acreditam na liberdade como bem supremo. Mesmo Alan Brockman, um rapaz que está se hospedando na mansão dos protagonistas, e que tem como meta uma vida bem burocraticamente burguesa [se casar, ter filhos, continuar os negócios do pai como banqueiro...] é um liberal, isto é, se coloca do lado certo da História. Entretanto no momento em que a pequena guerrilheira chega no recinto essas pessoas de bem são jogadas automaticamente para a defesa. Eles percebem que votar de quatro em quatro anos no candidato menos pior não é o suficiente.

Estamos fazendo o máximo que podemos para diminuir as mazelas de onde eu vivo - ou vivo meu cotidiano fechando os olhos para o que acontece ao meu redor, pensando apenas na minha vida e na da minha família, com a desculpa de que voto no candidato correto? Variações da mesma pergunta passam na cabeça de todos os principais personagens ao longo dos seis episódios, junto a tiradas cômicas sobre o comandante Mao, o barbudo Marx e aquele simpático Che. A série, sem muito esforço, levanta várias perguntas também para o espectador: o que é ser parte de uma democracia? Como diminuir as desigualdades sociais, acabar com a corrupção, minorar a violência? Em suma, a pergunta de um milhão de dólares que perpassa a cabeça de nove de dez pessoas preocupadas com a situação atual do Brasil e do mundo: O que é que nós podemos fazer?

Sem escorregar em um maniqueísmo das conclusões fáceis, Allen dá respostas diferentes para cada um dos personagens, a partir das suas próprias trajetórias e questões de vida. Mostrando que a mudança pode estar em gestos pequenos, como não se deixar ser capturado pela correnteza da manada fácil e obrigatória, ou apenas desobedecer as expectativas conservadoras dos pais para seguir a sua vontade, ou mesmo criar e participar de protestos pelos direitos civis, ou simplesmente se dedicar a escrever um livro que tanto desejou. Num mundo em que a euforia e o gozo fácil se infiltram nos poros do cotidiano e substituem alegrias mais substanciosas, talvez seguir o próprio desejo [sem ser egoísta por isso] seja a maior revolução que podemos cometer.

sexta-feira, 22 de setembro de 2017

'Quem me navega', por Viola Galera

Não me autoconstruo, lamentavelmente. Delírios de grandeza de um barquinho chinfrim. Dependo das más vontades e boas intenções de algum ser humano, geralmente do sexo masculino – infelizmente – para que eu exista. Ou seria o inverso? Boas vontades e más intenções? Ainda confundo esses dizeres humanos. O que foi? Não entende como um barco à vela – ainda sem a sua vela, entretanto – pode falar? Para começo de conversa, eu não falo. Você está me lendo, portanto eu escrevo – o que, considerando a sua atual cara de espanto, deve te colocar ainda mais atônito. Amigue, repare, é exatamente esse tipo de pergunta – inútil para muitos – que me faz estar aqui, quebrando o meu casco: a que será que se destina?

Não é possível prever nem mesmo o tempo, quiçá o clima. O mundo é banhado em mistérios abissais. Há mais meandros escondidos entre o infinito oceano e a delimitada terra do que a nossa dura razão instrumental pode elencar. Pois. Eu sinto a mesma coisa. Existe sempre alguma coisa ausente que me atormenta. E não estou falando da vela. É algo mais abstrato. É saber que não sou dono da minha própria fortuna.

Não escolhi ser criado, nem ter esse simples formato ligeiramente trapezoidal, revestido de fibra de vidro, com um falo enorme no meio, que me lembra um totem para quem os humanos parecem sempre prestar homenagens. Não consigo entender isso, eu, cuja sexualidade não passa por objetos tão grosseiros. Tive sorte, pode-se dizer, fui uma criação artesanal, de um curioso rapaz que recitava algumas frases exóticas em uma língua aveludada e redonda. “Ẹni bá ṣe oun tí ẹnìkan ò ṣe rí á rí ohun tí ẹnìkan ò rí ri”. Consegui gravar essa. Conversando com outros barcos no porto onde estou atracado – sim, quando sozinhos, nós fofocamos frivolamente como homens no churrasco após a pelada –, descobri que ela quer dizer algo como “quem faz o que ninguém fez, vai experimentar aquilo que ninguém experimentou”, e fiquei remoendo. Claro que há o incentivo para a coragem de enfrentar mares nunca antes navegados. É sempre bom saber que nunca somos originais, outras pessoas já enfrentaram tormentas ainda maiores que as suas – e sobreviveram. Fiquei pensando, entretanto: haveria mares absolutamente virgens? Ou, o inverso: é possível navegar a mesma rota duas vezes?

Não precisamos continuar com essas – exatamente essas – elucubrações. Provavelmente a resposta é mais que 1 e menos que 2; está entre os dois bordos, o que desafia o nosso princípio de não contradição. Fomos criados dentro de uma física – e mesmo uma metafísica – em que ou a gente é ou não é. Ou isto ou aquilo. Ao descobrir que o mundo também tem conjunções aditivas deveríamos ter ficado mais felizes. Não foi bem o que aconteceu. A tradição cobrou seu preço pelo conforto de tantos anos.

Não sou eu quem escreve o texto, é o próprio texto quem se escreve. Uma frase e outra e logo outra aparece e se intromete, interrompe o que eu queria dizer e pronto, já estou longe do meu porto seguro. Esse é o meu maior medo. Delírios de controle de um veleiro mixuruca. Saber que não adianta os nossos bons ou maus propósitos, o nosso fado está sempre em jogo, com múltiplas forças além da nossa própria. É descobrir que nos cada vez mais raros dias de calmaria, vamos navegar pouco, mesmo; enquanto nas posseidônicas tormentas podemos ser jogados, arremessados, até destroçados.

Não deveria ser assim, tão duro como o carvalho de um galeão.Temos que aceitar o acaso. E temos que reiterar que há margem para manobras, mesmo nas angras mais apertadas. Aceitar a sina não é, também, largar o timão ao sabor das marés. É saber que a própria vontade não passa de um vento que infla nossas velas. Um entre muitos. Jamais o mais forte, tampouco o mais tímido. A vontade deve nos proporcionar atalhos para os dias de vento de revés, nem que seja a paciência da criatividade. Peixe, quando o mar está para peixe. Velas vazias, para os dias de tempestade; velas cheias, para os de bonança. Lembrar que mar calmo não testa marinheiro. Nem mesmo veleiro. Ou, mais do que simplesmente aceitá-lo, amar o destino – qualquer que ele seja. Um barco seguro se sabe capaz de se readaptar às inesperadas mudanças de rumo e às intempéries das ausências.

terça-feira, 12 de setembro de 2017

As consequências 'positivas' da proibição do Queermuseu

Sem querer alimentar a polêmica - e principalmente, sem querer alimentá-la pelo lado ~errado~...

[Se você não sabe de qual polêmica estamos falando, confira essa reportagem aqui.]

... eu quase [eu disse QUASE] fico feliz com essa ação fascista do MBL que censurou a exposição lá no Sul. Por alguns motivos:

Primeiro e o mais simples: para demonstrar que uma meia dúzia de bundas-mole fazendo barulho pode, sim, mudar o curso das coisas. Foi agora o MBL para um causa podre, mas táticas de agrupamento parecidas podem e deveriam ser usadas para pressionar parlamentar para votar propostas mais progressistas, sim. Por exemplo.

Segundo e o mais importante: por voltar a nos lembrar o poder que a arte tem. Parecia, para a imensa maioria dos simples mortais, que peças, filmes, exposições, enfim, produtos artísticos-culturais tinham se transformado em um inócuo programa familiar de fim de tarde de domingo, comparável a um Master Chef, Faustão ou qualquer outro programa de televisão de entretenimento mais básico.

Foi preciso um bando de fascistinhas, ligados aos partidos mais reacionários do país [psdb, dem, etc.], para nos lembrar o quanto a arte pode mudar a perspectiva das coisas. Foi necessário eles se incomodarem com obras que atingiam os valores fixos e de uma miopia extrema para saber que é exatamente para isso que a arte "serve". É especificamente por isso que a arte é arte.

Odeio a expressão que a arte tem que chocar [se fosse só isso, bastava colocar o dedo na tomada, ora], mas o ponto da frase de efeito clichê é, me parece, que a arte deve te trazer uma abertura do horizonte. Deve ser de difícil digestão, exatamente porque você precisa voltar a ela. Deve ser transformadora da maneira como você encara a vida.

Podemos voltar a acreditar que produzir arte - em todos os seus formatos - é importante, mesmo em tempos como agora, em que ela parece tão desvalorizada. Diria mais: talvez exatamente por isso, ela se torne cada vez mais importante.

Terceiro e o mais otimista [deixemos o pessimismo para tempos melhores]: para demonstrar que a nossa batalha cotidiana pode até parecer estar nos seus estertores, caminhando a passos largos para uma derrota [nossa] fragorosa. Mas o episódio fez com que várias forças do campo progressista se juntassem para berrar contra o absurdo. Podemos aproveitar essa união, momentânea, para lutar contra outros absurdos.

Quarto e o mais irônico: perceber que o problema de interpretação de texto - e todo o amplo campo que essa expressão abarca - não é uma exclusividade da esquerda. Que "todo mundo" confunde autor com eu-lírico. Que "todo mundo" faz uma leitura de sociologia de botequim de obras de arte. Que "todo mundo" quer respostas fáceis para dúvidas que precisam de tempo para serem digeridas.

Por fim, uma nota dissonante: Não adianta reclamar, nesse momento, e se perguntar onde foi que nós erramos. Nós erramos sempre, amigos, quando não valorizamos o ensino das humanidades nas escolas, quando não valorizamos a academia que pensa exatamente esses conceitos abstratos, em detrimento de um conhecimento mais técnico, quando valorizamos profissões que só visam o lucro, e cada vez maior, quando nos encastelamos dentro dos nossos mundos de conhecimento, cada vez mais profundo e sem nenhum debate com o lado de fora, quando acabamos com cadernos em jornais e revistas especializadas em nos fazer refletir sobre o nosso mundo, de uma maneira menos maniqueísta. Momento de voltar ao terceiro motivo.

segunda-feira, 4 de setembro de 2017

O pau

O que sobra do homem heterossexual sem o próprio pau?

Pensemos da maneira mais máscula: sexualmente. A mulher, a mulher tem vários botões, várias possibilidades, várias formas de encaixe. Seja heterossexual, seja homossexual, seja bi. O homem homossexual aumenta bastante a possibilidade de encontros, de agenciamentos. Mas o homem heterossexual só tem o seu próprio pau – e mais nada. Se o pau cai, se o pau some, desaparece, o homem some concomitantemente.

A tradição ocidental se ergueu, desde a Grécia, mais fortemente, ao redor do homem, e este, por sua vez, do seu falo. Mais que um patriarcado, era, foi e continua sendo, uma falocracia. O falo, como o símbolo máximo do homem, como o centro do homem, e o homem, subsequentemente, o centro do mundo. Foi assim que ele sempre se entendeu, sempre se colocou no mundo, sempre se defendeu.

O resto do mundo – animais, plantas, minerais, e também as abstrações, os sentimentos, e também a própria mulher, como também o negro, como também o homossexual, como também qualquer outro, tudo, enfim, que não era considerado o homem, tudo – só existia para e a partir do homem. Como ferramentas para que o homem completasse seu objetivo. Como alimento. Como objeto de investigação. Inspiração. Força de trabalho. Buraco a semear. Parideira. Escravo. Como, em suma, um objeto, de diversas complexidades, mas sempre sem qualquer dignidade de existência própria, independente desse esquema perverso e sádico, para que o homem o sujeitasse.

O caso brasileiro torna as coisas ainda piores. Por termos sido colonizados por uma potência europeia machista e católica que caiu em decadência e virou periférica, por termos sido escravocratas, por sermos genocidas, por termos reafirmado essa posição desde sempre e não conseguido modificar a lógica que impera desde a invasão europeia, a tendência de um centro, único, em que os demais astros apenas circundam, voam, circunscrevem, mas jamais atingem o falo, erguido, que se acha potente, imponente, que quer não se deixa atingir, mas que pode penetrar, pode invadir, tem a liberdade, autodoada, para fazer o que quiser.

Todo o poder que o homem considera possuir não passa de um fetiche sobre o próprio pau. Se o pau não existe, o próprio homem não existe mais, ele desaparece assim que o pau desaparece. Se o homem heterossexual perde o pau, ele não se transforma em mulher, nem em homem homossexual, ele some, ele perde sua única referência, a única maneira de ele se enxergar, de se identificar.

A mulher foi apelidada de sexo frágil, mas é o homem heterossexual que é de uma fragilidade ímpar. Ele apoia todo o poder que acha que tem, todo o poder que ele tenta exercer sobre os outros, em apenas um único ícone. É tanto peso sobre o falo que é claro que ele não aguenta. Por isso ele precisa submeter o outro, por meio da violência – em vários formatos.

No momento em que a mulher, ou qualquer outro, mas a mulher é o principal outro, tenta sair do centro de gravitação do homem, ele não apenas sente perdendo poder, o que já seria ridículo sozinho – já que o seu poder não deveria estar nessa relação que, além de todos os detalhes, já parte de origens desiguais – mas ele sente se perdido. Se ele não pode sujeitar o outro, o homem heterossexual não sabe fazer mais nada. A única forma de ele se relacionar com o mundo é a verticalidade, e desde que ele esteja no topo.

Não há relações igualitárias. Não há uma verdadeira troca. O homem já começa o jogo vencendo, e não quer perder jamais. Qualquer ato do outro para tentar ser também um sujeito é visto como destruição da sua própria maneira de ser – e como ele nunca precisou, nem tentou, ele não sabe ser de outra forma. Como as metrópoles enxergavam como atos de traição a tentativa das colônias de se tornarem independentes.

Há uma dependência, portanto, não do outro para com o homem, mas exatamente o inverso. O outro sempre precisou encontrar caminhos para sobreviver, para respirar, apesar do sufocamento do homem. Já o homem baseou toda a sua existência na sua capacidade de dominar o outro, de fazê-lo seu dependente. Ele não desenvolveu nenhuma outra tecnologia de sobrevivência. No momento em que essa relação ruir, a parte de baixo quase não será afetada, mas a de cima cairá no chão, numa batida seca no chão, e talvez não conseguirá se levantar – ou não, ao menos, sozinho. Ele sempre precisará do outro para se reerguer novamente. Porque o homem heterossexual só existe a partir do outro.
Se retornarmos todo o movimento, será o falo quem encontraremos no início. Ele é a base para todo esse processo. É a relação necessariamente ativa. De poder. De invasão. De dominação. É o pau que é o orgulho do pai, do avô, de toda a linhagem ascendente masculina. É o pau que quanto maior melhor. É o pau que tem todas as liberdades, que pode ser mostrado, que pode ser exibido, que parece só existir se for mostrado, como se gritasse para que reparassem nele. É o pau que é chamado de incontrolável. É o pau que coloca a culpa no outro, caso não corresponda à sua tarefa mitológica. É o pau, duro, inquebrantável, rijo – até que não é mais.

O homem terá que descobrir outras formas de ser que não baseadas no próprio pau, ou será cada vez menos, menor, mesmo esperneando, como uma criança imatura que enfrenta a primeira grande dificuldade da vida. Até que não será mais.