domingo, 18 de dezembro de 2016

Dataism

Na famosa entrevista para "Der Spiegel", Heidegger reforça um argumento seu, já então bastante batido, de que a filosofia, como ele a entendia, teria chegado ao seu fim [em ambos os sentidos: de término e de atingir o objetivo] e que não daria mais conta das questões contemporâneas. Ele elenca como esse modo de pensamento teria se dividido em vários outros, como a Psicologia, a Lógica, a Politologia. É o desespero dos entrevistadores que queriam uma resposta, no mínimo semi-pronta, para questões contemporâneas. "E quem ocupa agora o posto da Filosofia?", eles perguntam, tentando tirar algo mais substancioso: "A Cibernética", responde Heidegger. Estávamos em 1966.

Essa resposta está dentro de um grande pensamento heideggeriano sobre o que ele, no segundo momento da sua produção intelectual, chamou de Técnica [Technik, no original], que vai além das coisas técnicas. [Aliás, uma curiosidade: cibernética vem do grego kybernetiké, que pode ser traduzido por "Arte [techné] de pilotar".]

Técnica, para Heidegger, não era o conjunto de objetos técnicos, de gadgets, de aparelhinhos que compramos no Natal para dar de presente para o sobrinho, nem mesmo a habilidade que aperfeiçoamos em determinado métier, como futebol, violino, dirigir, ou cirurgia do coração. Seria um sistema que organiza todas as nossas formas de agir, de raciocinar, de, enfim, ser, que teria se tornado hegemônico em todas as sociedades ocidentais contemporâneas - mesmo aquelas que não ficam no ocidente geográfico.

Esse sistema consiste em mostrar como todas as coisas foram transformadas em apenas elementos que são requisitados pelo próprio sistema com o único fim de manter a máquina do mundo funcionando, no menor custo, tempo e esforço e com a maior produtividade. Mesmo que não haja um grande piloto a comandar tudo, nem mesmo uma reunião de donos do mundo [apesar da tendência de acharmos o inverso], o objetivo é fazer sempre mais com menos, o máximo com o mínimo, quase tudo com quase nada. Todas as coisas que não se encaixam nesse objetivo único, como, sei lá, ler poesia, observar o pôr-do-sol, tomar chá pelo gosto do chá, ou mesmo estudar filosofia, são descartadas - ou completamente absorvidas por essa lógica. Poesia se torna boa para aumentar nosso vocabulário; observar o pôr-do-sol mostra sua capacidade estética ou sua sensibilidade; chá é bom para relaxar ou acordar. Todas atividades boas para aumentar nossa produtividade, que é o que o importa para a Técnica.

Cinquenta anos depois, o historiador Yuval Noah Harari, autor de "Sapiens", best-seller do "New York Times" quando lançado, em que analisa o passado que trouxe aquele primata estranho até o atual momento, publicou "Homo Deus", em que ele muda de lado sua lente de aumento e aponta para o futuro, para sugerir alguns prognósticos sobre os caminhos que vamos tomar a partir de agora.

Apesar de ser um autor extremamente neoliberal [defende abertamente o mercado como única forma possível de se viver bem], e de alguns escorregões que me fizeram duvidar de suas credenciais como historiador [quando ele coloca nas costas do comunismo todos os problemas da URSS ou da atual China, por exemplo], suas apostas para o futuro acendem a luz laranja.

Um dos pontos altos em seu livro [para alguém como eu, que acha que a metafísica é, feliz ou infelizmente, indispensável] é chamar de "religião" todos arcabouços de pensamento que sustentam o nosso modo de ser em sua totalidade, mesmo que essa "religião" seja o humanismo, ou suas subdivisões, como o que ele chama de liberalismo, socialismo ou darwinismo [cujo ponto mais sombrio seria o Nazismo]. Nesse sentido, a Técnica, identificada por Heidegger, seria também uma "religião". Ou mesmo a ciência, pensada aqui como modo de justificativa para nosso modo de ser. "Religião", portanto, seria o nosso "fundamento", onde nos apoiamos para decidir o caminho que vamos tomar para conseguir nos decidir. Metafísica, em lato sensu.

Ele sugere que o liberalismo, um outro nome para a democracia capitalista nos países ricos, teria "vencido" a guerra fria por, entre outras razões, saber lidar melhor com os dados que o mundo se-nos apresenta diariamente. Mas que esse tipo de "religião" não daria mais conta de um mundo em que somos soterrados diariamente por uma quantidade absurda e exponencial de informação. Para lidar com esse novo paradigma, ele imagina que haverá - ou já há - uma nova "religião": Dataism [algo como Dadoísmo, a junção de "dados" com o sufixo "ismo", que se refere a doutrinas, sistemas, tendências etc.].

É um fato: não damos conta de tudo o que acontece [se é que um dia demos - lembrar que o verso "quem lê tanta notícia?" foi publicado em 1968]. Mas se não é uma questão de qualidade [como se um dia mudamos a nossa característica de "dar conta" das coisas para agora não dar], a quantidade é tão avassaladoramente maior, que quase torna essa característica uma outra coisa. Ou seja, a quantidade é tão de outra ordem que as regras aqui parecem precisar mudar completamente [pensar em mecânica quântica].

Para dar um exemplo de como vivemos em uma constante avalanche de informações, basta tentar lembrar para qual assunto espinhoso e extremamente relevante para nossa vida e para o mundo conseguimos dar nossa atenção nessa última semana: À reforma do ensino médio? À PEC que congela os gastos da saúde e educação por 20 anos? Às denúncias e aos apelidos da Odebrecht? À Lava [a] Jato? Às operações da PF? À crise política econômica fluminense? Às chicanas políticas de Renan et caterva? Ao golpimpeachment? Ao Temer? Ao Trump? Ao Putin? À Allepo? Ao Iraque? À China?

Isso só para ficar nas questões de cunho político mais estrito. Nossos sentidos estão tão abertos a vários e intensos estímulos que impulsos de outras frequências não são nem mesmo captados por nós [ouvi a expressão "Compassion fatigue" - e ela se aplica aqui bem]. Eu fiz de tudo para não saber nada sobre a Síria nesse momento. Não estava dando conta.

O que era incomum - a alta quantidade de notícias - se tornou abundante, exponencial. Estamos ainda na Modernidade, mas em seu fim, no seu extremo fim. Esses dados, que sempre existiram, só podem agora serem lidos por uma inteligência que as processa sem, hum, "pensar" muito. Isto é, que não coloca todas as informações em perspectiva, que não analisa cada uma das questões, a cada momento, que não tem sua atenção desviada com outro assunto no meio da análise. Os humanos não dão mais conta disso. [Não me surpreende que o Transtorno de Déficit de Atenção seja um dos principais problemas entre as crianças. E que a Ritalina se tome no lugar da jujuba hoje em dia.]

O que Harari sugere - e não somente ele -  é que os algoritmos vão tomar conta de nossas decisões a partir de agora. Abastecidos por essa quantidade de informações incomensuravelmente crescente, eles , e só eles, conseguirão processá-las para, a partir de cálculos matemáticos-probabilísticos, dizer qual é a solução "correta". Saímos da verdade divina, passamos pela certeza científica e chegamos às probabilidades técnicas.

Em uma bifurcação, os algoritmos vasculharão todas as informações já publicadas sobre a estrada e descobrirão qual é a melhor forma de se evitar engarrafamentos e chegar o mais rapidamente ao destino. É uma decisão fria, distante, pragmática.

 A democracia representativa perde um pouco de sentido. Não precisaremos mais votar em candidatos: eles seriam colocados no poder a partir da análise de suas biografias, que utilizariam os critérios das últimas pesquisas e artigos científicos publicados para propor quem é o mais apto ao cargo. Aliás, talvez nem precisaríamos de políticos, já que todas as decisões poderiam ser feitas a partir desse mesmo critério: os algoritmos avaliariam os prós e contras de cada uma das bifurcações e optariam, instantaneamente, por um dos caminhos, pelo melhor caminho, cientificamente comprovado, estatisticamente mais produtivo. O único objetivo é seguir em frente, rumo a uma sociedade cada vez mais perfeita - portanto, cada vez menos "humana".

"Humano" aqui é o que eu chamo de nossa capacidade exatamente de nos reter em um determinado assunto e refletir sobre ele, sem exatamente chegar a alguma conclusão definitiva. O que Heidegger chama, grosso modo, de pensamento - daí que o polêmico filósofo alemão falava que a ciência não pensava, mas apenas respondia a estímulos. E, fazendo uma comparação ainda mais controversa, o que Harari chamaria de "consciência".

Mesmo que os computadores tenham cada vez mais capacidade de processar teradados em alta velocidade, essa inteligência não teria necessariamente consciência. Apesar dos grandes avanços da neurociência e da biologia, ainda não se sabe como nasce ou nasceu a consciência; foi a junção de uma alta capacidade de processamento de dados? Foi a nossa constante capacidade de autoquestionamento? Por que precisamos nos questionar tanto? O questionamento pode até ter tido alguma função evolucionista no passado: mas ela ainda teria num mundo em que os algoritmos resolveriam nossas dúvidas?

Podemos ainda dizer que há uma necessidade de cientistas em programar esses algoritmos, portanto os humanos não teriam se tornado obsoletos. Isso, entretanto, vale por pouco tempo: conforme a Inteligência Artificial avança, os computadores entendem cada vez mais sozinhos o que devem fazer, a partir, simplesmente, do mergulho no universo praticamente infinito de dados - como mostra esse artigo da "Economist", por exemplo.

Com o fim da privacidade, forneceremos ainda mais dados biométricos, bioquímicos etc. Em pouco tempo, as próprias máquinas poderão também, por que não?, produzir seus próprios dados a partir dos estudos comparativos [há casos como o de David Cope, para citar um, que criou um algoritmo que produz música e haikus sozinhos, ao entender como funcionavam os formatos já estabelecidos]. Os humanos nos transformaremos, enfim, em apenas uma coleção de dados para a leitura desses algoritmos que produzirão e reproduzirão nosso mundo. Por isso que a filosofia não dá mais conta das nossas questões, segundo Heidegger.

Não sei bem o que pensar sobre isso.

sábado, 19 de novembro de 2016

Como fazer a coisa certa?

Não sou grande fã de Spike Lee. Acho obras como "Malcom X" excepcionais, com a sua cinebiografia de um líder negro que aceitava a violência como parte integrante das negociações de poder, em vez de achar que as coisas cairão dos céus porque você se comportou bem, de acordo com as expectativas dos mais fortes.

Ele não mantém, contudo, uma regularidade para me fazer ir ao cinema todas as vezes que lança um novo filme - coisa que acontece com Woody Allen e Martin Scorsese, por exemplo, para ficar só com os nova-iorquinos [na verdade Spike Lee nasceu em Atlanta, mas seus filmes são tão ligados a NY que não dá para dissociá-los].

De qualquer forma, sua obra principal, "Do the right thing", tem ao menos uma cena memorável - e que diz muito sobre o nosso momento histórico. O longa tem aquele clima de retratar o berço da cultura hip-hop, mostrando quase num clima documentário o lado menos conhecido da cidade mais conhecida dos EUA. Sempre achei que faltava, ironicamente, ritmo, no seu início, mais puxado para a comédia de costumes. Depois, há o aumento da temperatura (no sentido metafórico e no literal) que culmina na cena clímax do longa. Para mim, a maior esfinge da obra dele, que eu até hoje não consegui decifrar completamente, o que demonstra todo o seu poder.

No filme, além de dirigir, escrever e atuar, Spike Lee é Mookie, um entregador de pizza que trabalha para o ítalo-americano Sal (Danny Aiello) e convive com seu filho racista Pino (John Turturro). Mookie é um sujeito muito tranquilo, sem muitas ambições, que não tem problemas de relacionamento com os italianos da área, mesmo com todos os poréns.

Ele se identifica com os negros, mas não é um grande partidário de qualquer movimento mais organizado. De certa forma, ele funciona como o elo que conecta os dois lados do bairro. É quem consegue se dar razoavelmente bem com os brancos e vive como os negros. Um sujeito quase híbrido - quase. Com essa facilidade em circular entre os diferentes, Mookie se torna uma espécie de válvula de escape de ambos os lados, o amortecedor de todas as tensões. Até que ele começa a comprar o barulho dos negros.

Encurtando uma trama razoavelmente longa: há uma crescimento da tensão durante o filme e os negros se enfurecem com os italianos e resolvem protestar em frente à pizzaria de Sal. Mookie, que sempre foi razoavelmente tranquilo, está completamente fora de si porque um de seus amigos acabara de morrer enforcado por policiais. Esfrega o rosto na tentativa de encontrar a resposta correta, enquanto os negros e os italianos discutem arduamente, sem tomar uma atitude mais direta.

Sal não é "culpado" de absolutamente nada. Não fez nada que possa ser visto, pelas leis, pelos códigos oficiais, como alguém que merecesse receber qualquer tipo de punição. Ele é o homem que estava há décadas na área, empregando gente do bairro, sempre se posicionando de maneira razoavelmente correta. Sal não era um problema, no sentido mais estrito da questão.

Ali, porém, Sal não era mais apenas Sal. Mookie não era mais somente Mookie. Eles se transformam em símbolos, vão além de suas próprias individualidades. Sal representa a opressão, a hegemonia, o andar de cima que insiste em pisar no de baixo. Mookie, que tinha sido um sujeito que passava panos-quentes em todas as questões desde o início do filme, decide então jogar uma lixeira na janela da pizzaria de Sal. Os negros aproveitam que o pavio tinha sido aceso e pilham o lugar. Era um pedido de reparação histórica.

Dá um confere na cena:


Sempre imaginei que o nome do filme tinha a ver com essa cena. Mas como "fazer a coisa certa" se Sal estava sendo punido por nenhum crime seu? Como o "certo" pode ser quebrar a lei, destruir o patrimônio alheio - ser um "vândalo"? Como o certo pode ser, em resumo, o "errado"?

 A cena é impressionante exatamente porque é amoral. Porque mostra que há momentos em que fazemos o certo por linhas tortas. Que é necessário quebrar algumas regras para que todos sejam respeitados por estas mesmas regras. A cena é grandiosa porque tem várias pontas soltas, várias questões não resolvidas, várias motivações que podem ser contestadas.

Eu, que sempre fui um adolescente muito certinho, fiquei chocado com essa mudança de posição do personagem quando a vi pela primeira vez. Como entender o protagonista bonzinho tomando uma atitude que é completamente contrária às suas atitudes desde o início do filme? Como optar por desrespeitar as regras, sem que isso se transforme numa regra desregrada? Como, em suma, viver sem regras? As regras funcionam para quem? Regras criam privilégios? As perguntas sem acumulam.

Se Mookie tivesse sentado e conversado com todas as partes, resolvido o problema no diálogo, negociando todas as questões, todos nós aplaudiríamos e saberíamos que era, claro, a "coisa certa". Mas o quão verdadeira seria essa cena? O filme mostra todas as nossas incoerências, nossas contradições, nossas vontades que são contra-si mesmas. Mostra que em situações extremas, às vezes, tomamos atitudes extremas. Que, às vezes, a violência contra símbolos opressivos, para destituí-los, para tentar equilibrar um pouco mais as coisas, são mais que desculpáveis, são necessárias. Mas qual é o limite para essa violência?

Suspeito que seja uma ótima metáfora do nosso momento histórico atual.

ps. revendo a cena agora, há uma outra virada de perspectiva quando o chinês diz para os negros que querem destruir seu lugar: "me black". Os negros entendem a diferença e param. Isso me lembra a famosa frase do Eduardo Viveiros de Castro: “No Brasil, todo mundo é índio, exceto quem não é”.

sábado, 5 de novembro de 2016

O que podemos fazer?

Vi esse pacote apocalíptico do governo estadual, depois da série de pacotes apocalípticos do governo federal, depois da eleição de um prefeito apocalíptico, ligado à Igreja Universal, e fiquei pensando: o que podemos fazer?

Em outras palavras: se acreditamos que há um descompasso imenso entre um discurso de austeridade e uma prática de aumentos de salários e benefícios para políticos e juízes, entre a suposta necessidade de cortes e a continua prática de isenções fiscais, feitas com, no mínimo, pouco esmero, o que podemos fazer?

Ainda: se não formos partidários da ideia de que esse é um remédio amargo para uma doença crônica, se percebermos que quem, como sempre, está pagando o pato é o andar de baixo, enquanto os ricos aumentam sua distância dos pobres, o que, cazzo, podemos fazer?

A resposta mais óbvia: protestar. Mas como? Que tipo de protesto? Aos domingos, fechando ruas da orla carioca - que já é normalmente fechada? Em dias de semana, interrompendo o trânsito no Centro da cidade, causando incômodo?

Qual é a garantia de manifestações? Demonstrar a insatisfação publicamente é o suficiente para que os mandatários mudem de posição? Ou eles podem simplesmente ignorar totalmente os protestos, como um pai generoso que olha a pirraça do filho e acha fofo? Ou ainda pior: e se eles capitalizarem essas manifestações para determinados fins, diferentes do que imaginamos?

Quantas pessoas são suficientes em um protesto para ter algum tipo de retorno? Seremos protegidos ou agredidos pela PM? Avisaremos com antecedência nosso trajeto? A manifestação será coberta pelas TVs? E se cobertas: qual será o tom? Seremos manifestantes ou vândalos?

Quais atitudes podemos tomar durante a caminhada? Podemos cantar palavras de ordem? Podemos xingar governantes? Podemos levar cartazes sugerindo a mudança do governo? Podemos pedir a morte de políticos?

Como chamar a atenção para a nossa insatisfação? Como não deixar que a manifestação seja domesticada? Como fazer com que os governantes nos escutem? Um protesto em um protestódromo seria eficiente? Qual grau de incômodo estamos dispostos a aceitar de manifestações contrárias às nossas intenções?

Podemos andar fora do trajeto determinado? Podemos revidar uma agressão de um policial? Podemos sequestrar embaixador americano, alemão, japonês? Podemos matar empresários que financiam estruturas de tortura?

Como demonstrar nossa insatisfação? Podemos quebrar símbolos  do Estado? Podemos quebrar vidraças de banco? Podemos tacar fogo em lixeiras? Podemos jogar coquetel molotov? Podemos exibir nossa raiva e frustração contra a precarização da educação, as filas de hospitais, a corrupção generalizada?

A morte de um tirano é justificada? Como decidir quem é tirano? Quem decide isso? Quais são os critérios?

O que podemos fazer, quando o horizonte parece tão pouco promissor, para voltar a ter um respiro de esperança?

terça-feira, 18 de outubro de 2016

As similaridades entre 'ciência' e 'fé'

O que o seu Buonarroti fez foi obra da fé ou da ciência - ou foi arte?
Não vejo diferenças essenciais entre o que as pessoas em geral chamam de "ciência" e o que chamam de "fé". Essas divisões acontecem, me parece, por conta de uma tentativa de colocar cada um dos saberes em um determinado escaninho em que as coisas não podem se misturar. Para mim, elas não somente se misturam: acho que, em alguns casos, elas são a mesma coisa.

Não estou tentando dizer aqui apenas que a fé pode ajudar a ciência - e/ou vice-versa -, mas que os âmbitos, as estruturas, a organização [como quer que o chamemos] entre os dois são extremamente permeáveis. Ou seja, alguma coisa pode ser "ciência" E também ser "fé" - não é excludente. Ou alguma coisa pode ser "fé" em determinado momento, sob algum determinado ponto de vista, e ser "ciência" em outro ponto de vista.

Também não estou afirmando que alguém com câncer deva optar pela homeopatia em vez da quimioterapia. O que eu estou dizendo é que, em alguns casos, circunstancialmente, a homeopatia teria o fim que em outros casos a quimioterapia teria. Tudo, me parece, nessa discussão, é circunstancial. Não daria para generalizar em nenhum caso [e isso é um problema danado, principalmente para a comunicação e a linguagem].

Muito menos estou tentando justificar a educação por parâmetros religiosos, ou qualquer tentativa de acabar com Darwin. Acho que, para se viver nesta nossa sociedade de alguma maneira ocidentalizada, da maneira como ela se apresenta para nós, neste momento, o que chamamos de "ciência" dá mais possibilidade de se criar um diálogo entre os diferentes que o que chamamos de "fé". Entre Stephen Hawking e o Papa fofinho, fico com o primeiro.

Esses argumentos, entretanto, me lembram um amigo que termina agora o doutorado em Farmácia. Ele disse certa vez que há estudos que comprovam a eficiência da homeopatia em alguns tratamentos. Ninguém consegue entender, pelo método científico, como isso funciona, mas, ao fim, funciona. [Isso é tão polêmico que vou perguntar novamente para ele.]

Ou também toda a discussão da física quântica, que, pelo pouquíssimo que entendo, no mínimo, ampliou a forma de nós entendermos a física, a partir da perspectiva unicamente newtoniana - e ninguém entende bem como alguns processos quânticos funcionam. Para ficar num exemplo bobo, o bóson de Higgs foi "comprovado" recentemente, apenas.

Ou de como, muitas vezes, o método científico é manipulado para chegar a determinados fins. Tipo, gente que ainda defende que o aquecimento global não teria influência dos humanos. Ou, menos polêmico, e um caso hipotético - porque não procurei um exemplo formal -, gente que ainda defenda que o fumo de cigarros industrializados não aumentaria a probabilidade de ter câncer.

Isso tudo para ficar apenas no parâmetro-sistema-hegemonia ocidental-capitalista-eurocêntrico. Se sairmos desse ponto de partida e colocarmos o centro em outro lugar, toda a conversa muda instantaneamente de figura. Não haveria divisões assim tão claras entre "ciência" e "fé" - aliás, esses conceitos-noções já não receberiam nomes com essas correspondências.

Eu fico imaginando que essa vontade de separar a nossa vida, a nossa experiência de viver, nosso contato com o mundo, em determinadas possibilidades-destinos-conceitos-noções é fruto da tradição fundada lá com o "Hamlet" do Shakespeare, no momento-chave do "Ser ou não ser". Mesmo que a passagem seja sobre um caso bem específico. Se eu me lembro bem [o que eu duvido], é uma discussão sobre se é melhor viver ou morrer. Mas ainda assim é um exemplo a se lembrar: ou se está vivo, ou se está morto, uma coisa anularia a outra. Mas aí eu lembro: e o gato de Schrödinger? Suspeito que, após Einstein, nós temos que mudar nossos parâmetros para: ser E não ser.

Também discordo, teoricamente, da afirmação de que "a revolução científica foi uma revolução da ignorância", que demonstraria que só a partir desse momento as pessoas começaram a duvidar de suas afirmações, um dos moto-contínuos da própria ciência. Se seguirmos esse raciocínio, o processo teria começado bem antes da revolução científica: no mínimo teríamos que voltar a Sócrates, quando ele diz que só sabia que não sabia. 

Mesmo que ele tenha dito isso para mostrar a ignorância dos seus interlocutores, o método dele era investigativo, ou, para usar uma expressão inventada neste exato momento, protocientífico. O que eu quero reafirmar com esse ponto não é marcar uma data de nascimento da ciência [há a anedota sobre um filósofo famoso do século xx que afirmou que a bomba nuclear já estaria contida no primeiro poema de Parmênides], mas que o Ocidente, essa abstração que criou toda a dor e a delícia do que nós somos, teria como princípio, em linhas gerais, claro, essa busca por saber mais. Só acho que, vez por outra, rola algo mais como um aprendiz de feiticeiro: somos surpreendidos por nossas criações. Vide a bomba atômica, o aquecimento global, a superpopulação e tantos outros efeitos colaterais.

Outro detalhe que eu acho que é importante ressaltar nessa discussão entre a ciência e a fé: de alguma forma, há sempre a necessidade de se "acreditar" na ciência - mesmo a que passou por todos os procedimentos e correções. Não há qualquer garantia que a "ciência" funcione - mesmo que ela funcione 1 milhão de vezes, há sempre um "salto no escuro", uma aceitação condicional desse formato. Gosto de usar o nome "metafísica" para explicar isso. Costumo brincar que a diferença entre ciência e fé é que a primeira tem uma corda imensa para explicar o caminho de "a" a "b" enquanto a segunda vai de "a" para "b" num instante. Mas os lados "a" e "b" permanecem os mesmos.

Também não vejo por que não se possa duvidar da própria fé. Conheço casos e mais casos de fiéis que não conseguem aceitar bem a própria fé e lutam contra ela - geralmente o pessoal das religiões mais estigmatizadas, como umbanda e candomblé. Claro que podemos dizer que os casos de problemas com a fé aqui poderiam vir do fato de essas pessoas estarem num mundo em que elas sofrem preconceitos - mas vejo o fenômeno acontecer até com pessoas que estudam profissionalmente tais religiões. O que diminui a possibilidade dessa influência. Isso para não dizer como a própria igreja católica conseguiu reverter o lado da questão da dúvida, para dizer que a dúvida é o que fortalece a fé em Cristo.

Mas, claro, isso tudo aqui tem que ser colocado em dúvida, já que foi escrito por um descrente que tem dificuldades de crer nas menores coisas - como, por exemplo, na própria "ciência".

sábado, 17 de setembro de 2016

Chinanews: precisamos falar sobre o WeChat

Um americano de cerca de 50 anos, casado com uma chinesa de uns 30, 35, contava à mesa de jantar após algumas garrafas de vinho como ele era um sujeito esquecido. Um dia desses, exemplificou, ele saiu de casa sem um centavo e só foi se dar conta disso quando estava dentro de um táxi voltando para casa. Como pagar o motorista?, se perguntou. Como, ao menos, avisar o motorista que ele não tinha qualquer dinheiro, já que o mandarim dele é ainda bem precário? Não pestanejou: sacou o celular e ligou para a esposa. Ela, claro, resolveu tudo: transferiu a grana para o celular dele, e ele pagou o motorista com o próprio telefone. Ou melhor, não exatamente com o celular, mas com o WeChat, o aplicativo de comunicação instantânea mais popular pelos lados de cá.

Um dos stickers do WeChat


O simples fato dessa plataforma ser a principal rede social da China já chama muita atenção: todo mundo, assim que ganha alguma intimidade, pede para escanear o QR do seu WeChat, como antigamente se pedia o número de seu telefone. São mais 800 milhões de usuários, sendo 90% na China. Para ter uma ideia, o Facebook no mundo inteiro tem só o dobro disso [ok, não é "só", mas vocês entenderam]. Whatsapp, um bilhão. Mas o WeChat vai além de uma rede social como esses concorrentes. O Weibo, por exemplo, também é grande, e também é basicamente chinês, mas é mais parecido com os sites ocidentais, tipo Twitter.

Já o WeChat tem comunicação instantânea, linhas do tempo, jogos, e todas as features que nós conhecemos MAIS uma que não é tão comum do lado daí do globo: funciona como uma espécie de cartão de banco - dá para fazer pagamentos, tem ligação direta com a sua conta corrente e até é possível transferência de um celular para outro. Exatamente como o sujeito ali em cima fez.

Dias desse, eu vi uma barraquinha que vende uns sanduíches de café-da-manhã, muito provavelmente informal, que aceitava pagamento no WeChat [não consegui conversar com o dono do estabelecimento, infelizmente]. Esse é o nível de penetração da ferramenta.

O WeChat é onipresente. Toda a vida social chinesa passa por conversas dentro do aplicativo, trocas de stickers e gifs animados, com piadas internas e fofuras diversas. Há todo um mundo a se explorar lá dentro - coisa que ainda não consegui chegar ao fim. É, sei lá, tipo esses jogos que vão se desenvolvendo a cada fase que passamos. Blogs, mini-sites, área de fotos, linhas do tempo, pode marcar os amigos em postagens, enfim. Tem mais um pouco que tudo. O frenesi do Twitter, mais o vício do Facebook, mais a instantaneidade do Whatsapp, mais o seu cartão de banco. E alguma outra coisa que eu ainda não descobri, certamente.

[No Brasil, uma curiosidade, o aplicativo serve quase como uma versão diferente dos apps de encontros, tipo Tinder ou Badoo [outra curiosidade: como o Google é proibido aqui, o site de busca mais usado é um quase homônimo, o Baidu - que se expandiu e tem outras características, como ser loja virtual], porque tem um recurso de encontrar quem está perto de você. Os moços, então, colocam fotos que mostram seus, digamos, dotes para jogo, com detalhes de centimetragens e, hum, amperagens.]

Voltando. Uma coisa é certa: a websfera chinesa é extremamente diferente da ocidental - e aí, sim, podemos dizer sem muito medo de errar muito, que há bastante em comum nesse lado do mundo em que estamos cada vez mais dominados pelo inglês como língua única e recorrendo aos mesmos sites de busca, de interação, assistimos aos mesmos vídeos, e brincamos nos mesmos aplicativos de caça a animais imaginários. Como ouvi certa vez de uma francesa filha de italianos que morava nos EUA: hoje em dia, vivemos todos na mesma internet.

Essa diferença entre China e resto do mundo acontece por alguns motivos, suspeito. Primeiro porque o pessoal do Vale do Silício - povo extremamente endeusado aqui, me pareceu - não conseguiu jogar o jogo com as regras chinesas. Como assim o Google não tem restrições? Como assim o Facebook deixa que todas as informações de outros lugares abertas para todo mundo? Não adiantou prometerem fazer acertos: a China percebeu que era também bastante interessante barrar as invasões bárbaras e criar aplicativos parecidos, que se desenvolveram seguindo as necessidades locais.

A Tencent, a dona do WeChat, é a terceira maior empresa de internet do mundo. A Alibaba, a Amazon deles, só que vendendo qualquer coisa que você imaginar - qualquer coisa MESMO -, é a quarta. O tal Baidu é o quinto [Amazon, Facebook e Google são, por enquanto, as líderes do ranking]. A receita bruta da Tencent foi 15 bilhões de dólares em 2015, a do Facebook, 17 bi.

A China tem o Great firewall, que impede de acessarmos abertamente determinados sites. Porém não é só isso que impede a livre circulação de ideias - propaganda de VPN é o que eu mais encontro aqui. Há, claro, além disso, a dificuldade com a língua. Quase ninguém fala inglês. Mas acho que a grande sacada foi: em vez de "só" censurar alguns conteúdos, meio no esquema "1984", o governo chinês percebeu que era mais eficaz sobrecarregar de conteúdo diverso e parecido a websfera, sempre numa versão branda e bom astral, meio no esquema "Admirável mundo novo". Seguir a Xinhua, a agência estatal de notícias deles no Twitter, é divertido. Aconselho a todos para se preparar para a futura EBC. Em suma, em vez de escassez, exagero.