sábado, 17 de março de 2012

Frases feitas, respostas nem tanto

Os ingleses têm uma palavra para aquela sensação tão comum de ter a resposta certa, mas somente duas horas depois do momento que você precisava usar. Quando eu lembrar dela, in a couple of hours, eu volto aqui e a acrescento. Até lá, vou tentar ajudar os amigos-tudo caso um dia precisarem responder frases feitas -o que eu até hoje não consigo.

Quer me quebrar é me perguntar: "How are you doing?" Acostumado com o fato de no Brasil essa pergunta ser retórica - ninguém quer mesmo saber se está tudo bem com você, apenas é uma forma diferente de se dizer oi - eu geralmente respondo com "How are you doing?" e aí rola aqueles segundos constrangedores de ninguém falar nada, os dois interlocutores um olhando para a cara do outro, eu pensando que fiz merda, o outro não sabendo se deve responder ou continuar a conversa. Já fiz atendente de telemarketing quase chorar por quebrar o protocolo.

Já foi pior. Lembro uma vez, nos EUA, um garoto me perguntando: "What's up, man?" e eu: "Sorry...?" e ele repetindo: "What's up?", e eu: "Hum... [olhando para cima] Nothing?".

A resposta que os ingleses dão é, aliás, demonstrativa de como eles se veem, ou como vemos eles, ou como eles querem que a gente os veja: sempre cool. "Not so bad", é o mais comum de se ouvir. Porque dizer que está "Good" é esbanjar felicidade, né? Esse sentimento estranho para um londrino, tão cool, tão "why does it always rain on me?" - ok, o Travis é escocês, mas vocês pegaram o ponto.

[Não, escoceses e ingleses não são a mesma coisa. Nem mesmo galeses e ingleses se misturam. Aliás, os galeses falam além do inglês, o galês -que não tem NADA a ver. Aliás2, os escoceses vão votar em 2014 se querem continuar parte da UK ou não. O tema, claro, é quente aqui, por conta dos irlandeses, do norte e do sul - aliás3, hoje é dia de St. Patrick...]

Para se despedir, usa-se o tradicional "See you later", mas, diferentemente dos americanos - que nos influenciam com o sotaque hollywoodiano e troca o "t" por um "r" - os ingleses ou falam bem fortemente o "t" de "later" ou não o falam absolutamente nada - depende da classe, da idade, da escolaridade, etc. Mas isso se aplica a qualquer palavra. "Water" vira "Uá-er", "later", "lêi-er", "matter", "má-er" - o "t" não some sempre, como já sabiam Ella Fitzgerald e Louis Armstrong na disputa por quem fala certo "tomato" [abaixo].

Por fim e, para mim, o mais complexo: como responder a "thank you"? Antes, um parêntese rápido de que eu descobri lendo a tradução inglesa de "Kafka on the shore", do Murakami, que é possível falar "much obliged" - ou seja, cada vez mais eu acho que é só colocar um "tion" no final de algumas palavras e tascar um sotaque carregado - sotaque é o mais importante - para afirmar que se sabe falar inglês.

Voltando ao "thank you". Tenho o costume de dizer: "no problem", talvez pela dúzia de vezes que vi "Terminator 2" [que falava, na verdade, "no problemO", mas que para um adolescente parecia só "problem"]. Aqui, porém, se o lugar for um tiquinho mais calça-de-linho-e-terno, o tradicional "you're welcome", que se aprende nas escolinhas, é o mais indicado. Agora, na rua, o que o povo fala mesmo é "no worries". Se eu tivesse que traduzir, seria o nosso - carioquíssimo - "tranqs". Serve também como resposta para um "sorry" quando alguém pisa sem querer no seu pé na saída do metrô lotado.

Como se vê, não é só o Japão que tem hábitos em comum com a Inglaterra. 

sexta-feira, 16 de março de 2012

Mitos e verdades sobre Londres - uma opinião

Claro que não é possível dizer o que é mito nem o que é verdade sobre qualquer país, assim, num texto de blog. Talvez nem em uma tese de doutorado. O que vou fazer aqui é comparar as minhas expectativas com o que eu encontrei até agora. Pode ser coincidência ou outro nome que queiram dar. Mas o critério é claro: a minha memória confrontando a minha memória.

"Bloody" - Parece que é uma forma de eufemismo com palavrões de verdade - tipo o que os puritanos americanos fazem com o "Gosh" - *arrepios*. Ou eu não encontrei pessoas eufêmicas ou os londrinos não falam "bloody" normalmente.

O "Daily mail" fez um trocadilho ["pun", sim, eles realmente
 fazem trocadilhos a todo o momento nos jornais] chamando
 essa montagem de Londres, de ontem, de "A tale of two cities". 
"Fog" - antes de vir, escutei que só havia a famosa neblina imortalizada nos livros do fim da era vitoriana [Dickens, Conan Doyle etc.] era resultado da queima de carvão para a produção de energia. Ou seja, seria um efeito colateral da revolução industrial, ainda na sua primeira fase [lembrai que ela começou aqui, em Manchester], e não seria natural, portanto. Bem, ela existe. Talvez porque ainda não deixamos de usar combustível fóssil, apesar de tanta campanha contra o aquecimento global. O fato é que ainda encontramos, vez por outra, essa neblina densa, que apaga o outro lado da rua. Parece, para mim, leigo, entretanto, apenas vapor d'água.

"Indeed" - Se fala, claro, mas não a todo momento. São muito mais criteriosos que o senso comum aplica. Ouvi pouco. Há um caso, porém, que vale o registro. É fácil escutar as pessoas falarem "thank you very much indeed" - como se quisessem deixar claro que querem agradecer. A minha teoria é que "thank you" sozinho ficou tão banalizado, se fala a todo momento, que acabou perdendo a sua verdadeira vocação de agradecer. Daí se colocou o "very much" para dar uma entonação de, agora é de verdade, porém, ele também caiu no uso comum e perdeu toda a força que tinha. Daí, agora as pessoas tascam o "indeed" para deixar claro que se ela falou isso tudo ele realmente quer agradecer. Acho que o processo é o mesmo que aconteceu com o espanhol "chiquitito".

"Mate" & "fellow" - Fala-se, a toda hora. "Fellow" é uma espécie de terceira pessoa do singular não oficial. Quando quer falar sobre alguém ausente, ele é "fellow". Já "mate", é a segunda pessoa, com quem se está falando.

"Cheers" - Esse, então... Já está totalmente no sangue. Para qualquer, mas qualquer coisa mesmo, como sinônimo de agradecimento informal, como no famoso "cheers, mate", dito para o garçom do pub que acabou de te servir uma "ale". Acho que é o mesmo processo que aconteceu com "valeu", no português do Rio. Usa-se a todo momento. E, igual a "valeu", quando queremos agradecer verdadeiramente à pessoa, acrescentamos um "thanks" em seguida.

"Excuse me" & "sorry" - acho que se uma pessoa vier para Londres só sabendo falar essas duas palavras e "thank you", consegue viver um bom tempo sem nem perceber que precisava de inglês. Fala-se tanto e a toda hora que às vezes a pessoa junta as duas para pedir licença e desembarcar do metrô lotado do rush.

Imigrantes - dizem que Londres é a cidade com o maior número de línguas - segundo matéria que li do "Guardian", eram 300 diferentes. Além disso, 30% da população não nasceu aqui. Em alguns lugares, você se esquece que está na Inglaterra. Já falei que em Wembley há anúncios para as pessoas não cuspirem no chão - um costume dos indianos que mascam o paan [um enrolado de diversas sementes e sabores para mastigar e sentir o gosto, mais ou menos como se fazia com o fumo de rolo.] Em Brixton, os cabeleireiros são todos especializados em penteados afros. Londres é incrível exatamente porque você pode conhecer o mundo, sem sair da sua cidade. E, aparentemente, os ingleses-ingleses, aqueles de pele branca e bochecha rosada, gostam disso também.

Mesmo que pareça apetitoso, aconselho: evite fish and chips.
"Fish and chips" - A comida inglesa-inglesa é difícil de se encontrar, mas, quando se acha algo verdadeiramente inglês, e bem feito, é incrível. Esqueça, por favor, o "fish and chips", que só os ingleses-ingleses comem. Opte, por favor, pelo "roast" de domingo - servido em qualquer pub que se preze. Em vez do fish and chips, faça como o resto da Europa, coma um kebab.

Island and Continent - sim, há claramente uma divisão entre a UK e o resto da Europa. Primeiro porque a UK é uma ilha. Depois, por causa do dinheiro [pounds x euros]. Mas, principalmente, porque os ingleses podem até ser agregadores, mas eles gostam mesmo é de fazer as coisas sozinhos. Sempre, como exemplo, podemos citar o anúncio de quase todos os pubs que dizem que têm "real ales" e "continental lagers". Faz todo o sentido.

quinta-feira, 15 de março de 2012

O que é arte?

Pois. Já devo ter escrito isso antes, mas não importa. Não me lembro, para falar a verdade. A questão é que falei bastante sobre arte e estética, mas jamais entrei no, talvez, mais espinhoso dos temas: o que -dionísios!- é arte? O que faz algo ser considerado arte?

Como se sabe, esse conceito mudou muito durante o caminho da história. Os gregos nem tinham uma palavra para isso, sendo que -se eu não me engano- os romanos traduziram o mais próximo dos seus conceitos, "thekné", por "ars", que veio a dar na nossa palavra "arte". Foi só com Kant e, em seguida, os românticos alemães, ou seja, no século xix, ou seja, ontem, que começamos a valorizar essas produções que aparentemente não temos muito como explicar.

Aliás, foi exatamente Kant quem disse que não tínhamos como explicar o que era "arte", mas sabíamos o que era - o que é uma boa resposta até hoje. E é mais ou menos o que eu aplico até hoje - misturado com outras ideias, que eu também gosto.

De toda forma, mesmo desde então, todo mundo -filósofos, estetas, artistas, historiadores, críticos, pensadores, a humanidade, enfim- tentou separar a arte do que não era arte. Antes da revolução da fotografia, era um pouco mais fácil, como se sabe. Bastava seguir o conceito ainda de Aristóteles de "mimetizar a physis".

Demóstenes Torres, infelizmente, também
 faz parte da  physis [Fonte: wikimedia]
Essa palavra estranha -"mimetizar"- quer dizer mais que "copiar". Gosto da tradução "representar", mas, para mim, é um pouco mais que isso. Seria uma "re-representação", ou seja, o ato representar pela segunda vez, já que ela já está representada. E ela, no caso, seria a famosa physis, que, para os gregos tinha uma tradução simples: natureza. Não a natureza de plantas, verde, cachoeira, essas coisas hippies, mas tudo o que há no mundo, tudo é parte da natureza, inclusive o concreto, o lixo, o Demóstenes Torres, o que há de melhor e pior. [Já ouvi que Spinoza dizia que esse conceito de physis era um sinônimo para o que ele considerava Deus, o que eu, seguindo uma tradição do Upanishad, o texto filosófico dos Vedas, por sua vez o conjunto de textos sagrados dos hindus, concordo.]

Ou seja, voltando à questão principal, ao re-representar a natureza, o homem estaria produzindo arte - era fácil identificar. Eu também acho que esse conceito, de certa forma, ainda se aplica, mas, adaptado aos nossos tempos - considerando que re-representar não é, necessariamente, copiar exatamente o que se vê, mas o artista misturar sua particularidade -"subjetividade"- com a natureza e reproduzir isso no seu formato preferido. Mas esse conceito é amplo demais, e não dá para saber o que é arte ou não a partir disso.

Além disso, com o advento da fotografia, o conceito de cópia da natureza caiu, porque a fotografia era mais precisa que qualquer outro meio não mecânico. Não é coincidência que se começou a experimentar formas de pintar que deram no abstracionismo, nas vanguardas e em tudo o que vivemos hoje - em que, ao andar num museu de arte contemporânea, é complicado saber o que se propôs ser arte e o que simplesmente é o entulho do cara que está pintando um espaço do museu.

Pobre arte povera...  Acima: "Venere degli stracci", de Michelangelo Pistoletto.
Antes de continuar, quero dizer que, hoje em dia, valorizamos demais os artistas, em vez da arte, em si - sinal dos tempos. Como se eles fossem super-homens, os únicos capazes de criar algo além-do-normal, aqueles tocados por uma força superior, que conseguem produzir esses objetos que, na falta de outra palavra, chamamos de arte. Além disso, deveríamos pensar que, mesmo que eles podem produzir essa coisa chamada "arte", essa arte pode ser ruim. Arte não é -ou não deveria ser- sinônimo de excelência.

Na verdade, essa característica -ou qualidade- de produzir arte está em todo mundo, alguns de maneira mais latente, outros, mais explícitas. Li um artigo ontem que dizia algo interessante: o fato de se apreciar um arte e conseguir extrair algum significado -mesmo que apenas estético, em que não se traduz em palavras- também é um ato de criação. Concordo. Acho que a arte não é nada, não quer dizer nada sem o espectador. Diferentemente de outro texto que eu li, acredito que uma obra de um nome famoso guardado num quarto escuro, sem ninguém ver, não é -ainda, ao menos- arte.

E, enfim, chegamos aos dias de hoje, e a minha opinião: só é arte o que o espectador achar que é arte. Um terceiro fulano que eu li fala algo parecido: que é arte aquilo que um grupo de especialistas achar que é arte. O grupo de especialistas seria formado por curadores, os próprios artistas, críticos, estudiosos, frequentadores amadores de galerias, e quem mais se autodenominar especialista. Eu concordo, em parte. Primeiro porque eu acho que não precisa de um grupo, basta uma pessoa achar que é arte para tal objeto o ser -pelo menos para ela, o que é suficiente-; e, segundo, porque nem acho que alguém precisa se autodenominar especialista, pode ser alguém que está tendo contato pela primeira vez com o objeto em questão.

Benjamin, indeciso sobre ser comunista
ou cabalista - ambas crenças difíceis
 de se seguir [Fonte:Wikimedia]
Eu gosto de uma definição do Benjamin -que todo mundo costuma ler apenas o "Obra de arte na era da reprodutibilidade técnica", em seu momento mais comunista-materialista e menos judeu-cabalista [sim, ele balançou entre esses dois extremos]- de que a obra de arte é o objeto alegórico que pode ser reinterpretado infinitas vezes. [Não estou certo se ele falou exatamente isso, ou se eu, depois de alguns anos, estou reinterpretando a frase dele para o meu prazer - no fim, estou usando o conceito "contra" ele.]

Objeto alegórico seria aquele que não é metafórico. Metáfora, por sua vez, e na minha interpretação do que Benjamin falou, é a substituição de um símbolo por outro; já alegoria é a criação de um novo símbolo para se representar o símbolo previamente dado. Alegoria, portanto, cria significados, metáforas apenas trocam significados, repetem o sistema já usado.

E, no caso de "reinterpretado infinitas vezes", eu vejo assim: a fonte de interpretações da obra de arte não seca jamais. Um livro, um quadro, uma música, uma peça, uma dança podem ser sempre entendidos de outro ângulo nunca antes visto. Esse caráter infinito seria único da obra de arte -os outros objetos teriam faces finitas.

Por fim, acho que, além de valorizar demais o artista, também temos uma vontade incrível de encontrar o que é "arte", para separar dos objetos dito comuns -cabalistica e paulo-coelhamente, poderia acrescentar que não há objetos comuns. Como se quiséssemos tascar um rótulo em determinados objetos para nos sentirmos mais tranquilos, para, como já disseram, denominar e, assim, dominar. A minha proposta é que, em vez de tentar procurar desesperadamente a "arte", busquemos os objetos -criados pelo homem ou já inseridos na natureza- que sejam capazes de produzir o que se convencionou chamar "experiências estéticas". Talvez seja para isso que o mundo exista.

quarta-feira, 14 de março de 2012

A metáfora da fila

Essa metáfora nasceu no último domingo. Estávamos assistindo aos shows do Bunka-sai - algo estilo apresentação de escola de fim de ano, como, pelo que eu percebi, é a proposta original do evento, no Japão - quando a apresentadora [japonesa], que dá aula sobre cultura do Japão na Inglaterra, tentou incentivar os ingleses a contribuírem com a campanha que arrecadava dinheiro para os órfãos do terremoto-tsunami-desastre-nuclear falou que achava japoneses e ingleses muito parecidos. Primeiro exemplo dado por ela: ambos gostam de filas.

Fiquei pensando sobre isso, principalmente porque, 1/ os ingleses tem um verbo para isso [to queue], que raramente vi americanos usarem e, 2/ dias antes, na saída do show da Florence, nós -sem querer- furamos uma fila imensa [depois, até saímos da fila] e ninguém reclamou. Os ingleses, raramente, reclamam de alguém que não respeita as regras de convivência social - o que também acontece raramente. Ontem, por exemplo, no quiet carriage do trem -sim, eles existem-, onde, como você pode imaginar, se pede para não fazer barulho, um grupo de meninas falava de um lado para outro das filas de poltronas. Ninguém reclamou de nada. Imagino que eles aguentam esses comportamentos pensando que é apenas um desviante, que logo vai se tocar de que está errado e fará a coisa certa a seguir. É o símbolo do que é ser gentleman respeitar o outro, mesmo que o outro esteja cometendo o maior dos erros. [Penso também na tradição do "after you", na hora de embarcar em um transporte. Às vezes vira comédia pastelão...]

No Brasil, esse mesmo personagem certamente tomaria o que uns amigos meus chamam de "ou-ou-ou-ou" - alguém assumiria o papel do juiz, do superior, e logo chamaria a atenção do infrator. Tente fular a fila de um evento público, tipo show, para saber como é a experiência.

Já na Índia, por outro lado, furar fila é algo corriqueiro e ninguém também reclama. Seria efeito da colonização britânica? Duvido. Acho que tem a ver com a religião, que prega a não-violência e o respeito às castas. O cara fula a fila e acha que está certo. O sujeito que está na fila vê o outro furando também acha que o outro está certo. Como se pensasse: ele deve poder. Claro que reclamamos disso várias vezes e o sujeito, pego no flagra, que ele nem imaginava que era um flagra, se sentia injustiçado, mas ia, a contragosto, para o começo da fila.

Na Bélgica - na francófila Bruxelas, que é muito diferente da flamenga Antuérpia - vimos um cara furar uma fila, mal organizada, dentro da estação de trem. Tentei "avisar" a ele que o fim era lá atrás e o cara fingiu não me entender e continuou onde estava, falando com as pessoas que estavam ao seu redor e dando de ombros. Tão revoltado eu fiquei que fui eu a sair da fila, para não acompanhar aquele descaramento. Latinos...

Imaginei essa mesma situação em outros países, como em um jogo, seguindo os clichês que são inculcados em nossas cabeças, sobre identidades nacionais. Por exemplo, na França. O sujeito furaria a fila e diria para se justificar, quando reclamassem com ele, que está praticando um ato revolucionário, que a fila é um exemplo da meritocracia, que é um critério falido, que os valores utilizados [ter chegado antes] não se aplicam porque nem todos tiveram as mesmas chances de chegar antes, e mesmo se chegassem, o fato de alguém ser mais rápido e ter chegado antes não deveria garantir um privilégio, porque todos são iguais e blablablá. Nos EUA, haveria a fila VIP [ideia que seria logo exportada para o Brasil], onde quem paga tem mais privilégios, e o sistema de cotas, para que cada integrante da sociedade fosse representado. Na Alemanha não há filas, tudo é organizado a ponto de ninguém precisar esperar. Na Itália também não há fila, mas por outro motivo: todo mundo fura a fila e corre para embarcar ao mesmo tempo.

A fila - ou como você se comporta nela -, como se vê, define o seu lugar no mundo.

segunda-feira, 12 de março de 2012

O amor 'secreto' de Picasso

Assim como outros artistas contemporâneos, congelar a arte de Picasso em uma determinada fase é, no mínimo, complicado. Complicado mais no sentido de ser quase impossível obrar isso - tantas e tão variadas são suas produções -, que no sentido de ser um desperdício - o que, convenhamos, também o é.

"Nu au Plateau de Sculpteur", da fase mais
erótica de Picasso 
O comum é vê-lo sempre associado ao cubismo, mas isso é pouco. Que fase do cubismo? Que fase, sua, dentro, do que ficou convencionado chamar cubismo - e que ele, com Braque, foram os grandes motivadores? A primeira, quando ele usa uma palheta de cores ocre, com exagero na transformação das figuras, beirando a abstração? Uma outra - não sei em que posição fica - em que ele arredonda as figuras - geralmente femininas - para demonstrar uma sensualidade impraticável com as técnicas tradicionais de representação - desconstrói o ponto-fixo do olhar, e cria uma ilusão [e o que é a arte, senão ilusão?] de uma multidimensionalidade no mesmo plano? Ou, ainda, no pré-segunda guerra, quando sua Espanha natal vira o palco de uma guerra civil, e ele usa essa fragmentação para expressar a dor de um povo, que foi massacrado por um ditador, e que culmina na, provavelmente, sua obra-prima, "Guernica"? Isso, para ficar só nas fases cubistas mais conhecidas. Fora o período que ele flerta com um classicismo quase grego, ou suas incursões originais, as famosas fases rosa e azul, ou ainda quando ele faz colagens, esculturas, etc..

Admito que gosto mais do período em que Picasso usa o que se convencionou chamar cubismo para retratar a sensualidade e o erotismo das mulheres. Ele aproveita a sua auto-imposta liberdade figurativa para fazer contornos impossíveis, traçar linhas curvas insinuantes e fazer um jogo de esconde-esconde que excita qualquer apreciador de mistérios. Esse último aspecto acontece mais com os retratos que ele fez de sua quase eterna amante Marie-Thérèse Walter.

Os dois se encontraram quando Picasso já era um quarentão e Marie-Thérèse nem tinha completado a maioridade. Picasso era então casado com a dançarina russa Olga Khokhlova, de quem jamais se separou, mesmo quando Olga, oito anos depois do início da relação Picasso e Marie-Thérèse, descobriu tudo e saiu de casa. Picasso só se desinteressou de Marie-Thérèse quando conheceu Dora Maar - e houve a famosa briga entre as duas. Mas essa é outra história.

Durante esses oito anos que Picasso tinha Marie-Thérèse como amante e modelo, ele sempre arranjava uma maneira de, utilizando a sua técnica como desculpa, se colocar no quadro, mesmo que, para alguém menos atencioso, possa ser apenas um segundo ponto-de-vista do rosto da modelo. Reparem nesse quadro "Femme nue dans un fauteuil rouge".


Ele claramente coloca um segundo rosto, de cabeleira verde, sobre o rosto da loura Marie-Thérèse, que  a beija na boca. Há um segundo personagem sobre-posto, que abraça a modelo, mas que também é o corpo dela. Como se os corpos se misturassem, como se Picasso tivesse se pintado como uma sombra, um fantasma que poderia, sem se materializar, penetrar no corpo de quem ele quisesse. Um sonho, como se sabe, que ele acalentou durante muitos anos.

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Com o cubismo, e essa quebra da linearidade na narrativa dos quadros, Picasso consegue, mesmo que poeticamente - talvez a única maneira possível -, dar conta de um dos aspectos do absoluto. Ele conseguia mostrar várias faces de um objeto/modelo ao mesmo tempo, destruindo aquela máxima que, se eu não me engano, foi imortalizada pelos relativistas, os físicos, de que quando se olha o ponto, se perde a linha, e vice-versa. Com Picasso, ambos podem coexistir, simultaneamente. Na arte, o que parece impossível pode ser realizado, se você tem coragem - e isso, ele teve.

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Essa transformação, essa mutação na obra de Picasso, é uma das grandes inspirações para David Hockney, o último artista a aparecer na exposição do Tate Britain sobre a relação de Picasso com a Inglaterra:  as oportunidades em que passou aqui, os projetos em que trabalhou, as obras que sempre estiveram no país [talvez o ponto baixo de toda a exposição, pelo processo quase dicionárico de listar o caminho das obras, o que não importa em nada no momento de sua apreciação], as influências em outros artistas ingleses etc.. As obras de Hockney mostram essa preocupação de nunca se acomodar num formato, passando de desenhos simples - jamais simplórios - até uma pintura cubista feita com fotos polaroides. São incríveis.