sábado, 9 de dezembro de 2017

O show e o show do Baiana System no Circo Voador

O show do Arcade Fire foi o terceiro a que eu fui - e provavelmente o mais perfeito. Nada fora do lugar. Espaço ideal para o tamanho da banda no Brasil (o fantasma do péssimo som da Fundição não apareceu), banda madura, talvez uma das maiores do mundo na atualidade, músicas - todas - incrivelmente cantadas pelas pessoas presentes. Ao sair, pensei: será difícil o Baiana System superar. Mal sabia eu que do outro lado da rua, no Circo Voador, iria presenciar uma experiência não musical - ou não musical apenas - mas de outra natureza. É uma instalação artística, uma performance coletiva, quase religiosa. Certamente: histórica.

A começar: o que Russo Passapusso e companhia fazem é extrair o sumo do que é mais potente da música já produzida no país e no mundo. Uma nova geração da nossa antropofagia, sim, que já passou pelo tropicalismo, pelo BRock e por gente tipo Chico Science. Ou seja, é dos produtos artísticos mais potentes que se pode ter. Vai do heavy metal ao pagodinho. Do carnaval ao baile funk, passando pelo dub, pelo reggae, pelo hip hop. Um grande liquidificador que nos impede de rotulá-lo com facilidade.

Há também toda uma preocupação estética com projeções e interações que me lembrou aquela reclamação do Caetano no VMA: é de um cuidado "profissional" que não deixa a desejar a nada ao seu vizinho de noite do outro lado da rua. O grafismo do Baiana faz referência ao funk, ao passinho, ao desenho animado, ao design, tudo, junto.

Mas o grande ponto do Baiana não é a sua parte "exterior". Isso é ainda muito Ocidental, muito moderno. Em uma palavra apenas: branco. No show do Baiana, quem manda é o público - em grande parte negra.

Assim como estamos vendo acontecer em outras produções artísticas, a arte não termina no filme, no livro, na música - o público pode retrabalhar, remixar, remexer, reabrir a obra e a refazer completamente. E a plateia do Baiana sabe que é ela o centro da questão. É uma experiência de corpo político - a mais forte que presenciei desde junho de 2013.

A música existe para alimentar essa plateia, para dialogar, para ser a causa. Não haveria plateia sem música. A música não é pano de fundo, entretanto, está no meio, entre, ocupando todos os poucos espaços vazios. A plateia já criou códigos, formatos de dança, maneiras de se movimentar que correspondem ao chamado do Passapusso. O que é o "furacão", por exemplo?

Até aí, porém, qualquer show de axé chega. O diferencial do Baiana está em dois aspectos entrelaçados: o contato físico e o perigo constante. Foi como se eles conseguissem transferir o ambiente da pipoca do carnaval baiano para dentro de todos os seus shows. Na frente do palco, uma pequena multidão se espreme, se empurra, dança, se sarra, se beija, se esfrega, pula, soca, sua, treme, se afasta, se organiza, se movimenta, tudo isso seguindo a música. É uma roda típica de shows de punk ou metal, acrescida de ginga, de sacanagem, de balanço, de suingue. É um bonde de baile funk, com muitas variações de encaixe e desencaixe.

As únicas constantes: o contato, e, consequentemente, o perigo iminente. Parece que a cada música você vai tomar uma cotovelada esquecida no supercílio, perder o óculos escorregando no suor, desfalecer de calor, ser jogado no chão ou arremessado contra um punho desprotegido, ser carcado por alguém mais afoito ou receber uma rebolada no seu colo sem você pedir. O seu corpo, ali, não te pertence. Há uma perda de individualidade fortíssima. Uma grande suruba com roupa.

Nesse terceiro show do Arcade Fire, era possível entender os paradigmas da sociedade ocidental moderna, que nos empurraram goela abaixo. O seu espaço é a sua propriedade privada: é sagrado. Você chegou antes, a pessoa não pode entrar à sua frente, sem apresentar uma série de justificativas. Existe a posse. Sabemos o nosso lugar e ele deve ser respeitado.

No show do Baiana, a plateia mostra que não há um espaço fixo. Você está em constante desequilíbrio, se apoiando nas cinco pessoas, no mínimo, em quem está encostando ao mesmo tempo. Você está razoavelmente parado, conseguiu uma estabilidade até que a música volta e a próxima roda se abre e as pessoas começam a pular e a se empurrar e a dançar da maneira como conseguem. Você não sabe onde o seu corpo começa, onde ele termina. É violento, é perigoso. Mas é claro que é um perigo em doses muito baixas (vi apenas uma menina sendo levada para fora, porque havia desmaiado de pressão baixa).

E é claro que é nesse perigo, nessa possibilidade de algo dar errado, nesse estar próximo do abismo, a ponto de poder olhá-lo de frente, que reside a potência desse encontro. Não é coincidência que o tio Aristóteles, na sua Poética, falava da necessidade das tragédias gregas antigas em ter um momento de catarse, de expurgação, de eliminação pelo suor, pelo choro, pelo sangue, pelos fluidos. Nem só de Apolo deve viver a nossa veia artística. Tem que ter também, e muito, Dionísio - ou para fazer um paralelo mais a nosso gosto, Exu.

ps. Curiosamente, foi um pouco essa sensação que eu tive em 2005, quando vi um bando de garotos e garotas pularem do palco na plateia, tocando diversos instrumentos, se divertindo, dançando, alegres. Os então jovens músicos do Arcade Fire pareciam que não estavam preocupados com nada além de serem felizes. Se ontem, mais de uma década de experiência depois, eles pareciam já quase representar perfeitamente os papéis que o tempo lhes reservou, lá no nosso primeiro encontro, eles pareciam saber que a arte tem que ter uma dose elevada de perdição. Parecem ter perdido, um pouco, isso.

quinta-feira, 7 de dezembro de 2017

DIVISAS, por Humberto Ádvena

Posso escrever? Eu, do alto da minha torre sem marfim, construída silenciosamente com os meus privilégios sempiternos, desde a tenra idade? Se me for dada essa liberdade (ou seria esse fardo?) sobre o que eu poderia, ou melhor, sobre o que estaria eu apto a escrever? Se não, se eu não me sentisse capaz de tão desconcertante façanha – de enfrentar a história que construiu a mim e à minha volta essa posição de destaque –, o que eu deveria fazer? Qual seria, então, uma atividade justa neste momento de grandes e necessários enfrentamentos?

Se eu escrever, se eu tiver essa coragem, o que eu devo fazer após o ponto final? Publico? Publico bem publicamente? Alardeio aos infinitos ventos sem nomes? Ou queimo antes mesmo de ler? Destruo qualquer prova de que um dia algo como um texto possa ter existido? Afinal, para que publicar hoje em dia? Quem lê tanta letra? Não seria apenas uma vaidade das mais infantis? Queimar, mas queimar também: para quê? Para citar tantos outros escritores inéditos? Queimar para não enfrentar a realidade? Queimar por ideal, por não ser perfeito? Esse também não é um dos formatos da vaidade?

Escrever? E escrever sobre o quê? O que me é permitido escrever? Qualquer assunto não é, necessariamente, um roubo? Não estaria eu usurpando a vida de outras pessoas como um sanguessuga para tão somente o meu prazer, a minha exibição, de peito inflado de ar vazio? Aliás, eu tenho autoridade de falar sobre quais assuntos, em especial? Pois é: do que eu sei verdadeiramente falar?

E por que há tanta necessidade de falar, de aparecer, de se mostrar? Só existe aqui, neste tempo e neste espaço, o que é visto – curtido, compartilhado, comentado? Não deveria ser o oposto: num mundo em que todas as pessoas lutam para sobressair, para levantar a cabeça da lama grudenta, ficar no lugar não deveria ser uma das formas mais inusitadas – portanto, valorizadas – de se destacar? Não deveria haver – não deveria sobrar um leitor, ao menos, para justificar tantas palavras jogadas nesses papéis em branco virtuais? Ou vamos ficar nesse jogo de compadres, em que um lê o outro, como dois cachorros se cheirando, e, automaticamente, se autocongratulando, um ao outro, pelo espelho?

É possível, porém, não escrever? É possível, alguém sabe? Silenciar, pacientar, se acalmar? Por que não apenas escutar – ouvir os outros, abertamente? Ou escrever é uma necessidade – uma forma de sobreviver, um formato para sobreviver? Escrever seria, então, apenas e somente uma forma pernóstica de terapia ocupacional? Uma maneira cabotina de colocar em prática uma psicologia de botequim das mais infames e prepotentes, de tomar uma dose da mais vergonhosa psicanálise barata? É a cura pela escrita, agora? Quem vai, volto a perguntar, porque é necessário, quem vai doar os próprios olhos para a literatura? Ou será só olvido, um longo, escuro, e silencioso olvido?

Para começar: existe arte só com o artista, sem espectador? Para terminar: escrever é arte? Como intermezzo fora de lugar: Será que vamos um dia trafegar fora do âmbito do mais puro egoísmo?

Ou ainda: seria escrever uma maneira de dialogar consigo mesmo? Uma ponte entre nossos dois ou multi-lados? Um modo de encontrar equilíbrio – um equilíbrio tenso, que nunca se resolve, dentro de uma personalidade dupla neurótica, ou pulverizada esquizofrênica, certa e infalivelmente obsessiva-compulsiva, como a de todos nós? É uma tentativa, um trabalhoso esforço para mudar o paradigma do ser ou não ser – transformando-o em ser e não ser? Em vez de negar, somar? Em vez de excluir, abrir sendas, criar pontes, trabalhar para a comunhão, enxergar a interseção?

Não sabemos, sabemos, não.

terça-feira, 28 de novembro de 2017

Pastorzinho ora prefeitinho

 Vocês não têm a impressão que o Crivella fala no diminutivo com as pessoas ao seu redor? Essa história de “cuidar das pessoas”, sei não... ele deve se achar mesmo um descendente diretos dos patriarcas da Bíblia. Tão superior ao populacho. Tão nobre, tão líder, tão... pastorzinho. 

Ao menos, concordemos todos, da Igreja Universal ele é herdeiro. E agora que o tio deixou crescer aquela barba profética e se aproximou de um discurso mais ligado ao judaísmo - como se isso desse um verniz de “originalidade” - faz sentido, vai. 

O pastorizinho ora prefeitinho deve se achar o máximo, com razão. Por isso trata todo mundo como garotinho.

Também, pudera: entregamos a chave da segunda cidade do país para ele. A cidade que no imaginário do mundo é o resumo do restante da nação. E cujos códigos simbólicos são necessariamente antagônicos aos dele. Carnaval? Samba? Ele deve adorar um retirozinho. Ou você consegue imaginar o pastorzinho de sunguinha na praia? (Não, melhor não imaginar.)

Eu vou além. Um pouquinho além. Acho que o ora prefeitinho está azeitadinho no cargo. Tudo faz sentido para ele. Parece um bonequinho.

Espero apenas o dia em que, por uma falha da manutenção, o rosto dele, aquele rosto de velhinho simpático, que leva os netinhos para a pracinha, aquele rosto branquinho como algodão, como cera in natura, aquele rosto plastificado começar a se desprender do restante da cabeça e cair no chão, tipo uma lata-velha se desfazendo em pedaços pelas ruas, antes do conserto de apresentadores de televisão.

Imagino que ele vai estar, nesse momento, pronunciando seus discursos diminutivos sobre qualquer assunto relevante, “cuidando” das nossas preocupações, como um bondoso pastorzinho. Neste momento, neste momentinho, o maxilar vai despencar. Plaft. As pessoas constrangidas, sem conseguir dizer nada, tentando apontar: pastorzinho, pastorzinho, o seu, o seu queixo, ele...

O pastorzinho, suspeito, sempre suspeito, nem vai perceber e vai continuar falando pequenininho, bonitinho, calminho. Seguro de si, cuidando das pessoas. Como sempre. Do lado de dentro, vamos poder ver expostos como entranhas os mecanismos do ventríloquo. E, suspeito, a mãozinha do seu tiozinho.

Ora, prefeitinho, ora que piora.

quinta-feira, 23 de novembro de 2017

O que você levaria consigo em caso de incêndio?

Essa é daquelas perguntas cuja resposta mostra a ~~envergadura de um caráter~~. Como eu acabei de passar pela segunda experiência de fogo no meu prédio em menos de quatro anos, já dá para dizer: certamente meu computador.

(Isso deve explicar, inclusive, esse texto de desabafo - embora escrito no celular.)

Dessa segunda vez, ainda peguei o e-reader, lembrei das chaves de casa e malandramente catei um guarda-chuva - vai que o aguaceiro aperta, cheguei a pensar.

Tinha ficado até orgulhoso de mim, da minha organização, considerando que o fogo desta vez foi bem mais perto (no 203 e eu moro no 301, o que faz com que a casa esteja mais enfumaçada que filme do Cheech & Chong, sem qualquer vantagem por isso), de madrugada, e eu tinha tomado uns vinhos para dormir. Aí, já de volta à casa, percebi que tinha me esquecido da carteira. Para que levá-la, né?, me perguntei. Só vive vazia.

Enquanto estava lá embaixo, foi bom ver quem são os meus vizinhos (nesse mundo cada vez menos comunitário) e conferir o que eles levavam: animais de estimação, garrafas d’água, telefones celulares... o de sempre. Ou quase.

Sempre me lembro do primeiro incêndio, lá no 502, no meio da copa de 2014, num dia após um jogo do Brasil e de uma festa bem animada que eu tinha participado. Aquilo sim foi incêndio de verdade. Incêndio moleque. Incêndio de várzea.

Era, pelo menos, de manhã cedo e pude ver o pessoal com mais cuidado - hoje não deu para ver direito os pijamas da coleção 2017 - e o que eles carregavam. Havia documentos, mais gente carregando computadores, animais de estimação, celulares... e uma senhora que sempre me encafifou: ela levava uma pipoqueira.

Pois é.

Não me perguntem se estava cheia ou vazia. Se ela foi pega no meio do processo de fazer pipoca. Se ela é da umbanda. Ou se ela se empolgou com o fogo e resolveu... não, não, isso não.

Fiquei tão chocado que não consegui qualquer aproximação (mentira: até parece que, introvertido como eu sou, eu teria falado algo com ela em qualquer oportunidade).

Dessa vez, infelizmente, não houve nenhum folclore. Melancólicos os nossos tempos. Ou, como disse lá o barbudo, e eu dou fé: a história se repete como farsa.

quarta-feira, 22 de novembro de 2017

As dobras do tempo 'No instante agora'

Talvez a cena mais didática de “No instante agora” (finalmente vi!) para nós, órfãos de esquerda, seja a da grande manifestação pró-De Gaulle, logo em junho (acho que foi logo em junho).

O velho general tinha se manifestado durante o maio, pela televisão, e tinha sido engolido pela força dos acontecimentos do momento. Em junho (?), quando as ruas tinham se acalmado um pouco, ele decidiu falar apenas pelo rádio, veículo que ele conhecia muito bem, desde os seus discursos (desde Londres) na segunda guerra, que ajudaram a manter o moral dos franceses invadidos pelos nazistas. Ele exige a volta da ordem no país. Ameaça usar (ainda mais) da violência contra o caos, para manter o país unido, para seguir a constituição, para fazer da França a França, novamente.

No dia seguinte, uma multidão - maior em número que os próprios protestos dos eventos de maio - vestindo roupas nitidamente mais caras, enrolados em bandeiras tricolores, invade as mais famosas ruas da capital francesa para apoiar o discurso do presidente, e não recebe qualquer impedimento das forças de segurança - mesmo atrapalhando o trânsito, entrando em monumentos públicos.

O paralelo é óbvio demais para nós para não me abalar. Sempre ouvimos que a direita ganha as eleições depois de 1968, mas ver as imagens tão nítidas de um movimento conservador em marcha, após tamanha explosão de possibilidades potentes, é bastante pedagógico. Ainda mais para nós, que parecemos em geral perdidos dentro de um ethos melancólico. É confortante encontrar companhia histórica (de vez em quando).

Após o filme, fica a pergunta óbvia: a “direita” então venceu a disputa de maio de 1968? Se pensarmos no curto prazo, certamente. Eles eram maioria, ganharam as eleições, apoiaram a reação. Se pensarmos pelo viés dos próprios soixante-huitards na época, também: eles queriam uma revolução, uma mudança completa da forma de vida, manter o ritmo de transformações para sempre, numa agenda de desejos polifônicos sem mira certeira. Não era possível acertar em tudo, por supuesto. A derrota é, portanto, pelo tamanho da expectativa. Mas alguma coisa ali, sem sombra de dúvida, havia mudado profundamente. Se transformado tanto e de tal modo que não tinha como nem De Gaulle nem manifestações patrióticas segurarem sua força. O tempo já era outro, para todos.

Ps. Isso não quer dizer que devemos deitar em berço esplêndido - ao contrário. Temos que pensar que a luta é constante e sem interrupção. Temos que diversificar nossas estratégias. Como? Não tenho a mais ligeira ideia. Temos que também nos tranquilizar com os momentos de potência, para depois colocar em ação.
Ps2. Curiosamente, dois dos marcos mais famosos da esquerda no século XX distam cerca de 50 anos um do outro: 1917, 1968. Curiosamente, 2, estamos completando 50 anos do último.
Ps3. Talvez 2013 tenha sido a nossa dobra na História. Certo é que já mudamos de percepções. É o momento de nos adaptar aos novos tempos.
Outro detalhe curioso: João Moreira Salles, diretor, roteirista e narrador do filme, lembra que a cena da manifestação da direita quase não aparece nos filmes sobre o período. Nós escolhemos o que vamos contar do nosso passado.
Ainda: Sobre melancolia e esquerda: http://criseecritica.org/.../11/Uma-ou-duas-melancolias.pdf