sábado, 17 de setembro de 2016

Chinanews: precisamos falar sobre o WeChat

Um americano de cerca de 50 anos, casado com uma chinesa de uns 30, 35, contava à mesa de jantar após algumas garrafas de vinho como ele era um sujeito esquecido. Um dia desses, exemplificou, ele saiu de casa sem um centavo e só foi se dar conta disso quando estava dentro de um táxi voltando para casa. Como pagar o motorista?, se perguntou. Como, ao menos, avisar o motorista que ele não tinha qualquer dinheiro, já que o mandarim dele é ainda bem precário? Não pestanejou: sacou o celular e ligou para a esposa. Ela, claro, resolveu tudo: transferiu a grana para o celular dele, e ele pagou o motorista com o próprio telefone. Ou melhor, não exatamente com o celular, mas com o WeChat, o aplicativo de comunicação instantânea mais popular pelos lados de cá.

Um dos stickers do WeChat


O simples fato dessa plataforma ser a principal rede social da China já chama muita atenção: todo mundo, assim que ganha alguma intimidade, pede para escanear o QR do seu WeChat, como antigamente se pedia o número de seu telefone. São mais 800 milhões de usuários, sendo 90% na China. Para ter uma ideia, o Facebook no mundo inteiro tem só o dobro disso [ok, não é "só", mas vocês entenderam]. Whatsapp, um bilhão. Mas o WeChat vai além de uma rede social como esses concorrentes. O Weibo, por exemplo, também é grande, e também é basicamente chinês, mas é mais parecido com os sites ocidentais, tipo Twitter.

Já o WeChat tem comunicação instantânea, linhas do tempo, jogos, e todas as features que nós conhecemos MAIS uma que não é tão comum do lado daí do globo: funciona como uma espécie de cartão de banco - dá para fazer pagamentos, tem ligação direta com a sua conta corrente e até é possível transferência de um celular para outro. Exatamente como o sujeito ali em cima fez.

Dias desse, eu vi uma barraquinha que vende uns sanduíches de café-da-manhã, muito provavelmente informal, que aceitava pagamento no WeChat [não consegui conversar com o dono do estabelecimento, infelizmente]. Esse é o nível de penetração da ferramenta.

O WeChat é onipresente. Toda a vida social chinesa passa por conversas dentro do aplicativo, trocas de stickers e gifs animados, com piadas internas e fofuras diversas. Há todo um mundo a se explorar lá dentro - coisa que ainda não consegui chegar ao fim. É, sei lá, tipo esses jogos que vão se desenvolvendo a cada fase que passamos. Blogs, mini-sites, área de fotos, linhas do tempo, pode marcar os amigos em postagens, enfim. Tem mais um pouco que tudo. O frenesi do Twitter, mais o vício do Facebook, mais a instantaneidade do Whatsapp, mais o seu cartão de banco. E alguma outra coisa que eu ainda não descobri, certamente.

[No Brasil, uma curiosidade, o aplicativo serve quase como uma versão diferente dos apps de encontros, tipo Tinder ou Badoo [outra curiosidade: como o Google é proibido aqui, o site de busca mais usado é um quase homônimo, o Baidu - que se expandiu e tem outras características, como ser loja virtual], porque tem um recurso de encontrar quem está perto de você. Os moços, então, colocam fotos que mostram seus, digamos, dotes para jogo, com detalhes de centimetragens e, hum, amperagens.]

Voltando. Uma coisa é certa: a websfera chinesa é extremamente diferente da ocidental - e aí, sim, podemos dizer sem muito medo de errar muito, que há bastante em comum nesse lado do mundo em que estamos cada vez mais dominados pelo inglês como língua única e recorrendo aos mesmos sites de busca, de interação, assistimos aos mesmos vídeos, e brincamos nos mesmos aplicativos de caça a animais imaginários. Como ouvi certa vez de uma francesa filha de italianos que morava nos EUA: hoje em dia, vivemos todos na mesma internet.

Essa diferença entre China e resto do mundo acontece por alguns motivos, suspeito. Primeiro porque o pessoal do Vale do Silício - povo extremamente endeusado aqui, me pareceu - não conseguiu jogar o jogo com as regras chinesas. Como assim o Google não tem restrições? Como assim o Facebook deixa que todas as informações de outros lugares abertas para todo mundo? Não adiantou prometerem fazer acertos: a China percebeu que era também bastante interessante barrar as invasões bárbaras e criar aplicativos parecidos, que se desenvolveram seguindo as necessidades locais.

A Tencent, a dona do WeChat, é a terceira maior empresa de internet do mundo. A Alibaba, a Amazon deles, só que vendendo qualquer coisa que você imaginar - qualquer coisa MESMO -, é a quarta. O tal Baidu é o quinto [Amazon, Facebook e Google são, por enquanto, as líderes do ranking]. A receita bruta da Tencent foi 15 bilhões de dólares em 2015, a do Facebook, 17 bi.

A China tem o Great firewall, que impede de acessarmos abertamente determinados sites. Porém não é só isso que impede a livre circulação de ideias - propaganda de VPN é o que eu mais encontro aqui. Há, claro, além disso, a dificuldade com a língua. Quase ninguém fala inglês. Mas acho que a grande sacada foi: em vez de "só" censurar alguns conteúdos, meio no esquema "1984", o governo chinês percebeu que era mais eficaz sobrecarregar de conteúdo diverso e parecido a websfera, sempre numa versão branda e bom astral, meio no esquema "Admirável mundo novo". Seguir a Xinhua, a agência estatal de notícias deles no Twitter, é divertido. Aconselho a todos para se preparar para a futura EBC. Em suma, em vez de escassez, exagero.

Chinanews: precisamos falar sobre o WeChat

Um americano de cerca de 50 anos, casado com uma chinesa de uns 30, 35, contava à mesa de jantar após algumas garrafas de vinho como ele era um sujeito esquecido. Um dia desses, exemplificou, ele saiu de casa sem um centavo e só foi se dar conta disso quando estava dentro de um táxi voltando para casa. Como pagar o motorista?, se perguntou. Como, ao menos, avisar o motorista que ele não tinha qualquer dinheiro, já que o mandarim dele é ainda bem precário? Não pestanejou: sacou o celular e ligou para a esposa. Ela, claro, resolveu tudo: transferiu a grana para o celular dele, e ele pagou o motorista com o próprio telefone. Ou melhor, não exatamente com o celular, mas com o WeChat, o aplicativo de comunicação instantânea mais popular pelos lados de cá.

Um dos stickers do WeChat


O simples fato dessa plataforma ser a principal rede social da China já chama muita atenção: todo mundo, assim que ganha alguma intimidade, pede para escanear o QR do seu WeChat, como antigamente se pedia o número de seu telefone. São mais 800 milhões de usuários, sendo 90% na China. Para ter uma ideia, o Facebook no mundo inteiro tem só o dobro disso [ok, não é "só", mas vocês entenderam]. Whatsapp, um milhão. Mas o WeChat vai além de uma rede social como esses concorrentes. O Weibo, por exemplo, também é grande, e também é basicamente chinês, mas é mais parecido com os sites ocidentais, tipo Twitter.

Já o WeChat tem comunicação instantânea, linhas do tempo, jogos, e todas as features que nós conhecemos MAIS uma que não é tão comum do lado daí do globo: funciona como uma espécie de cartão de banco - dá para fazer pagamentos, tem ligação direta com a sua conta corrente e até é possível transferência de um celular para outro. Exatamente como o sujeito ali em cima fez.

Dias desse, eu vi uma barraquinha que vende uns sanduíches de café-da-manhã, muito provavelmente informal, que aceitava pagamento no WeChat [não consegui conversar com o dono do estabelecimento, infelizmente]. Esse é o nível de penetração da ferramenta.

O WeChat é onipresente. Toda a vida social chinesa passa por conversas dentro do aplicativo, trocas de stickers e gifs animados, com piadas internas e fofuras diversas. Há todo um mundo a se explorar lá dentro - coisa que ainda não consegui chegar ao fim. É, sei lá, tipo esses jogos que vão se desenvolvendo a cada fase que passamos. Blogs, mini-sites, área de fotos, linhas do tempo, pode marcar os amigos em postagens, enfim. Tem mais um pouco que tudo. O frenesi do Twitter, mais o vício do Facebook, mais a instantaneidade do Whatsapp, mais o seu cartão de banco. E alguma outra coisa que eu ainda não descobri, certamente.

[No Brasil, uma curiosidade, o aplicativo serve quase como uma versão diferente dos apps de encontros, tipo Tinder ou Badoo [outra curiosidade: como o Google é proibido aqui, o site de busca mais usado é um quase homônimo, o Baidu - que se expandiu e tem outras características, como ser loja virtual], porque tem um recurso de encontrar quem está perto de você. Os moços, então, colocam fotos que mostram seus, digamos, dotes para jogo, com detalhes de centimetragens e, hum, amperagens.]

Voltando. Uma coisa é certa: a websfera chinesa é extremamente diferente da ocidental - e aí, sim, podemos dizer sem muito medo de errar muito, que há bastante em comum nesse lado do mundo em que estamos cada vez mais dominados pelo inglês como língua única e recorrendo aos mesmos sites de busca, de interação, assistimos aos mesmos vídeos, e brincamos nos mesmos aplicativos de caça a animais imaginários. Como ouvi certa vez de uma francesa filha de italianos que morava nos EUA: hoje em dia, vivemos todos na mesma internet.

Essa diferença entre China e resto do mundo acontece por alguns motivos, suspeito. Primeiro porque o pessoal do Vale do Silício - povo extremamente endeusado aqui, me pareceu - não conseguiu jogar o jogo com as regras chinesas. Como assim o Google não tem restrições? Como assim o Facebook deixa que todas as informações de outros lugares abertas para todo mundo? Não adiantou prometerem fazer acertos: a China percebeu que era também bastante interessante barrar as invasões bárbaras e criar aplicativos parecidos, que se desenvolveram seguindo as necessidades locais.

A Tencent, a dona do WeChat, é a terceira maior empresa de internet do mundo. A Alibaba, a Amazon deles, só que vendendo qualquer coisa que você imaginar - qualquer coisa MESMO -, é a quarta. O tal Baidu é o quinto [Amazon, Facebook e Google são, por enquanto, as líderes do ranking]. A receita bruta da Tencent foi 15 bilhões de dólares em 2015, a do Facebook, 17 bi.

A China tem o Great firewall, que impede de acessarmos abertamente determinados sites. Porém não é só isso que impede a livre circulação de ideias - propaganda de VPN é o que eu mais encontro aqui. Há, claro, além disso, a dificuldade com a língua. Quase ninguém fala inglês. Mas acho que a grande sacada foi: em vez de "só" censurar alguns conteúdos, meio no esquema "1984", o governo chinês percebeu que era mais eficaz sobrecarregar de conteúdo diverso e parecido a websfera, sempre numa versão branda e bom astral, meio no esquema "Admirável mundo novo". Seguir a Xinhua, a agência estatal de notícias deles no Twitter, é divertido. Aconselho a todos para se preparar para a futura EBC. Em suma, em vez de escassez, exagero.

segunda-feira, 12 de setembro de 2016

CHINANEWS: Religião ou relações públicas?

O monastério budista Longquan fica longe para dedéu do centro de Beijing – mas ainda pertence à grande metrópole de Beijing. São mais de 50 quilômetros da Praça Tian’anmen – o centro do Reino do Centro –, ou uma hora de carro depois de descer na última estação da linha 4, que, por sua vez, já é quase em Japeri. Fica dentro do parque Fenghuangling (serra da Fênix), em cujas montanhas estão escritos os famosos dizeres com a caligrafia de um mestre da arte de séculos atrás: 德道 – De Dao, caminho da virtude ou caminho virtuoso. Dois dos conceitos centrais do antigo pensamento chinês.

O monastério é impactante
Toda essa lonjura funciona para que os monges e os estudiosos do budismo possam, há mais de mil anos (entre ida e vindas), se isolar da agitação da capital e focar nas leituras e discussões dos textos sagrados. Ou funcionava para isso. Desde 2005, quando o local voltou a se tornar o centro nervoso dos budistas chineses, a nova administração está tentando abrir as portas e se comunicar com o mundo todo.

O capo do lugar, o venerável mestre Xuencheng – visto pelos frequentadores do lugar como a maior autoridade do budismo na e da China – é o "autor" de blogs e microblogs, além de uma penca de livros. O próprio monastério também tem um site próprio em que aborda assuntos tão diversos como terrorismo, a causa animal ou os benefícios de se entoar os cânticos e sutras budistas. Todos traduzidos para diversas línguas, que vão do japonês, tailandês e coreano, até o espanhol, francês e inglês. Agora chegou a vez do português.

Há alguns meses, estudantes chineses da última flor do Lácio se encontram no monastério aos domingos para repetir uma rotina: ler um sutra de manhã na língua de Camões (mesmo que o conhecimento da língua ainda não seja lá essas maravilhas), almoçar no imenso e novíssimo refeitório seguindo as regras locais (não se pode falar, deve-se aprender os gestos cerimoniais, e é de bom tom ajudar na limpeza do lugar), e discutir os caminhos da versão para o português de todo esse material produzido diariamente.

No último domingo, estive lá após encontrar um convite num site tipo a "Time Out" para se ler sutras em português. Eu, que nunca tinha tido contato com qualquer sutra, fiquei com uma curiosidade imensa e dupla. Por que diabos eles estão falando de budismo em português?

Sou um curioso sobre as religiões. Tenho uma dificuldade imensa em entender a crença, a fé, qualquer fé, mas acho um dos sentimentos mais genuínos que existe, quando “autêntico” (se é que há isso). A fé é algo que antecede a razão e dá forças para que muitas pessoas consigam empurrar a pedra morro acima, diariamente, mesmo sabendo que ela vai cair durante o sono.

Muitas vezes, entretanto, a fé, exatamente por trabalhar em outros canais que não o que comum e metafisicamente chamamos razão, é usurpada por sacerdotes aproveitadores. Não precisamos ir à China para ver isso, basta pensar na Igreja Universal e o seu drive-thru do descarrego em São Paulo.

De todas as religiões, as orientais me parecem menos “contaminadas” por aquilo que Heidegger chamou de “técnica”, mas que, numa interpretação mais aberta, poderia ser também a modernidade, o Ocidente, o capitalismo, a, enfim, hegemonia de pensamento. Aquilo que transforma todos os aspectos da vida, do ser, daquilo que há, em apenas uma causa para uma mesma consequência: dar mais lucros. "Lucro", repare você, aqui é usado como uma palavra metafórica, não precisa ser dinheiro exatamente.

Eles insistem que a imagem parece um homem deitado
Essa hegemonia do modo de ser atual criou as bases para que todas as coisas sejam mais eficientes, úteis, práticas – todas, claro, de acordo com apenas um único padrão. O hegemônico.

É um processo que se retroalimenta. Qualquer comportamento que fuja inicialmente desse formato estrutural exigente, como a contemplação, o ócio, a calma, é logo cooptado. O ócio tem que ser criativo, os restaurantes lucram com a slow food e a comfort food, a criação só é valorizada caso tenha likes e compartilhamentos. A hegemonia é compulsória. Não há lado de fora. A utopia é um espaço a se conquistar, novamente e sempre.

O budismo, assim como o hinduísmo, o taoísmo, e até mesmo o confucionismo, propõe caminhos que são anteriores à hegemonia atual. Ou proporiam. Quem viu “Mad men” até o final sabe que há décadas o Ocidente viu no Oriente uma possibilidade de criar uma new age do capitalismo. Mas e aqui na China? Como ficou isso?

Já no primeiro contato com os meninos e meninas do grupo, todos se mostraram empolgados com a presença de um curioso brasileiro. Foram extremamente carinhosos e atenciosos, o tempo todo – mesmo quando tive que tirar o sapato e o meu chulé empesteou a sala. Na minha primeira conversa com André, um dos voluntários, ele me perguntou sobre o meu interesse no budismo e ficou claramente constrangido quando eu disse que eu o imagino como um sistema de pensamento – mais que uma religião – em que as regras não são dadas anteriormente, em que não há uma dicotomia clara entre bem e mal, em que há a necessidade de se encontrar o equilíbrio em todas as ações. Logo entendi por que ele ficou com aquela cara de interrogação.

O último cristão morreu na cruz, disse Nietzsche. Talvez possamos acrescentar que o último budista tenha ascendido aos céus com o Gautama. Li apenas um sutra, e portanto esse meu resumo deve ser encarado com desconfiança, mas na passagem havia claramente um tom maniqueísta e de salvação única e exclusivamente pela fé. Uma passagem cheia de jargão, abusando de uma mitologia do extremo-oriente, com outros deuses e hierarquias entre os seres santos, completamente diferente da história “original”. Como se a passagem de Sidarta Gautama fosse o evangelho e os sutras todo o restante da bíblia.

A entrada para as "capelas" não foi reformada ainda
Líamos em português mas só André e Verônica (outra voluntária) tinham noção da língua. O importante nem era entender, mas apenas recitar o texto sagrado. Como se isso já fosse o suficiente para se adentrar o espaço da fé.

Para piorar a minha percepção, a magnitude do espaço me impressionou – negativamente. É um prédio suntuoso que continua em obra, mesmo depois de mais de uma década de abertura. Todo o espaço interno é coberto por madeira de qualidade. O edifício, que tinha se transformado em habitação dos camponeses durante a revolução cultural, tem traços megalomaníacos que fazem um visitante mais incrédulo como eu não deixar de pensar da catedral da fé, da Igreja Universal, ali na Suburbana.

Almoçamos – homens para um lado, e sempre à frente, mulheres para o outro, e vindo depois – e fomos conhecer o espaço ao redor. Fui apresentado a Liuwen, uma professora de inglês extremamente simpática e prestativa que ajudou e ajuda voluntariamente na tradução do material (todo mundo ali doa o seu trabalho para o monastério). Ela me serviu de guia no restante do dia. Conhecemos a horta orgulhosamente orgânica, onde há um espaço dedicado exclusivamente para os insetos, e onde não se pode comer nem mesmo uma das infinitas castanhas: tudo pertence ao altíssimo, me responderam quando estava para dar uma mordida no fruto colhido do pé.

Depois, seguimos para onde ficam as “capelas” do lugar. Conheci a área para as celebrações ao ar livre, com canais de centenas de anos, e descobri que para essa escola do budismo, há budas do passado, do presente e do futuro. Liuwen ficou confusa quando neguei a opção de fazer um pedido para um dos budas, pra que meus sonhos se realizassem. Disse a ela que não desejo nada, que estou muito satisfeito com a minha sorte e aceito sem muitos problemas o que o destino me reserva. Tentei amenizar lembrando que a minha irmã também sofre com esse meu comportamento, quando ela me pergunta o que eu quero ganhar de presente no meu aniversário. Não adiantou muito.

Vimos árvores sagradas que eles consideram ter mais de mil anos (gosto muito da tradição chinesa de honrar as árvores) e fomos participar do encontro de discussão da tradução. Assistimos a um vídeo que mostrava como as versões em outras línguas dos escritos sagrados eram importantes para divulgar a boa-nova. Como era indispensável que se propagasse o budismo pelo mundo. E eu só pensava nas missões religiosas e o papel disso para a expansão da cultura ocidental pelo mundo.

Em vários momentos, eles se diziam felizes por eu querer conhecer mais da cultura chinesa. Não diziam do budismo. Como se China e budismo fosse intercambiáveis, mesmo que toda a história do budismo tenha nascido entre Índia e Nepal, mesmo que a grande maioria da população chinesa se considere sem religião – ou venere apenas o deus dinheiro.

Essa é a área onde se fazem as cerimônias ao ar livre
No fim da tarde, fomos recebidos por um dos principais monges do lugar, o venerável Wuguang, secretário do monastério. Segundo me contaram, ele é o número dois da hierarquia do espaço, e esses tipos de encontros são extremamente incomuns – disseram que eu tinha sorte. Ele basicamente me contou dos planos de modernização que o venerável mestre Xuecheng tenta colocar em prática, por conta do mundo contemporâneo. De como isso tinha como intenção propagar a fé, angariar recursos do mundo inteiro para o monastério, e contribuir com o pensamento produzido ali nas discussões urgentes do momento, como terrorismo, aquecimento global, crise ecológica. Ganhei três livros e um CD-Rom, com ensinamentos do venerável e com uma pequena história recente do prédio. Não consegui parar de pensar que aquilo era uma metonímia da China. Ou como, para a China, aquele monastério tinha se tornado, depois de anos fechado, muito importante para o seu tabuleiro geopolítico. Explico melhor:

Em primeiro lugar, porque a China pode se mostrar tolerante com outras crenças (além da fé no comunismo de mercado, ou capitalismo de Estado, o paradoxo que você preferir). Liberdade religiosa é um capital valorizado em um mundo em que as pessoas se matam por discordar da fé alheia. Além disso, mostra que a China deixa, aos poucos, que algumas liberdades apareçam – como se isso fosse o suficiente.

Também há o soft power.  No tabuleiro das relações internacionais, a China aparece sempre com a força bruta de ter uma nação de mais de um bilhão de pessoas, um dínamo militar e com uma economia de crescimento vertiginoso. Mas isso não consegue conquistar cabeças e mentes de um povo acostumado a ser seduzido por tramas açucaradas de Hollywood, músicas pops e modas, culinária e costumes europeizados.

Talvez uma narrativa (palavra do momento, mas que pode ser traduzida para “caô”, como sugeriu L. A. Simas) mais simpática, como a do budismo, e a sua agricultura orgânica, sua preservação histórica, sua mitologia aguada em que basta a fé para mover montanhas, pode ter uma boa entrada o outro lado do globo.

Por último, mas nem por isso menos importante: Tibete. Em vários momentos os meus verdadeiramente simpáticos cicerones insistiam o quão importante é o venerável mestre Xuecheng, como ele é a maior autoridade na China sobre o budismo. Como ele é o presidente da Associação Budista da China. Como ele é quase uma figura mítica. A maneira como todos eles tratavam qualquer monge, com uma veneração (não é à toa a alcunha de venerável para todos eles) me faz crer a intenção de sacralizar essas figuras.

Dragões, fênix... os animais chineses são bem legais, hein
Ora, o Tibete fica dentro do território chinês e quer se tornar independente da China. O Dalai Lama é a principal personagem do budismo tibetano, mas agora tem que viver na cidade de Mcleod Ganj, na vizinha Índia, porque ele é persona non grata aqui. No mundo inteiro, porém, ele é uma doce figura que torna o tema Tibete um dos assuntos mais amargos para a China. Quanto mais a China tenta massacrar o Dalai Lama, mais ele se fortalece, se tornando a personificação do injustiçado, do herói, do Davi contra Golias.

Se não dá para usar a força, como, então, combatê-lo? Criando outra figura, que seja tão importante e simpática quanto o concorrente. Jogando todo o foco nessa outra figura. Modernizando (em vários sentidos) um ensinamento milenar. Diluindo uma discussão complicada. Traduzindo suas palavras para todas as línguas importantes, inclusive o português.

De tudo isso, o que mais me incomodou, entretanto, foi o uso da fé alheia para fins nem sempre muito claros. São inúmeros voluntários trabalhando de graça nos fins de semana, além de um grupo fixo de um grupo que eles chamam de “leigos”, que moram lá e ajudam a administração desse enorme complexo religioso. Pessoas que dão todas as suas forças para uma organização, com o intuito de ajudar o budismo.

Em muitas vezes, me pareceu que eles estavam sendo enganados. Em outras, pensei que o importante para eles, mais que o simples processo religioso, da crença em si, era criar uma comunidade da qual eles se sentissem parte. Isso aparentemente acontece. Há uma conexão forte no grupo. Mas não sei o quanto é válido ser usado como massa de manobra para fins escusos. Participar de uma instituição que escorrega várias vezes na hipocrisia. Não sei o quanto há nessas práticas cotidianas do monastério do chamado “caminho virtuoso” – como a inscrição no morro ali atrás do monastério não nos deixa esquecer. Parece que pouco.

BOX - Bolinhos dos céus

Meti a mão na massa
A discussão da tradução foi curta – basicamente só eu dei opiniões. Devem optar pelo português brasileiro ou de Portugal? Como divulgar no Brasil? Como traduzir determinados termos? Nada muito empolgante. Fomos, então, participar da produção das tortas da lua (月饼, yuèbĭng), por conta do festival de outono, em que, por uma tradição muito antiga da China, se venera a deusa que mora na lua, deusa esta que se confunde com a própria lua. O feriado é nacional, acontece na próxima quinta-feira, e a intenção é reunir as famílias num jantar de confraternização. Mais ou menos como o natal para os brasileiros, ou Thanksgiving para os americanos.

O bolinho em si é gostoso e simples: uma massa comum com recheios variados, do doce ao salgado. O do monastério tinha uma mistura de castanhas, gergelim, amendoim. Era doce, mas não muito doce. Minha função foi enrolar a massa no recheio e entregar para a formatação. Eu era o único homem na minha área. Os homens cuidavam de colocar a massa dentro de uma forma, tipo um espremedor de batata, para que todos eles saiam iguais. O monastério vende caixas desses bolinhos. Liuwen comprou três caixas e me deu uma tortinha. O reverendo responsável pela cozinha me autorizou, porque eu os ajudei, a comê-los quentinhos, recém-saídos do forno.

terça-feira, 6 de setembro de 2016

Chinanews: O G20 e o ressentimento

A China em crise de identidade
Recentemente, antes da abertura do G20 aqui na China, o presidente dos EUA, Barack Obama, teve que enfrentar um incidente diplomático: a escadinha para sair do seu avião oficial não apareceu. Ele teve que usar a saída de emergência. Obama também foi o único chefe de Estado que não teve direito a tapete vermelho. Até o golpista Temer recebeu o agrado.

Segundo comentários de quem entende do assunto, não foi um incidente, quiçá um acidente: foi deliberado. Os chineses queriam mostrar para o público interno que conseguem subjugar o [chamado] homem mais poderoso do planeta. Pura peça de propaganda, portanto.

A intenção do ato é reafirmar o mito da nação grande, em franco crescimento que em breve completará seu destino, que está gravado no próprio nome da nação em mandarim. Zhōngguó, ou 中國, quer dizer algo como nação do centro, do meio - do mundo. Em outras palavras, ser o motor que puxa o globo, morro acima. Ser o foco principal das atenções. Mudar o campo gravitacional da política internacional, do Atlântico para o Pacífico, da Europa-América do Norte, para a Ásia. Ser, enfim, a nação mais poderosa do planeta. [Poder, poder, poder.... quem decide isso?]

Essa vontade de liderança é apoiada pela população, em geral, pode-se dizer. Os chineses são o povo mais otimista em relação ao futuro que há. Essa confiança faz fronteira perigosa com a petulância e a arrogância. É a necessidade não de ser o primeiro colocado, mas de estraçalhar o adversário. É eleger um nêmesis, um inimigo que deve ser não somente suplantado, mas destruído. Isso é muito perigoso. Não é xenofobia, ainda ou totalmente. Mas é quase.

Lembra a noção de ressentimento em Nietzsche. Pelo que eu me recordo, o bigodudo dizia que, pelo ressentimento, só somos formados a partir do outro. O outro que nos dá nossa dimensão. Somos, portanto, apenas e somente no outro. O que Nietzsche está sugerindo, se eu ainda consigo recitar, não é necessariamente ignorar o outro, e viver uma vida completamente isolada do convívio - seja social ou geopolítico - mas afirmar a nossa potencialidade independentemente do nosso entorno.

Exemplo da natação. Sempre me disseram: nade o seu melhor. Se o seu melhor for o suficiente para ganhar a competição, ótimo. Se, pelo outro lado, você apenas focar em vencer o competidor do lado, vai acabar, na maioria das vezes, morrendo no final de prova [cf. PEREIRA, T., 2008, 2012 e 2016]. Em outras palavras e voltando para o caso chinês: não haveria um problema, em si, da China querer crescer [noves fora todas as consequências ambientais, claro]. Mas não pode tratar mal os coleguinhas por isso.

Esse é o traço mais funesto de outro mito: a competitividade como única forma de produção [aqui no sentido grego, mais amplo, de, resumindo, criação de algo]. A China, que ainda se vende internamente como uma nação comunista, está começando a praticar a mais nociva ação da lei de mercado. Como se dissesse, não basta vencer, tem que humilhar o outro. Eles engatinham ainda no assunto, mas o "otimismo" em relação a isso é grande. Dá para ver.

Essa é a base de qualquer projeto que prioriza o indivíduo, por meio de seus [cof, cof...] "méritos", em vez de pensar num projeto mais amplo em que o máximo número de pessoas fosse incluído. Serve para a China, para os EUA ou, claro, para o Brasil. Melhor que isso certamente seria: em vez de se preocupar com o outro, se preocupar com todos os outros.

terça-feira, 23 de agosto de 2016

#Chinanews: o futuro da linguagem

Um coração sempre quer dizer < 3
Os caracteres chineses são a tentativa direta de uma linguagem que tenta ser mais visual, que tenta ser mais imagens que sons. Por exemplo, o 人, rén, em pinyin, a transliteração oficial, (se pronuncia com um "g" que sugere um "r", ou um som entre esses dois fonemas). Quer dizer "pessoas", "gente", mais de um fulano. Ao olhar para o caractere, não é exagerado falar que parece com o caminhar de um sujeito. Outro exemplo: 口, que quer dizer "boca" e se pronuncia algo como "kou / kŏu", e também parece uma abertura (alguns outros exemplos aqui).

Claro que nem todos o caracteres são tão correlacionados assim. Parece que há várias categorias e estes seriam apenas da categoria "pictogramas", mesmo, que tem exatamente essa características de lembrar um desenho. Na verdade, a linguagem seria infinitamente mais complicada se fosse apenas "representacional". Apesar de uma crença que eu tinha, o mandarim tem início-meio-fim, ou sujeito-verbo-predicado. E tem palavras bem mais abstratas. Tipo 大, dà, que quer dizer "grande" - e já dá para ver que o negócio começa a se desenhar.

De toda forma, mesmo que nem todos os caracteres sejam estritamente pictográficos, eles são, sempre, extremamente visuais. São desenhos, pequenas obras feitas com cuidado. A caligrafia aqui, aliás, é considerada uma arte, tão poderosa quanto, sei lá, a pintura.

Esses símbolos carregam em si um valor muito maior que uma simples letra carregaria. Ele já vem, sozinho, com toda uma carga de significados, que podem se multiplicar dependendo da maneira como a combinamos. Funcionam como uma espécie de emoticons versão -1.0. Como desenhos que ganharam vida sozinhos e foram se modificando ao longo do tempo.

Curiosamente, apesar de o mandarim ter a sua própria grafia de números (一, yi, por exemplo, quer dizer "um"), é extremamente comum encontrar os algarismos indo-arábicos (os que nós usamos) aqui, no meio dos ideogramas e dos pictogramas. Minha explicação-chute para isso é: os números também são símbolos, desenhos que são correlacionados a uma outra informação, como exatamente funciona os caracteres chineses. É o mesmo campo semântico.

Suspeito que, com a proliferação de designers que espalharam universalmente setas para cima e para baixo, botões verdes e vermelhos, carinhas que sorriem, choram e até duvidam, caminhamos nessa direção quando o assunto é linguagem. Não é bem uma surpresa, portanto, que a palavra escolhida pelo dicionário Oxford para representar 2015 seja um emoji: Face with Tears of Joy (só para efeito de comparação, a de 2013, na eleição bienal, foi "selfie"). O futuro da palavra não é exatamente um grunhido, como temia Saramago, mas um desenho - que retrata o grunhido, talvez?