segunda-feira, 9 de julho de 2018

ERRO (conto)

Segurando a haste da larga taça, balançando a poção alcoólica, como tinha aprendido no curso de sommelier, observando a bebida em redemoinho, imaginando os odores exalados. Eduardo desviou o olhar um pouco para cima e encontrou os olhos de sua mulher Luana: olhos quase negros, sorriso largo do cabelo recém cortado, da aula de tênis terças e quintas, do bife mal passado com pimentas, steak au poivre, dizia o chef na televisão, ela resolvera experimentar, e deu certo, claro, como sempre. Os dois filhos, Lorena e Nicolas, 14 e 12 anos, sentados um de cada lado da mesa (“sou feliz”, pensa Eduardo ao observá-los), disfarçavam para mexer no celular – proibido pelo pai, mas... –, implicando um com o outro, lembravam de uma cena no recreio do colégio. (“Verdadeiramente feliz”.) A mãe quis saber o que houve, eles contaram: Nicolas foi picado por uma abelha ao tomar um refrigerante e gritou desafinadamente, para o deleite dos presentes. Ônus da adolescência. Ele com vergonha, a irmã caçoando, a mãe diz que não tinha por que ficar encabulado, acontece com todo mundo, e o que quer que ele fosse, o que quer que acontecesse, ela, eles estariam ali, com ele, com eles. Eduardo está imerso dentro de si, desligado completamente do seu entorno: Muito feliz, repete ele sem falar nada. Um homem realizado. “Não é, Eduardo?”, pergunta Luana. Ele desperta. Volta a olhar para onde os olhos olham. “Sim, claro”, ele sorri de volta, tranquilamente.

Por que, então, por que ele sentia esse desconforto, que ele nem sabia identificar de onde vinha, como saía, nem por quê? Era um achatamento, uma força ao mesmo tempo de cima para baixo, e de baixo para cima, espremendo, diminuindo os espaços, tornando-o uma massa sem muita diferença entre ele e qualquer outro. Era igual, apenas com detalhes em outra cor, torcendo por outro time de futebol, ou nem gostando de esporte – no máximo. Às vezes, faltava-lhe ar. Queria respirar, abria os pulmões, criava artificialmente um vácuo... e o oxigênio não entrava. Um sufocamento. Precisava ter um horizonte mais largo, mais profundo, precisava se desamarrar.

Precisava fazer algo errado. Precisava se tornar diferente, corromper essa beleza que se apresentava como inquebrantável. Fissurá-la. Precisava escapar, fugir da perfeição. Precisava sair da média, essa média que estabilizava e o prendia dentro de um formato, com um rótulo na testa, fazendo com que as pessoas esperassem por suas ações e aplaudissem até mesmo suas excentricidades como se fossem parte do pacote, está incluído no ingresso, senhor, nesse mundo em que todos se tornam compulsoriamente personagens de uma novela infinita, com diferentes tramas concomitantes, transmitidas ininterruptamente em qualquer tela que caiba no bolso. Precisava fazer algo errado.

Quando foram dormir, pijama de manga comprida, camisola branca-champanhe, as boas-noites, luz apagada, beijo, abraço, aconchego, Eduardo se levantou. Não abruptamente. Mesmo que não tivesse planejado isso, ele imaginou que se se movimentasse muito rapidamente, chamaria a atenção de Luana. Ele precisava apenas ir ao banheiro. Explicou, ela entendeu, ele levou o celular. Ter que dar satisfação. Por que não apenas fazer? Ele era feliz. Era uma escolha. Havia um solo, algo onde se apoiar. Mas não era infinito o mundo. Tinha que escolher, tinha que optar. Viver é viver em falta, falta de algo, mas não pode ser o essencial – e não era. Ele era feliz. Enquanto vale a pena, vale a pena. Mas admitira para si: precisava sair. Por um instante. Só hoje. Como? E para onde? Fazer o quê? E falar a verdade? Tinha recebido uma ligação, uma mensagem, uma ligação, na verdade. Do Fábio, isso. Avisou. Ele, Fábio precisava conversar. Luana não entendeu. Achou estranho, porém não novo: Eduardo estava agitado, de um jeito que ela já tinha visto anteriormente – e se sentiu em um poço escuro, sozinha. Eduardo não deixou espaço para conversa. Trocou de roupa e saiu de casa imediatamente.

Ao volante, luz mercurial refletindo no para-brisa, ele pensa que estava fugindo de uma prisão. A felicidade, ele imagina, talvez não seja um estado inalterado, mas um fundo, em que outros gostos, menos doces, poderiam aparecer, como lâminas acres. Tinha medo de repetir os erros do passado. De ser tão autodestrutivo – ou simplesmente destrutivo – como em outras épocas. Mas ele deveria fazer de novo – não era possível não fazer. Precisava. Algo. Quebrar a rotina, a certeza, alguma coisa, por favor, agora, só mais uma dose, ao menos. Não queria ser igual a todo mundo. Algo inaceitável – era isso. Precisava. Algo que destruísse essa estabilidade. De novo. Não uma superioridade, mas uma diferenciação, que o tornasse único, mesmo se sabendo igual, igualzinho a todo mundo. Se imaginava caminhando no meio de um trilha, bem centralizado, sem conhecer os extremos da estrada. Não aguentava representar eternamente o papel do bom moço – não era bem representação, ele era, também, bom moço, mas não apenas. Esse detalhe, esse detalhe fazia toda a diferença. Não podia ser estanque. Por que não reinvestia, não criava dentro do sistema já determinado, do mundo que ele compartilhava, das relações onde ele se sentia feliz – e ele se sentia feliz! –, da sua família, ora!, por que não imaginava saídas dentro desse próprio formato em que ele já estava desde o início inserido? Não havia lado de fora. Não era possível escapar.

Ele sabia, mas não sabia. O equilíbrio entre um lado e outro, fino, tenso, delicado. Tinha dentro de si, como um mantra, que toda decisão carrega em si o seu inverso. Não há éden, um mundo sem sofrimento ou dúvida. Não há limpeza completa, há sempre uma dor, mesmo que latente, como possibilidade. A chave é o positivo ser mais forte que o negativo. Aceitar o destino, imaginar que foi o melhor que se poderia ter tomado naquele momento, diante daquela questão, com as informações que se tinha, e com a coragem que apareceu no instante decisivo. Mas como não se arrepender? Engole sem saliva: lembrar, sempre, que se é feliz. Uma estrutura, algo onde o restante do corpo se encaixa. A felicidade como abertura, como o modo de operação principal, a linha mestra em que outros afetos poderiam atravessar, como atravessam – mas sem atravancar; a felicidade como a segurança, a certeza nos momentos mais difíceis. Como agora.

Mas o que de tão em baixa passou por ali para ele estar sentindo esse buraco dentro de si? Essa ausência sem nome, essa saudade de ser a miragem que ele diz para si que construiu, na sua cabeça, fantasiosamente? Essa vontade de apenas ser diferente da média, de escapar da massificação, de colocar a cabeça para fora, de não respeitar os limites estabelecidos? Nada, verdadeiramente. Ele gosta da vida pequeno burguesa, família classe média, trabalho de 9 às 18h, casa de praia nos fins de semana, crianças crescendo, vinhozinho, comidinhas, uma mulher linda... o que mais ele quer? Por que essa vontade incontrolável de rasgar a própria pele e se mostrar completamente? Por que esse desespero de sair de casa, de madrugada, e fazer o que ele estava tentando – e conseguindo – evitar havia tanto tempo, esse desejo que ele escondeu, porque ele sabia que era incompatível com a vida que ele vive, com a vida que ele gosta de viver, mas por que essa vontade agora pareceu tão incontrolável? Não havia uma resposta boa, além do fato de ele estar com uma vida boa, agora, estável, sem qualquer sobressalto, qualquer desafio. Era sólido demais.

Ele encosta o carro. A moça se aproxima. Ele abaixa o vidro. Ela está extremamente maquiada, com pouquíssima roupa. Maxilares proeminentes, rosto ossudo, pescoço musculoso, pomo de Adão avantajado, voz grossa fina. Ele não sabe o que dizer. Ela conduz todo o diálogo, sozinha. A participação dele se resume a abrir a porta. Ela entra. Já havia um quarto ali por perto. Ele queria ser o oposto do que ele era sempre.

No quarto, meia luz vinda do poste da rua, o rosto sombreado, ela vai tirando a roupa rapidamente. Ele não tem pressa, não tem tranquilidade, não tem nada, está perdido, observando como uma paisagem. Ela quer voltar à rua. Era apenas mais um da noite. Para ele, era especial: a possibilidade de visitar o outro lado, de atravessar a ponte, de descer ao subterrâneo, de encontrar o engano, a negatividade que ele negava há tanto tempo. Era a sujeira, o mundo real, quente, úmido, sangrento, dolorido, extremo, que ele tanto ansiava. Era o feio, o errado, onde ele queria mergulhar e emergir molhado, com vísceras escorrendo pelo seu rosto, destruído, despedaçado. Primeiro aparece o silicone, o corpo esculpido com doses iguais de dificuldade e criatividade. Era delicada, ou tentava. O que ele queria ali? Observá-la, para começo. O corpo ambíguo, o corpo duplo, o corpo que possuía duas metades, divididas e coladas, mescladas uma na outra, o corpo que era feminino e masculino ao mesmo tempo. Ela era ela e outro, ao mesmo tempo. Era um passado, um nascimento e um renascimento. Dois nomes, um sobre o outro, uma sobra e outro. Ele queria se refletir nela. Se levanta em direção a ela, se aproxima, ela, apenas de calcinha, o volume no púbis destoando, ele segura os braços dela, os abre, e tenta encostar o corpo no dela, com os braços abertos, num abraço sem abraçar por completo, queria adentrar por completo, queria ser ela, se transformar nela, atravessar o espelho. Os rostos se encostam, rostos pelados, ele, barba aparada em barbeiro, ela, hormônios que impedem pêlos, as respirações se adéquam, um com a outra, uma depois do outro. Era o suficiente? Ele se pergunta, sem conseguir desligar a obsessão. Será que o demônio que se alimenta de suas compulsões se daria por satisfeito? Onde fica a linha de segurança? Ela está com pressa, quer voltar para a rua. O programa tem tempo. Iria terminar ou não? Ele quer continuar? Como ele quer continuar? Ele paga, o dobro, coloca as notas sobre a cadeira velha. Pede mais tempo. Ele quer se escutar, voltar a se ouvir. Aproveitar o quarto sujo e silencioso. Ela fica mais tranquila. Coloca a cabeça dele no ombro dela, acaricia os fartos cabelos já prateando. Ele queria ser ele e ser ela. Queria ser, a cada momento, um, uma. Por que estacionar, de maneira tão profunda, em apenas um estado? Por que não fluir de uma forma para outra? Mais flexível, adaptável ao ambiente? Era o suficiente? Ele se pergunta, novamente. Já tinha se envergonhado o necessário? Ele quer ser dominado, domado, penetrado, invadido, possuído, ele quer ser invertido. Deita-se, de costas, ela entende. Se abaixa e beija o pescoço dele, tirando a roupa, primeiro a camisa, beija as costas, ele se arrepia, se sentia fragilizado, vulnerável, se sentia dependente dela, deixou seu destino na mão de uma desconhecida, de alguém que ele encontrou na rua. Ela tira as calças e continua a beijá-lo, descendo as costas, na bunda, nas coxas, períneo, no meio da bunda, ele se prende todo, ela o abraça por trás, ele sente o volume, ela o beija, e pede para ele relaxar, ele vai se soltando, se soltando, até que ela, com cuidado, devagar, começa a entrar, aos poucos. Ele fica vermelho, tenso, o pescoço teso, sem respirar, tentando aguentar o movimento, tentando relaxar, ao mesmo tempo que impedir o progresso dela o fazia ter ainda algum domínio, ela dizendo para ele se soltar, ficar calmo, perder o controle, que ela não faria nada, nada além do que ele queria, nada além do que já estava fazendo, e ele se sentia invadido, destruído, despedaçado, descarnado, exposto em ferida sangrenta. Ela continua, se empolgando, subindo de tom, e ele vai diminuindo, sumindo, desaparecendo, começa a chorar baixinho, como se o dique tivesse rompido, desaguando, primeiro aos poucos, depois, quando ela acaba, ele chora leve. Se encolhe como um inseto ferido, e não tem forças para se perguntar se queria mais, se era o suficiente, se deveria continuar. Ela se levanta, se veste, pega o dinheiro, abre a porta, olha para dentro, para por um instante e fala tchau. Ele continua enrolado em volta de um centro imaginário, sentindo a pressão diminuir, desabafando, desinflando. Soluça uma, duas vezes, respira fundo, e para. Tinha gostado. Da mecânica, do encontro, de se perder. Tinha gostado.

Da janela era possível ver um pedaço muito restrito da rua. Uma maneira tão diferente de viver. Como ele estava encastelado, como ele tinha criado um paraíso artificial que, como todo paraíso, não era suficiente. Tinha descarregado, estava vazio. Era ainda feliz porque sabia que não era mais feliz o tempo todo.

quarta-feira, 4 de julho de 2018

A Inglaterra, a Copa e a cagação de regra

Palavras em inglês para rir / sorrir / gargalhar etc.:

- laugh
- smile
- simper [sorrir afetadamente]
- smirk [sorrir maliciosamente]
- sneer [sorrir desdenhosamente]
- snicker (us), snigger (uk) [rir dissimuladamente, entredentes]
- whicker [rir entredentes]
- giggle [dar risadinhas, riso tolo]
- titter [uma risadinha nervosa]
- cackle [cacarejar]
- grin [sorrir amplamente]
- LOL [rsrsrs, kkkk, hahahaha]
- chortle [cachinar, gargalhar de modo ruidoso]
- chuckle [rir discretamente]
- guffaw [gaitada, risada ruidosa]
- howl [uivar, mas também gargalhar]
- roar [rugido, mas também gargalhar]
- crack up [morrer de rir]
- horselaugh [risada áspera]
- derision [riso de chacota]
- buckle up [rolar de rir, se dobrar de tanto rir]
- bust a gut [rachar o bico]
- kill, slay [matar de rir]
- tee-hee [rir de alguém, zombar]

...

Mesmo que tenhamos palavras bem específicas em português para esse ato de demonstrar o humor que nos atravessa [como as recém descobertas "cachinar" e "gaitada"], aparentemente o inglês se esforçou para criar mais palavras para esse afeto. Se seguirmos a lógica de que criamos as palavras a partir das nossas necessidades de nomeá-las, talvez podemos perceber que os ingleses e os seus descendentes encontraram mais áreas cinzas entre o riso, o sorriso e a gargalhada.

Ou eles são mais desdenhosos, dissimulados, maliciosos [como mostra a tradução de algumas das palavras listadas]. Ou simplesmente irônicos, para usar uma única palavra. Mas irônicos no sentido de se sentirem numa posição de superioridade, planando acima dos demais seres, sem vontade de se dignar a tratar com os outros, simples mortais. Isto é, ironia como arma retórica de distanciamento, frieza e, como se dizia lá em Nova Iguaçu, mascaramento.

Quando eles refletem essa ironia sobre si, o resultado é geralmente um humor de alta octanagem - mas que, talvez, no fundo, demonstre apenas que eles não são perfeitos como eles imaginavam que eles deveriam ser. Uma decepção consigo mesmos.

Sei lá, pensei nessas coisas após o jogo da Inglaterra e Colômbia, em que os ingleses [e os colombianos] catimbaram, simularam, fingiram, atuaram, mentiram, interpretaram, mesmo após cagarem uma regra imensa sobre os exageros do Neymar.

Um dia ainda hei de escrever que o pior problema da atualidade, em qualquer latitude e longitude, é o proselitismo.

terça-feira, 26 de junho de 2018

DISTÂNCIAS (conto)

Sem planejar, planejar muito, ele (eu?) entrou num cubículo. Ou num quarto. Dentro de um salão. Era apertado. Tinha espelhos. Um ao menos. Quebrado. Não, não estava. Era paralaxe. Olhou, olhei para frente. Me vi refletido, mas ao mesmo tempo vi... ele. Do outro lado, do lado de fora. Havia uma distância (mínima, imperceptível) entre nós (eu e ele, ele e eu). Eu estava dentro, através do espelho, e ele, aqui, real, carne, osso e derivas, era o meu reflexo.

Era uma sala de espelhos, isso, com vários espelhos. Diferentes “eus” nos inúmeros, mas não infinitos, vidros. “Eus” com formatos diversos: pequeno, magro, pêra, ampulheta, todos, qualquer. Sou todos, a cada momento, ao mesmo tempo, sou um. Somos somados. Se afastando, me aproximando. Especulação, tentativa, suposição, previsão, aposta com o futuro, mirada que nunca ou pode se concretizar, mas só depois, no porvir – esta utopia, esse não-lugar. A cada momento, não sou apreendido em nenhum eu. Passo de um a outro, num movimento constante, que raramente se estabiliza. Só momentos fotografia, flash, um instante.

O intervalo entre um e outro, entre eu e eu e eu, é (pode ser) grande, e não é possível medi-lo. Somos muitos, muito diferentes entre si – uma constelação. Posso ser quase antagônico a mim mesmo, dependendo do ângulo que se olha, e do recorte que se faz. Identidade é apenas estimativa, conjectura.

O pensamento, um pensamento qualquer nasce como lava que brota no fundo do mar e vai criando novos relevos incógnitos maleáveis enquanto não se solidificam. A solidez é a luz que ultrapassa as nuvens pesadas e não pode ser aprisionada na palma das mãos em concha: já começa a sua próxima translação. Como uma câmera que entra em foco no momento exato, para logo em seguida sair, numa velocidade constantemente variável. Piscou, perdeu.

As imagens contrastantes, complementares, não se anulam, ao contrário. Funcionam como polos antagônicos que criam uma estática, jamais parada. Campos magnéticos. Imãs aproximados. Energia em potência. Pode explodir (será?), a qualquer instante. Ao menor desequilíbrio, caminha, escorrega, segue a gravidade para o lado da comporta aberta. Desequilíbrio é movimento. O lado mais forte, pesado, se direciona para o lado mais fraco, leve, como escotilhas que vão se abrindo para equalizar turbilhões de água. Dualidades como pares mitológicos. A tendência é o equilíbrio entre os extremos, mas nunca se o alcança, porque não há linha reta, isolada, sem influência externa. Vivemos já dentro de uma multidão de outros eus que nos atropelam, esbarram, pedem desculpas pelo tropeção. Temos que encontrar os nossos, montar um grupo, cuidar deles, dos nossos. Esquecer o universal, pensar pequeno, do tamanho do meu abraço. Democracia é diferença.

Em outras oportunidades, as forças juntam vetores numa mesma direção, a imagem fica mais visível, clara, com os segundos planos se afastando, como numa aproximação de câmera, ao mesmo tempo em que a lente faz zoom out. Há momentos, ainda, em que as imagens esmaecidas, fracas, criam sombras umas sobre as outras, reforçando determinados perfis e sentidos, ou mesmo cacoetes, difíceis de sumirem.

É possível, nessa sala de espelhos, jogar com os reflexos, criar imagens fantásticas. São brincadeiras, invenções: eu (nós) sem os pés no chão, dançando, mesmo sem música – levitando. Vários braços balançando, dando tchaus consecutivos, uns para os outros, para todos, para ninguém, em forma de cobras amestradas para sambar numa velocidade miudinha. São formas impossíveis, só criadas a partir de artefatos inventados, ilusões de ótica, diversões diversas. Arte, ficção, essas coisas.

Não estou preso, não vejo qualquer âncora. Tenho receio de me perder de mim mesmo e não me encontrar, não mais – mas já alguma vez? Ir, indo, sabe?, e não saber como voltar. Me ver, aos frangalhos, arrependido, num canto, fim de mundo, por que fui? O reflexo estraçalhado, em vários pedaços perfurocortantes, e a jugular ali, tão perto. Mas: sem dramas piscianos. Exorcizamos, temporariamente definitivo. Esquisito, eu sei, mas é isso: seguir, seguir, e acreditar – isso é tão difícil – acreditar que o chão vai estar embaixo do pé antes de andar. Duração. Nunca por segurança, mas coragem, não é? É precisamente imprecisa. Ainda: quero.

Diálogos animados entre as variadas vertentes. Algumas vezes, saio da completa ignorância para o domínio razoável da matéria – material. Não por milagre, elaborando. Carregamos ferramentas que abrem cofres reforçados. Aprendemos a fabricar esse instrumental complexo com lascas de pedras, tocos de galhos encontrados de relance, passando por nós no meio da brisa poluída, maré mareada. Com sorte, somos apadrinhados pela elite da periferia, a realeza da ralé, e ganhamos afagos sobre o couro quente. Se mais excluídos, temos que catar em lixo, buscar os descartes e criar sozinhos nossa própria baixa cultura. Chafurdar em bazares chineses de todas as nacionalidades, qualidade duvidosa e preços convidativos. Desenvolvemos apenas com tutoriais, fóruns desprotegidos, internet discada e broken english.

Só há imagens, nada além da superfície. Sem alma, só dúvidas, que vão batendo bola, entre uma perna e outra, na direção do gol. Às vezes alguma coisa repentinamente fica, se torna chave, se encaixa no segredo, na fechadura, roda, destranca, alavanca, catalisa, abre, e se torna solo, segura, apoia, horizonte, responde, funciona, atua em vários cenários, até que, até que... Não mais. E começa tudo de novo. Rodando, rodando. Rolando. Paciência, maior sabedoria. Somos apenas a antena que capta e codifica. Podemos apenas ficar abertos para sermos atravessados pelos acontecimentos. Nos apresentar, produzir o desejo, na falta. Nos encaixamos desencaixados, sem forma, ou formalismos. Manipular fios desencapados, mesmo na contracorrente, por sobrevivência, para respirar e não sufocar. Tem que, deve ser assim. Parar por muito tempo necrosa. M’entedio facilmente.

Eu sou do contra – rio.

(E eu – olho no olho – vejo você. Um reflexo, uma reflexão. Você em frente a mim, ao meu lado, debaixo de mim, sobre, em volta, dentro, você. Você é outro, outra, outrem mas há áreas de conjunto interseção, entre nós, eu – eu, todos – e você e seus eus. Não sombreamos, nossas fibras se entrelaçam a cada dobra, bailam para se encaixar, animais marinhos das profundezas em ritmo de cópulas. Somos casal, somos indivíduos divisíveis. Meu corpo procura o seu quando as máquinas neuróticas estão desligadas – as máquinas que tentam encontrar o que eu sou – o que é “eu”. Máquinas paranóicas fascistas, em vez de máquinas esquizóides libertárias. Quando elas se esquecem de si, quando elas andam, nós caminhamos sozinhos, e eu esbarro em você, porque você está sempre onde quero devir.)

Para Alyne

sexta-feira, 1 de junho de 2018

Contra uma esquerda

Eu não sou de esquerda. Se de esquerda quiser dizer uma empatia absoluta com todo ou qualquer sofrimento. Ou mesmo, se for ser sempre contaminado pela tristeza de situações tristes, degradantes. Sempre me mantenho à distância desses momentos mais melodramáticos, cada vez mais cotidianos, infelizmente. Talvez eu seja frio [ou cerebral] demais para ser de esquerda, ou anestesiado por gerações de imagens e situações devastadoras. Minha compaixão foi dilacerada. Poucas vezes vejo algo que me captura, me atravessa de uma maneira a eu não poder desviar os olhos.

Isso não quer dizer, porém, que eu ache a absurda discrepância entre os modos de vida e as formas e privilégios de uns [poucos] sobre outros [muitos] - ou muitas outras - aceitável. Ao contrário. É óbvio, para mim, que há algo absolutamente errado com os fatos cotidianos do país e do mundo - e os exemplos são muitos e repetidos ao cansaço. É só lembrar o fato de que apenas seis pessoas - todos homens - possuem o mesmo patrimônio de metade da população brasileira, ou seja de 100 milhões de pessoas. Talvez escrever o número com todos os seus zeros possa dar melhor a discrepância da situação: 100.000.000.

Essa informação me agride como um soco na cara. Isso, entretanto, não me credencia, no meu ver, a ser considerado de esquerda. Ou a uma esquerda que se mantém atrelada a determinados dogmas, ou que nasce apenas querendo mudar o crupiê do cassino de cartas marcadas em que estamos sempre sendo roubados. Eu não sou de esquerda se isso for um qualificativo, uma posição de superioridade, um atestado de isenção moral, em que se há uma linha clara que separa os bons dos ruins. Ou quando se tenta pensar numa sociedade absolutamente igualitária, e se nivela, ou melhor, se estabelece um teto por baixo, fazendo com que todos tenham a mesma característica. Para mim, democracia é diferença, ou não pode ser chamada assim.

Eu me importo com igualdades de solos e não de tetos. E isso não quer dizer uma competição irrefreada por ser "melhor", para subir o sarrafo, ao contrário. Isso também não quer dizer uma liberdade absoluta, ou uma autorização insana por gastar todos os recursos que temos acesso. Diria que é quase o inverso: um mergulho em si, para tentar se descobrir, em todas as suas potencialidades. Já é óbvio, ou deveria ser, que a Terra não mais suporta ser explorada e estragada, os animais não aguentam mais ficar acuados, serem favelizados, as matas não toleram mais serem arrasadas, o solo, espoliado, os rios, os mares, assoreados com venenos plásticos.

Para mim, não é possível pensar numa sociedade em que negros são assassinados industrialmente, com o requinte cruel de o motivo das mortes ser apenas por serem negros. Ou em que as mulheres são vistas apenas como apêndices para as decisões masculinas. Em que os indígenas são encarados apenas como exóticos seres que colorem o folclore. Que os animais se tornem apenas alimentos matáveis ou seres aprisionados como troféus, dignos unicamente de pena. Que os ecossistemas são pensados como vazios demográficos que se precisa explorar. Que a única lógica para a grande maioria do planeta seja extrativista, de exploração até o esgotamento e, consequentemente, o abandono. Não é possível que a única forma de viver é compartilhar uma cidade suja e barulhenta, a bordo de um carro sujo e barulhento, enquanto construo minha carreira como um empresário de mim mesmo, e me vendo como produto descartável em redes de contatos antissociais. Não é possível viver feliz em um mundo em que o dinheiro é o único indexador de todas as outras coisas. Que a arte seja encarada como um escapismo, uma terapia ocupacional, ou um verniz de relevância social, um selo de superioridade no grupo, acessível a apenas alguns divinamente escolhidos. Que apenas uns e outros tenham acesso a bens de saúde, de educação, de segurança, de, enfim, condições mínimas que os colocam em clara vantagem em relação à imensa maioria da população, no jogo que compartilhamos as regras compulsoriamente. É um absurdo que se julgue o caráter de pessoas por suas preferências - sexuais, religiosas, futebolística, política. É bizarro que se tente convencer os outros que as suas próprias opiniões são as únicas que importam.

Mas essas atitudes não me fazem ser de esquerda. Ou não deveriam fazer. É apenas respeitar a dignidade ontológica de cada um dos seres de serem o que desejarem ser, a cada momento.

sexta-feira, 20 de abril de 2018

MAR (conto)

Ao piscar os olhos uma segunda vez, eu estava ali, no meio de um oceano imenso de areia amarela esbranquiçada, com um horizonte infinito e absolutamente indistinto em todas as direções, o céu sem linha se confundindo com o chão, em tons opacos, uma visão translúcida – tudo era translúcido – o sol, inexistente, nuvens embaçadas, borradas, como pinceladas impressionistas. Sem conseguir me lembrar o que tinha acontecido antes, sem qualquer memória, história ou passado: era como se eu tivesse aparecido no meio de um deserto, automaticamente, como se isso fosse o que deveria acontecer. Não fazia sentido, mas o que faz sentido?

Não me preocupava em saber como eu chegara ali, apenas queria sair dali, numa angústia despropositada, sem origem. Eu buscava um rosto familiar, mas não sabia quais poderiam ser suas feições. Olhava ao meu redor e todo o ambiente era exatamente igual: areia. Grãos finos de silício – ou do que quer que fosse sua composição, não tinha certeza, não me importei. Abaixei, peguei um punhadinho e deixei escapulir entre os dedos. Era areia. Parecia areia. Acho que era areia. Tanto faz – não era isso, não era essa dúvida que me olhava de frente, no meio dos meus olhos. Quando me ergui, levantei a pesada gravidade da coluna de ar. Fiquei mareado. A pergunta me caiu sobre a cabeça como uma tormenta: para onde?

Olhei novamente ao redor para ter certeza. Nenhuma pegada, nenhuma sombra, nenhuma mudança de cor em determinado ângulo... Estava indiscriminadamente perdido. Minha caixa torácica ressoou a essa conclusão com uma síncope negativa, e depois acelerou, me incentivando a chegar a algum lugar que eu não sabia qual era. Meus foles inchavam e esvaziavam com a tentativa de queimar o carvão que abasteceria o medo indesejado, porém certo, para mim, como a morte. Uma insegurança pegajosa subia no corpo como múltiplas algas microscópicas, contaminando dos pés, canelas, joelhos, coxas, sexo, cintura, braços, barriga, tórax, pescoço, à cabeça.

Andei para o lado direito: quatro ansiosos passos, até ter certeza de que era para o outro lado que eu deveria ir, voltei os quatro e acrescentei mais alguns outros, mas não foi exatamente em linha reta, fiquei confuso, tentei regressar ao ponto inicial, mas as pegadas haviam sumido, como que absorvidas pela própria areia, decidi seguir em frente, para onde o meu nariz estava apontando, mas pensei que nada me garantiria chegar lá – onde quer que lá fosse. Imaginei que tinha visto um oásis, mas nem o calor estava forte o suficiente para se delirar. Não sentia nem frio – nada era exatamente desconfortável. Não sentia. Era-me tudo basicamente indiferente. Só queria chegar a um lugar menos árido, menos deserto. Para onde eu estava olhando quando abri os olhos pela primeira vez? Talvez essa fosse uma explicação, uma indicação. Ou seria o inverso? Essa informação estava ali apenas para me enganar? Estava me tornando supersticioso, querendo encontrar relações causais onde não há mais que aleatoriedade.

Para aumentar minha instabilidade, percebi meus pés afundarem quando ficava parado por qualquer tempo. Eu tinha que me movimentar, mesmo que contra a minha vontade. Minha tendência, nesse tipo de situação, é empacar, como um touro teimoso e pesado, que não sente o vento da pura vontade abertamente soprar nos ouvidos uma direção qualquer. O movimento me era obrigatório, como o mal e o medo e a insegurança, onipresentes, cheguei a pensar rapidamente. Lembrei, em seguida, do subtítulo da autobiografia de Nietzsche, “wie man wird, was man ist”, e lhe acrescentei uma interrogação ao fim. Ser alguém é um destino que nunca se completa, pensei. O tornar-se, sim, era um devir.

Pisquei os olhos rapidamente incontáveis vezes processando material bruto, dando formas para os caos que me rodeavam. Reparei no meu corpo feminino, passei as mãos pela minha cintura, meu quadril, meu cabelo. Minha respiração se acalmou: eu entrara em casa. Observei o cenário imóvel, com as mesmas cores, numa paleta pastel indiferente a mim e aos meus desejos. Não sabia das coisas da vida, mas percebi uma ligeira e sutil brisa passar por mim. Era um sopro difuso, que eu não tinha certeza de direção, menos de sentido, mas me deu um aconchego, como dormitar sob uma palmeira à beira do mar ameno. Minha vida começava e recomeçava, ao mesmo tempo, ali – percebi na hora. A aragem me tocava o rosto na direção contrária dos meus passos, era claro!, claro como o mundo à minha volta. Caminhar, mesmo enfrentando dunas e miragens, ainda me dava algum prazer. Segui.