sábado, 19 de agosto de 2017

As incertezas de Heisenberg

Werner Heisenberg é uma figura que levanta nossa sobrancelha e nos obriga a nos observar no espelho. Físico da geração de Bohr, Einstein e cia., sempre foi considerado um garoto-prodígio. Primeiro por ser um pouco mais novo que outros nomes famosos que revolucionaram completamente as ciências exatas, e por consequência o mundo todo, [ele é de 1901; Bohr, considerado o papa da quântica e, mais especificamente, uma espécie de "pai" para Heisenberg, era de 1885; Einstein, o "deus" da geração, de 1879]; mas também porque, além de ser extremamente talentoso em várias áreas, alcançou o teto muito rapidamente. Foi o mais novo professor titular da História da Alemanha, aos 26 anos. Foi o mais novo ganhador do Nobel, antes de completar 32 anos. Isso além de ser um exímio pianista e um grande conhecedor da filosofia e da literatura greco-romana.
Heisenberg, entretanto, não foi o ponta-de-lança do grupo, apesar de todo o talento para sê-lo, e a razão está além das questões puramente físicas, ou melhor, científicas, ou, por último: exatas. Como todos os cientistas da Física quântica desse período, ele também foi atravessado pelas aflições de ver suas descobertas serem transformadas em armas de destruição massiva. Sua trajetória, porém, não tem nenhum atenuante, por estar "do lado correto". Ele decidiu, livre e espontaneamente, ficar na Alemanha, mesmo com a ascensão do nazismo. Sua argumentação era nobre. Tinha a intenção de ajudar a reconstruir seu país, já que ele acreditava então que o país seria arrasado com a guerra iminente.
Consequentemente, mesmo não sendo partidário de Hitler, ele chefiou o projeto nuclear alemão, no período. Não passou incólume. No pós-guerra, se defendeu dizendo que sua intenção era sabotar, de dentro, a tentativa de construir a bomba. Não foi o suficiente para sofrer, até morrer, a antipatia dos seus pares - uma imensa maioria de judeus.
Não era uma coincidência essa afluência de judeus para a física teórica. Como os nazistas tinham um excesso de pragmatismo, um utilitarismo crônico em que as coisas só valiam se se encaixassem dentro dos seus próprios e rígidos padrões, a parte teórica da física foi relegada para o segundo escalão - lugar que eles reservavam aos judeus. Ironia do destino: foi essa teoria que criou as possibilidades da arma das armas, que tanto agradaria os alemães.
Segunda ironia do destino: foi esse grupo de fugitivos da desgraça nazista que produz a bomba que fecha a guerra. Grande parte do grupo ao redor de Oppenheimer, do italiano Fermi ao alemão Einstein, passando pelo dinamarquês Bohr, tinha uma relação direta com o judaísmo: ou era judeu [Einstein] ou era meio judeu [Bohr] ou era casado com uma judia [Fermi]. E só não jogaram a bomba em Berlim porque, segundo consta, ela não ficou pronta a tempo. Os alemães já tinham se rendido. Sobrou para os japoneses.
Há, porém, uma terceira ironia do destino, muito mais sutil, que pode ser também a mais complicada de se admitir em voz alta. Considerando a versão oficial de Heisenberg, mesmo que ele estivesse lutando do lado errado da História, ele teria conseguido impedir o avanço do inimigo. Mesmo que ele não se admitisse nem herói nem mesmo membro de qualquer resistência, ele teria, em resumo, conseguido salvar vidas. Já os físicos que foram para os EUA, mesmo que lutassem pela liberdade, mesmo que estivessem apenas se defendendo, mesmo que quisessem simplesmente terminar com o conflito, acabaram causando a destruição de duas cidades inteiras e a morte de muitos civis inocentes. Nem sempre é fácil distinguir o que é certo e o que é errado.

ps. A atitude de Heisenberg de ficar numa Alemanha que já começava a demonstrar seus traços de um regime baseado no horror completo nos devolve a questão, mesmo que a evitemos. Nós que moramos nesse Rio de eventos neopentecostais no sambódromo e nesse Brasil de juízes que mandam prender e libertar a seu bel prazer. Devemos abandonar o barco enquanto podemos, ou devemos afundar junto para, caso algo sobre, tentar reconstruir?

segunda-feira, 24 de julho de 2017

Os melhores vinhos franceses

Os franceses, como todo mundo, gostam de falar sobre os assuntos mais pueris na falta de intimidade. Mas se você consegue - com muito esforço, ao menos com os parisienses - ultrapassar as primeiras barreiras de gelo, pode se arriscar a fazer a fatídica pergunta: Bordeaux ou Bourgogne, qual é o melhor vinho? As respostas são tão variadas quanto há estilos de vinho nas duas mais famosas regiões vinícolas do país que produz os mais famosos vinhos do mundo [que os italianos, espanhóis, portugueses etc. não leiam isso aqui].

Os châteux de Bordeaux são lindos
Como disse Roland Barthes em um despretensioso e saboroso texto sobre o tema no seu Mythologies: "o vinho é sentido pela nação francesa como um bem que lhe é próprio, do mesmo jeito que seus trezentos e sessenta espécies de queijo e sua cultura". Talvez o correspondente para o Brasil seja o futebol. E se o paralelo com o ludopédio [homenagem ao homenageado da Flip, Lima Barreto] funciona, a disputa entre Bordeaux e Bourgogne é o fla x flu deles. Fait divers, mes amis, fait divers.

Numa segunda olhada para essa disputa, porém, dá para ver além da borra da uva. Do alto da pretensão do turista que visitou em dois fins de semana seguidos cada principal cidade de ambas as áreas, vou tecer aqui alguns comentários aleatórios, que me ocorreram para explicar não somente os vinhos franceses, mas a própria França e, quem sabe, alumiar um pouco um certo país tropical.

A região bordelais - que abarca a cidade de Bordeaux e adjacências - fica perto da costa, numa área próxima ao Oceano Atlântico, posição estratégica do ponto de vista logístico. Seu vinho foi, desde mais ou menos a invasão das Américas por europeus, exportado para colônias deste ou do outro lado da grande poça atlântica. Até mesmo sua garrafa cilíndrica, que é o padrão mais comum em supermercados brasileiros, foi pensada para melhorar esse processo comercial - capaz de ser empilhada mais facilmente. Consequentemente, do ponto de vista capitalista, o vinho feito na área, chamado metonimicamente de Bordeaux, virou sinônimo de vinho de qualidade francês.

Os grandes empresários vinicultores bordelais fizeram muito dinheiro, construíram châteaux de boquiabrir até os menos impressionáveis, e criaram uma indústria do vinho que movimenta uma grana alta até hoje. Junto a isso, porém, eles também descuidaram da qualidade do produto com a certeza de que bastava se apresentar como um Bordeaux para que o vinho fosse aceito em qualquer mesa. Além disso, o negócio atraiu muitos aventureiros que também quiseram, para usar uma expressão bem marqueteira, surfar no sucesso da marca.

Para tentar regular um pouco o negócio, Napoleão III [aquele que Marx chamou de "farsa", aquele que veio depois da "tragédia" Napoleão Bonaparte] tratou de criar um selo para proteger os vinhos que já existiam na região em 1855. Isso só existiu por uma coincidência: ele queria exibir os vinhos num grande evento, a exposição mundial da capital francesa. Nascia assim o avô das denominações de origem controlada, exibidas hoje em todos produtos que necessitam provar seu terroir. Ao mesmo tempo, criou uma elite de vinhos que jamais pode ser mexida.

Pelo que se lê por aí, toda e qualquer tentativa de modificar esse ranking inicial não é bem aceita - e tudo por conta de questões que vão além da simples qualidade do vinho [que, aliás, de simples não tem nada; mas isso é uma outra questão]. Foram criadas outras tantas categorizações que hoje em dia, para os simples mortais, nós que não sabemos quase nada de vinho, é quase impossível saber qual é o vinho mais confiável apenas de olhar seu rótulo.

Dijon parece de mentira
Pode parecer um contrassenso para quem sempre escutou que não se deve comprar um livro pela capa, mas o rótulo, assim como o lacre da rolha, carregam trocentas informações que nos dariam pelo menos algum norte no meio do oceano de possibilidades. É o caso, por exemplo, de lacres que exibem "récoltant" ou apenas o "r", e/ou o rótulo que tem a frase "mise en bouteille au château (ou 'au domaine' ou 'à la propriété')", que confirmam que o vinho francês passou por todo o processo de engarrafamento na própria vinícola que ele foi fabricado, dando uma conotação mais artesanal a esse processo que se torna cada vez mais impessoal no mundo todo.

Para piorar o processo, escutei há alguns anos, uma anedota que, se non è vero, è ben trovato. Diz-se por aí que, com o crescimento econômico e a tentativa de os chineses se integrarem rapidamente às regras do mundo ocidental, eles estariam comprando quantidades chinesas de vinhos bordeaux, sem se importar muito com a qualidade do produto. A intenção é apenas exibir o vinho para os demais, como um apetrecho qualquer, como se fosse um celular Apple, uma calça Lee ou um carro Ferrari. O preço dos vinhos, assim, disparou. Pura lei da oferta e da procura. Para piorar a história, a anedota dizia ainda que, porque os chineses não estariam acostumados com o gosto do vinho ocidental, eles decidiram misturá-lo com outro produto tipicamente ocidental: a coca-cola. Como se diz ironia do destino em francês, mesmo?

De qualquer forma, se há uma consequência positiva dessa confusão toda nos bordelais é a mistura de cepas sem qualquer tipo de purismo. É extremamente comum que os vinhos dessa parte da França sejam feitos a partir de dois ou mais tipos uvas. O resultado é uma alquimia extremamente difícil de se acertar. Qual é, por exemplo, a quantidade exata de cabernet sauvignon e de merlot para se fazer um vinho bom? Por conta disso, em geral, os bons vinhos de Bordéus [como os portugueses chamam essa área] são encorpados, densos, licorosos, escuros, a ponto de aguentar acompanhar bem das carnes mais gordurosas aos queijos mais pesados - e fazer desaparecer os gostos mais sutis.

Já em Bourgogne... Bem, a Borgonha, como nós chamamos essa área do centro-oeste francês, é quase o oposto da confusão de Bordeaux. Se nas ruas da principal cidade da região rival, abundam turistas cafonas, restaurantes caça-níquel e pós-adolescentes de carro novo cantando pneu, Dijon, a capital da Borgonha, parece não se importar nem mesmo com aqueles grupos que seguem a guia de guarda-chuva em punho. É elegante e sóbria como o seu vinho. Opa, pera. É quase isso.

Uma área tão grande produz vinhos muito diferentes entre si, mas há, ao menos, três características que se mantêm praticamente inalteradas: 1/ as garrafas são mais arrendondadas, dando um aspecto mais, hum... charmoso. 2/ as cepas são únicas - e o pinot noir é o mais barato e comum de todos no norte [#cholamais]! 3/ há um controle fortíssimo da qualidade dos vinhos produzidos na região. Lá, antiguidade não é posto. É necessário o pessoal correr atrás do prejuízo a cada ano para manter suas denominações intactas. Se não...

Esses controles de qualidade não são uma certeza de que o vinho é bom ou ruim. Há infinitos motivos e outras infinitas razões para se gostar ou não de um vinho. Um vinho é uma líquido vivo [raramente se consegue, por exemplo, duas garrafas exatamente iguais] que foi influenciado por inúmeros fatores, como a condição do solo, a quantidade e a qualidade de sol no ano e, após as reticências e o et cætera, o grande e absurdo acaso. Saber como um vinho foi preparado não garante qualquer certeza sobre sua degustação, apenas que ele é o melhor que poderia ter sido preparado dentro de um mundo que não respeita qualquer CNTP.

Outro detalhe curioso é a presença mais marcante dos bourgognes na culinária. O boeuf bourguignon é onipresente em Dijon. Os ovos en sauce meurette, idem. O coq au vin não aparece sempre nos cardápios, mas também não é bem uma surpresa. É um vinho mais, hum, simples - no sentido de mais leve, mais tranquilo, que pode "compor" melhor, sem querer sobrepujar nada nem ninguém. É aqui que os adjetivos desaparecem para os só amadores do vinho.

O certo é que há um controle e uma organização na Borgonha para um vinho mais, hum, puro. Isso me leva a especular que o processo é uma boa metáfora para o capitalismo. Como se o processo de industrialização na área tivesse se desenvolvido ao custo de muito trabalho e investimento. Agora a intenção é aperfeiçoar o produto para se chegar no mais próximo da perfeição. Enquanto isso, na outra área - Bordeaux -, teria havido uma acumulação a partir da exploração do solo, com a criação de [praticamente] capitanias hereditárias, que se mantêm [praticamente] inalteradas depois de tantos anos. Bem, é isso, ou a minha vontade de ver sempre a nossa herança colonial em todos os lugares.

A "rivalidade" Bordeaux x Borgonha é, de alguma forma, a demonstração da divisão interna desse país que é atravessado por vontades tão conflitantes, tão opostas. São duas maneiras diferentes de produzir vinho, duas histórias quase opostas, e o resultado é claro: duas bebidas incomparáveis. Ou quase. Borgonha é Nova Inglaterra, Bordeaux, Sul dos EUA. Borgonha é Norte da Europa, Bordeaux, o Sul. Borgonha é Flu, Bordeaux, Fla. Apesar de minha preferência pelos gostos mais arrebatadores, não é surpresa, portanto, saber qual é o melhor vinho francês.

quinta-feira, 6 de julho de 2017

A casa [da mãe Joana] França-Brasil

D'accord, dou o braço a torcer. Agora, parece inegável que a relação Brasil-França (ou seria Rio-Paris?) é maior, ou pelo menos de outra natureza, mais íntima, mais profunda, que a do Brasil com outros países ricos. É claro que essa é uma percepção subjetiva, mas é a mesma impressão e método que usei para avaliar outros países. Como forma de contra-prova, ou prova dos 9, eu me defendo dizendo que estava até recentemente tentando evitar essa associação de todas as formas. Mas contra as coincidências quase cotidianas [a última foi a francesa que nasceu no Brasil, o pai é ex-diplomata no Rio e o irmão, produtor de cinema de "Cidade de Deus" e outros blockbusters nacionais] não há muitos argumentos.

Sempre me perguntei, para evitar uma aproximação exagerada entre Brasil e França, que falseasse o real: por que a França - e não outro país - teria essa ligação íntima com o Brasil? O que a França - ou Paris; ou Paris? - tem que outros lugares não têm? A questão é que não consegui fugir das questões com respostas satisfatórias e agora estou me esforçando para levantar alguns possibilidades de caminho.

Minha primeira tentativa é histórica. Os franceses tentaram, diversas vezes, colonizar não somente o Rio, como também outras áreas da costa do que veio a ser o Brasil. Discordando daqueles que reclamam do nosso passado português, imagino que para nós, que somos o resultado de uma colônia europeia com tráfico de escravos africanos tirados a força de suas casas dentro de um território manchado com o sangue do genocídio indígena, não haveria muita diferença. Vide o Haiti. Reze pelo Haiti. Todavia, para os franceses...

Para os franceses houve, suspeito, uma sentimento de perda, de queda de um espécie de paraíso na Terra. Uma terra em que, finalmente, eles cumpririam o destino deles: o de serem os donos da porra-toda. Em outras palavras, a Casa Grande numa terra grande.

[Pausa para dizer que se os jornais ainda poderiam ser usados como forma de entender uma parcela representativa da sociedade, o mais que insuspeito "Le Monde" demonstra como os franceses pensam sobre o restante do Monde. Todo e qualquer assunto internacional é, de uma maneira bem direta, parte das suas políticas internas. Eles devem, de alguma maneira, estar a par de todos os assuntos porque eles teriam, numa imaginação um pouco fantasiosa, influência direta nisso. Dias desses, por exemplo, a capa do site era sobre um drama na sucessão do trono na Arábia Saudita. Noves fora o peso estratégico do reino, o tema é, no mínimo, estranho para olhos brasileiros. Fim da pausa.]

Voltando à França, e à sua relação com o Brasil. Os gauleses, sem o Brasil para explorar, se sentiram naquela famosa relação de quem poderia ter sido e nunca foi. Uma promessa nunca cumprida. Um potencial não explorado, por motivos de: caminhos tomados estranhamente na vida - da vida. Seria possível, com pouco esforço, dizer o mesmo do Brasil, apelidado pelo Stefan Zweig de "O país do futuro". O mesmo Zweig, vale o comentário, que tem uma presença bem mais constante aqui em sebos e livrarias que em outros países que visitei [nunca fui à Áustria, no entanto].

Haveria, daí, uma segunda identificação entre o Brasil e França. Os dois se sentiriam parte do mesmo clube dos corações frustrados. França, como o irmão mais velho e rabugento, Brasil, como o mais novo e festivo. De onde nasce a terceira ligação.

Poder-se-ia [o presidente-intestino ficaria orgulhoso da mesóclise] supor que esse irmão mais velho e ranzinza quer, no fundo, cair na folia do mais novo. Haveria uma inveja... não, não: uma cobiça, uma vontade de ser desse modo descompromissado, desleixado, desse jeito de não se levar a sério, não conseguir se levar a sério - mesmo quando uma dose leve de seriedade seria indicada - do Brasil e dos brasileiros. [Esse modo que não é, claro, mais que uma caricatura em zoom out da maneira de ser que o Brasil exporta para si mesmo e para os outros.]

Isso lembra as maneiras atrapalhadas do franceses de não se deixarem ser tão desleixados, de não deixarem a cultura do jeitinho se espalhar indiscriminadamente: com uma mão pesada da burocracia. Não há ninguém que more aqui mais que um mês que não tenha ido aos correios, La Poste, aqui. Para ter um celular de conta, por exemplo, é necessário mandar uma carta de próprio punho assegurando que você não atrasará o pagamento. Sabe lidar com a sólida e inflexível estrutura de algumas instituições públicas brasileiras, que têm pouco ou nenhum jogo de cintura? Agora multiplique por três. Pronto.


Há, portanto, um aspecto cultural - no sentido mais amplo do termo - em comum entre Brasil e França e o território francês, com sua particularidade geográfica, só vem a confirmar isso. É banhado pelo Mediterrâneo, por baixo, e pelo golfo de Biscaia e pelo canal da Mancha, que é uma saída já do mar do Norte, por cima.

Existem diversas maneiras caricatas de dividir a Europa [ver ao lado], mas uma das mais comuns é entre o Norte [protestante, frio, funcional, moderno...] e o Sul [católico, caloroso, confuso, clássico...], que funciona "bem", até a página 3. No máximo. A França, como os mapas aí do lado mostram, carrega as cicatrizes dos dois lados da fronteira Norte-Sul. Há uma culpa por não ser tão eficiente, quanto os irmãos de cima, nem tão relaxados como os irmãos de baixo. Há sempre um sentimento de não estar confortável com o que se é. Um estar desalojado de si mesmo. Um sentido que o brasileiro e a brasileira de classe média levemente intelectualizada conhecem bem, apostaria.

Ao mesmo tempo, a França é ainda um país extremamente central na Europa, propagadora de vários dos elementos que compõem os alicerces das chamadas democracias liberais. Além disso, é uma das mais consolidadas metonímias da Europa, fruto de governos centralizadores, reis, imperadores e que tais. Essa sua posição histórica-geográfica obrigaria, nessa minha hipótese, a França a ter uma participação mais ativa na política internacional [vide as manchetes do "Le Monde"], quando, na verdade, ela só gostaria de estar relaxada numa praia tropical, tomando caipirinhas [onipresentes] ao som de samba [idem]. Voilá, uma contradição não-ambulante. Uma contradição bem brasileira.

Mas por que a França? Por que não outros países com mais vínculos com o Pa-tropi? Bem, porque Portugal ficou muito pequeno para o Brasil. Talvez eles tenham essa relação mais íntima com Angola e, quiçá, Moçambique, sabe-se lá. Espanha tem suas próprias ex-colônias para se preocupar - e invejar. A Inglaterra é fechada dentro da sua própria Commonwealth de influência, e muito cinza para se alegrar com sombra e água fresca. Alemanha tem a barreira da língua, quase intransponível num primeiro momento. Os EUA são abastecidos por tantos outros estrangeiros e influências externas, que a força brasileira se dilui completamente. A França reúne, talvez por coincidência, os elementos para adorar o Brasil, para ter esse diálogo quase paternalista. Não é responsável por suas mazelas, portanto não carrega uma culpa, e não recebe uma onda massiva de imigrantes. E, principalmente, valoriza os nossos clichês como a utopia a se alcançar. Vai entender.

É, ainda, na França que o emigrante brasileiro que não quer tentar a sorte nos EUA [por qualquer motivo que seja], e não sabe falar outra língua além do português-brasileiro com forte sotaque, se arrisca. É o irmão mais novo pedindo ajuda ao irmão mais velho. E tome bar baiano, restaurante com feijoada, roda de samba, forró misturado até com música dos balcãs [dizem que é divertido].

O La Fontaine é sempre citado nos cursinhos de francês com suas fábulas de moral nível He-Man explicando o episódio. Num de seus versinhos que não bebeu diretamente de Esopo, ele fala de uma formiguinha trabalhadora e acumuladora de capital, e de uma cigarra, que canta a vida, sem se preocupar muito com o dia de amanhã. Parece que de alguma maneira, Brasil e França são da mesma família: a das cigarras que são, no menor ou no maior grau, obrigadas a se comportarem como formigas. Talvez um dia consigamos simplesmente nos sentir bem em nossa própria pele.

quinta-feira, 29 de junho de 2017

O paradoxal exercício da escultura de Rodin

Almoço na casa de franceses. Dia quente, conversas variadas: política brasileira, agricultura familiar, Roland Garros. Ao fim, o dono da casa faz uma piada: agora vou mostrar a maior contribuição da França para o mundo. Sem muito pensar, sem saber exatamente o que estou fazendo, respondo: Rodin? Ele ri. Na verdade, era apenas um camembert.

Depois fui investigar essa minha resposta de supetão. Não falei nenhum dos impressionistas do século XIX, nenhum dos escritores românticos, nenhum dos realistas, não falei de Proust, nada. Citei Rodin. Por que Rodin? Talvez a exposição no Grand Palais que lembra os 100 anos de sua morte tenha me dado a resposta.

Talvez a escultura, entre todas as artes plásticas, seja a que consegue demonstrar com mais facilidade a materialidade da obra. É quase impossível não perceber que aquele busto brilhoso de Camille Claudel à sua frente não saiu de um pedaço de bronze. O toque do homem sobre o material bruto é muito claro. A mágica é evidente - sem que saibamos como ela é feita, claro. Alguns escultores, talvez os maiores nomes da escultura, perceberam a necessidade, ao longo da carreira, de demonstrar essa materialidade, de deixá-la à vista. Rodin, claro, não fugiu a essa tradição.

Ele era uma mestre dos materiais. Transitava bem entre o gesso, o mármore e o bronze - apesar de ser um craque, o maior de todos, no gesso, esse material renegado no século XX. De qualquer forma, quase não percebemos essa diferença. Porque a escultura carrega uma outra característica que é paradoxal com a primeira citada ali em cima: apesar de sua materialidade, nós esquecemos o seu material.

É olhar para o jovem retratado no "L'age d'airain" [ao lado], que de tão natural, segurando sua cabeça, andando, foi quase impedido de participar de um salão de arte, sob a acusação de modelagem, e se perguntar: quando esse rapaz vai se mover? Mesmo que ele seja feito de bronze.

Seu São João Batista musculoso e caminhando. Sua efígie da República francesa, séria, como se fosse a mais importante e necessária figura do mundo. O pensador, a figura ícone de um século XX que se propunha científico, racional, após todo o positivismo do XIX, mas cuja utopia explodiu nas duas grandes guerras. O homem sentado refletindo. Sobre o quê?

Um momento tão diferente do nosso, de fluxo obrigatório da euforia, como forma de sobrevivência, que nos arrasta, nos leva, caso não paremos sobre uma pedra para pensar. Depois se descobre que tal estátua foi pensada para figurar sobre a monumental "Porta do inferno", que nunca foi completa, mas deixou várias obras para a posterioridade (como, por exemplo, "O beijo"). Primeiro, Rodin imaginou que o pensador representaria Minos, o rei do inferno. Depois, Dante, o autor da divina "Comédia". O homem por trás da criação. O homem substituindo o papel de criador que era divino. Deus, afinal, estava para morrer.

"Rodin reafirma sem cessar a presença da natureza no coração de sua obra", diz um trecho do texto de apresentação da seção dedicada ao que foi chamada sua fase expressionista, antes ainda de ele ser consagrado. Essa seria a parcela de materialidade que toda a escultura carrega. Em seguida, o texto aceita o paradoxo que toda obra de arte deve carregar em si, para ser digna desse nome. Rodin se liberta da posição de sujeito genial, de artista criador, e deixa a obra simplesmente acontecer - mas age, assim, contra a própria natureza do material. "O corpo é um modelo onde se imprime as paixões", diz o artista.

Ele não precisa respeitar os limites do "real". O corpo comanda a escultura - entendido aqui como o ato de esculpir. Pescoços longos demais, braços inexequíveis, movimentos improváveis. A intenção é fazer o material base dançar. É fazer ouvirmos a sua música. Artista e obra bailam junto num pas de deux quase invisível. É nesse "quase" morada da mágica.

N'"O beijo", há uma maciez na pele de Francesca, uma tranquilidade no rosto de Paolo, personagens românticos da "Comédia" dantesca que inspiraram Rodin. A sensualidade explode com ela se doando completamente e ele a recebendo. Pensamos em Camille Claudel e o relacionamento sempre desigual entre professor e aluna. A pedra de onde os corpos nascem é também o banco onde os amantes estão sentados para namorar. Há um romantismo, sim, mas um romantismo mais do século XX que do século XIX [a obra foi concebida entre 1881 e 1882]. Há uma abertura, uma possibilidade dos dois serem livres.

A sensualidade é presença forte nas obras de Rodin. Cresce com "Psyché e Printemps", e a ninfa surpresa de ser surpreendida, "Fauno e Ninfa", com um verdadeiro ataque do personagem meio bode, meio homem, mas principalmente com "Je suis belle", em que a mulher pula sobre o homem [ao lado].

Existe uma busca por uma expressão humana, no sentido do animalesco, do emotivo, do lado que não exibimos normalmente, mostrando os sentimentos que nem sempre consideramos os mais nobres. Ugolino, outro personagem dantesco, conhecido por devorar os próprios filhos no capolavoro do fiorentino, rasteja, sobre as quatro patas. A velhice, a vitória da criança prodígio. Ele mostra o que não podia ser mostrado. Mesmo "O pensador", e seu tema mais "racional". O que nos faz interromper o fluxo da vida, nos afastar e refletir? Sermos afetados. Afetos.

Curiosamente, além da série "O pensador", há também uma chamada "A meditação ou a voz interior" [abaixo]. Dessa vez, a personagem é claramente feminina, está em pé, em tamanho natural, com o corpo totalmente retorcido, o rosto um pouco caído, como se se perguntasse sobre algo e quisesse se escutar. Não há braços, apenas o movimento. Rodin queria se concentrar apenas no principal. Ela também foi afetada, mas diferente do homem que se imobiliza, a mulher não tem um destino inquebrantável, deve se adaptar durante o próprio percurso.

Há um enfoque nas figuras femininas nessa altura da vida, já mais maduro, após 1890, ou é impressão minha? "Íris mensageira dos deuses" é uma estátua de bronze sem cabeça com as pernas abertas e todo o seu sexo à mostra, por exemplo. Seria ele percebendo a importância feminina?

Após Rodin, foi possível liberar a nossa imaginação para completar a figura. É o fim, afinal, da figuração. Rodin, que bebeu tanto dos clássicos, como Dante, se transforma em um ícone, seguido pelas gerações que vieram após ele. Mira no passado e acerta o futuro. Abre caminhos, como toda arte mais revolucionária.

Rodin talvez seja uma das maiores referências francesas para o mundo contemporâneo porque atingiu o patamar desejado por todos os artistas, que merecem esse nome. O de sumir atrás do gigantismo de sua obra. "O pensador" é um símbolo de uma época. "O beijo", idem. O "Homem que marcha", uma escultura já do fim da vida, aparentemente banal, um exercício de desfiguração, vira um desses temas sempre revisitados por outros artistas. Talvez a maior influência de Giacometti, uma das grandes sombras sobre Picasso escultor. Na exposição do Grand Palais - só em Paris deve ser possível reunir tantas obras de tantos grandes nomes, no mesmo lugar ao mesmo tempo - é possível comparar as obras e enxergar uma das linhas de fuga inaugurada pelo escultor. Esse artista, como diz o texto inaugural da exposição, que queria encontrar a epiderme da matéria bruta. Parece ter conseguido.

segunda-feira, 26 de junho de 2017

Comunas [cristãos] de Paris

A primeira vez que visitei a França, ou melhor, Paris, eu morava na Inglaterra, em 2012 [disclaimer: esse texto não é uma reclamação de Primeiro Mundo, nem uma tiração de onda, mas uma crônica de uma viajante, com cheiro de sociologia de botequim - não confundir com o carneiro montanhês francês].

A minha primeira impressão sobre a França, ou mais especificamente sobre Paris, se sustenta quase exatamente igual desde então. Se há alguma diferença, ela está apenas na profundidade do que eu senti nesse primeiro coup d'œil.

Percebi, em comparação, que os londrinos teriam a melhor-pior maneira de encarar o outro, o estrangeiro: ignorando-o; comportamento, na superfície, igual ao que ele pratica com qualquer outra sujeito, independentemente de sua origem. Já o parisiense faz questão de mostrar que há uma diferença entre ele e o outro.

Esse comportamento que ressalta a diferença não é - vendo agora - necessariamente pior que a inglesa. Nessa primeira visita, cheguei a apelidá-la de pior-pior maneira, mas hoje vejo que uma sociedade complexa como a parisiense cria diversos mecanismos para responder a esse primeiro impulso de segregação.

Autoestima: "Ainda um francês que se
faz inesquecível"

Já é um clichê dizer que Paris e Londres são nêmesis. Cidades-irmãs separadas por um estreito canal que muda de nome dependendo do lado que você o enxerga. Uma rivalidade parecida com a que acontece com Rio x São Paulo, Barcelona x Madri, Nova York x Los Angeles.

Essa disputa entre Londres e Paris, suspeito, nasce do fato de ambas terem sido capitais de países que, nós querendo ou não, justamente ou não, dominaram política, cultural, filosoficamente o mundo chamado Ocidental por séculos. Em suma, foram o berço do imperialismo clássico, de raiz, imperialismo moleque, daquele que escravizava sem meias palavras, sem qualquer tipo de desculpinha esfarrapada [sic] politicamente-correta [sic]. E, consequentemente, ainda hoje continuam exercendo uma influência inegável no xadrez mundial da atualidade. Pense no [combalido] Conselho de Segurança da ONU, por exemplo.

Ao mesmo tempo e da mesma forma, ambos Estados também perderam consideravelmente suas áreas de exploração-colonização, direta ou indiretamente. Houve a ascensão dos EUA, houve o processo de independência, houve a formação da UE. Todo esse processo de perda de poder aconteceu há no máximo 50 anos, o que mostra como ele é recente. A produção intelectual apelidada de pós-colonial [talvez após Edward Said e o seu "Orientalismo"] floresce principalmente nesses dois países, não por coincidência [mas não apenas, vide Portugal e EUA, só para citar outros dois casos bem diferentes].

A diferença do tratamento ao outro, entretanto, não pode ser explicada nesse passado em comum. Aí que mora a distância entre as chips e as frites. Minha suspeita tem a ver com com a mentalidade religiosa em ambos os países.

Talvez um grande exemplo [há vários] de como a religião não é exatamente o centro da vida inglesa seja o fato de dentro da catedral de Westminster haver duas enormes homenagens a dois santos da ciência: Charles Darwin e Isaac Newton. Isso sem contar ainda com o canto dos poetas, onde vários dos principais escritores ingleses estão enterrados [aqui em Paris, eles estão no Panthéon, cuja principal atração, na minha humilíssima opinião, é o pêndulo de Foucault]. Além disso, podemos pensar que a chefe da igreja anglicana é... a rainha. Se isso ainda não serviu para mostrar a diferença entre um país e outro no quesito, último argumento: Na Inglaterra, todos os museus são gratuitos, enquanto as igrejas cobram ingressos para sua visita. Bem, acho que não é necessário lembrar que na França é exatamente o oposto, né? Notre Dame, Sacre Cœur e companhia têm livre acesso, enquanto o visitante comum tem que gastar uma grana para ver a fila de turistas tirando foto com a Gioconda.

O cristianismo, principalmente o catolicismo, é central no pensamento francês. Mesmo que não seja óbvio, ele aparece subtefurgiamente. O inglês seguiu a cartilha weberiana antes mesmo de ela ser escrita.

Há, sugiro, por conta dessa diferença, uma culpa - que não dá para chamar de outra coisa que não "católica" - nos franceses. Como se eles soubessem, mesmo que inconscientemente, que dependem, sempre dependeram, do outro - do estrangeiro - para serem o que são: uma potência mundial. Não precisa ser versado nas artes psicanalíticas para sacar que qualquer dependência cria ódio tanto no dependente quanto no objeto de dependência.

Por outro lado, esse sentimento mais explosivo, mais emotivo, cria, como já mencionado, mecanismos de compensação. Pense no caso clássico de se pensar a diferença entre o racismo brasileiro, que tem vergonha de dizer o seu nome, em relação ao americano, em que ele é escancarado. De qualquer forma há uma maneira "melhor" de ser racista? [Essa pergunta, aliás, faz algum sentido?]

Um desses mecanismos é, claramente, a força da esquerda na França. Mesmo que do outro lado da poça se discuta seriamente o socialismo e suas origens (Marx e Engels - inglês em alemão - moraram lá) - a impressão é que do lado de cá, o pensamento mais libertário é bem mais forte e constante. Pense nas grandes revoluções ou revoltas: 1789, 1848, 1871, a resistência francesa na Segunda Guerra, 1968. Claro, houve revoltas e revoluções também do outro lado do canal, uma até em que o rei perdeu a coroa, e muito antes de se inventar a guilhotina. E, sim, a mais famosa das revoluções de cá não mudou, assim, muito as estruturas do estado das coisas. Mas é inegável a tentativa francesa de tentar, como dizem os anarquistas do Comitê invisible em seu livro "Maintenant", criar em terra o reino dos céus, prometido na bíblia. Mesmo com o Estado laico e tudo. Que estranho sentir saudade, mesmo que de maneira oblíqua, da santa igreja apostólica romana.