segunda-feira, 22 de abril de 2019

A crise estética atual em dois filmes

A crise estética que assola o país não é um problema só de quem gosta de Romero Brito ou para os que passam corrente de Whatsapp com orações sobre um dos avatares da mãe do nazareno. Não é também apenas para espectadores mais conservadores que ainda estão impressionados com a verossimilhança de determinados quadros ou esculturas antigas, e qualquer forma menos óbvia se torna um choque e uma impossibilidade de enxergar. Nem mesmo para quem se espanta com obras que mostrem ou sugiram qualquer nudez, ou insinuem sexo, convencional ou não, e relações outras que a heterossexual. É um problema que afeta todo mundo, dos que não se interessam por arte até quem se acha imune ao pensamento estético retrógrado.

O progressivismo, que colonizou a cabeça de toda a metafísica do Ocidente nos últimos 200, 300 anos, atingiu a arte de maneira brutal. De uma forma muito grosseira, pode-se dizer que um tipo de narrativa do século XX defende a ideia de que se pode traçar uma fictícia linha reta entre dois pontos imaginários na trajetória artística da Modernidade. A perfeita representação espelhada da "realidade", de um lado, e os experimentalismos ligados à abstração, do outro. A arte deveria percorrer, ao longo da História, esse caminho, de um extremo ao oposto.

Assim, até a invenção de objetos que capturam a "realidade" de forma "mecânica", a arte estava em busca de uma maior perfeição em "retratar" o que há. À arte, portanto, bastava então ser o mais fiel possível ao "real", repetindo-o em todos os detalhes possíveis. Com a fotografia e depois o cinema, a arte buscou outros projetos - principalmente a abstração - , que pudessem torná-la ainda relevante, já que como "cópia" da realidade ela jamais poderia competir com as máquinas. Obviamente ambos os modos de interpretar a arte são, no mínimo, pobres, a começar por pensar uma "realidade" nua, pura, sem qualquer adereço, ou imaginar algum tipo de produção que não tenha algum grau de subjetividade.

De toda forma, essa busca experimental pela abstração - junto a outros inúmeros fatores, como o crescimento da classe média de padrão pequeno burguês nos países ricos, o florescimento de outros modos de entretenimento, mais pueris e leves, a competitividade exacerbada no campo do trabalho, etc. - criou uma cisão imensa entre a produção artística de proa [para evitar usar a palavra vanguarda aqui] e a sua influência na sociedade.

Vale um pequeno parêntese para dizer que nunca houve uma grande influência da arte na sociedade - ao menos não nos moldes genéricos [em qualquer sociedade] e nas definições estanques [i.e. nas belas artes] como se espera ao contar essa história. O que vale são aproximações de pensamentos, tais como quando dizemos "a democracia grega", sem sublinhar que nem mulheres, nem crianças, nem escravos podiam votar. A arte - no Ocidente estendido - tinha um peso e um papel na sociedade até o século XX que foi abrandada em função do aparecimento de outros mecanismos a ocupar o espaço-tempo do mero mortal. É mais fácil ver uma novela na TV que encarar um romance cabeçudo, por exemplo.

Sem qualquer tipo de comunicação, sem observadores, espectadores, leitores, sem gente, enfim, que fique do outro lado, a arte [aquela mais estanque, deixemos claro outra vez] se tornou um mero penduricalho, uma tradição que contamos para nós mesmos na tentativa de se alcançar algo que se perdeu. Ou seja, um processo bastante conservador.

Para piorar, há ainda outro caminho extremamente retrógrado: a busca vazia pela experimentação, que se torna um processo ególatra viciado, sem qualquer embasamento, repetidor, de uma subjetividade exclusivamente individualista. São geralmente as produções mais caricatas, mais vergonhosas.

Bem, esse era o problema da arte há 20, 30 anos - que continuam a reverberar até hoje, infelizmente. Atualmente, a questão é ainda mais complexa.

Um dos caminhos mais adotado pelos artistas atuais na tentativa de começar a se comunicar é muitíssimo bem-vinda: sair dos centros e entrar nas periferias, nos subúrbios. Isso quer dizer que o homem, branco, hétero, cis, adulto, perdeu seu espaço para outros povos surgirem. Um desdobramento disso foi a tentativa de dar voz aos próprios personagens para eles mesmos contarem suas histórias, sem intermédio de ninguém. Procedimentos que merecem todos os aplausos. O problema acontece quando falta imaginação na criação do universo a ser retratado, pintado, desenhado, escrito.

Dois filmes recentes que receberam prêmios e ganham continuamente elogios de nomes respeitados caem nesse problema de encurtamento de horizontes. O primeiro é Arábia, de João Dumans e Affonso Uchoa; o segundo, Temporada, de André Novais Oliveira. Ambos - curiosamente produções mineiras, essa quase periferia - mostram o mundo do trabalhador de baixo estrato social, precário, enfrentando todas as questões dos pobres quase marginalizados em centros urbanos médios. Os protagonistas dos filmes, interpretados por atores amadores ou semi-profissionais, são retratados com proximidade, com intimidade, com carinho, até. Quase nos tornamos amigos deles. Ambos os filmes, contudo, sofrem de um problema de naturalismo excessivo.

Os realizadores das duas obras parecem querer captar uma "realidade" última que tinha ficado escondida após anos de enfoque exclusivo nos grandes centros. Mostrar a banalidade da vida cotidiana de personagens tão profundos quanto quaisquer outros. Interferir o mínimo possível na "verdade", quase como uma espécie de velho-neo-realismo. A impressão que fica é que a função dos diretores foi basicamente falar "ação" e depois "corta", sem se preocupar em nada com o mise-en-scène [o que é obviamente um exagero de minha parte]. Os personagens, com as suas vacilações, suas linguagens pobres, seus universos relativamente restritos, são um "retrato" do momento atual, definitivamente, como o são, também, programas como o BBB, por exemplo [mas qual expressão não seria o retrato do seu próprio tempo?]. Os filmes, entretanto, não mostram qualquer outra potência: são pouco imaginativos, pouco criativos. Ambas as produções abrem quase nenhum ou nenhum espaço para se vislumbrar, se almejar, se pensar algo diferente do que já foi dado.

Suspeito que o fato desses filmes serem bem quistos por uma gama grande de pessoas mostra a nossa atual incapacidade de se pensar um mundo diferente do nosso, a nossa tal crise estética. Porque, se há uma "função" para a arte, em qualquer das suas habilitações, é ampliar o horizonte do possível; é criar possibilidades que antes eram vistas como absurdas; tornar real, portanto material, palpável mesmo, uma utopia. Arte deve criar mundo, não representá-lo.

ps. Me ocorrem dois filmes [poderia citar mais], por acaso pernambucanos, que mostram a abertura de mundos absolutamente novos: Boi neon, de Gabriel Mascaro, e Tatuagem, de Hilton Lacerda. Talvez não estejamos totalmente perdidos.

sábado, 6 de abril de 2019

Friedrich Nietzsche: § 343 de "A gaia ciência"

343

O sentido da nossa jovialidade. – O maior acontecimento recente – o fato de que "Deus está morto” de que a crença no Deus cristão perdeu o crédito – já começa a lançar suas primeiras sombras sobre a Europa. Ao menos para aqueles poucos cujo olhar, cuja suspeita no olhar é forte e refinada o bastante para esse espetáculo, algum sol parece ter se posto, alguma velha e profunda confiança parece ter se transformado em dúvida: para eles o nosso velho mundo deve parecer cada dia mais crepuscular, mais desconfiado, mais estranho, "mais velho”: Mas pode-se dizer, no essencial, que o evento mesmo é demasiado grande, distante e à margem da compreensão da maioria, para que se possa imaginar que a notícia dele tenha sequer chegado; e menos ainda que muitos soubessem já o que realmente sucedeu – e tudo quanto irá desmoronar, agora que esta crença foi minada, porque estava sobre ela construído, nela apoiado, nela arraigado: toda a nossa moral europeia, por exemplo. Essa longa e abundante seqüência de ruptura, declínio. destruição, cataclismo, que agora é iminente: quem poderia hoje adivinhar o bastante acerca dela, para ter de servir de professor e prenunciador de uma tremenda lógica de horrores, de profeta de um eclipse e ensombrecimento solar, tal como provavelmente jamais houve na Terra?... Mesmo nós, adivinhos natos, que espreitamos do alto dos montes, por assim dizer, colocados entre o hoje e o amanhã e estendidos na contradição entre o hoje e o amanha, nós, primogênitos prematuros do século vindouro, aos quais as sombras que logo envolverão a Europa já deveriam ter se mostrado por agora: como se explica que mesmo nós encaremos sem muito interesse o limiar deste ensombrecimento, e até sem preocupação e temor por nós? Talvez soframos demais as primeiras conseqüências desse evento – e estas, as suas conseqüências para nós, não são, ao contrário do que talvez se esperasse, de modo algum tristes e sombrias, mas sim algo difícil de descrever, uma nova espécie de luz, de felicidade, alívio, contentamento, encorajamento, aurora... De fato. nós, filósofos e “espíritos livres”, ante a notícia de que "o velho Deus morreu” nos sentimos como iluminados por uma nova aurora; nosso coração transborda de gratidão, espanto, pressentimento, expectativa – enfim o horizonte nos aparece novamente livre, embora não esteja limpo, enfim os nossos barcos podem novamente zarpar ao encontro de todo perigo, novamente é permitida toda a ousadia de quem busca o conhecimento, o mar, o nosso mar, está novamente aberto, e provavelmente nunca houve tanto "mar aberto”:



NIETZSCHE, Friedrich. A gaia ciência. Tradução, notas e posfácio de Paulo César de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 2001.

A mentira da Verdade

Existe uma concepção estagnada sobre o que é verdade (ou talvez de uma verdade estagnada) – provavelmente pensada como uma herdeira de um conceito eterno, que poderia funcionar sob toda e qualquer circunstância. Uma espécie de linha reta abstrata, uma formulação que não pode ser comprovada nem pela matemática (já que toda reta é apenas um fragmento de uma curva bem maior). Há vários problemas com esse tipo de verdade.

Um deles é a sua impossibilidade de existência: não existe nada que seja absolutamente imutável, que não se modifica em relação um evento exterior. Toda e qualquer assunção deve ser determinada por algum tipo de parâmetro. Não é possível estabelecer uma prerrogativa que funcionaria diante de toda e qualquer circunstância. Não haveria, portanto, verdade “absoluta”, ou, dito de outra maneira, transcendental.

A segunda questão problemática é de que como a ideia de uma verdade estanque serve, em todos os casos, como mecanismo de opressão contra determinados grupos. Em outras palavras, uma ideia de verdade – ou Verdade, para diferenciar de outro tipo de verdade, que há – serve para criação do que pior se pensou e se praticou como metafísica: como hierarquia de valores, em que alguns participam da festa dos bem-aventurados, enquanto outros são relegados ao pântano da falsidade, da mentira, da inferioridade.

Um tipo de esquema que funciona dentro da tradição, por exemplo, cristã, em que, por meio de intermediários divinos, como padres, pastores e asseclas, sabe-se o que é a Verdade e o que devemos fazer para segui-la. Boas ações, compra de indulgências, pagar o dízimo, odiar gays e seguidores de religiões de matriz africana, a lista se modifica a partir de cada uma das interpretações (o que só reforça o caráter impossível da Verdade). Quem não conseguir manter esse tipo de comportamento é excluído do seio da comunidade da qual fazia parte, é visto como um fora-de-casta.

Essa produção de uma verdade nos moldes de uma Verdade, ou seja, a falsificação de uma concepção que funcionaria em toda e qualquer circunstância não é, claro, uma exclusividade da vida religiosa (apesar de ser um aspecto bem característico dos dogmatismos da fé). O tipo de comportamento, por exemplo, em relação ao Mercado, esse nome adocicado para o capitalismo, é bem parecido a esse: não se pode colocar qualquer tipo de interrogação no caminho do Mercado, sob a pena de ser considerado ingênuo ou utópico. O Mercado é, do jeito que é, e não há alternativa a ele. Deve-se aceitá-lo, engoli-lo e ainda ficar satisfeito com as regras impostas.

O que Nietzsche faz é deslocar a ideia de verdade para uma posição outra que não a da detentora de uma atemporalidade, ou de um caráter transcendental. Ele não “acaba” com a verdade, ele destrói a Verdade. (nota: desenvolver melhor a diferença entre verdade e Verdade.) Ele não quer arremessar o pensamento para uma igualdade de posições em que toda e qualquer frase tem o mesmo peso – o mesmo valor, tentando usar um termo mais caro a ele – já que não haveria a Verdade. Ele é contrário à ideia de que na ausência de uma Verdade, todos os outros valores se equivalem. Em suma: ele não bate de ombros dizendo que “tanto faz”.

Ao contrário: o Nietzsche ao qual eu me filio é favorável, inclusive, a produção de outras verdades, estabelecidas dentro dos seus próprios contextos. Ele acredita que as verdades estão sempre em disputas e que não haveria como estabelecer uma verdade que seja indiferente à(s) outra(s).

A própria ideia de Verdade é a maior mentira que já nos contaram.

quarta-feira, 3 de abril de 2019

As respostas prontas do ideário olavista ou bolsominion

Se há uma "vantagem", acho, de estar profundamente perdido em relação ao futuro, ser um branco entediado e absolutamente privilegiado, é saber o que passa pela cabeça do, ou me identificar, mesmo, com o ideário olavista ou bolsominion, sem precisar participar dele [porque há limites para tudo]. Não quer dizer que eu concorde com eles, ao contrário, desaprovo profundamente a maneira como eles agem, mas é como se eu soubesse de onde sai toda essa raiva, qual é a origem de toda essa frustração.

Estou falando dessa figura classe média que sente um absurdo vazio e insegurança em relação ao que vai ser de si e do futuro - mas raramente diz isso em voz alta, mais raramente ainda para um homem -, esse personagem profundamente fragilizado, apesar da aparência de indestrutível. Esse personagem fálico, perdido,  mimado, leite-com-pera, que foi criado sob um arcabouço de desejo neurótico, com pais superprotetores, que se sente injustiçado com o seu entorno, perseguido paranoicamente, perdendo direitos, direitos quase divinos, e quer fazer alguma coisa para mudar tudo, voltar a ser como era, e, porque é bom, se considera bom, quer resolver todos os problemas, se filantropicamente, melhor, salvar os ursos polares, acabar com a injustiça social, destruir a violência, ter mais saúde, educação e outras generalidades, desde que não precise se mexer muito do sofá onde navega no celular da Apple pelo Twitter e, em alguns casos, pelos fóruns do 4chan.

É um sujeito raso, que patina sem sair do lugar, sem tesão pela vida, morno, que aprendeu que o desejo é apenas a subjugação do outro e da outra, ou é se tornar o centro do mundo, o ápice da Terra, que recebeu a informação, repetida até a náusea, de que era especial, único, primeiro colocado em tudo, e, se não fosse, o problema não era exatamente dele, mas de alguém que o invejava e atravancava o seu caminho. Um cara narcísico, ressentido, que ganhou como meta de vida a felicidade, esse termo genérico que veio substituir o paraíso cristão, e um pacote, como os de agências de turismo, com metas a prazos a completar para chegar "lá". E quando chega "lá", decepcionado porque não é exatamente como prometeram, é oferecido para ele comprar novas extensões, como jogos de videogame ou de tabuleiro, para que essa busca pela "felicidade" não tenha fim.

Esse sujeito que tem tantos rostos, tantas maneiras de experienciar esse modo de vida, que pode ser menos ou mais sensível ao seu entorno, que pode estar mais ou menos afundado, sem conseguir enxergar um horizonte diferente, que é urbano, mesmo que more em cidade pequena, que é branco, mesmo que seja filho de pardos, que é heterossexual, mesmo que não consiga esconder a atração por outros homens, que é homem-garoto-jovem, mesmo que mulher, coroa, velho, esse sujeito-maioria, que repete fragilmente frases de efeito para si, na tentativa de se manter convencido, tem alguma coisa em comum: está, ou esteve recentemente, sem qualquer perspectiva.

Ao mesmo tempo, esse sujeito estava também com raiva, com energia represada, juvenilmente querendo quebrar, destruir, ser do contra, acabar com a narração principal, descobrir uma verdade subterrânea, escondida, que só ele saberia encontrar, porque ele é único, especial, buscando ansiosamente se descobrir, saber qual é a sua assinatura, sua identidade, sair da posição de desconforto em que não se enxerga, uma posição que ele não está acostumado a permanecer durante muito tempo.

Da combinação desse vazio com o excesso de energia, buscou-se respostas para as perguntas mais genéricas: o que vou fazer na vida adulta? Qual será a minha profissão? O que é desejo? Onde está a minha felicidade? Ele sabia que o formato de vida dos pais e avós não funcionava mais - mesmo que ele não saiba exatamente o que é esse formato. Ele queria sentir o arrepio da descoberta, a surpresa da novidade, queria se sentir de novo especial, como ele se sentia com os pais, quando ele era o centro do mundo - deles. Mas não: agora ele não tem direito a mais nada. Perdeu tudo o que ele tinha, ou achava que tinha.

As respostas prontas começam a aparecer e a se multiplicar. Nada complexo, ao contrário: quanto mais simples for entender e reforçar a ideia de como ele é uma vítima do mundo, de como ele é um perseguido, melhor.

As cotas, por exemplo.
Não é justo que algumas pessoas tenham vantagens sobre as outras, Enzo pensa. Todos são iguais perante a Justiça, todos deveriam ter os mesmos direitos. Por que algumas pessoas têm mais direitos que outras? Não é praticando o "racismo inverso" que vai se consertar uma desigualdade antiga. Claro, a escravidão foi errada, mas já faz muito tempo, os negros poderiam superar esse passado, em vez de carregar o problema até hoje, com mimimi. Por isso que não "evoluem". Eu não tenho culpa se os africanos foram escravizados. Até os próprios africanos escravizavam outros africanos. O vestibular deveria ser baseado apenas exclusivamente no mérito, nada mais. Os melhores entram, os demais vão trabalhar em outro lugar. Assim que é a vida.
Enzo continua a raciocinar, tentando buscar respostas para as suas frustrações, colocando as culpas pelos seus fracassos nas costas de outras pessoas - porque ele é o centro, ele é especial.
O mesmo acontece com esse exagero de gays, ele pensa. Antigamente não era assim. Todo mundo sabe que a felicidade só existe entre homem e mulher. Nada contra dois homens juntos, mas não precisa mostrar para todo mundo. É nojento. Fica no canto, escondido, que nada vai acontecer. Os gays, antigamente, eram mais discretos. Precisa ser tão exagerado? 
Ele não saberia dizer quando seria esse "antigamente", muito menos quer abrir mão de ser o centro das atenções. O principal desgosto é outro, entretanto: como o simples fato de outras maneiras de existir, além da sua própria, afetam diretamente suas respostas-prontas, suas respostas-valise, e, consequentemente, balançam todo o edifício que está tentando construir para proteger sua própria vida. Ele ver um homem beijando outro homem o deixa em dúvida se ele deveria também beijar homens, se isso é o certo. Jamais acessando os próprios desejos, ele nega peremptoriamente, e de antemão, qualquer possibilidade outra que não aquelas que reforcem o lugar que ele escolheu e repete para si, como uma ladainha.

O mesmo tipo de perseguição acontece com mulheres, principalmente mulheres que não compartilham do seu credo. Ou com gente que pensa ligeira ou brutalmente diferente. Ou com gente que defende mais dúvidas em relação ao seu modo de viver do que apenas seguir em frente, como um animal de rebanho. Enzo coloca tudo dentro do mesmo guarda-chuva e os ataca com um único petardo: comunistas! Uma palavra apenas que junta todos os problemas do mundo, bem simplificadoramente. Basta apenas eliminá-la que a felicidade, esse novo paraíso terrestre, chegará, ele parece pensar. Se consegue admitir um pouco mais de complexidade, diria que não ainda, não tão facilmente, porque a eliminação do ideal comunista vai demorar ainda anos, já que estamos contaminados até nossas almas. Devemos resgatar os valores, devemos relembrar o passado, devemos salvar a civilização Ocidental dos ataques do relativismo, do tanto-faz, da pós-modernidade. Ninguém é igual a ninguém, ele grita da janela da sua casa, tentando reforçar suas diferença e superioridade em relação aos demais mortais.

Diante do buraco, se começarmos a nos perguntar demais sobre para onde ir, talvez fiquemos paralisados pela incerteza, pela insegurança em relação ao movimento. Nada parece nos garantir que um ou outro caminho vai nos tirar dessa incerteza lancinante. Se temos apenas uma relação de tentativa e erro, qual critério usar? Enzo sabe bem qual - um que o mantenha no topo da pirâmide social, sem qualquer movimentação. Ele quer a estabilidade para poder se enxergar no espelho e ajeitar o cabelo.

quinta-feira, 21 de março de 2019

É possível quebrar a barreira da nossa imaginação?

Recentemente Daniel Galera criou uma lista de emails, quase retornando aos tempos de COL, e recomeçou a escrever, ato que, segundo ele, tinha sido interrompido há tempos, desde antes do nascimento da sua filha. Na primeira carta, ele enfrenta a temática da paternidade como possibilidade desse hiato, mas coloca outra razão como a grande responsável pelo branco. Segundo ele, o realismo, tipo de literatura que ele pratica, de acordo com o próprio, não conseguiria abarcar o tamanho dos problemas elencados no momento atual. Em outras palavras, ainda seguindo Galera, mas adaptando o seu discurso para as minhas próprias agruras, o realismo não conseguiria descrever, fazer frente, inventar uma nova realidade diante dos hiper-objetos.

O filósofo Timothy Morton criou esse termo (hyperobjects) para descrever "entidades de tão vastas dimensões temporais e espaciais que impedem ideias tradicionais sobre o que uma coisa é, em primeiro lugar" ("entities of such vast temporal and spatial dimensions that they defeat traditional ideas about what a thing is in the first place"). O principal exemplo de Morton e Galera é o mesmo: a crise ecológica, esse evento catastrófico que gente bem mais qualificada que eu costuma chamar de a maior ameaça já enfrentada pelos seres humanos na sua curta passagem por essa bolota apelidada por nós de Terra.

A interrogação do Galera avança por um lado, mas na minha cabeça ela se desdobra rapidamente para outro, repetindo algumas dúvidas já esboçadas, implicitamente, ainda no primeiro parágrafo. A começar, qual seria o papel do realismo? "Descrever, fazer frente, inventar uma nova realidade"? Automaticamente caímos no problema seguinte: como definir o que seria o realismo, hoje, nessas circunstâncias? Seria o reflexo da... realidade? O que estaria, então, no "outro lado"?, o fantástico, o mágico... a ficção propriamente dita?

Parece uma resposta ruim, além de cutucar em uma discussão que não me interessa muito, a das definições, embora haja muita gente boa que já tentou com muito mais habilidade que eu determinar os limites de uns e outros. Talvez essas definições sirvam para se pensar outras coisas, daqui a pouco. Continuemos.

Uma das possibilidades de se definir o realismo, que eu li recentemente não sei bem onde, seria: toda obra que usa dentro do seu universo exclusivamente de recursos e regras que são usuais para o mundo extra-textual. Ou seja, no realismo, a lógica interna da narrativa não quebra a lógica da vida "aqui fora", independentemente das intenções dos personagens. Nada de gigantes ou seres humanos microscópicos, nada de fadas e duendes, de crianças que flutuam e formigas que devoram uma cidade (apesar de esse último exemplo cair mais na categoria improvável que impossível...).

Mesmo de posse de uma definição razoavelmente precisa, é difícil ainda assim nomear uma obra representante de determinada "categoria" porque qualquer definição já nasce, para mim, falha.

Suspeito fortemente que é essa a questão que está assombrando (não exatamente desta maneira) o Galera. A pergunta dele, diante do gigantismo dos problemas que se colocam atualmente, é: o que está acontecendo - para que eu possa escrever alguma coisa? Como "descrever, fazer frente, inventar uma nova realidade" diante da profunda e gigantesca crise ecológica que já, agora, enfrentamos?

Se o cataclismo ambiental é o exemplo principal de um hiper-objeto, ele certamente não é o único. Abrindo um tipo de definição que, suspeito (não li o livro), Morton não tinha como principal (já que ele dá mais foco para a questão ecológica mesmo), podemos pensar em outros. O primeiro que me vêm à cabeça é o crescimento vertiginoso da produção de dados. Como dar conta - como processar tanta informação diariamente? E essa não é uma questão colocada apenas para o escritor.

(Parênteses para dizer que morar no Brasil talvez seja um agravante a esse hiper-objeto, tornando-o ainda mais hiper. Mas se somos um caso excepcional, vamos tentar, ao menos, usar isso a nosso favor e pensar sobre. Fecha parênteses.)

Não é possível, para mim, pessoa física vulgar e banal, tentar entender o que está acontecendo com a velocidade com que as coisas acontecem. Se há cinco ou, vá lá, dez anos, tínhamos uma crise de proporções gigantescas por semana, em média, agora a periodicidade caiu para, sem exageros, diária. Às vezes com mais de um problema assustador por dia, vindo de vários lugares do mundo. Há dias em que é possível elencar diversos escândalos antes ainda mesmo do meio-dia.

Simplesmente não sou capaz de codificar e traduzir para a minha própria linguagem interna - ou seja, entender - o que está acontecendo. Nunca foi possível compreender "tudo", claro, mas parece que o "tudo" agora é ainda muito maior que o "tudo" anterior. Outra volta no parafuso: Como escrever um livro realista diante dessa montanha mais alta que o Everest de dados que são despejados diariamente? Ou ainda: por que escrever um livro realista? Ou ainda mesmo: por que mais um livro - qualquer livro? Por que aumentar a quantidade de dados, que já é avassaladora? Se já se perguntava décadas passadas quem conseguia ler tanta notícia, imagine sobre o que se fala hoje em dia de um livro...

Talvez, nós, em torno dos 40 anos, soframos de um tipo de crise geracional. Nascidos analogicamente, somos bem mais lentos para entender os assuntos atuais que os xóvens. Ou ainda precisamos, para nos sentir confortáveis com temas de importância, de um nível de profundidade que, bem, não existe mais. O grau de argumentação talvez seja mesmo os dos memes e quem tentar fazer uma frase com mais de 280 caracteres pode ser acusado de prolixo - ou velhaco. Ou talvez a única forma de lidar com essa enxurrada diária seja nos escondendo atrás do humor, e assim estaríamos produzindo nossos objetos artísticos por meio de gifs, colagens, frases de efeito, stories, textão... (atenção: isso não é uma crítica a esses novos meios expressivos; ao contrário, é quase uma inveja.)

Se isso não bastasse, ainda há um determinado tipo de massificação de informações que parece, na melhor das hipóteses, ficção. Talvez este fenômeno seja sozinho outro item da lista dos hiper-objetos; é certamente uma segmentação da montoeira de informações. Me refiro às chamadas fakenews. Ou no velho jargão carioca, o famoso caô. Se produz tanta mentira, se divulga tanta enganação, se publica tanta desinformação que não é fácil estabelecer um tipo de solo comum com um interlocutor que vive em outra bolha que não a sua. O que ele considera como "verdade" é bastante distante do que o que você considera. 

Há uma fragmentação profunda do diálogo, só temos grandes monólogos, ou, mais propriamente, gritaria de todos os lados. Quem consegue berrar mais alto acha que venceu por cansaço do adversário, enquanto quem falou menos alto diz que venceu porque não vai entrar numa discussão inócua. Ninguém muda, ninguém quer mudar, todos estamos seguramente inseguros nos lugares que achamos que é nosso, por direito. Mais uma volta no parafuso: Como competir com essa algazarra?

Ou pior: como o realismo, acompanhando a definição ali de cima, como o tipo de produção artística que tenta criar um universo que respeite as regras do mundo aqui fora, escolhe, diante dessa montoeira caótica dos tempos atuais, qual delas é a regra aqui de fora? Um outro exemplo simples: como tentar colocar dentro de um narrativa absolutamente linear, presente em todos os livros menos experimentais, a lógica das redes sociais, ou das múltiplas abas dos navegadores, ou da, enfim, internet?

A coisa fica ainda mais complicada se pensarmos em outros modos de viver que estão sendo descobertos atualmente, nesse mundo em que usamos telefone taiwanês, comemos comida tailandesa, usamos calça feita no Vietnã com tecnologia chinesa de uma empresa japonesa. Isso sem falar em outras ontologias, mesmo, além da Ocidental-moderna-racional. Espíritos entram na lógica de povos tradicionais, por exemplo. Um conto escrito e narrado por um indígena seria considerado realista ou fantástico? 

Mais uma volta do parafuso: Já vi indicações sobre como a ficção científica, e sua liberdade de criar um universo que possa desrespeitar as regras do "mundo aqui fora", criando suas próprias normais e leis, teria chegado muito mais próximo de conseguir, se não retratar, ao menos reverberar o momento atual. Isso, claro, em comparação com o realismo.

Esse gira-gira de parafuso  - que parece em falso - sobre os limites do realismo e a sugestão da busca por outros meios narrativos não é nova, mesmo. Num livro chamado Realism others, um dos seus organizadores, Geoffrey Baker, começa logo na introdução mostrando a querela entre Sartre (a favor) e Adorno (contra) sobre o tema. Sempre se pôde imaginar o realismo como camisa de força da criação, já que os limites, mesmo que bastante amplos, estão já impostos desde a saída. Temos "apenas" o mundo para usar como nossa inspiração. Mas é obviamente uma definição capenga essa. A dúvida que me atinge e, acho, atinge a muita gente agora segue, porém, um caminho por aí. Sem entrar no mérito do que é ou não realismo - porque isso me interessa muito pouco - me pergunto se seria  possível pensar em alguma coisa que quebrasse essa barreira que parece entrevar a nossa imaginação. Ou ainda: Como ir além da... realidade. Como voltar a enxergar horizontes, num mundo em que nos sentimos soterrados do momento em que acordamos até irmos dormir? Como conseguir respirar, acreditar que é possível, sonhar com qualquer coisa que não apenas o que já existe? Ou, para inverter aquela manjada frase lá do Fredric Jameson e torná-la uma questão: é possível imaginar de novo o fim do capitalismo, antes do fim do mundo?