quinta-feira, 23 de novembro de 2017

O que você levaria consigo em caso de incêndio?

Essa é daquelas perguntas cuja resposta mostra a ~~envergadura de um caráter~~. Como eu acabei de passar pela segunda experiência de fogo no meu prédio em menos de quatro anos, já dá para dizer: certamente meu computador.

(Isso deve explicar, inclusive, esse texto de desabafo - embora escrito no celular.)

Dessa segunda vez, ainda peguei o e-reader, lembrei das chaves de casa e malandramente catei um guarda-chuva - vai que o aguaceiro aperta, cheguei a pensar.

Tinha ficado até orgulhoso de mim, da minha organização, considerando que o fogo desta vez foi bem mais perto (no 203 e eu moro no 301, o que faz com que a casa esteja mais enfumaçada que filme do Cheech & Chong, sem qualquer vantagem por isso), de madrugada, e eu tinha tomado uns vinhos para dormir. Aí, já de volta à casa, percebi que tinha me esquecido da carteira. Para que levá-la, né?, me perguntei. Só vive vazia.

Enquanto estava lá embaixo, foi bom ver quem são os meus vizinhos (nesse mundo cada vez menos comunitário) e conferir o que eles levavam: animais de estimação, garrafas d’água, telefones celulares... o de sempre. Ou quase.

Sempre me lembro do primeiro incêndio, lá no 502, no meio da copa de 2014, num dia após um jogo do Brasil e de uma festa bem animada que eu tinha participado. Aquilo sim foi incêndio de verdade. Incêndio moleque. Incêndio de várzea.

Era, pelo menos, de manhã cedo e pude ver o pessoal com mais cuidado - hoje não deu para ver direito os pijamas da coleção 2017 - e o que eles carregavam. Havia documentos, mais gente carregando computadores, animais de estimação, celulares... e uma senhora que sempre me encafifou: ela levava uma pipoqueira.

Pois é.

Não me perguntem se estava cheia ou vazia. Se ela foi pega no meio do processo de fazer pipoca. Se ela é da umbanda. Ou se ela se empolgou com o fogo e resolveu... não, não, isso não.

Fiquei tão chocado que não consegui qualquer aproximação (mentira: até parece que, introvertido como eu sou, eu teria falado algo com ela em qualquer oportunidade).

Dessa vez, infelizmente, não houve nenhum folclore. Melancólicos os nossos tempos. Ou, como disse lá o barbudo, e eu dou fé: a história se repete como farsa.

quarta-feira, 22 de novembro de 2017

As dobras do tempo 'No instante agora'

Talvez a cena mais didática de “No instante agora” (finalmente vi!) para nós, órfãos de esquerda, seja a da grande manifestação pró-De Gaulle, logo em junho (acho que foi logo em junho).

O velho general tinha se manifestado durante o maio, pela televisão, e tinha sido engolido pela força dos acontecimentos do momento. Em junho (?), quando as ruas tinham se acalmado um pouco, ele decidiu falar apenas pelo rádio, veículo que ele conhecia muito bem, desde os seus discursos (desde Londres) na segunda guerra, que ajudaram a manter o moral dos franceses invadidos pelos nazistas. Ele exige a volta da ordem no país. Ameaça usar (ainda mais) da violência contra o caos, para manter o país unido, para seguir a constituição, para fazer da França a França, novamente.

No dia seguinte, uma multidão - maior em número que os próprios protestos dos eventos de maio - vestindo roupas nitidamente mais caras, enrolados em bandeiras tricolores, invade as mais famosas ruas da capital francesa para apoiar o discurso do presidente, e não recebe qualquer impedimento das forças de segurança - mesmo atrapalhando o trânsito, entrando em monumentos públicos.

O paralelo é óbvio demais para nós para não me abalar. Sempre ouvimos que a direita ganha as eleições depois de 1968, mas ver as imagens tão nítidas de um movimento conservador em marcha, após tamanha explosão de possibilidades potentes, é bastante pedagógico. Ainda mais para nós, que parecemos em geral perdidos dentro de um ethos melancólico. É confortante encontrar companhia histórica (de vez em quando).

Após o filme, fica a pergunta óbvia: a “direita” então venceu a disputa de maio de 1968? Se pensarmos no curto prazo, certamente. Eles eram maioria, ganharam as eleições, apoiaram a reação. Se pensarmos pelo viés dos próprios soixante-huitards na época, também: eles queriam uma revolução, uma mudança completa da forma de vida, manter o ritmo de transformações para sempre, numa agenda de desejos polifônicos sem mira certeira. Não era possível acertar em tudo, por supuesto. A derrota é, portanto, pelo tamanho da expectativa. Mas alguma coisa ali, sem sombra de dúvida, havia mudado profundamente. Se transformado tanto e de tal modo que não tinha como nem De Gaulle nem manifestações patrióticas segurarem sua força. O tempo já era outro, para todos.

Ps. Isso não quer dizer que devemos deitar em berço esplêndido - ao contrário. Temos que pensar que a luta é constante e sem interrupção. Temos que diversificar nossas estratégias. Como? Não tenho a mais ligeira ideia. Temos que também nos tranquilizar com os momentos de potência, para depois colocar em ação.
Ps2. Curiosamente, dois dos marcos mais famosos da esquerda no século XX distam cerca de 50 anos um do outro: 1917, 1968. Curiosamente, 2, estamos completando 50 anos do último.
Ps3. Talvez 2013 tenha sido a nossa dobra na História. Certo é que já mudamos de percepções. É o momento de nos adaptar aos novos tempos.
Outro detalhe curioso: João Moreira Salles, diretor, roteirista e narrador do filme, lembra que a cena da manifestação da direita quase não aparece nos filmes sobre o período. Nós escolhemos o que vamos contar do nosso passado.
Ainda: Sobre melancolia e esquerda: http://criseecritica.org/.../11/Uma-ou-duas-melancolias.pdf

sexta-feira, 17 de novembro de 2017

INSONE MUNDO, por Adriano Lia

[Exercício: escrita sobre um labirinto]

Mas eu deveria voltar a dormir. Parar de pensar nas minhas preocupações. Nas minhas obrigações. No que eu deveria estar fazendo. Mas como parar de pensar naquilo que se pensa? Não pensar, não pensar, não pensar. Pronto, pensei. São 3 e 40 da manhã. Posso dormir até as 9h. Dormi à meia-noite. Daria as oito horas diárias obrigatórias, e ainda sobrava. O dia vai ser longo. Já estou cansado. Tenho trabalho, depois aula, depois jantar, depois... Mas tenho que fazer a barba antes. Cozinhar alguma coisa. Comprar algum legume, fruta, sem agrotóxicos, ecologicamente responsável. Mas está tudo tão caro, estou tão sem dinheiro. Mas eu sou um privilegiado, o topo da pirâmide. Imagine o mundo real, lá fora. Gastei demais nos últimos dias. Bebi para entreter, mas só passei o tempo. Quem marcou esse jantar? Posso cancelar? Já cancelei outras vezes. Posso ou não posso? Estico a linha com obrigações à minha frente sem que ninguém esteja do outro lado. O que devo fazer? Penso em respostas compridas que nunca serão cumpridas, por incapacidade ou fadiga do material. O mudo mundo, como sói fazer, me ignora, como se fosse também surdo. O cansaço já não é só promessa. A verdade é neurótica. A paranoia, a única minha companheira.

Por que apenas eu não aceito? Está tudo resolvido. O bloquinho e a sua caneta preferida estão aqui para você. Há um mundo inteiro de possibilidades além das obrigações. Parece a cabra que expia. Reproduz os movimentos. Depois, fica um sentimento de alívio. Assim espera-se, na fantasiosa e quase inexistente das hipóteses. Frases curtas cortam o papel porque a urgência pisca. O que fazer quando o plano naufraga? Admitir a derrota – lentamente, com parcimônia, tentando respirar entre os soluços. Seguir adiante, até onde der. Depois, desabar. Sou apenas um homem. Mas não consigo admitir. Mas sou sim, só isso. Em todas as suas acepções. Desses que a ferrugem engessa os membros. O corpo se mostra finito. Mas eu posso sair do script, querer outros quereres. Mas eu quero?

As grandes narrativas não fazem (mais) sentido. Agora, a decisão tem que ser minha. Não posso colocar sobre outrem a bússola. Não há outrem. Não posso seguir mais a maré, mesmo que a maré me fosse favorável. Não há mais maré. Só há “eu”, um magro, fraco e circunstancial “eu” – o que sobrou depois de tantos anos tentando se esconder. O passo, qualquer passo, é responsabilidade. Não há mais culpados. Não sou mais vítima.

O mundo sem mapa. Era mais fácil quando eu me enganava. Mas é ainda possível? Em algum momento, você nasce e o mundo anterior se torna automaticamente estranho, pequeno, inabitável. Mas você não tem qualquer outro mundo. “Ainda” – no débil otimismo. No limbo, ter paciência. Não é a primeira vez – anotar. Escrever é: migalhas de pão despejadas no caminho. Se confortavelmente se perde, se surpreende ao se achar. Estados de espíritos.

Estou cansado, o dia vai ser longo, e eu não tenho tempo. Mas eu deveria voltar a dormir.

quarta-feira, 15 de novembro de 2017

Os limites de "Vazante"

Escrevo esse texto para tentar entender. Para pedir ajuda a minhas/meus colegas para me fazer ver. Do alto de todos os meus privilégios [branco, hétero, zona sul carioca, cis...] é quase sempre difícil enxergar a[o/s] outra[o/s]. Escrevo para sair do meu lugar, desse lugar, e escutá-la[o/s].

Vi ontem "Vazante", o novo e polêmico filme de Daniela Thomas. Uma pequena-grande crônica extremamente cuidadosa na recriação de época de uma família rica das Minas Gerais, na região dos diamantes, em 1821.

O filme é violento do início ao fim. Mostra-se diversas formas de submissão que são os fundamentos da sociedade brasileira: homens contra mulheres, ricos contra pobres, mas principalmente, sem nenhuma dúvida, brancos contra negros.

O dono da fazenda, tropeiro, querendo começar uma plantação nas suas terras, mantém um grande número de negros sob o seu jugo. Entre trabalhadores da lavoura, africanos recém-chegados, gente que trabalhava em sua casa, mulheres que vendiam doces nas praças da cidade, capatazes, negros forros que se tornam capitães do mato, todos, de uma maneira ou outra, estão debaixo de sua jurisdição - "pertencem" a ele.

É tão violenta a forma como as relações são mostradas que não há maneira de não ficar extremamente incomodado com a escravidão. Ela é tratada de maneira tão crua, tão direta, e também tão cheia de nuances, que não minoram em nada o problema, ao contrário, a acentuam: para uma vida um pouquinho melhor, o negro tinha que se "embranquecer". Ou eu, do alto dos meus privilégios, achei que não poderia ser mais incisivo.

O filme vem sofrendo, desde a sua primeira exibição pública, no festival de Brasília, uma enxurrada de críticas de representantes do movimento negro, por dessubjetivar os negros retratados na película, os relegando a um papel coadjuvante no processo todo. Por, enfim, ter contado o filme a partir da perspectiva da sinhazinha que, muito jovem, é obrigada a casar com o português dono das terras. [Alguns links nos comentários.]

É possível enxergar as alegações e responder: todas são verdade. Mas uma outra porta de pensamento se abriu para mim durante o filme: como Daniela Thomas, branca, rica, uma das pessoas que organizaram a festa de abertura da Olimpíada no Brasil, poderia fazer outro filme? Ela poderia ter colocado a câmera em outro lugar? Em outras palavras: podemos criticar o filme pelo que ele NÃO tem?

Por mais que as discussões sobre um "autor" individual, gênio que escuta as musas, já tenham mais de cem anos, e tenham retirado completamente a força dessa "inspiração divina", a grande maioria das obras que chegam ao >mercado< são fruto de escolhas de um sujeito. Ainda hoje, filmes, livros, músicas etc. são expressões de subjetividades particulares. Essas pessoas são influenciadas pelo mundo que habita, são moldadas pelos encontros, são afetadas pela/os outra/os, mas, ainda assim, foi Daniela Thomas quem escolheu o ponto de vista do filme. Ela quem disse "ação" e "corta".

Como ela falaria de algo que não é "ela"? O limite de sua atuação não é exatamente os seus próprios limites? Não estaria ela fazendo um movimento quase antropológico de "tradução" ou de "diplomacia" entre mundos que se chocam?

Reparem, não é uma defesa da elite, uma defesa corporativista, que daria carta branca para os "bem intencionados" a fazer qualquer coisa - ou ao menos, não é minha intenção consciente. Eu quero entender. Eu quero escutar, de verdade, sem qualquer ironia.

Eu sei que a obra de arte não pertence ao seu autor, mas a quem tem contato com ela. Eu sei que há diversas chaves de interpretação das obras de arte, que vão além da estética. Eu sei que a obra de arte está inserida em um determinado contexto histórico, social, cultural. Eu sei que é impossível agradar a todos [o que bate diretamente com a minha neurose]. Eu sei que, diferentemente do que diz Brás Cubas, a obra em si mesma NÃO é tudo - é necessário enxergá-la sob perspectivas. Eu só não sei o que ela poderia ter feito de diferente. Gostaria verdadeiramente saber.

sexta-feira, 13 de outubro de 2017

O bizarro Cosme & Damião tardio da Barra

Ontem, fui à Barra, esse bairro nascido à força que rasgou a história geomorfológica carioca para receber os filhos de uma então nova classe do capitalismo-tardio-periférico-feudal brasileiro. Sempre me surpreendo com um bairro criado para os carros, eu que nem sei dirigir, e ter passado muito tempo sem voltar lá nessa ilha da fantasia wannabe (me lembra a San Angeles, de "O demolidor" - aquele com Stallone e Wesley Snipes, sabe?) não ajudou em nada minha estranheza. Para piorar, uma cena parecida saída de uma distopia (essa palavra na moda) invadiu ainda mais a minha percepção.

Numa das áreas mais ricas do riquíssimo bairro, havia uma multidão de crianças - algo como uns 100, 200, sem exagero - todos muito pobres, nas margens da Avenida das Américas, tentando se entreter subindo nas árvores, brincando de pique, agindo, enfim, como crianças ~analógicas~, enquanto suas mães se sentavam em cadeiras de praia tentando também matar a espera. Mas espera de quê?

Como os sinais da Barra sempre foram lotados de crianças fazendo malabarismos ou pedindo dinheiro, minha primeira reação foi achar que o enorme grupo era efeito dos momentos atuais, de crise de perspectivas e de horizontes cada vez mais curtos. Estava certo e errado ao mesmo tempo. Era possível tanta gente viver das migalhas dos mais ricos? Depois, me explicaram: isso só acontece no dia de Cosme e Damião e no dia das crianças - ontem.

Mulheres moradoras de áreas periféricas levam suas crianças para a Barra nessas datas para receber doces (no dia 27 de setembro) e brinquedos (no dia 12 de outubro). Alguma coisa ali nessa cena me incomodava e me incomodou muito.

Talvez, primeiro, mostrar à força o contraste entre estratos sociais tão distantes. Eles não "pertenciam" àquela área, destoavam como se fosse um "erro" na programação de um bairro planejado para evitar pobres - ou, ao menos, pobres à vista. Uma infiltração, que não se conseguiu prever.

Eles me forçavam encarar de frente a verdade de que enquanto há um mar de mansões e apartamentos de frente para a praia, há um oceano de crianças carentes até do mais simples. Enquanto há meninos de classe-média que ganham tantos brinquedos que nem conseguem abrir todos os pacotes, há garotos que se sujeitam - ou são sujeitados - a mendigar por migalhas.

Mas não foi só esse componente moralista-social (que, claro, importa) que atravessou minha garganta. Havia alguma coisa além que me incomodava ainda mais profundamente. O que era, fiquei me perguntando, o que era?

Sempre fui uma criança estranha (fui?). Entre tantas estranhezas, nunca gostei de doces - portanto o Corme&Damião nunca foi um dia especialmente importante. Jamais corri atrás dos saquinhos e quando os ganhava, eles ficavam literalmente meses na minha casa sem serem tocados - até que eram provavelmente jogados fora.

Há, contudo, um elemento na busca pelos saquinhos que cada vez mais me interessa, por misturar um processo ativo a uma atitude lúdica. Meninas e meninos saem pelas ruas da cidade numa busca pelo(s) tesouro(s), sem usar qualquer tipo de mapa pré-determinado. As suas caminhadas são a própria forma de criar trajetórias, quase como arcos narrativos, da própria cidade - dessa geografia afetiva que nasce a partir das corridas. É um descobrir e se apropriar dos lugares, sem se tornar dono ou proprietário. Aquele por-do-sol é seu, mas é também de quem mais olhar. É uma espécie de atualização da proposta do flâneur, mas com pitadas de ginga e uma alegria que não constavam no original. É um se deixar afetar, mas ativamente. É um estar aberto para o que acontece, à medida que se caminha, sem ficar parado.

Exatamente o inverso da proposta daqueles pobres meninos e meninas pobres que coloriam as margens da Avenida das Américas, ontem. Os meninos e as meninas na Barra estavam sendo usados por madames para expiar suas culpas. Não pode ser coincidência o dia de ontem também ser o da padroeira desse que é o maior país católico do mundo. Os meninos e as meninas eram meros bonecos despersonalizados, sujeitados pela vontade dos outros. Mesmo que eles possam aproveitar os brinquedos, mesmo que seja melhor que eles tenham algo para brincar, mesmo que seja melhor que as madames doem os brinquedos extras de seus filhos a deixá-los estragando dentro de casa, esse encontro só reforça o desencontro. Os meninos são objetos de decoração que apenas reforçam a dignidade "altruísta", "caridosa" e "filantrópica" da nossa elite de casa grande. Não preciso dizer a cor da pele de todas- TODAS - as crianças nas margens da grande avenida, né?

Lembro de uma história de madames de Ipanema que pediram para deixar os mendigos na porta da igreja de Nossa Senhora da Paz para que elas pudessem lhes dar esmolas ao sair das missas aos domingos - e foram atendidas. Os meninos e as meninas estão sendo treinadas para serem os próximos pedintes.