terça-feira, 6 de outubro de 2020

Nietzsche, "Gaia ciência", par. 344

Em que medida também nós ainda somos devotos. — Na ciência as convicções não têm direito de cidadania, é o que se diz com boas razões: apenas quando elas decidem rebaixar-se à modéstia de uma hipótese, de um ponto de vista experimental e provisório, de uma ficção reguladora, pode lhes ser concedida a entrada e até mesmo um certo valor no reino do conhecimento — embora ainda com a restrição de que permaneçam sob vigilância policial, a vigilância da suspeita. — Mas isso não quer dizer, examinando mais precisamente, que a convicção pode obter admissão na ciência apenas quando deixa de ser convicção? A disciplina do espírito científico não começa quando ele não mais se permite convicções?... É assim, provavelmente; resta apenas perguntar se, para que possa começar tal disciplina, não é preciso haver já uma convicção, e aliás tão imperiosa e absoluta, que sacrifica a si mesma todas as demais convicções. Vê-se que também a ciência repousa numa crença, que não existe ciência “sem pressupostos”. A questão de a verdade ser ou não necessária tem de ser antes respondida afirmativamente, e a tal ponto que a resposta exprima a crença, o princípio, a convicção de que “nada é mais necessário do que a verdade, e em relação a ela tudo o mais é de valor secundário”. — Esta absoluta vontade de verdade: o que será ela? Será a verdade de não se deixar enganar? Será a vontade de não enganar? Pois também desta maneira se pode interpretar a vontade de verdade; desde que na generalização “Não quero enganar” também se inclua o caso particular “Não quero enganar a mim mesmo”. Mas por que não enganar? E por que não se deixar enganar? — Note-se que as razões para o primeiro caso se acham numa esfera inteiramente diversa das do segundo: a pessoa não quer se deixar enganar supondo que é prejudicial, perigoso, funesto deixar-se enganar — neste sentido a ciência seria uma prolongada esperteza, uma precaução, uma utilidade, à qual se poderia, com justiça, objetar: Como? Não querer deixar-se enganar é de fato menos prejudicial, perigoso, funesto? Que sabem vocês de antemão sobre o caráter da existência, para poder decidir se a vantagem maior está do lado de quem desconfia ou de quem confia incondicionalmente? E se as duas coisas forem necessárias, muita confiança e muita desconfiança: de onde poderá a ciência retirar a sua crença incondicional, a convicção na qual repousa, de que a verdade é mais importante que qualquer outra coisa, também que qualquer convicção? Justamente esta convicção não poderia surgir, se a verdade e a inverdade continuamente se mostrassem úteis: como é o caso. Portanto — a crença na ciência, que inegavelmente existe, não pode ter se originado de semelhante cálculo de utilidade, mas sim apesar de continuamente lhe ser demonstrado o caráter inútil e perigoso da “vontade de verdade”, da “verdade a todo custo”. “A todo custo”: oh, nós compreendemos isso muito bem, depois que ofertamos e abatemos uma crença após a outra nesse altar! — Por conseguinte, “vontade de verdade” não significa “Não quero me deixar enganar”, mas — não há alternativa — “Não quero enganar, nem sequer a mim mesmo”: — e com isso estamos no terreno da moral. Pois perguntemo-nos cuidadosamente: “Por que você não quer enganar?”, sobretudo quando parecesse — e parece! — que a vida é composta de aparência, quero dizer, de erro, embuste, simulação, cegamento, autocegamento, e quando a forma grande da vida, por outro lado, sempre se mostrou realmente do lado dos mais inescrupulosos πολύτροποι [homens de muitos expedientes]. Um tal desígnio talvez fosse, interpretando-o de modo gentil, um quixotismo, um ligeiro e exaltado desvario; mas também poderia ser algo pior, isto é, um princípio destruidor, inimigo da vida... “Vontade de verdade” — poderia ser uma oculta vontade de morte. — Assim, a questão: “Por que ciência?”, leva de volta ao problema moral: para que moral, quando vida, natureza e história são “imorais”? Não há dúvida, o homem veraz, no ousado e derradeiro sentido que a fé na ciência pressupõe, afirma um outro mundo que não o da vida, da natureza e da história; e, na medida em que afirma esse “outro mundo” — não precisa então negar a sua contrapartida, este mundo, nosso mundo?... Mas já terão compreendido aonde quero chegar, isto é, que a nossa fé na ciência repousa ainda numa crença metafísica — que também nós, que hoje buscamos o conhecimento, nós, ateus e antimetafísicos, ainda tiramos nossa flama daquele fogo que uma fé milenar acendeu, aquela crença cristã, que era também de Platão, de que Deus é a verdade, de que a verdade é divina... Mas como, se precisamente isto se torna cada vez menos digno de crédito, se nada mais se revela divino, com a possível exceção do erro, da cegueira, da mentira — se o próprio Deus se revela como a nossa mais longa mentira?

quarta-feira, 23 de setembro de 2020

COLATERALIDADES (ficção)

Sol, a culpa deve ser do sol
Chico Buarque 

Amanhecia e Paula quase não tinha dormido. Olhos arranhados com areia fina, nervuras vermelhas expostas, cutículas devidamente arrancadas com os dentes, dedos pulsando. Permanecera quase todo o tempo à janela, fumando e observando o nada lá fora: galhos balançando com as brisas, pássaros gorjeando preguiçosamente, o sol nascendo atrás do morro e avermelhando o céu, os primeiros corredores mascarados, motos com escapamento aberto que fazem pega pela avenida longa e vazia, o marido – ou deveria chamá-lo de ex-marido? – apagado no sofá da sala, babando na almofada. Celular jogado perto da mão, copo com cerveja pela metade em cima da mesa de centro, farelos de pão pelo chão, potinhos plásticos de supermercado vazios e engordurados, atraindo mosquinhas. Estava gordo, todos estávamos gordos, ela pensou. Mas Mário estava ainda mais gordo.

Como conseguia dormir?, ela pensou. Ele tinha assistido a uma das muitas transmissões ao vivo pela internet, que vieram substituir todos os outros entretenimentos de antes do confinamento, bebendo, como sempre, como se competisse com o cantor que também estava bêbado, como sempre. Vivíamos bêbados nessa eterna quarentena (“quarenterna”, Mário tentava um dos seus péssimos trocadilhos), mas ele sempre estava mais bêbado. Dormiu no meio do show e eu continuei aqui, na janela, tentando sentir um pouco o vento que parou de soprar há tanto tempo.

Abriu o seu computador, onipresentemente ao alcance das mãos, e pensou em começar a trabalhar. Depois das demissões, com a equipe deficiente, ela sempre tinha algo a fazer, estava sempre atrasada, devendo, sem concentração, cansada. Traduzir era uma maneira de transformar um pouco da ansiedade sem nome e sem previsão de fim em algo produtivo, ou uma forma de adiar esse tédio, um tédio estranho porque não é a falta do que fazer, que se acumula pelos cantos do apartamento junto à poeira.

Olhou para o lado e viu um tufo de cabelos. A casa pertence à sujeira. Certamente a pessoa de quem ela mais sentia saudade era dona Memê. Não importa o quanto eu me dedique, ela pensou, o chão sempre está com uma grossa mistura de fuligem, tecido epitelial morto, gorduras corporais escamadas, farelo rançoso de comida. A pia, cheia de louça, o lixo, entupido de embalagens, de sacos plásticos, de vidros quebrados na pressa, de garrafas vazias. Só a roupa não empilhava mais: havia abdicado primeiro de roupas para sair de casa, depois do sutiã, por fim, pensou em ficar 24 horas por dia pelada, mas ter captado um olhar de soslaio de Mário para os seus peitos a fez mudar de ideia. Voltou com o sutiã.

Aquela casa não era mais dela e talvez nunca tenha sido, mas Paula tinha se esquecido desse detalhe por um tempo. No projeto família feliz, ela se deixou levar sem muita reflexão. Namoro, viagens, morar junto, mobílias compradas nos fins de semana, casamento, festa, tio bêbado, primo vomitando, amigos suados na pista de dança, tocava a música deles e ela com a maquiagem totalmente borrada, ele com um olhar de completude. Isso aconteceu nessa vida? Ela percebeu a arapuca em que havia se metido antes ainda do confinamento. No dia em que ele chegou do trabalho e pediu para conversar. Mário sempre foi muito comunicativo, mas jamais preparou uma cena. Tentei antecipar todas as variáveis: amante, doença, desemprego. Não consegui imaginar algo positivo. Ele me surpreendeu, incomumente: queria ter um filho, e sorriu de um jeito infantil que, nos nossos sete anos juntos, não havia visto, e não iria ver mais.

Parece estranho, tudo parece tão estranho agora, mas se ele soubesse dessa vida merda que a gente leva agora, ele ainda teria tido vontade de ter filho? Se eu soubesse que uma das consequências desse vírus seria a infertilidade, eu teria negado para ele?

***

Como todos os dias, Sandro estava atrasado. Acelerava a moto usando todas as suas 125 cilindradas, e escutava o pedido de socorro da máquina. Sem o trânsito pendular, tão comum naquele antigamente, chegava em até meia hora no hospital, bem diferente do recorde de três horas estabelecido no seu aniversário de dois anos atrás. No dia, não aguentou, cumprimentou a avó o mais rápido que pôde, a avó que tinha ficado acordada só para lhe dar parabéns, e foi chorar de raiva no banho. A avó percebeu, perguntou o que tinha acontecido, mas ele não conseguia fazer nada além de soluçar.

Agora era diferente – como todas as demais coisas, mas de uma maneira diferente. Ao menos, ele se sentia valorizado. Um pouco, ao menos. Sempre foi considerado de segundo escalão. Enfermeiro nem era gente, ele ouvia dos médicos como uma dessas piadas em que só um lado ri. Ironicamente, o vírus tinha diminuído a distância. Não porque Sandro tinha subido algum degrau da escada social, mas porque a vida dos “doutores” tinha ficado pior. Finalmente os médicos estavam fazendo um pouco mais de jus aos vencimentos, trabalhando infinitas horas, de maneira quase ininterrupta. Alguns não sabem nem intubar os pacientes, menos ainda operar um respirador, eu tenho que ensinar tudo, mas pelo menos não escuto mais as piadinhas.

O trajeto é rápido e em geral vazio, menos debaixo dos viadutos da Avenida Brasil em frente à favela da Maré. Antes do viaduto, fica a passarela improvisada com tábuas de madeira, tapumes estragados pela chuva e andaimes enferrujados, erguida após destruírem a anterior, feita de concreto. Do outro lado, as ruínas da construção do ponto do ônibus articulado, eternamente inacabado. Tudo plano para os grandes eventos, que passaram num passado tão outro que parecia então que havia até futuro. No meio, o viaduto, sob o qual os usuários de crack tentam viver, após terem sido expulsos da favela pelos traficantes, se instalando sobre e entre as pedras paralelepídicas concretadas ao chão só para dificultar a vida. Mas eles sempre dão um jeito, sempre dão.

Sandro sente o cheiro característico, uma espécie de solvente sendo queimado aos poucos, misturado com as latrinas abertas. Vê os farrapos esvoaçantes, os colchões esburacados, as cabanas improvisadas, os papelões espalhados, os plásticos, os copinhos transformados em cachimbos, as latinhas, as lâmpadas quebradas, as pessoas invadindo as pistas, cada vez mais desconectadas, flutuando, ele tendo que desviar, receoso, não podia atropelar ninguém, e como eles conseguem dinheiro hoje em dia para comprar as pedras?

Esse era o seu primeiro medo do dia. O segundo era o da contaminação. O hospital onde trabalhava, no Centro da capital, não era referência no tratamento da doença, mas, nessa altura, isso não existia mais. Tudo estava lotado. Os doentes ficam pulando de emergência em emergência na esperança que alguém tenha morrido recentemente e liberado um leito.

Por ter feito alguns cursos de pneumo, ele foi escalado para atuar na UTI. Os plantões se acumulavam. Trabalhava em escala de um para três, depois, um para dois e já tinham sugerido que ele fizesse um para um. Ele só pensava na sua avó, que conseguiu, como diarista, bancar os seus estudos. Desde pequeno quis ser médico, mas sempre imaginou que era impossível entrar na faculdade. O que ela pensaria dele, caso ele não trabalhasse, nessa hora que mais precisam dele? Ao mesmo tempo também pensava: ela já tem mais de 60 anos, é diabética, obesa... Se ele a contaminasse...

“Acabou”, disseram assim que ele chegou, antes mesmo de ele trocar de roupa, ainda segurando o capacete. “O quê? Hum?” “O material de proteção, o EPI acabou...”

***

A parada é o seguinte: a gente se junta pra atacar e depois se espalha, cada um pra um lado. Ainda tem uns maluco passando, aí a gente aproveita e pã, dá o bote, pega tudo e corre. Os verme vêm atrás, mas não dá pra pegar todo mundo. Escolhem um e corre atrás. Pegaram o Mindinho e o Mais-gordo. Já deram uns tiro em mim, mas eu sou malandro, não dou mole.

A gente dorme onde dá, mas nunca junto. Vim pra cá porque é melhor, tem mais gente. Agora tá foda. Tudo fechado. Eu ficava ali na lanchonete da esquina, o China sempre me dava caldo de cana e pastel. Era pastel de vento, mas melhor que nada. O China até tentou abrir, mas ninguém ia, aí ele fechou.

De vez em quando chega umas mulher, umas mulher aí com carro e distribui quentinha. Elas vão ali pra Carioca, e fica lotado, mas sempre dá pra comer. Tem gente que não sai mais da Carioca, pra se proteger. Eu prefiro andar por aí, não ficar preso em lugar nenhum.

Elas tão sempre de máscara, a gente deve tá fedendo muito. O Mosquito disse que é essa parada aí, o vírus, eu não entendi. Parece que tá todo mundo morrendo. Será que é o fim do mundo? O Mosquito que fala que é crente falou que é. E aí, o que acontece quando o mundo acabar? A gente morre também? E aí? O Mosquito fica falando essas parada aí, de paraíso, de inferno. Mó mala. Se tiver essas parada, to fudido. Vou direto pros braço do capeta, e aí ele vai ter que me aguentar. Hehehe.

Às vez fico pensando como deve ser essa parada de inferno. Não deve ser mais quente que o asfalto no meio do verão. Já vi aquela parada, como é?, termômetro, essas parada aí marcando 50 graus. Mermão! 50 graus! E tu lá, com a cara no asfalto, e o asfalto balançando, dançando, rebolando pra tu. Duvido que o inferno seja mais quente que asfalto em dia de verão. Aí eu fico pensando: como é que cê passa o dia no inferno? Tem comida no inferno? Tem loló no inferno? Tem mulherzinha no inferno?

Essa parada aí de inferno deve ser mó chatão. Todo dia a mesma merda, sem porra nenhuma pra fazer. Pior que o inferno só mesmo o paraíso. Aí que eu morro de chatice. Morro de novo, né, porque eu já vou tá morto! Hehehe. Fora que não vou conhecer ninguém lá! Hahahaha. Mó solidão da porra, e eu lá, andando no gramadão verde! Mas desse mal eu não vou sofrer. Eu vou pro inferno.

Que merda. Acho essas parada tudo bizarro. Eu falei pro Mosquito: Não acredito nessas parada aí, não. Ele falou que eu vou pro inferno. Eu falei: de novo? Quantas vezes eu vou pro inferno? Acreditar ou não acreditar não muda porra nenhuma, eu disse pra ele. Prefiro não acreditar. Sei lá, nem me importar com essas parada.

Minha vida é uma merda, mas é minha. Tu acha que eu gosto de dormir com a cara no papelão, no meio da sujeira? Porra nenhuma. Os verme vêm e dá porrada na gente também, mó merda. Um dia um cara tentou na madrugada, eu tava dormindo, ele tentou me enrabar, porra! Eu bati tanto nele, tanto, eu bati de quebrar o pau. Depois eu ouvi que ele morreu, mas foda-se, vai se fuder, rapá, vai querer me comer, vai tomar no cu, vai morrer, porra!

É uma merda a minha vida, com esse corpo ainda, uma merda, mas eu não tenho outra, e, porra, não quero viver no inferno. Aqui, pelo menos, eu posso fazer o que eu quiser. Quando dá.

***

Eu não tinha ideia de que era a última festa que eu iria. Ninguém ali, acho, tinha. A gente ficou fazendo piada: Aqui, o vírus tem que entrar na fila dos problemas. Não entra nem no top 10. A dengue e a zica vão cuidar do vírus, podeixar. Os risos que a gente dava eram nervosos, entretanto. Como se tentando conjurar um futuro que ninguém sabia ao certo como seria, se seria. Será que, então, a gente pressentia, já naquela época, o que aconteceria na pandemia, como animais fugindo antes do tsunami?

Eu fui sozinho, Paula não quis ir. Já tínhamos decidido a separação, mas um divórcio não ocorre tão rapidamente como desejamos, é preciso alugar uma casa nova, decidir quem fica com o sofá, separar as contas conjuntas. Há uma preguiça misturada a uma impotência a uma fraqueza a uma tentativa de evitar olhar de frente o problema. Se ela soubesse que no dia seguinte já começaria a quarentena, ela talvez tivesse ido. Ou talvez tivesse ido embora.

Na festa, a única pessoa que parecia não-ironicamente preocupada com o vírus era o Leandro. Biólogo, trabalhando em laboratório, sempre pensando em ciência, um pouco apocalíptico demais, mas sempre agradável conversa, ele não quis apertar a mão de ninguém quando chegou. A gente logo rodou os olhos e pensou: “é o Leandro, né?”. Em seguida, ele se manteve a uma distância razoável das pessoas, meio que isolado. “Por que ele veio, então?”, alguém atrás de mim falou.

As dinâmicas de festa são imprevisíveis e, pouco depois, eu acabei próximo a Leandro, num canto da festa. “Curioso o nome que deram para essa doença, né?”, tentei ser simpático. “Como assim?”, ele saiu dos próprios pensamentos no meio da frase. “Ah, é uma sigla. Achei bem a cara do nosso tempo, em que as pessoas riem escrevendo LOL, hahahaha ou rs.” Ele pareceu se interessar e se aproximou, mas parou a tempo de assegurar a distância. “Será que daria para fazer um estudo sobre os nomes das doenças e o que elas representam às suas épocas?”, ele disse se empolgando, “‘Peste negra’ é um nome bem dramático, digno de uma época em que as pessoas morriam de amor, lutavam por honra, respeitavam reis e o papa.” Sorri e tentei contribuir: “Influenza deve ter alguma coisa a ver com as navegações espanholas.” Ele catou o celular e me corrigiu: “Na verdade, vem do italiano, e, por sua vez, do latim. Foi usada pela primeira vez por um médico italiano para reforçar a relação astrológica com os estados de espírito e as doenças.” “Que loucura!” “Quer dizer que você não acredita em astrologia?” “Você acredita?” “Claro que não! Mas achei curioso você não acreditar. Hoje em dia, todo mundo acredita.” “Eu só acredito profissionalmente: tenho que me manter antenado no que as pessoas gostam, querem, precisam...” “Publicitários...” “Alguém tem que vender aquilo que ninguém compraria caso ninguém vendesse!” Os dois rimos e percebemos que estávamos muito mais próximos que a distância segura apregoava. Na verdade, estávamos nos encostando. Ficamos um pouco sérios, o que no caso do Leandro ressaltava ainda mais seu maxilar quadrado e o queixo pontudo, uma versão com acabamento pouco delicado do super-homem dos quadrinhos.

Naquele momento, alguma coisa aconteceu em mim e eu não sei bem explicar a razão. Talvez o gin, talvez a proibição da proximidade, talvez a minha separação estivesse batendo diferentemente. Eu fiz um carinho no rosto dele. Passei os dedos da minha mão pela testa, depois fronte, depois bochecha, maxilar e queixo. Ele deixou. Foi estranho. No momento em que eu o toquei, vários sentimentos me preencheram, muitas vezes conflitantes, mas ele mordeu mais forte e vi um músculo do rosto se retesar, aí olhei para o pescoço e percebi outro músculo que estava tenso, teso. “Vamos para o banheiro?” Tenho certeza de que não fui eu a convidar, mas ele também não tinha falado nada. Eu devo ter dito sem nem perceber – o gin estava fazendo mais efeito que eu poderia controlar.

Nos agarramos de verdade no banheiro, com uma violência que nenhuma mulher que eu conheci já tinha colocado em ato, e em seguida, um apagão da minha memória. Amnésia etílica, suspeito. Não lembro muito bem até onde fomos, só sei que assim que saímos de lá, eu resolvi ir embora, sem me despedir de ninguém, sem falar nada. Tropeçando escada abaixo, peguei o primeiro táxi que passou, e, ao chegar em casa, me joguei na cama, ainda de roupa e sapato.

Não me considero gay, ele também não, tenho certeza – eu conheci até a última namorada dele! –, mas, desde que a quarentena começou, tenho sonhado com frequência com o que aconteceu ou poderia ter acontecido naquele banheiro e invariavelmente acordo excitado. Estou bastante confuso e sem ninguém com quem conversar. A gente nunca mais se falou e não saberia o que dizer para ele – desculpa? Saudade? Que pena? Que bom que foi? Não me lembro de nada? – mas confesso que bebo todos os dias para me derrubar.

***

Deitada no chão frio e sem camisa, dona Memê tentava aplacar o calor que não tinha sumido com o vírus, enquanto escutava a pregação do rádio do lado da cama. Quando o pastor começou a dizer que Jesus iria curar a pandemia, ela se levantou e desligou o aparelho. Não ia à igreja há quatro semanas, e, nesse período, descobrira um buraco que só aumentava dentro dela.

Saiu de casa uma única vez, nesse período: para tentar pegar o dinheiro a que tinha direito, da renda básica, mas antes de conseguir sacar o valor, teve um pequeno ataque de pânico dentro da agência lotada. Na volta para casa, viu uma cena que a deixou ainda mais assustada: um grupo de crentes da sua igreja ajoelhados nas calçadas do seu bairro, orando para acabar com a pandemia. Chegou em casa ofegante.

Teve que se virar com as diárias que algumas patroas ainda depositavam para ela, na conta do neto. A madame do Leblon foi a única que condicionou o pagamento a ida de dona Memê para trabalhar, porque ela não queria dar “esmola” – foi a palavra usada.

Hermengarda de Souza Lemos morava nesse prédio em Queimados desde sua construção. Era um desses projetos de habitação popular que, a cada retorno de Saturno, abre oportunidades para quem tem pouco ou quase nenhum dinheiro guardado. No meio dessas voltas, outra das características era o abandono progressivo das construções. Nas últimas décadas, esse abandono foi associado também ao crescimento das invasões por homens armados cobrando taxas para que as pessoas não precisem pagar taxas para as empresas de energia, de gás, de água. Dona Memê não pagava essas taxas para esses homens e era mal vista por eles.

Fazia um café ralo e enchia de açúcar, mesmo sendo diabética, para a contrariedade do neto, que ela criou, já que a filha, mãe do neto, tinha fugido com um homem e deixado o moleque para trás. Não era a única maneira de contrariar o neto. Ela também não respeitava todos os limites que ele tinha imposto na casa. Agora, ele tinha feito um acordo no hospital para trabalhar diariamente, em plantões de 12 horas, sem descanso nos fins de semana. Folga, só de duas em duas semanas. Ele chegava em casa só para dormir: ficava no quarto e não saía para nada. Tomava banho e comia no hospital. Só não dormia lá porque não tinha espaço. Ela entrava no quarto dele e deixava uma bananada sobre a cama. Ao chegar de noite, ele reclamava, de longe: “Vó! Não é para a senhora entrar aqui! É perigoso!” Ela sentia o buraco crescer um pouco mais.

Depois de tomar o café, dona Memê não tinha muita coisa para fazer. Não conseguia ler a bíblia, porque os olhos estavam falhando. Se sentava diante da TV, ligava nos televangelhos e ficava assistindo até que o pastor falasse algo sobre a proteção divina contra o vírus – aí, ela não aguentava e desligava o aparelho. Não que ela duvidasse do poder do sangue de Jesus, nem sobre o fato de a humanidade estar recebendo o troco dos pecados que praticava, mas não achava que Deus iria resolver todos os problemas sozinho. Para ela, o sopro divino nos dava ânimo para completar nossas missões. Os milagres eram feitos por homens e mulheres como... como... como Sandro. A campainha tocou.

“Dona Memê, quanto tempo!” Era Anselmo, cabo da polícia militar nas horas vagas, que fazia sua ronda, falando entre perdigotos. “O que você quer, seu Anselmo?”, responde dona Memê limpando uma gotícula que acertou sua bochecha. “O que é isso, dona Memê? Eu estava passando aqui e senti um cheiro de café e pensei se a senhora ainda teria um...” “Acabou.” “Que pena, que pena. Dona Memê, mesmo que a senhora não goste de colaborar com a gente, eu to passando aqui para dizer que a gente vai reabrir o comércio aqui da vizinhança porque o Brasil não pode parar, não é mesmo? Tem muita gente que exagera e...” “Sandro não exagera.” “Como assim, dona Memê?” “Sandro diz que esse vírus é traiçoeiro. Uma praga.” “Ah, dona Memê... acho que o seu filho...” “Neto.” “Neto está desinformado. Desatualizado, vamos deixar assim.” “Ele vai trabalhar todos os dias, de manhã cedinho, no hospital, ele não está...” “A gente vê ele saindo de moto. Aliás, ele sempre sai muito avoado. Pode acontecer alguma coisa com ele... É melhor ele tomar cuidado...” Ela gela, mas não deixa transparecer. “É só isso, seu Anselmo?” “Vou deixar aqui meu telefone, para o caso de a senhora precisar de alguma coisa.” “Sandro falou para não pegar em nada que tenha sido tocado por outra pessoa.” “Bobagem”, ele diz e mantém o braço estendido com o papelzinho, ela permanece imóvel. Ele dá uma tossida forte, protege a boca com o dorso da mão que segurava o papel, e continua: “Bem, vou deixar aqui no chão, então. O que precisar, pode falar conosco.” Ela bate a porta com mais violência que o necessário e deixa o papel do lado de fora.

***

Os prédios autorizaram as construções de puxadinhos nas janelas onde os drones poderiam pousar para fazer entregas. Paula recebe um pacote da farmácia com remédios de tarja preta para se acalmar e dormir. “Obrigada”, ela diz para aquele bicho metálico com quatro hélices em paralelo, que responde levantando voo em silêncio. Passando displicentemente as mãos pelas paredes esverdeadas de infiltrações, Paula leva o pacote para a cozinha. Pega um copo com água e vira dois comprimidos na boca. Volta à janela, onde ela passa o máximo de tempo, observando, observando. No horizonte, o grande morro, que tapa o sol ao nascer, totalmente careca, amarelo-avermelhado, sem árvores, arbustos, gramíneas, seco. Alguma coisa lhe chama a atenção. É um outro bicho voador, um inseto, mas não uma mosca ou mosquito, que ela identificasse de primeira. Logo vê outro e mais outro, todos iguais, voando na direção do seu vizinho. Mete a cabeça para fora e olha para o lado: um imenso vespeiro feito de barro e terra cobrindo quase toda a janela da sala, que dá o aspecto de uma caverna paleolítica para o apartamento quando visto de fora. Sua primeira reação é colocar a cabeça para dentro de novo. Depois, volta e tenta ver se elas tinham feito ninho em outro lugar, na sua casa, nas outras construções, nos carros e fica focada nessa busca até ser despertada por uma sirene. Diferentemente dela, as vespas ignoram a chegada de uma ambulância e de um rabecão, bem no seu prédio. Os homens paramentados com roupas que ela só tinha visto em filmes entram correndo portaria adentro e Paula fica imaginando em qual andar jaz o morto da vez. Em menos de meia hora, eles voltam com uma pessoa dentro de um saco preto. Ela busca pela janela o vizinho que tinha sofrido a perda e encontra umas mãozinhas bem pequenininhas do lado de fora dando tchau para o corpo sendo levado. Começa a hiperventilar e tem que se sentar na cadeira. Cruza as mãos sobre o ventre, como um cinto de segurança abdominal. De alguma forma que ela não procura entender, ela vê os próprios genes sofrendo uma mutação, os genes de todas as pessoas tinham mudado, e agora ela só é capaz de procriar com uma única pessoa, aquela com quem esteja passando toda essa quarentena. Mário. Ela não quer procriar com Mário. Não quer deixar mãozinhas pequenas dando tchau pela janela – principalmente sendo Mário a segurar essas mãos. Se vê como pertencendo a uma raça diferente da raça do vizinho, dos amigos, de todas as outras pessoas com quem ela conviveu na vida. Corpo mais azulado, menos denso, mais aquoso, olhos arredondados e maiores. Pensa que quando acabasse o confinamento ela não seria capaz de encontrar mais ninguém compatível com ela. O fruto de cruzamento de raças diferentes seria filhotes com defeitos genéticos, filhotes estéreis, uma raça inferior. A espécie inteira teria se degradado e diversas outras aparecido. O contato que sobrou para ela é Mário. Fica nervosíssima e sai correndo em direção à saída do apartamento, mas no lugar onde havia a porta, agora só encontra uma parede. Bate e bate na parede, desesperada, tentando quebrar os tijolos e fugir, bate e bate, com força, de machucar as mãos, mas ignora a dor e continua a bater até que desperta.

Se apoiando nas paredes, ainda zonza, suada, rosto inchado, vai para o outro quarto ver Mário, como ele está. Encontra o marido dormindo, mas excitado, com o pau mais duro que ela já tinha visto na vida nele. Ele passando a mão, como se fosse sem intenção, mas aparentando gostar. Ela não para um segundo para pensar. Parte para cima. Arranca as calças compridas dele, despertando Mário, e sem qualquer aviso senta sobre o marido. Mário fica um pouco assustado, não espera essa reação da mulher, mas decide interagir com Paula, que cavalga, primeiro vagarosamente e aproveitando toda a extensão do marido, subindo e descendo, quase perdendo o contato na subida, mas habilmente abocanhando na volta, na descida, gemendo no ritmo do movimento, percebendo o corpo sendo tomado por um calor incontrolável, uma manta líquida quente e invisível, que dá ignições, ligeiras chamas tomando conta das exterioridades do corpo, sendo absorvidas pela pele, incêndio submergindo em brasa viva, em seguida, já embebida nesse líquido-inflamável, inflamado, começa a aumentar a força na cavalgada, rapidamente atinge a violência pura, fogo se alastrando, quase pulando com o corpo sobre Mário, incêndio descontrolado, agarra com as unhas os ombros dele, arranhando a pele, sangrando, ele começa a gritar também entre a dor e o prazer, percebendo o fogo também nele, pega nas pernas de Paula, para mantê-la presa, percebendo a cabeça do seu pau sendo maltratada, triturada, ela batendo o ilíaco no seu baixo ventre, como que incentivando a produção ritmadamente, percebendo as ondas de prazer subindo e descendo à velocidade da cavalgada violenta de Paula, que muda para uma terceira velocidade, agora mais rápida ainda, com menor extensão, idas e vindas descontroladamente controladas, deixa o tronco em paralelo sobre o dele, os olhos fechados, os dois respirando ao mesmo tempo, grunhindo juntos, gritando juntos, os corpos queimados, incendiados, unidos, até que explodem ao mesmo tempo.

Rosto enfiado no travesseiro, Paula tinha acabado de desabar de bruços sobre o curto espaço da cama de solteiro à mostra. Ela permanece alguns segundos desmaiada, sem respirar. Por sua vez, Mário cai num leve sono em que pedaços do sonho que ele estava vivendo voltam para se misturarem com o ataque sofrido na vigília. Nessa mescla, Mário não estava com Paula, mas com Leandro, Leandro que o tinha atacado. De supetão, sem conseguir respirar, Paula levanta a cabeça assustada, buscando ar. Olha para baixo de si e vê Mário que a observa também despertado com olhos bem arregalados. Ela fica alguns instantes em silêncio, antes de desmontar de Mário. Trôpega, caminha para fora do quarto, mas para à porta, sentindo um gosto estranho, um peso dos mais pesados, como se a gravidade estivesse mais grave apenas sobre ela, e começa a gritar: “Eu quero que você vá embora, Mário, hoje, agora, já! Eu nunca mais quero te ver na vida!”

***

Nos últimos dias, Sandro havia reparado em um detalhe novo quando passava diante da Maré: além dos cheiros característicos, do visual degradante, ele estava também escutando uma bateria desafinada de tosses e respirações em falso, gente tentando inspirar, mas sem força o suficiente para capturar o ar para dentro dos pulmões. Mesmo atrasado, ele para na frente do amontoado de pessoas. Havia grupos diferentes, espalhados, como pequeníssimos clãs, com regras próprias. Olhava para os farrapos e só conseguia pensar: queria que eles morressem rapidamente, o mais rapidamente possível.

***

Antes mesmo de comer qualquer coisa, Mário sai para a rua. Veste uma bermuda, coloca uma camisa qualquer, calça os chinelos e sai, sem pentear o cabelo, lavar o rosto, sem qualquer máscara ou proteção. Sai do prédio, sob os olhos reprovadores do porteiro, que se lembra que o prédio tinha vários senhores de idade, e Mário está expondo a todos, mas Mário não consegue pensar nisso. Ele só pensa em como se sente injustiçado, em como ele quer continuar casado com Paula, construir uma família, e como ela é insensível em relação ao que eles construíram juntos.

***

Mosquito começou a tossir. Aí é foda. Essa porra vai dar merda. Vai matar geral. Essa porra é porque o homem vai lá e fode a natureza. Fica destruindo a porra toda e não sobra nada. É burro, tudo burro. E pra quê? Quero ver comer dinheiro! A gente às vezes consegue uns dinheiro de uns ganho aqui mas não tem lugar pra comprar nada. Que que adianta ter esses notão? Onça, garoupa, essas porra serve de porra nenhuma quando não tem comida! O pessoal vai morrer geral. Ouvi que o Cabeça tentou ir pro hospital ali perto da Central, mas não tinha vaga. Morreu ruim, na rua, o viado. O bando todo tá fudido, se morre um, morre todo mundo, como quando voa os pombo. Agora vai cair geral. Mas alguém vai sobreviver nessa porra, alguém com muita sorte.

***

Tinha um peso sobre o peito e um cansaço enorme rondando Dona Memê. O corpo doía e ela estava com dificuldade de locomoção. Virou o corpo para o lado para se levantar da cama, mas quase caiu de novo com a tosse seca, forte, uma turbina. Ela não podia se abater, tinha que fazer comida e deixar pronta para o neto – mesmo que ele não comesse. Pensava em Sandro e sentia uma saudade imensa do menino – apesar de morarem na mesma casa, parecia que estavam há quilômetros de distância. Queria só mais uma vez, só mais uma vez abraçá-lo. Gostava do jeito que ele colocava a cabeça no ombro dela, ele fazia isso desde pequenininho e nunca mudou, mesmo tendo virado um homão de quase dois metros. Ele estava combatendo o vírus, o vírus que ele dizia que era o pior problema que o mundo já enfrentou. Acho que ele quer me assustar, ela pensa. Dona Memê passa um café e se serve. Pega o saco de açúcar para ver se tinha algum problema e coloca mais uma colher na xícara, já que não está sentindo o doce.

***

Um rapaz da sua idade para na frente de Sandro enquanto ele observava os crackudos deitados. Sandro fica impressionado em como o garoto se parecia com ele próprio, apenas bem mais magro, os olhos mais fundos, sem camisa, a bermuda caindo de larga. O garoto é uma versão sua, Sandro pensa, uma versão sua do outro lado do espelho, de outra dimensão. O garoto começa a se aproximar dele, com os braços estendidos e Sandro só tem tempo de acelerar e fugir.

***

Por onde andava, as pessoas olhavam para um desmascarado Mário, alguns com reprovação, cochichando ao fundo, ou xingando em voz alta, outros apenas curiosos, sem entender por que ele estava se arriscando assim. Ele continuava atravessando os bairros sem prestar atenção em onde andava. Se ele soubesse exatamente o endereço de Leandro, ele iria para a casa do amigo. Leandro o receberia, de um jeito que Paula é incapaz. Não conseguia entender a reação da mulher... Por que não é ela a se mudar, já que ela quer tanto se separar...?

***

A galera tá marcando de ir lá pra perto do hospital, ali na Central. O Buiú chegou e falou: “Aí, Pixota, geral vai ficar por ali porque tem coisa acontecendo lá. Tem gente, tem comida e qualquer coisa dá para subir pra Providência”. Duvido que os verme tem coragem de subir a Providência, falei pra ele. Aí, neguim, aí tu vê que eles são frouxo, frouxo mesmo. Buiú se engraçou: “tu é mulher, mas tu é sinistra”, dei um tapa na cara dele e só parei porque me seguraram. Que mulher o caralho, mulher, mulher... Só nasci com esse corpo, mas não sou mulher porra nenhuma.

***

Sem conseguir parar de chorar, Paula acompanhava a culpa se alastrar por onde antes o fogo tinha preenchido o seu corpo. O que de mal tinha Mário? Ela pega um comprimido e joga na garganta. Pega o segundo. Observa o frasco e aperta o vidro entre os dedos. Afasta. Aproxima. Pega mais um. E outro. E mais outro. Tenta engolir, mas começa a tossir sem conseguir parar e os comprimidos voam da sua boca. Só para já sem fôlego. Abaixa a cabeça, segurando-a com as mãos espalmadas.

***

Deitada no sofá da sala, dona Memê está com o cartão de Anselmo. Não podia atrapalhar o neto, ele estava salvando vidas, mas precisava ir para um hospital. Olha para os números e o nome de Anselmo escrito com caneta preta.

***

Exausto, Mário chega ao Campo de Santana, fechado por conta da pandemia, e segura nas grades, olhando para dentro e vendo as cutias correndo entre os pavões, os gansos, os patos, os gambás.

***

Ali, aquele ali, tá dando mole.

***

Paula pega o telefone e disca um número.

Ao desligar, começa a arrumar as malas. Ao terminar, ela veste uma máscara, dá uma última olhada para o apartamento que nunca foi seu, e sai de casa.

***

Sandro entra com a moto na rua do hospital, colado ao Campo de Santana.

***

Dona Memê amassa o papel com o nome de Anselmo e joga longe. Pega o telefone.

***

Os moleques vão em direção a Mário e o cercam. Ele está avoado e não entende o que acontece. Os garotos o derrubam e Pixota mete as mãos nos bolsos dele. Arranca o celular e acha a chave de casa, arremessa longe. Não tem mais nada. “Cadê a grana, o comédia?! Cadê!?” Mário tenta se desvencilhar, se arrastando para a grade do Campo de Santana. Os moleques começam a chutar Mário com força. Quebram um dente, sangram o seu nariz, incham seu olho.

De longe, Sandro observa o ataque e acelera em direção aos moleques que se levantam e se espalham, sumindo em segundos. Sandro para ao lado de Mário: “Tudo bem?” Mário só consegue balançar vagarosamente a cabeça.

Dona Memê liga para Sandro.

O telefone de Sandro começa a tocar. Ele tira o capacete para atender e se afasta um pouco da moto. “Volto já, um segundo...”

Dois policiais entram correndo na rua, com as armas em punho e olham Mário, branco, deitado, ensanguentado, e Sandro, negro, cabelo crespo, de pé, telefone em punho, moto ligada, e começam a atirar.

A primeira bala acerta o pescoço de Sandro que cai no chão como que desmontando.

No visor do celular está escrito: “Vó” e os botões de atender ou desligar.

quarta-feira, 1 de julho de 2020

O DEMÔNIO DA MEIA-NOITE [ficção]

A perene ampulheta do existir será sempre virada novamente – e você com ela, partícula de poeira!
Nietzsche

A carta chegou num dia banal. Tinha acabado de acordar, às 6h, como todos os dias, visitado o banheiro e me encaminhava para a cozinha para passar o café quando vi diante da porta da rua um envelope branco, sem qualquer identificação, pousado aleatoriamente, acabando com a simetria perfeita dos tacos do meu chão. Está contaminado? É a minha primeira pergunta. É uma bomba biológica, com vários agentes que podem destruir minhas imunidades e me fazer morrer em questão de horas? Posso controlar minha paranoia quando lembro que eu não sou ninguém. Qualquer tipo de esforço nesse sentido seria, no mínimo, uma perda de tempo para quem quer que fosse. Minha autoestima nunca me deixou ser um paranoico clássico.

Como higienizar papel?, é a segunda questão que me ocorre. Busco na internet e não encontro nada muito confiável. Sei que a peste pode ficar ali por horas – ou seriam dias? Antes de pegar, eu preciso limpar a celulose. Ainda me ocorre me perguntar sobre por que eu devo pegar uma carta de um desconhecido, mas a empolgação com algo que quebra as minhas expectativas, passa por cima das minhas interrogações mais controladoras. Eu estou com palpitações! Eu preciso saber o que é aquele papel ali. Papel. Eu fico repetindo para mim. Papel. Quem tem papel e envelope em casa? Papel! E chego a esboçar um pequeno sorriso, como não dava há tanto tempo que eu não sabia o quando. Pano e álcool 70, como sempre. Passo por fora uma quantidade pequena para não inutilizar o papel, e o levo para o sofá. Abro o envelope e outra vez o procedimento, com o cuidado para não manchar as letras. Não tenho a mesma sorte e algumas palavras ficam borradas, mas dá para entender o todo, acho.

O meu sorriso desaparece à medida que avanço. Agora eu consigo organizar melhor a minha interpretação – porque, na hora, eu fiquei confuso, e não conseguia entender, e relia, mas não entravam as palavras, eu entendia cada letra, os vocábulos, cada frase, mas elas não se encaixavam e não tinham um sentido, e relia, e reli – a carta condensava em pouquíssimas linhas os quatro momentos da guerra. Para não a copiar, vou tentar reproduzi-la: Foi escrita pela mulher de um casal idoso, meus vizinhos do outro lado do corredor em uma linha reta transversal, gente de que eu me lembrava muito vagamente, ele gordinho, baixo, óculos grandes e redondos, ela, quieta, igualmente baixinha, mais preocupada com a aparência, mais ressabiada. Os dois nunca foram de conversas, chegavam a ser rudes, como quando passavam sem cumprimentar. Ela escrevia que o marido tinha uma doença autoimune e precisava de uma medicação que, por conta de declarações de que era um remédio contra a peste, estava em falta generalizada. Eles não pediam dinheiro, eles não pediam nada além de informações sobre como obter o remédio. Eles ainda tinham remédio até o fim do mês, mas ao virar da folhinha, ele estaria completamente desprotegido. Que dia era hoje?, me perguntei e fui ver que não havia muito tempo: dia 20. Eu não tinha qualquer ideia de por onde começar, mas eu queria ajudar.

***

Estávamos numa espécie de quarta e mais duradoura fase de toda a guerra, como foi chamada por todas as autoridades. Era uma guerra curiosa, em que não há inimigos, um rosto, alguém para odiar, uma guerra em que só há os mortos, os feridos, os sobreviventes, e os incompetentes. Esta é única fase que certamente não tinha qualquer previsão para se acabar. As outras, as anteriores, produziram sentimentos paradoxais. Apressaram mudanças que estavam represadas ou adiantaram outras que evitávamos com força para nossa proteção, ultrapassando limites que nos davam segurança.

Primeiro vieram o susto e as negações: não era possível, como pode, assim vamos quebrar, esses números não são verdadeiros, é muito barulho por nada, vai afetar apenas os mais velhos, é preciso salvar a economia. Nos trancamos em casa, mas ainda tínhamos alguma mobilidade. O principal problema, além das mortes no varejo que começavam a aparecer, era a ansiedade, a insegurança. As informações oficiais pareciam orquestradas para serem incoerentes e causar ainda mais pânico.

Esse primeiro momento não me afetou muito. Ao contrário. Talvez pelo excesso de precaução, eu sempre imaginei uma catástrofe de proporções parecidas com a dessa primeira fase. Foram anos antevendo uma desgraça enorme e o quanto eu deveria ser autossustentável para não ser afetado por ela. Eu tinha uma pequena horta no meu apartamento, com cenoura, rabanete, alface e ervas. Eu fazia pão, queijo, iogurte, granola, produtos de limpeza e higiene pessoal e cerveja. Eu cortava meu próprio cabelo e praticava exercícios físicos em espaços exíguos, regularmente. Tinha uma coleção de livros ainda sem explorar e internet o suficiente para me abastecer de filmes e séries indefinidamente. Me adaptar aos procedimentos de higiene foi apenas acrescentar mais uma rotina para a minha série de rotinas. Era um tempo em que nada aconteceu. As mortes eram distantes, números pequenos de início de guerra. Era a fase em que a nós cabia apenas ficar em casa para diminuir o tamanho da onda que nos submergiria em breve – mas só avistávamos de longe e embaçadamente este futuro. Eu sentia algo que, na falta de outro nome, eu vou chamar de felicidade. Havia, finalmente, chegado a minha hora.

Só não estava precavido para as próximas fases. Os óbitos se ampliaram, os corpos se amontoaram, todas mortes não-oficiais. Sabíamos por conversas com gente da área da saúde, pelas histórias dos tios de amigos que morreram de “pneumonia”, com o aumento de casos de problemas respiratórios, que acometeu o vendedor onde eu comprava frutas, com a faxineira daqui de casa, que logo depois se aposentou e morreu, com o entregador do mercadinho, que desapareceu por completo, com o passeador de cachorros que se sentia um barítono, cantando árias pela rua, e que morreu tossindo e cuspindo sangue. Como em uma ditadura em que os assassinatos do Estado são escondidos para que os ditadores não tenham qualquer prova contra si, nesse segundo momento da pandemia, não havia qualquer número que nos garantisse o tamanho da desgraça em que estávamos metidos.

A minha preparação não contava com o tamanho da tragédia. Presenciar a moça que vivia pelas ruas perto aqui de casa, a moça que carregava plásticos, latinhas de alumínio e papelão, que tinha os olhos mais assustados e tristes do mundo, usava um lenço sempre encardido em volta da cabeça de pele preta, que pedia dinheiro em frente à padaria balbuciando palavras sem sentido e com as mãos estendidas em forma de concha, vê-la, pela janela, morrer do outro lado da rua, arfando, sem conseguir sugar o ar para os pulmões atacados, percebendo ela se debater, em luta contra o próprio corpo, os olhos cada vez mais esbugalhados, saltando das órbitas, ela se estrebuchando, num som cada vez mais agudo da falta de ar, a garganta embotada, eu tremendo, ela se contorcendo, gastando as últimas energias numa disputa interna, que ela não tinha como vencer, aquilo, aquela cena me destruiu.

A morte daquela mulher – jovem! Ela deveria ter no máximo 30 anos! Eu nunca tinha trocado com ela qualquer palavra, ela sempre me pareceu um bicho assustado, alguém que tinha sofrido uma violência imensa quando mais nova, e tentava se proteger de qualquer agressão direta; inclusive, num processo esquizoide, se precavendo da própria realidade, que deveria ser muito dura para ela. Quando ela morreu, e ela foi a primeira de muitas pessoas aqui da área (depois vieram o porteiro do prédio em frente, o taxista que dirigia com uma calma incomum, o dono da academia dos marombeiros...), minha guarda ficou completamente aberta. A partir daí, como numa luta de MMA, o adversário conseguiu encaixar os golpes em mim, me derrubando aos poucos e me transformando em massa amorfa indiferente do betume do asfalto.

A terceira fase foi a de tentar me reerguer. Mas aí eu já era outro, esvaziado por dentro.

Eu precisava voltar a ficar de pé, precisava raspar a barba, salvar a horta que tinha ressecado completamente, jogar fora o queijo mofado, tirar o limo do banheiro, varrer o chão, arranjar algum dinheiro, fazer comida, mas pouca coisa me importava. Uma imensa sensação de tanto-faz me abraçou e eu só queria ver séries. Era um novo mundo em que não tínhamos mais acesso a determinados sites, programas e redes sociais. Os aplicativos de conversa criptografados foram banidos, e os demais precisavam passar por um filtro em que determinadas palavras eram proibidas. Vi conhecidos meus serem investigados e presos em casa por falarem em genocídio, em fascismo, em necropolítica, em tanatocracia, e outras palavras que eles inventaram. Os casos se apinhavam como um ruído branco e eu me acostumei. Eu culpei essas pessoas por serem tão descuidadas e burras, sim, burras. Precisavam falar de determinados assuntos? Precisavam ser tão explícitos? Precisavam conversar? Precisavam?

Eu sempre trabalhei com arquitetura de sistemas e logo os trabalhos voltaram a aparecer. Os negócios devem sempre continuar, foi o slogan da campanha oficial, e eu obedeci, automatamente. Sair de casa não era mais um processo banal, contudo. Precisávamos agora de autorizações oficiais, tudo com o intuito de evitar novamente o risco de contágio. E essas autorizações não eram expedidas por qualquer razão. O governo mudou por completo a abordagem dos casos da peste, começando a levá-la a sério, demais até. Oficialmente a peste havia se modificado e ficado ainda mais mortífera. Eu me perguntava: vale a pena arriscar sair e me tornar uma bomba virótica – ou, muito pior, morrer? Desisti.

Começamos a viver dentro dos nossos apartamentos e casebres, e o mercado de entregas, se aclimatando rapidamente, acompanhou todo o processo, principalmente com a chegada de mais empresas internacionais. Agora os entregadores vinham dentro de macacões impermeáveis, que cobriam até os cabelos, com máscaras N95, trocadas regularmente e óculos de segurança. Em pouco tempo nos acostumamos com as rotinas e com as novas feridas.

Essa espécie de nova estabilidade era a quarta fase. Esse era o novo normal, parecido com o antigo normal, mas, ao mesmo tempo, completamente diferente, porque infinitamente mais triste e menor, mais árido. Eu trabalhava quase todo o tempo, ganhava bem menos, mas ainda o suficiente para mais que sobreviver, apesar de estar pagando muito mais impostos, condomínio, plano de saúde, luz, gás, e comprando tudo o que eu não precisava, estocando alimento, jogando noite adentro games online, aumentando a minha banda de conexão, me viciando em todas as séries que eu podia, interagindo ao vivo com quase ninguém, diminuindo meus contatos sexuais a quase zero, gastando o que sobrava da minha energia com exercícios físicos enfadonhos. Completei a minha transformação em um ermitão, um misantropo, um recluso que passava dias sem abrir a boca, semanas só mandando mensagens ou, no máximo, e-mails profissionais, e que já contabilizava seis meses sem transar com ninguém.
Toda a espécie de esperança que algumas pessoas nutriram, de uma nova humanidade muito mais solidária por conta dos traumas, encalhou na realidade de isolamentos cada vez maiores. Era, num primeiro momento, uma solidão social compulsória. Em pouco tempo, porém, quase ninguém se lembrava como havia sido antes. Todo tipo de imaginação de uma justiça maior, em que os piores tipos seriam as principais vítimas, ou de uma peste democrática, que atacasse a todos sem distinção, ou ainda qualquer sentimento de moralidade, como aquilo que era o certo a se fazer por todos, caiu por terra, para debaixo da terra, junto com os cadáveres que ainda se amontoavam – agora, também de outras pandemias, como a fome, a violência social, as doenças mais tradicionais. Só sobreviveu quem quis muito e, principalmente, quem teve sorte.

***
Me paramentei completamente, máscara, óculos, luvas, touca, e decidi atravessar o corredor. Abro a porta e instantaneamente fico ofegante e apavorado. A luz automática demora menos de um segundo para ligar, mas é o suficiente para eu ter a primeira impressão do ambiente sob o véu da escuridão, a poeira acumulada, o vazio que ecoa no piso frio, o cheiro de produto de limpeza barato. Eu me esqueci como era, como era lá fora. Parece envelhecido, abandonado, mas não está muito diferente, eu acho. Começo a respirar fundo e tentar me controlar, como um astronauta descendo numa lua desconhecida. Tento parar de pensar para continuar em frente. Inspira, expira. O primeiro passo, grande, maquinal, numa atmosfera com outra gravidade. Assim que ultrapasso o portal da minha casa, começa uma coceira no braço, e não se pode coçar, e eu tento me convencer de que a coceira não tem qualquer relação com a peste, não há nenhuma informação nas toneladas de links que eu li sobre coceira no braço no histórico da peste, mas é o suficiente para a coceira vir para os olhos e eu não posso fazer nada – porque aí sim já estamos falando de contaminação. Tenho que me controlar, não é nada, não é nada, nada. Inspira, expira. Inspira, expira. Saio de casa, determinado, focado, concentrado, como quem sai da nave, e cruzo vagarosamente o corredor, pé ante pé, como se o chão não existisse debaixo da minha sola sem que meu pé toque o solo. Antes de tocar a campainha, olho para trás, a minha porta encostada, e o meu vizinho do lado, a família tradicional com dois adolescentes, eles desenharam uma cruz com giz na porta... Uma cruz que provavelmente eles viram em algum filme... Uma cruz de giz para espantar a praga... Uma cruz malfeita, na ausência de uma em madeira... Me volto, respiro fundo – inspira, expira, inspira, expira – e toco a campainha.

Foram no máximo 30 segundos, mas demorou bem mais, como sempre. Eu não sabia o que fazer naquele ínterim e pareceu que me expunha à radiação de Chernobyl. Escuto uma música gospel que vem de outro andar e a melodia me parece fúnebre, uma reza por aqueles que não conseguiram ultrapassar a guerra. Quando eu ia desistir, a vizinha entreabre a porta, uma fresta apenas, em que ela coloca um pedaço da testa, o cabelo e os olhos para fora – os olhos que se arregalam quando me veem. Não sei identificar se é sinal de reconhecimento ou de surpresa. Talvez a segunda opção, considerando que, com a máscara, os óculos e a touca, nem minha falecida mãe saberia me diferenciar de outra pessoa. Levanto a carta e ela abre um pouco mais a porta, mostra o rosto com a indefectível máscara e desce os olhos, mirando o papel. Sinto um leve pesar sombreando os olhos por sobre as sobrancelhas. Ela abre mais a porta, ainda em silêncio, é o primeiro contato direto entre os dois mascarados.

“Quero ajudar”, falo e percebo os olhos dela se enchendo de lágrimas. Começo a tremer também, como que intoxicado por algumas químicas do corpo há muito esquecidas. Uma lágrima escorre lá no momento em que sinto a garganta travar. Ela abre um pouco mais a porta, o vizinho está deitado no sofá, ao fundo da sala, máscara, soro, pele pálida, perda de peso, ele me observa de longe, levanta o braço para me cumprimentar, eu devolvo o gesto, tento sorrir simpaticamente, mas a máscara tapa as minhas feições. Fungo e ela volta a arregalar os olhos: “Não, não estou doente. É só... é só que isso é muito diferente...” Ela parece acreditar no meu discurso, confirmando com um leve movimento de cabeça. “A gente já tentou tudo... Pagamos pela internet... Perdemos muito dinheiro... Fomos enganados... Estamos perdidos...”, ela fala entre as reticências, a voz, apenas um fio fino, totalmente desacostumada com o ar livre. “Eu vou arranjar o remédio”, prometo, sem saber como nem por onde começar. A gente se olha mais uma vez e eu tento sorrir de novo, me esquecendo da máscara.

Após chegar em casa e todo o longo processo de desinfecção, entro na internet. Busco o remédio nas pesquisas, mas todos os links que eu encontro são inseguros. Com preços ridículos, são obviamente charlatanice para roubar dos mais otários. Outros prometem versões caseiras do medicamento. Outros mandam primeiro baixar um programa no seu computador. Entro em uma comunidade que eu frequento usualmente, um lugar onde é possível encontrar coisas até mais difíceis que o remédio. Me enfio pelo emaranhado desorganizado do fórum e encontro uma conversa que parecia sólida. Há um mercado totalmente estruturado do medicamento. Ainda assim fico na dúvida – para ter alguém querendo ganhar dinheiro dos mais afobados é fácil. Não vejo qualquer tipo de segurança, nada. Reconheço um usuário no meio da discussão, um sujeito com quem eu converso sobre games, e ele afirma em um papo que tinha comprado o remédio milagroso. Entro em contato com ele. Não demora muito, ele me responde: “Sim, comprei pro meu pai... ele ficou doente dessa merda dessa peste, foi tudo feito meio que no desespero.” “E deu certo?” “Porra nenhuma. Meu pai morreu.” “Carai!” “Essa merda de remédio não serviu para porra nenhuma”. “Foi mal perguntar...” “Ah, cara, sem problema... já foi há um tempinho.” “Quando foi?”  “No início do ano... Pô, parece que tem bem mais tempo...” Ficamos em silêncio uns instantes. “E o remédio... você tem certeza de que é o verdadeiro?” “Cara, os caras desviaram um carregamento grande da farmacêutica. Duvido que tenha acabado.” Calculo que o remédio ainda esteja na validade. “Você tem o contato deles?” “Cara, eles funcionam como um grande distribuidor de bebidas, em geral, e aproveitavam o espaço para vender alguns produtos extras. Você tá precisando?” “Não, não... é para os meus vizinhos...” “Vizinhos?”

***
Mando mensagem para os caras e eles me avisam de supetão: “A gente não faz entrega do remédio, tem que buscar aqui.” “E onde é ‘aí’?”, pergunto com receio de ser algo impossível de se chegar, principalmente com a mobilidade urbana encurtada. “Sabe a Rua Direita? Aquele beco do lado da Avenida Central?” “Sei colé”, percebendo que era factível. “E por que não tão entregando mais?”, não consigo conter a minha curiosidade. “Você é imbecil ou o quê? Como você pode ser tão alienado?” “Não, é que...” “O comércio do remédio está controlado pelo governo. Quem for pego vendendo é condenado à morte sem julgamento. A gente não precisa correr mais riscos do que já corre.” Eu não entendo metade das coisas, mas decido não insistir. O preço é exorbitante, mas eu não tenho mais o que fazer com a grana que ganho. Combino de comprar com ele no domingo – “Domingo está bom para você?” Ele riu: “A gente abre todo dia, não tem mais esse negócio de fim de semana, não”. Assim que terminamos, confiro as informações que ele passou e fiquei mais assustado. Primeiro com a minha total desinformação – a minha tática de me ausentar completamente do debate político tinha funcionado. Depois, do grau de destruição institucional: a constituição tinha ficado datada e não representava mais a maioria da população; o importante era seguir as jurisprudências defendidas pela corte máxima do país. Isso incluía as causas pétreas, como a pena de morte. Uma das primeiras decisões da corte, logo após a abolição da carta, foi tornar o tráfico de substâncias ilícitas passível de morte por fuzilamento. Eu me encostei na cadeira e senti o peso de todas as minhas últimas decisões caindo sobre os meus ombros de uma só vez. Como se a voz que eu estava tentando evitar desde que havia recebido a carta chegasse agora gritando dentro da minha cabeça, furiosa.

O risco era enorme. De vários lados, de várias formas, de vários jeitos. Havia a obrigatoriedade de ficar em casa, havia a ronda policial, havia a falta de meios de transporte, havia a compra de um medicamento proibido, havia o deslocamento com essa droga, havia as barreiras de segurança, havia a lei contra mim e, por fim, e a causa de todas as questões: havia ainda a peste! Se eu conseguisse passar incólume por todos os problemas visíveis, eu ainda estaria me expondo por muito mais tempo que eu poderia me sentir confortável. Se para atravessar o corredor já tinha sido uma odisseia homérica, imagine atravessar quatro bairros e voltar? Outra questão que me fazia tremer: como? Como eu iria e voltaria do Centro?

***
Horário: sei que os policiais e a limpeza da rua passam duas vezes por dia, uma de manhã, outra de tarde. Planejo sair depois da primeira ronda. Trajeto: peço ajuda para alguns conhecidos que me informam a partir da geolocalização dos celulares policiais onde as barreiras acontecem. Com esse mapa, traço a rota por caminhos vicinais. Eu quase não utilizaria as ciclovias, mas as ruas todas estavam desertas. Proteção: máscara, touca, óculos e luvas, além de roupas longas, e levaria tudo sobressalente. A máscara eu pensei em usar duas, mas percebo que seria apenas desperdício. Veículo: Bicicleta. Tomo coragem e vou vê-la.

***
O prédio está praticamente abandonado. O zelador não dá conta de todo o trabalho. Ratos andam despreocupadamente perto da lixeira central. Na garagem, a luz funciona mal, mas posso ver que minha bike continua lá. Com uma camada de mais de um centímetro de poeira sobre ela. Limpo um pouco, o que consigo, e jogo óleo nas engrenagens. Nessa hora, escuto um barulho grande e gelo. Não estou fazendo nada de errado – ainda – mas é como se alguém me pegasse no flagra. Não consigo me mexer, como se a minha imobilidade me tornasse também invisível. Apenas meus olhos rodam de um lado para o outro, tentando alcançar de soslaio ao menos algum vislumbre da origem do barulho. Já estou com a resposta pronta para o caso de alguém me perguntar o que eu faço ali – se alguém me perguntasse. Após alguns instantes do barulho, reúno coragem para dar uma meia volta e aumentar o meu raio de visão. Outro barulho e volto à posição zero, sem perceber na hora o ridículo do movimento. Logo depois, dou um giro maior e consigo conferir a origem dos meus medos: um gato carregando na boca um rato quase do seu tamanho. Ele me ignora e eu faço o mesmo.

***
Domingo, olho na janela para esperar a ronda passar. Ansiedade grande dentro de casa, respiração ofegante embaçando a janela fechada. Está nublado, o que é uma boa notícia, parece menos calor. Não há hora certa, mas eu espero que seja cedo. Nunca é cedíssimo, mas cedo já está bom. Não é. Demora quase toda a manhã minha tocaia, e só quase na hora do almoço eles cruzam a rua.

Primeiro passa o caveirão aberto carregando dois policiais na caçamba, apontando rifles automáticos para a rua deserta, sob o sol branco. Vagarosamente, na contramão, barulho de sirene que antecede o medo. Cabeças cobertas por capacetes, óculos escuros e as agora onipresentes máscaras. Para eles, eram máscaras pretas, que combinam com o restante do uniforme e contêm um certo sadismo, principalmente aquele ali, o da direita, com desenho de caveira à guisa de mandíbula. Eles se arriscam em rondas por nós, gritam os alto-falantes. Se sairmos de casa, eles estão autorizados a atirar para proteger as nossas vidas da contaminação. Morrer para não morrer, e matar, em suma. Faz sentido, mas um sentido perverso.

Depois vêm os lavadores de rua: homens e mulheres vestidos com roupas de astronauta brancas, com máscaras de filtragem nanométrica, e grandes mangueiras que aspergem uma mistura de vapor com líquido detergente por toda a extensão da rua, conectadas ao caminhão adaptado para carregar os produtos de limpeza. Andam em câmera-lenta, produzindo um forte barulho maquinal, que preenche todos os espaços vazios diante da ausência de ruídos cotidianos.

Como algo para me dar energia, mas sem fome. Abro a porta, inspiro, expiro e parto. Desço as escadas quase correndo, ao mesmo tempo que tento não fazer barulho. No térreo, encontro com o zelador. Há quanto tempo não o via? É um senhor negro, idoso, com o rosto enrugado, que manca de uma perna. Ele sorri por trás da máscara, tenho certeza, ele sorri quando me vê e eu sorrio de volta. “Cabou o futebol, né?”, ele tenta puxar uma conversa, eu sorrio de volta e “pois é... a gente pensou que seria tão rapidinho, mas não foi, né...” Ele larga a vassoura e segue para o painel de controle do portão: “vai sair?”, pergunta sem qualquer censura, e eu vou sendo tomado de um medo novamente, mas continuo: “sim, vou sim...”.

Não me lembrava de como era bom ter o vento no rosto, mesmo que através da máscara, dos óculos, da touca, com a bicicleta pegando velocidade. Dura pouco. Ao virar a esquina, me esqueço de tudo diante do cenário apocalíptico: as ruas vazias, o comércio fechado, o tempo parado, que só se movimenta com o vento fresco que sopra. É sombrio, lúgubre e triste. Num ato reflexo, vou direto para a ciclovia, um caminho que eu sempre fiz no período pré-guerra, mas me lembro a tempo de voltar para a ruazinha que eu devo seguir. Tenho que atravessar quatro pistas da avenida principal, olhando desnecessariamente para os lados, e com risco de ser exposto, mas sigo, por falta de opção. Meu receio também é ser denunciado por outros moradores, já que eu estou praticando uma atitude no mínimo suspeita. Não há mais ninguém de bicicleta. Vez por outra eu escuto um motoqueiro fazendo alguma entrega, mas aposto que com eles eu não corro risco. Só querem trabalhar para conseguir um dinheiro para sobreviver. Atravesso ruas outrora sempre engarrafadas, vejo árvores nascendo no meio dos paralelepípedos, ouço sons de pássaros desconhecidos, sou acompanhado por uma matilha de vira-latas. O shopping está com os vidros quebrados, o banco onde eu tenho conta colocou tapumes, alguém tacou fogo em um carro em frente a um antigo ponto de ônibus. Viro numa rua mais estreita. Caçamba de lixo lotada – os lixeiros não pararam, mas não acompanham o crescimento da produção de dejetos. Um vazamento de água – ou era esgoto? É esgoto, o cheiro não nega. Como chamar a prefeitura? E como descobrir o vazamento? Estou fora de forma, em pouco tempo já fico ofegante. Preciso continuar, ainda não estou nem na metade do caminho. A praça, antes sempre cheia, saída de metrô, entroncamento de três bairros, que sempre teve muitos moradores de rua, agora é praticamente um abrigo a céu aberto, esse paradoxo entre os diversos oxímoros. Eles comem, dormem, deitam, me ignoram, riem, bebem de garrafas pequenas algum tipo de álcool, outro ali vira uma quentinha velha, vejo uma fogueira, e uma discussão, e empurra-empurra, todos, todos sem máscara – mas não posso parar para ver detalhes, devo continuar. O asfalto irregular quase sumiu na rua que quando chove fica inteiramente submersa. Há muito tempo, antes da civilização, o rio passava aqui. Foi canalizado, mas ele insiste em passar, mesmo com a peste, mesmo com ou por causa do aquecimento global. Um grupo de gatos em frente a uma escola depredada, janelas vazias, apenas o esqueleto de concreto. Um outro grupo de moradores de rua, igualmente sem máscaras, agora perseguindo alguém à frente, correndo muito rápido, mais rápido do que eu pedalo, o fugitivo pula um pitoco de calçada, desvia de um andaime, tropeça num buraco, toma uma decisão errada e é encurralado, e começa a ser espancado pelos demais. Os pontos turísticos vazios, caindo pedaços, vergalhões enferrujados à mostra. Um grande descampado, percebo alguém à frente tentando antever meus movimentos, alguém de máscara, e eu tento prever os movimentos dele, ou agir de maneira incoerente, para que não seja possível traçar algum tipo de caminho, para evitar interceptação, não era uma boa vizinhança para parar e pedir informações, eu saio um pouco do traçado do meu mapa, deveria improvisar, o alguém à minha frente fica para trás. Escolho uma rua paralela à do plano, não houve grande transformação, apenas desviar da grande cratera no meio da rua, uma obra abandonada, que agora acumulava água parada. O Centro, finalmente, o Centro com os prédios grandes e espelhados, inabitados, os palácios e os museus, só fachadas, gradeados, o mobiliário urbano decaindo, quando não propositalmente quebrado, pilhas de lixo se acumulando pelas esquinas, provavelmente não era o foco principal dos garis essa área menos habitada, ou simplesmente decidiram não tratar esse problema ali, o que me faz pensar o que deveria estar acontecendo nas periferias, nos morros, nas favelas, essas áreas já abandonadas antes da pandemia começar, e cheguei à região antiga, das ruelas. Estou esbaforido, cansado, sentindo meu sangue descer todo para as pernas, a pressão caindo, dificuldade de respirar, mas não posso tirar a máscara, devo me acalmar, inspira, expira, inspira, expira. A Avenida Central. Dobrar e já estou na Rua Direita. Inspira, expira. As lojas com as portas de ferro todas descidas. Livrarias, farmácias, lanchonetes, lojas de roupa, de cosméticos, de perfumes, produtos eletrônicos, galerias e prédios comerciais fechados, escritórios de advogados, de arquitetos, consultórios médicos, empresas de tecnologia, de engenharia, tudo parado. Chego ao destino.

Bato à porta, conforme o combinado, pensando no quão contaminada fica a minha mão, observando o vazio oco à minha frente, a estreiteza das ruas ao meu redor, a falta de rotas óbvias de fuga. O silêncio preenche os poucos espaços disponíveis e eu estou alerta para todos os mínimos movimentos. Pombos sem patas inteiras arrulham, os machos enchendo seus pescoços e dançando em frente às fêmeas que os ignoram e continuam a ciscar a sujeira entre os pedregulhos que formavam o chão. Um galho de árvore envolvido numa trança ou dança com o poste de luz desativado. O vento abalroando a porta de ferro que se concava. Os pombos levantam voo todos de uma vez, assustados por uma sombra que eu não identifico. A porta de ferro do meu lado abre. Um sujeito vestido dos pés à cabeça com um macacão como o de produtores de drogas sintéticas, com direito à máscara de filtro, atrás de um vidro que eu juro que era blindado. Vejo um número no comunicador à frente dele, que ele aponta, e eu logo mando mensagem pelo meu celular. Ele desaparece e eu reparo que alguma coisa se movimentou ao meu redor e eu não sei exatamente o que foi. Parece que as sombras tinham mudado de lugar, mas o sol não se mexeu tanto. Olho para o céu e vejo mais nuvens. O calor aumenta e uma grossa gota de suor escorre pela minha fronte, molhando a lateral da máscara. Devo trocar? O homem vestido de borracha volta e recebo uma mensagem dizendo como proceder no pagamento. Entro no aplicativo de transferência de dinheiro e passo para a conta dele. Ele joga um saco vedado hermeticamente numa gaveta e atravessa o vidro blindado. Desço da bicicleta, receoso, ela encostada no meio-fio, e entro no cubículo para pegar o pacote de drágeas. Olho pela transparência do plástico. É isso.

Quando volto à bicicleta, remédios já dentro da mochila, percebo o dono da sombra à minha frente. Um garoto, jovem, com faca tipo estilete na mão, desmascarado. Ele anda vagarosamente, juntando forças para dar o próximo passo, mas decidido como um morto-vivo. O que ele queria de mim?, consigo ainda pensar. Não tenho dinheiro... o meu celular? Os remédios, será? Será que ele quer alguma coisa? Eu que não iria perguntar: sem qualquer reflexão, acelero o máximo que eu consigo nos pedais e vou em direção a ele – não tento desviar, eu quero atropelá-lo, eu quero passar por cima dele! Ele não parece surpreso com a minha decisão e apenas se prepara para o choque. Avanço e ele permanece imóvel, eu me movimento e ele continua parado, até que... nos trombamos! Diferentemente da minha expectativa, porém, eu mal consigo afetá-lo. Não estou em velocidade suficiente para nem mesmo derrubá-lo, quiçá para passar por cima de um corpo, mesmo que franzino. Apesar do impacto, ele consegue se aprumar e aproveita a proximidade para tentar me golpear com o estilete. Eu dou um salto para trás, largando a bicicleta, que despenca, e a lâmina passa colada no meu corpo. Olho para baixo e percebo um fio vermelho escorrendo. Ele cortou, superficialmente, o meu braço esquerdo. Contaminação! Penso na hora. Eu bufo, a máscara sobe um pouco, minha mandíbula à mostra. Estou descontrolado, ilimitado, explodindo! Enlouqueço: Arranco a máscara na hora. Jogo fora os óculos, tiro a touca. E pulo sobre ele. Pulo mesmo, de mergulhar. Ele cai com o peso do meu corpo e com a manobra inesperada. O estilete voa longe. Quando estou no chão, eu, facilmente, consigo sentar sobre o magro peito e começo a esmurrar seu rosto, bati, bati tanto até que o sangue que sai dos buracos da cara dele se combine com o sangue que sai dos meus punhos. Só paro quando percebo que ele apagou – desmaiado ou coisa pior. Não me importa.

Volto à bicicleta, subo no banco, coloco a máscara sobressalente de maneira cuidadosa, como se eu ainda precisasse evitar a contaminação, e volto para casa o mais depressa possível.

A volta é rápida, ou eu que não consigo me concentrar em nada além da vontade de chegar em casa apressadamente, e tomar um banho de duas horas, passar álcool em todo o meu corpo, água sanitária, sei lá, tacar fogo nas minhas roupas, e pular eu mesmo dentro da fogueira. Quero uma forma de desinfetar que fosse a mais profunda possível, tão profunda que voltaria no tempo e me impediria de me contaminar no momento que eu me contaminei. Tão profunda que voltaria ainda mais no tempo e me impediria de sair de casa, de tentar qualquer interação com os vizinhos, de me expor a qualquer perigo... Jogo a bicicleta na garagem e corro para casa – direto para o banheiro, com as botas pisoteando a casa. Entro debaixo do chuveiro ainda vestido e tiro a roupa com puxões que rasgaram a camisa e desprendem o botão da calça. Me esfrego tanto que o corte do estilete, já coagulado, volta a sangrar. Meus dedos enrugam e se ferem. Tufos de cabelo caem. Assoo tanto o nariz que estouro um vasinho e o sangue escorre. Na tentativa de me proteger, eu me machuco ainda mais. Entro em um processo convulsivo, caio no próprio banheiro e desmaio.

Acordo com outro corte na testa, da queda, mas já estancado, e com a água do chuveiro correndo ao meu redor. Estou com uma espécie de ressaca, sentindo o corpo mais pesado que o normal, dolorido em lugares que eu nem sabia que existia. Uma culpa me consome e eu me sinto a pessoa mais horrenda do mundo: aquela que fez as piores escolhas. A única coisa que consigo é me levar até o quarto e me fazer deitar. Apago ainda molhado, sem qualquer cuidado com o novo nem com os antigos machucados.

Quando me levanto, estou perdido no tempo – não sei que dia nem que horas são: está escuro, é a única coisa que dá para perceber. Há apenas um único pensamento na minha cabeça: eu devo tomar os remédios que comprei com o meu dinheiro para me proteger da peste. Eles são meus, e entre pessoas desconhecidas e eu, é melhor eu sobreviver. Talvez não seja o suficiente, como aconteceu com o pai do meu conhecido, mas eu devo me precaver e usar todas as possibilidades para me manter vivo. E o remédio é a minha última chance...

Bufo e quase sorrio, balançando a cabeça. O demônio da meia-noite está sempre à espreita. Diferentemente do seu irmão zenital, que insiste em tirar a vontade de viver a qualquer momento do dia, o noturno prioriza a sua própria vida sem enxergar nada nem ninguém ao seu redor, mesmo que precise morrer no processo ou por conta disso. Não viver para viver, em suma.

Limpo todas as feridas, desinfeto a casa, jogo fora as roupas estragadas e como alguma coisa assim que o sol sobe. É um dia banal. Escrevo uma carta perguntando como eles estão. Me paramento, abro a porta e atravesso o corredor, mais uma vez. Passo a carta, após limpá-la com álcool, por debaixo da porta, e deixo os remédios na maçaneta da porta, antes de tocar a campainha. Começa, então, a minha própria expectativa para saber se estava ou não contaminado, os 15 dias de aflição os quais eu aproveito para escrever essa história.

quinta-feira, 11 de junho de 2020

2 a 2 [Ficção]

Esse jogo não pode ser um a um
Jackson do Pandeiro

Da varanda do terceiro andar, Melissa observa os meninos correndo atrás da bola. Na frente, Diego, ponta do pé, mãozinha côncava para trás e peito estufado, elegância copiada da televisão. Sua dupla, Dominguinhos, recebe a bola em profundidade e toca para o golzinho vazio para marcar. Mesmo com toda a sua velocidade, Breno não chega a tempo de defender a meta e olha de cenho fechado para Alê, com as mãos nas cadeiras, como se não tivesse responsabilidade no desfecho. Diego e Dominguinhos começam uma dancinha, mãos nos joelhos, balançando quadril e cabeça coordenadamente. De cabeça quente, Breno pede para tomar água. Isolado, Alê parte sem se despedir. “Ih, vai arregar, é?”, Dominguinhos fala. “Ele vai é chorar”, Diego completa. “Assim vai acabar a partida, Alê”, Breno tenta outra tática. O garoto não fala nada antes de pegar o elevador.

“Por que você não desce?”, Cecília se aproxima da menina na varanda, com uma boneca na mão: “Pelo que eu vejo eles estão precisando de mais alguém”. Breno tinha improvisado balizas com os chinelos e entrado para o gol, enquanto Diego e Dominguinhos jogavam um-toque. A bola quica e Diego fuzila o gol, sem chance para Breno. “Eu não sei jogar...” “Mas você pode tentar”, insiste a mãe. A menina pega a boneca da mão da mãe e vai direto para o quarto.

***

“Par” “Ímpar” “Do-lá-si... já!” “Quatro, seis. Escolho Dominguinhos.” “Monstro”, “Breno”, “Rodney”, “Minhoca, vai jogar?” “Vou pra casa”, “Então, deixa ver...” “Chama o Marcinho”, Dominguinhos cochicha para Diego: “Marcinho”, “Peraí”, Junior, que tirava o outro time, interrompe: “se o Minhoca não jogar, vai faltar um.” Os garotos se entreolham e enxergam ao longe, mas atenta, Melissa, de short e tênis, pronta para entrar em campo. “Tem a Melissa”, propõe Breno. “Mas ela é mulé!”, corta Diego. “Ela sabe jogar bola?”, inquire Dominguinhos. “Você quer jogar, Melissa?”, Breno pergunta. A menina abre sem perceber um sorriso, mas fica travada, sem conseguir articular palavra, mesmo que um simples sim, e tenta reunir forças para responder, balançando a cabeça... “Não no meu time”, cortou de novo Diego, “Pô, Diego, teu time já tá com Dominguinhos e Bruno. Coloca a Melissa para equilibrar”, insistiu Junior. “Rodney vem para cá, então, Marcinho vai para aí, junto com o Alê e Índio, e Melissa joga de café-com-leite”, “Fechou. Quem fizer três primeiro vence”.

A menina estava excitadíssima, mas igualmente assustada. Nunca tinha jogado com os meninos – e com as meninas não achava graça. Gostava do estilo de Diego, mesmo que um pouco afetado, da velocidade de Breno, da habilidade de Dominguinhos, com aqueles cabelos louros sujos. Breno se aproxima dela. “Fica aqui no meio, tá? Eu vou jogar do seu lado. Se a bola for para você, passa para mim.” Ainda sem conseguir dizer nada, ela assente com a cabeça.

A partida começa com Diego tabelando rapidamente com Dominguinhos e partindo para dentro do campo adversário. Eles estavam no campinho da praça, terra suja que forçava o uso de kichute, sob o risco de pegar bicho no pé. Às vezes, Diego se arriscava para mostrar que não tinha frescura, mas Dominguinhos, filho de dona Zuleica e de seu Domingos, jamais ficava descalço. Breno não tinha tênis sobrando e, virava e mexia, estava coçando a sola.

Assim que entrou na área, Diego tromba com Alê e rola no chão, se enfarinhando de areia, para a careta de Melissa. “É um mascarado”, Alê foi o primeiro a gritar, com as mãos para o alto. Percebendo que não tinha surtido efeito, Diego se levanta, mancando de primeira, depois perfeitamente.
No tiro de meta, Marcinho bate na direção de Junior, na meia esquerda, do lado de Melissa. Ela fica assustada com a velocidade do jogo e é logo ultrapassada pelo adversário, que lança Monstro. Monstro entra na área e só toca na saída de Rodney: 1 a 0. “Assim não dá, ela vai acabar com o nosso time!”, grita Diego, batendo na coxa. Breno se aproxima dela novamente: “Não fica com medo da bola... encara!” “Tá bom”, ela consegue, finalmente, responder alguma coisa.

A bola sai do meio e Diego e Dominguinhos tentam de novo a tabelinha, mas o diabo louro percebe a arrancada de Breno pelo lado direito, e dá um passe na medida para o magricela meter uma bicuda para o gol – Marcinho espalma, a bola volta para o centro da área, Diego dá uma ombrada com violência, derrubando Alê, e chuta para o gol, praticamente vazio. Era o empate. Os ânimos se acalmam um pouco.

Junior e Monstro saem a bola e caem de novo para o lado de Melissa, que, novamente, se afasta da bola. Dessa vez, Breno chega junto e Dominguinhos fica na rebarba. Junior percebe Alê e Índio sozinhos do outro lado do campo, porque Diego fica na banheira, e os lança. Alê dá uma canelada e a bola escapole, mas Índio conserta e marca o segundo. “De novo!”, reclama, Diego, “tamo jogando com um a menos!” “Diego, se você não voltar, a gente vai jogar com dois a menos!”, Breno tenta contrapor. “Eu já fiz um gol, quantos você já fez, Breno?” Breno se crispa, mas Dominguinhos interfere: “Oh! O jogo inda não acabou! Melissa, vai para o gol. Rodney, vem para a linha”. A menina vai sem reclamar.

Com a bola já rolando, Rodney bate para Dominguinhos, que com um drible de corpo tira Monstro da jogada, e de novo lança Breno, que dribla Alê e, em vez de bicar, cruza para Diego, que, da meia-lua improvisada bate de prima para fazer um golaço. Os dois meninos correm para se abraçar e logo chega Dominguinhos e por fim Rodney. Constrangida, Melissa não consegue comemorar direito.
Na saída de bola do meio-campo, Junior passa para Monstro que faz uma embaixadinha e não perde tempo: manda um balãozinho para o gol. Afobada, Melissa tenta pegar a bola no primeiro quique, mas é enganada, e a bola passa exatamente debaixo das suas pernas. Era o fim do jogo.

“Nunca mais, nunca mais jogo com mulé!”, grita Diego ao lado de Dominguinhos e Rodney, enquanto Breno se aproxima outra vez de Melissa. “Você gosta de jogar bola?” “Sim...”, responde, mais encabulada ainda. “Eu venho aqui sempre depois da aula. Se quiser, a gente pode treinar.” A menina, sem entender direito a oferta, tentando descobrir se havia alguma segunda intenção por trás daqueles olhos grandes que quase tapavam todo o rosto franzino, topa.

***

Não era um treino oficial, mas bastante organizado. Breno e Melissa ficavam batendo bola, ela aprendendo a dominar, a marcar, a não ter medo de encontrões. Ele pedia para ela chutar a gol, e tentava defender. Sugeria que ela lhe driblasse, corresse com a bola nos pés, desse estirões e piques. Indicava a melhor maneira de impedir o adversário de progredir, marcação homem a homem e por zona. Embaixadinhas, cabeçadas, matadas no peito, na coxa, calcanhar. Receber um passe longo, fazer lançamentos. Tabelinhas, cobrança de falta, escanteio. Chutes colocados e com força. De bico, de chapa, de peito de pé. “Controle de bola é o mais importante”, repete Breno, “sem controle de bola, você não consegue driblar, não consegue passar, menos ainda chutar”.

Todos os dias, Melissa chegava uma hora mais tarde que o normal para o almoço em casa, suja, cheia de fome e, frequentemente, com alguns hematomas. Ela desistiu por completo das bonecas e pediu uma bola. A mãe sorriu e prometeu uma oficial no aniversário. Assim que ganhou, ficava às tardes no play, chutando e rechutando a bola na parede, se imaginando no estádio, fazendo gols de voleio, de bate-pronto, de sem-pulo – só golaços, com o locutor da TV chamando o seu nome, a torcida entoando músicas em homenagem a ela, com os companheiros a levantando nos ombros, abraçando, fazendo coreografias juntos. Mas era só aparecer Diego, Dominguinhos e os demais garotos, para ela fugir. Ia para a pracinha. Tentava se enturmar com os garotos do outro prédio, mas, depois daquela estreia, ficava sempre na de fora. Jogava sozinha, num canto, tentando bater o seu recorde próprio de embaixadinhas, e, às vezes chegava até a emprestar a bola da seleção, mesmo sem participar dos jogos.

Um dia, no play, foi pega de surpresa por Dominguinhos e ficou estatelada. “É você quem suja as paredes!”, caçoou da menina, que se encolheu mais. Ela pegou a bola e tentou sair, mas no corredor encontrou Diego (“Ih, olha aí quem quer ser jogador”), e, por fim Breno, que a cumprimentou e passou direto. Os meninos tinham ido jogar, mas faltava um quarto jogador. Ficaram chutando a bola, um para o outro, preguiçosamente. O elevador chegou e partiu, e Melissa parada. Continuava a olhar para os três, apertando a maçaneta da porta. Sem conseguir entender de onde veio a voz, ela gritou: “Eu quero jogar”, e se assustou com o som. Os três a observaram, com desprezo, com curiosidade, com alegria. “Não mesmo”, “Você tá treinando?”, “Ela pode jogar comigo”, “Só se for...”, “Beleza por mim”, ela completou.

Breno colocou os chinelos para marcar o próprio gol, dando os quatro passos entre uma trave e outra, conferindo se Diego fazia igual. “Pode sair com vocês”, gritou Diego, tirando onda.

Bola rolando, Breno leva o jogo, dá um pique, mas Dominguinhos consegue travar a passagem. O lourão lança Diego, que para na frente de Melissa. Tenta passar, jogando a bola no meio das pernas dela, que, bloqueia o avanço. O jogo fica logo truncado, marcação forte de ambos os lados sem deixar espaço para o adversário. Na frente de Diego, Melissa finge que iria mandar para Breno, Diego acredita, e ela consegue passar, finalmente. Leva a bola sozinha, Diego atrás, catando coquinho, e dá um toque leve para o golzinho aberto. A bola progride lentamente e, antes de entrar, Dominguinhos se estica num carrinho e impede o gol. “Boa”, Breno grita no fundo, se aproximando dela: “Acho que você descobriu a sua posição, hein...”. Diego sai com a bola e, jogando bem mais seriamente, dá uma pedalada. Melissa parada, focada, sem cair no truque. Diego passa para Dominguinhos que, num lance de pura inteligência, devolve de primeira, na frente, para Diego, que saca o jogo e corre, ao lado de Melissa, ombro a ombro, Breno marcando Dominguinhos. Diego dá um come para dentro, Melissa acompanha, quando ele vai dar um segundo corte, ela se joga num carrinho, pega a bola, mas cai de mau jeito, com o braço sustentando o corpo inteiro. “AI!”, grita desesperadamente. “Ai, ai, ai!”, a menina se vira de bruços, para esconder as lágrimas. Tinha quebrado o braço.

***

Com o braço engessado e recém chegada do colégio, Melissa tenta se adaptar a segurar o garfo com a mão direita, ela que é canhota de mão, e destra de pé. A mãe se aproxima e corta um pedaço da batata corada, para ajudar. O gesso de Melissa está todo assinado com recados e declarações. Toca a campainha e a mãe vai atender. Ela volta com um sorriso no rosto: “Melissa, é para você”. A menina larga o garfo e se levanta. Na porta, estão Diego, Dominguinhos e Breno. “Quer jogar?” “Dá para jogar com o braço quebrado?” “Você tá melhor?”, dizem os três, em sequência. A menina olha para a mãe, que assente com a cabeça, e sai de casa.

segunda-feira, 8 de junho de 2020

RESPIRAÇÃO [ficção]

Porém começam a adentrar as grandes vias. Passos lentos e arrastados. Uns carregam armas, a maioria leva paus, barras de ferro, punhos cerrados, cenhos franzidos. Marcha vagarosa cheia de fúria. Rostos esburacados, peles purulentas, cabelos escamados.

Dentro de um carro que ainda trafega, um homem porta no carona seu cilindro de oxigênio. A máscara não lhe cobre os olhos arregalados ao avistar a onda se aproximar pé ante pé. O motorista consome mais oxigênio que o comum. O respirador apita pelo excesso. Ele acelera em direção à multidão. Consegue avançar, arremessa corpos ao alto. O carro para, entalado sobre tantos sujeitos, a roda gira em falso. A turba tenta gritar, mas falta força. Há apenas murmúrios enraivecidos e zumbidos de dor dos que não morreram no choque.

Ao parar, o veículo é assaltado. Pedra nos vidros, ferros na lataria até sacar o motorista. Arrancam seu respirador e um primeiro veste a máscara e sorri imediatamente: acesso inédito a oxigênio em alta concentração. Efêmero. Um segundo o empurra e rouba a máscara e coloca vazando, mas sorrindo, porque era o que se fazia ao cheirar 02 puro. O motorista, esquecido, se debate na atmosfera pobre em oxigênio. Puxa o ar, mas insuficiente, faz um silvo grave pelas vias aéreas. A máscara é disputada. Cada um que a experimenta pensa que respira pela primeira vez. Tanto os que conseguem quanto os que só atingem o placebo se sentem energizados. Há sempre um êxtase, mas tão curto que a memória não registra.

Alguém ruge, os demais entendem. Chega uma senhora, cadeira de rodas, se aproxima da máscara e alguém a veste. O rosto se acende, lembra de um passado longínquo. Completa três ciclos de inspiração, e vemos as cores voltarem um pouco ao rosto, a vivacidade, aos olhos, um sorriso começa a se formar, até que uma mão puxa a máscara outra vez. Antes de se encaixar, outra mão a rouba e acontece um cabo de guerra com a máscara, que se arrebenta. O motorista caído diz “animais” antes de receber pauladas...