quinta-feira, 15 de junho de 2017

Maio de 1968, Junho de 2013

Ler um livrinho com uma entrevista do Dany, le Rouge [apelido de Daniel Cohn-Bendit, talvez o nome mais conhecido do Maio de 1968, mas como ele mesmo diz, "tout le monde me tutoie", todo mundo o trata com informalidade] concedida em 2008 tem um ou dois efeitos imediatos, ainda mais agora, no mês de junho: pensar como 40 anos depois se continuava a tentar entender a revolta que agitou, outra vez mais, as ruas parisienses - e perceber como os desdobramentos desse movimento reverberam até hoje.

Foi curioso começar a ler o pequenino livro junto às críticas ao já quase esquecido texto do ex-prefeito e ex-ministro Haddad - e seu míope, porém, quase seminal, para os padrões petistas, diagnóstico do nosso Junho de 2013 - e terminar com os primeiros textos sobre os quatro anos dos nossos maiores protestos da História recente [penso principalmente no do Torturra e no do Pablo Ortellado]. É difícil contornar os paralelos entre os dois momentos.

[Sou um leitor de zoom out, na imensa maioria das vezes: vejo sempre a grande figura e faço comparações dos traços mais brutos, ignorando os detalhes mais escondidos e os gostos mais sutis - portanto, é claro que há diferenças entre os dois momentos, mas o que eu quero ressaltar aqui é exatamente as suas semelhanças e o que podemos entender de nós mesmos ao olhar para o caso francês.]

Há inúmeras maneiras de fazer esses paralelos, mas há duas, intrinsecamente conectadas, a meu ver, que merecem ser destacadas e ressaltadas numa primeira canetada. O franco-alemão Cohn-Bendit faz coros com outros soixante-huitards [os que participaram do movimento em 68, soixante-huit, em francês] ao dizer como os protestos como aconteciam até então estavam totalmente ultrapassados, i.e., em desacordo com os desejos e anseios da sociedade de então e, principalmente, dos jovens. Lembrar que o jovem, e a cultura jovem, como nós a conhecemos, nasce no pós-guerra, e ganha força principalmente nos anos 1960.

Não haveria como mobilizar, dialogar, mover os outros com um tom antigo, diz ele. O que os estudantes demonstraram - talvez a arma mais desestabilizadora dos jovens - foi uma "joie de vivre", uma alegria de viver, que empolgava não somente outros jovens, mas dava esperança até mesmo gente mais calejada como Jean-Paul Sartre, veterano de outras resistências francesas.

O jornalista francês Stéphane Paoli, que conduz a entrevista [junto com o sociólogo Jean Viard], chega a tentar resumir todo o movimento de Maio de 1968 à "jouissif", uma alegria, do tipo de uma fruição. A foto da capa do livro, de Gilles Caron [que ilustra esse texto], é citada em vários momentos como um exemplo da força - a força sutil, alegre, gaia - do movimento. "Minha história é ainda mais viva com essa foto", diz Cohn-Bendit.

Não precisa ser um especialista em semiótica para conferir como o sorriso de satisfação do jovem estudante de 20 e poucos anos desconstrói o peso endurecido do soldado com o seu capacete brilhoso. Era o frescor do sorriso largo contra o velho, o encardido, o mofado da sisudez militar. Era alguém que desafiava a ordem, criando outra forma de ordem, mais leve, menos respeitadora das ordens pré-estabelecidas.

Cohn-Bendit lembra das inscrições nas paredes de Paris como uma das principais forças de mobilização da época*: "Jouir sans entraves" [fruição sem entraves], "Sous les pavés la plage" [sobre o asfalto, a praia], "La bourgeoise n'a qu'un plaisir, c'est de les détruire tous" [a burguesia não tem outro prazer senão destruir a todos], "À bas la société de consommation" [abaixo a sociedade de consumo], "Je suis marxiste, tendance Goucho" [Eu sou marxista, vertente Groucho - a minha favorita], "Soyez réalistes, demandez  l'impossible" [Sejam realistas, exijam o impossível], "Il est interdit d'interdire" [é proibido proibir]. Quase todas, se as minhas traduções estão corretas, têm um forte fundo humorístico, às vezes surrealista, até.

Os movimentos contraculturais não foram uma exclusividade francesa - e o próprio Cohn-Bendit faz questão de ressaltar isso logo de cara na conversa. Havia uma urgência de mais flexibilidade dos modos de ser era uma tendência mundial - ou em todo o mundo sobre influência do chamado Ocidente.

Para citar um exemplo mais conhecido nosso, basta pensar na Tropicália de Caetano, Gil e companhia - e como o comportamento deles fora da ordem vigente foi ambidestramente criticada, da direita mais conservadora até os comunistas mais tradicionais. Aliás, de uma maneira bem parecida [novamente: no zoom out], esse foi um desconforto muito parecido com o provocado pelo movimento de Paris.

Também podemos voltar ainda mais um pouco no tempo e chegar à Antropofagia de Oswald de Andrade e sua "alegria é a prova dos nove" para ver como o riso pode provocar fissuras no mais sisudos dos muros.

Se quisermos optar por um caminho não tão tradicional, podemos ainda retornar a Machado, ao casmurro Machado de Assis, que deixou claro logo no início de sua obra mais icônica que seu principal personagem, o defunto autor Brás Cubas, escrevia suas memórias póstumas com a escura tinta da melancolia, sim, mas certamente usava para tal empreitada uma leve e ridente pena da galhofa. É necessário ter sempre um sorriso de canto de boca, mesmo quando falamos sobre as coisas mais sérias e profundas.

Isso tudo me lembrou o último protesto que participei - há um mês, mais ou menos, logo após saírem os grampos do empresário da JBS com Temer. Havia dois grandes chamarizes para a multidão que lotou a Rio Branco: um do gênero empoeirado, sobre um carro de som, berrando slogans gastos contra os inimigos de sempre; e outro jovem, fresco, com estudantes - a maioria mulheres e negras - usando instrumentos de percussão, tocando ritmos populares com letras cheias de sacadinhas perspicazes que falavam sobre a urgência das pautas de gênero e de raça, entre outras temas, em um imaginário eixo x, sem se esquecer do eixo y, o econômico, que junta a outra das pontas dos excluídos.

Imagino que não seja necessário dizer qual dos dois discursos era mais potente e reunia mais gente empolgada, com fogo nos olhos.

Como diz Cohn-Bendit, ao comentar o simbolismo do sorriso da foto: a liberdade deve rimar com prazer.

A resistência será feminista, negra, trans, pobre, favelada, indígena, quilombola, e um imenso etc. de causas minoritárias, mas também será, terá que ser, ridente - ou não será.

ps. O livro, curiosamente para o início deste texto aqui, se chama "Forget 1968", assim mesmo, no inglês, a pedido do próprio Cohn-Bendit. O que mostra que mesmo os ícones dos grandes movimentos políticos se cansam do seu passado. Talvez um dia possamos dizer a mesma coisa sobre 2013. Acho que ainda não estamos em condição - ao contrário.

*  Outra das forças propulsoras citadas por Cohn-Bendit em 1968 é a rádio e outros meios independentes que transmitiam e cobriam os protestos quase como jogos de futebol. Impossível não pensar no paralelo com a Mídia Ninja - e como ter um monopólio de comunicação no Brasil nos atrapalha fortemente.

quinta-feira, 8 de junho de 2017

Des nouvelles françaises

Talvez o maior choque quando se chega em Paris para um temporada mais extensa, é a mesma que acontece do outro lado da poça ["A tale of two cities", sacou?]: vou ser soterrado tanta a quantidade de coisa para se fazer aqui. Me foi sugerido [obrigado Carla, obrigado Werneck] comprar o "Pariscope", um "Rio Show" avulso [olhaí a oportunidade] que sai às quartas-feiras e custa um euro para me situar sobre o que está rolando na cidade. Não o encontrei mais, mas achei "L'officiel des spectacles", que, parece, é tão incrível quanto.

Nesse livrinho de papel vagabundo, temos informações de cinema, teatro, música de todos os tipos, alguns restaurantes da semana e até mesmo palestras que acontecerão nos próximos sete dias. Nada mais parisiense, me parece. Dá para saber que nas próximas semanas vão tocar vários medalhões do rock e do jazz como de shows intimistas para poucas pessoas. A capa dessa semana é sobre um documentário franco-suíço sobre monges budistas birmaneses que perseguiam violentamente os muçulmanos da região chamado "Le vénérable W." e dirigido por Barbet Schroeder.

A sugestão pode parecer muito francesa, no sentido clichê de ser esnobe ou de se exibir como detentor da alta cultura, a ponto de se preocupar com o mundo inteiro, como se fizesse parte integrante das próprias fronteiras. Mas é curioso comparar a distância entre a intenção e o gesto, como diria Chico. Talvez a nova França seja aquela representada pelo fato de a maior estreia da semana passada ter sido "Piratas do Caribe 5" ou pela maior estreia do ano, "Velozes & furiosos 8".

Ou talvez seja as duas.