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quinta-feira, 26 de setembro de 2013
quinta-feira, 27 de junho de 2013
quinta-feira, 6 de junho de 2013
'Ônibus e carro não são solução para a cidade'
Quero ver quem vai adivinhar quem falou essa frase. Uma dica: ele é prefeito.
Depois vocês dizem que ele não é bem humorado. Só não o chamem de bosta que aí ele perde a fleugma.
domingo, 28 de abril de 2013
quinta-feira, 28 de março de 2013
quarta-feira, 19 de dezembro de 2012
Humor contemporâneo
Esse pessoal do "Porta dos fundos" é a único humor a que eu assisto hoje em dia. Acho chato todo o mais produzido [que eu tenha acesso, claro]. Mas eles, que não miram na gargalhada, conseguem, quando não o riso, serem divertidos. Sempre. O que é um mérito e tanto. São mais inteligentes bem mais inteligentes que a média, sempre sem respeitar o espectador, como deve ser o humor.
Mas não é porque eles não se importam com quem está vendo o vídeo que suas propostas são idiotas, como outros casos. Todo mundo tem direito a produzir qualquer esquete que quiser - doa a quem doer. O problema é que algumas pessoas acham preconceitos antigos, apologias a crimes de todas as naturezas, e imbecilidades generalizadas engraçadas. Aí não é só um problema de quem está criando esses vídeos.
As críticas travestidas de piada feitas por Fábio Porchat, Gregório Duvivier, Clarice Falcão e cia, descem pela garganta com dificuldade, numa disputa entre a gargalhada nervosa, o sorriso do reconhecimento da realidade espinhosa, e o riso amarelo. São bem amargas, bem amargas, em certos momentos. Porque, bem, porque eles devem imaginar que, de doce já basta a vida.
terça-feira, 6 de novembro de 2012
Eleição nos EUA: os estados do swing
Sempre que eu escuto ou leio a expressão swing states em relação às eleições americanas, eu penso em um estado inteiro onde as pessoas trocam de casais aos fins de semana em boates-inferninhos, com luz baixa e muita saliência. Em seguida, eu fico inclinado a pensar que o eleitorado norte-americano ficaria dividido, com tendência ao Romney. Explico:
Enquanto eu suspeito que o liberal Obama ficaria na dúvida de aceitar esse tipo de liberdade com a sua Michelle, o mórmon Mitt Romney aceitaria esse fato em nome de deus - e do eleitorado. E poderia argumentar que a sua religião já pratica esse.. hum... "casamento plural" desde o século XIX, portanto, teria mais experiência no assunto.
De toda forma, o mauricinho Romney parece aquele cara que não desperta nenhum sex appeal nas mulheres com um pouco mais de sal - mas vocês estão livres para discordar de mim, que estou longe de ser um especialista no assunto. O cara que até conseguiu uma namorada - a única, a que se casou com ele - quando era um adolescente, é a cara do fulano que teve tido dificuldade de arranjar o par para a prom [nem deve ter sido o caso, já que ele tinha a eterna namorada]. Já o negão Obama, bem, é outra história.
Aí eu vejo que um desses swing states é a Flórida e lembro que os latinos morando lá geralmente tentam reviver tradições tão antigas que nem existem em seus países de origem. Portanto, esse swing não deve ser esse o caso de troca-de-casais.
Depois eu caio na segunda armadilha: devem ser os estados do swing, aquele estilo do jazz, do início até meados do século XX, com big bands e que tem Benny Goodman como um dos principais expoentes. E aí, não tem nenhuma possibilidade de empate, nem divisão. Barack Obama teria uma vantagem enorme. Pense num cara com suingue e simpatia, groove, manemolência, a definição do cool. Tenho certeza de que a imagem do Obama apareceu na sua cabeça. Outra vantagem é que o Obama é havaiano, o que lhe dá um ar de "sei aproveitar o meu tempo livro", e, para ajudar, tem base eleitoral em Chicago, não por acaso a terra de Goodman. Se ficar ainda na dúvida, basta pensar: quem você convidaria para uma festa? É lavada.
Aí você vê que Iowa é dos swing states e nada pode ser menos suingado que Iowa - chamada de "heart of the corn belt". Dá até arrepios. Curiosamente o lugar onde Obama começou em 2008 e encerrou a campanha deste ano. Não deve ser coincidência.
De toda forma, como essas interpretações muito mais relevantes que as estritamente políticas não servem de muito, infelizmente, não dá para prever muito bem como vai se comportar, não o eleitor, mas o colégio eleitoral norte-americano. Esse lugar, como em todos os colégios, onde a baderna impera. Meu voto, portanto, e se eu pudesse, vai para aquele cujo problemas identificados são ser "reservado, introvertido, metódico e obcecado por conciliação". Ótimos defeitos, suspeito, para um político.
ps. Sem estresse, já sabemos quem vai ganhar.
Enquanto eu suspeito que o liberal Obama ficaria na dúvida de aceitar esse tipo de liberdade com a sua Michelle, o mórmon Mitt Romney aceitaria esse fato em nome de deus - e do eleitorado. E poderia argumentar que a sua religião já pratica esse.. hum... "casamento plural" desde o século XIX, portanto, teria mais experiência no assunto.
![]() |
| Quem você acha que tem mais suingue? |
Aí eu vejo que um desses swing states é a Flórida e lembro que os latinos morando lá geralmente tentam reviver tradições tão antigas que nem existem em seus países de origem. Portanto, esse swing não deve ser esse o caso de troca-de-casais.
Depois eu caio na segunda armadilha: devem ser os estados do swing, aquele estilo do jazz, do início até meados do século XX, com big bands e que tem Benny Goodman como um dos principais expoentes. E aí, não tem nenhuma possibilidade de empate, nem divisão. Barack Obama teria uma vantagem enorme. Pense num cara com suingue e simpatia, groove, manemolência, a definição do cool. Tenho certeza de que a imagem do Obama apareceu na sua cabeça. Outra vantagem é que o Obama é havaiano, o que lhe dá um ar de "sei aproveitar o meu tempo livro", e, para ajudar, tem base eleitoral em Chicago, não por acaso a terra de Goodman. Se ficar ainda na dúvida, basta pensar: quem você convidaria para uma festa? É lavada.
Aí você vê que Iowa é dos swing states e nada pode ser menos suingado que Iowa - chamada de "heart of the corn belt". Dá até arrepios. Curiosamente o lugar onde Obama começou em 2008 e encerrou a campanha deste ano. Não deve ser coincidência.
De toda forma, como essas interpretações muito mais relevantes que as estritamente políticas não servem de muito, infelizmente, não dá para prever muito bem como vai se comportar, não o eleitor, mas o colégio eleitoral norte-americano. Esse lugar, como em todos os colégios, onde a baderna impera. Meu voto, portanto, e se eu pudesse, vai para aquele cujo problemas identificados são ser "reservado, introvertido, metódico e obcecado por conciliação". Ótimos defeitos, suspeito, para um político.
ps. Sem estresse, já sabemos quem vai ganhar.
quinta-feira, 4 de outubro de 2012
Cenas cariocas: andar de ônibus - parte 2
Conforme a minha editora-particular sugeriu, divido este post em dois - já que a paciência das pessoas fica cada vez menor, à medida que se pega mais ônibus na vida. Continuemos a viagem:
5ª/ Onde se sentar?
Você entra no ônibus e vê apenas alguns lugares vazios. Mapeia o lugar em seu cérebro. Cria, instantaneamente, um logaritmo que avalia as vantagens e desvantagens de cada um dos espaços. Aquele ali do lado esquerdo deve bater sol, já que é de manhã e esse ônibus vai passar pela praia. E tá muito calor, principalmente para quem não está acostumado. Esse outro... hum... não. Eu não tenho preconceito, nem sou racista, mas não me sentar do lado desse cara. Já vi muito assalto nessa vida e é uma experiência que eu não aconselho para ninguém. Aquele outro... Bem, a senhora está um pouco, digamos, sem querer ser, como direi, explícito, a senhora está acima do peso. Acho que não vou caber. Aquele lá atrás, então, não dá para nem colocar as pernas direito - e olha que sou baixinho. Esse, esse aqui, bem na frente, do lado do trocador [porque se alguém for assaltar o ônibus, vai preferir roubar o dinheiro do próprio ônibus que o meu, que só carrego trocados], e ainda do lado que dá para ver a praia, que insiste em aparecer em todo o trajeto, para lembrar que você - que nem gosta de praia - não está lá.
6ª/ Como se entreter durante a viagem?
Música é a melhor pedida. Um dos conselhos mais repetidos por especialistas, assim como por qualquer um com um mínimo de bom senso, é a necessidade do uso de fones de ouvido. É tão importante para segurança, como, sei lá, cinto de segurança. Vai que você está atrás de um lutador de vale-tudo que não gosta das amáveis letras do funk que você [e todo mundo no ônibus] está escutando e resolve resolver a questão com a sua versão um pouco mais física do que ele chama de diálogo.
Leitura é também uma pedida, mas com a velocidade imposta pelo motorista, o filho exemplar que é o único que pode salvar o pobre pai, é capaz de você sentir um daqueles enjoos que você tinha quando era bem pequeno e o seu pai pegava uma estrada deveras sinuosa.
Caso isso aconteça, uma sugestão de solução: se estiver à janela, abra-a - caso, obviamente, seja o seu dia de sorte, já que o normal é ela estar emperrada [e então, ao saltar/soltar {veja abaixo}, procure o bicheiro mais próximo e jogue o número da placa do ônibus lá; talvez sua sorte não demore muito a acabar] - abra a janela e respire o mais profundamente possível, até a passageira do banco de trás reclamar que o vento está embolando o seu [dela] cabelo, que acabou de passar por uma escova marroquina. Se estiver longe da janela, a opção é rezar - lembre-se que estamos no maior país católico do mundo.
7ª/ Como saltar / soltar do ônibus?
Em primeiro lugar, saiba que ninguém sabe ao certo se o certo é "saltar" ou "soltar" do ônibus - já que ambas acepções têm defensores e fazem um sentido capenga. Na verdade, o certo deve ser "descer", mas como o processo para sair do coletivo é mais parecido com um "salto", ou com o fato de você ter passado o tempo todo segurando em algum corrimão - por segurança, já que o motorista ainda não chegou para salvar o pai, cujo pescoço deve ser o mais resistente da história [outro caso de objeto de estudo desperdiçado] ninguém usa o certo.
É claro que ao fazer o sinal, o motorista vai escolher aleatoriamente o lugar onde parar. Considere-se um sortudo se ele parar no raio de cem metros do seu ponto. Há casos de gente que é deixada no ponto seguinte, após, claro, a "discussão diária"* no ônibus.
Uma das possibilidades para se tentar diminuir o caminho a ser percorrido, antes de saltar do ônibus, é tentar gritar, lá de trás, da porta traseira, para o motorista. O que nos leva ao...
7.1ª/ Como se dirigir ao motorista?
Ignore o lembrete do lado do motorista que está escrito: "fale ao motorista somente o indispensável". Pense que, um/ você pode ser considerado indispensável [na dúvida, pergunte à sua mãe], dois/ o que você vai falar é indispensável, se não você não passaria por esse constrangimento de ter que gritar de uma ponta a outra do ônibus para tentar atingir o sujeito que está dirigindo esse veículo.
Também evite a tentação de dizer o que você realmente quer dizer ao motorista, após ter sido sacudido, e tratado como cavalo [mentira, cavalos são muito mais bem tratados]. Evite ser o protagonista da "discussão diária"*, já que há estudos de universidades americanas que apontam que a taxa de infarto entre os partidários da "discussão diária" é ligeiramente superior aos dos demais passageiros.
Por fim, escolha um modo carinhoso de se dirigir ao condutor desse veículo coletivo. A opção preferida, segundo recente pesquisa de institutos de opinião, é "Piloto". Você pode ainda optar por: "Motô", "Motorista", "Chefe", "Camarada", "Cumpadi", "Bróder", e demonstrar um pouco da sua personalidade, criação e educação nesse diálogo.
Em seguida, tente ser sucinto: lembre-se que, além do fato de o motorista estar apressado para o compromisso mais importante da vida dele, ele está do outro lado do carro, com trocentos barulhos e poluições sonoras - inclusive o fulano que escuta música sem fone de ouvido - entre vocês. Portanto, é capaz dele não escutar bulhufas, ou, na melhor das hipóteses, ter uma ligeira noção do que você tá falando. Faça gestos, assovie, acene, aponte, use a sua linguagem corporal. Se nada disso der certo, tente o trocador, para ser o seu tradutor, ou o portador da boa-nova, mas saiba que ele vai estar dormindo.
8ª/ Saí do ônibus, e agora?
Em primeiro lugar, se você for religioso, agradeça ao[s] seu[s] deuses. Se não for, comece a duvidar da sua ateísmo - você acabou de passar por um verdadeiro milagre diário. Sobreviver, praticamente intacto, a uma viagem como essa não deveria ser, estatisticamente falando, o usual. Pense em sugerir para aquele seu amigo matemático fazer o cálculo da probabilidade de acidentes com não somente o seu ônibus, mas todos correndo do jeito que eles correm [os pais dos motoristas devem sofrer perseguições, só pode ser, para todos estarem, sempre, à beira da morte...].
Em seguida, tente descobrir o quão longe o ponto é do seu destino final. E sinta-se um privilegiado se não saltou/soltou no lugar errado - já que não há qualquer informação sobre os pontos, dentro do ônibus. Porque, imagine, a opção a andar é pegar outro ônibus, já que é o único exemplo de transporte público. E dois milagres, assim, quase sucessivos... é mais fácil ganhar no jogo do bicho.
* "Discussão diária" é o termo técnico usado para descrever o momento em que duas ou mais pessoas começam a discutir entre si, ou contra o motorista. Os motivos, geralmente, são os mesmos: a incompreensão por parte dos passageiros da necessidade do motorista em manter sua velocidade para conseguir salvar o próprio pai, cujo pescoço é feito de uma qualidade rara de borracha que só aparece em pais de motoristas de ônibus.
5ª/ Onde se sentar?
Você entra no ônibus e vê apenas alguns lugares vazios. Mapeia o lugar em seu cérebro. Cria, instantaneamente, um logaritmo que avalia as vantagens e desvantagens de cada um dos espaços. Aquele ali do lado esquerdo deve bater sol, já que é de manhã e esse ônibus vai passar pela praia. E tá muito calor, principalmente para quem não está acostumado. Esse outro... hum... não. Eu não tenho preconceito, nem sou racista, mas não me sentar do lado desse cara. Já vi muito assalto nessa vida e é uma experiência que eu não aconselho para ninguém. Aquele outro... Bem, a senhora está um pouco, digamos, sem querer ser, como direi, explícito, a senhora está acima do peso. Acho que não vou caber. Aquele lá atrás, então, não dá para nem colocar as pernas direito - e olha que sou baixinho. Esse, esse aqui, bem na frente, do lado do trocador [porque se alguém for assaltar o ônibus, vai preferir roubar o dinheiro do próprio ônibus que o meu, que só carrego trocados], e ainda do lado que dá para ver a praia, que insiste em aparecer em todo o trajeto, para lembrar que você - que nem gosta de praia - não está lá.
6ª/ Como se entreter durante a viagem?
Música é a melhor pedida. Um dos conselhos mais repetidos por especialistas, assim como por qualquer um com um mínimo de bom senso, é a necessidade do uso de fones de ouvido. É tão importante para segurança, como, sei lá, cinto de segurança. Vai que você está atrás de um lutador de vale-tudo que não gosta das amáveis letras do funk que você [e todo mundo no ônibus] está escutando e resolve resolver a questão com a sua versão um pouco mais física do que ele chama de diálogo.
Leitura é também uma pedida, mas com a velocidade imposta pelo motorista, o filho exemplar que é o único que pode salvar o pobre pai, é capaz de você sentir um daqueles enjoos que você tinha quando era bem pequeno e o seu pai pegava uma estrada deveras sinuosa.
Caso isso aconteça, uma sugestão de solução: se estiver à janela, abra-a - caso, obviamente, seja o seu dia de sorte, já que o normal é ela estar emperrada [e então, ao saltar/soltar {veja abaixo}, procure o bicheiro mais próximo e jogue o número da placa do ônibus lá; talvez sua sorte não demore muito a acabar] - abra a janela e respire o mais profundamente possível, até a passageira do banco de trás reclamar que o vento está embolando o seu [dela] cabelo, que acabou de passar por uma escova marroquina. Se estiver longe da janela, a opção é rezar - lembre-se que estamos no maior país católico do mundo.
7ª/ Como saltar / soltar do ônibus?
Em primeiro lugar, saiba que ninguém sabe ao certo se o certo é "saltar" ou "soltar" do ônibus - já que ambas acepções têm defensores e fazem um sentido capenga. Na verdade, o certo deve ser "descer", mas como o processo para sair do coletivo é mais parecido com um "salto", ou com o fato de você ter passado o tempo todo segurando em algum corrimão - por segurança, já que o motorista ainda não chegou para salvar o pai, cujo pescoço deve ser o mais resistente da história [outro caso de objeto de estudo desperdiçado] ninguém usa o certo.
É claro que ao fazer o sinal, o motorista vai escolher aleatoriamente o lugar onde parar. Considere-se um sortudo se ele parar no raio de cem metros do seu ponto. Há casos de gente que é deixada no ponto seguinte, após, claro, a "discussão diária"* no ônibus.
Uma das possibilidades para se tentar diminuir o caminho a ser percorrido, antes de saltar do ônibus, é tentar gritar, lá de trás, da porta traseira, para o motorista. O que nos leva ao...
7.1ª/ Como se dirigir ao motorista?
Ignore o lembrete do lado do motorista que está escrito: "fale ao motorista somente o indispensável". Pense que, um/ você pode ser considerado indispensável [na dúvida, pergunte à sua mãe], dois/ o que você vai falar é indispensável, se não você não passaria por esse constrangimento de ter que gritar de uma ponta a outra do ônibus para tentar atingir o sujeito que está dirigindo esse veículo.
Também evite a tentação de dizer o que você realmente quer dizer ao motorista, após ter sido sacudido, e tratado como cavalo [mentira, cavalos são muito mais bem tratados]. Evite ser o protagonista da "discussão diária"*, já que há estudos de universidades americanas que apontam que a taxa de infarto entre os partidários da "discussão diária" é ligeiramente superior aos dos demais passageiros.
Por fim, escolha um modo carinhoso de se dirigir ao condutor desse veículo coletivo. A opção preferida, segundo recente pesquisa de institutos de opinião, é "Piloto". Você pode ainda optar por: "Motô", "Motorista", "Chefe", "Camarada", "Cumpadi", "Bróder", e demonstrar um pouco da sua personalidade, criação e educação nesse diálogo.
Em seguida, tente ser sucinto: lembre-se que, além do fato de o motorista estar apressado para o compromisso mais importante da vida dele, ele está do outro lado do carro, com trocentos barulhos e poluições sonoras - inclusive o fulano que escuta música sem fone de ouvido - entre vocês. Portanto, é capaz dele não escutar bulhufas, ou, na melhor das hipóteses, ter uma ligeira noção do que você tá falando. Faça gestos, assovie, acene, aponte, use a sua linguagem corporal. Se nada disso der certo, tente o trocador, para ser o seu tradutor, ou o portador da boa-nova, mas saiba que ele vai estar dormindo.
8ª/ Saí do ônibus, e agora?
Em primeiro lugar, se você for religioso, agradeça ao[s] seu[s] deuses. Se não for, comece a duvidar da sua ateísmo - você acabou de passar por um verdadeiro milagre diário. Sobreviver, praticamente intacto, a uma viagem como essa não deveria ser, estatisticamente falando, o usual. Pense em sugerir para aquele seu amigo matemático fazer o cálculo da probabilidade de acidentes com não somente o seu ônibus, mas todos correndo do jeito que eles correm [os pais dos motoristas devem sofrer perseguições, só pode ser, para todos estarem, sempre, à beira da morte...].
Em seguida, tente descobrir o quão longe o ponto é do seu destino final. E sinta-se um privilegiado se não saltou/soltou no lugar errado - já que não há qualquer informação sobre os pontos, dentro do ônibus. Porque, imagine, a opção a andar é pegar outro ônibus, já que é o único exemplo de transporte público. E dois milagres, assim, quase sucessivos... é mais fácil ganhar no jogo do bicho.
* "Discussão diária" é o termo técnico usado para descrever o momento em que duas ou mais pessoas começam a discutir entre si, ou contra o motorista. Os motivos, geralmente, são os mesmos: a incompreensão por parte dos passageiros da necessidade do motorista em manter sua velocidade para conseguir salvar o próprio pai, cujo pescoço é feito de uma qualidade rara de borracha que só aparece em pais de motoristas de ônibus.
Cenas cariocas: andar de ônibus - parte 1
Andar de ônibus no Rio de Janeiro é uma experiência única - mesmo para os locais. É um misto de sensações que invadem seu pensamento e dispersam o foco daquilo que estava acontecendo para se concentrar apenas no ato de pegar o ônibus. É uma avalanche de sentimentos conflituosos que mostra como somos complexos - e bastante sortudos.
Segue um passo-a-passo que tem como objetivo ajudar a todos os turistas desavisados [que saibam ler em português], além de igualmente ser útil para os locais, já que, como disse acima, você raramente se acostuma com esse serviço de transporte coletivo, cuja concessão foi, aliás, recentemente confirmada por mais trocentos anos para as mesmíssimas empresas de ônibus que já lidam com esse serviço há séculos, desde as capitanias hereditárias.
1ª. questão/ onde pegar o ônibus?
Onde fica o ponto para a linha que vai lá para aquele lugar que você nunca foi na vida? Logo em seguida, você se lembra que não há muitas opções, ao contrário. No máximo, três trajetos para todos os ônibus que passam pelo seu bairro. Desconsidere essa questão e vá para o primeiro ponto que você vir. Na dúvida, pergunte ao próximo mais próximo.
2ª/ Qual ônibus pegar?
É necessário exercitar a comunicabilidade com estranhos, esse poder mutante que você tinha esquecido lá no fundo do DNA, para descobrir se o determinado ônibus passa no destino exótico, e se é a melhor opção, porque - ao menos na Zona Sul - sempre há mais de uma opção para o mesmo lugar. Um dos ônibus, você pode ter a grande oportunidade de conhecer, dá uma volta tão grande que você até hoje não entende como é possível - e imagina que pode ser um belo campo de estudo para a física quântica e as suas pesquisas de espaço/tempo.
3ª/ Como pegar o ônibus?
Agora, é preciso esforço físico e malabarismo para correr e tentar pegar o carro certo, já que ele nunca para no ponto exatamente. Isso quando não passa cortando na terceira faixa, no que só dá tempo de você gritar para tentar avisar ao digníssimo motorista que a mãe dele tem uma das profissões mais antigas do mundo.
Após fazer seu exercício diário para virar sprinter, você chega ao ônibus e percebe que o motorista está contrariado porque teve que parar para pegar passageiros. Com motivos, vejam só. Ele queria chegar rapidamente para salvar o pai que, coitado, está à forca.
Com o tempo, você vai perceber o ângulo correto para se posicionar no ponto de ônibus e conseguir, assim, enxergar o ônibus à distância e avisar ao motorista com antecedência, para que ele se prepare psicologicamente para esse fator tão exótico à sua atividade, que é parar no ponto. Mas isso, como todas as atividades de alta periculosidade, leva tempo.
4ª/ Como pagar o ônibus?
Novamente será necessário uma dose de malabarismo e, agora, equilíbrio aplicado. Você deverá conseguir sacar o dinheiro e entregar o dinheiro correspondente a passagem [que, aliás, subiu demais nesse último ano] ao trocador, enquanto o motorista corre para, como já sabemos, salvar o pai, coitado, aquele sujeito cujas tendências sexuais desvirtuantes da maioria da sociedade, foram passadas para o filho. Enquanto isso, os demais passageiros, com o RioCard à mão, começam a reclamar que você tá atrasando a fila.
Em seguida, não se assuste, você vai se embolar para guardar as moedas, isso quando você já se acostumou com os valores, e elas vão cair ao chão. Aí alguma alma caridosa vai te ajudar a encontrá-las, que, claro, fugiram de você, como se reclamassem do cativeiro que lhes foi imposto.
Às vezes, nesse momento, você vai ser surpreendido com o anúncio oficial, feito pela trocadora, de que a cordinha não está funcionando, porque alguém a arrebentou, mas é só falar com ela onde você vai saltar/soltar [ver item 7º, da segunda parte desse manual], que ela avisa ao motorista. Ela ainda diz que vai tentar ficar de olho para o momento que você se levantar, e caso se esqueça de avisá-la - e então você percebe que estamos todos no mesmo barco, ou melhor, ônibus. Todos tentamos resolver os problemas diários que o simples fato de andar de ônibus acarreta, com a improvisação e a criatividade e a nossa capacidade de adaptação ao novo. Quando ainda é novo.
Mas a aventura ainda não acabou.
[Fim da parte 1]
Segue um passo-a-passo que tem como objetivo ajudar a todos os turistas desavisados [que saibam ler em português], além de igualmente ser útil para os locais, já que, como disse acima, você raramente se acostuma com esse serviço de transporte coletivo, cuja concessão foi, aliás, recentemente confirmada por mais trocentos anos para as mesmíssimas empresas de ônibus que já lidam com esse serviço há séculos, desde as capitanias hereditárias.
1ª. questão/ onde pegar o ônibus?
Onde fica o ponto para a linha que vai lá para aquele lugar que você nunca foi na vida? Logo em seguida, você se lembra que não há muitas opções, ao contrário. No máximo, três trajetos para todos os ônibus que passam pelo seu bairro. Desconsidere essa questão e vá para o primeiro ponto que você vir. Na dúvida, pergunte ao próximo mais próximo.
2ª/ Qual ônibus pegar?
É necessário exercitar a comunicabilidade com estranhos, esse poder mutante que você tinha esquecido lá no fundo do DNA, para descobrir se o determinado ônibus passa no destino exótico, e se é a melhor opção, porque - ao menos na Zona Sul - sempre há mais de uma opção para o mesmo lugar. Um dos ônibus, você pode ter a grande oportunidade de conhecer, dá uma volta tão grande que você até hoje não entende como é possível - e imagina que pode ser um belo campo de estudo para a física quântica e as suas pesquisas de espaço/tempo.
3ª/ Como pegar o ônibus?
Agora, é preciso esforço físico e malabarismo para correr e tentar pegar o carro certo, já que ele nunca para no ponto exatamente. Isso quando não passa cortando na terceira faixa, no que só dá tempo de você gritar para tentar avisar ao digníssimo motorista que a mãe dele tem uma das profissões mais antigas do mundo.
Após fazer seu exercício diário para virar sprinter, você chega ao ônibus e percebe que o motorista está contrariado porque teve que parar para pegar passageiros. Com motivos, vejam só. Ele queria chegar rapidamente para salvar o pai que, coitado, está à forca.
Com o tempo, você vai perceber o ângulo correto para se posicionar no ponto de ônibus e conseguir, assim, enxergar o ônibus à distância e avisar ao motorista com antecedência, para que ele se prepare psicologicamente para esse fator tão exótico à sua atividade, que é parar no ponto. Mas isso, como todas as atividades de alta periculosidade, leva tempo.
4ª/ Como pagar o ônibus?
Novamente será necessário uma dose de malabarismo e, agora, equilíbrio aplicado. Você deverá conseguir sacar o dinheiro e entregar o dinheiro correspondente a passagem [que, aliás, subiu demais nesse último ano] ao trocador, enquanto o motorista corre para, como já sabemos, salvar o pai, coitado, aquele sujeito cujas tendências sexuais desvirtuantes da maioria da sociedade, foram passadas para o filho. Enquanto isso, os demais passageiros, com o RioCard à mão, começam a reclamar que você tá atrasando a fila.
Em seguida, não se assuste, você vai se embolar para guardar as moedas, isso quando você já se acostumou com os valores, e elas vão cair ao chão. Aí alguma alma caridosa vai te ajudar a encontrá-las, que, claro, fugiram de você, como se reclamassem do cativeiro que lhes foi imposto.
Às vezes, nesse momento, você vai ser surpreendido com o anúncio oficial, feito pela trocadora, de que a cordinha não está funcionando, porque alguém a arrebentou, mas é só falar com ela onde você vai saltar/soltar [ver item 7º, da segunda parte desse manual], que ela avisa ao motorista. Ela ainda diz que vai tentar ficar de olho para o momento que você se levantar, e caso se esqueça de avisá-la - e então você percebe que estamos todos no mesmo barco, ou melhor, ônibus. Todos tentamos resolver os problemas diários que o simples fato de andar de ônibus acarreta, com a improvisação e a criatividade e a nossa capacidade de adaptação ao novo. Quando ainda é novo.
Mas a aventura ainda não acabou.
[Fim da parte 1]
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