sexta-feira, 31 de janeiro de 2003

problemas fúteis do dia-a-dia

hoje é aniversário de um grande amigo meu. ele vai organizar uma reuniãozinha bancada pelos amigos na casa dele, de noite. tenho que ir numa peça de teatro porque consegui ingressos de graça e tenho que conversar com um dos atores. vai passar no odeon alguns filmes bacanas - inclusive "videodrome" do cronenberg que nunca vi em locadora nenhuma - na maratona por apenas 6 reais, sem carteirinha. amanhã tenho que estar 11 horas no ccbb, inteiro, apenas para ver o resultado da oficina de vídeo digital. hoje, ainda, tenho que entregar fitas de vídeo com multa que não entreguei ontem, porque um dos camaradas que moram lá em casa na república não as tinham visto. e agora, vai querer que eu entregue (e pague a conta extra). agora, tenho que ligar para a menina que organiza a minha festa de formatura e pedir mais convites para a tal. isso sem saber se os meus amigos que deveriam depositar a grana, o fizeram. amanhã, como dito, é a minha festa de formatura. e que acabará tarde. no domingo, cedo, é o churrasco do meu amigo que faz aniversário hoje. e não tenho dinheiro para ir.

problemas, apenas problemas fúteis do dia-a-dia.

terça-feira, 28 de janeiro de 2003

participei da colação de grau da turma que comecei a estudar na faculdade, há quatro anos atrás. claro que não me formei, pois faltam algumas matérias. fiz um discurso sobre o homenageado, acho que já até coloquei aqui, mas se não...

Essa é a terceira formatura da faculdade de comunicação social da uerj (a fcs) que participo. E a primeira aqui de cima do palco. Nas outras estava apenas assistindo. Lembro que ri para caramba com todas as piadas internas que só quem freqüentava os corredores da fcs entenderia. E aprendi, no ano passado, o significado exato do que era o patrono da turma. Mas é claro que não vou repetir esse ano, pois é óbvio que não me lembro exatamente das palavras proferidas no último janeiro. Sabem como é que é, passou um ano de faculdade, bares, festas, essas coisas...

Bem, resumidamente, o patrono é o homenageado mais importante dessa noite. O sujeito que a turma leva o nome. A pessoa que escolhemos como nosso representante, nosso ídolo, um exemplo a ser seguido. Em poucas palavras, ele é “o” cara.

E com o tamanho da homenagem, vem o peso da responsabilidade que isso acarreta. Que pode ser traduzido, sem sombras de muitos erros, pelas brigas que ocorrem em qualquer reunião de formatura quando o assunto é patrono. Principalmente quando temos dois cursos se formando. Cada um lembra de um profissional que, acha que, representa perfeitamente o espírito da profissão que acaba de aprender. E nossa turma não foi diferente.

Posso afirmar, e se não confiarem em mim pode perguntar para qualquer um desses aqui sentados, que não houve unanimidade no início. Mas ao sugerir o nome do nosso patrono, todos chegamos a um consenso. Dos mais radicais até os mais desligados, dos mais xiitas até os zen-budistas, dos coorporativos até os anarquistas, todos nutrem alguma admiração por Luiz Fernando Veríssimo.

Junto a isso, LFV, para quem não sabe, trabalha como jornalista, colunista para ser mais preciso, em alguns jornais brasileiros. De cabeça lembro agora do O Globo, do Estadão e do Zero Hora, de Porto Alegre. Logo, todos os jornalistas aplaudiram a escolha do gaúcho. E para convencer os relações públicas da escolha dele, o argumento foi um pouco mais objetivo, disseram (fui eu que disse, mas se eu colocar na primeira pessoa, perco toda a credibilidade até agora conquistada), que ele é uma das únicas pessoas que sabiam o que era o RP.

Para comprovar isso, vou ler agora uma das colunas que melhor retratam esse grande dom do LFV. (aliás, um pequeno e último parênteses. Quando disseram que eu seria o cara da homenagem ao patrono, fiquei preocupado em achar uma crônica que resumisse bem o espírito da escolha do grupo. No mesmo dia, saiu essa)

sexta-feira, 17 de janeiro de 2003

o texto que segue é da coleção "personagens cariocas", e é sobre uma velhinha que mora no flamengo.

naquele domingo o sol foi de rachar, mas estávamos, os quatro, com uma ressaca absurda, que dificultou a nossa tradicional ida ao posto nove. apenas eu e jão conseguimos ir. na volta, encontramos cabeça e esteves na entrada do prédio que morávamos desde que éramos moleques. como sempre acontecia quando juntava os quatro, ríamos das piadas sucessivas de jão e das tiradas sarcásticas de esteves que pontuava toda as suas falas com um bordão novo que ele inventava a cada semana. o dessa era "ai que conflito", inspirado, diretamente, na música que o zeca pagodinho canta.

jão, o mais velho de todos e irmão do esteves, sugeriu, "já que não estamos fazendo nada nesse momento, vamos aproveitar e ir tomar uma cerveja no planalto, ali no final da rua". logo concordei, mas esteves e cabeça foram contra, o segundo sugeriu, "por que não aproveitamos a promoção que rola no clarroma?", e esteves interveio, "ó o conflito, o nome do estabelecimento é nova oklahoma. mas aceito a sugestão do pequeno grande cabeça, já que o chope custa a bagatela de 1,40", jão, lúcido, "módicos preços", e fomos os quatro para o bar, no final da rua em que morávamos, do lado do cinema paissandu.

a senador vergueiro nos propunha a dificuldade de escolher qual boteco ou bar beber. havia a possibilidade de tomar cerveja gelada em boteco de balcão, ou, quando rolava promoção, beber chope da mais alta qualidade, no ar condicionado do oklahoma.

quando entramos, cabeça já cutucou esteves que mexeu comigo e falei na orelha do jão, "olha a velhinha ali". foi quase uma explosão de alegria de todos nós, a simples presença de uma senhora de cabelos brancos, que parecia bastante simpática e cheia de vida, que pedia sempre o mesmo prato, macarrão ao molho bolonhesa, e conversava horas com os garçons.

ficávamos encucados com a presença da figura. por mais que o ambiente fosse bastante familiar, principalmente num domingo de tarde depois de praia, a velha destoava de todo mundo por sempre aparecer sozinha e repetir o mesmo ritual. nós nos identificávamos porque também éramos estranhos naquele meio. jão sempre gritava impropérios que deixava esteves um pouco envergonhado e me matava de rir. íamos num restaurante razoavelmente arrumadinho apenas para beber e beliscar comidas do buffet, como se fosse um bar de rua. fazíamos comemorações esporádicas que reuniam um grupo ainda maior de pessoas que sempre chamava bastante a atenção para nós.

entretanto, o mais incomum era a atitude da velhinha, que sorria sempre, todos os dias que a víamos, apesar de nunca mudar de atitude. talvez fosse por ter essa segurança nunca abalada, talvez porque se sentisse em casa, talvez porque já não tinha mais vigor para tentar mudanças no dia-a-dia. a velha bem provavelmente era sozinha, não tinha ninguém para quem dividir a vida, ninguém com quem comentar o último capítulo da novela ou falar sobre a última receita da ana maria. mas ela nunca parecia ser sozinha, quiça triste.

a velhinha foi palco de vários papos entre nós, na mesa do oklahoma, na lapa, na portaria do prédio, ou em qualquer lugar que nos juntávamos. foi assim, que um dia, esteves sugeriu que escrevêssemos sobre ela. e eu inventei uma história de um grupo de amigos, que se chamavam meio de troça meio de verdade, de otimistas, e coloquei a velhinha no meio. porém é uma história para outro dia.

quarta-feira, 15 de janeiro de 2003

o texto a seguir faz parte de uma "coleção" proposta por amigos sobre personagens cariocas... fiz na corrida.

As ruas da Lapa sempre federam. Desde que comecei a freqüentar isso aqui. Desde os tempos da Madame Satã. Um dia consegui fotografa-lo com todos os adereços, mas ele quebrou a minha câmera logo em seguida. Minha única câmera.

Moro num sobrado aqui perto. Fede a mofo. É apenas um quarto, com cama sem lençol e um armário que penduro o meu paletó. O banheiro é no corredor e não me lembro do último dia que o lavaram. Durmo com medo que entrem no meu quarto, como já fizeram inúmeras vezes.

Antigamente as pessoas gostavam de ser fotografadas. Hoje, já vi garotos, moleques de pouco mais de 20 anos, me hostilizando. Não tenho idéia do motivo. Ando na rua, sempre tentando não incomodar ninguém. Sobrevivo apenas das minhas fotos e só as tiro se as pessoas quiserem. Vou para lugares onde tem pessoas. Mas, mesmo assim, tiro poucas fotos por noite.

Eu não existo durante o dia. Não saio de casa, não faço nada. Não queria existir, pelo menos. E cada vez mais, a noite, a única coisa que me resta, fica mais triste, mais sozinha, mais vazia. Tudo por causa de algumas pessoas que só querem estragar a vida dos outros. Vejo brigas e mortes desses moleques sem nenhuma razão aparente, todos os dias. Espero o dia em que um deles vai me encontrar e vai resolver meu problema de uma vez por todas. E não precisarei encontrar ninguém.
o texto abaixo, enviei para o lfv. ele nunca me respondeu. talvez pelo excesso de bobeira...

Seu Luis Fernando, o Veríssimo (posso te chamar de Seu Luis?)

fui obrigado, democraticamente, por unanimidade, pelos meus colegas de sala (uns trinta e poucos que fazem parte dos seus 17 leitores) para fazer este pequeno convite.

No dia 27 de janeiro do longínquo ano de 2003 nos formaremos. Caso, por algum acaso, esteja por estas bandas - Teatro Odilo Costa Filho, UERJ, Maracanã, Rio de Janeiro, Brasil, Terra -, à noite, nos sentiremos muito orgulhosos em recebê-lo como patrono de nossa turma.

Se você ficar um pouco curioso em saber o motivo que levou alguns moleques e molecas cariocas em convidar-lhe, eu poderia citar vários exemplos. Por exemplo. Um colunista que consegue arranjar assuntos todos os dias. Um jornalista com grande preocupação social. Um escritor de grandes obras pequenas e ótimas obras grandes – fugi do trocadilho, pode ver. Um gaúcho - regionalista como todo gaúcho - com visão lúcida, tão lúcida que dá vontade de dizer “Como não pensei nisso antes?”. Pai de três filhos. Filho de um grande homem e de uma grande mulher. Desenhista nas horas vagas. Indeciso no que ia fazer até quase os trinta anos - isso é um grande alívio para mim. Tímido. Saxofonista. Viu Charlie Parker e Dizzie Gillespie juntos. Conseguiu ler Ulisses, do James Joyce. Venera Borges. Escreve sobre complicações e mostra como são simples as coisas da vida. Mas, principalmente, você sabe o que é Relações Públicas. Nossa turma, infelizmente eu inclusive, tem metade de Erre-pês e metade Jornalistas. As únicas vezes que vimos os “homens de relações públicas” citados na imprensa foram nas suas crônicas.

Eu sei que é difícil. A sua casa é longe, todos nós somos preguiçosos, ninguém está jogando dinheiro fora, o dólar está nas alturas, o Lula deve vencer as eleições, mas, caso queira dar uma passadinha, as portas estarão escancaradas para você. Mas não ligue agora, com a sua ida ao evento, ganhará completamente grátis uma hiper-super-vitaminada-maravilhosa-mega-power-nitro placa com o seu nome.

Aguardo algum tipo de retorno – só não aceito sinal de fumaça porque é muito ultrapassado.

Abraços

r.

ps, o texto faz parte de uma coletânea própria intitulada “humor numa hora dessas?”. Desculpe-me os excessos. Não foram de propósito. Os erros foram.