segunda-feira, 11 de junho de 2012

Jorge Amado e invejado


A presidente da ABL, Ana Maria Machado, defendeu em evento na última sexta-feira (8) da British Library sobre Jorge Amado, leia reportagem publicada no “Prosa Online”, que a nossa literatura tem dois exemplos fundamentais de triângulos amoroso: “Dom Casmurro” e “Dona Flor e seus dois maridos”.

“O primeiro tem suspeitas, sofrimento e agonia, numa relação que faz homenagem a 'Otelo', de Shakespeare, com os papeis de Otelo, Desdemona e Iago sendo 'interpretados' por Bentinho, Capitu e Escobar, demonstrando que esse caso só pode ser resolvido com um tragédia; o segundo livro é calmo, feliz, estável, levantando questões sobre a monogamia e sobre o público e o privado, tudo numa linguagem falada pelo povo”, discursou Ana Maria para a plateia de maioria brasileira, mas com a minoria britânica curiosa.

A presidente da ABL falou ainda sobre como “Gabriela, cravo e canela” foi importante para mostrar um ponto-de-vista feminino em que a mulher conhece seu próprio corpo e desejo e escolhe se quer ou não ter marido, além de como Jorge Amado sofreu por ser comunista e popular.

Após a sua palestra, em que participou de três mesas, ela falou com exclusividade sobre os motivos pelo qual Jorge Amado é mal visto por parte das universidades brasileiras, que repete um conceito sem revisitar a obra do escritor: “Eu quero que eles o leiam. Se depois achar que é um horror, que achem”. Confira os trechos:

Preconceito do 'Sul':
As universidades do 'Sul' reagiram a certas frouxidões de estilo, principalmente pelo fato de que os modernistas estavam com dificuldades de chegar ao público, com o falar brasileiro, que o Jorge estava fazendo na prática. E não era só o Jorge, o Jorge e o Érico Veríssimo – [a reação] é em cima dos dois, de uma maneira muito forte. Eles compacturam na proposta e sofreram o mesmo destino.

Portugal
Em seguida, o Jorge caiu em desgraça nos meios lusófonos. Porque ele era comunista e o Salazar estava no governo militar, porque amigos do governo português começaram a se queixar da atitude antiportuguesa dele e em seguida porque ele foi logo publicado em Paris e foi a primeira vez na História que um livro veio escrito 'traduzido do brasileiro'. Isso jogou toda a universidade e os meios institucionais contra ele. Isso deixou uma má-vontade muito grande.

História repetida
Um dos principais críticos do país nessa ocasião era o Álvaro Lins, que escrevia no 'Correio da Manhã'. Ele foi embaixador em Portugal e era amigo de setores oficiais da cultura portuguesa. E ele escreveu muito forte contra Jorge na ocasião. Alguns anos depois, ele reuniu esses artigos em livros e teve o cuidado de atualizar as impressões da hora sobre outros autores, mas não atualizou sobre Jorge. Então ficou como uma obra de referência que o aluno, que está estudando na faculdade, tem acesso e repete. Então temos professores respeitados que escreveram obras de referência depois de Álvaro Lins, que não se deram ao trabalho de reler o Jorge nem fazer uma revisão. Repete que é superficial, cheio de clichês. Ele vai sendo desprezado porque um copia do outro. Isso está mudando ultimamente.”

Eu quero que eles leiam. Se depois achar que é um horror, que achem”

Ostracismo
Tem sempre uma temporada de ostracismo, de dez 15 anos, após a morte do escritor, porque hoje o escritor precisa de entrevista para divulgar o seu livro.

Sem contexto literário
Esse período coincidiu com um momento que a moda dos estudos literários nas universidades americanas, que está chegando aqui. Primeiro houve a moda do politicamente correto. E depois, antes de ela acabar, o que acabou foram os estudos literários. Muitas fecharam cadeiras e se passou para Cultural Studies ou post-colonial studies. Se aborda um autor dentro de um contexto puramente histórico mas tirando o contexto literário – e muitas vezes sem ler o autor. Se seleciona trechos e aqueles trechos vão provar o que eles estão falando. E, assim, para um contador de história, que é o Jorge, que fisga o leitor, o leitor não chega a ser fisgado.”

Contador de histórias
“Em torno dos anos 1970, e eu fui formada nisso, quando as universidades foram formadas pela primazia do texto literário, pela análise estruturalista, então toda a abordagem passou a ser em cima de algo muito sofisticado. A proposta do Jorge não é sofisticada. Ele não tem meandros intertextuais como Clarice Lispector, como Sérgio Sant'Anna. A Clarice foi descoberta pelos feministas e estruturalistas franceses como exemplo máximo do tipo de texto bom de abordar. E o Jorge é o anti-isso. Ele tem uma primazia do enredo, não da intertextualidade. A universidade se desinteressou dele. O pacto que ele estabelece com o leitor não é o de ficar procurando entrelinhas, o pacto é: siga a minha história e abandone se for capaz. E ninguém é.”

2 comentários:

Natalie disse...

Li Jorge Amado pela primeira vez aos 10 ou 11 anos, escondida. Minha avó tinha uma coleção antiga (capa dura, vermelha, letras douradas, confesso que não sei quem editou), e eu "roubava" "Tieta" de quando em quando e ia lendo. Gostava muito.
Fiquei muitos anos sem ler nada dele, até voltar a um livro do baiano, "Tocaia Grande", até hoje um dos meus preferidos.
Confesso que tive um pouco de preconceito também. A estética dele não é nada sofisticada mesmo, e pode parecer, à primeira vista, pobre. Mas é justamente o contrário. De tão simples, de tanto que ele conseguiu captar e reproduzir personagens complexos em suas vidas "comuns", acho Jorge genial.
E sua força -não sua fraqueza-, na minha opinião, é justamente ser popular: falar do povo e para o povo, gerar identificação e reconhecimento. E tudo isso com uma prosa deliciosa de ler, impossível de parar.
Enfim, ainda bem que está rolando algum reconhecimento.

Ronaldo Pelli disse...

Concordo com tudo isso, Natalie. Não vejo qualquer problema em ser o que os ingleses chamam de "storyteller". Ainda mais quando você é excepcional no que faz - como era o caso de Jorge Amado.

beijos - e volte sempre...