Ordem e desordem. Novamente. Ordem e desordem. Era uma pequena roleta com apenas esses dois resultados. Ora um, ora outro. É sempre assim, disse um homem que acabara de abaixar o jornal. Todos nós apreensivos em volta da mesa. E ele ali, no canto, lendo jornal. Deu-me uma raiva logo no início que minha razão soube controlar. Meu ímpeto era ir atrás dele e estrangula-lo. Como ele poderia estar parado no canto? Você está fora da moda, meu rapaz, ele disse olhando para mim. Não devemos travar nossos instintos, ele continuou a falar. Levantou-se e colocou o jornal na sua cadeira como se estivesse guardando lugar para alguém. Ergueu os pulsos em sinal de combate. Percebi que suas pernas fraquejavam. Mal se agüentava em pé. Os outros tinham parado de reparar na roleta e miravam-nos. Senti-me um tolo por ter vontade de espancá-lo. Ele abaixou a guarda, mas manteve os olhos grudados nos meus. Sente-se melhor agora, ele me perguntou. Lutar contra os ímpetos é um ato de extrema inexperiência, ele continuou falando, Sumir com as vontades é impossível. Você tem que aceita-las naturais como são. Use a cachola nesse momento, falou e apontou a cabeça com um dedo. Ele era um velho de pele negra enrugada, cabelos quase totalmente brancos e crespos e um bigode falhado em cima da boca torta. Saiu capengando da sala. E eu fui atrás.
Ele se encaminhou para uma sala onde nunca eu tinha estado antes. Uma sala com móveis em madeira antiga escura e quadros, vários quadros na parede. O velho caminhava na minha frente capengando. Ia olhando e apontando para os quadros. Vê esses quadros, disse por fim. Apenas balancei a cabeça afirmativamente. Tinha certeza que ele sabia que eu reparava em cada detalhe dele. Todos diferentes entre si, completou. Mas fazem parte da mesma estrutura. Estrutura que eu costumo dividir em duas partes: avanço e cristalização. Você, ele virou-se e apontou um dedo indicador grosso para mim, acha que estamos vivendo uma época das trevas, não acha? Não respondi. Uma era que não se pode mais pensar. Que todas os formatos do raciocínio são tolhidos, onde a irracionalidade reina. Não tenho as respostas para as suas dúvidas. E se tivesse, diria que não as tenho. Ele continuava andando por um corredor com portas que eu não podia imaginar, nem conseguiria naquele momento, aonde levariam. Ele continuava andando capenga. Reparei, pela primeira vez, na bengala que ele se apoiava e nas calças pretas puídas. Venha comigo, ele disse e eu avistei, por cima do ombro dele, uma porta na frente.
Entramos pela porta com rodapés de madeira escura. Era a maior seqüência de estantes de livros que já pode ter existido no mundo. Eram incontáveis. Inconcebíveis. Perdia-se no horizonte. Você acha que tudo que já podia ser inventado deve estar aqui, não? Ele me perguntou mais uma vez, e eu não o respondi, como de costume. As estantes eram altíssimas. Andávamos pelo corredor, que me parecia principal, e logo depois descobri ser apenas um terciário, e pude enxergar algumas pessoas em cima de escadas para poderem alcançar os últimos volumes das estantes. Há muita coisa aqui, disse, muita coisa. O que você lembrar que existe está aqui. Provavelmente todas as obras catalogadas do mundo estão aqui. Está é a coleção de todas as bibliotecas do mundo. Parou de repente em uma esquina e apanhou um livro a esmo. Folheou-o e o fechou. Pegou outro e repetiu a seqüência. Virou-se e me entregou. Tome, disse apenas. Um livro se chamava simplesmente A e continha letras jogadas sem ordem. Não é no seu idioma, disse ele ao reparar minha estranheza perante o conteúdo do livro, nem em nenhum outro que existe e que pessoas falam. Não é um idioma. Não é nada. São apenas algumas letras jogadas sem ordem dentro de papel. O outro era uma versão da Ilíada. Todas esses livros já foram criados, disse ele. E nós os misturamos e os tiramos de ordem, e colocamos letras sem nexo em seqüência. E repetíamos frases até terminar. Livros inteiros só com uma frase. Depois só com palavras, depois só com letras e rabiscos. Até há um livro totalmente em branco. Ele fez um pequeno silêncio e continuou andando.
Já catalogamos tudo. Disse ele. Está na hora de criarmos o novo. Para podermos catalogar o que for feito. Essa é a época da irracionalidade, não acha? Nada mais irracional que fazer algo impensado. Nada que o raciocínio pudesse ter captado. Algo inexplicável. Vamos escrever nas entrelinhas. Vamos esmiuçar cada frase, esticando-a até o limite, sem sair do seu limite. Ou vamos ultrapassar o limite, vamos desistir de termos vasilhames. Vamos criar.
Tínhamos chegado na porta. Ele apenas girou a maçaneta e bateu no meu ombro antes que eu pudesse falar qualquer coisa. Comecei a descer as escadas na frente da porta principal e pude escutar ele falando, Desconstrua a ordem e crie a desordem. Organize a desordem e ache a ordem. Desconstrua a ordem e crie a desordem. Organize a desordem...
quarta-feira, 19 de junho de 2002
Falar que a ideologia acabou já virou rotina. Demonstrações do fim dos ideais são fáceis. Descobrir em qual campo a política está atuando é que é o complicado. Principalmente no Brasil.
Normalmente todos os políticos aparecem na TV ou tem seus rostos estampados nos outdoors ligados à tríade de palavras que, parecem, abrir todas as portas: saúde, educação e segurança. Como recurso de visualização, podemos citar um presidente que dizia fazer “tudo pelo social”. Lembram?
E é bem comum, também, que, ao serem empossados, esses mesmos governantes, que lutam por uma vida mais igualitária, que querem acabar com as disparidades sociais brasileiras, quando assumem os cargos públicos os quais foram eleitos, se tornem econômicos (com os famosos cortes para zerar a conta) nessas pastas. Hoje em dia o grande “vilão” se chama lei de responsabilidade fiscal. Mas, com certeza, já houve outros culpados.
Então, chegamos numa nova eleição, em ano de copa do mundo de futebol, e temos que eleger presidente, governador, senador e deputados federais e estaduais. Todos terão as mesmas posturas ditas de “esquerda” e atitudes de “direita”. E teremos encontros no mínimo curiosos. Maluf desprezando o PT para atacar o Alckmin, os ex-inimigos declarados ACM e Ciro apertando as mãos para os fotógrafos e (esse eu espero ansioso) o Quércia abraçando o Lula.
Para o governo do Rio não teremos nenhuma surpresa. A dita esquerda, com seus quinze candidatos de sempre, e a direita representada por uma mulher só. Aliás, essa será a eleição das mulheres. Serão três: Benedita da Silva (atual governadora em exercício), do PT, Rosinha (ex-Matheus) Garotinho do partido do marido, PSB e a Solange Amaral, apoiada pelo prefeito da capital, do PFL. Além do prefeito de Niterói, filho do ex-governador do estado, Jorge Roberto Silveira, do PDT.
Bené terá ao seu favor todo o poder da máquina admistrativa. Mesmo ela tendo ficado por pouco tempo no governo, e não tendo feito nada de importante para mostrar em seus programas, ela pode argumentar que em oito meses (o período que ela permanecerá no poder) não dá tempo para consertar toda a lambança que o seu antecessor fez. Bené terá também os votos cativos na legenda do seu partido, mas amargará os descontentes com o seu nome, considerado muito leve para um petista.
Rosinha Garotinho, como seu próprio nome diz, vai deixar que a candidatura e a exposição de seu marido a empurre para frente. Como ela nunca teve experiências em cargos públicos, ela deve se comportar como um coco na maré. Vai estar sempre ao lado do presidenciável e responderá as eventuais perguntas de repórteres iniciando com: “eu, enquanto (sic) mulher do criador do piscinão de ramos...”.
Talvez a candidata do PFL seja o político menos conhecido de todos. Por mais que tenha experiência pública, ela não é casada com nenhuma figura do ramo, não é filha de ninguém do ramo, nem é favelada, pobre, preta e casada com artista global. Ela é a queridinha do atual prefeito do Rio (e criador profissional de factóides) César Maia. Secretária de Governo dele, ex-vereadora seu nome ainda não tinha sido explorado para fora dos limites da capital. Provavelmente ela vai incorporar o discurso de um governo responsável e maduro, com linguajar técnico e econômico. Bem ao estilo do seu padrinho.
Já o Jorge Roberto Silveira vem de um governo com alto índice de aprovação popular, lá do outro lado da poça. No seu terceiro mandato de prefeito de Niterói, ele conseguiu colocar a cidade com uma das melhores qualidades de vida do estado. Junte a isso um pai governador lembrado por oito em dez pais como um dos melhores governadores do estado da Guanabara e temos um ótimo candidato. O seu calcanhar de Aquiles é o seu secretariado que nem sempre se opõe ao “jeitinho” e conhece bem as frases “levar o por fora”, ou “o da cerveja”. O PFL adora usar esse tipo de informação e, com certeza, usará.
Porém na TV (é óbvio que) todos aparecerão carregando criancinhas no colo, conversando com velhos e se mostrando simpático com todos que os cumprimentarem. Os que estão no poder exaltaram seus feitos, e os que não estão meterão dedos em feridas. Todos falarão mal da segurança, uns culpando aos outros, e não chegarão a nenhum consenso. Os programas de governo (se existirem) não fugirão do clichê social. Enfim, todos terão os mesmos rótulos estampados na testa. O problema dessa vez será a ausência de diferenças gritantes no conteúdo.
Normalmente todos os políticos aparecem na TV ou tem seus rostos estampados nos outdoors ligados à tríade de palavras que, parecem, abrir todas as portas: saúde, educação e segurança. Como recurso de visualização, podemos citar um presidente que dizia fazer “tudo pelo social”. Lembram?
E é bem comum, também, que, ao serem empossados, esses mesmos governantes, que lutam por uma vida mais igualitária, que querem acabar com as disparidades sociais brasileiras, quando assumem os cargos públicos os quais foram eleitos, se tornem econômicos (com os famosos cortes para zerar a conta) nessas pastas. Hoje em dia o grande “vilão” se chama lei de responsabilidade fiscal. Mas, com certeza, já houve outros culpados.
Então, chegamos numa nova eleição, em ano de copa do mundo de futebol, e temos que eleger presidente, governador, senador e deputados federais e estaduais. Todos terão as mesmas posturas ditas de “esquerda” e atitudes de “direita”. E teremos encontros no mínimo curiosos. Maluf desprezando o PT para atacar o Alckmin, os ex-inimigos declarados ACM e Ciro apertando as mãos para os fotógrafos e (esse eu espero ansioso) o Quércia abraçando o Lula.
Para o governo do Rio não teremos nenhuma surpresa. A dita esquerda, com seus quinze candidatos de sempre, e a direita representada por uma mulher só. Aliás, essa será a eleição das mulheres. Serão três: Benedita da Silva (atual governadora em exercício), do PT, Rosinha (ex-Matheus) Garotinho do partido do marido, PSB e a Solange Amaral, apoiada pelo prefeito da capital, do PFL. Além do prefeito de Niterói, filho do ex-governador do estado, Jorge Roberto Silveira, do PDT.
Bené terá ao seu favor todo o poder da máquina admistrativa. Mesmo ela tendo ficado por pouco tempo no governo, e não tendo feito nada de importante para mostrar em seus programas, ela pode argumentar que em oito meses (o período que ela permanecerá no poder) não dá tempo para consertar toda a lambança que o seu antecessor fez. Bené terá também os votos cativos na legenda do seu partido, mas amargará os descontentes com o seu nome, considerado muito leve para um petista.
Rosinha Garotinho, como seu próprio nome diz, vai deixar que a candidatura e a exposição de seu marido a empurre para frente. Como ela nunca teve experiências em cargos públicos, ela deve se comportar como um coco na maré. Vai estar sempre ao lado do presidenciável e responderá as eventuais perguntas de repórteres iniciando com: “eu, enquanto (sic) mulher do criador do piscinão de ramos...”.
Talvez a candidata do PFL seja o político menos conhecido de todos. Por mais que tenha experiência pública, ela não é casada com nenhuma figura do ramo, não é filha de ninguém do ramo, nem é favelada, pobre, preta e casada com artista global. Ela é a queridinha do atual prefeito do Rio (e criador profissional de factóides) César Maia. Secretária de Governo dele, ex-vereadora seu nome ainda não tinha sido explorado para fora dos limites da capital. Provavelmente ela vai incorporar o discurso de um governo responsável e maduro, com linguajar técnico e econômico. Bem ao estilo do seu padrinho.
Já o Jorge Roberto Silveira vem de um governo com alto índice de aprovação popular, lá do outro lado da poça. No seu terceiro mandato de prefeito de Niterói, ele conseguiu colocar a cidade com uma das melhores qualidades de vida do estado. Junte a isso um pai governador lembrado por oito em dez pais como um dos melhores governadores do estado da Guanabara e temos um ótimo candidato. O seu calcanhar de Aquiles é o seu secretariado que nem sempre se opõe ao “jeitinho” e conhece bem as frases “levar o por fora”, ou “o da cerveja”. O PFL adora usar esse tipo de informação e, com certeza, usará.
Porém na TV (é óbvio que) todos aparecerão carregando criancinhas no colo, conversando com velhos e se mostrando simpático com todos que os cumprimentarem. Os que estão no poder exaltaram seus feitos, e os que não estão meterão dedos em feridas. Todos falarão mal da segurança, uns culpando aos outros, e não chegarão a nenhum consenso. Os programas de governo (se existirem) não fugirão do clichê social. Enfim, todos terão os mesmos rótulos estampados na testa. O problema dessa vez será a ausência de diferenças gritantes no conteúdo.
sexta-feira, 14 de junho de 2002
meus triângulos, indo de encontro com alguns conhecimentos adquiridos por próximos, têm apenas três lados.
às vezes me incluo, às vezes apenas observo. como se impedisse que os bombeiros chegassem ao circo que pega fogo.
uma coisa é certa: nos últimos quatro anos um dos lados tem sempre o mesmo tamanho, a mesma cor, os mesmos ângulos, os mesmos olhos e o mesmo sabor. sou tentado e afastado. posso segurar, mas nunca provar. o lado diz que já me deu uma única oportunidade quando ainda era um bobo maior que o atual, se isso é possível. ela me olhou e poderia ter mudado toda a sua vida. que mudou muito nesses quatro anos. ela quer mais, mas não quer. ou não pode, ou não deve, o certo é que não faz. tenta-me, tenta-me, todos os dias só com a sua imagem. já seria o suficiente. só o seu passarelar na minha frente.
e ela ri. ri para mim, ri comigo, só para que eu me sinta bem.
realmente impressionante.
outro dia falo de um outro lado. mas esse é uma constante.
às vezes me incluo, às vezes apenas observo. como se impedisse que os bombeiros chegassem ao circo que pega fogo.
uma coisa é certa: nos últimos quatro anos um dos lados tem sempre o mesmo tamanho, a mesma cor, os mesmos ângulos, os mesmos olhos e o mesmo sabor. sou tentado e afastado. posso segurar, mas nunca provar. o lado diz que já me deu uma única oportunidade quando ainda era um bobo maior que o atual, se isso é possível. ela me olhou e poderia ter mudado toda a sua vida. que mudou muito nesses quatro anos. ela quer mais, mas não quer. ou não pode, ou não deve, o certo é que não faz. tenta-me, tenta-me, todos os dias só com a sua imagem. já seria o suficiente. só o seu passarelar na minha frente.
e ela ri. ri para mim, ri comigo, só para que eu me sinta bem.
realmente impressionante.
outro dia falo de um outro lado. mas esse é uma constante.
sexta-feira, 7 de junho de 2002
quando há humor, deve-se aproveitar.
pode-se até chegar a conclusões que serão utilizadas livremente.
por exemplo. é bem provável que não haja caminho ou trilha pré-determinada.
e o motivo é simplório. caso houvesse, alguém, provavelmente, já teria desvendado. e esse alguém saberia o que caminhar e seria um extremo chato. seria o dono da verdade. poderia dizer o que é certo e o que é errado.
o que me intriga é que li ontem o JL Borges dizendo que a falta de rotina já é um rotina. basta desvendá-la. e isso é interessante.
pode-se até chegar a conclusões que serão utilizadas livremente.
por exemplo. é bem provável que não haja caminho ou trilha pré-determinada.
e o motivo é simplório. caso houvesse, alguém, provavelmente, já teria desvendado. e esse alguém saberia o que caminhar e seria um extremo chato. seria o dono da verdade. poderia dizer o que é certo e o que é errado.
o que me intriga é que li ontem o JL Borges dizendo que a falta de rotina já é um rotina. basta desvendá-la. e isso é interessante.
e se chegássemos numa rua comum, onde outra rua comum bifurcasse, onde houvesse dois sinais de trânsito, duas faixas de pedestre. Onde eu pudesse ver pessoas vindo de outros lugares incomuns, impensados.
e se chegássemos nessa rua através das não-escolhas. de não ter escolhido nada.
ou se eu tivesse escolhido tudo, todos os mínimos detalhes, desde a minha profissão (que até hoje não sei) até a cor das minhas meias, se escolhesse entrar na rua anterior, e dado uma volta, será que ainda sim estaria aqui?
será que o caminho independe da vontade?
será que temos uma direção?
será que a repetência de rotinas incomuns pré-destina uma rotina?
há diferença entre a minha vontade pura e simples e o meu raciocínio?
e se houvesse uma dosagem entre os dois? a cada dosagem diferente, haveria outro caminho, e assim, outra rua, outra esquina?
as esquinas, e isso eu tenho certeza, dizem muito mais que o que entendemos.
e se chegássemos nessa rua através das não-escolhas. de não ter escolhido nada.
ou se eu tivesse escolhido tudo, todos os mínimos detalhes, desde a minha profissão (que até hoje não sei) até a cor das minhas meias, se escolhesse entrar na rua anterior, e dado uma volta, será que ainda sim estaria aqui?
será que o caminho independe da vontade?
será que temos uma direção?
será que a repetência de rotinas incomuns pré-destina uma rotina?
há diferença entre a minha vontade pura e simples e o meu raciocínio?
e se houvesse uma dosagem entre os dois? a cada dosagem diferente, haveria outro caminho, e assim, outra rua, outra esquina?
as esquinas, e isso eu tenho certeza, dizem muito mais que o que entendemos.
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