Eu confesso, Alfred Hitchcock é um escroto. Desses que hipnotizam quem quer que assista a qualquer um de seus filmes. Aconteceu comigo ontem, domingão, após almoço farto, o sofá convidativo, liguei a televisão só para constar e peguei o jornal para ver as mentiras do dia contra a Dilma e a favor do Serra. Eis que me deparo com "A tortura do silêncio" ["I confess", no original], do inglês no TCM e resolvi deixar, apenas para fazer um barulho. Resultado: não consegui mais ler jornal nem fazer nada além de assistir até o fim o filme, com Montgomery Clift e Anne Baxter, de 1953.
Começa o longa bem no estilo de Hitchcock. Mostrando onde estamos [Quebec] e o que está acontecendo [um assassinato]. Em seguida, sem saber quem é o assassino, o vemos descer um rua escura. A primeira impressão é que será um filme sobre "quem matou?", mas aí não seria um Hitchcock. Ele já disse que, para criar suspense em cenas, gostava de mostrar os dois atos acontecendo ao mesmo tempo e alongando a duração da tomada. Foi o que fez. Logo em seguida vemos o rosto do assassino se confessando a um padre [Clift] - daí o título original - e percebemos a natureza do filme. Será um embate entre a Justiça dos homens versus a Justiça divina.
Mas, eis que, quando você está já se aclimatando a essa nova moral da história, e quase voltando a ler o jornal, Hitchcock te dá outra rasteira. O padre já teve uma namorada [Baxter], com quem se reencontrou recentemente. E ela, por sua vez, era chantageada exatamente pelo fulano assassinado. [Nova] Moral da história: o padre se torna o principal acusado.
Que o Hitchcock tem essa capacidade de mudar o ritmo das histórias, no meio do caminho, já é sabido por qualquer um que assistiu a "Psicose". Mas ainda não deixa de causar muita surpresa a quantidade de reviravoltas que ele dá em tão curto espaço de tempo. Percebemos o padre se afundando, se complicando, e nos perguntamos se ele conseguirá aguentar toda a pressão ou vai quebrar os votos religiosos de confissão para... confessar quem é o verdadeiro assassino, acabando assim com a própria pena. Conforme vamos avançando na história, vamos descobrindo mais informações sobre os personagens, que mudam a forma de encará-los, para concluir num final apoteótico e, como não poderia deixar de ser, surpreendente.
Mesmo que a obra seja baseada em um a peça, não tiro o mérito de Hitchcock por - antes de mais nada - ter escolhido esse tipo de argumento original. E por não tê-lo transformado em um filme sobre, simplesmente, um assassinato.
segunda-feira, 18 de outubro de 2010
sexta-feira, 15 de outubro de 2010
Air no ar
Toda geração tem o folk que merece. E não estou me referindo ao formato voz-e-violão, tão tradicional, ou mesmo à origem da expressão, que vem de folclore, mas à percepção de uma música mais calma, sem tanto gigantismo. Não é uma balada, simplesmente, tem mais punch, aquela característica tão comum a boxeadores e músicas cujo grave faz qualquer quadril mais duro requebrar, ou pelo menos obriga as pernas a se mexer.
O Air, o "folk" da nossa geração, tocou ontem no Circo Voador, na Lapa, num formato com Nicolas Godin e Jean-Benoît Dunckel, a dupla de franceses vestidos como se estivessem num embalo de quinta à noite, à frente e um batera - ah, a bateria acústica, aquela que dá organicidade a qualquer música eletrônica mais fria - atrás. Os dois se dividiram para tocar os inúmeros teclados e, surpresa, Godin ficou no baixo e... violão.
Recorreram pouco às bases pré-gravadas, optando por interpretações mais cruas de diversos hits, de toda a carreira. O primeiro e mais conhecido disco, "Moon safari", fez o sucesso do público, que chegou a cantar as melodias de músicas como "La femme d'argent", ou toda a letra de "Kelly watch the stars" e, já no bis, "Sexy boy" - o que, convenhamos, não é nada difícil.
Os franceses, apesar de aparentar estarem se divertindo - principalmente Godin -, se mantiveram naquela posição blasé, tão caro aos conterrâneos de Prost e Proust, e às meninas de todos os lugares. Mas as projeções do telão, que passavam por cima das camisas brancas da dupla, esquentavam a galera, que parecia num pôr-do-sol à beira da praia.
Ao fim do show curto, mas intenso, pequeno, mas do tamanho certo, com uma plateia empolgada, ninguém queria ir embora e desfazer a sensação de bem-estar, de tranquilidade, de eteridade.
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| A dupla virou trio com o batera (veja mais fotos aqui) [foto: Lucíola Villela / G1] |
Recorreram pouco às bases pré-gravadas, optando por interpretações mais cruas de diversos hits, de toda a carreira. O primeiro e mais conhecido disco, "Moon safari", fez o sucesso do público, que chegou a cantar as melodias de músicas como "La femme d'argent", ou toda a letra de "Kelly watch the stars" e, já no bis, "Sexy boy" - o que, convenhamos, não é nada difícil.
Os franceses, apesar de aparentar estarem se divertindo - principalmente Godin -, se mantiveram naquela posição blasé, tão caro aos conterrâneos de Prost e Proust, e às meninas de todos os lugares. Mas as projeções do telão, que passavam por cima das camisas brancas da dupla, esquentavam a galera, que parecia num pôr-do-sol à beira da praia.
Ao fim do show curto, mas intenso, pequeno, mas do tamanho certo, com uma plateia empolgada, ninguém queria ir embora e desfazer a sensação de bem-estar, de tranquilidade, de eteridade.
quinta-feira, 14 de outubro de 2010
Serra vai ganhar
Hoje, lendo os jornais e as suas pesquisas, tive esse insight que macula o título desse post - que, deixemos claro, não é a minha opinião, nem a minha vontade.
É óbvio - para mim - que a maioria das vezes que tenho uma dessas percepções sem qualquer explicação concreta, eu erro. Mas, bem, eu tenho uma explicação concreta. Ou, pelo menos, a minha projeção é baseada num dado concreto. Ou pelo menos que se vende, melhor, se mostra, como concreto. Porque as pesquisas erram. Erram mais que as margens de erro gostaria que elas errassem. Por isso, não dá para confiar cegamente na pesquisa. Ou não.
Antes de me chamarem de Caetano, quero dizer que não é uma questão de desconfiança cega ou confiança enxergando, mas de como esses números influenciam no tal frigir dos ovos. Como o eleitor brasileiro, que tem a fama de não gostar de votar em perdedor - que eu, particularmente, acho que faz parte das nossas mitologias, assim como o Curupira - votaria apenas em quem está na frente. Não é bem assim que penso.
Preparem-se, vamos adentrar o ambiente das teorias da conspiração. No primeiro turno, erraram as pesquisas ao apontar que a Dilma venceria num primeiro turno. E, mesmo quando a "tendência" mostrava que não era seguro dizer que ela venceria no primeiro turno, como nos números da boca-de-urna, ela aparecia, na margem dos 50%, quando, no final das contagens, ela tinha 47%. O erro era de 2%.
Sugiro que o problema do primeiro turno foi o clima de já-ganhou, que ignorou os escândalos da Casa Civil e a importância - mesmo em queda - da imprensa. As declarações de Lula dizendo que ele era a opinião pública, mais que um absurdo em si, mexeu com os brios dos homens da mídia, esses sujeitos que acreditamos sermos os donos da verdade imparcial, para beneficiar a quem nos agrade. De uma hora para outra, descobriram, não o Serra, que esse eles já tinham descoberto há muito, mas a Marina. Foram semanas de matérias mostrando como a candidata verde era a solução para todos os nossos problemas. O resultado se viu.
Nem entro no mérito do crescimento dos votos para a Marina por conta dos indecisos - até acho que foi isso. Mas que a mídia a "descobriu" no momento oportuno, já que o Serra não tem assim tanto mais sabor que um picolé de chuchu, logo que Lula dava como ganha a eleição. E dava como ganha a eleição por conta das pesquisas.
Dito isso tudo, saio um pouco do campo das conspirações, para a sua vizinha a das especulações. A diferença entre Serra e Dilma, com o perdão da má palavra, é ridícula. Oito pontos percentuais, sendo que quatro podem ser comidos pela margem, está praticamente num empate técnico - e olha que as pesquisas inflaram a candidatura de Dilma no primeiro turno. A sensação de "vai dar" cresce fortemente, imagino, entre os tucanos e a luz amarela-avermelhada já pisca freneticamente entre os petistas.
Junte a isso a forte campanha contra Dilma, mostrando o que agrada e escondendo o que não-interessa, e os seus próprios atos falhos, vejo Serra como o próximo presidente. Infelizmente, como dito antes [depois explico melhor isso].
A diferença de votos vai ser pouca, o que é saudável para uma democracia. Mas também preocupante, para um povo pouco afeito a se sentir discordado. No dia seguinte, quando as urnas decretarem o vencedor, o país terá que se unir, não mais com um ou outro político, mas em torno de um noção de nação, superior a essas pequenezas.
quarta-feira, 13 de outubro de 2010
Desimportâncias
- Vi, dias desses, em uma dessas colunas de pequenos textos de um jornal de grande circulação, uma alusão a um livro escrito a quatro mãos por... quatro pessoas. Bem. Não sei de quando é essa expressão, portanto, não sei se a referência é à época em que todos escrevíamos com canetas-tinteiros. Entretanto desde a massificação da máquina de escrever, é complicado pensar que alguém batuque apenas com uma das mãos. O que me faz pensar sobre a origem dessa expressão. Será que deveríamos atualizá-la, ou é melhor mantê-la no original, como acontece com o "discar" dos telefones? Ou ainda foi um simples e curioso erro que desencadeou todo um raciocínio sobre a nostalgia das expressões?
- A minha tendência é acreditar na última opção, do erro. Principalmente porque no mesmo espaço, há questão de semanas, saiu uma nota em referência à vinda da dupla [sic] Belle & Sebastian ao Brasil. Sem mais comentários.
- Ó como tá forte o meu preconceito. Agorinha mesmo, vi um moleque correndo na rua descalço, a toda. Pensei: daqui a pouco passa a assaltada. Para a minha surpresa, de repente, ele voltou, tão rápido quanto ia, e ainda sem nenhum calçado. Antes de ter qualquer outro pensamento preconceituoso, fiquei apenas intrigado. O que o moleque tá fazendo? Ando mais um pouco e vejo: ele estava marcando o tempo de sua corrida, contra os amiguinhos. Estamos tão mal-acostumados que quando vemos atletas pensamos em ladrões. Vergonha de mim.
- A minha tendência é acreditar na última opção, do erro. Principalmente porque no mesmo espaço, há questão de semanas, saiu uma nota em referência à vinda da dupla [sic] Belle & Sebastian ao Brasil. Sem mais comentários.
- Ó como tá forte o meu preconceito. Agorinha mesmo, vi um moleque correndo na rua descalço, a toda. Pensei: daqui a pouco passa a assaltada. Para a minha surpresa, de repente, ele voltou, tão rápido quanto ia, e ainda sem nenhum calçado. Antes de ter qualquer outro pensamento preconceituoso, fiquei apenas intrigado. O que o moleque tá fazendo? Ando mais um pouco e vejo: ele estava marcando o tempo de sua corrida, contra os amiguinhos. Estamos tão mal-acostumados que quando vemos atletas pensamos em ladrões. Vergonha de mim.
Sobre o aborto
Quando eu comecei a escrever aqui, ainda tinha ilusões de que um dia me transformaria em um Escritor. Com o tempo as ilusões foram embora, deixando um ranço bem amargo. Com o tempo, porém, pude simplesmente entender o que me fazia querer escrever, o prazer de concatenar as palavras para se transformarem em uma sentença, que logo vai dar um panorama sobre um aspecto. Gosto de narrativas, de ficcionalizar, de pensar sobre um tema utilizando a imaginação como fio condutor. Me diverte. Hoje, sem a pressão autoimposta de ser um Escritor, às vezes até escrevo. E, não querendo ser mais ninguém, às vezes sou apenas eu. Além disso, percebi também que, como já disseram, é impossível fugir do meu tempo - histórico e sensorial. Por isso, publico esse continho, nesse momento.
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