Circula pela internet um vídeo creditado a John Lasseter (diretor de, entre outros, os dois primeiros "Toy story") em que um abobalhado Tim Burton aparece em 1980 trabalhando ainda na Disney. Lasseter pergunta para o espectador, diante do futuro diretor de "Edward Mãos de Tesoura", que desenha com um lápis encaixado na ponta do dedo: "Ele não é divertido?"O resto da entrevista com Tim Burton pode ser lida aqui. O vídeo, que não é citado na reportagem, pode ser conferido abaixo:
quinta-feira, 21 de junho de 2012
O divertido Tim Burton
Irlandeses e ingleses
A Irlanda é um país que faz um belo contraponto à Inglaterra. No que a vizinha tem de opulência, riqueza, grandiosidade, a Irlanda tem de delicadeza, intimidade, companheirismo. Dublin e London, as cidades principais, representam bem esse contraste. A primeira tem 500 mil habitantes, a segunda, quase 8 milhões. Londres é a capital do mundo, talvez mais cosmopolita que Nova York, enquanto Dublin é uma cidade pequena, com todas as vantagens e desvantagens que isso pode ter.
Mas se pensarmos com outros critérios, ficamos com algumas dúvidas em relação à superioridade de Londres. Um dos meus favoritos é o literário. É difícil comparar elementos tão qualitativos, tão subjetivos, tão pessoais. Lembro uma vez de o diretor Jorge Furtado chamar um festival de cinema de competição entre elefantes e geladeiras - o que é melhor? Cada um tem uma opinião diversa. Mas, se pegarmos um critério técnico, por assim dizer, algo que se pode comparar, como o prêmio Nobel de literatura, é possível mostrar que a Irlanda pode fazer frente à Inglaterra.
A lista de escritores que tinham cidadania britânica e ganharam o prêmio é extensa, tem dez nomes - enquanto os irlandeses têm "apenas" quatro láureas. Mas comparemos os nomes. Os britânicos receberam o prêmio primeiro com Kipling. Apesar de grande defensor das ideias do império britânico, inclusive tendo sofrido por isso, Rudyard Kipling nasceu na Índia, na então Bombaim. Sua primeira língua, inclusive, foi o hindi. Mesmo que seja apenas um cidadão britânico com tudo o que nós associamos a ele, não podemos esquecer que ele é filho de uma política expansionista da Inglaterra - que é onde eu quero chegar, daqui a pouco.
Em seguida, vem Galsworthy, cuja principal obra é a saga Forsyte - não muito conhecida do outro lado do Atlântico. Depois, é a vez de T.S. Eliot, americano de nascimento que assumiu a cidadania britânica - que também explica muita coisa. Após, vem Bertrand Russel, grande filósofo e inglês até o último ancestral, que fez um trabalho monumental escrevendo "Uma história da filosofia ocidental" - mas nenhum trabalho literário ficcional. Em seguida é a vez de Winston Churchill, e eu fico pensando se o prêmio foi literário ou político. De qualquer forma, Churchill também escreveu um trabalho gigantesco sobre a História do povo inglês - e, novamente, nenhum trabalho literário ficcional.
O próximo da lista é Elias Canetti, um búlgaro que escrevia em alemão, e eu me pergunto se ele deveria entrar nessa lista. O seguinte era inglês e bastante literário-ficcional, para compensar: William Golding. Depois vem V. S. Naipaul, e lembramos novamente do império colonial, de Trinidad Tobago e da Índia. Harold Pinter é o seguinte. Além de inglês, londrino, de Hackney. Mas com ancestrais judeus. A lista se encerra com Doris Lessing que, adivinhem, nasceu na então Pérsia, e viveu boa parte da vida no Zimbábue.
Já a lista dos irlandeses quase dispensa apresentações: W. B. Yeats, G. B. Shaw, Beckett e Seamus Heaney - talvez o único menos conhecido da lista.
O que isso prova? Nada, mas podemos especular algumas coisas. A Inglaterra conseguiu tanta divulgação por conta do seu poderia bélico, da sua expansão econômica, do seu grande vício em colonizar e exportar o seu ponto-de-vista para outros. A Irlanda, por sua vez, sofreu com esse expansionismo britânico - tanto é que só conseguiu sua independência em 1921 - e hoje é, nitidamente, um país na periferia do capitalismo - para citar uma expressão conhecida por nós brasileiros.
Os ingleses se aproveitaram de sua força dominadora e sugaram talentos de todos os cantos por onde passaram, Índia, Caribe, Oriente Médio, África. Ou se impuseram, se fizeram importantes, apenas por historiar o mundo [ocidental] ou eles próprios. Ou foram tão imponentes que serviram de chamariz para povos do mundo inteiro.
Mesmo os irlandeses tinham dificuldades de viver na sua ilha, consideradas por alguns provincial. Beckett nega até a língua inglesa e escreve basicamente em francês [fazendo ele próprio a tradução para o inglês]. Shaw vive durante boa parte da sua vida em Londres.
É outro irlandês, porém, que escreve, talvez, a melhor definição sobre a relação entre os dois povos. James Joyce, cujo "Ulysses" é considerado por muitos [principalmente os norte-americanos] o melhor livro escrito em língua inglesa do século XX, fala, via seu possível alter ego Stephen Dedalus, logo no início da sua obra monumental :
"--It is a symbol of Irish art. The cracked looking-glass of a servant ".
Acho que resume tudo.
ps. Sobre Irlanda, Irlanda x Inglaterra e Joyce, leia também:
- "Retrato de Dublin quando Bloomsday "
- "Dublinenses "
- Irlandeses e eleição em Londres
- "'Once': uma vez é impossível "
Mas se pensarmos com outros critérios, ficamos com algumas dúvidas em relação à superioridade de Londres. Um dos meus favoritos é o literário. É difícil comparar elementos tão qualitativos, tão subjetivos, tão pessoais. Lembro uma vez de o diretor Jorge Furtado chamar um festival de cinema de competição entre elefantes e geladeiras - o que é melhor? Cada um tem uma opinião diversa. Mas, se pegarmos um critério técnico, por assim dizer, algo que se pode comparar, como o prêmio Nobel de literatura, é possível mostrar que a Irlanda pode fazer frente à Inglaterra.
A lista de escritores que tinham cidadania britânica e ganharam o prêmio é extensa, tem dez nomes - enquanto os irlandeses têm "apenas" quatro láureas. Mas comparemos os nomes. Os britânicos receberam o prêmio primeiro com Kipling. Apesar de grande defensor das ideias do império britânico, inclusive tendo sofrido por isso, Rudyard Kipling nasceu na Índia, na então Bombaim. Sua primeira língua, inclusive, foi o hindi. Mesmo que seja apenas um cidadão britânico com tudo o que nós associamos a ele, não podemos esquecer que ele é filho de uma política expansionista da Inglaterra - que é onde eu quero chegar, daqui a pouco.
Em seguida, vem Galsworthy, cuja principal obra é a saga Forsyte - não muito conhecida do outro lado do Atlântico. Depois, é a vez de T.S. Eliot, americano de nascimento que assumiu a cidadania britânica - que também explica muita coisa. Após, vem Bertrand Russel, grande filósofo e inglês até o último ancestral, que fez um trabalho monumental escrevendo "Uma história da filosofia ocidental" - mas nenhum trabalho literário ficcional. Em seguida é a vez de Winston Churchill, e eu fico pensando se o prêmio foi literário ou político. De qualquer forma, Churchill também escreveu um trabalho gigantesco sobre a História do povo inglês - e, novamente, nenhum trabalho literário ficcional.
O próximo da lista é Elias Canetti, um búlgaro que escrevia em alemão, e eu me pergunto se ele deveria entrar nessa lista. O seguinte era inglês e bastante literário-ficcional, para compensar: William Golding. Depois vem V. S. Naipaul, e lembramos novamente do império colonial, de Trinidad Tobago e da Índia. Harold Pinter é o seguinte. Além de inglês, londrino, de Hackney. Mas com ancestrais judeus. A lista se encerra com Doris Lessing que, adivinhem, nasceu na então Pérsia, e viveu boa parte da vida no Zimbábue.
Já a lista dos irlandeses quase dispensa apresentações: W. B. Yeats, G. B. Shaw, Beckett e Seamus Heaney - talvez o único menos conhecido da lista.
O que isso prova? Nada, mas podemos especular algumas coisas. A Inglaterra conseguiu tanta divulgação por conta do seu poderia bélico, da sua expansão econômica, do seu grande vício em colonizar e exportar o seu ponto-de-vista para outros. A Irlanda, por sua vez, sofreu com esse expansionismo britânico - tanto é que só conseguiu sua independência em 1921 - e hoje é, nitidamente, um país na periferia do capitalismo - para citar uma expressão conhecida por nós brasileiros.
Os ingleses se aproveitaram de sua força dominadora e sugaram talentos de todos os cantos por onde passaram, Índia, Caribe, Oriente Médio, África. Ou se impuseram, se fizeram importantes, apenas por historiar o mundo [ocidental] ou eles próprios. Ou foram tão imponentes que serviram de chamariz para povos do mundo inteiro.
Mesmo os irlandeses tinham dificuldades de viver na sua ilha, consideradas por alguns provincial. Beckett nega até a língua inglesa e escreve basicamente em francês [fazendo ele próprio a tradução para o inglês]. Shaw vive durante boa parte da sua vida em Londres.
É outro irlandês, porém, que escreve, talvez, a melhor definição sobre a relação entre os dois povos. James Joyce, cujo "Ulysses" é considerado por muitos [principalmente os norte-americanos] o melhor livro escrito em língua inglesa do século XX, fala, via seu possível alter ego Stephen Dedalus, logo no início da sua obra monumental :
"--It is a symbol of Irish art. The cracked looking-glass of a servant ".
Acho que resume tudo.
ps. Sobre Irlanda, Irlanda x Inglaterra e Joyce, leia também:
- "Retrato de Dublin quando Bloomsday "
- "Dublinenses "
- Irlandeses e eleição em Londres
- "'Once': uma vez é impossível "
quarta-feira, 13 de junho de 2012
segunda-feira, 11 de junho de 2012
Jorge Amado e invejado
A
presidente da ABL, Ana Maria Machado, defendeu em evento na última
sexta-feira (8) da British Library sobre Jorge Amado, leia reportagem publicada no “Prosa Online”, que a nossa literatura tem dois
exemplos fundamentais de triângulos amoroso: “Dom Casmurro” e
“Dona Flor e seus dois maridos”.
“O
primeiro tem suspeitas, sofrimento e agonia, numa relação que faz
homenagem a 'Otelo', de Shakespeare, com os papeis de Otelo,
Desdemona e Iago sendo 'interpretados' por Bentinho, Capitu e
Escobar, demonstrando que esse caso só pode ser resolvido com um
tragédia; o segundo livro é calmo, feliz, estável, levantando
questões sobre a monogamia e sobre o público e o privado, tudo numa
linguagem falada pelo povo”, discursou Ana Maria para a plateia de
maioria brasileira, mas com a minoria britânica curiosa.
A
presidente da ABL falou ainda sobre como “Gabriela, cravo e canela”
foi importante para mostrar um ponto-de-vista feminino em que a
mulher conhece seu próprio corpo e desejo e escolhe se quer ou não
ter marido, além de como Jorge Amado sofreu por ser comunista e
popular.
Após a
sua palestra, em que participou de três mesas, ela falou com
exclusividade sobre os motivos pelo qual Jorge Amado é mal visto por
parte das universidades brasileiras, que repete um conceito sem revisitar a obra do escritor: “Eu quero que eles o leiam. Se depois achar que é um horror, que achem”. Confira os trechos:
Preconceito
do 'Sul':
“As
universidades do 'Sul' reagiram a certas frouxidões de estilo,
principalmente pelo fato de que os modernistas estavam com
dificuldades de chegar ao público, com o falar brasileiro, que o
Jorge estava fazendo na prática. E não era só o Jorge, o Jorge e o
Érico Veríssimo – [a reação] é em cima dos dois, de uma
maneira muito forte. Eles compacturam na proposta e sofreram o mesmo
destino.
Portugal
“Em
seguida, o Jorge caiu em desgraça nos meios lusófonos. Porque ele
era comunista e o Salazar estava no governo militar, porque amigos do
governo português começaram a se queixar da atitude antiportuguesa
dele e em seguida porque ele foi logo publicado em Paris e foi a
primeira vez na História que um livro veio escrito 'traduzido do
brasileiro'. Isso jogou toda a universidade e os meios institucionais
contra ele. Isso deixou uma má-vontade muito grande.
História
repetida
“Um
dos principais críticos do país nessa ocasião era o Álvaro Lins,
que escrevia no 'Correio da Manhã'. Ele foi embaixador em Portugal e
era amigo de setores oficiais da cultura portuguesa. E ele escreveu
muito forte contra Jorge na ocasião. Alguns anos depois, ele reuniu
esses artigos em livros e teve o cuidado de atualizar as impressões
da hora sobre outros autores, mas não atualizou sobre Jorge. Então
ficou como uma obra de referência que o aluno, que está estudando
na faculdade, tem acesso e repete. Então temos professores
respeitados que escreveram obras de referência depois de Álvaro
Lins, que não se deram ao trabalho de reler o Jorge nem fazer uma
revisão. Repete que é superficial, cheio de clichês. Ele vai sendo
desprezado porque um copia do outro. Isso está mudando ultimamente.”
“Eu quero que eles leiam. Se depois achar que é um horror, que achem”
Ostracismo
Tem sempre
uma temporada de ostracismo, de dez 15 anos, após a morte do
escritor, porque hoje o escritor precisa de entrevista para divulgar
o seu livro.
Sem
contexto literário
Esse
período coincidiu com um momento que a moda dos estudos literários
nas universidades americanas, que está chegando aqui. Primeiro houve
a moda do politicamente correto. E depois, antes de ela acabar, o que
acabou foram os estudos literários. Muitas fecharam cadeiras e se
passou para Cultural Studies ou post-colonial studies. Se aborda um
autor dentro de um contexto puramente histórico mas tirando o
contexto literário – e muitas vezes sem ler o autor. Se seleciona
trechos e aqueles trechos vão provar o que eles estão falando. E,
assim, para um contador de história, que é o Jorge, que fisga o
leitor, o leitor não chega a ser fisgado.”
Contador
de histórias
“Em
torno dos anos 1970, e eu fui formada nisso, quando as universidades
foram formadas pela primazia do texto literário, pela análise
estruturalista, então toda a abordagem passou a ser em cima de algo
muito sofisticado. A proposta do Jorge não é sofisticada. Ele não
tem meandros intertextuais como Clarice Lispector, como Sérgio
Sant'Anna. A Clarice foi descoberta pelos feministas e
estruturalistas franceses como exemplo máximo do tipo de texto bom
de abordar. E o Jorge é o anti-isso. Ele tem uma primazia do enredo,
não da intertextualidade. A universidade se desinteressou dele. O
pacto que ele estabelece com o leitor não é o de ficar procurando
entrelinhas, o pacto é: siga a minha história e abandone se for
capaz. E ninguém é.”
Assinar:
Postagens (Atom)