terça-feira, 8 de abril de 2014

E o tempo enquanto História tiver de todo desaparecido



Esse texto, segundo li, está dentro do livro "Introdução à metafísica", de Heidegger, aula proferida em 1935, e publicado só na década de 1950, quando da saída de uma nova versão de "Ser e tempo" [curioso que em algumas edições em inglês, a tradução é "Existence and time"]. A versão para o inglês é somewhat diferente. Mas a intenção é basicamente a mesma. Dá um confere:
“When the farthest corner of the globe has been conquered technologically and can be exploited economically; when any incident you like, in any place you like, at any time you like, becomes accessible as fast as you like; when you can simultaneously “experience” an assassination attempt against a king in France and a symphony concert in Tokyo; when time is nothing but speed, instantaneity, and simultaneity, and time as history has vanished from all Dasein of all peoples; when a boxer counts as the great man of a people; when the tallies of millions at mass meetings are a triumph; then, yes then, there still looms like a specter over all this uproar the question: what for?—where to?—and what then? The spiritual decline of the earth has progressed so far that peoples are in danger of losing their last spiritual strength, the strength that makes it possible even to see the decline [which is meant in relation to the fate of "Being"] and to appraise it as such. This simple observation has nothing to do with cultural pessimism—nor with any optimism either, of course; for the darkening of the world, the flight of the gods, the destruction of the earth, the reduction of human beings to a mass, the hatred and mistrust of everything creative and free has already reached such proportions throughout the whole earth that such childish categories as pessimism and optimism have long become laughable.”
Uma outra versão em português, ligeiramente diferente e um pouco maior, está aqui. Todas as essas informações eu tirei daqui

segunda-feira, 7 de abril de 2014

Prólogo, 'desironia'

Qual é a vantagem de se escrever mal? Poder escrever o que quiser, sem se importar com os eventuais e exigentes leitores. Aproveito essa minha sorte para recomeçar a contar uma ficção, que foi iniciada há quase dois anos, ou muito antes disso, porque eu preciso terminá-la. Esse trecho abaixo é o Prólogo. Para ler outros trechos, clique aqui.

***

Como fazer com que uma culpa suma de dentro da gente? Dividindo ela em pequenos pedaços? Distribuindo a quem quiser gracejar toda a minha desgraça? Todo o resultado de uma escolha errada – errada nem chega perto de alcançar o que aconteceu verdadeiramente? Se eu ao menos pudesse voltar no tempo, se pudesse consertar, se pudesse mudar o que eu disse, trocar os sentidos, inverter as ordens... eu talvez ainda tivesse culpa, mas não tanta culpa. Se eu pudesse voltar no tempo e ficar quieto! Se não tivesse falado nada... eu... eu não teria culpa. Eu não estaria aqui para contar essa história. Não haveria história.

O deus do tempo me colocou dentro de um círculo fechado, aprisionado para sempre em um globo da morte. Eu ando em volta de mim mesmo, vivendo tudo, como sempre foi, sem conseguir parar essa engrenagem, que não me deixa respirar. Eu existo de maneira igual ao meu passado que não passa e se faz presente. Eu me prosto, meus dentes rangem. Não consigo me livrar.

Como um só acontecimento pode marcar tão profundamente e para sempre uma vida? Como um instante, que poderia ser tão fortuito, vai se desenrolando, sem que se perceba, rumo a uma tragédia? Por que eu agi num moto contínuo, sem parar para meditar sobre o assunto, sem duvidar o suficiente de mim mesmo? Por que, então, e só então, eu quis acreditar em algo? Não era inevitável? Em algum momento eu poderia ter caído fora? Em que momento, além do inicial sim ou não, que admite a possibilidade dos dados serem arremessados para o alto, eu poderia ter interrompido a descida da pedra que empurrava morro acima? Eu mirei lá no alto, roubei o fogo dos deuses, e sofro fisicamente suas consequências.

Eu carrego minha história nas costas. Minha coluna envergou e está para quebrar. Como salvar a minha alma? Será que um dia eu vou voltar a dormir? Tomo remédios como se fossem balas açucaradas, sem efeito. Será que um dia vou parar de escutar os gritos, meus próprios gritos, e o grito inaudito do mundo? Eu deveria ter gritado até perder a voz. Quero estampar esses gritos, torná-los sólidos, palpáveis. Afogar seu som em papel sem celulose. Dar à luz, tirar de dentro de mim. Entregar o fogo aos homens para que eles me queimem em praça pública.

Não adiantou falar. Frequento o divã há já duas décadas. Mudei de psicanalista para terapeuta experimental. Esse exercício é a mais nova tentativa, sugerida pela mais recente, que se intitula esquizopsicóloga, de ordenar esse meu passado, torná-lo algo com um pouco mais de sentido. Colocar esses eventos que pipocam como fungos no meu inconsciente dentro de uma cronologia. Olhar para as cenas mais duras e perceber que fechar os olhos não vai fazer com elas sumam. Ao contrário. Continuam acontecendo na escuridão.


Essa é a história de uma verdadeira mentira.

domingo, 6 de abril de 2014

'Serenidade', para Heidegger

Podemos dizer "sim" para o inevitável uso dos objetos técnicos e também dizer "não", impedindo-os de reivindicar exclusividade sobre nós, com o que distorceriam, confundiriam e, finamente, desertificariam nosso ser. 
Mas se dissermos igualmente "sim" e "não" para os objetos técnicos, será que a nossa relação com o mundo técnico não se tornará ambivalente e incerta? Ao contrário. Nossa relação com o mundo técnico se tornará maravilhosamente simples e calma. Deixaremos os objetos técnicos entrar em nosso mundo diário e, ao mesmo tempo, os deixaremos fora, isto é, os deixaremos entregues a si mesmos como coisas que não são absolutas, mas que dependem de algo superior. Eu gostaria de chamar essa atitude de um simultâneo Sim e Não para com o mundo técnico através de uma velha palavra: serenidade para com as coisas. Neste comportamento não mais vemos as coisas de um modo meramente técnico. Atingimos uma visão lúcida e percebemos que a produção e o uso de máquinas demanda de nós uma outra relação com as coisas, relação que não é desprovida de sentido.
[...]
A atitude, a força pela qual podemos nos manter abertos para o mistério oculto do mundo técnico, denomino-a: abertura para o mistério. Serenidade para com as coisas e abertura para o mistério pertencem-se mutuamente. Elas nos garantem a possibilidade de habitarmos o mundo de um modo completamente diferente. Elas nos prometem um novo solo, um novo terreno, sobre o qual podermos permanecer e perdurar no mundo da técnica sem sermos colocados em perigo por ele.
[...]
Nessa era atômica, que ainda está em seu início, um perigo bem maior ameaça – precisamente quando o perigo de uma terceira guerra mundial for removido. Uma afirmação paradoxal. Paradoxal, mas apenas enquanto não meditarmos sobre ela. Em que sentido é a afirmação feita agora válida? Ela é válida no sentido de que a revolução que se inicia na era atômica poderia de tal modo nos cativar, enfeitiçar, impressionar e seduzir o homem, que o pensamento calculativo poderia chegar a ser aceito e praticado como o único modo de pensamento.
[...]
Mas – a serenidade para com as coisas e a abertura para o mistério nunca acontecem por si mesmos. Eles não acontecem acidentalmente. Ambos florescem unicamente através de um pensamento persistente e corajoso.
Este discurso de Heidegger, proferido em 1955 na comemoração dos 175 anos de nascimento do compositor alemão Conradin Kreutzer, é uma pequena obra-prima. Curto e de fácil acesso, dá para sacar bem alguns temas do seu Martin, como a questão da técnica e a do pensamento, e mostrar que precisamos guiar nossas próprias vidas, na medida do possível. O texto foi apelidado de "Serenidade" - nome, no mínimo, curioso - e pode ser lido, numa versão um pouco diferente da que eu li, aqui.

Liberdade limitada

Rachel Sheherazade
Qual é o limite da liberdade? Fiquei pensando sobre isso quando soube do afastamento da apresentadora Rachel Sheherazade do SBT. Parece que não é oficial, e, se acreditarmos nessa versão dos fatos, o ato foi uma resposta à pressão de grupos ligados ao governo, que ficaram muito incomodados com as constantes declarações da apresentadora; declarações que lhe renderam o cognome "Rachel Cheira-a-nazi". Volto à questão: Qual é o limite da liberdade que podemos suportar?

Bem, a resposta óbvia é: a lei. Ou seja, enquanto estivermos dentro da lei podemos fazer qualquer coisa. Mas, e novamente, não é o suficiente. A própria lei é interpretativa - e assim deve ser. Se seguirmos a informação da notícia citada acima, haveria uma intenção de apresentar queixa contra a apresentadora, alegando que ela teria feito uma apologia ao crime, o que é contra a lei, ao elogiar o grupo que prendeu o menino negro no poste no Flamengo. Portanto, ela teria cometido um crime, logo não poderia mais estar no ar. Mas quem vai dizer que isso é apologia ao crime é um juiz, ou seja, não é algo matemático, infalível. É sujeito a interpretações, preconceitos, juízos, erros. O juiz é humano, felizmente.

Ouvi dizer que a retirada dela do ar seria um ato de censura. O governo não poderia se meter na liberdade que a TV teria de transmitir o que quisesse. Seguindo esse raciocínio, as TVs poderiam exibir o que quisessem, na hora que quisessem. A cena de estupro de "Irreversível" no café-da-manhã, por exemplo. Caberia ao indivíduo, de posse de suas faculdades mentais, decidir se quer ou não ver tal filme, e a hora que ele quer ver. Em caso de crianças, essa autorização caberia aos pais, ou tutores.

A segunda afirmação parece a mais enobrecedora: parece que dá uma dignidade ao ser humano, a ponto de ele ser livre a ponto de fazer o que quiser. Lembra, por exemplo, o argumento a favor do casamento gay: as pessoas fazem o que quiserem com os seus próprios corpos, ninguém tem nada a ver com isso. Querer regular o comportamento privado dos indivíduos é apenas um dos traços do moralismo vigente.

Por que, então, não dá certo? Bem, porque, como diz lá dona Hannah Arendt em "A condição humana", não somos o Homem, mas os homens. Para algumas pessoas, o simples pensamento de um homem transar com outro homem é uma agressão. Existir isso no mundo, uma afronta. Essa pessoa, de posse de sua liberdade de ação, se acha no direito de vir a público reclamar da liberdade de outras pessoas em usarem suas liberdades.

Pode-se argumentar: o sujeito tem o direito de vir a público reclamar das liberdades privadas dos outros. OK. Mas e se ele não apenas reclamar, e se ele quiser agredir fisicamente casais gays? Ele não teria direito? Já escuto: não, isso não. Mas e quando se usa palavras muito duras, isso não seria também uma forma de agressão? Quem consegue regular qual é o limite da agressão das palavras? Palavras podem ser usadas, punhos, não? E outras agressões? Há limite para isso?

Suspeito que as liberdades ilimitadas sejam conflitantes.

sábado, 5 de abril de 2014

Arcade Fire in Rio

Não foi catártico. Não foi de chorar. Mas não por culpa dos nem tão meninos nem tão meninas do Arcade Fire. Mas as circunstâncias foram muito diferentes das de quase dez anos atrás. De qualquer forma, você sabe que foi um grande show. E o set list aí debaixo não me deixa mentir.


Arcade Fire in Rio, 4/4/14 by ronaldo pelli on Grooveshark