terça-feira, 29 de dezembro de 2015

O Clube da encruza em 2015

Um dos anos mais complicados na política nacional [na inter também] talvez merecesse um texto que falasse sobre os desmandos de Brasília, Laranjeiras ou do Piranhão. Mas não me sentiria bem em invadir o terreno de colegas muito mais capacitados, nem gostaria de, agora, repisar assuntos considerados de difícil digestão. Não podemos baixar a guarda nunca, mas merecemos um refresco para recarregar as baterias e mirar o 2016 de frente.

Talvez o melhor seja falar sobre outro assunto que tenha ficado à sombra de todos os infortúnios e, quem-sabe?, tenha florescido exatamente por conta dessas desgraceiras todas - mais ou menos como aconteceu no período da ditadura civil-militar. Não é uma mera percepção pessoal, mas um assunto que foi conversado em vários lugares - das redes sociais às redações de jornais: como esse ano foi extremamente produtivo para a música brasileira. O pessoal do Tramp, por exemplo, conseguiu eleger 150 álbuns brasileiros no ano. Não é pouca coisa. E não estamos falando apenas de gente não tão conhecida, mas nomes que variam entre o medalhão (Gal, Djavan, Lenine etc.) até outros que estão crescendo e aparecendo entre aqueles que fogem do senso comum (Siba, Letuce, Tulipa...).

Pode-se fazer uma lista como eles fizeram, ou tentar resumir essa nova onda de maneira metonímica, elegendo algum grupo que consiga sintetizar o espírito desses tempos tão multifacetados. Minha sugestão para tentar entender esse ano de 2015, por um lado que não seja o mar de lama (literal e literário) que estamos metidos, é o Clube da encruza. São os músicos que, entre outros projetos, criaram encontros inesquecíveis como o Metá Metá e o Passo Torto; e que participaram, só neste ano, do disco da Elza Soares, produzindo talvez o grande álbum do ano, e o de Rodrigo Campos, talvez o outro grande álbum do ano. O pessoal que foi apelidado de povo do "samba sujo de São Paulo": além do Rodrigo, Kiko Dinucci, Marcelo Cabral, Thiago França, Romulo Fróes, e, claro, Juçara Marçal.

Nesse ano da desgraça de 2015, o Clube da encruza [nome que eles se deram para uma apresentação na sala Funarte - grande palco carioca - em agosto] lançou - juntos ou separados - ao menos três discos memoráveis. Além dos dois supracitados ("A mulher do fim do mundo", da Elza, e "Conversas com Toshiro", do Rodrigo Campos), podemos colocar no mesmo patamar o "Thiago França", isso, o nome do saxofonista, do Passo Torto, que contou com a participação de Ná Ozzetti (que, por sua vez, participou do disco de Rodrigo Campos). Mas não ficam só nisso.

Mais experimental, Juçara Marçal participou de dois projetos com muito noise e pitadas generosas de influência das culturas de tradição africana: "Anganga", com Cadu Tenório, de influência mais eletrônica; e "Abismu", com o parceiro de sempre Kiko Dinucci, e Thomas Harres, mais free jazz, mais rock, mais improviso.

(Um parêntese rápido: Harres não é um desconhecido; ele é baterista de Ava Rocha, que também produziu um disco incrível neste ano, o "Ava Patrya Yndia Yracema", Negro Léo (cujo último disco - de 2015 - "Niños heroes", chegou a ser elogiado até pelo NYT, para não dizer que estamos sendo benevolentes com a produção nacional) e Abayomi. As boas influências tendem a se encontrar, não?)

Se não bastasse, Thiago França, aos 30 minutos do segundo tempo desse 2015, lançou ainda um disco com seus solos de saxes e percussão para fazer versões de músicas consagradas do candomblé ou de outros estilos com forte influências africanas, o "Sambanzo, coisas invisíveis". E já em dezembro, lançou ainda outro projeto, "Boomshot", agora com Kiko, o rapper Síntese e o DJ Akilez, com músicas mais ligadas ao hip-hop. É capaz de até o dia 31, eles lançarem outras coisas.

O que todos esses discos têm em comum? Em uma primeira audição, pouca coisa, além do fato de eles compartilharem os mesmos músicos, em várias versões. Mas, ao se dar tempo ao tempo - coisa tão incomum nesse 2015 - pode-se ver que, além de beberem numa fonte que sai lá da África [aliás, outro rapper que também provou dessa água neste ano foi Emicida, com o  "Sobre crianças, quadris, pesadelos e lições de casa"], misturado com a sujeira, o barulho, o noise bem comum da geração novaiorquina dos anos 1990, há uma tentativa de experimentar. Uma urgência de colocar logo no ar, de saber que uma obra nunca está verdadeiramente pronta se nós não a lançarmos. Uma tentativa de registrar as subidas e as descidas das vontades na hora que elas se apresentam. Uma intuição de que o esboço é a melhor forma de se expressar nos dias de hoje.

Isso não quer dizer que os discos são toscos, amadores, feitos nas coxas. O tamanho das produções de discos como o da Elza e do Rodrigo Campos não permitiriam dizer isso. São complexos, grandiosos, cheios de arranjos em que podemos ir descobrindo pequenas pérolas escondidas. Mas eles sabem que é necessário também mergulhar em terrenos pouco confiáveis para se oxigenar. Não é possível rodar em volta do lugar já conquistado para todo o sempre, porque aí se perde o viço. E as experimentações são os lugares perfeitos para entender a dinâmica entre erros e acertos. Perceber onde, como, quem estabelece a fronteira entre esses dois campos. Enxergar os lados todos do poliedro arrendondado em que vivemos e registrar essa história.

O Clube da encruza talvez seja a metonímia desse 2015 porque conseguiu acompanhar a quantidade gigantesca de informação sobre a qual a atualidade nos soterra, processando-a, transformando-a em algo mais perene que o simples clicar em um link da timeline. Conseguiu surfar nessa tera-onda, e, concomitantemente, interromper o fluxo de tempo, para criar um outro... tempo para se viver. Mostraram que não existe mais - se é que um dia existiu - um grupo fechado, hermético, desconectado, sem contato com outras dimensões. Que as influências podem vir de todas as partes do mundo, ao mesmo tempo e agora. Que é possível misturar punk com axé, que é possível encontrar na sujeira de uma microfonia uma doce boniteza harmônica. Que as regras são sempre estabelecidas a posteriori e que é preciso viver primeiro para conhecer quais são elas, mesmo que isso pareça mais doloroso.

quarta-feira, 25 de novembro de 2015

Uma interpretação para 'O homem desvairado', de Nietzsche

[Se não conhece a passagem do filósofo alemão, abra aqui em outra janela para acompanhar - e procure a tradução no meio do texto todo - ou aqui, numa outra tradução.]

O homem desvairado, de lanterna em punho, procura deus e, ante a percepção de que ele tinha desaparecido, acusa os homens de o terem assassinado. Os homens no meio da praça pública e ele, o homem desvairado, teriam matado deus. Os homens da praça e ele, eles, nós. Os homens da praça: praça – o símbolo do centro da cidade, da urbe, da aglomeração, o lugar para onde as pessoas vão saber o que acontece, quais são as novidades. “Markt”, a palavra no original alemão, que quer dizer ainda mercado, feira – lugares de comércio, das trocas, da compra e venda, do mercador, da burguesia, do mundo calculado pela matemática, dos valores, dos preços, do dinheiro. “Der tolle Mensch”: também traduzido como “o louco”, talvez uma relação com o bobo da corte, que era autorizado pelo rei a falar as “verdades” para a corte, sem por isso correr risco de vida. Provavelmente uma antecipação do Zaratustra, do personagem marginalizado, que Nietzsche gostava tanto de usar, que também dizia “verdades”, mas que raramente merecia a credibilidade dos interlocutores, jamais daqueles considerados comuns, seguidores do rebanho. O louco, o homem desvairado, com o candeeiro em punho, procurando não um homem, como Diógenes de Sínope que também andava no meio do povo segurando uma mesma lanterna mesmo durante o dia, mas deus. Os homens da praça, do mercado, caçoam do louco e ele lhes responde a frase: deus está morto. Nós o matamos. Em seguida, parece tomar consciência do alcance do que acabara de falar e se assusta: como foi possível? Como conseguimos? O desvairado, então, enumera metáforas para deus numa tentativa de captá-lo: é o mar, agora esvaziado; o horizonte, agora apagado; o sol, agora sem ligação com a terra. Em seguida, percebe a primeira reação ante a catástrofe que ele tinha percebido: sem o horizonte, sem o sol, para onde devemos ir? Após anos respeitando um caminho pré-determinado, Para que lado ir sem qualquer indicação? Não entraríamos em declínio sem um farol, sem um líder? Mas o que é exatamente declínio? Se não soubermos para onde devemos ir, o que é aclive e o que declive? Qual é a régua? Sem régua, o primeiro medo: estamos no vazio completo? Ficaremos parados à espera de morrermos nós também? Novamente se dá conta do tamanho da atitude, do momento que viviam: como sobreviver após esse ato? Como os homens, como nós conseguimos matá-lo? Como os homens tivemos força, altura, poder, para cometer o mais inacreditável dos atos? Por fim, sente que esse ato, apesar de todas as suas consequências problemáticas, também poderia ser, enfim, uma libertação. Ao olhar novamente para a sua, agora, plateia – os homens da praça, os homens comuns, os homens do rebanho – o homem desvairado percebe o óbvio. Tal ato até poderia ser uma libertação para os homens que haviam sofrido sob o manto dos autoproclamados intérpretes deste mesmo deus, mas tais homens da praça aparentemente não estão preparados para viver com essa pretensa liberdade completa. Esses homens da praça ainda não perceberam o que tinham feito, mas tinham feito. E nessa hora o homem desvairado se descola dos homens da praça por ter percebido as consequências do ato que praticaram, enquanto os demais apenas ficaram impressionados. Atordoado, o homem desvairado vai prestar homenagens ao deus morto em igrejas, como forma de demonstrar como eram anacrônicas esses templos em um tempo em que todos sabiam – mesmo que não admitissem para si – que deus estava morto.

terça-feira, 24 de novembro de 2015

A mesma Torre de Babel

Uma das formas de se interpretar a parábola da Torre de Babel é a dificuldade do entendimento mútuo, a incomunicabilidade intrínseca a essa estranha espécie que é a humana. Na curta passagem bíblica, lemos que os homens sobre a terra se uniram para construir o mais alto dos edifícios, com a intenção, interpretam alguns sábios, de se igualarem a Ele. Deus, não querendo muito ter competidores, resolveu descer do paraíso e zás!, trocou os idiomas falados pelos homens. Como eles não se entenderam mais, a construção foi abortada. Perdidos em linguagens diferentes, os homens se espalharam pelo mundo.

Num primeiro olhar, parece que a sociedade ocidental, aquela que exerce sua hegemonia em quase todos os cantos do mundo nos dias de hoje, conseguiu finalmente retornar a um estado pré-babélico: fala a mesmíssima língua. Todos os povos sobre a terra que participam do jogo sistemático econômico em atuação se expressam no mesmo idioma da eficiência, do lucro, da produtividade. Seja rico ou seja pobre, ou muito pelo contrário, o dinheiro sempre vem em primeiro lugar. Claro que essa linguagem vem travestida de uma outra roupagem. Todos professamos o mesmo discurso de liberdade, de independência, de defesa do comportamento do indivíduo: "Laissez faire, laissez passer", lembra? Está tudo conectado. Todos acordamos que temos direitos e deveres - mas nos esquecemos que alguns com mais direitos que deveres, e vice-versa.

Para as classes-médias globais-liberais é fácil ver essa conexão mundial. No cotidiano, procrastinamos na mesma rede social, bradamos contra os mesmos preconceitos, participamos das mesmas campanhas de conscientização. Em inglês, discutimos as mesmas músicas, reclamamos dos mesmos spoilers das mesmas séries, compramos os mesmos gadgets nas mesmas lojas. Nas férias, viajamos para os mesmos lugares, descobrimos os mesmos destinos, frequentamos os mesmos bares secretos. Nos fins de semana, cozinhamos as mesmas receitas, bebemos as mesmas cervejas artesanais, visitamos as casas de amigos com as mesmas decorações. Reclamamos das mesmas grandes corporações, optamos pelas mesmas ações solidárias, dormimos o mesmo sono dos justos. Riqueza é riqueza, em qualquer canto.

Para conseguir essa hegemonia homogênea, claro, não é assim tão indolor. Sempre há exploração e destruição da terra, da água, do ar, do subsolo, das matas, dos seres viventes. É um jogo que jogamos cotidianamente, tentando fechar os olhos para as suas consequências, nos agarrando na ideia de que temos uma dieta mais balanceada que a de monarcas do período feudal. Mas nos esquecemos que não dá para o planeta aguentar a globalização do padrão de consumo médio de um norte-americano. Não dá nem para ter o padrão de um carioca da Zona Sul.

Os mais pobres, periféricos, menos escolarizados, independentes do sistema, ou simplesmente mais tacanhos de espírito, todos, enfim, neófitos nesse livre circular de capitais sem fronteiras, são obrigados a participar dessa partida global, mesmo que não queiram. Vide os casos dos índios expulsos das suas aldeias para a construção das feias Belos Montes e congêneres que ganharam versões modernas dos espelhinhos, como geladeiras e caminhonetes. Estes são expulsos dos seus modos de viver e viram presas fáceis para as propagandas internacionalizantes, bancadas pela elite sem-fronteiras, que torna tudo a mesma receita de um bolo anódino, cheio de corante, açúcar refinado, farinha branca e gordura hidrogenada. Assim, aumenta(m)-se a venda de carros, o lucro dos bancos, o empreendedorismo "social", o gasto de energia, as obras faraônicas, a ingestão de carne, a construção de enormes condomínios, o desmatamento de florestas, a preocupação sócio-ambiental, as monoculturas de exportação, e, novamente, a exploração, a devastação, a destruição. Tudo parte do mesmo jogo.

Só que no meio da partida, quando nós, os liberais que usamos sacola retornável, nos enganávamos de que essa não era a sociedade perfeita, mas era o melhor que já tivemos - olhe a nossa ciência! olhe a nossa tecnologia! -, zás!, acontece novamente. Voltamos para a Torre de Babel. Descobrimos que o mito da linguagem única era isso: um mito. Pobres periféricos, classes-médias globais, elites sem-fronteiras, percebemo-nos todos no mesmo prédio, temos, em tese, a mesma intenção [nos mantermos aqui, não?] mas descobrimos que não falamos a mesma língua. Temos planos completamente diversos, às vezes antagônicos, para alcançar objetivos nem sempre muito claros para ninguém. Não nos entendemos sobre nada. Não temos um fundamento em comum, aparentemente. Nada que possa servir de corrimão.

Pois como explicar para alguém que não tem um bom transporte público perto de casa, que nunca foi servido por qualquer facilidade para exercer o seu direito constitucional de ir e vir, que ter um carro hoje em dia é contribuir para a destruição do planeta? Como defender para os donos de mineradoras, de empresas de petróleo, fábrica de automóveis, que eles estão acelerando o processo dessa mesma destruição? Como contar para alguém que tem como maior forma de socialização o churrasquinho do fim de semana que a criação de gado para o consumo de carne é uma das principais causas da falta d'água [noves fora a podre política dos políticos podres]? Como dialogar com latifundiários que destroem os aquíferos para plantar a soja que vai alimentar este mesmo gado de vários países ao redor do mundo? Como deixar claro que ninguém é a favor do aborto, ao contrário, mas, sim, a favor das mulheres decidirem o que fazer com os seus próprios corpos? Como mostrar para amigos liberais que reciclar o seu lixo não adianta quase nada num mundo em que há crimes ambientais como os praticados pela Samarco no Rio Doce? Como conversar com um indivíduo que acha que sua religião tem o direito de interferir nas decisões individuais de outras pessoas, como no caso de suas "preferências sexuais"? Como convencer a máquina pública moralista que a guerra às drogas é apenas uma forma de exterminar os pretos, pobres e favelados do mundo? Enfim, como aprender a falar a língua do outro?

Não dá mais para se espalhar pelo mundo, como aconteceu lá com o povo de Deus. Mas também não dá para ficar na mesma torre sem entender o que o outro quer dizer.

Uma certeza, ao menos, se tira disso tudo: A linguagem única, da eficiência, do lucro e da produtividade, não está funcionando.

sexta-feira, 20 de novembro de 2015

A trajetória do sol, por Nietzsche

HISTÓRIA DE UM ERRO

1.
O mundo verdadeiro passível de ser alcançado pelo sábio, pelo devoto, pelo virtuoso. - Ele vive no interior deste mundo, ele mesmo é este mundo.
(Forma mais antiga da ideia, relativamente inteligente, simples, convincente. Transcrição da frase: "eu, Platão, sou a verdade".)

2.
O mundo verdadeiro inatingível por agora, mas prometido ao sábio, ao devoto, ao virtuoso ("ao pecador que cumpre a sua penitência").
(Progresso da ideia: ela se torna mais sutil, mais insidiosa, mais inapreensível - ela torna-se mulher, torna-se cristã...)

3.
O mundo verdadeiro inatingível, indemonstrável, impassível de ser prometido, mas já enquanto pensado um consolo, um compromisso, um imperativo.
(No fundo, o velho sol, só que obscurecido pela névoa e pelo ceticismo; a ideia tornou-se sublime, esvaecida, nórdica, königsberguiana.)

4.
O mundo verdadeiro - inatingível? De qualquer modo, não atingido. E, enquanto não atingido, também desconhecido. Conseqüentemente tampouco consolador, redentor, obrigatório: Ao que é que algo de desconhecido poderia nos obrigar?...
(Manhã cinzenta. Primeiro bocejo da razão. O canto de galo do positivismo.)

5.
O "mundo verdadeiro" - uma ideia que já não serve mais para nada, que não obriga mesmo a mais nada - uma ideia que se tornou inútil, supérflua; conseqüentemente, uma ideia refutada: suprimamo-la!
(Dia claro; café da manhã; retorno do bom senso e da serenidade; rubor de vergonha de Platão; algazarra dos diabos de todos os espíritos livres.)

6.
Suprimimos o mundo verdadeiro: que mundo nos resta? O mundo aparente, talvez?... Mas não! Com o mundo verdadeiro suprimimos também o aparente!
(Meio-dia; instante da sombra mais curta; fim do erro mais longo; ponto culminante da humanidade; INCIPIT ZARATUSTRA*.)

Trecho de "O crepúsculo dos ídolos", de Nietzsche.

* "Começa Zaratustra".

domingo, 9 de agosto de 2015

A cabeça-durice de Dilma

Encontrei com Dilma Rousseff apenas uma vez na vida. Por isso não é possível chegar a qualquer conclusão sobre sua personalidade, nem mesmo seria prudente arriscar algum tipo de interpretação de sua psiquê ou fazer paralelos entre o que aconteceu aquele dia e o que acontece hoje em dia no país. Mas nem sempre somos assim tão prudentes.

Era um debate presidencial, no Projac, entre Lula e, suspeito, Alckmin. Como jornalista de generalidades, estava responsável por cobrir o lado do PT, para o caso de algo sair do planejado. Já que raramente alguma coisa realmente sai do planejado nesse tipo de evento, minha participação se resumiu a ser um observador privilegiado de algumas figuras importantes do cenário político nacional de então e até hoje - o que já diz algo sobre nosso cenário político -, um espectador curioso do debate para que pudesse, quiçá, anos depois - hoje - deixar algumas notas irresponsáveis sobre seus bastidores.

Apesar da proximidade com os principais caciques da política brasileira, infelizmente poucas coisas dignas de notas aconteceram. Lembro do atual prefeito do Rio, Eduardo Paes, então mero deputado, apoiando Alckmin [o mesmo Paes que depois de assumir o cargo de alcaide ia pedir bênção a Lula, como quem vai ao seu pai-de-santo ou ao seu padrinho da máfia, e que hoje chama o famigerado Eduardo Cunha de "meu presidente" - coisa que não se deve fazer nem de brincadeira] e ardilosamente gostando muito de aparecer. E lembro de uma cena envolvendo Dilma.

Dilma era então uma ministra em ascensão, ligada fortemente à moralidade, após todos os escândalos do primeiro governo Lula [lembrar do mensalão]. Era um perfil técnico. A gerentona. Quem tinha feito a Petrobras [logo a Petrobras!] crescer como uma empresa privada. Começava a se consolidar com um nome de confiança, inatingível, exatamente porque não era uma política profissional [lembrar que a primeira eleição para um cargo executivo que ela concorreu foi a de 2010]. Isso tudo há, apenas, dez anos. Como as coisas mudam...

Em um momento em que Alckmin deu uma resposta considerada pelo seus pares como boa, a bancada do PSDB fez um alvoroço. Um impaciente William Bonner chamou a atenção dos presentes dizendo que essa participação exagerada era contra as regras do debate, as quais todos tinham concordado em respeitar. Os tucanos se calaram. Foi a vez de Lula, então, falar. Quando ele terminou sua participação, uma resposta quase protocolar de tão banal, Dilma, inflamada, se levantou sozinha e começou a bater palmas empolgadamente, no que foi acompanhada quase que por inércia por dois ou três petistas [não lembro quem]. Bonner repetiu a sua repreensão padrão com ainda mais dureza e fez uma cara ríspida de "já não falei sobre isso?". Dilma se sentou em seguida, não sem deixar de reclamar em um tom alto o suficiente para que eu, que estava a uns dez metros de distância, escutasse sem ruídos: "mas se eles podem, a gente também pode!"

Muitas ideias aparecem com essa pequena anedota. Para a galera que é petistofóbico, a primeira coisa deve ser: "tá vendo como ela justifica suas ações? O passado a respalda. Logo ela é corrupta, claro!" Tal conclusão chega fácil porque ela agiu imitando o comportamento anterior, sem qualquer tipo de reflexão sobre o que seria certo ou errado, quase como uma criança de 5 anos que só elogia o desenho do amiguinho caso o amiguinho o tenha elogiado antes. A conclusão do petistofóbico é falha, porém, ao se restringir a atual presidenta porque ignora o fato óbvio: mesmo que sua atitude seja bastante infantil, não modificou o que existia. Em outras palavras: ela não inventou o hábito de quebrar as regras, apenas o imitou.

Prefiro uma outra interpretação, que, para mim, consegue mostrar melhor o caráter errático do atual governo. Uma possibilidade de entender a psicologia por trás de discursos violentos feitos pelo governo e o partido da presidenta que soam, às vezes, indecodificáveis para sujeitos menos bélicos [como eu]. Em vez de baixar a guarda para fazer uma mea culpa, expurgar o mal que contaminou áreas muito importantes da máquina, tentar reconstruir suas bases abrindo a guarda e procurar reatar as conexões com a militância histórica que sustentou seu partido na sua gênese, enfim, ser de esquerda, ela continua atacando, batendo, aumentando o tom de voz.

Dilma mostrou nessa pequena cena relatada que não leva desaforo para casa. Ela não se coloca numa posição de inferioridade e quase nunca pede desculpa. Ela se sentiu agredida pela atitude do adversário, do inimigo, e queria dar o troco. Achou que agir da mesma moeda era a única forma de se sentir vingada. Que o PSDB era um protegido e que se ela não fizesse nada ali, o seu partido, o partido que, na sua opinião, estava mudando o país, tinha sido roubado. E ela tinha que defender os seus, não importando como.
Exibiu-se como uma pessoa extremamente desconfiada, quase paranoica, talvez com mania de perseguição, que só sabe retribuir agressões do mesmo jeito. Apresentou um grau de insegurança assustador para a sua posição, e uma cabeça-durice que nos tira a esperança de que ela vai mudar o ritmo ou a direção das suas ações nos próximos anos. Vimos ali sua completa inabilidade política em lidar com ataques e como ela parece perdida quando está, cada vez mais, isolada. Ou melhor, ela se engana que sabe como agir nessas oportunidades: deve devolver no mesmo tom violento que é atacada.
ps. Isso tudo, claro, não é qualquer motivo para golpes, impeachment ou xingamentos de cunho simplesmente machistas direcionados à presidenta. Nem é, para mim, razão para qualquer pessoa participar do ato de 16 de agosto, agora. Viver em sociedade é aprender a viver com o diferente, o outro - desde que o outro não seja o Eduardo Cunha.